Daniel Abrunheiro

04/08/2021

PARNADA IDEMUNO - 695

© Pedro Núñez de Villavicencio



695

Terça-feira,
3 de Agosto de 2021

    O jornal devém antigo de um dia para outro.
    À consciência acontece o mesmo, certo incerto dia.
    Nem todas as vidas duram uma vida:
    os que morrem moços
    + os que chegam a velhos sem pensar nisso.
    Gosto de jornais envelhecidos. A pressa que eles tinham em ser novidade. O corriqueiro em que o novo tão depressa se torna. A importância dada ao que deveras a não tem, nunca a teve por aí além. Gosto da língua em que estão escritos. E do modo como os caracteres ficam, de costas para o papel, a olhar-nos de barriga. Receitas culinárias, a banha-da-cobra zodíaca, a programação TV, as farmácias de serviço, a racha ominosa no pilar da ponte, o projecto-açude, o Astória vigorando alto no azul a preto-e-branco da recomposição. Gosto.
    Na suposta actualidade, nada de novo, francamente não. Residualmente, pode alguma coisa ter vindo para ficar, sendo de facto boa & exemplar. De resto, não miro grande coisa que sim. Antes apreciar repetidamente o Rapaz Catando Pulgas de seu Cão, que pelos anos 50/XVII o pintor espanhol Pedro Núñez de Villavicencio (1635? 1640?-1700) tão graciosamente deu, pintando, à luz. Sim, muito antes isso.



03/08/2021

PARNADA IDEMUNO - 694


 
694

Segunda-feira,
2 de Agosto de 2021

    Passar pela vida través os bastidores sem palco. Assim foi com Bernardo Manuel Arroz Casal (1862-1904). Nasci seis décadas exactas a seguir, digo, à sua terminação. Pouco falta para seis décadas terem passado desde a minha iniciação. É igual para todos. Não deixo isso enxofrar-me o serão. Vou à marquise, pouquíssimos carros nas vias a poente, nota-se bem que a pandemia sangrou a dinâmica social & o fervilhar económico. Antes como agora, talvez como no porvir, não há pássaros de noite. Sinto-lhes a falta. De dia, não me falham. Dormem agora em misteriosos recônditos secretos abrigos. Lembrei-me de Arroz Casal ao folhear certo almanaque muito antigo que me espera os dedos como uma criança a uma festa. Pela morte de Bernardo Manuel, era de um ano o infante belga Georges Joseph Christian Simenon. Foram, por tal, contemporâneos perfeitos: respiraram ao mesmo tempo por algum tempo. Associo o grande Simenon a esta prosa nocturna para agradecer-lhe as deliciosas horas invernais lendo, dele, os livros com & sem Maigret. Grande escritor de grande psicologia, o belga. Acabou em mísera condição emocional (aquilo do suicídio da filha, aquilo da retaliação crudelíssima a que procedeu nas Mémoires Intimes). Em boa-hora o frequentei. De quando em vez, a ele retorno mui prazenteiramente, Quanto a Bernardo M.A. Casal, nada posso ler dele. Não escreveu nem publicou. A sua (grande) contribuição para a arte literária foi o financiamento & o expediente de um ateneu-biblioteca para utentes com a pancada-da-literatura. E logo em Penacova, naquele tempo tão remota povoação do XIX português. Vale que, depois, os seus herdeiros transferiram o espólio da instituição para um segundo-andar de Celas, onde vigorou até meados de 50/XX. Nasci, como disse, na década seguinte. Tenho algumas obras extraviadas da livraria do ateneu de Arroz C.: botânica, viagens coloniais, reis & rainhas, filatelia, mecânica anatómica humana. Prefiro Simenon, que todavia teve mais palco.

02/08/2021

PARNADA IDEMUNO - 690 a 693

© DA.


690

Domingo,
1 de Agosto de 2021

    O Tolstoi a que me referi ontem é o d’A Sonata a Kreutzer, de que possuo dois exemplares (da edição – muito fraquinha – do Diário de Notícias, Agosto de 2000). Adquiri um deles na Farmácia Agrícola do Louriçal, dia 8 de Outubro de 2001 (segunda-feira). Li-o a 30 de Abril de 2003 (quarta-feira), cem anos depois de, segundo nota-lápis minha de então, a seguinte efeméride:

    Livro que Fernando Pessoa leu (pelo menos parte) no dia 28 de Junho de 1903 (domingo), estando doente (convalescente). [ver Fotobiografia, pp. 85.]

    Pelas minhas contas, nesse dia tinha Fernando Pessoa 15 anos & 15 dias. Rapazinho, lia, decerto na cama, esta obra da fase terminal do colossal russo. Este tipo de anotações interessa-me muito. São minúcias irrelevantes para o vulgo – mas para mim são diamantinas. Isto é a (minha) verdade.

691

    Morreu no passado dia 30 de Julho (sexta-feira) Olga Prats, se não erro a data. Nascera em 1938. Deixa de si um rio de música de que as pessoas de bom-gosto podem ser a foz.

692

    Olga Prats (Portugal).
    Henry VII (Inglaterra).
    Fernando Lopes-Graça (Portugal).
    Richard III (Inglaterra).
    Os nomes dos mortos batem os pés nus na pedra molhada. Este não é porém o inverno de seu esquecimento. Tenho tempo que dar-lhes. Os quatro nomes de cima valem bem de paradigmas. À entrada do mês-bocejo, eles sentinelam-me a vigília. Ouço, leio, escuto, interpreto. O mais é aprender.
    Olga – 1938-2921. Henry – 1457-1509. Fernando – 1906-1994. Richard – 1452-1485. O par português, Música dada; a parelha inglesa, muita espadeirada.

693

    Problemas entre o capataz & o dono da obra.
    (Conhece a História afins cenas de sobra.)
    Richard Neville of Warwick versus Edward IV.
    E o salazarete contrariado por Craveiro Lopes.
    Ou que dizem que, só especulação é possível.
    Dizem, também, que foi por aqui domingo. Mal o percebi, sendo-Vos franco. Domestiquei-me todo o ignoto dia, numerado 1 do mês Oito. Linhas correm quietamente, volvendo-se pretéritas por imediata acção das imediatas. Continuo negando importância a quase tudo. Entre alarmismo fátuo & vera urgência, insurreição & ovelhismo, intervalos da chuva por que passo sem pressa nem demora. Ocorre-me o vocábulo irrisão. Sim, a idade traz coisas na rede. Nem tudo é desperdício. As que leva, não devolve.

01/08/2021

PARNADA IDEMUNO - 688

© M.M.


689

Sábado,
31 de Julho de 2021

    Desarranjadas, descompartimentadas, incoerentes, afinal cansativas, as horas de sono têm-me espedaçado os dias, coalhando as horas em ilhotas improdutivas & inconsequentes. Armo-me de paciência & resigno-me. A literatura é a minha realidade eleita. Não é fictício afirmá-la como tal. Faz parte da minha vida, pelo que faz parte do (dito) real. Por outro lado, a morte é a herdeira universal da vida. A vida faz quanto pode para dissipar a herança. Faz ela bem.
    À tarde, dormi dois bocados, ingloriamente resultaram ambos. Da segunda prestação, sonhei que ainda vamos ter de tapar as nossas mulheres por causa de ser ofensivo para a sarracenagem o andarem por aí elas como andam. Quando despertei, não foi a rir. A afro-islamização deste continente é tão evidente quão um escarro na sopa. Acho que é & há tempo para mitigar tal processo, que não tem de ser fatal. Os nórdicos ainda o não perceberam, por modos não. Quando noruegas, suécias & dinamarcas derem de si como franças, hão-de perceber. A África, o que é de África. Ao Islão, o que é de mouraria. A não ser que volte a aparecer alguém com a utopia praticável de arrebanhá-los em Madagáscar, primeiro, e no que se sabe ao depois. Os genocídios repetem-se nas eras porque a malta bípede insiste em raciocinar quadrupedemente. E no fim não ganham os Alemães, os Chineses é que sim. Quanto aos Russos, esses já foram – só que ainda ninguém lho disse em cuneiforme cirílico.
    À noite, o Sporting (de Lisboa) ganha por 2-1, ao intervalo, ao Sporting (de Braga). É a final da Supertaça no estádio de Aveiro. Dá para entreter o pedaço.
    Durante a segunda metade do jogo, deixo fluir a ideia pelos temas que este último ano & ½ agravou – por assim dizer, agravou. A pandemia viral tornou estranho o que era comum & normal o que era esquisito. No Brasil, neva. Nos países que eram frígidos, os centígrados passam a fasquia dos 40. O pessoal anda por aí mascarado como em tragicarnaval sem piada alguma. A angloalgarvização de cidades, vilas & aldeias cá da parvónia parece inelutável. O Ensino é uma merda. A Justiça é irmã do Ensino. A Saúde faz, apesar de tudo, muito pelo bem comum, vá lá. E o Euromilhões continua a fazer-me manguitos & a arreganhar-me piretes.
    O remédio, sei-o eu: li Tolstoi, vi dois documentários [um sobre o assassinato de Lord Mountbatten, a 27 de Agosto de 1979 (segunda-feira); outro, sobre Henry VII de Inglaterra] & adormeci à entrada do terceiro, que era sobre a inefável (mas falada) Leni Rienfenstahl. Agora, o serão já boceja. A segunda-parte do SCP-SCB decorre monótona, esgarçada, desinteressantemente. Já pouco miro os peões no relvado. Tenho de resolver isto, não me dou bem com o tédio. Vou perguntar ao Gato se quer brincar comigo.
    Quis – mas só um bocadito. Trouxe da despensa, para releitura um quarto-de-século (quase) depois, Arte Poética – O Meridiano e Outros Textos, de Paul Celan, que a Cotovia publicou em 1996. Assim – por releituras & outras desatenções – vou resistindo à futebolização incansável, à indefessa alienação das massas pelo jorgeluisnunofilipipintivieiradacostismo, ao hiperpindérico apimbalhamento dos horários-tv-ditos-nobres-afinal-caca-de-pobres.

31/07/2021

PARNADA IDEMUNO - 688



688

Sexta-feira,
30 de Julho de 2021

    Era em Fevereiro de 1884.
    “No dia 1, ao começo da noite, suicidou-se, por enforcamento, numa das casas do seu aposento na Universidade, o lente cathedratico da Faculdade de Medicina, dr. Augusto Fillipe Simões (…)”
    Cito Augusto Rocha, no primeiro número (romano) da Necrologia apensa à reunião em tomo dos Escriptos Diversos (Coimbra, Imprensa da Universidade, 1888) do dito suicida. Os outros subsídios para a memória fúnebre do malogrado universitário são assinados por A.A. da Fonseca Pinto (II & V), Bernardo de Serpa Pimentel (III) & Joaquim Martins de Carvalho (IV).
    Recolho notas antigas. Fiz a leitura do volume no Verão passado – mas o riscanhado lapiseiro quis ser passado a tinta. Daí:
    A.F.S. nasceu em Coimbra a 18 de Junho de 1835 (uma quinta-feira) & em Coimbra se matou a 1 de Fevereiro de 1884 (sexta-feira), não chegando pois a completar vivo 49 anos. Entre muitos outros interesses, cultivava o de ser colaborador & redactor de O Instituto, folha académica de alto valor cultural daquele último quartel de século.
    Era filho do Sr. Manuel Simões Cardoso & da D.ª Constança Jesuína de Paula Cardoso. Era também um aptíssimo estudante: de 1850 a 1855, formou-se nas faculdades de Mathematica e Philosophia; de 1855 a 1860, formou-se na de Medicina.
    Atributos oficiais deste infeliz moço? Dariam um poema. E, copiando-os já, vão dar:

DOUTOR E LENTE CATHEDRATICO DA FACULDADE DE MEDICINA
BACHAREL FORMADO NA FACULDADE DE PHILOSOPHIA
ANTIGO PROFESSOR DE INTRODUCÇÃO NO LICEU NACIONAL DE ÉVORA
DEPUTADO ÁS CÔRTES PELO CIRCULO DE COIMBRA EM 1880
SOCIO DA ACADEMIA REAL DAS SCIENCIAS DE LISBOA
DO INSTITUTO DE COIMBRA
DA REAL ASSOCIAÇÃO DOS ARCHITECTOS CIVIS E ARCHEOLOGOS PORTUGUESES
ETC. ETC. ETC.

    Que irredimível solidão foi a sua, capaz de o levar sem retorno? Máxima foi, pois maior não há, solidão, que a de ter por única companhia uma ponta de corda.
    Li a diversidade dos seus Escriptos. Merecem reparo. A eles voltarei, amanhã talvez. Por ora, galgou todas as valas a nascida noite. É ela o país maior, agora. Da marquise ao cabo do mundo, daqui à vetusta adusta argírica Lua, vai talvez o mesmo – e quanto vai, voltar não volta. Volta & ½, só o cão.


30/07/2021

PARNADA IDEMUNO - 686 & 687

© Egon Schiele


686

Quinta-feira,
29 de Julho de 2021

À face da atenção, o rapaz leva ambas as mãos ao próprio peito
O sol é violento a ponto de azular a cabeleira solta do rapaz
Formiga em dormência o sangue esquecido no rosto
– e o olhar dele é o do rapaz que fomos, se alguma vez

Se alguma vez nos não escapou o tempo de verdecermos
Atento o outonal precipício da sensibilidade invita
(Não confundir com invicta, que é de outra história)
Da invita sensibilidade como da parrascana manha

As mãos muito vermelhas capazes de sonetos vãos
Tempo tem o rapaz mais contado que cantante
A família é de tristes bisonhos proboscídeos ingénuos

Mas eu dele cuido, não seria agora que, não agora
Agora não desistiria eu dele, não agora, à face da atenção
O sol é azul na violenta cabeleira, sobe à face o sangue, a dormência.

687

    Tirando o soneto imediatamente anterior, não fiz hoje mais grande coisa. Vi pintura de Egon Schiele, que Mário Botas (justa & acertadamente) admirava. E há pouco a notícia da morte de Pedro Tamen, poeta & tradutor português que algum nome teve & fez. Mas não fui a fazer a notícia. Recebi-a em meu anonimato sossegadito. Agora é a noite – mas o sono não me tem batido a horas propícias à rotina (= rodinha) que elejo há muitos anos para consumo da casa. Pela tarde madura, bati sesta – mas a carga dos sonhos obsta a uma calma mais reparadora. Ainda por cima, sonho (é verdade) que escrevo sinopses para enredos prosaicos. Tudo se esfuma quando, bocejando boquiaberto à peixe, desperto – mole como a lama à chuva, bronco como os eleitores do Cavaco & irremediável como qualquer outro humano. Nada disto, acumulado, resulta forçosamente em mau dia. Nem por isso. Fiz de novo uma panelada de sopa, havia gelado numa das gavetas árcticas cá de casa. Chá & café. Pão novo. Pêra cozida em água-d’açúcar & pau-de-canela.

29/07/2021

PARNADA IDEMUNO - 684 & 685


684

Quarta-feira,
28 de Julho de 2021

Falei-Vos de um velho atinado para com seu fim mesmo
É um homem real com dois milénios & meio de idade
Tanto dá para o caso 2500 como 80 ou metade de ambos
Li dele na madrugada que precede este papel manchado
Escrevo ora na tarde em cujo ápice visitarei o meu Irmão.

Julho dá, ele também, de si a quadra derradeira
Por fora não parece mas por dentro combatemos
Neste caso falo por mim & por Vós em ousadia
Dia é de fazê-lo, a mal me não decerto levareis
Somos afinal humanos, tanto tal maravilhava Sófocles.

Atravessei água quente, espuma, aço, pano
Lavei, raspei, limpei, enxuguei o corpo
Estou pronto para a excursão ao fraternal orago
Espero voltar por volta das dezanove, dia ainda
Tenho os papéis em ordem, se não a vida.

685

Vivos, efémeros.
Mortos, perpétuos.
Perde-se destes a contemporaneidade, pois passam a atemporais.
Nada os aflige ou comove.
Em peso, a sombra – uma ponta (uma pontinha, quase nada) de amargura.
O sal da presença (& da pertença) por terra.
Anda ao engano quem quer, ao desengano quem pode.
A boa poesia torna simultâneos demanda & achado.
Uma embalagem com alimentos, a bonança crepuscular.
No átrio do hipermercado, quatro que falam de sorte, faca.
Perto delas, na fila-caixa do bufete, quatro trocam propostas.
Um campo humano: plenitude ou planitude? Ele é conforme.
Vi a montanha – e ela era bela & atenta.
À entrada da vivenda, o cão veio saudar os visitantes.
A comida era de um sabor antifamiliar, profissional, de seriedade dura.
A enumeração destes elementos dificulta a assimilação.
É de saltear versos, ler aquele, ir a outro, vir a este.
No fim não há exame, pode não reter-se absolutamente.
Eu fiz um dia frugal, vi as luzes da ribalta, ficam longe.
O mais assisado é ir vigorando pela ribabaixa.


Canzoada Assaltante