Daniel Abrunheiro

23/05/2024

23 de Maio - 38 anos de amargura


Jorge Manuel Leite dos Santos Abrunheiro

5 de Setembro de 1954
23 de Maio de 1986

 

29/09/2023

H. EM BUSCA DELFIM - 171 a 175

 

171

 

A noite passada, vinda a manhã, será tarde de mais?

Pugno pela consciência, a mais lúcida, de nossa desimportância.

Gosto muito de sentir o vento dando de si em canaviais.

Ando muito a pé, sinto-me em expansão, amo as aves todas.

 

Amo, sim, as aves todas, abutres incluídos, como não?

Esta manhã não sei, amanhã não sei, ontem talvez soubesse.

Há, notoriamente há, notavelmente há, razões para.

(Só que, entretanto, Delfim terá suas/dele dúvidas naturais.)

 

Quatro linhas de ontem?

Tenho-as aqui:

 

Fechamo-nos na noite mais cedo do que devido:

nossos Pais não são vivos,

há que, como um cão,

guardar a orfandade.


 

172

 

Trata-se de um homem algo balhelhas, por assim dizer. Disse-me ter/ser nascido a um 13 de Maio. Disse-me que o 13-de-Maio deveria ser feriado. Disse-mo assim:

 

“Afinal, é o dia de Fátima, da nossa Mãe do Céu.

O Camões não era santo mas tem feriado.”


 

173

 

Já muito hei praticado mor bondade.

Eu dou pão às aves de terra & céu.

Quando escrevo, atrevo a vontade

de me confessar, de me pôr ao léu.

 

De betão, viadutos li’am nadas.

De saibro, rangem mais de mil passadas.

Eu vingo as minhas estrofes rimadas.

Eu singro & sangro crónicas cansadas.


 

174

 

(Ó juvenilidade ex-minha, não me expectores!

Ó santa-do-açúcar, dá-me dias melhores!)


 

175

 

(Quantos anos deveras temos?

Quantos, vividos, são nossos?

Por que temos frio nos ossos?

E quantos ainda, se, vivemos?)

 

 

 

 

28/09/2023

H. BUSCA DELFIM - 158 a 161

Foto: © DA.

158

 

De manhã, pensei alguma coisa, mas não exagerei.

Fiz sesta de duas horas, ó-despois.

Embalo-me para a noite, que servirei.

As vacas são as vacas, os bois são só bois.

 

Pensei alguma coisa, Delfim, mormente no que desconheço.

É muito o que desconheço, mas não muito o que pensei.

Já menos vacilo, menos hesito, vá, estremeço.

Embalo-me para a noite, toda ela servirei.

 

Vi hoje Sttau, há muito morto, em programa televisivo.

Gostei de vê-lo, enxuto na mesma, homem de clareza.

Li obras dele, lia-as naquele tempo redivivo

das primas-leituras, que bem me fizeram com certeza.

 

Recordei, de Aquilino, A Pele do Tambor.

Recordei, de Régio, os tantos crucifixos & o Cântico Negro.

De Branquinho, O Barão.

De Namora, Resposta a Matilde.

De Vergílio, Aparição.

De Agustina, A Sibila.

De Eunice, a recente morte.

Não passei mal, ’té aqui, a jornada (fornada).

 

Fulano, que vive ali em um quarto da Pensão Lacrosse,

parece-me adoentado com alguma gravidade.

É (sempre foi) de carão severo, d’exagerada severidade.

À janela do quarto, pelas sete matinais, mui Fulano tosse!

 

Fulano chama-se Tita Cajó Roderico Erminde.

Nunca nos falámos ou jogámos ao berlinde.

Foi casado com Tilde Riacho Palla Wenceslau.

Nunca mais houve mulher: não sei s’isso é bom, não sei s’isso é mau.

 

Hoje, a fornada inclemente voltou a atacar.

Mantive-me à sombra o mais quanto pude.

Tanto grau não pode fazer bem à saúde.

Sinto-me fermento sempre a destilar.

 

Na Pensão Lacrosse (cujo bufete frequento),

há bifes-de-sola & empadão-de-cimento.

Porém, é gentil o casal velhinho

que me serve a azeitona & me regala o vinho.

 

Estiveram em França, região de Toulouse.

(A de Claude Nougaro, da célebre Ville-Rose.)

Ele é Nicolau – e que ninguém ouse

chamar-lhe “ó Breyner”, que ninguém abuse.

 

Ela é Dona Carme, qual composição de Catulo.

Carme Dorca Estendal Sá, ao V.º serviço.

Já vai nos setentas (dos vintes, foi um pulo).

É oriunda da Ega, filha de cavalariço.

 

Quase las-siete-de-la-tarde, nestes entretantos.

(À meia-noite pego, saio às oito, dia ganho.

Só até meado Setembro tal ofício esgalho.

Segue-se-lh’ a incerteza, sem risos nem prantos.)

 

A porra do Sol é de grande ferócia.

Quem me dera à sombra de frondosa acácia.

A minha vida é tristonha, tristonha facécia.

Dev’ria ter ido a talhante – ou então a polícia.

 

(Ou a urso-de-pelúcia.)


 

159

 

A infância desconhece-se sozinha no mundo.

A velhice, não – a velhice reconhece-se.

Está errado o infante porque se desconhece?

É seguro o velhote que se reconhece?


 

160

 

Ainda afinal alguma alma?

Beberei eu ainda da doce água?

Terei eu profanado de ’Nando o habitat?

(Mas como o faria, se há tanto ele o não há?)

 

Ferrabrás Bravateador,

que a pele te arda em apuros de dor!

Tua cifose, ó giba-marreca-corcunda,

te seja maldita & má & imunda!


 

 161

 

(Apercebo-me, mais & mais, cada vez mais, como se até jamais, da minha desimportância mesma – desde que à de todos idêntica, até por id-ente-idade.)

 

27/09/2023

H. EM BUSCA DELFIM - 154 a 157

 

154

 

Vislumbro a possibilidade mínima de um encontro.

(A 26 de Julho de 2017, liberto enfim, encontrei uma nota de cinquenta euros.)

(É que nem digo achei – digo: encontrei.)

(Ou: encontrei-me com uma rica nota de cinquenta euros.)

 

Encontro? Reencontro?

Delfim: a dúvida é quase mirífica.

Ou sabática.

Ou – vamos lá – sabática.


 

155

 

Sob as tílias, assimilo a derradeira luz do dia.

Corre-flúi uma aragem fresca, agradabilíssima.

Nem sempre é remunerado quem mais porfia.

Verdade. Mas é que é uma verdade inutilíssima.

 

Rua do Padrão, antemão da Avenida Fernão de Magalhães.

19 & 48, vi hora & meia o senhor meu Irmão José.

As tílias? Firmes, maravilhosas, de pé.

As famílias? Essas são diversas confusães.

 

Um resto de desejo (sei não de quê ou quem) talvez me anime.

Um rosto por ensejo, claro, bonito, sublime.

Não sei. Sei que tenho de pegar ofício à meia-noite dada.

 

Que, de resto, valem deveras meus sonetos?

Património que legue a eventuais netos?

Ná. Nã’ me parece. Decerto nada.


 

156

 

O rosto rubicundo do bebedor na Rua do Padrão: pimentão.

Nada sei de sua pessoalidade historial, seus proibidos arquivos.

Sei tão-só que é um dos que ainda vejo vivos.

aqui-Coimbra-Rua-do-Padrão.

 

É pelo entardenoitecer: recolhe-se ele já a sua cela.

(De madrugada, regurgitará uma bílis carmim-amarela.)

Sei o nome dele, que d’imediato aqui revelo:

Corcel Vintém Regougo Amarelo.

 

As crianças humanas valem a criancice das demais crias?

Tudo vale, nada perdura – a lição é dura.

Nasceram-te sem processo-de-instrução: que querias?

A guerra não é passada, é futura.

 

O rosto, de rubis fecundo, do bebedor da Rua do Padrão.

Sim, é mote de meu poema (de improvável edição).

Ele há sempre coisa pequenita impedindo-nos de fazer um figurão.

(Digo eu, que nem ao luar uivo – tão só ão-ão-ão-ão.)

 

Chamam nomes-impropérios a estátuas de ex-impérios.

A estupidez humanóide coincide consigo mesma.

Vai tudo do foderem-se-uns-aos-outros-+ ou – sérios.

De resto, fica-tudo-como-a-lesma.


 

157

 

Tem em conta, excelso Delfim que:

 

Em anos-verdes, sob este mesmo azul, singrei à bolina.

Tenho por boa prática o levantar-me cedo, cedo arruar-me.

Consulto do mundo-próximo os índices, a bibliografia do dia.

Efemérides pratico também, em constante sarabanda.

Os anisófilos (vá: os bebedores-de-anis) campeiam, não rareiam.

À saída do emprego (enquanto um tenho & mantenho), não vacilo.

(Às vezes, bacilo: mas vacilar é-me menos comum, felizmente.)

Falei dos bebe-dor: ele há-os muitos & muito.

O calor descasca o mulherio, belas peças-de-fruta carnívora.

Em anos-verdes, sob este mesmo azul, sangrei a menina-víbora.

 

Em anos-rosa, través este mesmo branco, instaurei-me rotina.

Desde menino que padeço da atenção toda ao palavreado.

Outra coisa não tenho feito: escrevo no ar o que o ar me ouve.

Este é o destin’itinerário-senda que me coube.

O levíssimo insecto pousa em esta página mesma, lêde-o Vós.

Içou voo, dissipa-se na transparência cristalina da matina.

Faço como sempre fez Borodino Manchego Refalde Tamizes: subvivo.

Faço como nunca fez Peralta Damurça Sarmento Corvo: completo 58.

Nada pode interessar-Vos eu ter amado Serôdia Rivelino Fragide Colcheia.

(A história com esta senhora não foi linda nem foi feia.)

 

Formalmente, sigo mostrando-me de atavio pouco repreensível.

Não é que ao humano mundo alheio interesse o que pareço de óculos.

Trata-se de uma questão de higiene-básica (a mental incluída).

De sítios & instantes que não lembram ao Diabo, lembro-me eu.

Abeirei precipícios que eram afinal tocas-de-grilo, não mais.

Tenho conhecido gente válida, certificada, pronta, em-vivo.

(Conheço também da outra, a neutra, a sem-singularidade.)

Tudo isto não passa de, digamos, singularidades-de-um-rapaz-moreno.

Para quando a grande opereta-bufa de meu enterro?

Seja quando for, será protagonismo que não erro.

 

Amortalho antecipações sofríveis que só fazem sofrer.

Reciclo emoções perigosas em prol da sanidade possível.

Adentro mais & mais a condição (o estatuto, id est) de estar-de/por-fora.

Da honestidade & da hombridade paterherdadas, nada titubeia.

Remiro as fotografias de meus consanguíneos, deito contas aos anos.

O meu primo-direito Cardito Richa Bispovala Dearte, hepático, f. 1994.

A minha tia-avó Magda Colchete Reveles Queluz, tísica, f. 1965.

Esmifro pão ante pombas que mais me sabem do que os meus Leitores, se alguns.

(Ainda esta manhã o fiz, em dois lances da R.ª de Fora de Portas, FF.)

Em anos-carmim, chamei a mim dores necessitadas de mor siso.

 

Frugal, temporizado, pobrete, crisóstomo, facundo.

Tempestivo, revoluteador, ávido, seráfico, onanista.

Dez adjectivos que à medida alfaiatam este H. em Busca etc.

Mais outros tantos; fragilíneo, voraz, topómano, úrico, único,

frutívoro, furtivo, ornitófilo, xadrezante, literaferido.

Deram-se-me já as 9h37m da quarta-feira, vou-me ao Gatito.

Subo a pino-prumo a ladeira do Monte Formoso, não-é-p’ra-todos.

A Cristina doou-me comida completa, minha porção do dia.

O meu Irmão José D. falou-me ontem pelo olhar, não minto.

Em anos-bolina, sob este mesmo verde, azulei quanto pude.

 

 

 

Canzoada Assaltante