05/11/2020

VinteVinte - 105 (tudo)




105.

 

DOZE OU DEZ OU COIS’ASSIM

 

Coimbra, domingo, 19 de Julho de 2020

 

 

I

 

Às dez para as sete, concluo a primeira leitura integral de Sangue e Prisão, de Curzio Malaparte. Estou deliciado. O volume, a par do Gato, tem sido minha companhia por cada alvorecer. Já há uma hora que lá fora clareou. Da página 47:

 

“Falavam da sua cidade como um rapaz de vinte anos fala da namorada(…)

 

Da 50:

 

“Uma cidade que se me assemelhasse, que fosse o meu retrato e também a minha biografia.”

 

Livro muitíssimo bem escrito, ritmado, aquarelado. Já ganhei o dia. Mais pérolas:

 

“Mas agradar-me-ia uma certa inquietação oculta nos espíritos, porque os homens demasiado satisfeitos, demasiados seguros de si e dos outros, revelam-se incapazes de grandes coisas.” (pág.ª 53)

 

“Sentia-me feliz, cheio daquela inefável tristeza de que é feita a nossa experiência de felicidade.” (pág.ª 143)

 

“Agora a nossa vida pertence-nos, nunca mais podemos dá-la.” (pág.ª 147)

 

“Compreendi então pela primeira vez como a mulher está, mais do que o homem, próxima e ao mesmo tempo estranha à morte, como a morte pode pouco sobre ela, quanto de fúnebre e de imortal existe no seu amor de mãe, de irmã, de amante. (pág.ª 154)

 

“Tenho uma vaga lembrança daquele tempo, como de uma idade virgem e antiga da qual os homens até já perderam a lembrança, e que daí em diante a ninguém mais seja concedido viver.” (pág.ª 180)

 

II

 

Uma noite perfeita? Devo ter vivido uma dúzia delas, talvez. Não as acho muitas nem poucas, são talvez as suficientes para metro de comparação em relação às imperfeitas. Não conto aqui as da infância – essas são incontáveis, enumerá-las & numerá-las são contas impossíveis. Pois são. Falo disto agora (início da tarde dominical) por causa de um sonho que tive há horas. Os meus sonhos são de uma lógica perversa. É o que me ocorre chamar-lhes: lógico-perversos. Mortos & vivos participam deles sem mutuamente se estranharem. A época costuma ser neutra, algo entre o presente & o perpétuo. E quanto às tais noites ditas perfeitas? Julgo que, precisamente, as vivi em sonhos só. Dez vezes, talvez. Ambas as mãos me chegam para arriscar a soma.

 

III

 

Homens de há um século, as obras deles.

Livros, casas, máquinas, paletas, pianos.

Mulheres despontando como se chovera.

Animais retratados em anos menos maus. 

 

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Canzoada Assaltante