“Great poverty exists in Chile. One reason assigned is the great number of poets in that country – people who would rather write poor verses than saw wood.”
In the Jeanette Daily Dispatch, 1 Fev 1893
http://news.google.com/newspapers?nid=voxG-9qLvA4C&dat=18930201&printsec=frontpage&hl=pt-PT
30/04/2014
24/04/2014
Rosário Breve n.º 355 - in O RIBATEJO de 24 de Abril de 2014 - www.oribatejo.pt
Em nome do Pai
No dia 24 de Abril de 1994, o meu Pai morreu.
Sepultámo-lo no dia seguinte, faziam vinte anos os Cravos salgueiromaios.
É duro escrever sobre esses dois amados cadáveres: o de um
Pai que não volta e o de uma Revolução que não chegou a vir.
Tantos (demasiados) anos depois, ainda hoje me volto para
trás quando aos balcões me dizem Senhor
Daniel: microesperança de ser a ele que falam, não a mim. Cumpre-me ser, ao
menos em nome, a sombra do que ele foi: em nome dele, com o nome dele.
À limpa e clara figura paterna minha, aponho, sem filial
desvio, a clara e limpa figura de Salgueiro Maia, esse navegador da madrugada
que branqueou uma noite velha de quase meio século com a autoridade
terratenente exclusiva daquele tipo de homem que todos os homens querem ser
quando forem homens.
Que Vos dizer do senhor meu Pai? Não muita coisa. Que foi
um primoroso pintor cerâmico anónimo. Que se salvou mercê do casamento
vitalício com a mulher perpétua da vida dele. Que com ela engendrou sete
filhos, dentre os que um se lembrou de acabar aos 31 anos, estilhaçando-lhe irreversivelmente
o coração em cada dia dos oito invernos que conseguiu sobreviver-lhe.
E que dizer do senhor capitão Salgueiro Maia que os
senhores Carlos Beato e Armando Fernandes Vos mais e tão bem não tenham já dito,
na pretérita edição de O Ribatejo e
em páginas notáveis que são de guardar no bolso da camisa do lado do coração?
Como, sem pretensões tolas, acrescentar seja o que for aos ditos & feitos
dos rapazes Beato e Fernandes? Nada,
pois que nada sou à beira deles.
À beira de meu Pai, todavia, alguma coisa fui.
Alguém a quem o meu Velhote quis dar o 25 de Abril como
quem dá o pão e a mão.
Alguém a quem a Liberdade (pelo menos essa que uso aos
balcões do beb’esquecimento) tratasse por Senhor
Daniel sem me fazer precisar de voltar-me para trás.
Para a frente, sim – que é onde e quando os Cravos devem,
nascendo de vez mas agora a sério, fazer (mais) anos.
18/04/2014
11/04/2014
Rosário Breve n.º 353 - in O RIBATEJO de 10 de Abril de 2014 - www.oribatejo.pt
Agora neste lugar
solitário a vaidade já não se apaga
O facebook de
antigamente era o lado de dentro da porta das cagadeiras públicas.
A minha geração foi agraciada, até, com esse opus magnum da retretologia que é O
Guardador de Retretes, feliz ideia e prática felicíssima de um tal Pedro
Barbosa, cuja condição de utente de sentinas nacionais & estrangeiras o
levou a tornar-se atento & fiel escriba-mor das pré-facebookianas e
pós-vicentinas cagas merdeiras deste
mundo e dos outros.
A lápis, a esferográfica ou até, em caso de mais
peremptória assertividade, a canivete, essa literatura de trono-de-louça
reverberava de humanidade a mais pungente em lacónica, lapidar e exemplar
concisão epigramática. Em apocalípticas elocuções tão apropriadas ao acto que
ali os sitiava, os anónimos Autores sentados eram capazes, sem outro esforço
que o do alívio tripeiro, do gracioso dichote político, da clandestina demanda
homoerótica, da clássica quadra caralheira e do geni(t)al impressionismo
meteorológico sobre se a Isaura da Camisaria chovia ou fazia sol e com quem.
É com merencória nostalgia que rememoro essas pautas
maravilhosas, essas WCentenárias inscrições de equívoca & esquisita
premência confessional afinal afim daquela que hoje, a grafismo azul-bebé, o facebook prolonga em quantidade mas não,
hélas!, em qualidade – porque, hoje
em dia, os facebookães mais peritos
são no ladrar online do que no morder
em manif.
Por deficiência (minha) de carácter (meu), também eu me
inscrevo no rol triste das tristes selfievaidades
que vociferam indignações de photoshop
e partilham comoções em pps de
florinha-passarinho-criancinha-fominha-áfricazinha, dos que sabem tudo sobre
cada cerimónia dos Oscars mas não
fazem puto-ideia de quem tenha sido o Paulo Rocha de Os Verdes Anos, dos que confundem o legado de Mandela com a chacha
verbodiarreica do hip-hop, dos que
acham aquilo de O Beijo do Klimt
dever ser coisa do instagram &
dos que atribuem a Fernando Pessoa as merdices alquímicas e as pestilentas
banalidades filoteoantropológicas do Paulo Santiago Coelho de Compostela
Carioca.
Antes, muito antes do apenas-isto de agora-hoje, o outro facebook, o das calças pelo canhão
das meias, é que era. A própria profusão oblíqua de linhas & traços à
altura do olhar (por ser muito mais capitosa a escrita durante o acto de
evacuação do que depois da descarga feita e do terceiro-olho papel-higienizado)
nos garantia o fulgurante caos ordenado da Poesia Surrealista, em aval da
vitória (pelo menos íntima, ínfima embora) da liberdade criativo-expressiva sobre
a miséria fecal da realidade.
Todos já reparámos que os dentros das portas desses
filosóficos cubículos já não são nem estão escritos. Atribuo isso a duas
coisas: uma, a ninguém já trazer consigo material de escrita, sequer canivete; outra,
ao facto de as portas continuarem a ser de contraplacado, baquelite ou chapa e
não (ainda não, pelo menos) em plasma, detalhe que obsta à escrita a partir do
telemóvel ou do tablet por bluetooth.
Para ser franco, a única coisa que permanece, e de uma
permanência invencível e autoritária como a morte, é a natureza da necessidade.
Digo: a fisiológica, não a poética. Mas há razões para a esperança: a de, pelo
menos, sempre podermos continuar com merdas.
03/04/2014
Rosário Breve n.º 352 - in O RIBATEJO de 3 de Abril de 2014
Em modo leitor antes que a reforma nos falhe
E de diverso modo não cuidara eu jamais, que pronto & aprontado sou & estou & sinto, antes vingo & vinco dos humanos circo-instantes os detalhes alguns de seus corpos ao meu idênticos mas deveras outros, de fábrica outra e para outros préstimos.
Pouca me dura cada cigarro, que na sinistra esqueço cinzardendo mentre a dextra labora & lavora linhas que ao Diabo não lembraram & a Deus não aprouveram, o contrário de ambas coisas sim, ou talvez, nisto de certezas nem o remédio tem mal nem o mal é não ter remédio.
Sobre pano de relvado defrontante, nódoa limpa de pomba sozinha, que o chão está lendo de boca decifradora de rimas afinal migalhas, fulgura fresca & voluminosa, bem alimentada anda tal ave municipal, pois que de todos autarquia & de ninguém posse, no concreto como no abstraído, longa delonga me mereceria a explicação, que não merece nem haver vai, gravura sim & dada está.
No entrementes, cuidadosa carícia falsa iço à asa narigosa a barlavento da cara, por ali me migar miúdirritante prurido um danado retorcido pêlo do ranho seco emerso, descambando a carícia, por falsa, em traidor sacão puxante, que lágrima pronta & fervente me faz estrelar em névoa ao olho do mesmo lado do vento facial mas em glória de pêlo caçado interpolegaríndex.
Derredor-me, esplanadociosos sem utilidade nem utilização como eu, como eu se espraiam estios de imaginação, dado o que chove & é muito, cumprindo-se do neomês aprilíneo a prestação prima a que novecentas & noventa & nove outras se cumularão, pluvial conta que a Abril torna toante de mil.
Casal antigo a dois cães não novos atrelado vem oxidoxigenando-se em paulatino ambular por berma-rio, do hemisfério cardiosquerdo assustados por via das recrudescentes arritmintermitências e do direito meio pelo que aí vem, já veio & mais há-de vir de cortes brutais em as respectivas aposentações já de si, deles & delas, fracas.
Em montra de bazar electrodomesticante, ardem a frio aparelhos de recep(ta)ção televidente, em cujos luz & brilho rutila a alvar euforia dos pogroms da manhã para holocáustico gáudio dos pupilos do doutor Alzheimer, esquecidos até do que lhes roubaram, roubam e mais hão-de roubar à reforma, como ao casal de cães passeante, em impenitente procissão matinodiária à laica nossa-senhora-da-acefalia.
Alvíssara não de somenos, todavia, ei-la que se me plasma ao par de lentes, bifocal & trifatal, uma alta amazona de botas altas também, visão substanciosa de torre fêmea toda empedrada a leite & a torresmos de nata viva, rescendente humananimal a cabedal feito de humana seda animal também mas seda, mas voluptuosa seda a alheio tacto destinada, ó mal de mim, fulgindo dela a adaga de cada mão e a safira de cada olho, perdoando-Vos eu de mais & maior minúcia no temor respeitoso de Vossa mulher conVosco estar isto lendo também.
Como quem a coisa não quer, mas quero, conto as linhas por mano escritas já, isto no cuidado de, por eventual demasia verbochilreante, acabar embaraçando o bom Vítor Arsénio, do departamento gráfico oficiante mandador nesta Casa tão ao Outono símile porque de folhas feitas também e sacerdote o mais sumo no que a caracteres, palavras, colunas, esquadrias e mais macintoshices respeito diz, que sem tal prestidigitador nem por ilusão O Ribatejo, fechado enfim, ao almoço de quarta-feira haveria de chegar, quanto mais ao lume e à luz das quintas a que teimosamente vem saindo há trint’anos quase.
Posto que um derradeiro parágrafo possível me surge restante, ele o voto devota & incensamente à insígnia nunca insignificante do meu Leitor, que, se a meu par aqui chegou, também não haveria de ser agora que comigo se não achegasse a nenhures, que é onde, há quase sete anos já e em página última sempre, fiel & lealmente nos encontramos, cinza que somos, à guisa destoutro cigarro que entretanto também esqueci mas a ele, Leitor, não, nunca & jamais, em de verso modo.
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