Daniel Abrunheiro

12/06/2021

PARNADA IDEMUNO - 466 a 470



466

Sexta-feira,
11 de Junho de 2021

    Alegria simples: bem dormido, levantei-me às seis & meia do dia novo. Sendo agora as 10 & 12, sinto ter ganhado luz. Não é disparate, é deveras ganho, lucro, proveito, pecúlio, safra, ágio, fortuna. Abençoado pobre, que até do Sol se pensa dono.

467

    As imagens, quando ordeiras, ensinam mente & mão a escrever menos mal. Tem aparecido a do bosquete de cedros (cf. 461 & 465), a qual arrasta consigo a do solitário cedro da infância. O cedro evoca-me o senhor meu Pai. E sem o meu Pai, nenhuma destas imagens teria de quem fazer tela ou pantalha, como de mim faz(em).

468

    Sentado em uma parte mais fresca da casa (lá fora, parece, vai acalorada a jornada), lembro-me, sem esforço nem intenção, de nomes que me são preciosos: Daniel Filipe, Luís Filipe Costa, José Mário Branco, Bernardo Santareno. Sem asneira ou paradoxo, é como pensar em Rodrigues Lobo, Adelino Veiga, Carlos Seixas, Gil Vicente.

469

    Sempre fui afinal aos Correios botar a carta para o José Vicente. A caminho, passei à face do estabelecimento em que trabalhava o meu extinto Amigo Joaquim Assunção. Esse pico de tristura, sacudi-o com a ajuda da caloraça. Já lá vão as jornadas frescas, voltaram já as fortes fornadas. Nos Correios: fila na rua, ao sol. Gentinha irritada & irritante, cuja cercania suportei, aquém-máscara, cerrando dentes que já nem tenho. Lá me aviei, cá me desandei. Na medida do possível (estores oclusos), dá para estar em casa. Disponho de livralhada q.b. Pus a tocar o Nicolau da Cave & os Sementes Daninhas. Há quem viva bem mais precariamente. E com bem mais guita no banco.

470

    M. levou A. a passeio pré-prandial. A. é infeliz com M., mas precisa da fortuna de M. – por isso, A. aluga a sua infelicidade a M. o mais dispendiosamente que pode. Cama-mesa-&-roupa-lavada nunca são propriamente de borla. História velha como o mundo, inventei pólvora nenhuma.
 

11/06/2021

PARNADA IDEMUNO - 463 a 465

© DA.


463

Quinta-feira,
10 de Junho de 2021

    Escrevi a José Vicente esta carta:

    Meu excelente Zé-Vic:

    nós por cá continuamos um só. Encontrei um abrigo decente. Não tenho vizinhança, só pessoas que vivem no mesmo prédio. É assim em muito lado, não me queixo nem disso nem de outra coisa (ou outro alguém) qualquer.
    Tenho aproveitado o ócio forçado para aprender mais música. É arte que não consegue cansar-me. É infinitamente bom saber que há infinitamente boa música. Atravessa os séculos em perene novidade. E mais: feita de tempo audível, ela logra anular o Tempo, surda à devastação dele. Digo isto assim porque, como sabes, tenho a mania.
    Ao contrário de (bons) hábitos antigos, tenho vivido mais as noites & menos as manhãs. Para mais, vem aí o Verão, que cada ano acho modo de detestar ainda mais. Antes, levantava-me às seis da manhã. Por estes tempos, tem sido essa a hora a que, exausto de letrinhas, me deito. Quero (e vou) recuperar a rotina antiga – não por ser mais produtiva (não sei se o é deveras) mas por me angustiar perder horas de luz.
    Falo com quase ninguém sobre generalidades – e sobre particularidades, com ninguém. Os zé-vicentes da minha vida rarefizeram-se-me como cubos de gelo atirados ao mar. Ou ao whisky, em dia bom.
    Escrevi ontem uma coisa, lendo a qual quaisquer dois-de-testa percebem que sou um doidinho pelo bom Cesário V. É verdade, adoro o pobre rapaz tão cedo extinto – mas não o imito ou plagio, não o pasticho ou emulo. Leio-o muito, é tudo. Acontece-me brincar com a música dele. (Ponho aqui itálico em música porque bem me entendes, sempre me entendeste bem,)
    Quanto a leituras, relatório fácil: muitas, quase depressa & bem. Sobretudo releio. Ontem de madrugada, Walter Scott & Proust. Hoje (não te rias), Cesário V. Levo a meio a tese do Pierre Nordon sobre o Conan Doyle. Tenho o Édipo em Colono à cabeceira. E idem o Paul Valéry dos ensaios de 20 & 30 do século passado. E a Bíblia (esta, devagar; vou nos Actos dos Apóstolos). Faço por não mexer em mais para não emaranhar o fio no pavio. Não é fácil. É muita a tentação, insuficiente sempre o tempo – mesmo para um desassalariado como eu. (Isto não é queixume, Zé-Vic, juro que não.)
    Em vez de queixume, gratidão: dos mantimentos que me enviaste em Março, os menos perecíveis ainda me fazem companhia: farinha, conservas, medicamentos – e os livros, claro. A senhora da Segurança Social tem sido muito prestável, mais agora até por causa da pandemia. Falta-me uma estante – mas tu livra-te de mandares alguém trazer-me uma. Por ora, não mandas nem mandes nada. Resolve isso do teu filho, prioridade-máxima, isso sim.
    Penso muito. Ou antes: imagino muito (no sentido de criar imagens). Aspectos (ditos) reais mesclam-se-me com abstracções (mais ou menos) fantasistas. Não é esquizofrenia nem para lá caminha, sossega. É tão-só compensação, por assim dizer. Porque sou, enquanto sujeito, insuficiente – chamo insuficiente ao objecto. (Sei que não estou a exprimir-me bem, mas sei também o tão-bem com que sempre – mas sempre – me entendes, entendeste & entenderás.)
    Vês? Na brincadeira, passa já das duas da matina. Não faz mal. Eu posso ir escrevendo, tu podes ir lendo, pausa agora, retoma quando calhar. Passo a enumerar-te, em linhas mais curtas (se quiseres, chama-lhes versos), algumas imagens oriundas das tais mesclas que supra te referi:

    Lago cuja pele acolhe folhas verdes, amarelas, castanhas.
    Homem de camisa azul (percebe-se ser cara).
    Avioneta sulcando um céu sobre floresta infindável.
    Em bairro paupérrimo, uma associação humanitária.
    Pomares citrinos maravilhosos, belamente cuidados.
    Encontro de fatos-gravatas para conferenciar sobre os sem-abrigo.
    Um rosto feminil-nipónico de desarmadora graciosidade.
    Carteiro entregando uma carta minha ao senhor José Vicente.
    Mulheres-da-limpeza sentadas em muro baixo, fumando em silêncio.
    Ruas desertas, pessoas para lá de janelas fechadas, sonho pungente, acerbo.
    O silêncio dos mortos, percebe-se muito bem; o dos vivos, pouco & mal.

    Nada disto, enfim, traz grande ou pequeno mal ao mundo. Já branqueia a oriente a alva nova. Esqueci-me de adormecer, ando de fusos trocados, talvez benigna me seja a matina. Findo aqui parágrafo, na esperança porém de mais adir, hoj’inda, a esta carta que te quer duas vezes bem, seja hoje, amanhã também.
    Ou então fica para uma mais ou menos próxima.

P.I.

464

    Manhã toda dormida. Não sei se ponho ou não a carta para José Vicente no correio. Talvez lha remeta por aqui apenas, não penso mais nisso. Outras linhas me convocam. Afazeres mínimos. Cortaram-me o cabelo (pente-4), estou mais leve. Da outra banda do lago vem chegando a barca que arrasta a noite. E a noite é o lago & é a barca.

465

Herberto Zana sabe coisas da guerra que o Diabo esqueceu.
O rosto dele parece talhado a cêra dura como o diamante.
Há anos que projecta escrever sobre o que sabe.
Nunca escreveu nada que pensasse em forma de livro.
Na guerra, anotou lances, situações & epifanias.
Trouxe o caderno, mostrou-mo, cheira a ardido.
Posso ajudá-lo, desde que lhe faça bem.
Digo: posso ajudá-lo a formalizar o depoimento.
Não devo aproveitar-me dele, parasitá-lo, verminá-lo.
O livro tem de ser todo dele: como as mãos & os olhos, só dele.

Marta Quina é pessoa com quem pode conversar-se sem porvir.
Dá o fresco no patamar que franqueia vista para o bosquete de cedros.
Se espero o autocarro e ela passa, uma saudação basta.
Se nos encontramos na fila da padaria, qualquer assunto é viável.
Como eu, tem ela muitos anos disto.
Já ambos vimos a Cidade mudar-se conforme as nossas idades.
Para mais, frequentámos o mesmo liceu & a mesma faculdade.
Ela tem um casalito de netos, são os brinquedos dela.
Não teve um casamento seguro, mas que durou até à viuvez.
Agora, os netos relançaram-na na dinâmica do mundo.



10/06/2021

PARNADA IDEMUNO - 457 a 462

© DA.


457

Quarta-feira,
9 de Junho de 2021

    Lavrador de pedras, um pouco dele pode saber-se, não muito, é pouco o que pode saber-se de si mesmo – quanto menos dos outros. Ainda assim, dei parte das minhas horas nocturnas ao velho Robert Paterson / Old Mortality do grande Sir Walter Scott (1771-1832). Foram horas boas, as desta madrugada – alumiadas por este incipit:

    “The remarkable person, called by the title of Old Mortality, was well known in Scotland about the end of the last century. His real name was Robert Paterson.”

458

    Fiz a pé mui razoáveis jornadas já. Gostaria de refazer alguns trajectos. Quanto a outros, não, nada. Estradas, matas, serras, cidades, praias: tenho um bom catálogo. Lenda, balada, trova, madrigal, solau, folclores, romanceiro, crestomatia – já calcorreei disso também. Cavalaria solitária, a minha – e sem cavalo, a verdade valha. Mal nenhum.

459

Pavão bicando alimento dentre gravilha no jardim do baronete.
Retrato a óleo do oficial quando moço, majestática já a pose.
A velha conservadora trata de não acumular-se verdete
nas brônzeas amostras (espadas, insígnias, adagas) dos Invictos Doze.

460

    Outra porção do dia, dou-a a músicos contando raízes de seu ofício. É tempo muito bem usado. É tempo-través-documento. De onde vieram canções. Escolhas feitas, influências assimiladas. Consumpção do íntimo estrelato, por assim dizer. Vicejar & definhar: como sempre, desde sempre, para sempre, por/com/em toda a gente. Hábito do óbito. Édito & inédito. Certa consciência relativa a pertença geracional + tracejado do individual. Tradição renovada + criação-em-fresco. Interessa-me cada trecho de solidão, uma solidão apimentada de quando em vez por algum conluio feliz com outra solidão. Sim, boa porção do dia. Tão boa, que me disponho à seguinte versalhada:

461

Lavra no mundo a luz do sol maduro.
É bom pô-la em verso descuidado.
De cedros um bosque perfilado
oferece refrigério casto & puro.

Não se me cansa a vista, deslumbrada
da simples maravilha de haver mundo.
Nascer é afinal mais do que nada.
Morrer é ciclo dado por rotundo.

No Bolão, a pele da terra viceja
cuidosa geometria que apraz.
Em galeria, arvoredo verdeja
& deseja a chuva que tu, Deus, dás.

Tanta pátina d’ouro enriquece
até o mais pobre incréu, como o sou eu.
À nativa pátria já só esquece
quem nunca a própria mãe soube ou conheceu.

E quase cego de cal o casario
resplende revérberos rutilantes.
Inté parece um Verão, daqueles dantes
que juravam nunca mais voltar o frio.

Sair de quando em vez fora-de-portas
faz bem ao citadino entediado.
Pode ele então gozar o seu bocado
passado entre pomares & frescas hortas.

Deve, lá para bandas da Figueira,
soprar mais fresco o vento ao sol marinho.
Lá mora a Leonor doce & fagueira,
a quem devo nunca mais ’star sozinho.

Parece certa bruma vir descendo
& empalidecendo o Casal Ferrão.
É a luz natural que vai morrendo,
vendo-se agora mais baço o Bolão.

Certo é serem já as 19 & 30,
dos andares vizinhos já cheira a sopa.
A Rosa do Jorge recolhe a roupa
do estendal muito enxuta & muito limpa.

462

    Sou possuidor de um caderno de capas amarelas (ou antes, amarelecidas) em cujas páginas anoto contribuições minhas para conversas que nunca terei com algumas pessoas – e nunca as terei pela mui simples razão de tais pessoas ou já terem morrido ou não haverem nascido ainda. A tal caderno vou bastas vezes & adrede recortar fragmentos soliloquazes. Com estes, componho diversos versos – ou prosículas mais ou menos lapidares. E quando me canso, vejo que são horas de cear, fecho tudo a seis chaves. (A sétima, perdi-a no dia em que te vi, Milu-Lili.)

09/06/2021

PARNADA IDEMUNO - 455 & 456

© DA.


455

Terça-feira,
8 de Junho de 2021

    Frequento as memórias vividas & escritas por gente cuja passagem por a vida digestivo-respiratória foi, por particulares motivos, sem par. Campeia a singularidade. A menina viajando com o pai. O estudante que foi de barco à China. A mãe distanciada, sereia equívoca. O Dia de Finados de 1938 ter sido quarta-feira. 16 de Junho de 1904, quinta-feira. Estranheza. Excentricidade. Exotismo. Ou absoluta normalidade. Perfeito atavio. Sem colarinhos ou sapatos enxovalhados. Nomes de alienígenas nados neste planeta. Sífilis. Alcoolismo. Opiáceos. Dinheiro fétido. Peregrinação a orago nenhum. No templo despovoado, beber sozinho. Sem a bênção do oblívio que não seja a decilitro. Maravilha nenhuma supera a humana, senhor Sófocles? O vulcão como nascente & como esgoto. Mezcal puro con gusano. Em espelho & contraponto, as páginas conseguidas, limpas, terminadas, prontas para o prelo. Mir’im’agens, ventos trazendo palavras estrangeiras que aqui não podem ser cambiadas por poemas espontâneos, prostíbulos de recém-crianças, judeus acantonados em bairros argentários, mulheres às compras subsistenciais, pequeninos canteiros de que sobem rosas instantâneas. Cães famélicos, criminosamente escorraçados por quem matou neles o lobo-primevo. Pombas duramente sobrevivas. Uma senhora de verde, muito bonita, octogenária, recorda dias com o homem que a vida lhe apresentou. Duas guerras de extensão planetária massacram gerações de indelével modo. Oaxaca, Macau, Odessa, Vancouver, Perth, Peniche. Em certo âmbito, tudo o mesmo t(r)opo. Batatas, pão, peixe salgado, gin. Morbidez, euforia, histrionismo, estupor, procrastinação. Barco regular de mantimentos à face do lago maior da região a norte. Encomendas regulares provindas de alguém que nunca nos falharia. Só o fraseado certo (a ponto de intocável, de ne varietur) conta – com a maior & mais inclemente imponência. Lobotomia como felicidade-vegetal. Noite c(l)ínica. Alma pá(t)ria. O cônsul inconsolável. Funerais-nacionais para entretenimento de mirones & alvíssaras de carpideiras. O farol pontuando a noite, seu morse para náufragos. Carrosséis das deprimentíssimas feiras-populares, deprimentíssimos entusiasmos a tostão o tirinho-ao-boneco, ravinas por que se despenham os lixos do consumo. Olhos cerúleos, pescoço de gladíolo, visão gentil entre nenhuma lembrança & nenhum esquecimento. Tragos & trasgos. Flautins, delfins, bons & maus fins. Estilo depurado, mesa do canto mais obscuro – sempre. Malcolm/Marjorie. Richard/Elizabeth. Carlos/Ângela. Albert/Blanche. Raul/Angelina. Um embarcadouro. Uma casa ardida, de lá dentro os gritos dos manuscritos: manusgritos. Uma nespereira topónima. Nem manhã perdida, nem noite vencida.

456

    Mirabol’and’ando sigo, mais à claridade perseguindo do que à clareza. Receio não me inclinar para uma escrita mais, digamos, democrática – mas é minha a assumpção de que, à excepção do Sol, nem tudo o que nasce é para toda a gente. Cabe a esta a escolha. Cabe a cada um pensar por sua cabeça. Eu não vou pôr-me a formigar uma sintaxe que repugne à maneira como (a) penso. Também não se trata de elitismo, de criar para um exclusivo & exclusivista escol de iniciados. Nada disso. É toleima minha, de mim depende & provém – interesse, se interessar, a quem interessar. Posso estar confortavelmente instalado numa sequência de frases escorreitas, sujeito-predicado-complemento-etc. – e dar-me para

    Velas ardendo no mar.

    Velas de barcos (já que mar consta)? Velas de cêra (já que ardendo consta)? É deixar (mirabol)andar, gente.



08/06/2021

PARNADA IDEMUNO - 447 a 454



447

Segunda-feira,
7 de Junho de 2021

    Certo frémito idiomático perpassou-me hoje à leitura do adjectivo ancilar, correndo já no mundo exterior as três da tarde. Pareceu-me ideal para tornar prismáticas, por assim dizer, as cores do substantivo a que o aplicasse: gesto ancilar, caminho ancilar, palavra ancilar, ancilar vocação.
        (Às 15h23m, dei como pronto o parágrafo.)

448

  Escrínio para opalas, ágatas, safiras, esmeraldas, hipérbatos, pérolas improváveis de ostras impossíveis – a Língua. Luz jamais em declínio. Máquina transparente, senecta infância perpétua, farta de maravilhas nunca.
    E daí, também, que, uma vez por semana (sub)indo às Chãs de Semide a ver o meu Irmão, me deixe jamais de cativar a petrificação do mar feito ondas de serrania, oceano de pinho susceptível de fogo, ígneo pélago, labareda oblíqua que a esmalte corusca & corisca ao sol.
    Nasce esta prosa de ser bonita a luz, faz ela, da janela, tela. Disso – e de estar eu merendando chá com bolachas-de-corinto, não estando hora minha prometida a ninguém que alguém fosse, seja ou finja ser.
    Sim, é a Língua a mais apurada gliptognosia: basta ler como ela diz a luz do dia, essa mineral transparência do silabário.

449

    Com o Paulo Fraga, o Fernando Calado, o Gervásio Cotrim & o Alcides Barbosa é que é bom ir em safari à cervej’amendoim – única regra: cada amendoim, cada mini. É um fartote copioso, um risonho bródio, um ágape simples como nós cinco, por junto & em separado.
    Eram da nossa quadrilha os ora extintos Ilídio Rama, Benedito Acácio, Alberto Cação & Juvenal Ataíde. Saudades deixaram, à sétima mini não falha quem os evoque.
    Paulo Fraga, solicitador; Fernando Calado, pneumologista; Gervásio Cotrim, herbanário; Alcides Barbosa, sonoplasta; eu não faço um caralho.
    O Ilídio Rama era radiologista; o Benedito Acácio, padeiro; o Alberto Cação, maquinista da CP; e o Juvenal Ataíde desfazia mais ou menos o mesmo caralho que eu.

450

    Cotes Ângelo disse de si mesmo nunca ter sido um recluso. Que em vez disso era pessoa reservada, pouco-nada dada a conversas assim-assim com gente assim-assim. E que preferia pouca corda a muito arame. Sobretudo do farpado, imagino. Era amigo de David Jonas, como ele já falecido. Sei onde é a penúltima casa de Ângelo, gostaria bem de tê-la por residência, bonito planalto, bela edificação humana. (É só um desabafo ligeiro, talvez leviano até, meu – nunca a terei, nem parecida.)
    Genoveva, um sábado, apresentou-me a Cotes. Foi um encontro auspicioso. Era no tempo em que havia ainda uma coisa chamada epistolografia. Trocámos cartas gentis, muita conversa sobre livralhada, música, pintura, Coimbra, Peniche – e Zurique, onde ele acabou seus dias. David Jonas, não o conheci. Genoveva vive em Toulouse, a cidade de Claude Nougaro. Nunca mais a vi, o mais certo é revê-la nunca mais também. São assim as vi(d)as.

451

O comboio nos alvores do inverno
devassa os campos cultivados, os olivais,
é certo como o céu, como as nuvens incerto,
não conheço quem desgoste de vê-lo passar.

Um trecho de paisagem, depois outro,
infinita galeria de telas à janela do comboio,
como é bonito ver as árvores rápidas,
as casas pregadas ao chão pelos casamentos.

Há demasiado tempo que só o vejo passar,
demasiado tempo que o não integro,
entusiasta até das coisas afinal tristes,
tristes enquanto como ele não passam.

452

Esplêndida inutilidade da minha vocação
Esplêndida sim, a invisibilidade é uma arte
A própria como a alheia, vidro tudo
E calhoada é o que por aí não falta.

453

Espelho ou espectro, dá o mesmo
Um quintal onde governar a infância
Ter pena dos crentes, amar os animais
Compreender & guardar, nunca desistir.

454

O meu Pai morreu há 27 anos.
Costumo vê-lo fora dos sonhos.
Na Sá da Bandeira já o vi duas vezes.
Eu subia, ele vinha descendo.
Não deve ter-me visto, não acenou de volta.
Na Portagem, dirigindo-se à ponte.
Está sempre a chover, quando o vejo.
Ou então é dos meus olhos, não sei dizer.

07/06/2021

PARNADA IDEMUNO - 441 a 446

Rilke by Lou Albert-Lasard


441

Domingo,
6 de Junho de 2021

Esta é a Cidade, que não sinto seja escura.
Não depende a sua luz do observador?
Um pouco apenas – quanto ser escrita possa.
De resto, carbura a sós o mais cosmicamente.
Sentir, pouco é; usar é mais importante.

442

Permanece enquanto alguém a olha, a permanência.
As coisas não pensam, esse castigo é nosso.
Castigo & recompensa, dual condição.
Mínima porção do real ordenamos.
No fundo, caracóis somos: um rasto de baba,
uma espiral às costas: casa & nebulosa.

443

    Voltei hoje a aflorar circunstâncias/vicissitudes/idiossincrasias de um homem cujo somatório anuário se ficou pelos cinquenta & um. Deixou obra poderosa. A sua genuinidade é intocável – a meu ver como aos olhos de muitos, que o sei bem.
    Sonhei há dias com algumas coisas a ele relativas. Viagens que fez em aparato da mais estreme solidão. O que lhe aconteceu durante a Grande Guerra. As mulheres invisíveis a que pouco podia dar de si & de quem pouco – ou afinal nada – podia receber. E aquilo de nunca descer a assemelhar-se à gente que detestou – e alguma ela foi.
    Sonhei isso – voltei hoje a procurá-lo, encontrei algumas coisas, é nelas que penso enquanto alinhavo isto.
    Este homem pertence, cronologicamente falando, a um segmento histórico europeu que me interessa muito há muito: grosso modo, o que vai de 1845 (nascimento de Eça) a 1945 (fim da II Guerra Mundial). Muitas outras pessoas & obras me atraem fora desta demarcação, claro. Não quero ser taxativo – nem por sombras. Mas 1845-1945 foram belos & tremendos cem (+ um) anos. Ora, as datas terrenas deste homem são 1875-1926 – e o nome terreno dele, Rainer Maria Rilke.

444

Pondero sem pressa no domingo já anoitecido.
Em meu casulo, mal o senti lá fora.
Resumo a estas linhas o já volvido.
Não sei do relógio, não sei da hora.

445

De casa sai cedo sempre, cruza a praceta
Leva pressa calculada, todo o trajecto a pé
Avenida descida, monumento ao Camões
Praça pressurosa, bancas todas prontas
Ei-la dispondo mercancias, dispondo ordem
Às oito vem café, daquele de cafeteira
Uma fatia de broa, um lingote de toucinho
Maioria mulheril, vendendo & comprando
Há um açougueiro que se engraça dela
Mas ela é cativa de um que é polícia
Sempre é outro mister, salário estatal
Será o que for, por ora a deixemos.

Também da praceta, muito cedo também
Vem a sol-ou-chuva um que é chapeleiro
Jejua até tarde, só toma água morna
Já não fuma tanto, já sente o pigarro
Sempre é muito ano de muito cigarro
Passa a Praça sem pressa, só entra às nove
Conversa um pouco com colegas caixeiros
Este domingo na Arregaça União com o Caldas
Andam obras na rua, estripam-na canos
À porta do ourives critica-se a Câmara
À uma da tarde, saída p’r’almoço
Ele come uma sandes, sopa só à noite.

Subindo ligeiro no sentid’oeste, tereis o Rio
Tereis da Outra-Banda Santas Clara & Isabel
Outrora montaram aqui aparato de praia
Praia mas fluvial, que a oceânica é outro mundo
Desce do táxi à porta do Astória a bela Ingrid
Passa despercebida, vem por uma noite só
À mesma hora no Palace da Curia retine o telefone
É Ingmar quem atende, chamada de engano
Nós por aqui não discutimos nem-deus-nem-pátria-nem-família
De Braga desceu a revolução cinzenta
Um dia subirá de Santarém a verde-rubra
“Deixa-lá-casar-quem-casa-que-ninguém-nos-tira-a-vez”.

446

    Humildade lúcida, considerando a grandeza cósmica à pequenez do corpo cotejada. Agora já aqui se sabe alguma coisa, não é possível perder tudo. Ergue-se o muro, em papel escondido as cruzes com as passagens secretas. Alguma palavra trocada mais do que de mera circunstância? Oxalá. Pouco tempo & muito tempo fundem-se. O ratito rói o calendário com a litografia do Sagrado Coração de Jesus – nada parece tão profano quão sobreviver-porque-sim. Olha-se muito, vê-se pouco, aprende-se menos ainda. Mas alguma coisa se deixa assimilar, algo quer ser o tesouro de alguém. Mesmo as ninharias anelam ser prorrogadas. Neste sentido, até a grandeza cósmica se volve ninharia.

06/06/2021

PARNADA IDEMUNO - 439 & 440

© DA., Sr.


439

Sábado,
5 de Junho de 2021

    Ronaldo de Deus & Ricardo Negrais viajaram muito. Na quinta-feira numerada 16 de Dezembro de 1976, estiveram no Budokan de Tokyo. Isso eu sei, como sei que R. de D. já faleceu. R.N. casou-se entretanto, todavia parece que não lá muito bem, a gaja é a-modos-que faneca arrebitad’irritante, os casamentos são quase sempre tiros-no-escuro-&-no-pé, tirante o de meus Pai & Mãe, que foram felizes para sempre, não muitos podem gabar-se do mesmo. Paul Newman & Joanne Woodward podem.
    Outra estirpe de existência foi a de Joaquim Mauro da Piedade Gusmão. Operou no negócio da sucata com regular prosperidade. Não cedeu ao canto-de-sereias do narcotráfico. O irmão dele cedeu. Celestino esteve preso oito + seis anos, saiu farrapo da gaiola, nunca mais piou, tornou-se pastor de cabras lá para as serranias de entre Guarda & Covilhã.
    Tenho mais recortes afins. Os sábados são bons pretextos para remexê-los.
    Heliodoro Mugre Santista Navarro, caixeiro de ourivesaria, saiu-lhe a lotaria natalícia nos alvores de 70/XX, comprou prédio de dois andares com rés-de-chão para comércio, foi viver para o segundo, arrendou o primeiro & a loja. É vivo, fez 90 em Janeiro, não cuideis ter pena dele.
    Urraca Maria Proença Varada, capelista da Rua das Fanadas, que em sonhos era actriz-canora de operetas-cómicas mas no real teimava em ser capelista da Rua das Fanadas.
    São amostras humanas de um catálogo ainda vigente, embora menos nítido talvez. A minha pertença radica-se em este parentesco urbano. Comungamos raízes. Mescla de operariado-campesinato-pequeno-burguesismo, a massa gentia é de estreitas & estritas rotinas pró-sobrevivência. Algumas resultam mais tempo, outras nascem já tortas – e, proverbialmente, jamais se endireitam.

440

    Para contar com razoável decência algo contável, sinto precisar de certa recta cuja lonjura, bordada a freixos, é das mais seguras, constantes & primevas belezas da minha vida. Em uma de suas extremas, sobe ainda a chaminé da há muito desactivada fábrica de cerâmica. À outra, dá-lhe fim a passagem-de-nível da Linha do Norte. É um segmento importante no, chamo-lhe assim, topocronograma da minha vida. Lembro-me de coisas lá acontecidas quando ainda nem nascido era – contaram-mas com tal enargia (vale a pena ir ver o que significa esta palavra, pois que não é gralha de energia), que as fiz minhas além-tempo & aquém-espaço. (Nota: quando acima escrevi decência, fi-lo não como sinónimo de pudor, dignidade ou boa-formação – mas como competência, habilidade, destreza.)
    Digo o mesmo de certa casa amarela que um cedro & uma oliveira vizinhavam. São três elementos cruciais (não exagero) na minha organização indivíduo-pessoal. Também seguros, também constantes & primevos também, casa & par de árvores valem-me como fanais nas borrascas mais obscuras. Na (f)actualidade, o cedro foi cortado, a oliveira morreu & a casa está em ruínas consumptas – mas não em mim, que vivo nesta à sombra daqueles.
    Uma recta, uma casa, duas árvores – que ninguém me chame pobre. Ou por compaixão me miserabilize. Ou coiso. A propriedade simbólica integra outro género de património, tributável este a expensas & dispêndios que podem valer como investimentos interessantes. Algum verso e/ou algum parágrafo podem ocasionalmente atestá-lo. Pode acontecer, sim.
    Nada disto é confissão ou lamentação. Cito o grande Almeida Garrett, aqui muito a conveniente propósito:

    “Aceito, pois, com resignação todas as condições da posição isolada que escolhi: renuncio até ao direito de me queixar, que minha só é a culpa do que eu só, e por minhas mãos, e bem sabendo o que fazia, me preparei.”

    Estas palavras tão lúcidas acertam em cheio tanto em meu mote (de vida) como em as voltas que lhe dou (à vida mesma). Vivência interior enraizada em imagens (mormente verbais) que faço por partilhar em Língua Portuguesa. Tenho(-me) dado muitos anos a isto, não seria agora que me deixaria de tais merdas – é a palavra justa, não V. ofendais com esta aparente falta à decência da primeira linha, recta linha.



Canzoada Assaltante