Thursday, October 09, 2014

Rosário Breve n.º 377 - in O RIBATEJO de 9 de Outubro de 2014 - www.oribatejo.pt

Quer tacho

Tenho um primo de sangue directo que é médico no Cartaxo há coisa de trinta & picos anos. É rapaz bonito e afável como uma manhã dos Junhos de antigamente. Foram-lhe ásperas as primícias da vida. Até fome passou. Tudo venceu, todavia. Até a morte de um filho pequenino. Já o não vejo há tempo de mais. Não é meu costume andar pelo Cartaxo. Não é meu costume andar pelo Cartaxo por causa de Vila Chã de Ourique.
Tenho medo de Vila Chã de Ourique por causa do “terrorismo” institucional-autárquico que por aquela sede de freguesia praticam. Espero bem que o doutor meu primo também por lá não ande muito. Não quero que eventualmente o acusem de andar violando o n.º 2 da Lei 75/2013, de 12 de Setembro.
A Ção & a oposiÇão são mulheres para o encalacrar com isso se ele lá for, mesmo que só para praticar a sua, dele, bondade clínica. Quando o Relvas andou mundo fora a esterilizar freguesias e a enxugar poços, esqueceu-se de apagar de vez a Vila Chã de Ourique, que tanta falta faz ao mundo como a fome em África & Arredores. Malvado Miguel, doutor de pechisbeques & quinquilharias.
Já o meu primo médico poderia passar e passear sem medo pelo concelho todo. E eu. E eu com ele. Dos meus projectos de vida mais benignos, um é ir com o meu rico primo assistir a um treino dos rapazes Caixeiros de Santarém ao recinto desportivo de Vila Chã de Ourique. Iríamos até talvez com o marido da Ção presidente, esse que foi tesoureiro de um executivo que já não há nem me/nos parece que venha a haver. Nessa minha insensata quimera, os apaniguados do senhor Paulo Varandas não dinamitam nada. As mulheres deles não usam burcas. Nem os rapazes do PSD local rezam cinco vezes por dia em posição genuflectida de catar pulgas ao chão.
Acontece que tenho uma solução milagrosa para a embrulhada de Vila Chã de Ourique. Faríamos assim: dava-se à Ção presidente e ao marido a Junta Boa; aos outros da oposiÇão, a Junta Assim-Assim, para lhe não chamarmos . (Esta minha proposta não é meramente boazinha: é cinco-estrelas.)
Com a Junta Boa, a Ção & o marido poderiam ir almoçar fora aos domingos, amando-se com ternura entre garfadas de cozido e terrinas de canja rica. Com a Junta Assim-Assim, o PSD local, o comunista residente e os paulovarandasistas fariam uma suecada valente, rodando os três pares que seis cabeças perfazem. E eu e o meu primo sorriríamos a todos, untados ambos de gozo o mais feliz e o mais sacro. Agora, assim como está é que não dá.
Em minha casa, a senhora a que pertenço também preside – mas (atenção!) acumula a tesouraria. Não é como em V. C. de O. Eu só respiro. Sou vogal consoante, por assim dizer em alfabético paradoxo. O meu primo doutor, não sei como faz. Como é médico encartado há tanto ano, ele lá saberá. Aqui a sós comigo mesmo, penso um dia destes visitá-lo. Não conheço ainda a senhora com quem ele contraiu segundas-núpcias. Espero, tão-só, que ela se não chame Conceição. Porquê?
Porque, nesse caso malfadado, eu teria de reformular a presente crónica toda, começando-a, para meu & Vosso mal, assim:
Tenho um primo de sangue directo que é tesoureiro no Cartaxo há coisa de trinta & picos anos etc..

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