Daniel Abrunheiro

19/06/2021

PARNADA IDEMUNO - 487 a 489




487

Sexta-feira,
18 de Junho de 2021

    Receber a primeira luz (não são ainda as seis) do dia com Simone Kermes interpretando Polifemo: Alto Giove, do gentil Nicola Antonio Porpora (1686-1768), é bela prática iniciática. E mais ainda tal se, lá fora, despontam já, ao chamado do meu pão, pardais, pombas, o corvo, a poupa, o melro, o pisco, a arvéola. O milhafre não desce, mas já tive direito a uma gaivota (não sei se d’asa-escura, se argêntea).
    O dia, como prometido, nasceu glauco mas não frígido. Vou lavrando papelada sem pressa. A clausura, voluntária, não é de claustrofobia. É mero recato, em ordem as provisões, as fontes escritas, o maná melómano, os arquivos fílmicos – e a roupa lavada no roupeiro que lhe compete.
    Poucos minutos depois das nove, outra boa prática me acode: dezoito Lieder do magnífico Franz Peter Schubert (1797-1828). Já tive manhãs bem mais surdas. Redime-as, esta.

488

    O quarto terceto do 482 remanesce válido.
    Urgiu-me anotá-lo depois de ler certas linhas (não minhas, note-se) relativas à noite de 26 de Maio último. Conservo esse documento como ponto-de-referência. É um quarteto de páginas dotado de certa sinceridade técnico-objectiva: o meu corpo naquele anoitecimento súbito. E súbdito.

489

    Os campos-(ditos)santos estão cheios de ex-gente finalmente equalizada – mas só ao cabo de díspares modos de ganhar & de perder a vida. São agora gregário estrume – mas foram cápsulas individuais. Muitas navegaram esse mar chamado longevidade. Outras foram decepadas cedo. Cesário Verde, Franz Schubert & o meu Irmão Jorge Manuel não passaram dos 31 anos. Recuso que seja a morbidez a fazer-me redactor destas contas. Não me anima qualquer tanatofilia. Uso o meu tempo para pensar o Tempo, isso sim. Ontem, deitando-me cedo, reacendi o candeeiro & reoculei-me para lapijar este rol:

    pessoa
    animal
    côr
    alimento
    data (completa)
    ofício
    livro/A.
    rua/Coimbra
    História
    música
    filme/peça
    geografia
    panorama
    palavra-do-dia

    Aconteceu: os itens são catorze, como é de lei na fábrica do soneto. Também não é preciso ir a Salem tirar diploma em bruxaria para ver logo às primeiras que são artigos recorrentes na/da/quilo que escrevivo. O rol pouco liga à minha contemporaneidade mesma – é verdade que desgosto da época que me coube (& cabe). Interessa-me mais a realidade alternativa da memória, por mais fás ou menos nefas seja esta ficcion’actualizada. Também à suposta cronolinearidade não sou fiel. Interessam-me o sortilégio mental, a prodigiosa entropia das imagens, a autoridade lacónica do verso que, rimando-a, goza com a (p)rosa. Afeição & repugnância. Olvido & antecipação. Experimente-se:

    Miguel Godinho conduzindo o Dois-Cavalos.
    A seu lado, o cão de côr dourada.
    Bolachas ambos vão partilhando.
    É o dia 2 de Junho de 1986, segunda-feira.
    Godinho tem por ganha-pão a reparação de electrodomésticos.
    Passados 35 anos & dezasseis dias, aparece in Parnada Idemuno, de Daniel Abrunheiro.
    O capítulo é escrito na Rua do Padrão.
    É o ano de Chernobyl, também: pútrida perpetuidade dele.
    Höstsonaten, do glorioso Ingmar Bergman, enriquece o serão já prolongado.
    Dão imagens aéreas dos brejos de Proença-a-Velha, onde o menino foi reencontrado.
    Miguel Godinho estaciona, vai de cão à beira-rio, do fresco recipiendários ambos.

    Claramente, o texto-experiência imediatamente anterior é, ou resultou em, coisa artificiosa. Serve porém para pelo menos uma coisa, sendo esta: mostrar o meu processo. Prosa ou verso (para o caso, não há dicotomia divisora), é este o meu processo. Interessa-me fixá-lo. Para nada & porque sim. E ei-lo, mostrado & (a)fixado como antigamente os cartazes de bailes há muito bailados.


18/06/2021

PARNADA IDEMUNO - 483 a 486

© DA.


483

Quinta-feira,
17 de Junho de 2021

    É-me preciso reconstituir a imagem do jovem H.C. viajando de comboio entre priscas prístinas montanhas todavia remoçadas pelo nevão que de noite tornou eterno o isolamento desta partida do planeta.
    A ocidente desta linha-férrea, B.R. escolhe uma hospedaria no litoral para completar o manuscrito da sua viagem pela Noruega.
    H.C. é de 1912-13.
    B.R. existe em 1954.
    Impõe-se-me a necessidade de ir de um a outro para obter uma espécie de constância, ou ambiência, ou aroma – ilusão tudo, bem sei, mas.
    Constância de bosquete em solo arrelvado; ambiência de avoengos vivos través o conforto da lareira perfumada; aroma a rosas orvalhadas de champanhe original. Todavia – e como sempre – é preciso tentá-lo por outras palavras.

484

    Em Proença-a-Velha, anda há muitas horas (28) desaparecido um menino de dois anos & meio. Mais de uma centena de agentes da GNR, bombeiros & outros operacionais da Protecção Civil buscam incessantemente a criança. Não se sabe se há gesto criminoso ou não na origem deste acontecimento. Apareceu a cadelita da família & uma peça de roupa do menino. É assunto o mais angustioso. Tudo está em consideração. Há binómios militar-cão no terreno. Drones perscrutam o perímetro aéreo. O perímetro é dado como de dez quilómetros de raio. O aspecto topográfico local dificulta, incluindo linhas-de-água & poços agrícolas, alguns abandonados.
    Ante tal situação, tudo se relativiza, esfuma-se tudo. A absoluta inocência do protagonista desarma qualquer arremedo de fé, ciência, moralidade, juízo. Em caso de crime por trás, mais ainda.

485

    Pela finitarde, o menino foi encontrado. Vivo, felizmente.

486

Crime & Bondade são atributos humanos, irreparáveis ambos.
Aquém & além do factor humano, a impiedade é inimputável.
Um trecho de rio, sombra recebendo do arvoredo a si anexo.
Citrinos silvestres pintalgando a encosta baldia.
Renôvo perpétuo da natural máquin’antiga, casa nossa.
Nem susto nem ânimo, pedra onde é pedra, água onde água.

Algures, a pessoa vai colhendo sinais expostos, ao des(a)tino.
Ali, houve a fábrica; há muito ossadas, quem a funcionou.
Filhos, afilhados, enteados, órfãos, ascetas, náufragos.
Trigo, centeio, aveia, cevada, milho, panasco.
Livro, tesoura, bule, alguidar, seira, torneira.
Bonança, espera, demora, aposta, viagem, insistência.

José Luís Martins Miranda, ausência justificada.
Terra-de-pão o não espera já, outro mestre terá.
Carlos José Duarte Conceição, ao sol como à chuva.
Pelas filhas se reparte cada tareco, cada tostão.
Jorge António Lindo Santos, gaibéu sem retorno.
Mármore todos, sombras em alguma frase ocasional.

Ou algum verso.



17/06/2021

PARNADA IDEMUNO - 481 & 482

© DA.


481

Quarta-feira,
16 de Junho de 2021

    Não há-de ser hoje que eu confunda Walter Scott com Scott Walker. Nem a mão-esquerda de Osbert Sitwell com a dextra do dito senhor. Isto, indo lá com calma, organiza-se. Muito cedo, pela fímbria da alva, vi telas de Mário Botas & de Paula Rêgo. Escutei o disco de 1973 dos Roxy Music. Os manos do boletim-meteorológico prometem abaixamento de temperatura de hoje a sexta. Oxalá. Posso abominar (e abomino) horóscopo-zodíaco-charlatanices, mas cá tenho, de vez em quando, alguma fèzada nos áugures da profeci’atmosférica.
    É dia de ir ver o Zé. Por enquanto tenho o 12 dos Actos dos Apóstolos para entreter a caspa. (E pronto, Herodes já se lixou, para desgosto dos judeus.) Grassa fora a hora em cinza: nublação uniforme, nem rasgo áureo de sol. Eu gosto. O arvoredo choupalino parece mais compacto, mais conforme a solidariedade arbórea. Flúi o trânsito na via-norte. As televisões embandeiram-em-arco com o triunfo português de ontem (0-3 na Hungria). As massas são fáceis, vão a toque lombar de cajadadinha, problema nenhum, despedem duas mil pessoas da TAP mas dois altos-tachos desta vão selfielmar-se em Madrid a dizer que os espanhóis são bons para recrutamento, abençoados sociopatas.
    Anselmo, da Tipografia Efebo, já pediu contagem de anos de trabalho com desconto. Reúne em Dezembro próximo os requisitos legais para a pensão de reforma integral. Não anda contente, achou-se de repente envelhecido, sempre gostou de trabalhar, sempre são quarenta & oito anos a dar-lhe no duro.
    Temporal saraivante anda varrendo Minho & Trás-os-Montes. Custa ver o labor agrícola devastado. Junho roubou a Maio a época electrotrovejante.
    A notação noticiosa que vou fazendo, todavia, não é nem mais nem menos fiável do que as lucubrações que dedico ao imaginário meu recorrente. Ou assim: entre nós Portugueses, árvores derrubadas pela ventaneira; entre os antigos Romanos, Lucina presidindo aos partos. Assim articulo o meu dia. O facto (verdadeiro, indesmentível) de eu passar ao lado de uma grande carreira não me obriga a passar ao lado do Tony Carreira. Digamo-lo assim no intuito de fazer sorrir o fotógrafo.
    (Aos oito minutos para as nove, beleza: a pucciniana Tosca povoa de sofisticação esta habitação. Muito pode a Grand’Arte. Fine Atto Primo.)

482

Dura o mistério quanto dura a ignorância.
Como é morrer de sede em pleno mar?
Palavras, trá-las o vento: humanas nem todas.

Que dia viveste?
Que dia tiveste?
Que dia fizeste?

Revi a horta anexa ao Lar do meu Irmão.
Achei-a magnífica, próspera, laborada.
Bela obra é ela, vale bem versos.

É ainda válido lançar os dados.
Há ainda inacabamentos.
Há ainda o que começar.

Não V. peço contas de Vossos anos.
Algumas dos meus V. conto todavia.
Mal V. não faz – e a mim, algum bem.

Vi algum sol, ofuscou-se depois a finitarde.
Quando volvi, já arrefecera, ventava um pouco.
Em doméstico recato, não espero nem desespero.

Pai, mãe, casalito de filho & filha.
Em zona lacustral-montanhosa.
As crianças brincam na água, os pais veneram-nas.


16/06/2021

PARNADA IDEMUNO - 478 a 480



478

Terça-feira,
15 de Junho de 2021

Orlando Azul frequentou o Trinity College, Dublin. Eu não, nunca.
A família Castro-Azul era próspera; Orlando, brilhante.
Deixou folhetos: hoje, como então, em absoluto ignorados.
Poderia (deveria) tê-los encorpado em volume, não o fez.
O que fez, fê-lo em privado-livre, seu modo único de vida.
Sabe-se que queimou resmas de manuscritos nos últimos meses.
Não teve um Max Brod.
Não teve um Silva Pinto.
Esses últimos tempos foram há inacreditavelmente muito.
Não penso nele como se usa pensar em gente malograda.
Orlando não era, nunca foi, nunca se deixaria ser um malogrado.
Creio que nem o próprio pai alguma vez o pensaria assim.

A sanidade? Dizei-me Vós algo dessa ficção, em este mundo.
Alguma vez me vistes apedrejando andorinhas, por exemplo?
Lavemo-nos todos antes de morrer, depois não conta.
Há quem se lave queimando-se papéis, conte o que contar.
Mas apedrejar andorinhas?
Eu não, nunca.

479

    Susana, até o fim, não desmereceu (d)o companheiro.
    Muito porfiou ela em prol do reconhecimento artístico que lhe era devido, verdade seja dita & lembrada, muito porfiou ela.
    Beneficiou Maló de sua Susana? Quem de-boa-mente o negaria?
    Uma tia dela, Elisabete Regina, era fiel cliente do taxidermista: queria consigo para sempre os animais de sua exclusiva estimação. Susana queria bem aos animais também – mas a Maló sobre tudo o mais.
    Assim foi até 1989. Então, o Nada aboliu o Depois, a tudo & a ambos volveu perpétuo Antes.
    Ou, por assim dizer, empalhou-os.

480

    A minha materAvó, Cândida Leite, conheceu todas as décadas do século dela. Por poucos dias, não posso dizer o mesmo do grande Samuel Beckett: morreu aos 22 de Dezembro de 1989. Nascera perto de três anos depois da minha Avó, morrendo cerca de cinco antes dela. Apesar de mais novo & de menor longevidade, foi Samuel – e não Cândida – a receber o Nobel da Literatura. Para este facto incontornável, deve sobremaneira ter contribuído outro facto incontestável também: ela apenas sabia assinar a singela dupla onomástica que civilmente a resumia. Mas sempre legou ao mundo a minha Mãe, que só há dez anos se faz esperar como Godot.
    Acudiram-me ambos à mente, em o hoje correndo.
    Amanhã, talvez o dia seja para, sei lá, o meu paterTio Arménio & Malcolm Lowry, não sei, ainda a meia-noite se me não deu à janela, esta mesma a que, de olhos fechados, deixo cair o lápis.

15/06/2021

PARNADA IDEMUNO - 477

 

© DA., Sr.


477

Segunda-feira,
14 de Junho de 2021

Manhã

A prima recorda carinhosamente o primo na infância
Esse mesmo primo depois volvido famoso mas contrariado
O rapaz que caminhava milhas com o pai pela mão
É bonito o quadro em invisível moção que da voz dela surge.

Concha, a prima; Samuel, o primo; 110 anos lá vão
Tanto faz ter sido há século & tal quanto ontem
Ontem é passado para tão sempre quão um amanhã já gasto
Se descuidamos o passo, atolamo-nos não sabendo ler nem escrever.

Há pouco, os camiões em rota de abastecimento
Lá iam eles gigantemente pela pequenez quotidiana
Lá seguiam carregados de coisas dinheirosas
Muito diligentes devorando asfalto, enxugando horários.

Ri-me da cena em que um G. desmascara uma cègada
Uma suposta medium em aparição de criança morta
São páginas escritas & publicadas em Janeiro de 1880
Já pois lá vão bem mais de quinze dias.

Tudo se alinha em microcosmo suficiente
Dados, imaginados ou roubados, os elementos imperam
Concha & Samuel, o tal G.(S.), a charlatanice mediúnica
Pai & filho entendendo-se sem abrirem as bocas.

Antes ’inda do meio-dia deste mesmo dia
A favorita do rei desperta rancores mui azedos
Duzentos anos passam no fósforo do costume
Sacham para milho as mulheres de Prelada.

Águas sãs, lanifícios fortes, pedra imemorial
Urde-se o fio, leva-se ao tear, não é festiva a época
Um rapaz doente dos nervos não sai do pátio
Tem quarenta anos, é um menino anacrónico.

Santíssimas irmandades do Santíssimo
Passeiam ao sol o Corpo de Deus
Corpus Christi de Platero y Juan Ramón Jiménez
Não longe é essa raia de Espanha.

    Se Vos parece confusa esta enumeração, posso sempre passar a mais prosaica concatenação de elementos. Nada me custa, favor é nenhum, por quem sois. Ramos/fogaças, foguetes rastilhando de enxofrante fedor a caminho de Deus. Um coelho vivo arrematado por 37$50.

    Leitor, sou o único vivo restante sobre tão remo(r)tas coisas. O reinado de um George IV, que não era naturalmente natural daqui. Um João Mocho & um José Assis conversam em frente à capela. O sol tornou-se áspero, a caliça range & greta-se.

    De pedra, a escadaria goza a sombra da figueira velha. Abre uma lata de pêssegos meados em calda a Belarmina de Alenquer. O homem dela é Jerónimo, muito gosta ele de falar alto pela aparelhagem. Da Lajeosa, Casimiro Dâmaso pensa botar casa por aqui.

    Um Fernando foi para Lisboa, conta reformar-se lá, voltar de vez só por velhice consumada. Um Pascoal ganha 140 escudos por dia como pedreiro. Não sei quanto por dia auferia o tal quarto George. Talvez mais qualquer coisita do que o dito canteiro.

    Murmura no regadio a água muito pura. Vê-se no adro, brincando sem bulha, os primitos Samuel & Concha. Tasquinha erva molhada o bom burrico Platero. É soado o meio-dia.

Tarde

    Tenho, devagar mas imparavelmente, evitado contrariedades que, em mais novo, não saberia arredar sem retorno. Ontem à noite pensei nisso, hoje à tarde penso de novo nisso. E depois passa-me, saudade não deixando.
    Um panorama de terra escocesa abre-se ao apreciador.
    Longe, na loja de utilidades, o velhote Marto lida.
    Em Aguiar da Beira, vai varrendo o corredor
    de sua casa, mas sem pressa nem fervor,
    santa em andor distraída, a velhota Margarida.
    Alheado do mundo, redijo uma tarde que já se me não faz cedo. O Gatito & eu batemos a sesta, corridos estores & cortinados em penumbra. Tal par de horas foi-nos de doçura, exilados adentro nossos escaninhos íntimos. Ao despertar eu, já o meu felídeo renascera em sumo apuro de suas faculdades: espreguiçou-se em arco olímpico, escancarou a boquinha aguda, eriçou pêlo a pêlo o seu níveo manto, foi beber água como um justo. Por mim, refiz o diagrama nervoso com uma estocada de cafeína a preceito, esfreguei as fuças com a água mais fria que saquei d’el-cano, reiterando ao espelho um rosto de quem tinha vinte anos há trinta & sete idem.
    No televisor, pedaço de uma cidade por que sumariamente cirandei nos primeiros dias do Maio de 1992: Sevilha. Se calhar, nunca mais lá volto. Sem ser por tara de miron’erotómano, recordo a beleza estonteante das Sevilhanas, o brio delas, o garbo delas, a corporeidade a tira-linhas delas. Quase três décadas volvidas, é lembrança gentil ainda partilhável com Vossas Senhorias.
    Rapazes da minha terra mostram cabeças encanecidas.
    Às vezes, topo algum deles quando desço ao burgo.
    Lá andam eles lidando, tratando de suas vidas.
    Uns são já avôs de criancinhas apetecidas.
    Eu ’inda não, não o quis ’inda o Demiurgo.

Noite

Ante a noite nova, sinto antigualhando-se-me a atenção experta,
exorar valendo nada ao que ou a quem não for por não ser nem haver.
Há muito não me descaso & saio pela nocturna via aberta,
passos sem relógio atirando ao aonde vou & ao que vier.
Na marquise, vertical, recebo o poente já salmão, já violáceo.
Já refrescam sombras a Geria, a Cidreira, a Póvoa do Pinheiro.
Moravam por ali o Zé Lacoste, o Asdrúbal & o Acácio:
emigraram os dois primeiros, mora ora em Alcarraques o terceiro.
Sair, saio só quarta que vem, lá quando a tarde for meã.
Então até, por casa fico, leio, escrevo, mexerico, comporto as horas.
Planos, nunca tenho – tenho por infinito o eventual amanhã.
Devo ir dormitand’acordando, petiscando biscoitos a desoras.
Alheias genealogias espiolho de volumes velhos meus companheiros.
Tenho caixotes deles, pecúlio de pios anos irretornáveis.
Eu, ao tempo, oficiava, até ganhava alguns dinheiros.
Hoje folheio mortandades, nomes & datas enumeráveis.
Pensa adorn’alindar-se a tromba quem se arremesquinha:
tenho por ’í-além visto muita carranca esborratada.
Não sei que seja metrossexual – o mais certo é ser nada,
nada que ressuscite da morte a lázara moscazinha.
Já o trapo de flanela pus de lado,
refinado lençol me amortalha.
Se de algum sonho avindor despertado,
sorrio despertando quando calha.
Normalmente não, todavia, no entanto, mas & porém.
O mor é acordar modos-que alquebrado,
lento, macilento, remelento, pitosga, atapetado
do comichoso ácaro que comigo acorda também.
Estar-nos-livros é tido por saber-de-fonte-segura:
com os meus não conteis, se for esse o aspecto.
Eu rio-me por fora – mas por dentro, circunspecto,
não auguro ao que escrevo grande fortuna futura.



14/06/2021

PARNADA IDEMUNO - 475 & 476

© DA., Sr.


475

Domingo,
13 de Junho de 2021

    Este é o caminho, hei só que segui-lo afora.
    Caminho não é masculino de caminha.
    É rectilíneo labirinto, torta recta.
    É o que de trás era já porvir.

476

    Às seis da manhã, primeiro pão para os primeiros pardais do dia. É momento da mais segura alegria. O prazer de estar vivo toma-me o instante, que não regateio à escrita. Lavada da intempérie do entardenoitecer de ontem, a terra corisca de saúde aeróbica. À marquise, atirado já o pão mole, conto os pardalitos. As pombas não tardarão, atraídas pelo fervilhar dos pequenitos.
    Antes dos pardais, vi o corvo.
    Era um fragmento alado da noite acabada.
    Vive no bosquete, tinta móvel nigérrima.
    Muito belo, velho talvez, conhece o Tempo.
    Não é comum dar-se por visível.
    É meu privilégio mirá-lo na alva fresca.
    Traço o corvo negro com lápis amarelo.
    Tento inscrever-me o Tempo dele, escrevendo-o.
    Às vezes, ele é vários – como Pessoa.
    Aos domesticados, baptizam-nos Vicentes.
    Este é porém, como Ferré, sem dieu nem maître.
    O meu é de si só.
    Em perfeito silêncio o contemplo da marquise.
    Nobre como uma atitude rara.
    Ele sim dono de si, mestre da solidão.
    Nenhum dos versos (chamemo-lhes versos, vá) acima alinhavados pretende fazer do seu redactor um portador de candura seráfica, um anjo hipersensível, um falso dado a falsetes. É (sou) mais simples: em menino, fui feliz sem necessidade de estímulo, motivo ou justificação; agora, sou-o quando me levanto cedo & tenho pão para dar à passarada indomesticada. É beleza, pronto. O lápis amarelo funciona, esta é uma manhã feliz. Organizei os livros em trânsito ledor, esperam-me horas de enriquecimento vinculativa carga fiscal – sem contas a prestar, portanto: nem ao Estado, nem a medíocres.


13/06/2021

PARNADA IDEMUNO - 471 a 474

© Giovanni Boldini


471

Sábado
12 de Junho de 2021

    A meio da tarde, dava na TV o jogo (para o pandemicamente procrastinado Euro-2020) Dinamarca-Finlândia. Aos 43’, o (excelente) n.º 10 da selecção anfitriã, Christian Eriksen, caiu inanimado. Agora (18h10m), ainda não se sabe mais grande coisa. Assistido no relvado, o jovem de 29 anos foi já levado para fora do campo. Espero que não se repitam Fehér (Benfica) & Pavão (Porto), entre outros malogrados tombados em campo para sempre.
    (P.S.: Nas seguintes horas, consta estar consciente & estável no Hospital de Copenhaga. Ainda bem.)

472

    Troveja remotamente mas sente-se bem o fragor atmosférico, já caiu chuva grossa, é espessa a aragem, ancestral poder sobrejaz & preside ao real. É de uma pessoa se seguir humilde, singela & órfã de qualquer heráldica. Eu gosto de trovoadas, o meu materAvô temia-as. Eu gosto do espectáculo, da fúria canora dos elementos (embora chamar-lhe fúria canora seja vã prosopopeia ou fraquita metagoge). Vem, logo, a bonança. (Mas ainda ribomba, ainda estrondeia, é ainda de riçar galinhas a electricidade à solta.)
    Aquilo do susto cardíaco do rapaz dinamarquês suspendeu-me a leitura que esparsamente ando fazendo do primeiro tomo autobiográfico do senhor Osbert Sitwell (UK, 1892-1969; Left Hand, Right Hand, penso que de 1943). As novidades são benignas: está vivo, já fala. Se volta ou não a ser futebolista, é por ora o menos.
    Em minha domesticidade, aborrece-me o estado de um dente. Vou ter de livrar-me dele a alicate, estou mesmo a ver que sim. Chatice à vista, portanto. Ou amargo-de-boca, literalmente. De resto, livralhada & horas mais-ou-menos vagas.

473

    Um belo fragmento de Osbert Sitwell (op. cit.):

    “(…) the blood, that fragile scarlet tree we carry within us (…)”

474

    Instaurada a noite. Vi um teledisco de 1982: Estou Além, de & por António Variações (Portugal, 1944-1984), um dos nossos mais originais artistas finisseculares. Viveu pouco & muito depressa – se ainda hoje é lembrado, é porque o merece.
    Tive de cear umas papas lácteo-cerealíferas por causa da dentuça avariada: como os bebés & como os vèlhadas. Ai a minha vida, suspiro eu à guisa dos Xutos & Pontapés (Portugal, desde 1978). Nada de demasiado grave.
    Mais artistas do dia que ora fenece: Manuel Vásquez Montalbán (Espanha, 1939-2003), Mark Ruffalo (USA, 1967), Raul Solnado (Portugal, 1929-2009), Carlos Paredes (Portugal, 1925-2004). Em excelsa companhia ando, caladamente selector de quem me faz crescer por dentro.



Canzoada Assaltante