Thursday, April 09, 2015

Rosário Breve n.º 402 - in O RIBATEJO de 9 de Abril de 2015 - www.oribatejo.pt


Crónica a dar-lhe para o escatológico

Esperar do actual executivo municipal de Santarém qualquer espécie de (re)acção construtiva que contrarie o autismo anticívico e antitolerante de que sobejas provas tem dado à saciedade e à sociedade sempre que, justa e/ou injustamente o criticam, vituperam e vilipendiam  – é  ou dá o mesmo, por exemplo não inocente, que procurar, encontrar e ter médico de família em Benavente. É, é.
Isso de arrancar, no próprio domingo, cartazes contra o desmazelo da acção da Câmara em diversos (mas tantos!) domínios, é de um zelo equívoco, e escabroso até, mais próprio de tiranetes malformados do que de gente democraticamente eleita (em má-hora, diga-se) pelo povo que (tão mal) serve. E parece mais fácil e mais categórico, isso dos cartazes arrancados à pressa, do que, como é inequívoco dever dos serviços camarários, livrar a histórica Scalabis moderna dos ubíquos monturos de lixo que ao ímpio sol apodrecem fedendo e a que o vento dá asas ou de tipo Ícaro ou de tipo Red Bull.
Quanto à cègada de décadas da revitalização do centro histórico da capital ribatejana, é a treta useira, vezeira & costumeira – daquele tipo de intenções que, tidas por boas e pias e santas e vai-ser-mesmo-assim-como-eu-ricardamente-vos-gonçalvesmente-prometo-e-garanto, ao Inferno repletam incansável e irrefragavelmente. É que, sabemo-lo nós tão bem, é mais lucrativo chamar e entregar a “expansão dos núcleos urbanos” à ganância desmedida dos patos-bravos amigalhaços que assinam os cheques agradecidos pró-próxima campanha, autárquica ou legislativa seja ela. Por alguma razão, os médicos de hoje em dia, ao auscultarem o peito do paciente cardíaco-pulmonar, dizem-lhe que diga “44” e não “33”
Vale-nos a todos, ainda assim, que gente há em acção pró-cívica por a razão afinal simples e franca do amor à Cidade – e não em demanda tachistíco-partidária pró-interesse próprio. Se eu fosse uma dessas pessoas que agem em vez de ficar em casa de chinelos puídos a dizer que não a tudo só porque sim, eu juro que penduraria mas era, nos mesmos exactos pontos críticos da Cidade de onde a Câmara foi tão prestes destruidora dos construtivos alertas, os contentores a abarrotar de lixo com e em que a cada passo se tropeça no velho burgo scalabitano. Só para ver se lhes dava a mesma pressa. Se a mesma rubicunda e furibunda gana os açulava. Todavia, o mais certo é que a coisa, tratando-se afinal de mero dever higiénico-social da edilidade, acabasse demorando pelo menos tanto tempo a ser resolvida como a tragifarsa da Junta de Vila Cã (ou Vila-de-nem-Ontem-nem-p’r’-Amanhã). Alegrias tristes, estas evidências.
Já agora, sempre Vos digo que a palavra portuguesa escatologia é tramada: tanto dá para significar maldosa e mal odorosa alusão ao marulhar intestinal que augura a não raro estrepitosa emissão via-rectal de lamas excrementícias, como para designar certo tipo de mundivisão literário-filosófica relativa ao porvir da condição humana. Desta última acepção, é, quiçá, a História do Futuro, da autoria do grande Autor de Língua Portuguesa que foi, é e será o Padre António Vieira, a opus magnum da escatologia portuguesa. Tal polissémica (e dúbia, portanto) palavra, se Santarém é o mote de sua volta, parece ser a chinela de vidro com a exacta medida para o pé da Cinderela santarena. Neste sentido duplo: pela imundície que se por aí se vê, o futuro já cheira mal de véspera como os gaiteiros vomitados de tão bêbedos.
Não terei eu, todavia, algo de positivo a dizer da terra do meu/nosso Bernardo Santareno/Dr. António Martinho do Rosário? Tenho. As barreiras ainda não aluíram de vez, por exemplo. E, apesar de tanto tempo à espera entre carris que lhe passe por cima o comboio à frente do qual garantiu o pueril Ricardito-das-Procissões fixar-se para por ele, comboio, ser trucidado caso o Governo não fizesse já nem sei quê que não fez nem fará, o efebo edil continua inteiro. Mais: e inteiriço. Do esperançoso vereador Luís Farinha, por não ser (eu) do mesmo saco que ele, nem falo. E da turística-wireless vereadora Susana Pita Soares, idem. Tenho melhores usanças para o meu latim.
Pena, também tenho. Esta aqui: a de não poder estar presente no próprio dia da próxima saída do jornal (9 de Abril do corrente), pelas 15h30m, na Casa-Museu Passos Canavarro, no propósito de ouvir e ver o erudito (sem resquício de ironia minha) Professor Adriano Moreira perorando em uma conferência intitulada “A Europa entre os Projectos e as Memórias”. Gostaria de lá estar porque o tema e o Orador me interessam – e também porque sempre poderia içar-se alguém dentre o auditório para dizer algumas coisas acertadas, eficazes, activas, pró-activas e com calendário & verba subordinadas ao tema “Santarém entre os Dejectos e as Escórias”. Pelo menos, rimaria.
Não poderei lá estar, infelizmente. Isso é garantido. Dia 9 de Abril próximo, se até lá me não der o badagaio esticador de pernis, estarei ocupado a desenvolver a crónica seguinte para este Jornal. E já tenho a primeira frase de arranque: “Não é fácil ser feliz nos tempos que não correm.” O resto está por escre(vi)ver. É que estou ainda indeciso sobre que tipo de escatologia empregar na criação dela/crónica.
Se calhar, uso ambas as merdas.


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