Friday, May 19, 2017

GRAMÁTICA VADIA - Rosário Breve n.º 506 in O RIBATEJO de 18 de Maio de 2017 - www.oribatejo.pt





Gramática vadia



Circunstâncias minhas concatenam-se de quando em vez de modo tal, que me surpreendo vogando em, ou por, uma espécie de extratempo da lei da gravidade liberto. Não é fenómeno feio nem bonito – é só o que é: tropelias da serotonina na noz cerebral que trago enroscada no estojo do casco craniano.
Desta feita, achei-me em trânsito pedestre por ruas de uma Cidade de cuja existência eu não dispunha já de provas incontestáveis. Era de manhã ou de noite? Para melhor literatura, é preferível dizer que não sei. Era o que era: da jornada e do périplo, a própria cronologia mistificada pela autoridade da solidão que se me agarrava à roupa como um cheiro cego.
A vendedeira de tremoços & pevides estava já abancada ao lado dextro da velhíssima catedral onde dizem que fui baptizado, logo eu, filho que fui de pais ateus que, fazendo-me baptizar, cortavam ao regime quaisquer suspeições de heresia foice-e-martelo. Caixotes de livros em segunda-mão liam já também o chão do quiosque: voluminhos ingénuos que li no século último de um milénio que não volta. Além, era o estúdio fotográfico em cuja montra de há quarenta anos os donos expuseram, acreditai-me, a fotografia do cadáver do próprio filho, vítima de uma das primeiras doses mortais de heroína das primícias pós-25 de Abril. Fizeram-no como alerta pungentíssimo aos outros pais & mães da Cidade. Resultou pouquíssimo.
Vielas esconsas e húmidas como porões de caravelas aceitaram-me os passos. A fragrância a mijo de gato chegava a ser comovente, fazendo-me arder de lágrimas piscas os olhos pitosgas. Fantasmas prostibulares em forma de mulheres septuagenárias fumavam em assentamento no degrau de pedra das portas anãs de janêlo como nas fotografias do Gageiro. Uma frutaria salvava de cor & perfume o instante. Com um surdo e muito simples bater de asas, alcandorei-me à varanda do Rio, esse todo & mesmo que há oitenta mil anos os meus Irmãos nadaram, sem mazelas, sem medo e sem futuro, vestidos tão-só de uma nudez desprovida de pecado.
Dizem que naquele hotel dormiu uma noite o imperador do Japão. Ainda não confirmei a validade de tal asserção. É, de gloriosa arquitectura, o velho e formoso Astória, cujo A desenha e ensina em grande estilo, a bronze na parede, o número da porta: 21. Passei, como tudo passa.
Acre e capitosa, uma fumarada de sardinhas no carvão instaurava a neblina de Londres entre o Bragança e o Oslo, mais precisamente no largo que liga o Café Angola ao meu livro de 2008, uma estapafurdice paginada a que chamei Terminação do Anjo e que felizmente ninguém comprou e muito menos leu.
Por essas mediações, fui tomado pela incerteza. Salvei-me caçando o primeiro autocarro. Tive de comprar dois bilhetes: um para o coração, para a cabeça outro. A memória viajou de borla.
Desci na paragem do viaduto que gemina a fonte luminosa ao bairro cuja hierarquia onomástica tombou de marechal a general: Carmona para Norton de Matos. O corpo pediu-me cafeína e engaço prensado. Satisfi-lo a preceito. Rodando o cálice nos três dedos do lápis, eu já então me apercebera de apenas poder existir dentro da crónica. Não opus resistência a tal gramática.
Aqui estou. Não sei é onde. Muito menos quando.


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