Friday, April 11, 2014

Rosário Breve n.º 353 - in O RIBATEJO de 10 de Abril de 2014 - www.oribatejo.pt

Agora neste lugar solitário a vaidade já não se apaga

O facebook de antigamente era o lado de dentro da porta das cagadeiras públicas.
A minha geração foi agraciada, até, com esse opus magnum da retretologia que é O Guardador de Retretes, feliz ideia e prática felicíssima de um tal Pedro Barbosa, cuja condição de utente de sentinas nacionais & estrangeiras o levou a tornar-se atento & fiel escriba-mor das pré-facebookianas e pós-vicentinas cagas merdeiras deste mundo e dos outros.
A lápis, a esferográfica ou até, em caso de mais peremptória assertividade, a canivete, essa literatura de trono-de-louça reverberava de humanidade a mais pungente em lacónica, lapidar e exemplar concisão epigramática. Em apocalípticas elocuções tão apropriadas ao acto que ali os sitiava, os anónimos Autores sentados eram capazes, sem outro esforço que o do alívio tripeiro, do gracioso dichote político, da clandestina demanda homoerótica, da clássica quadra caralheira e do geni(t)al impressionismo meteorológico sobre se a Isaura da Camisaria chovia ou fazia sol e com quem.
É com merencória nostalgia que rememoro essas pautas maravilhosas, essas WCentenárias inscrições de equívoca & esquisita premência confessional afinal afim daquela que hoje, a grafismo azul-bebé, o facebook prolonga em quantidade mas não, hélas!, em qualidade – porque, hoje em dia, os facebookães mais peritos são no ladrar online do que no morder em manif.
Por deficiência (minha) de carácter (meu), também eu me inscrevo no rol triste das tristes selfievaidades que vociferam indignações de photoshop e partilham comoções em pps de florinha-passarinho-criancinha-fominha-áfricazinha, dos que sabem tudo sobre cada cerimónia dos Oscars mas não fazem puto-ideia de quem tenha sido o Paulo Rocha de Os Verdes Anos, dos que confundem o legado de Mandela com a chacha verbodiarreica do hip-hop, dos que acham aquilo de O Beijo do Klimt dever ser coisa do instagram & dos que atribuem a Fernando Pessoa as merdices alquímicas e as pestilentas banalidades filoteoantropológicas do Paulo Santiago Coelho de Compostela Carioca.
Antes, muito antes do apenas-isto de agora-hoje, o outro facebook, o das calças pelo canhão das meias, é que era. A própria profusão oblíqua de linhas & traços à altura do olhar (por ser muito mais capitosa a escrita durante o acto de evacuação do que depois da descarga feita e do terceiro-olho papel-higienizado) nos garantia o fulgurante caos ordenado da Poesia Surrealista, em aval da vitória (pelo menos íntima, ínfima embora) da liberdade criativo-expressiva sobre a miséria fecal da realidade.
Todos já reparámos que os dentros das portas desses filosóficos cubículos já não são nem estão escritos. Atribuo isso a duas coisas: uma, a ninguém já trazer consigo material de escrita, sequer canivete; outra, ao facto de as portas continuarem a ser de contraplacado, baquelite ou chapa e não (ainda não, pelo menos) em plasma, detalhe que obsta à escrita a partir do telemóvel ou do tablet por bluetooth.

Para ser franco, a única coisa que permanece, e de uma permanência invencível e autoritária como a morte, é a natureza da necessidade. Digo: a fisiológica, não a poética. Mas há razões para a esperança: a de, pelo menos, sempre podermos continuar com merdas.

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