Thursday, February 13, 2014

Rosário Breve n.º 345 - in O RIBATEJO de 13 de Fevereiro de 2014 - www.oribatejo.pt



Diferimento


Figura de homem com gorro azul entre profusa instrumentália científica. Num quarto alto, dando a janela o rosto à foz do rio. O fotógrafo esteve com o cientista de cabeça azul da parte da tarde. À noite, o fotógrafo janta a sós numa casa-de-pasto cuja clientela regular é feita de seres irrecicláveis para esta vida. Depois, vai a um boteco mobilado de madeiras escuras cujo televisor trabalha com o som em off. O inglês Eccles e o inglês Green travam uma final muito bem servida de triplos-vinte. O fotógrafo gosta de ver dardos bem atirados. À quarta leg, Green leva vantagem: 3 a 1. Nem Green nem Eccles são já rapazes. O fotógrafo já não pensa no cientista cujo gorro azul indiciava rotina e serenidade. Solidão também, talvez. O homem oferecera-lhe uma bebida no Café do rés-de-chão do prédio. Aceitou. Tomaram-na na esplanada, que era pequena e soalheira, dando ela também para a grande foz que esteve, e está, na base da razão de os Antepassados ali terem erigido a capital. Têm entre ambos vinte anos de diferença, mas a vida parece tê-los consumado e consumido à mesma velocidade. O fotógrafo não pensa nisso. Talvez se nem lembre já do homem gentil e pouco expansivo que usa há tantos anos o mesmo gorro e o mesmo azul e o mesmo quarto de vidraça em rosto para o rio. A final Eccles/Green é muito agradável de seguir. O fotógrafo permite-se outro shot de Jameson antes de rodar a primeira cerveja do serão. Escassa clientela derredor. O patrão vem sentar-se à mesa do lado direito. Comentam a final, o fotógrafo aproveita uma ida do patrão ao balcão para lhe pedir a cerveja. O homem traz-lha mas não volta a sentar-se. Dois casais ainda moços entraram. Já trazem algum álcool no bucho, a atmosfera range como um móvel velho. Pedem ao patrão que mude o canal para outro de música. O patrão diz que não. Porquê? – querem os audaciosos saber. O patrão diz que há gente a ver as setas. Eles dizem que é só uma pessoa. O patrão diz que são duas – e aponta o polegar de gigante ao próprio peito. Uma das raparigas diz que não faz mal, que dá para conversarem enquanto bebem um copo, mas o namorado da outra, o do porquê?, diz que sendo assim não, que o dinheiro deles é mal empregado ali, espera uma reacção do gigante da casa mas não a tem porque o homem se foi sentar à mesa do fotógrafo com dois copos largos de Jameson puro e mais duas Corona geladas com rodela de limão embutida no gargalo. E depois sentem o silêncio nas costas. E em frente Green vence Eccles, os dois lançadores abraçam-se com desportivismo, depois há saltos de ski mas em diferido, como tudo, cedo ou tarde, acaba sendo.

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