Wednesday, March 20, 2013

OS ÚLTIMOS ANOS DE TODA A GENTE - 239


239

Leiria, 20/III/2013,quarta-feira

Uma volúpia mansa frúi por mim a manhã clara.
Comboio de nuvens vem chegando de noroeste.
Alta, uma vivenda aproveita o sol na cara.
Um dia é o tempo todo – e tem o dia de ser este.

Fiz-me ontem talvez mal: vi fotografias antigas.
Senti-me só por dentro no arrebol da cidade.
Não é que me queime o coração, isto da idade.
Queima-o sim isto dos sonetos e das cantigas.

Mas ao fresco de Março a manhã é fruição,
é gozo barato, mansa posse, paz-d’alminha.
Não me pertence esta terra, mas faço-a minha

à fita e à força dos dias colados a cuspo.
Débil seria não ourejar à luz, a luz po-
derosa que a tudo aclara e faz fruir, mansinha.  

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