sexta-feira, dezembro 06, 2019

CADERNETA (título provisório de coisa-em-progresso) - 10


© Wim Wenders




10. Lobo & Corvo

a) Sábado, 9 de Novembro de 2019



Incursão. Passe do autocarro renovado. Cabelo cortado. Bifana comida no Terreiro da Erva. Poalha-moinha pluvial, céu glauco – beleza r-existente desta cidade em que Garrett moço escolar & poeta militante. Nenhum barulho para nada – há sossego, o rebanho anda em fervor acéfalo pelos hipercentros. No Jardim da Manga, levo dois beijitos da minha prima Candita. Cândida como a minha materAvó Cândida, Bisavó dela. Instante brevíssimo mas gratificante: sangue-do-meu-sangue etc.

Na bus-paragem, duas senhoras de cabelo nevado sem tinta nem laca. Confiro-lhes as mãos: dedos de unhas não infernizadas, perdão, não envernizadas. De idades septuagenárias, perdão, deidades septuagenárias – pois que mais belas agora, nestes hojes da morte-não-assim-já-tão-remota. Limpas como este papel antes do meu lápis, tinta por vezes. Sacramento sem degola de cordeiro, vinho loução, pão à chuva, duas vidas.

Vou em modo miguel-paladino. Vou pela neve que Coimbra pode: ela é, no real, aguadilha; nesta caderneta, é neve. Levo as reses das minhas lembranças à pouca-erva do meu destino. Tino, menino, tino…

O sonho acontece quando se dorme.
O projecto acontece quando se acorda.
A música não é para adormecer.
A música manda despertar.
O papel de música é menos do que o papel do músico.
O músico projecta.
Já sonhou mas deixou disso.
Suspendeu o sonho para oferecer o despertar.
Do ouvinte, espera-se mais do que a paciência ou a generosidade.
O músico quer ouvir dizer de alguém o que o ouvinte já ouviu em si mesmo.
O papel de música, neste sentido, acordo no ouvinte aquilo que já não é sonho.
Por assim dizer, suspende-o: fá-lo levitar, por assim dizer.

Sonha-se a dormir.
Projecta-se de ouvidos abertos.
Bemol & sustenido são & não são a mesma coisa.
O músico é & não é outra pessoa.
O ouvinte, neste sentido sustenido, é & não é bemol.
Nem mole.
O ouvinte é o sonho projectado em suspensão: espera que comece, não sabe acabar.

Há anos de mais para aqui os contarmos um por um, o compositor conseguiu a paz de cada dia.
Entregou a partitura ao operário instrumental.
Alguém varreu o palco, alguém alinhou a plateia.
O ouvinte entrou por direito próprio no local do crime.
Crime é não ouvir.
É não saber que a música torna amanhã os anos a mais, os sonhos a menos.

Formigas na neve: as notas no pentagrama: as andorinhas nos cabos eléctricos.
Alta tensão.
Alta atenção.
A música é a metáfora mais alta do pensamento.
A tensão sobe ao alto.
O sonho desce à terra, torna-se nosso irmão na cadeira ao lado.

Era uma vez a voz.
O sonho pende.
O projecto apreende.
Era a voz uma vez.
Uma voz.
Um. Dois. Nós. Três.

*

Escrevo hoje uma carta à primeira das minhas Filhas. É a minha voz em tinta, lápis por vezes:

Ânfora-cânfora, ó perfume ondulado!
Ó cegarrega, olha o meu andar-de-lado!´

Escrevo hoje uma carta à seguinte & derradeira das minhas Filhas. É a minha voz em lápis, tinta por vezes:

Livre lebre, ó corredora d’açúcar são!
Minha rica entrega, olha a minha perdição!

*

Vãos ossos – que em vão ouço.
Meus Pai & Mãe, húmus da contrafacção.
Co’ a cervejita quer o senhor tremoço?
E vai manteiga, sim ou não, no seu pão?

A Nina faz de gato, cão & casa:
ter Nina é alfim fazer sentido.
A Nina faz-se à luz, a luz dá-se asa:
feita a Nina, o destino é cumprido.

Vejo-me sem Filhas no sábado que s’alastra tarde adentro. Sem Filhas presentes, digo, sem meu regresso a casa delas, que só por elas seria Casa. Foi que me irremediei de vida: o circo não abre, está o urso constipado. Deito-me na cama que me (des)fiz. Linhas-bus? A 5 até à Portagem. A coiso até mais ver. Ou cegar.

Ou chegar.

A pessoa que tira do papel a música atira ao ar o que dele tirou. Aí se suspende o sonho. Esse tempo não é passível de compasso. Clave é chave. Fechadura é abertura. Porta aberta, o ouvinte é projecto. E então: sou-som. Sonho.
Ou então: Vou. Não em vão. Ponho.
Ou ainda: Sou o que ouço.

As pessoas moedam raspadinhas para a fortuna instantânea.



b) Domingo, 10 de Novembro de 2019



Decerto somos todos trágicos.
Somos comédia todos decerto.
Perto, mais perto, a boa velha morte.
E, mãe dela, a nascença não-pedida,

perdida sim & só, ai isso sim.
Deu-me hoje para Vítor Baptista
& para João Miguel Fernandes Jorge,
aquilo do Actus Tragicus, sim.

O Amora recebe hoje o Pinhalnovense,
aos 80’51’’ os visitantes vencem por 0-1,
Félix Mourinho treinou os da casa,
o decadente VB (“O Maior”) era do plantel.

Penso ter sido neste mesmo terreno
que se estreou pelo Benfica
o grande sueco Stromberg,
que depois brilhou na italiana Atalanta.

Domingo é quanto país posso
estou vivo neste quarto com o meu Gato,
é branco como a neve puríssima, o puríssimo,
puríssimos seus olhos perplexos, meu Companheiro.

Sou trágico por querer imortal o meu Gato,
doce é dele o sono, transparente sua sombra,
só hoje o matriculo neste livro
mas vamos ambos muitíssimo a tempo.

Mãos de mulher antiga em linho novo,
depois desci travando a subir, usei
muitas coisas em Terminação do Anjo,
não estou tão sozinho como diz o noticiário.

Eólicos anónimos são meus ventos,
fiz ontem rir Gabriel, o quási-cego,
coimbra é o meu Estádio Olímpico,
promontório bio’necro’lógico in’fini’cial.

Na praceta de T., perdi a rosa,
a rosa amarela que mulher alvejava,
a felicidade era talvez certa,
talvez certa em-caso-de, mas não, pronto.

O Pinhalnovense venceu n’Amora,
partida que finjo imortalizar em verso,
quando eu em Lisboa já Leonor era,
era o que este níveo Gato veio ser.

Eu ainda não peço senão anoitecer,
noite-ser com dignidade ampla,
arribar-me à morte limpo de memória,
um trapo finalmente lavado na gaveta.

À mercearia subia com a senhora Mãe,
nessa era que idade se fez rígida.
Cheirava o mundo a tudo-alguém
do merecido & esperado & quê?

Amplexo-sexo deu já quão tinha a dar,
não era muito, era já vulgar ginástica.
Nunca quis mais que casa-horta
– e a janela da mulher ser a minha porta.

Tortuosa é a ínvia senda, ó oratura!
Em Elvas, a noite foi-me mais preta.
Nunca mais lá volto, quero que se dane
o eu-ter-sido-em-Elvas-Évora-Praia.

Lobo & corvo, o coração
é genitivo, pertence-se
em exclusa posse,
estima bem que os brasis se fodam.

Estou homem-em-cela mas é bela
a volta urbana, Choupal lá ’baixo.
Califórnias & austrálias ardam longe,
q’sou do país-gaiteiro, o da Língua.

Em cidade, domingo é o pior dia.
É mais vivo o absinto, perdão, o absurdo de nascer.
Em aldeia, porém, não: a horta cresce.
A fome-lobo é de outro nome-corvo.


segunda-feira, dezembro 02, 2019

CADERNETA (título provisório de coisa-em-progresso) - 9






9. Mesma Serenidade, Mesma Agonia

a) Quinta-feira, 7 de Novembro de 2019



A manhã é descerrada por uma que era Virgínia Colina, promíscua dama de anos nunca mais vindouros. Foi diamante-falso de salões valsantes: Las Vegas, Viena de Áustria, Estoril, Funchal. Na véspera do 50.º aniversário, ainda fez compras ligeiras, ainda recebeu telefonemas para festas – mas não permitiu à meia-noite que a tomasse. Comprimidos – etc. dormem-lhe os ossos num talhão-de-artistas qualquer, por aí. Só sexta-feira, para o torneio de sueca, hão-de-varrer o salão.

Georgina Pastor, admirada conservadora de galerias particulares, herméticos pardieiros em que os ricos embalsamam arte outrora viva. Havendo apreendido cedo os gerais motivos & as comuns comédias dos néscios endinheirados, fez fortuna sem soluços. Repartiu o pecúlio aforrado por muito avisadas aplicações. Tal permitiu-lhe sair de cena quando ainda não perfizera os cinquenta. Contratou o casal Regina/Leopoldo Magriço, a dupla de sempre: ele, faz-tudo; porteira-cozinheira, ela. Vivenda quase—mansão na Rua Ravel. Chegou aos 86, levaram-na, preferiu a cremação, não ficou exposta – até hoje, aqui.

Renato (da Paz) Madrid, botânico condescendente. Residência ali alta, entre o Liceu e a Penitenciária, autêntica cápsula-do-Tempo que herdou dos materavós, Irene & Aquilino Salvador da Paz. Como certa Georgina P., nunca se casou. Salvou-se da burguesia, habitando-a sem luz-de-presença. Subsistiu-a, fingindo representá-la. A seu modo, foi anjo. Foi anjo consciente da clamorosa impossibilidade de Deus. Adoeceu, deixou-se de merdas, rasto não deixou significativo ou ominoso.

Mário Bonanza, careca como um fósforo, cuidador de inutilidades, criatura de rotinas relojoeiras, nem feliz nem melancólico. Modelo portátil de pessoa assim-assim. De invejável pecúnia, nem meio-caralho fez a vida toda. Abençoado.

Identificar & captar a pequenez como a grandeza mercê da mesma serenidade, mesma agonia. Isto é claro para mim. Claro que demorou uma vida a ser claro. Vou muito a tempo de ter onde cair morto: qualquer pedaço de chão me basta.

Tenho residido suficiências.

Idem idem pouca gente.

Jorge, Angelina & Valter: manos músicos, completavam quarteto com Dinis Querido. Tributavam excelentes afinações a arranjos de música d’entre 1964 a 1979. Rodavam o circuito de bares pela música da noite. O conjunto desfez-se com a emigração de Angelina para a norueguesa Trondheim, a colocação do professor Jorge em Tavira & a desistência simples de Dinis. Valter fez posterior carreira, mas de continuidade desgarrada, em grupos similares. Nenhum dos quatro consta de qualquer publicação recenseada de bandas semiprofissionais do Pavia para cima. Nem para baixo.

Recém-nascido atirado ao lixo, o senhor Presidente da República já foi falar com o salvador do infante, por ironia um sem-abrigo. A televisão, comovida, serve-nos o doce desse momento, a guloseima da salvação. Portugalinho da diabética lagrimeta telecomandada.

Locais onde Garrett assinou versos & linhas afins: Birmingham (Warwickshire, Inglaterra); Ilha Terceira (Açores); Porto; Coimbra; Angra do Heroísmo; em pleno mar (Agosto de 1824); Lisboa; Sintra (Cintra, sic): prisão do Limoeiro (Lisboa, Agosto de 1833); Londres; Havre de Graça; São Miguel; Paris; Bruxelas. Gostaria de ver como eram estes burgos nos dias dele. Nunca terei tal gosto.

(Falta-me ler Carlo Emilio Gadda.)



b) Sexta-feira, 8 de Novembro de 2019



Manhã clara. Clausura. Temporário. Alienação paulatina, mas volitiva, de quanto arda sem calor. Existência tomada. Nomeio o meu povo. (É decerto inexacto dizer povo. Rebanho de soledades, sim, melhor carimbo.) vou confederando clarões eidéticos, por assim dizer. Quanto a legibilidade, não cuido por aqui aquém. Rolando?

Rolando Garcia, emérito cavalheiro como muito poucos, mestre oficinal de louça decorativa. Conhece, da Beleza, a instantaneidade capaz de fundir séculos em um instante sem esquecimento. Fulmina-o de quando em vez algum trecho de rádio: Piazzolla, Barber, Paredes, Grieg – contra a ignorância triunfal dos sicários, contra a morte-em-vida. Rolando sabe (como eu sei, aprendi) quão sozinha é a fruição. Como o sabe Susana em casa de Susana, Orlando em a rua de Orlando, Gil com a árvore do avô Gil, Luísa em sua saleta sem retratos. Pois?

Pois é, aqui não formiga tertúlia. Italo Calvino chama “trapalhão” a Colin Wilson? Desta monoplateia o aplaudo. Garrett refere Benjamin Franklin? Sorrio sem precisar dos dentes postiços. Heitor?

Avulsas mas razoáveis vezes o vi passando rumo a si mesmo, as mais vezes aos sábados, Heitor Sílvio Marrazes, pêlo-de-rato, roupagens monocromáticas, tão capaz de se comover ante alguma máquina bem ideada quão de repugnar-se ante os galarós capados do marialvismo tauromáquico. Casamento frio, o dele com Izaura dos Remédios Pilar, católica por apatia, sem uma frase própria, mais lhe valera o freirato recluso. Mas lá desandaram – como toda a gente. Miguel?

Miguel Paladino em plena névoa londrino-victoriana. Arrendou alojamento na Great Russell Street (WC1), que partilha com um Guilherme Guarda de Coventry. Trabalham ambos no Hammer Hotel & Lounge – Miguel no economato, Guilherme na manutenção termoeléctrica. Guilherme não sabe dizer-me se Miguel deriva dos Paladino de Colchester, se devem dos de Norfolk, se de ninguém, o que sempre seria, como o próprio Cristo, novidade. Já apurei, todavia, que o empregado de hotelaria se oferece lições particulares: piano, grego & latim, astronomia, dactilografia. Não-fumador, abstémio sem ser por moralidade, consegue pagar essas propinas sem angústias. Toma o aluguer de uma prostituta-domiciliada cada trimestre – e sempre ao dia 18: Fevereiro com Laura Travassos, Maio para Dorina Anselmo, Agosto em Telma Lemos, Novembro de Teolinda Palha. O gajo organiza-se. Ida, agora.

Ida Tranquila Ralha. Vem dos canais holandeses. Filha & neta de marítimos flamengos. Velha, bonita. Especialista em Vermeer, Hammershoi, Wyeth, De Chirico, Rilke, Beckett, Montalbán, Espinoza. Cozinheira-adjunta do Hotel George V. Biblioteca pessoal: 44 volumes de alfarrábio (até 3 de Setembro último, contei-os). Férias em Delft (anos ímpares) & na Normandia (os outros). Em viagem, casaco azul-noite abotoado a madrepérola. Elsinore (Helsingør), talvez um dia. E em dia as letras de Ida.

Vejo uma via empedrada entre casas cuja descrição poderia ser produzida ao piano por Miguel Paladino, agora que já aprendeu. Nenhum nome por tal via. Isto não a faz sinistra. Suspende-a, antes. E projecta-a para um depois que não posso, já não poderei. Como, porquê, nada de quando, onde, quem muito menos. Eu disse clausura. Não brincava quando o hei dito.

Sim, o dinamarquês Hammershoi, que Hopper não enjeitaria. Homem interior, cujo olhar é de uma densidade equivalente à do verso justo, do fotograma exacto: olhar sem depois nem antes – por interior, nem cit/ nem ult/erior. Como sentimos que uma janela nos olha – compreendeis isto? Se não, perguntai (também) a Wyeth. E se ele V. responder, contai-mo, por cortesia.

Imagem vinda de dentro já no pós-meio-dia: a mente como papel mole a que chega na diagonal uma punhada líquida: a memória. Como André W. pintando em segredo Helga T. Tal é só de ambos. Cabana vedada à idiotia alienígena, rica de mais até para monarcas ainda não exilados, quanto mais para reses de incônscio rebanho. Estou certo no & do que digo, a este respeito. Não tanto quanto a outros.

[Aparente omnipresença de um eu-árbitro, em espécie de um fulcro neutro, ante & através as várias existências de E(u)xistência. Menino & velho. Branco & nocturno. Feliz & mentiroso.]

Ou então, naturalmente à face de outro mar em outro verão, aquela tarde prussiana, mulher de leite duro subido à explosão de ouro da cabeça em coroa, improvável verão de mar sem prova, ela bordando o litoral em efígie de ausência anunciada, autora só de sua sombra longa como cauda de noiva, vi que se apartava até destes versos futuros & sem futuro, como os outros.

(Aparecer, parecer, ser & perecer. Pronto.)

Nietzsche tinha sífilis como eu tenho pena de António Botto.

A Jill Ireland de 1975 radiava finuras ductilíssimas. Eu porém contava só onze anos de nascido, então: não podíamos. Agora que, enfim, agora – agora nada, senhor Abrantes, tudo como dantes.

terça-feira, novembro 26, 2019

CADERNETA (título provisório de coisa-em-progresso) - 8






8. Fervor Sim mas Alarido Não

a) Segunda-feira, 4 de Novembro de 2019



Descobri hoje, em aleatória jornada leitora, que cada hoje é muitos dias. E foi por causa de ter passado a saber que, além de ser o do nascimento em Aracataca, Colômbia, do grande Gabriel García Márquez, 6 de Março de 1927 foi também o dia em que Bertrand Russell proferiu, no South London Branch da National Secular Society (ali no Battersea Townhall), a palestra, hoje justamente célebre, Why I Am Not a Christian.



b) Terça-feira, 5 de Novembro de 2019



O rosto de Jean Seberg é uma das pérolas da manhã (dita) nova. Outra pérola, outro rosto: o de Joseph Merrick, o Elephant Man. Acontecem ambos na minha atenção irrevogavelmente adulta. Tristuras diversas são. Ainda repercutem. Veios não tão subterrâneos quão isso. Sarah Kane, outro rosto na manhã moribunda. Aqueles insectos capazes de caminhar à flor da água, vêdes? E Dorothea Binz? Infinitude de toupeira arquivista – bem o sei. Kim Philby explicando-se para amnésia futura. Não será hoje que vai ao Batley Variety tomar umas bebidas valentes com alguém sem nome cristão. Tal Yorkshire é irreversível. Como, precisamente, a ex-nova manhã. Desmantelou-se sozinha qual companhia de teatro-de-variedades portátil & portáteis.
Cliff Richard de camisa azul-escura, óculos-fumados cor-de-chá. Shirley Bassey de blusa cintilante, folhos discretos. Bruma & maresia segregando-se mutuamente: além, à mão da lembrança só, que é a redactora. A inocência que se quiser. A Anita Ekberg que se puder. E quando escrevo Anita Ekberg – é na maravilha de ter por & para descobrir, eu mesmo, digo, o senhor Francis Ponge. E. que não demore muito tal empresa, pois que o corpo me não dá sinais de eternidade, ao avesso do que na nossa comum infância me prometeu. Ou iludiu, corrijo agora. Natalie Wood & Anouk Aimée valem também. Não no Lancashire. Não no Sabugal. ~

E então a noite deixa que os rostos se recatem, resguardados de escrituras, remorsos, quaisquer projectos. Por mim, preciso de vela nova para a cabeceira. Tratei já da louça, aliás mínima. Não tenho vela mas tenho muita via: Garrett, Calvino, Saraiva, Tennyson, entre outros nomes. Nomes como Adolfo, Messias, Pedro Gomes, Vieira Nunes, Constantino. Tamagnini, Brasfemes, Costa. 1988, ao alto das Quebra-Costas. 1977, no Jamor. 1981, Lagos. 2000, Largo de/do S. Carlos. 1994, Matosinhos. 1986, Braga. Santiago do Cacém, 1987. 1970, rua da Sofia. Não sei por vezes que fazer de tanta relíquia. Então a noite etc.

Ainda: um cavalheiro chamado Machado, patrão de um Luís & de uma Adelina; dos três, sei estarem mortos dois, sendo forte a probabilidade de o terceiro também já por cá não andar. A Machado, devo nada. Com Luís, entendi-me quanto a novidades. A Adelina, devo uma boa recordação de cariz norte-americano.



c) Quarta-feira, 6 de Novembro de 2019



Nada de Jean Seberg, hoje. Hoje, sim, cem anos do nascimento da poeta Sophia de M.B.A. E escrever hoje à guisa de grande absoluta legítima verdade – irrisória pretensão. Sophia legou muitos muito bons versos. Ficam no éter. Espargem claridade. São a verdade de si mesmos. Bem para lá (cá) do corpo já imprestável que os gerou. Lembra-me agora al-gures Al Berto. Deu as voltas dele. Dar voltas não tem cura. Já consigo cansar-me de me cansar. Também derivo no que vivo. Este corpo é quanto me sobra da nascença – volúvel, volátil, precária, preclara relíquia. Março de 1986, dia 1 – li Cortázar, recordo isso tão bem. Faltavam – sei-o p’ra-sempre-agora – 2-meses-22-dias: e não há mas, nem mais, nem adiante. Nada a fazer & tudo por fazer. Sim.

Mais gente sabe o respectivo signo horoscópico do que pessoas sabem o próprio tipo de sangue. Galáxias de idiotia. Oklahomas de acéfalos. Sedentária acefali’diotia geral. Brasis da mais pindérica anorexia mental – e moral, até. Aqui sim, adiante.

Sidónio Barreto, nosso vizinho, cultivava o mutismo mais inexorável. Parecia saber coisas siderais que o encerravam em beleza. Pedro Verde veio umas poucas vezes tomar chá com ele na companhia de Adão Formiga. Ricardo Recto, penso que não tanto. Quim-Tó Lua? Sim, visitou Sidónio. Tal como João Bom-Homem. Esperai – e João Entassobio. Mais: Ronaldo Jaime Deus; Jaime Morfilho; Leonardo Ferrado; Tiago Belga; Afonso Cerqueira. E Carlos Artur Muros. Este povo todo fantasmand’andando por aí, menos Adão, talvez. Novembro os guarda por trinta dias. Talvez mais, se eu ainda puder.

Difamaram José Q. – e pronto, abrasaram-no sem retorno. Durante tal, João Castor abandona o sanatório no exacto ano do nascimento daquele que viria a ser, deste, o último acamado: Alberto, filho de José & Joaquina. Deolinda morreu tenrinha, por-aí-Tempo. Itinerários polívocos, por assim dizer. Sem manual-de-instruções, o atirador-furtivo tripula a espera insensata. Sucessão, por assim dizer hieroglífica, de árvores em majestade inabordável. Andorinhas & cegonhas: xadrez puríssimo em tabuleiro de arrozais. Um animal dormindo enquanto Jorge, no Alentejo, felizmente desconhece o que (des)faz Luiza em Lisboa. O major Proença sepulta a mulher na planura natal, ao todo oito pessoas na cerimónia, padre, sacristão & gatos-pingados incluídos.

David Gil Moura & Rogério Águas consolidam papelaria (D.) & livraria (R.) em pujante prosperidade. Pensada fortuna os irmana. Encerram sempre de 30 de Dezembro a 7 de Janeiro. David tem amada em Viena de Áustria, é no Prater que ela o recebe. Rogério leva a mulher com quatro filhos para a Pensão Gerez, em Adelaide, hospedaria de minhotos há décadas radicados no continente austral.

Um que era João Perfume, atónito tonito coitado presa de putas ditas finas, acabou exilado entre roseiras menos húmidas & espinhosas do que elas.

Acendiam a luz crudelíssima do salão quando o baile acabava. Era pela matinée dominical. Lixos humildes pontuavam o soalho há muito por encerar. Era afinal tudo no âmbito da estrita paroquialidade. Jazz sem dédalo. Salão vácuo, não o varrerão antes da seguinte sexta-feira, noite do torneio de sueca. Palmira Carrofilho veio a horas a buscar o homem dela. Tragédia simples. Não há anfiteatro nem coliseu para isto.

Vêde aquilo dos filmes pornográficos: muita acção, história nenhuma. Desde-que-paguem-certinho-é-deixar-andar.

Tânia Nicola, morena, solar, amiga de Germana Adão, clara, verde. Filhas ambas de homens bem-postos na administração-pública. Não tenho rasto das mães. Chuvada intensa na quarta-feira em que a solar & a verde vão ao cinema do hipercentro. Antes do filme, jantam saladas nos comedouros de néon ofuscante. Conversam miudezas pré-gravadas, dessas que alguma grande-literatura não enjeita. O filme aborda os caminhos criminais de Eduardo Duarte Maio, o taxista matador de prostitutas da zona litoral-oeste. A história de Maio perturba-as. Decidem não voltar de táxi a casa. Vem busca-las a madrasta de Tânia, enfermeira desenxabida com fúria de viver. É ex-mulher de um histrião da inspecção sanitário-alimentar. No dia seguinte, ninguém se lembra de ninguém.

E.D. Maio foi achado & detido a meio de uma manhã até por tal perfeita. O meretricida comprava legumes no mercado municipal, nem deu por que o caçavam sem estrépito, fervor sim mas alarido não. O inspector judiciário era Tomás Alano Esteves. No filme, o guionista chamou-lhe João  Robles Aguafilho. Ao assassino, Afonso Pedro Sanches. O filme que Germana & Tânia foram ver não foi a Cannes, Berlim ou Veneza. Maio ou Menos ficou.

(“Da literatura piegas nos livre Deus, sobre todas as coisas.” – isto é Garrett, em Lisboa, Janeiro de 1853, pela introdução que fez a Fábulas e Contos.)

Quanta veracidade ensejo, quanta ficciono. É na calma da casa que a noite dá já por tomada. Vai cegarregando o não-lento relógio. Na cozinha, urdi há pouco o caldo noctívago, não exagerei o azeite, guardado tinha o bocado de ontem, pão ainda se chama. Agora que o conto, isto está mais no contar do que no contado. Quando respiro, de piscos olhos vogando pelos muros do quarto, inspiro outros nomes, cujas sílabas fremem ao favónio do-que-vier.

Mena Calboa, jóia de moça atristurada que gostava de alongar a sombra ali por raias da Torre de Belém, onde a luz a tudo decreta a um só tempo, bendita e bem dita seja Lisboa. Namorou-a um que era de Almada, Saul Martim, rapaz da Mercante que não preava literaturas. Estiveram casados dois anos, três juntos, saiu sem dor cada um para seu lado. Ela voltou para casa dos pais, ali ao Campo Grande. Ele, já não sei, ainda não escrevi.

Para talhante na Alemanha foi Cristino Vergel em busca de salario que num portugal-futuro lhe telhasse casa. Levou nada e pouco trouxe. Amargou insolências, mais nacionais que socialistas, ali por bandas do lago Konstanz, ou assim coiso. Assisou-se, amandou a Alemanha para o lado do cu, albergou-se na Suíça francófona, tão-cedo não volta.

Volto eu – à janela-porta de vidro alto, mirando o presépio ínfimo dos bairros em que ricos não moram. Nesta (com)postura tenho pensado muito em coisas livrescas, aquele médico moço em Monsanto, aquele novel professor em Évora, ou seja, Namora aquele & Vergílio este, apetecendo-me reler, ao cabo de tantos-mas-tantos anos, Seara de Vento de Manuel da Fonseca, A Lã e a Neve de Ferreira de Castro, O País das Uvas de Fialho de Almeida, In Illo Tempore de Trindade Coelho. Reler com esta nova idade de velho que é a minha e de quem sou. E Alexandre Bissexto de Armando Silva Carvalho. E o que (ainda) tiver de João Miguel Fernandes Jorge. Sou leal a prazeres antigos, nem sempre vetustade se volve vinagre.
Retorno sem ânsias à poltrona, retomo o meu taful Garrett, tão bem escreveu o janota, morreu sem chegar a velho (ou antes: morreu com a idade que é a minha agora; já agora também, a mesma conta final de Eça – 55), penso mais nisso do que talvez deva, Ruy-Belo-45-anos, Fernando-Pessoa-47, de Sebastião da Gama nem é bom falar, nem de Cristovam Pavia, meus pobres Cesário & Anto Nobre. Sim, Mário Botas.
Sim, livra-me da pobreza este viver em índice-remissivo. É remediado tesouro que ao colo me aconchega.

Na lisbonense Rua Carlos Mardel vivia uma magrita da família Félix da Praça do Chile, chamavam-lhe Kia por diminutiva ternura, sei que era Lúcia como aquela bisonha das fraudaparições da Cova. Lembrei-me de Kia por me ter lembrado de (mais) livralhada. Lúcia Félix venerava Al Berto & Nick Cave, correspondência aliás coerente, artista de idêntico lirismo, acho eu, que também gosto dos dois. Isto é matéria do tempo em que eu subia – a pé sempre, como sempre & para sempre – até o cemitério do Alto de S. João pela Morais Soares. Muito andei eu. Fiz Xabregas-Chelas, Prazeres-Areeiro, Telheiras-Alcântara, S. Bento-Santana. Praça do Chile, Ismael apresentou-me a Kia. Simpatizámo-nos, falámos logo de Cave & de Al B. Quando ela me soube nascido em Coimbra, saiu-se logo com – “Aquele homem lindo também”. Eu redargui que – “Sim, o Al Berto por lá nasceu em 1948, mas fez vida por outros mundos, em Janeiro de ’92 foi lá ler poesia mas deu-se mal com os imbecis ruidosos da plateia, mandacaralhou-os e foi-se embora, nem sei se alguma vez lá voltou.” Ela teve pena. Al Berto morreu pouquíssimos anos depois, dizem que daquilo dos homohomens, não sei, não quero, nem preciso de saber. Ainda a vi algumas vezes, aliás poucas, uma das vezes foi por ela ser bilheteira da CP. Espuma, não pedra, tudo.

Já agora que, por assim dizer, ulissiponho lembranças de há vintes & tais anos, havia uma Rosa cega que pela esmola cantava na Rua ou Augusta ou Áurea, a voz dela entrava no coração distraído e contraía-o logo, macerava a pessoa que não pede & só passa & vê a luz. Havia mais bípede mundo em Lisboa. No Carmo, um sósia de Estaline que era reformado da estiva; no Camões, um dandy que ciciava indecênciazinhas a todo o rabo-de-saia dos 7 aos 77 como o Tintin; no Areeiro, um maluquito inofensivo era o clone estampado do Ciccio Ingrassia, aquele do Voglio una donnaaaa! no filme do Fellini, este Ciccio fardava-se à cobradora da Carris, o homem do Café dava-lhe a sopa diária; na João XXI, a solidão estalava ao sol como lacraus de madeira; as Amoreiras já então sofriam daqueles cagalhões arquitectónicos do coiso; na Pontinha, um moço de pastelaria doudejava innuendos gayzolas a todo o cós-de-calça dos 8 aos 88 como o Tintin um ano depois. Nem bom nem mau de mais, tal meu tempo – passou, não volta, puta-que-o-pariu.