Thursday, April 16, 2015

Rosário Breve n.º 403 - in O RIBATEJO de 16 de Abril de 2015 - www.oribatejo.pt




© René Magritte






Animais ou menos

Segunda-feira, 13 de Abril de 2015. O octogenário e prestigioso periódico Diário de Coimbra publica, a páginas 10, uma carta dirigida ao Director daquele jornal. Assina-a uma senhora chamada Maria João L. G. de Oliveira. A missiva tem título: “Especismo”. Começa assim:

“Senhor Director,
Em pleno século XXI, os pombos de algumas cidades continuam a ser vítimas de toda a espécie de maus tratos.”

E mais adiante:

“(…) é possível controlar a reprodução destas aves, recorrendo a métodos humanos. Quem ama os animais, quem é capaz de interiorizar o seu sofrimento, quem não é especialista, sabe como fazê-lo.”

Aqui há anos, uma massiva sobrepopulação de aves marinhas nas Berlengas levou, de facto, a medidas de controle daqueles vorazes seres voadores. Ao que sei, a intervenção foi científica e tecnicamente muito bem feita. Intervieram na nidificação e coisa e tal. Não houve genocídio. Houve racionalidade. Voltemos todavia à carta da senhora conimbrincense:

“Infelizmente, não é o caso da Câmara Municipal de Santarém, que está a provocar um assassinato destas aves, como se não fosse possível resolver, humanamente, o problema da superpopulação dos pombos. Além disso, a matança de animais é crime. Gandhi tinha razão quando disse que o nível de civilização de um povo se pode avaliar pela maneira como os seus animais são tratados.”

Os geniais pintores Picasso e Magritte gostavam de pombas. Terá sido do bico de uma delas que Noé recebeu o ramúsculo de árvore anunciador do fim do Dilúvio. O poeta português João Miguel Fernandes Jorge (JMFJ) disse tudo naquele poema maravilhoso com que finaliza o seu livro, de 1982, “O Regresso dos Remadores”:

“Poemas”: “Aspectos perdidos
pequenas sombras ao redor de poderosa imagem

Aquilo que distingue a palavra ave da palavra pássaro.”

Onde já vamos, ó Leitor/a meu & minha: da ‘solução’ (holo)cáustica à la Câmara de Santarém até pintores e poetas. Pois continuemos em tal senda, que má não é e mal não faz. Um ano antes do supracitado livro de JMFJ, um crítico literário chamado José António Llardent publicava no Suplemento n.º 1 da revista Número (Madrid, 1981) algumas linhas sobre o (por mim) mais venerado Poeta português (felizmente) vivo: António Osório, que foi bastonário da Ordem dos Advogados uns anos largos depois de haver nascido em Setúbal a 1 de Agosto de 1933. Traduzo:

“A vida, para Osório, é substancialmente indivisível no que respeita à dor e à morte. Dentro do seu sistema (afectivo), radicalmente unitário, os animais ‘são umas criaturas surgidas no terceiro dia, mais velhas portanto do que o homem e talvez por isso mais sábias ou menos iníquas’. O poeta sente-as inseparáveis da condição humana, ainda que tal condição seja perturbada por leis biológicas que pretendem justificar, em nome da própria vida, a dialéctica da destruição."

No meu bornal, há muitos anos (muitos mesmo) que, ao lado de ninharias como livralhadas e croniquetas, transporto frascos cheios de trinca-de-arroz e sacos plenos de migas de pão. É para dar aos pássaros. Mas é comofernandesjorgeanas aves que as vejo comer. Osoriamente. Não camaramunicipaldesantaremmente. Não barbaramente. Não holocausticamente. Julgamo-nos, nós humanos, superiores a tudo e a todos quantos vivem neste planeta. Fingimos desconhecer que somos a única espécie em voluntária auto-extinção. Estamos (quase) todos abaixo de cão. As nossas malfeitorias para com toda a fauna não sapiens sapiens sub-bestializam-nos. Mas basta. Concluamos com a senhora Leitora do Diário de Coimbra:

“(…) cabe também aos pais e à escola (e eu sei que algumas o fazem…) desenvolver, nos mais novos, a sensibilidade ao sofrimento dos animais, o amor e o respeito por seres que são, a todo o momento, vítimas do especismo, preconceito que lhes nega o direito, que também têm, de não sofrer, ou seja, a igualdade que deve existir entre as diferentes espécies.”
Ámen – digo eu, em terra tão tauromáquica quão columbocida.


 

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