Thursday, August 28, 2014

Rosário Breve n.º 371 - in O RIBATEJO de 28 de Agosto de 2014 - www.oribatejo.pt

Queixa no País da Insónia

Não sei se é a má-sina a perseguir-me, se sou eu a persegui-la a ela. Talvez ambas as coisas. No caso presente, falo-vos do putedo que me não deixa dormir. Explico-me.
Na antepenúltima cidade em que vivi, a minha casa (mas só o descobri depois de arrendá-la) era precariamente vizinha de uma casa-de-alterne. As madrugadas eram o calendário mais hostil do dia. As gajas, mais os lenocidas que as parasitavam e mais os deserdados de pulseira de lata que as frequentavam – encenavam e protagonizavam altífonos histerismos de navalhada, protestos de amor a vintes e a cinquentas, forrobodós de cassete-pirata sem ballet nem rose. Um ultraje pegado. Pouco adiantava chamar as “ótoridades”. Quando vinham (se vinham), pareciam pedir ensonadas desculpas às senhoras meretrizes, invariavelmente espécimenes de brasileiredo do mais chunga, tisnadas do esterco daquela maquilhagem contrafeita de feira e armadas de garras envernizadas de amarelo-pus e escarlate-cirrose. Nunca havia detenções, nunca havia autuações. Nada. Só quando aquele circo ia dormir para algum remoto apartamento-galinheiro é que a civilização voltava à má-hora dos meus aposentos. E eu ficava com o bebé da insónia nos braços, roto para o resto do dia até ao vira-o-disco-toca-o-mesmo da madrugada seguinte.
Na cidade ulterior, vivi em paz: como no bairro também moravam senhores médicos e senhores juízes, o gado-de-aluguer não accionava por ali o taxímetro das virilhas. Dormi muitas santas noites nesse quartito sem mulher nem renda excessiva.
Há três anos e picos que vivo nestoutro burgo. Foi bom. Foi bom até este malfadado mês de Agosto. É que o putedo voltou. A prostituição-de-giro sitiou a minha rua e as circunvizinhas. Toda a noite é por aqui um carrossel ignóbil de carros tripulados por energúmenos das obras para quem o Brasil é uma espécie de quimera com direito a caipirinha falsa e a rodízio de varizes roxas como o manto do Senhor dos Passos. Isto agora onde não durmo é um bairro-da-tijuca. As alvoradas amanhecem juncadas de lixo. Há batidelas nas viaturas dos trabalhadores sem garagem que, como eu, tiveram a má-sina de ali se aquartelarem. O sotaque carioca gargalha obscenidades goianas até às cinco, seis horas da matina baiana. E já sabeis como é: pouco adianta rogar às “ótoridades” a esmolinha de por ali rondarem profilacticamente. Elas vêm mas é o carago. Devem ter medo daquelas unhas.
Posso parecer-vos xenófobo e misógino. Oxalá que sim. Conheço poucas coisas tão degradantes como a privação do sono. Talvez a fome. Talvez o desGoverno (este como o anterior, o anterior como o próximo). Podem parecer-vos ofensivas as minhas palavras. Oxalá que sim. Quero ofender. Quero vilipendiar. Quero dar troco. Quero dormir.
É claro que não tenho pensado noutra coisa senão na utopia de outra casa noutro bairro. Talvez de outra cidade, até. De outro país, não. Não posso. Este é meu. Só tenho este. Não vale nada mas só tenho este. E só quero este. Hei-de resistir nele a tais malfadados e sórdidos despojos de império colonial de pacotilha.
A não ser que ele, o meu/nosso País, vá de vez, como tem ido, com as putas. Se for o caso, o melhor mesmo é emborcar umas caipirinhas e, para as rapidinhas, desembolsar uns cinquentas, com sorte uns vintes. 

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