Daniel Abrunheiro

26/01/2022

REGISTOS CIVIS - 38


Lexicão – 38

                  



Cíclames em profusão pelo jardim de Clementina.
Médãos pisados por lentos pés descalços.
Broquéis em uso por mãos diligentes.
Réprobos sem entrada aqui, hoje & para sempre.
Sarmentos muito secos, vocacionados a lume.
Garlopas, como broquéis, trabalhando a sério.
Acepilhando madeira útil, doméstica, tão necessária.
Antes que o envelhecimento, senhores, venha encoscorar-nos.
Antes que nos escarve a terminação inelutável, senhoras.
Antes que nos seja esvurmada a seiva vital, mundo.
Alcantilemo-nos bravamente, d-existir é que não, nunca.
Vergônteas feminis à braçada outonal.
Declivosa depressão – a ela cuidado & muit’atenção.
De percal vestida
Graciosa & leve
Amor nunca teve
Uma vez na vida
Tão finos retrós
Ásperas paveias
Viajor que a sós
Alpendra ideias
De briche coberto
De fé atrancado
Anda manteado
Insone desperto
A menina não descambe em madracice!
O menino deixe-se de epigramas & facécias!
O senhor gamou este vocabulário ao Ramalh’Ortigão!
A senhora foi mas não é já de elegíaco-bucólica doçura!
Não nos aflijamos nem nos frijamos, vá.
Untada a alvaiade, a cara da condessa de Maindres.
Estadulho empunhando, o lacaio dela, ao portão.
Estes são dias de fera galopinagem pró-eleitoral.
E muito bebe o algibebe!
É de sopitar o riso como de refrear o pranto.
Multíplices luminares de meandrosos raciocínios.
Vinde afundir-vos em caldas termais, vinde!
Não queirais ser lagalhés, não queirais!
Sêde percucientes, sêde preclaros, sêde cois&tal!
Quero-vos mavórcios em pugna contra a inópia!
Não vos quero sarrafaçais mas sim heliogabálicos!
Mais que meramente minaz é a morte.
Não é ela de andar boleando maneirismos.
Nem de falaz vesânia é portadora em si.
Ante ela se não safam farroncas nem tranquibérnias.
Ela só é de si anadel (ó Daniel).
Dias intersacham-se de suas noites encruzilhantes.
Nobilitadoras horas são possíveis – ainda.
Tristurosas, algumas? Sim, decerto – é de lei.
Altos moinhos, líquidas atafonas, frescas escorreduras.
Preciso é alancear de frente o inimigo, qual seja ele.
Não me peçam é que pifiamente traduza nomes-próprios ou apelidos:
Ridículo: Gerardo de Nerval, João-Paulo Sartre, Alberto Camus, Miguel Foucault, Carlos Dickens, Tomás Mann, Gabriel Garcia Marques
Peçam-me, sim, que atire o olhar a, de Clementina,
Cíclames
Etc.




25/01/2022

REGISTOS CIVIS - 37

© DA.


Leitor – 37



    Falta chuva. O Sol não tem faltado à chamado do galo. Os dias são bonitos, sim – mas a chuva faz muita falta. Talvez irremediavelmente já, o planeta está meteorologicamente doente, muito doente. A conta do hospital ser-nos-á & sair-nos-á muito cara. Este ponto não é despiciendo.

    A alternativa é seguir apreciando os pilares do temp(l)o: Proust, Kafka, Joyce, Beckett, Pessoa – por aí. Há sempre alguma novidade, decorrente, claro, da pujança do vero classicismo.

    Atido a casa por necessidade & obrigação, o Leitor dá de si anotando minuciosamente os trechos à vista. Abstrusa, a actualidade desinteressa-o. Trilhos & sendas anteriores parecem-lhe mais municiados de provisões para o futuro possível.

    Os acontecimentos deveras grandes não têm hoje imitação. Assim pensa, isso sente assaz. Outrora, em era de mais amigos disponíveis, certa sedosa condição existencial não era rara. Já não conta ou pode importar, havendo que pacificar-se por dentro uma pessoa.

    Nobreza - não de sangue mas de carácter.
    Repugnância indefectível pelo onanismo moral.
    Perigo da misantropia: presente não-irreal.
    Quanto ao resto (os restos), há que ter
    curiais cuidados tendentes à autopreservação.

    É (de) ir deixando o pensamento à rédea mais ou menos solta. Em confinamento físico, abrir-lhe uma janela, deixá-lo voar por asas próprias. (Autoalienação, dizeis? O Leitor discorda. Antes isto: autodeterminação.)

    Antes apreciar como aproveita a tarde este moço-homem. Vai ao museu depois de almoçar na casa-de-pasto de que é regular comensal. Às quatro da tarde, saciado de pintura, volta às ruas. Flamulando, ei-lo que flana pela urbe. Até que se faça noite, pertencem-lhe as horas abertas. Velas no rio: regata de amadores. Famílias no jardim-parque: clãs em sincronia. Esparsos pescadores à linha de beira-rio. Mas falta chuva. Faz muito falta, a chuva. Represas & barragens de nível perigosamente baixo. Agricultura & pecuária em precária dependência. Janeiro segue fresco mas enxuto de mais. Ele assim considera, entrando na pastelaria. Manda chá & torradas com manteiga. Sim, deram já as cinco. O ar do estabelecimento é cálido, soporífero, agasalhador. Não se demora muito. De novo ao ar-livre, vai entre árvores. Certa frialdade invasiva, intrusiva, viva & vivaz. Isto pode ser narrado de quanto alternativo modo apetecer. Vem, como vai, do pensamento.

    Que crime nenhum desordene a paz jurídico-social.
    Que dos factos a verdade material seja lavadamente apurada.
    Que a justiça se realize pelo livro, depois, & pela pessoa, antes.
    Que o Estado não viole da pessoa o direito inviolável.

    Então – e Kafka? Pois é. O Processo kafkiano é menos fictício do que pode pensar-se. Um périplo de Franz K. por sua tarde em sua Praga. O exílio diferente de James J. por certa Europa. A depuração do absurdo à Samuel B. Fernando P.: pessoa-colectiva. A autoclausura de Marcel P. Por aí, em dédalo.

    Noite, que muito não faltas já: bem-vinda.
    Cumprida a tarefa do dia, algumas páginas ainda.
    À varanda, um cigarro fumado em paz pessoal.
    Tanto faz como desfaz, sem alarido nem escândalo.

    Intimamente, nada obsta (nihil obstat) a que a pessoa (e.g., o Leitor) julgue de/por si mesma: mais ou menos independente, mais ou menos imparcial, mais ou menos alheia ao conflito, mais ou menos passiva quanto à produção de prova – é dos livros.

    Pelas ruas, por casa, com memórias mais livrescas já do que conjunturais. Desinteresse da/pela contemporaneidade. Predomínio da vertente estética. Demanda, em beleza, da Beleza. Outra coisa bonita é saúde para toda a gente – mas já se sabe que não acontece, não pode ser, há que ir renovando a frota pelo abate de navios.



24/01/2022

REGISTOS CIVIS - 34 a 36



Orlando – 34



    José Licínio Gomez Orlando, dizíamos. Rapaz mais facilmente reconhecível por as carreiras profissionais que largou do que por alguma – que nenhuma é – em que haja singrado.
    Dito popular de sua favorita escolha: “Já apanhei muita porca mas nenhuma delas tinha rosca.”
    Certo e demonstrado é ele, como toda a gente, respirar enquanto vivo – como disse um outro: “De outro modo, nada feito.”
    Muita minúcia se pode dizer de Zé Orlando, mas nenhuma nem grande coisa, nem idem espingarda. A vida corre sem parecer levantar do chão as patas.
    O futebol é para ele uma merda, excepto quando o Benfica não apenas ganha como ainda por cima joga bem – esta verdade adquire logo espectro de certificação científica.
    Há muito tempo que não desgaiola gargalhadas. Ri muito menos do que já riu - mas sorri mais, sarcasticamente embora. Ele mesmo desdá importância a tal evidência.
    Falou recentemente com um rapaz chamado Adílio Feliciano Trindade Gonçalves. Com ele sim, gargalhou algumas tiradas altissonantes. Gonçalves é abastado, costuma empresta’da’r notas azuis a Orlando. Divertem-se ao gás todo com anedotas & dichotes sobre tudo quanto seja, nestes dias fracos, politicamente-incorrecto: paneleiros, pretos, judeus, chinocas, amaricado-amaricanos, lésbi’lambéconas – e até crianças cèguinhas de nascença.



Fala – 35




A fala do envelhecido não costuma usar interlocutor.
É no geral feita de consabidas ciências sem préstimo.
Ou: a experiências sem uso na manutenção militar,
lá onde os créditos distinguem praças de conquistas.

Na mesma sala em que António Cecílio Silvestre
te cumprimentou de aberta mãos sem armas,
aí escreve(s), emudecida a sala, António ido.
A sala fica, tu não, falo por mim, a sala fica,

Uma senhora que traía o marido contactou-me,
queria explicações de Português para o filho,
o filho estava no Oitavo & ela nas penúltimas,
acabei recebendo trezentos & 50 à hora – mas só por ela.

A fala do rejuvenescido vem toda da lotaria-gorda.
(interrompido, sem retoma)



Adriano – 36



    Adriano Capela d’Armas Sant’Iago nasceu, como eu nasci, no ano n.º 1964 d.C. Tirante tal, amailo o facto de ambos seguirmos respirando, nenhuma outra simetria apresentam de si as nossas, uma de cada um, existências. Esta peculiar coisa nos diferençava – e continua diferençando: a sexualidade. A dele atormentava-o, atormenta-o & há-de atormentá-lo até o dia em que inaugure a sua tabuleta de duas datas. A adolescência ferrou-o de um ardor cúpido intransigente. Pôs-se cobiçando os corpos alheios com uma atenção fixa de leopardo.
    Como & quando o conheci? Isso passou-se em Coimbra, quando não resultava difícil encontrar alguma rapaziada palerma. Fumava esta, mormente na esplanada do Café Santa Cruz, à decadentista francês, cafeinando-se & aquamineralando-se a preceito. Foi no ano cujo 1.º de Janeiro não teve outra prenda de Ano Novo que não fosse o ingente terramoto nos Açores: 1980. Fomos um ao outro introduzidos por Telmo Artur Portalegre Mariel, manso folião que quatro putas macérrimas da Rua Direita sustentavam. Simpatizámo-nos de imediata reciprocidade. Desde então, temo-nos correspondido com afável & amável irregularidade. Não o vejo há bons (afinal maus) onze anos. Eu continuo copofonista, a ponto de já por mais de trinta vezes terem tido de colher-me do chão à colherada. Ele, não. Ele é sóbrio em tudo – menos naquilo que V. disse, a volúpia implacável que o titila todo, a tremenda luxúria que o caustica até em sonhos.
    Mais por alívio divã-psiquiátrico do que por fanfarronice varão-máscula, sempre me contou até ao mais ínfimo & mais íntimo detalhe as suas venturas, aventuras & desventuras erotómanas. Porque é de um ninfogajo que falamos, senhores (& senhoras). Sim, tem-me contado tudo. Episódios até em que houve mosquitos-por-cordas, nus ambos, ele & sua companhia deitada. A verdade é Adriano nem sempre, como sói dizer-se, joga-com-o-baralho-todo. (NB: escrevi baralho, que confusões não surtam.) Ele põe-se bastas vezes a jeito de tais enredos de tapeçaria arábica, enfim.
    Em 2011, se não erro, condoeu-me verificar em seu/dele rosto um ricto amarelo-torrado de labiação color-leite-creme. Vinha ele de furtiva investida ali ao camoniano-Canto-IX que em Coimbra se chama Mata de Vale de Canas. Rasgava-o isto: vinha, post-coitum, apaixonado. Toda a gente sabe que, tal, é o pior que pode acontecer a quem só apareceu para foder um bocadito & alguém. Também isso porém – como tudo na vid’afinal – lhe passou.




23/01/2022

REGISTOS CIVIS - 33

© DA.



Charut’ovnis– 33


    Ainda há tão pouco, eu era de 25 anos; tu, de 22: que raio se passou que eu, distraído, não vi & perdi?
    Saio hoje um pouco, Senhora, pelo entardenoitecer.
    Atrai-me o frio, gosto de ir agasalhado.
    Tenho pensado muito na idade, é verdade.
    É todavia apenas pensar-por-pensar, nada mais.
    Penso por estar vivo: de outro modo, nada feito.
    Em outro entardenoitecer, aconteceu isto: a minha Mãe veio dizer-me ter acabado de avistar no céu já lusco-fusco uns quantos traços de luz, espécie de charutos alaranjados, muito longe & muito longos. Disse ela que se aquietaram eles por um momento, de súbito porém deslizaram na horizontal perfeita, soberanamente lhe pareceu que o fizeram través de uma celeridade que o nosso mundo não conhece nem pratica. Penso na epifania que à minha Mãe calhou nesse fim-de-dia tão improvável quão afinal o que hoje me vê sair às ruas frias. Talvez sejam já 32 os anos entretanto sumidos, consumidos, somados & consumados. Não sei. Ainda há pouco eu tinha 25 – etc.


22/01/2022

REGISTOS CIVIS - 32


© DA.


Esplanada & balcão – 32


    


    Na esplanada, findo o dia dito útil, Maria Gregório Crispim Belo fuma algo consoladamente. Acaba de merendar: omeleta de chouriço picante, pão de centeio, azeitonas, pickles, um quartilho de tinto maduro. Espera a vinda da amiga Ana Beatriz Polaina da Cruz, que sai às dezanove do escritório. A meteorologia acertou mais ou menos: não ferve nem gela. A luz titubeia alguma coisa. Por instantes, a aragem aguça-se na pele. Nada porém de lancinante, isto ainda não chegou à Sibéria.
    O advogado (na reforma) Horácio Alberto Fidalgo Sarmento boceja muito fundo & muitas vezes. Não é que se sinta entediado. Boceja porque sim. Já leu muito, talvez de mais até – agora, prefere ir cuscando os vivos, seus casacos, seus gestos, sua gramática, seus consumos. Todos os dias aqui almoça com a mulher, D.ª Alessandra Bella de Luca Fontana de Fidalgo Sarmento, nascida em Verona há bem mais de quinze dias. Alessandra é uma senhora muito bonita – e a idade septuagenária mais lhe reitera a beleza natural.
    Ei-los, festivos sempre, sempre de/a bem com a vida: Pedro Miguel Returvo dos Santos, Sílvio André Martins da Cunha, Anacleto Basílio Saraiva da Ponte & José Licínio Gomez Orlando. Velhos companheiros da/para a vida toda. Pedro, médico; Sílvio, merceeiro; Anacleto, informático; Zé Licínio, nem o próprio sabe bem (o) quê. Vêm cervejar-se copiosamente, tremoçar & amendoimar, haja sede, que vontade não falha.

    Esplanadamo-nos todos em serena assembleia
    Por ora nos não fere a mortandade
    Este é um recanto quieto da Cidade
    Nem sempre a vida é vil, desgrácil ou feia.

    Senhor Fontes, como tem passado a senhora sua mãe?
    Dona Lucrécia, e o seu gatinho, tem ele melhoras?
    Cumprimentos à Ricardina & à Celestina também!
    É impressionante, já são quase as oito horas!

    Em pensamento distraído, isola-se a pessoa de os ruídos externos, do bulício mundial em local versão. Herculano: mui escaqueirado é o Português que fala, caraças. Gina do Toninho: ainda graciosa & raçuda, Deus a conserve em saúde. Belarmino do Azeite: judeu estuporado, avaro, escarninho, má-raça.
    Já abalam os quatro rapazes. Amanhã será, ou não, outro dia. Por ora, importa apreciar como convivem a Isabel & a Beta. Muito amigas. A Beta nasceu em Luanda; a Isabel, no antigo Instituto Maternal, ali à Sé Velha, onde depois funcionou o Conservatório de Música e agora funciona não sei que instituição. Também elas merendam: Isabel Maria Régio da Fonseca, bolo-de-arroz & chá de tília; Maria Alberta Fernandes de Lima, mil-folhas & abatanado.
    O televisor, em perpétua vitalícia imorredoura eterna sintonia com o futebol, transmite um palpitante jogo dos distritais de Setúbal. O único interessado é o idoso Túlio Mário da Gama Pestana, desde 1981 que está confinado à cadeira-de-rodas, mau desastre rodoviário lhe ceifou a locomoção andarilha.
    Há serenidade por aqui. Sim, há. Não é o paraíso – basta não ser o inferno. Este tasco está aberto há bons quarenta anos. Já muita freguesia dele esticou o pernil nos entretantos de quatro décadas. Alguns nomes são ainda mencionados, de quando em vez acontece. Outros, todavia, apagaram-se para sempre, não há quem os evoque. Dissolveram-se no éter do esquecimento, é como se nunca houvessem peitado este balcão, empinado a sua imperial, sorvido o seu porto, rechupado o seu tinto, emborcado o seu bagaço. Nota: o esquecimento (também) favorece a serenidade.

    A cada um/a seu percurso - com ou sem relato.
    Acaba volvendo-se, tudo, terraplenadamente igual.
    (Decorre o anterior verso de a nossa condição mortal,
    condição com que o mero nascer assina contrato.)

    Da mercearia em frente, sai bem abastecida
    Ruténia Bencanta de Carlos Osório.
    Traz muita hortaliça & pão & bebida
    & até cinco latas de atum Tenório.

    Equânimes, respiramos. Ainda.

21/01/2022

REGISTOS CIVIS - 30 & 31



Escandentes – 30


Uma história-de-amor encontrou residência em papel
Eduardo & Sílvia, ainda 25 anos ele lhe a ela sobreviveu
Coisas de saúde, de falta dela, dela-saúde, dela-Sílvia
Vulnerabilidade do cólon, idem do coração, o diabo
Nem todas as love-stories chegam a documento
E as que chegam, nem todas se fixam em verso solto ou medido.

Um conto-de-solidão, de tão comum, nem de papel precisa
Pense-se, se se quiser, em Beatriz, costureira de mão-cheia
Em Marilena, caixeirinha de confeitaria, coitada
Em Apolino, que há (todos os) anos mira o rio quieto
Em Joel, que viaja sempre sem chegar, afinal retornando sempre
Não é inventar a roda nem a pólvora, assentar isto.

Um relato-de-memória, desejado ou temido, muitas vezes
Manuel Eborano, 79 anos, pousa o jornal & relata
Veio para esta cidade ainda ganim/gaiato/galifato
Foi aprendiz-servente de ofícios os mais diversos
Acabou capaz capataz de obras em firma sólida
Hoje relata estes pretéritos oficiais suspirando um pouco.

Como escandentes gavinhas, entrelaçam-se heras & eras
Idades & cidades, caminhos & caminhas, centros & dentros
Até a mais vulgar atenção dá conta do emaranhamento
Do modo como tudo com tudo se engrenha
Enreda, intrinca, enguedelha, arrepela, embaraça
Sim, já no liceu a Celeste assim falou & disse – e muito bem.

Companhia – 31


    Decorre a tarde de Quinta-Feira, 20 de Janeiro. Da máquina audiovisual, mana conversa de gente profissionalizada mui sabedora de suas matérias. Se descontextuadas, muitas elocuções parecem rutilar de peculiar fulgor. Fidelissecretariamente, inventario algumas capturas:

Mesmo quinze minutos que estivéssemos assim
Sempre em actividade física, sempre a sorrir
Para estimular as hormonas, daquelas de doer a barriga
Estes últimos anos, quanto mais fechados, mais deprimidos
Quando estou, não é por mal, pelo contrário
Não sei explicar, estou tão nervosa, constrangida
Sempre fomos uma família mas muito mal, olha
Ríamos muitas vezes, tirando um peso das costas
Se fosse outra pessoa, outra solução, há filmes
Até os mais novos, mesmo não sendo a cara do pai
Se quiser concordar com alguém, vire a cabeça
Quando referiu a novela, fez uma expressão típica
Lembrava-se também da Amazónia, tão estranho
Vamos estranhando, não-familiarizados, no geral
Às vezes, são questões próprias da cultura
Se há alguém que não diz, esse é com ninguém
Uma chamada Dulce, via-se que estava contrariada
Lá está, se calhar também era uma terapia-de-choque
Temos o Chaplin de Modern Times, sim, demiurgo
A chuva é tão necessária quão o sol, senhores
A psicomorfologia facial importa, senhoras
Aborrecimento, desinteresse, zanga, revolta
Ansiedade, insegurança, desconforto, aflição
Comoção, choque, titilação, prurido

    Decorre a tarde, a noite é certa mas só para quem a ela chega. A máquina imago-sonora é uma companhia. A pessoa consegue fazer de conta que não dá de/por si tão desamparada, tão às moscas, tão a ver navios de um cais que não há. Então:

No seu caso, todos passamos por coisa parecida
Ao sermos bombardeados, oxalá tenhamos dito o que queríamos
Estar ali alguém atrás de mim, fazia-me espécie
Um trabalho mas não propriamente de vendas
Manter esta ideia de que não vemos o outro lado
Etapas mais fidedignas, com planeamento meticuloso
Caramba, esta não era suposto estar ligada
Tomarmos sempre nota do que está a ser-nos dito
Se bem entendi, o senhor pretende
Às vezes, lá está, não sabem se é para ali
Respondermos à despedida, igualmente importante
Minorar algum estrago, nós ali na saída
Quando o público tem oportunidade de falar
Pelo menos para mim, muitas vezes com os nervos
Queremos o que vais dizer depois de amanhã
As notas que deixou, deixou-as manuscritas
O convidado pode expor quão livremente entender
Temos essa liberdade, perante maior e/ou menor
Algo de outra matéria, ainda há pouco
Tal como a pessoa, também o interesse desperta
Fez o seguimento dos alinhados, em 1988
Numa situação mais informal, máximo dez minutos
Um dos sítios por onde passei antes de ti
Tinha chegado de novo ao espaço

    Dão-se já as 16h45m. Da janela maior, visão de pátio com gente lavando garrafões. Pai & filho em acção. O velho, dando mangueiradas. O júnior, acarretando o vasilhame lavado & trazendo o por-lavar. Freme à brisa leve a velha nespereira. Em transe de mor pachorra, o cão (castanho, grande, sénior) dormita, apenas a cabeça de fora da casota. Os três fazem-se companhia em triangular reciprocidade. Nesta casa, rumora a maquineta vidente-falante:

Disse que estaria sempre junto de/a nós, mas
O trabalho dele tem sido desconfiar de matrículas
Já vazou algo nas eiras? Sim, já vazei algumas
É possível extrair uma moral da física-das-partículas
It’s gotta be illegal
Só há que sobreviver a esta parte
Por merenda, algo que seja comestível
De qualquer jeito, só que com arte
Ao menos, que nos livrassem deste mal
Não há reembolso, passado o prazo
É ver o que por aí vai no hospital
Triste é depender tanto do acaso
Isto é propriedade privada, acesso interdito
Será que ela sabe o quanto ainda o ama?
Obrigado, por me terem afastado daquele tipo
Ela confundiu afeição com ginástica-de-cama
Pessoas que procuram a vida inteira
Ninguém nos pediu nem ouviu conselhos
Cada um tem a sua própria maneira
Nenhuma religião me há-de pôr de joelhos
Resiste-se como se pode em tempos maus
A obra legada é baluarte democrático
Os passos é que dão sentido aos degraus
O erro processual é que tem sido sistemático

Já em sua glória simples ocorre a manhã de Sexta-Feira, 21 de Janeiro. E:

Aquela e não outra
Veio requerer a junção aos autos
Só tipo fotografia à/da porta de casa daquela pessoa
Daquela e não doutra
Há ainda tribunais que mandam afixar
Mandam afixar o edital na junta de freguesia
Ercília de Fátima Joanes da Nóbrega
Se foi possível apurar que a pessoa vive lá
Imaginemos que não consegue entrar no prédio
Em princípio, só não havendo alternativa possível
Negócios que correram mal, há pessoas, acontece
Nem toda a gente é sacana, há empatia
O genro separa-se da filha e não paga
Mandou vir material em nome do sogro
Muito bem, mas foi uma terceira pessoa a assinar
Dar conhecimento de aquela, não de outra
Quando receber esta carta simples
Esteve lá alguém que lhe diz respeito a ele
Um bocado constipado, fui ao local, voltei para trás
A carta também, também voltou para trás
Na Rua D. João III
Pedro Daniel Natalino d’Aboim
Art.º 233 do Código de Processo Civil, é ir vê-lo
Primeira, cita-se; depois, notifica-se

    O fluxo é organismo (mui) vivo, não cessa. Pode mudar (e muda) de agentes-(e)fluentes, mas não de si, de si mesmo jamais muda. Os elocutores são perecíveis – a elocução, não. Assim pois:

Por isso é que ela esteve presente
Maria do Céu Videira de Lecestre
Outra comarca, outra pessoa singular
Alguém se obriga perante outra pessoa
Serviço por remuneração, a completar no destino
Basta que alguém seja o que for
Chegou, assinou, alguém recebe e é identificado
Uma terra & uma acta: lavradas ambas
Fomos chamados por partes
Susana Maria Cabral Castilho
Não foi possível, invertera-se
Os créditos restaram insatisfeitos
Atentas as cominações, ó Ilustres!
Demora mais do que o esperado
Hoje não é possível, tantos xis euros
Justificou-se assim, a coisa até correu bem
Bernardino Salvador d’Andrade Memento
OK, não esquecer o princípio Extra Vel Ultra Petitum
Nem sempre a pessoa é insondável
Fundamentos de facto e de direito da pretensão
Capacidade das partes e legalidade do resultado da conciliação
Cumulação de pedidos, conciliação frustrada
Fruste & frusto, o fruto-em-tempo
Deixai-me só ver se foi em Setembro ou não

    Não é difícil ou precário perceber a condição arenosa das enumerações supra. Foram esvurmadas à oralidade corrente, é por isso. Também: são modo de ordenar passageiramente um caos que não passa. E ainda: servem de autos mais ou menos representáveis em teatro de vozes. Quanto à sua forma, é evidente virem a 24 linhas. Nisto, acaba-se amanhã de Sexta-21-do-I.


 

20/01/2022

REGISTOS CIVIS - 27 a 29

© DA.



Outras enumerações - 27


Salvaguarda de lucidez autoprotectora face ao caos íntimo.
Sem-abrigo pelas cidades de uma nação ex-pátria.
O verso-finalmente-justo de um escaninho ínfimo.
Mas, mesmo botado à rua, não ser um ’tadinho nem um pária.

Brigadas voluntariosas ofertam sopa pela noite.
As estações ferroviárias, varridas a vento glacial.
Nostalgia de lareira, uma pouca de pão, um fio de azeite.
E a glória munificente da Língua de Portugal.

Ainda pela rua perpassam frades & freiras.
Existem silenciosamente, dormem sobre pedra.
Eles & elas lá sabem se sofrem de frieiras.
Mas dali não arredam, nenhum deles arreda.

Uma volta pela praça apreciando os bens:
peixe de metálica rutilância (luar que nadava),
fruta das terras mais perfumadas de al aléns,
mulheres gerindo o mundo & que o mundo não trava.

Olhos fatigados, não têm conto por as ruas ásperas.
Envelhecimentos instantâneos por as repartições.
A ferrugem ataca muito as nêsperas.
E as bocas são ósseas, dão-se a tropeções.

Em glória a matina vai-se aguarelando.
Por enquanto vivemos, aproveitemos o enquanto.
Só tu já não dizes que me estimas tanto
quanto eu te estimo, ó Marília Rolando.

Rolando - 28


    Marília Pedro de Canais Rolando funciona das nove às dezassete na guarita dos serviços municipalizados (transportes públicos). Tem os filhos (menino & menina) criados. O rapaz fez engenharia-mecânica, a donzela foi para enfermeira de geriatria. O ex-marido de Marília é bancário a ano & ½ da aposentação. Está tudo bem. O segredo bem guardado dela é um namorado que tem em Santa Clara. Tão bem guardado, que aqui vai o nome completo dele: Armando Janeiro Porto Acabado.
    Eu, houve tempos em que gostei de Marília Rolando – mas ela era casada (e bem, na altura), séria, digna, louvável, louvada & lavada. O meu pé-de-alferes deu por isso em nada. Corrijo: em quase-nada, pois que ainda nos relacionámos horizontalmente umas quatro vezes. Este facto d’entre-lençóis volveu-se despiciendo: era um amor sem porvir aproveitável nem pretérito histórico (ou vice-versa).
    Armando Janeiro é duas coisas: 1) boa escolha de Marília; 2) meu Amigo de há mui longos anos. Foi por conseguinte algo timidamente que ele, um destes dias, me abordou. Sabendo que eu a namorara em casada, Armando quis ter de mim a garantia de sigilo, primeiro, e, depois, anuência. Eu anuí. Só não posso ser sigiloso porque ando disfarçado de contador-literatóide.
    (Faço ora parágrafo entreparentético por causa do seguinte: talvez eu esteja fundindo & confundindo Marília com outras mulheres que a minha vida, até biblicamente, conheceu. É uma espécie de bruma. Se alguma vez deveras amei – o que se chama amar: francamente, não me lembro. Lembrei-me hoje de registar Marília Pedro de Canais Rolando por causa de ter renovado o passe-bus para Fevereiro na guarita dela.)
    Marília, pois.
    Ainda bonita.
    Já não somos dois.
    Ainda catita.
    Olhos tão clarinhos.
    Boca apetitosa.
    É clone de rosa
    com muitos espinhos.
    Tem-na agora Armando.
    Eu é que não tenho.
    Choro baba & ranho?
    Vou-me assoando.
    Não mais o futuro.
    Não menos passado.
    Sinto-me impuro
    & ultrapassado.
    Passo (in)certidões.
    Quero emolumentos.
    Faço averbamentos
    & declarações.
    Sem mal eu querendo,
    a bem da lembrança,
    desfiz-lhe a trança
    na cama tremendo.
    ’nha bela Marília
    de olhos turvados,
    ora alheia ex-minha
    de anos acabados.
    Armando Acabado
    acabou vencendo.
    E eu, bem lhe(s) querendo,
    boto-me de lado.
    (Que lado nem é,
    antes retaguarda.
    Capitão não sou,
    sequer uso farda.)
    Paixão é cegueira,
    é deficiência.
    É impaciência,
    não é brincadeira.
    Já para o mês que vem,
    busco outra guarita
    a que tal bonita
    me não perca bem.
    Deixo estas endechas,
    penhor de lembrança:
    desfiz-lhe a trança
    em suaves mechas.

Acabado - 29


    Ao cabo de um dia mais ou menos trabalhoso, Armando Janeiro Porto Acabado repousa um pouco em inclinação oblíqua sobre almofadões propícios. Passa na pantalha um documentário dedicado à figura de um homem que foi, em pessoa, irritante, mas, em obra, digno de alguma atenção. (E não, Armando não diz dele o nome.) Outras imagens:
    um vale em que encontram pasto rebanhos mansos;
    casas de pedra muito antiga(s) vicejando sombras atiradas ao chão;
    desenhos feitos por artistas esquecidos sem retorno;
    flores & ramos pisados em chão de procissão;
    revoadas de alados a favor de um vento azulíneo;
    uma actriz de cravo ao peito dizendo sílabas frescas;
    um par de professores eméritos conversando sem legendas;
    Atenas-a-Mui-Antiga-&-Toda-Inicial;
    multidões em festa (não sabe Armando por que raio);
    uma estrada alagada com choupos por sentinelas;
    anjos de gesso guardando um portão de quinta;
    fachada monumental de fábrica conserveira de pescado;
    tricanas de postal hepaticamente amarelecidas;
    quintal crivado de gatos famélicos mas solares;
    rosto de homem improvavelmente nascido;
    rapaz atirando pedras ao lago na falda de montanha nevada;
    metrópole brutal, desumanista, sobrevalorizada, atraente.
    São quase entretanto as seis da tarde. Armando, que mora na Mendes dos Remédios, não sai hoje. Fica-se em casa, serão com sopa & pão de anteontem, de momento é suficiente. Não é instante de apogeu-civilização. É tão-só o serão solitário de um solitário em recato. Talvez Marília lhe telefone, talvez ele telefone a Marília. É só Quarta-19-do-I. Alhures, alguém se dá ao trabalho de morrer; outros alguéns, à insensatez perdoável de nascer. Há muito de quem faça alguma coisa. Armando vai à cozinha, espreme duas laranjas, junta água-mineral, bebe meio copo de pé, retorna ao quarto com o restante. Mais imagens:
    Cairo, sol cru como pano branco, gente aos tiros;
    tumultos noutro cu-de-judas afim do Cairo;
    pânico (eufórico) de circunstantes do regicídio (1908);
    euforia (pânica) idem-idem (1914);
    cave-jazz-fumo-whisky-coca-curtição-sombra;
    galerias comerciais: vidraças, manequins, marcas, lixívia;
    maometanos de olhar oblíquo sentados em muro baixo;
    cristãos que não olham apinhados no metro;
    calendários-de-parede amontoados a um canto da oficina;
    uma fulana insuportável que se diz jornalista;
    flashes de guerras repetíveis, ocasião chegada;
    uma fotografia aérea do santuário da Cova da Iria;
    Sylvia Kristel, Armando não sabe se em Paris ou Praga;
    Linda Lovelace, Armando não sabe se em New York ou Guimarães;
    Adolf Hitler perorando à sua Jugend;
    crianças etíopes sem pão, sem água & sem idade;
    cão dormindo a meio da escadaria universitária.
    Nota: deste segundo rol de dezassete imagens, Armando Janeiro terá, quando muito, entrevisto três ou quatro, mais não. Abatem-se-lhe de doçura as pálpebras, dormita sem remorsos contra os almofadões, a mente resvala-lhe para um vórtice alternativo. É quando o telefone se põe a guinchar. É Marília? Não é Marília. É uma voz tentando vender-lhe um plano articulado de seguros (vida/casa/carro). Desliga com cortesia firme. Já não readormece.



Canzoada Assaltante