Daniel Abrunheiro

05/10/2022

H. EM BUSCA DELFIM - 131 (primeiras sete estrofes)

 

131

 



Por o meio-dia de indeterminado dia,
vi crianças fascinadas por a condução de catrapilos.
Era na minha rua-infante, viver não pesava quilos.
Era nas quatro-estações, um verão-por-dia.

Hoje ainda assisto a tais dúcteis manobras.
Admiro a eficiência dos que trabalham (nas) obras.
O mesmo (in)tento fazer, sim eu, que já por lá andei:
dei serventia a pedreiros &, como oficial, pintei.

Por a mediana tarde de dia duro de caloraça,
rimo as minhas merditas de pouca graça.
Sei mui pouco – e, demais & aliás, quanto sei,
dei às pombas & aos pardais, que mais não aproveitei.

Estou com’outrora senhor meu Pai dizendo:
– Velhotes, trato-os eu por ’inda rapazes.
D’envelhecer bem nem todos são (somos) capazes.
Na velhice minha, meu Pai renascendo.

Cuido de versejar sem mor ofensa
a costumes & a leis consuetudinárias.
Sinto bem mais em eu do que em mim pensa.
Há mais gente do que pessoas (& alimárias).

Sejam, breve, as quatro da tarde? Descuido.
Digam-me por e-mail o e-mal pernicioso?
Eu ando em amargura, mas algo gozo:
ter sido infante que fui, sim fui do

Clube de Futebol União de Coimbra (2.6.1919),
fui (& sou) de minha Mãe & de meu Pai.
Hoje, a estiagem perpétua, nada chove
– & eu ir-me-ei depois daqui sem dar um ai.




03/10/2022

H. EM BUSCA DELFIM - 130




130

 



Mãe que não reverei senão em verso:
concebeste-me sem pecado: o Universo.
Pai que não reterei na paz dominical:
condenaste-me a teu nome & a Portugal.

Se Vos recrimino? Nem de tal sombra!
Vejo-Vos ossadas & beijo-Vos, ossadas.
Pouco me espanta ora, pouco me assombra:
sou filho de Vós-dois-tudos-pequenos-nadas.

Escrebebo, meus Pais, sob esta tília.
A V.ª morte me fez órfão de família.
Os resto-circunstantes? À vidinha.
A deles, a que é a deles. A minha é minha.




30/09/2022

H. EM BUSCA DELFIM - 129 (integral, desculpai-me o mau-jeito)

 

129

 

Em instante de pausa matinal, na esplanada, Hermínio ouve dizer em mesa próxima:

 

“– A minha mãe ficou viúva aos dezoito anos, quatro filhos por criar, dois dos quais gémeos.”

 

São duas velhas: uma falando, a outra escutando. H. acha piada ao dito da velha, regista-o aqui mesmo, aqui a exactas cem páginas do manuscrito

H. em BUSCA DELFIM

ou

AINDA NÃO SEI QUE NOITE SEREI ESTA MANHÃ

 

Sob tílias frescas repousa. Oito & ½ da manhã. Há tempo para pausar-se.

Enumera elementos transitórios (fregueses rápidos) desta esplanada sob tílias:

 

Vante Celáfilo Cedral Mabílio, 44 anos, engenheiro civil;

Cazorba Anséptimo Hortal Trende, 18 anos, aprendiz de algo;

Sota Quipério Namarreta Cerdiz, 52 anos, enfermeira de pediatria;

Dopó Bom-Corpo-de-Deus, 68 anos, santomense, aposentado;

Claudina Inzabel Melriço Geitoeira, 15 anos, repetente do 8.º ano;

Porfírio Barão Poejo Bilro, 22 anos, pingponguista da AAC;

Almira Morim Quadros Borralho, 32 anos, desempregada;

Toinha Barroca Convento Caldeireira, 87 anos, senhoria de garagens;

Leandro Jazigo Marrano Passarinheiro, 58 anos, dramaturgo;

Vilhena Perfeitidiota Malpazes Repissa, 60 anos, chulo da Câmara Municipal;

Torresma Betencurte Demadeiros Pósito, 62 anos, açoreana das Flores.

 

Consumos da onzena supra-enumerada:

 

Vante: quartilho de água-mineral-limonada;

Cazorba: coca-cola (mas pediu pepsi, que aqui não servem);

Sota: chá-de-cidreira;

Dopó: bagaço;

Claudina: gelado de chocolate;

Porfírio: imperial preta;

Almira: bica cheia;

Toinha: galão claro;

Leandro: absinto;

Vilhena: mijo-de-burra-prenhe;

Torresma: licor-de-alperce.

 

Entre gentes & consumos díspares, H. é quase feliz.

As linhas resultantes mesclam observação & especulação.

Mesclam também & ainda: fonética & catálogo, nome & dom,

preceito & preconceito, memória & invenção, domínio & perda,

transitoriedade & remanescência, florilégio & sortilégio, zero & infinito,

luz & distância, jogo & labirinto, animalidade & cibernética,

hermenêutica & teatro, sincronia & bolor, aroma & cegueira,

irmandade & solidão, miragem & estatuária, plenitude & deserto,

angústia & monopoly, ultimato & república, rancor & madressilva,

chave & jardinagem, sinapse & aço, óculos & açúcar-amarelo,

paleta & anti-erotismo, dinheiro & (des)infância, tinta & papel.

 

Já o Sol amadurece em Rosa Descomunal.

No parque amplo, carros como cães abandonados.

Tílias & cedros segregam a baba benigna sombra chamada.

A mãe daquela velha primopariu aos quinze anos de nascida.

Sobre a mesa de H. floresce a imperial mui bem tirada.

As bolhas de gás da cerveja indiciam invisíveis mergulhadores submarinos.

Canaviais estiolam de amarelecimento, perto do Mondego embora.

Rapazes & raparigas em excursão-rumo-algarves: alegre barafunda.

Condutores de BMWs negando cêntimos ao pedinte-dos-semáforos.

Condutores de Renault-Clios dando.

A Poesia maiúscula liberta mais do que o trabalho/arbeit em Auschwitz.

 

Continuo sem saber que noite serei esta manhã.

Continuo no dístico O amor é cego / A memória é o cão de cego.

Continuo crendo que só a ubiquidade nos tornaria eternos.

Continuo investindo na trindade Outubro, Outono & Rosas.

Continuo mi(s)tificando a Infância como Idade-do-Leite-&-do-Mel.

Continuo (des)contínuo de minha escola interior.

(NB: contínuo, não professor.)

Continuo não sei porquê, nem por quanto, nem até quando.

Continuo anaforicamente por razão de ritmo.

Continuo sem esperar.

Continuo quase sem desesperar.

 

Novas presenças à sombra subtiliana da esplanada antechoupalina:

Motário Ronheira Valporca Naval, 50 anos, leitor de Camus (anti-Sartre);

Esquadriça Vivende Canarim Garres, 50 anos, leitor de Sartre (anti-Camus);

Pelicano Belimano Angústias Antíloquo, 60 anos, leitor do católico Gabriel Marcel;

Jejúnia Pompa Fastos Rosicler, 35 anos, leitora do católico Graham Greene;

Feliciana Faloporsi Macrebe Columbino, 20 anos, leitora de   Brown (& de merdas-parelhas-afins);

Florentino Brelxelas Extravindo Melumbano, 90 anos, leitor de tudo & todos;

Cedina Andor Partidrizes Demogreira, 19 anos, leitora de Manuel António Pina;

Conserúndio Afã Basteiro Onzenardo, 28 anos, leitor de Al Berto;

Nardo Esparto Caruma Brojo, 37 anos, leitor de Alberto Pimenta;

Baquim Urze Giesta Linhos, 46 anos, leitor de Guerra Junqueiro.

 

Nos derredores rodoviários, segue passando & desgraçando – quê?

A mortandade dos acidentes-de-viação: boas estradas sujeitas a maus condutores.

Nas vielas mais mijadas da Cidade, trafica-se o ópio a tostão mortífero.

(Pensais talvez que V. malogro desinformação? Pensais mal.)

(Pensais bem, porém, quando concluís que tergi(-)verso de mais.)

A vida não é, ao contrário da amargura, devagar.

Viúva aos dezoito anos, mãe de quatro petizes adequadamente infelizes.

Ainda não sei que amanhã será a minha noite.

Não serei, já bem o sei, nem ubíquo nem perpétuo.

Posso ser, quando muito, vitalício.

Tenho saudades lancinantes do senhor-meu-Pai.

 

Como escrevi no Caramulo, aqui há uma dècadazita:

O senhor é o meu Pai / Nada me faltará.

A manhã roda & chia em seus gonzos-bonzos.

Renovada freguesia tipo-circense vem ajuntar-se a este sínodo.

Dar-Vos-ei dela conta & rol na próxima undécima.

Entretanto, procedo ao inventário de todo um silabário de escrebebedor.

Lonas isolantes (ou telas) para precaução de uma chuva que não cai.

O senhor Henrique Santos pranteando mudamente o passamento de Luís.

(De quem? De Luís Manuel Vide Miranda, 1960-2019.)

Chuva que nos não vem à terra – mas aos olhos, sim.

Luís Manuel, professor & músico, cerce cortado da nossa instância.

 

Jacobém Canditerno Missamá Oculaviano, 200 anos de morto, esquecidíssimo;

Imbraimo Cenarmarne Dafé Galavaz, do C.E.P., morto no Marne em 1918;

Gardénio Escola Pulcromano Catraca, frei franciscano (1917-1994);

Primaz Chamiço Patitas Telhado (Moimenta da Beira, 1898-1899);

Sancho-Cisco Madre-Silva Fonte Bispo, polígrafo (1929-1987);

Pedro Santos Velho Lúcia, edil, n. 1983 (talvez em Leiria, não sei);

Vitório Vaze Vale Glaciar (camionista desde 1982, ex-homeopata);

Tambalazé Curia Alhos Vedros (artista circense, s/d);

André Bernardes Acúrcio Mendes (actor sem teatro, s/d também);

Belarmina Fulgor Fúrias Mansas (cozinheira de mão-cheia, n. 1945);

Cesárea Maria Assis Percal, ménagère ou coiso, n. 1961.

 

Sou do tempo em que Nacho feirava de Norte a Sul, como o vento.

Sim, recordo o meu materAvô, precária memória embora história.

A infelicidade existencial de Albano: corneava-o, imp(r)udente, a mulher.

(A gente não sabe a verdade nem por a metade, quanto mais toda.)

Escrebebo a sós, mas prefiro beber em sã & louçã companhia.

(A moda das tatuagens pegou raiz-de-estaca: pobres conspurcados.)

Verdade-seja-dita – mas só a tentos, tentativas, variações & alternativas.

Não percebo o Cosmos – mas percebo a improbabilidade de Deus.

Julgo ter-me perdido de Elias Rodrigues Faro em 1998 – cedo de mais.

Julgo a sexualidade como algo do mais absolutista foro-privado.

Nunca exibirei defeitos, digo-eu-co’s-nervos, quais obstinadas virtudes.

 

São as onze-horas-seis-minutos da manhã de quinze-do-sete-do-vinte-&-dois-XXI.

Não me importam: nem-o-que-nem-o-se almoçarei antevesperalmente.

Talvez uma latita de anchovas? Ou de cavalas? Ou de atum?

Ele há desimportância, ele há distâncias, “eu realmente”

A verdade é ir redactando-me principescamente à pobre.

Trabalharei das zero às oito próximas – por tostões.

Ergo-me cedo, esfrego de fria água tanto a cara quanto os colhões.

Taxistas param por aqui, ingerem folhados, tomam garrafadas de água.

(Fechar-com-chave-de-ouro-o que jamais foi aberto?

Story-of-my-life – responde-me Hermínio, ante o silêncio cúmplice de Delfim.)

Homens-viajantes-por-parques-verdes atrelados a cães-humanizados.

 

Cristiano Bucuresto Odessa Danzigue, pedinte-de-semáforos, idade(inde)terminável;

Chino Ancestro Mêine Cenar, bissexual que não conseguiu chegar a tri;

Calimero Precito Dazul Terça-Feira, vigilante de asilo-de-pobres, 58 aa.;

Carlos Manuel Silveira Ferro, electricista, da Portela, n. 1946;

Maria Dengrácia Valebesteiros Botulho, luso-venezuelana, 35 anitos apenas;

Hermínia Cândida Rita Isaura, n. 1900, ano da morte de Eça de Q.;

Petra Cante Leo Blume, italiana nascida em Dublin, 16-6-1904;

Blú Quadrado Empena Dóide, mexicano nado em Oxford (1804);

Amado Elegante Belinho Sapateira, Pedrulha-do-Campo, s/d;

Romano Maurício Dodete Torres, editor de porcarias-tipo-Dan-Brown, Lx., 1940-2012;

Másculo Erculano Camilo Veirais, tipógrafo, contentinho-da-vida.

 

A par da Música, considera H. a Ornitologia a prima-obra-arte.

Os alados cantam a escola primeva, a gregoriana filosofia.

Também H., daqui não saindo, é cidadão-de-toda-a-parte.

E a ele pertencem, a que pertence, cada Filha & cada dia.

Que a paz requietória é inegável? Pois bem o é.

Que o furor refeitório é inadiável? Pois mal o é.

Aos 58 anos (+ dois meses + 7 dias), H. já alguma coisa sabe.

(Sabe o que nele há, o que houve, coube & cabe.)

Disto decorre sua livre versalhada.

Esta mesa: sem editor ou futuro, só merdice & mais nada.

(O Rui Candeias acaba de pagar, gentil, um copázio de cerveja.)

 

Atentai V. agora: Inácio Vasco Júnior Igreja, 64 anos, liberto;

Damasco Pancrácio Sénior Verdeja, 74, esperto;

Ceitil Vital Aramaico Alberto, 82, previdente;

Zé-Manel-Beto-Toranja, 53 & presidente;

Cristino Varandim Goes Repilado, há meio-século nado;

Tristão Virgínio Araújo Maldonado, na Barrinha de Mira há muito afogado;

Pancelária Dasdúzias Debolo Dançã, sozinha p’ra sempre desd’esta manhã;

Carlitos Romeno Ágata Lencastre, comedor de noz, amendoim & avelã;

Elizaberta Valbom Dessanjoão Dever, olhando o calor que nos faz t(r)emer;

Chatice dos Versos Malfeitos Derroda, a foda é não saber-se escrever.

Mas mais V. digo, apesar-d’-embora-todavia-entanto-&-porém:

 

Tenho saudades lancinantes da senhora-minha-Mãe.

 

Em instante de pausa matinal, na esplanada, H.

etc. 





29/09/2022

H. EM BUSCA DELFIM - 124 a 128

© DA.




    124

    Um qualquer mecanismo neurónico faz com que, ao despertar, esqueçamos os sonhos tidos na noite jacente & requietória. Ainda bem que assim é. Trata-se, não duvido, de uma autodefesa. Como toda a gente, recordo pouquíssimo de sortilégios oníricos.
    Uma ex-namorada que, já ex-, se matrimoniava todos os dias (e pela igreja, não menos) com noivos diferentes;
    Jesus Cristo num túnel verde-etéreo oferecendo-me o cálice;
    O meu Cão Amarelo no Monte rindo-se qual criança;
  Palavras do léxico jurídico pintadas na areia da Figueira da Foz: ius solis, ius sanguinis.
    A minha Mãe, viva, absorta & morta.


    125

    A pomba solitária hoje almoça.
    Desgarrada de bando a encontrei.
    Na Rua do Padrão, Coimbra-a-Moça.
    Trazia eu muito pão, algum lhe dei.

    Consola-me ver farta a avezinha.
    Lauta-me ser dador panificante.
    É como posso ser munificente.
    E é iludir-me vida não-sozinha.


    126

    [Miguel Torga & Manuel Alegre, perguntais?
    Digo: homenagens a mais para obra(s) a menos.
    A mediocridade sói ver-se & dar-se a carnavais
    de consecuções que, sejamos francos, são de somenos.]


    127

    Amo as minhas Brancas, o meu Sépia, o meu Amarelo.
    Falo de Filhas como falo de Gato & de Cão.
    Retiro da Beleza quão tão-só Belo.
    O resto, dou-o ao desbarato d’alhei(r)a condição.


    128

    Aparece-me, no todo verde vestida
    (sem mangas & de bainhas pelos joelhos),
    a loura-natural de olhos vermelhos,
    Clementina (-que-luz) Queluz Guarida.

    Ela é filha de ignotos parentes.
    Ela nasceu p’ra mover as machas gentes.
    Nem sempre o Sol é lindo – mas ela é:
    mas é que a agarrou o Chico-Zé-É.

    Chinelitas tão fáceis d’ouropel!
    Pèzitos que o verniz ’inda não grita!
    Hermínio acha-a propícia a Daniel
    – só que disso se ri Delfim, cru & catita.

    Toma bica-com-gelo-&-limão.
    Esplend’ela seu seio anti-anarca.
    Cada mamilo seu fura evasão
    da seda da blusa (cara & de marca).

    Pèzitos que sequer flocos de neve.
    Valem dedando crus de luz sandálias.
    Ancas que, tocadas só ao de leve,
    incendiariam satã-parafernálias.

    Namorou ela c’um oficin’-auto
    chamado Rui Delartes Altorninha.
    Não eram leitores de Poe, sequer de Plauto.
    Eram o mor-casalinho-da-vidinha.

    O problema (meu) é imaginá-la imagem
    (em branco de louça a mais sanitária)
    debruçando a natura una & vária
    & lavando o rosto sem maquilhagem.

    Que fortuna será, sem vestido verde?
    Que unhas bem cortadas de que mãozitas?
    Preferirá bidés? Ou então sanitas?
    Que retrato a retrata & há-de ser de

    mais perfeito rosto dentre bonitas?
    Já pagou a bica, o bolo-de-arroz.
    Ficam estas linhas escritas
    por quem nunca nela ainda se pôs.

    [Quão iníquo resulta verso ad/mirante
    de pessoa bonita mas sem culpa
    de bonita tão ser a versos (carago! adiante!)
    que só-mirar ainda é desculpa.]

    Vestida de verde qual um sonho traspassado a bosque,
    é uma visão-tesão perdoável, não de mim que a busque.
    Por ignorância (& falta d’agenda), não serei quem arrisque
    prejudicar excepções, não serei eu, desde que.

    Vestida-de-verde, mais branca no que ver deixa.
    Se uma afinal, não se dá como em Condeixa
    se despem tem as casadas tão cansadas de limpeza
    por sessenta-&-tal-tostões – é-uma-casa-portuguesa?





28/09/2022

H. EM BUSCA DELFIM - 119 a 123

© Garry Winogrand



    119

    (Impossível, quase, respirar.
    À berma dos quarenta graus centígrados.)

    Vi & estive hoje com o Gato-Muito-Mais-Lindo-do-Mundo.
    Cirandei por alheia ca(u)sa, que desertei às catorze.
    Pego às dezasseis, hei que aguentar até à meia-noite.
    Nunca foi fácil ser pobre, mais agora com esta caloraça.

    Arábico Manuel Nobral Entrudo entra – neste Café.
    Vem atestar-se de cerveja gelada, sequiosíssimo.
    Acompanha-o Facécio Paupeto Bergue Capilé,
    mas este não é de álcoois, é mais sumo (sacerdotíssimo).



    120

    No antigamente de há pouco, só se falava do COVID – que por aí continua grassando & desgraçando.
    No dantes de há um pouco menos, só se falava na guerra ucraniano-russa – idem.
    Agora, só se fala no vento forte que lavra incêndios neste País imprudente.
    Gerónimo Inácio Navarro Camacho, de ascendência índia, comenta os fogos devastadores de cada hoje com Lande Vianda Sás Freixial, madeirense de Porto Santo. Diz Gerónimo a Vianda: “– Está uma canícula de ladrar aos céus!”
    Hermínio não fala, só escreve; não conversa, só versa.


    121

    Casal de velhotes. Vieram a almoçar ao Cruz.
    Levam num baldito restos para seus cão & gato.
    A tarde está cerrada em neblina incendiária.
    Quarenta-graus-à-sombra, um inferno obscuro.

    Hermínio trabalha dentro de hora & meia.
    Transpira como uma estátua de sal.
    Custa-lhe resignar-se à impotência, ao Verão enlouquecido.
    E não se vê ante o mar há tempo de mais.

    Quando pode, abeira o Mondego, busca brisas.
    Mas é um rio devindo chilro pela caloraça.
    Há mil anos (ou: no milénio passado), com Agodim & Azenha,
    nadou no poço choupalino popularmente “Frigorífico”.

    Sim, com Agodim, Azenha, Bandoz, Brinca,
    Mandrágora, Clavins, Permata, Tó-Zé I,
    Belonte, Brácara, Julimenos, Fidalguim,
    Tê-Pratas, Electro, Ciano & Viermona.

    Já não. Já nunca mais tal sim ao Estio.
    Delmonia morreu, Máledo também,
    Chico-Tropa também, Tó-Zé II também
    – e os pais todos de todos nós, também.

    Casal de velhotes
    Etc.


    122

    Sem dentes naturais que me segurem
    a prótese à mucosa senescente,
    canídeo desdentado sou tal gente,
    mas sem cáries afinal & felizmente.

    Semelho a minha Avó quando mastigo.
    Semelho o bebé descuidadoso.
    Já não mordo rijezas, sou leproso
    (da boca, não da Língua, meu Amigo.)


    123

       A 14 de Julho, lá em França, tomaram a Bastilha.
    Hoje, 14 de Julho aussi, Í. evadiu-se do bastilh’asilo em que, literalmente, se encontrava prisioneiro há mais de dois anos. (A pretexto da pandemia viral, na cas’asilo não deixam sair autonomamente à rua os internados.)
        Hoje, bastilhamente falando, Í. está feliz. Eu também. E muito.

    Anoto ainda os elementos que me circunstanciam.
    O mais é aves, seres de inegável sortilégio.
    Os pretéritos, revisito-os mormente em cifra-verso.
    (É o meu Bletchley Park particular, privado autismo.)

    Passo a água-lixiviada o chão de meu tugúrio.
    Faço o mesmo aos lanços de escadas amadeiradas.
    Também, por vezes poucas embora, a minha vida cheira a lavado.
    Nem sempre as trevas sujas enodoam a mente-em-acção.

    Í. saiu hoje do asilo a que se ostracizara por amargura.
    De Espanha aqui veio ter – e não-ter, também.
    Recomeça hoje a vida-ao-ar-libertado – mas com tecto.
    Tecto, cama, mesa, possibilidades ínfimas mas possíveis.

    Dou-me a esta prosódia-em-estrofes por saber fazê-lo.
    Por querê-lo & por podê-lo, prosodio em verso-livre.
    Somos todos livres até de morrer, incluindo viver.
    Ominosamente como nos relatos cortazarianos? Pois seja.

    Gente má & malévola não acaba de haver amanhã.
    Alguma bondade é ainda todavia perscrutável a tempo.
    Desligai o televisor. Saí à rua! Aves V. contemplam.
    O velho Éluard ainda: “Une fenêtre ouverte / Une fenêtre éclairée.





27/09/2022

H. EM BUSCA DELFIM - 118 (quarta & derradeira parte)

 

Saúdo em ti, bom Bernardães, futuro.

Leitandré, não sejas mole nem duro.

Mishima, que tolice-imperatrice

Te confundiu o Gato com Alice?

 

Antão Curafez Ântua de Bogalho

Anda à procura de um qualquer trabalho.

(Marga Cónego Quadros de Salgueiro

É invenção de Daniel Abrunheiro.)

 

Já o Braz Magiar (que é Cipriano)

Miralda em frente o Ante-Oceano.

É fidalguia isto: ser um tão-pobre.

O neo-realismo é todo sobre.

 

José de Braçadeira Bem-Clemente

Connosco se parece, qual fôra gente.

Já Genésio Capim Cotrim de Estêva,

Esse é de má-raça, não se atreva.

 

Raia-frita-com-batata-&-grêlo:

Menos vale o bem-ser q’o parecê-lo.

Eu ando a tostões, que não sou de notas:

E como notas, de versos idiotas.

 

Estêva Savana Maranho Zorro:

Pergunta-m’ à Mãe s’inda vivo ou morro.

Ó Valcolmeias Zimbre da açucena:

Pergunta se a gasolina val’ a pena.

 

“Chegou-à-caixa-de-correio” – diz a voz-off.

Liga-se sem esperança de retorno.

(Oxalá que ainda de mim precisem:

Que lhes direi ponta de outro, outro corno.)

 

Hoje ligo-me a vozes gravadas.

É internet-tempo-p’rò-digital.

(Nos ossários, estarão – ou não – ossadas.

E do Algarve p’ra cima, Portugal.)

 

Perempta Bemposta Augusta de Açucena,

Pequena & morena radiosa.

Tenho 58: e é chance micropequena

Ela vir ’inda a ser a minha rosa.

 

E tenho desbaratado horas

Num ofício anacrónico às ervas.

Recebo em pão, sal, merda & conservas,

Mas queimo mais adentros do que aforas.

 

“Salutogénico”, termo que timbra:

& que li hoje em o Diário de Coimbra.

Telemado Goraz Gafa Briteira

Preside a uma mina cimenteira.

 

E Luzieiro Estaca de Casilho

Já teve uma mulher, co-fez um filho.

E Casenho-Zé Emendo de Valéria,

Quando falou com Sofia, q’tal foi à séria.

 

(Não posso obstar à vulgaridade das doenças.)

(Tive agora um trabalho, King, que nem sonhas nem pensas.)

(Ele é a didascália. Ele é a maravilhosa Amália.)

(Ele é farol-fanal, Portugal – & zero-de-família.)

 

Dalmires Ressalvo Puerim de Celgas

Tem uma janela aberta por onde entram as melgas.

Pandora Pauleta, o que é que tu queres?

Eu quero Plotino, que controla as mulheres.

 

Bonanza, Galeto, Plotino da Costa?

Pedir a um Amigo não dá sempre à costa.

Pedir uns tostões, um telefonema.

Trocava os colhões por um bom poema.

 

(Trocaria? Nada!: não iria ser castrado

Por dois versos bons em poema rimado.)

Cerúlea Quarenta Lá-do-Cuco-Sério:

Dá-me duas rosas para o nosso cemitério.



 

Canzoada Assaltante