Thursday, August 04, 2016

Rosário Breve nº 468 - in O RIBATEJO de 4 de Agosto de 2016 - www.oribatejo.pt



Um jantar românticochon 
ou 
Crónicóinc



1 Extravagância rara mas perdoável, a minha Senhora & eu fomos, por uma destas cálidas noites do corrente Estio, jantar fora. Andáramos meses amealhando moedas esquecidas. A hora boa era boamente ora. Lá fomos, carregadinhos das moedas.
Ampla, a esplanada era toda de távolas amarelas com réclame ao chá gelado da moda. Derredor, falava-se muito francês com sotaque de Alpiarça. Hordas gordas pastavam com afinco. Tudo entrava à base de azeitonas roídas de coentros alhados e rijinhas ao dente, queijinhos de saudades do da Serra, pâtés de sardinha moída e/ou de atum cirrótico. Atafulhadas de vaporosa legumagem, travessas-inoxes exclamavam ricas fumegações de cozido não-pobre: unha, costela, morcela, linguiça, orelha, farinheira, pesadelos tudo do maralhal islamita. Bêbedas de vinha-de-alhos, caçoilas de barro preto chanfanavam capitosamente o ar nasal. Nacos de bacalhau, espessos como dicionários do bom tempo pré-AO/90, rangiam fofuras ébrias de azeite. Garoupas & robalos decapitados rogavam tão-só, no que prontamente eram deferidos, que os imolassem sobre cama de arroz-de-espigos levado ao forno. Míseras delícias, enfim, desta vida de uma-noite-só-por-ano, que uma noite não são dias. Estar vivo era quanto bastava para ser um bocadito feliz sem remorso. Foi então que.

2 Foi então que se deu aquilo dos porcos. Estávamos todos tão bem da vida como parágrafos abertos e fechados em torno de um segredo bom. Mas então – os porcos. Passou-se que uma viatura de transporte de animais vivos estacionou à face da esplanada. O frete era de suínos-recos-javardos-grunhos-tós. Uma caminéte de porcos, pronto. E de pronto o ar se saturou do pungente perfume da merda mais viva, mais penetrante, mais perfuradora & menos tolerável da nossa vida. Nossa, de todos. Senhoras começaram a gasganetar a bola da mastigação. Criancinhas ficaram de olhos húmidos como estrelinhas do Natal. A minha Graça começou a dizer mal do casamento que fez. E eu esfreguei as patitas de pateta contente: (“Já tenho crónica, caraças! Já tenho alegoria, carago!). E era que tinha. E é que tenho.

3 Tenho, tenho – esta assim, quereis ver/ler? Sei bem que quereis. Cá vai: a risível mas triste historieta do nosso (meu & da minha Senhora Esposa) jantar romântico é muito cotejável ao que ali por bandas de Torres Novas em má-hora acontece. Mais explicitamente: naquele afluente do Rio Almonda a que por triste ironia chamam Ribeira da Boa Água. A diferença entre o meu jantar à beira de porcos parados e a desgraça criminosa daquelas paragens está nisto: no meu caso, os porcos estavam quietos; no caso do Almonda & demais afluentes do pobre Tejo, os porcos não apenas se mexem como agridem as pessoas de bem que vêem a Natureza não como aterro ou esgoto mas como Casa de Todos. Está dito, está dito: e nas fuças dos porcos bípedes, covardes & covardes & porcos.

4 Moral da alegoria? Nenhuma. Nem tirando o O a alegoria pode dar alegria. É muita tristeza junta. É muita impunidade à solta. É muito ganancioso sem uma cadeirita de ferro pela corneta abaixo. Até que um dia o Diabo se lembre de lhes ser bom.

5 Por falar em Diabo, o diabo do porqueiro lá comeu felizmente depressinha (tinha vindo só para uma bifana no pão com um quartilho de branco-de-cozinha) & cá nos desamparou a loja. A vicissitude mal-odorosa refez-se, rarefez-se &desfez-se. Pagámos & desandámos. Vim para o carro com um sorrisito mefistofélicozito. E a minha Graça assim p’ra mim: “Já tens croniqueta, malandrim!...”.
E era que tinha. E não é que tenho?


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