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terça-feira, outubro 27, 2015
sábado, agosto 25, 2012
CARTA DE PESSOA À TIA ANICA no IDEÁRIO DE COIMBRA - 34 - Coimbra, quarta-feira, 7 de Julho de 2010
Um detalhe das possibilidades da manhã: não
ler o Correio da Manhã mas sim, depois,
de Teófilo zurzindo Antero, a carta que em Lisboa Fernando Pessoa escreve, a 24
de Junho de 1926, à tia materna, a Tia Anica (D. Ana Luísa Pinheiro Nogueira).
Depois de lhe revelar que
Aí
por fins de Março (se não me engano) comecei a ser médium. Imagine!
Pessoa assenta que
Há
momentos, por exemplo, em que tenho perfeitamente alvoradas (?) de “visão
etérica” – em que vejo a “aura magnética” de algumas pessoas, e, sobretudo, a
minha ao espelho e, no escuro, irradiando-me das mãos. Não é alucinação porque
o que eu vejo outros vêem-no, pelo menos, um outro, com qualidades destas mais
desenvolvidas. Cheguei, num momento feliz de visão etérica, a ver na Brasileira
do Rossio, de manhã, as
costelas de um indivíduo através do fato e da pele. Isto é que é a visão etérica em seu pleno grau. Chegarei eu a tê-la
realmente, isto é, mais nítida e sempre que quiser?
E conta mais:
Perguntará
a Tia Anica em que é que isto me perturba, e em que é que estes fenómenos –
aliás ainda tão rudimentares – me incomodam? Não é o susto. Há mais curiosidade
do que susto, ainda que haja às vezes cousas que metem um certo respeito, como
quando, várias vezes, olhando para o espelho, a minha cara desaparece e me
surge um fácies de homem de barbas, ou um outro qualquer (são quatro, ao todo,
os que assim me aparecem).
Por mim, quanta mediunidade posso – é esta
de copiar o que ele escreveu em (primeira) Pessoa.
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sexta-feira, agosto 24, 2012
Ideário de Coimbra - conclusão da entrada 33 - Coimbra, terça-feira, 6 de Julho de 2010
Vozes e olhos. Gargantas por onde sai a
alma toda. Peles que vestem as árvores ósseas. Roupagens colorindo pessoas tão
vivas. Basaltos duríssimos, certos olhares. Ânsias por ternura que não provirá
nem está à venda. Seres de fluvial exílio e marítimo desterro. Erotismos
eólicos. Graças recebidas. Remunerações gestuais. Enclaves demiúrgicos de
grande teor simbólico. Cervejas sem álcool. Filigranas e hemistíquios. Berlim-Praça-de-Alexandre.
Túneis de som óptico. Rosas, ventos e rosas-dos-ventos.
*
Vi, morta no chão, perto de lixo, uma
andorinha. Mas antes houvera visto uma borboleta de um castanho ferroso quase
chá. Viva. Ambas são, andor e borbo, inha e leta. Um cinquentão fumador de
Português Suave Amarelo ao engate de uma rapariga negra de olhos límpidos e
rotunda carnação. A um metro de mim. Dispenso a escuta do fraseado, opto pela
penugem gabiru dele, a cintilação quase ingénua dos olhos dela. Ela, de trabalhosas
tranças finas. Ele, grisalho já em bom adianto. Ebony and Ivory etc. Por dentro, somos a mesma terra – e a mesma
lama.
*
Horizonte mentalizado (fechando os olhos
para ver): fumo de garças rareando o opúsculo crepuscular; mancha, esfumada
também, de arvoredo a que sucedeu dunas, areias & o Mar; gente holandesa
comendo arenques enquanto fala de museus e de casas-de-putas; Bolonha,
Florença, Corleone, Aspromonte; nervuras vegetais que digitalizam radiografias
de mãos; pulmões excrescendo sangues no Caramulo; & a Andorinha & a
Borboleta.
*
Vais viver muitos anos depois que vivi.
Em alguns aspectos, nem nascente ’inda.
Janelas debruadas a verde sem gente à
janela:
é muitas vezes mais triste ficar do que
passar.
Aos anos que as gaivotas devoram/demoram o
Mar.
Decoram o Mar há que anos, as gaivotas.
E nós, finisseculares desde nascença, não
goramos.
Um coração habitado por coelhos da
Berlenga, imagina.
Maravilhosa marfínica dentição, a da
rapariga
tão negra, negra a ponto de luminescer.
Como lhe é genuíno o ouro pechisbeque
da pulseira, fogo de metal ardendo carvão.
Forlán, o uruguaio de olhos azuis, fita o
Céu.
Joachim, o alemão de cabelo negro, também.
Quem devolve a casa os heróis do dia e
Anne Frank? É quase matricídio, tanto amar.
Ressonâncias cavam fundações no coração
que bravuras são de geral fra(n)queza.
Maus casamentos por toda a parte, mas
bons filhos: ínvia é a Humanidade, mas
transita.
E tirita – de gelo em pleno Estio, ante
mulheres que se adamascam de louro,
homens que se depilam, cafés que arrefecem
em sozinhas cozinhas. Ao néon, os cesários
possíveis verdejam o gás que podem. A
mulher-
-da-erva existe: lenhifica-se, muito viúva,
por azinhagas que são mais do que só-Coimbra,
mas Portugal-todo. E eu funciono, eu estou
vivo.
*
Sim, viver mais vais muito
do que vivi.
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quinta-feira, agosto 23, 2012
Entrementes, no Verão de Coimbra de há dois anos... Ideário de Coimbra - 33 (trecho) - 3.ª feira, 6 de Julho de 2010
Ontem
à noite, 5 de Julho, já bem depois da 23h00m, o calor batia os quase 30°C.
Senti-me acossado pelo bafo de mufla da hora. Fui esconder-me no
ar-condicionado do CalhaBar. Curto visualmente, enfim, mas sem intrusão da
besta erótica, a nudez dos decotes e dos pés das senhoras de Coimbra. Mui
airosas chinelam elas, mui mamariamente arfam devagarinho. Ainda agora
(17h29m), um jovem casal cotovia-se mutuamente. Ele argolou uma anilha no
lóbulo esquerdo, é de bom queixal, boa estrutura facial, pele serena. Ela é de
calças rasgadas que revelam lisuras pernais, mãos de bom equilíbrio longo e
branco, cabelo apanhado em totó occipital, seios de meia-laranja, blusa
cor-de-limão, boca sem desfalecimentos, excelente dentição. Não me parecem, os
felizes, que sofram de fernandopessoísmo. É provável que venham a frutificar
filhos uma contra o outro, que devagar desistam de catarinafurtar-se utopias de
celebridade-de-têvê-reles. Mas a mocidade instantânea deles é-me gratificante.
Não ofendem a vista, antes pelo contrário: foram os bebés de alguém, não andam
na droga, primaveram em pleno Julho uma seiva de figos frescos. Por outras
palavras: devo-lhes algumas linhas de desangústia.
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sábado, agosto 18, 2012
Ainda mais coisas de Coimbra, quarta-feira, 30 de Junho de 2010 - IDEÁRIO DE COIMBRA - 29
Falo em directo de um porvir pessoal.
Se um dia Velho, isto relerei de ensinados
olhos.
Tempo ido, perdido tempo?
É da natureza da hora ser segundo a
segundo, dia por dia da Mesm’ÚnicaNoite.
Paciência em prol de ciência.
*
(Respirar é de borla, mas pensar não é
gratuito.)
*
(Este é o meu trabalho, querida.)
*
Dimensões tempo-penso-espaço tergiversam
medusas em coral-psique, filme adentro salões de chá e de
pessoas-sós-só-pessoas.
É muito belo saber matrículas de cor,
MO-45-18, Camilo-Pessoa-Pessanha-Fernando, Berliet estampada ao km 14 duma’EN
qualquer perto dÉvora.
Eu sozinho na elvense Residencial D. Sancho
ingerindo chilra manteiga de café-com-pão (1997, tinha caído o então-Verão).
E isto de ter um coração hemistíquio
sujeito a Comissão de Cesura?
É andar andando a pé-quebrado.
E a (p)rima é branca, idem o verso.
*
Na banca de rua do Rei da Fruta (entre O
Nosso e o Viaduto) vi agorinha um estendal de figos cuja roxura me acordou
agnosticamente o cromatismo Senhor-dos-Passos. Láctea sobrepeliz,
figo-seio-de-senhora-em-cio, belo de ver. Ao lado, a estrangeira
courgette-ou-como-é-que-se-escreve, o pêssego-pente-zero, o tomate inflado de
papel-de-seda, o alho odontológico, a batata humílima, a couve sobreposta em
si-mesma como o Passado e as Nações. Ontem fui ao Bingo porque a minha Mãe não
estava em casa, nem em casa mulher me esperava, só Brown/Chesterton. Viver tout
de suite encore na mesma.
*
Um rapaz, seus trintiquatro anos,
cola-croissant, almoço de bancário-com-perninha-de-fazer-seguros, certa
porcinidades de bolsas queixais, tiquezito oral “é-assim”, bom fato barato,
gravata azul-merda de quando se caga a azul o que castanho-verde se comeu.
Liquefacção de duas horas: em espera. Eu agora vou ter de nascer outra vez,
sabes, sabeis, a minha Mãe etc. Devo envergar honestidade, nem que seja para
comigo. Nós vamos morrer, mas deixai-me primeiro viver um pouco disto na pista
dos carrinhos-de-choque, no poço-da-morte, em Matosinhos, perto de outro,
bruscamente, Verão passado embora. (Sim, nem todo o filho de Guilherme – vulgo
William – é Tennessee, mas ainda assim.)
*
Eu sabia que esta tarde era
já o futuro desde ontem. Aqui me tenho nela. Boa pontuação (muito boa) – e
outros aliases. Daqui a pouco, na cafetaria da Almedina/Estádio, perto da
impressa lareira de livros, nada longe da Igreja de S. José, o corno mais
justificado da História Ocidental. Écoutez
la Chanson Bien Douce etc.
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Mais coisas de Coimbra, quarta-feira, 30 de Junho de 2010 - IDEÁRIO DE COIMBRA - 29
© Forest of
Beech Trees - Klimt
Dou-te íris.
Vem daí um pouco.
Vamos ao Abadia ter calor, vem.
Ensino-te as ruas.
Tu ensinas-me o nome das árvores.
Sabes tu que tenho feito?
Desconhecedor dos nomes delas,
atribuo-lhes nomes de meninas:
estas três em frente ao Viaduto são
a Raquel, a Magda e a Hermínia;
a que às seis da manhã tinha um único
pássaro,
perto da casa do cirurgião Manuel Antunes,
é a Natércia;
uma que uma vez trepei para que
o céu não fosse tão desumanamente longe,
essa ainda se chama Genciana.
No Choupal, claro, é uma alegria, são
tantas
como as horas de uma vida, tantas, tontas,
tintas, chamam-se algumas:
Brígida (do lado do bufete onde servem
cerveja preta e ovos cozidos), Lenamar (já quase-quase na Quinta dos Borges),
Ricardina, Olava, Nefertiti, Glúmida, Fernanda, Genciana-B, Ferrina, Bembeija,
CosiFanTutti, Canina, Derília-Santos, Rítzia, Unida, Para-Sempre, Como-Nunca,
Atéquefina, Mandarina, Leocádia, Literária, Nãossucede, Cáspia, Marmorta,
Saudade, Genciana-C, Minhamãe, Doutíris, Daípouca, Abadia, Abanoite, Terrível,
Pepita, Népia, Tercina, Apogiatura, Peneirita, Esfalfa,
AdministraçãoRegionalVerde-Rubra, Semproutonal, Celorica, Ribeirapenata,
Saramagente, Lívia, Múria, Naifininfa, Tomásia, Tatacha, Nectorangina,
Limonetista, Ametriste, Circunvalada, Tentugalina, Sgra, Amorfa, Cortazariana,
Redesprés, Egípcia, Prumosa, Rossaya, Lodimartineza, Aspília, Monteformosa,
Cerúlea, Tantatontatinta, Natália, Sofista, Crúzia, Rebentação-de-Pó-de-Flor, Certa
(também ao lado, mas do outro, do bufete onde servem cerveja cozida e ovos pretos), Darda, Si, Josécídica,
Dona-Lucínia, Rica, Rickygerveza, Tulimane, Inca, Iça, Quadrata, Caracola,
Remanesgente, Prurida, Leixamira, Cumália, Beltina, Cetetê, Leoferriana,
Frigorífica, Matatenentista, Juraquessim, Tássememaver, Horasdumavida,
Queiroziana, Simónica, Mónica, Única, Betraste, Eduardiana, Noronha, Gustante,
Ristra, Rubéola, Raquel-B, Magda-B & Hermínia-B.
(Pois que, não podendo versos, posso
árvores.)
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terça-feira, agosto 07, 2012
IDEÁRIO DE COIMBRA - 28 (alguns trechos) - Coimbra, terça-feira, 29 de Junho de 2010
© DA, 18h27m de 16 de Dezembro de 2011
28. ESTA
NOSSA MÃO ESQUERDA
Coimbra, terça-feira, 29 de Junho de 2010
(…)
Vesti hoje uma camisa muito lavada e muito
fresca. Sinto-me bem dentro dela. Deveria haver camisas assim para o
pensamento, sobretudo quando o pensamento anoitece logo de manhã. Não é porém
tal o caso, não hoje, não esta manhã.
(…)
Pessoa, de Lisboa (4 de Setembro de 1916),
escreve a Cortes-Rodrigues isto:
Se V.
tem estado desterrado, eu sem desterro também o tenho estado. V. não imagina.
Tenho passado estes últimos meses a passar estes últimos meses.
(…)
Três mulheres vêm bicar aO Nosso. Uma, morena no tom exacto da morenidão das brancas,
vem a bordo de um vestido de alças peça-única azul com flores vermelhas.
Belíssimo conjunto: pele solar e vestido leve. Tem uma tatuagem em baixo, no
país que decorre entre o joelho e o artelho direitos. Deve ser bom conviver com
tal filete de anchova.
(…)
(Ela fala-me em sonhos. Nos meus durante,
dos dela que sonhou.)
(…)
(Esta minha mão esquerda, órfã de escrita e
de as habilidades outras quase todas. Estrela pobre, coitada. Segura o caderno,
como se acalmasse o cavalo do meu coração largado pela irmã dextra. Vive na
sombra. Remove cera do ouvido correspondente ao hemisfério dela. É como aquelas
mulheres caladas, casadas, que de vez em quando vemos passar em sonhos e pelas
ruas. Mas é a esquerda, mas há a direita – pelo que aqui, tabelião notarial,
certifico que uma desgraça nunca vem só.)
(…)
(Pertenço todamente a um círculo de lírios.
Janto em casas-de-pasto de principesca silhueta, o garfo empunhando à guisa de
caneta. A minha afeição é doida. São malucos os amores que tenho. Sou um campo
diário à espera de flores nocturnas. Oh sim, eu anoiteço! – Isto são só versos,
caga nisso! – Mantenho em casa lápis como antigamente gatas, retratos, canecas
de faiança, psychés. Tu és diferente, pertences à Fiscalização dos Pertences
& Deveres. Tu não és feliz, mas parece-lo. A rosa tatua a tua boca em
lacre. És bonita, pertenceste-te & deveste-te a outros homens – não,
querida, não te serei o próximo. Sou um poetinha coimbrinha, tão-só isso/isto.
No Campeonato Mundial de Futebol, há corações batendo uruguaiamente. Sou desta
freguesia sem clientela. Sangro resinosamente o meu mijo, o meu leite, o meu
suor, algumas lágrimas oblíquas. Chamo-me Daniel mas não sou o meu Pai. Ela,
não tu, fala-me em sonhos. Tu sonhas-me em falas. Sou o resineiro/engraçado/engraçado/no/falar. T-shirtamente é o despido
coração entrelinear de quantos cadernos até hoje borrei de tinta asterisca.
Predadores sexuais algaraviam golpes-de-rins. Engaiolador de borboletas, leitor
comovido de Luís Filipe Costa, oh! também me assiste a lembrança de certo
contramestre pescador da Leirosa chamado Damião, dilecto amigo do falecido
Acácio Buto, pai do Paulo da Adémia (o Acácio), cuja generosidade (cuja, de
Damião) era tão assombrosa, no mínimo, quanto a do clínico pombalense doutor
Adelino Correia. Olham quanto se deitam as pessoas! Olha-me quantos prédios
encaixotando vidas! Olha que rotina quer dizer rodinha! Olha o painço sendo
ínsuo! Olha-m’ esta! Uma camisola verde, passando a praça, avermelha o meu
olhar-te. Tenho saudades do futuro que não chegaste a ser. Também, sei-o tão
bem, o-ser não cheguei a. Calma. Isto é tudo tão desperdício de estrelícias!
Isto de haver mais poetas do que versos – é uma merda compreensível. Mastigo-te
devagar trincadinhas de silêncio. Sou quem se comove ante um taxista coreano.
As gajas lambedoras de Salazar cursavam necromancia. Um mester é um mistério,
como todo, abrenúncio!, o ofício é santo. E é oficial a tua santidade. Derivado
tenho pela Sé Velha, pela Rua das Azeiteiras, pelo arrebol tímido do meu
coração-choupal, percebes tu que te não digo, pele? O senhor João Sousa, das
bombas de gasolina funcionário, bebentranha-se uma coca-cola. É de olhos claros
como rabanadas feitas de água. Tenho de comprar-te uns sapatos, que me
descalças quanto te desejo. Esta demora de corações na mansarda que ando sendo!
Molhada vagem de buganvília-baunilha em meu suburbano sexo! Oh Caldas da
Rainha, ehlah! Homens de lepidóptero azul encalmado, sás-de-mirandas iníquos,
ínvios, inócuos, inoculados – travessam minha transversalidade onzeneira,
danados! És cá de Setúbal, olá, és cá de Setúbal? Paquiderma-te
masturbatoriamente agora, anda! Se eu quiser, cometo-te versos agora, anda! Se
eu quiser, cometo-te versos e partes pudendas, aviso. Mui gloriosa é a
fatalidade sapateira dos mutilados de pernas do Vietnamoçambique. Pede-me que
pare, por favor!)
*
Estou algo órfão de amores que foram vivos.
Conheço-me em serras inominadas sabor a
queijo.
Sofro este que aquele desejo.
Um pouco de bacalhau tira da boca o gosto a
cravos.
Tenho um tabuleiro de impulsos no meu ól.
Manjerica-se muito, a minha vizinha
atordoada.
O mais que Cavaco Silva pode, não pode
nada.
Uma fenda abre, plúmbea, a nuvem anil.
Ramalhetes violentos encimam cor-florões.
Tenho uma tia azul, não digo tal.
É triste não poder a vida empadamente.
A vida não é Toyota, não veio para ficar
nem ficou.
Há ainda pertences do meu Pai por toda a
casa.
Aquilo da Mãe-Viúva cheira sempre a
demoras.
Éramos todos para ser felizes, mas a
Senhora da Agonia.
Fiz já quatro quadras, ganhei o dia.
(…)
Shadows-heart, coeur-d’ombres.
Às vezes um amigo é quanto basta d’ombro.
Outras, as filhas licenciam-se, tiram a
carta de condução de motas 125.
Pinhais molham estradas de fragor húmido.
Musgos cerceiam a fala, pode ser terrível
estar vivo na antemão da sombria
cor-coração.
(…)
Aquele homem tem de ser
um par de olhos azuis.
Mais castanhos são os meus,
aquiesces e anúis.
Nã’ redargas p’las ilhargas,
q’o ti’ Chico não conhece
a obra do Llosa que é Vargas
– nem sequer lhe apetece.
(…)
Procura-me do lado sudoeste da nossa vida,
eu mal existo mas o sudoeste existe bem.
No carnal jardim da noite, as palavras são
ossos.
Bandeiras de Portugal fremem excitações
revisteiras.
E o nosso falar amoroso, o mais é
anti-caspa.
Lojas esperam o senhor freguês com senhora
e criança,
a Kim Wilde tirou um curso de floricultura,
o meu Tempo precisa de uma caiação à maneira
(o teu, também) e
andamos para aqui tristes sem razão maior.
Tenho de ir ver a minha Mãe e Vitorino
Nemésio,
a Colecção Chinesa de Camilo Pessanha e as
gatas,
tenho tanta coisa, que nada ou pouco tenho,
um dia destes, no Café Abadia, começo a
falar
sozinho, ’inda me põem na rua ou assim.
Temos todos um tio bêbado algures,
alguns acumulam a bebedeira c’América,
os dólares andam pela hora da morte,
os tios também – e nós também, mas
enquanto ávida à Esperança,
que é uma rapariga que só leva vinteuros
e o resto também leva, faz parte.
Eu gosto de Duran Duran e não tenho
vergonha.
Em Lisboa, chamam Saca-Rolhas ao
Cristo-Rei.
E nós somos a Metástase Futura do Cancro
Salazar,
toma lá este Presente. Hoje, sentei-me.
Andei pouco, dormi à tarde coisa de meia
hora,
vomitei o caldo de feijão-frade em um
relvado
propício, derivei por esquinas aleijadas
como crianças africanas e escrevi versos.
Como é que se chamava o gajo que cantava
nos Human League? E a bichona dos
Dead or Alive? S’isto não é Alzheimer,
vou ali e já não venho. O Tony de Matos
chegou a ir a boîtes a Moçambique, eu não.
Procuro-te do lado nosso da vida nordeste.
*
O
Homem-Pessoa, a Vida-Fernanda.
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segunda-feira, agosto 06, 2012
IDEÁRIO DE COIMBRA - 27 (fragmentos finais) - Coimbra, segunda-feira, 28 de Junho de 2010
Antes, um dia serei agora.
*
Jamais dês uma excepção a quem,
por regra,
nunca é excepcional.
Nem regrado.
*
Isto de ser poeta em 2010 deve ser como ser
soviético no século XXI. Digo eu.
*
Diz-me (que não estás nem és, mas preciso
de um vocativo, portanto diz-me): que horas são? 15h54m. Calor bravo, começa no
inchaço dos pés, do mau pobre calçado. Lavar esfregadamente com sabão azul.
Lavar tudo, a começar pela vida, com sabão azul. O sabão azul tem por natureza
o cheiro natural das mães. A gente é parida para sabão.
Já agora: que horas são?
*
Sêmea.
Izoneira.
Juditismo.
Butos.
Cefaleia.
Gato.
& Maria Helena da Rocha Pereira.
*
Tornevó marico de salume
altira ricofache de costume.
Faguei água com mão e vei’ a lume
ter tornevado rico de sem-cume.
*
Não sou já tão novo quão minha literatura
é. Posso aliás ser tão velho quão ela
não. Sou só honesto nisto, nesta
porra de todos os dias buscar o novo,
a literatura, pura puta de nenhum
aluguer. E, para mais, mulher.
*
Estou a repetir o n.º 210 da Rua Antero de
Quental, mas vinte mais quatro anos depois.
*
Nisto tudo, com isto tudo, que horas
são/serão, São?
Roça a noite seus minguados
corpos, suas reses minguadas – e eu nada que ver com isso, eu de fora.
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segunda-feira, julho 16, 2012
IDEÁRIO DE COIMBRA - 26 (outro fragmento) - Coimbra, domingo, 27 de Junho de 2010
DA, Leiria, 11 de Abril de 2012
Desconheço se a Vida é de consumo mínimo
obrigatório, se de consumo obrigatório mas mínimo. É, enfim, consumo. E
obrigatória. E mínima.
*
Estilhaçada a redoma de cristal da
infância, desflorada a rosa da tarde, ao menos a julgar pelo relógio (15h37m) é
tarde na minha vida.
*
Quintais suburbanos, uma criança solitária
por cada. A montanha, longe para sempre, não mais que um fumo azul debruando o
horizonte da criança e da solidão que ela já exerce, suburbana do mundo. Nas
noites sem polícias nem ladrões, as estátuas trocam de jardim alvoroçando o
sono dos melros, indignando as dálias, entrando neste verso. Nos sanatórios de
fim-de-linha(gem), os velhos & as velhas descuram-se finalmente da mente e
do final, imunes ao Tempo e ao Amor e à Solidão e às Fezes. Cada criança
suburbana por cada solitário quintal iniciou já a contagem para este mover de
estátuas, de dálias.
*
Nas tumbas de pedra das catedrais,
bispos e reis (e soterrados operários)
nem dormem já, que o pó não dorme.
E o esquecimento é enorme.
*
Espanejo de floral rama de laranjeira por
vezes a minha vida podógrafa. Não se trata (não já) de leccionar crianças ou de
coleccionar amores. Trata-se de deixar escrita uma cor que aliás nem vi, uma
ave-árvore autuando a eternidade de uma tarde (uma eternitarde), algo assim
difuso mas uno na minha cabeça-coração. Ainda assim, deveria arranjar um
emprego melhor.
*
Conheço tão bem como toda a gente (séria)
que chamar genial a Pessoa é como chamar água à chuva. Em carta ao poeta Mário
Beirão datada de Lisboa, 1 de Fevereiro de 1913, ele assim:
As
ideias que perco causam-me uma tortura imensa, sobrevivem-se nessa tortura,
escuramente outras.
E adianta:
V.
dificilmente imaginará que Rua do Arsenal, em matéria de movimento, tem sido a
minha pobre cabeça.
Conclui o parágrafo:
Toda uma
literatura, meu caro Mário, que vai da bruma – para a bruma – pela bruma…
*
Se as andorinhas fossem amarelas, esta
menina de blusa amarela seria, em perfeição, uma delas. É filha deste casal
aqui, vêem, este que lancha tantos bolos e tantas coca-colas. Todos chinelam de
borracha, todos de calções. Por causa dos calções, os refegos brancos e moles
das coxas da mãe enrosquilham-se magmas de banha seguros a custo pela pele. Por
causa dos chinelos, os dedos dos pés do pai apresentam uma grossura de maneiras
e um duplo pentagrama onicológico de esterco que escreve travessões no
soalho-caligrafia do Café. Mas é por causa daquele amarelo da filha que, não
sei porquê, pensei em andorinhas. E que, em andorinhas pensando, foi nela
afinal que pensei e penso.
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domingo, maio 27, 2012
Atropelamento Mortal (republicação)
ATROPELAMENTO MORTAL
Coimbra,
segunda-feira, 13 de Setembro de 2010
Ele pôde, ou podia,
haver sido
César, Aquiles ou
Ulisses, mas Heitor foi
quem foi, este que
morto se achou
ao cabo de poucas
horas depois de
nefasto encontro de
seu corpo com
instrumento rápido
de contundente
natureza, vulgo
carro.
Heitor de Jesus da
Silva Pereira
colhido se achou e às
trevas se
remeteu não ileso
mas lesionado
e em muitos sítios
traumatizado.
Por traumáticas
lesões, por graves,
nasceu causa
adequada de morte,
pois que também a
morte nasce.
Em manhã de chuva
sepultámos a
Heitor, imune já às
disfunções
meningo-encefálicas
e toraco-abdominais,
acrescidas elas das
do membro inferior
direito e de
certificada broncopneumonia.
Era filho de
Petrónio Manuel
Ramos Pereira e de
Carminda Maria
Silva também
Pereira. Tinha
21 anos. Nasceu e
morreu solteiro,
residente que foi
em Cova de Raposas,
Portugal, algures.
Neste gabinete
médico-legal o peritei
e dele pena tive,
como de todos e
todas. Agora em
versos o resumo,
dele porém não
logrando o total, pois
que o pensamento
não é
mensurável.
Sou doutor de pouca
coisa, mas cumpro
quanto me indicou o
Senhor
Procurador-Adjunto
da República desta
Comarca.
Óbito, pois,
certifico de Heitor – e
informação clínica
respectiva boletinizo.
Heitor deu entrada,
ou o entraram,
em centro
hospitalar próprio
a 27/08/1976,
vítima de acidente
de viação, vulgo
atropelamento
sobre passadeira. Ia
só, como todos
vamos e somos.
Veio falecer-se
pelas 23h54m do
mesmo triste e
fatídico
dia, noite já para
ele e para os
que seus, tendo-o
tido,
foram.
De evidente aparato
era seu sofrimento,
nomeadamente de
traumatismo
crânio-encefálico
com contusão
cerebral e
interpeduncular, hematoma
subaracnoideu,
síndrome febril e,
como se não bastara
ao infeliz rapaz,
pneumopatia.
Era de cabelos
castanhos, cor que a íris
imitava. Normal
estado de nutrição.
Masculino, arraçado
de branco e
de idade aparente
em harmonia com
a indicada como
real.
Cinquenta e um
quilogramas, um metro
e setenta e um de
altura.
Descrevo agora o
exame a que procedi do
HÁBITO EXTERNO:
pouco acentuada me
pareceu a rigidez
cadavérica; livores
achei, arroxeados,
fixos e abundantes
nas posteriores
partes do corpo;
sinais de
desidratação sim,
pois que se deu a
opacificação
bilateral das córneas;
também a
putrefacção deu sinais, tais
como a presença de
mancha verde
abdominal ab initio na fossa
ilíaca direita; à
cabeça, usava o cadáver em
que Heitor se
volveu, não
César nem Aquiles
nem Ulisses, mas cadáver
de Heitor,
à cabeça pois,
dizia, usava
equimose esverdeada
peri-palpebral esquerda
na medida de oito
centímetros de comprimento
por quatro de
largura, cicatrizes
de recente aspecto
por a região
zigomática esquerda
e frontal
direita, a maior
medindo, na primeira,
três centímetros de
comprimento por um
de largura; não
encontrei quaisquer
sinais de lesões
traumáticas no
pescoço; no tórax
já, os signos de picadas
me pareceram
próprios do cateterismo
de vasos,
cicatrizados todos na região
clavicular direita;
abdominalmente,
trovei (e trovo)
cicatrizes despigmentadas
dispersas, a maior
das quais medi
na fossa ilíaca
direita, sendo ela
de três por dois
centímetros
de largura; ânus e
genitais órgãos
morreram ilesos;
mais de cateterismo
de vasos sinais
encontrei em picadas pelos
membros superiores,
que nomeio em
braço, flexura e
antebraço direitos; em a face
medial do braço
esquerdo, e com medida
de vinte e oito
centímetros por cinco idem
de largura, ténue,
mas horrífica sempre,
área equimótica
esverdeada, sendo-lhe
paralelas algumas
equimoses arroxeadas,
destas a maior
valendo cinco
centímetros de
comprimento;
descrita a área de
equimose, mais digo
que sobre ela vi
cicatriz
no terço inferior
da face medial
do mesmo braço, de
também cinco
centímetros de
lonjura;
pelos membros ditos
inferiores mas que
a todo o resto do
ser-corpo
sustentam, removi
da perna direita
a ligadura que a
envolvia, observando
então equimose
esverdeada outra e
com zonas
arroxeadas também, medindo
vinte centímetros
por dez no terço
inferior;
deformidade e anormal
mobilidade
claramente verifiquei
no terço inferior
dessa direita;
bem ferida ela
estava, que duas
feridas contusas a
pictoravam,
isto no terço
inferior da face
anterior, a maior
com dois
centímetros de
comprimento e vestígios
de dois pontos; no
joelho sinistro,
oito centímetros de
comprimento eram
feridos também e
ainda.
Procedi então,
examinador, ao rol do
HÁBITO INTERNO:
soube que,
da cabeça,
nas partes moles
(tegumento piloso,
periósteo e músculo)
vi sufusões
sanguíneas subepicranianas;
nas estruturas
ósseas
não encontrei
sinais de fractura
nem
na abóbada nem
na base;
tantos anos levo
disto
(que me levam a mim
mais
do que eu a eles) –
e
ainda me comovo (!)
ante
meninges como as de
quem
Heitor foi,
pois que em
reabsorção vi
certa hemorragia
subdural
occipital
e
bilateral,
acentuada porém
embora mais
à direita;
na mesma
localização,
outra hemorragia,
mas subaracnoideia
esta
e, ainda,
cerebelosa,
em reabsorção
também;
já no encéfalo,
nada de bonito,
assim que o
povoavam
hematomas
intracerebrais
nos lobos
esfeno-temporais
e occipital não
dextro,
por esquerdo ou
sinistro,
medindo o maior um
centímetro de
diâmetro;
mas, ainda
mais,
zonas de contusão em
zona parietal
direita e
parieto-temporais
bilaterais;
cerebral edema
concluía do
encéfalo
o mau poema;
peso encefálico,
quilo e
trezentos gramas;
no pescoço, sim,
havia,
na laringe e na
traqueia,
muco purulento e
(pobre Heitor,
que mais não
comerás,
rapaz)
fragmentos
alimentares à superfície
das mucosas;
no tórax,
sinais fracturados
não topei
nem em as costelas,
nem em a
cartilagem,
nem na clavícula
esquerdas;
nas suas irmãs da
direita,
porém
(ó doce Carminda,
de Heitor
a Mãe!),
presenciavam-se
calos ósseos
(não ócios, mas
péssimos negócios)
ao nível do
terceiro
arco anterior
e dos sexto e
sétimo
arcos médios;
circa vinte centímetros de líquido
amarelo-citrino,
pericárdico humor,
na pericárdica
cavidade e no
pericárdio
propriamente
(mal)
dito;
pesava de Heitor o
coração
algo como
trezentos e
cinquenta gramas
(e com eles,
gramas,
terás amado,
que mais não amas);
do coração de
Heitor as cavidades
bolçaram sangue
fluido
com vermelhos
coágulos e
fibrinosos;
palidez moderada
presidia ainda,
ainda no coração,
a hemorragias
subendocárdicas
em reabsorção;
quaisquer
alterações macroscópicas
nas artérias
coronárias
não vi;
aorta com discretas
manchas lipídicas;
à superfície das
mucosas de
traqueia e
brônquios
vi que havia
muco purulento;
livres e vazias
(como de certas,
tantas!, pessoas vivas
a vida)
eram de Heitor
as pleura parietal
e
cavidade pleural
direita e esquerda;
mortalmente colhido
pelo lado direito,
Heitor não pôde
eximir dele os
pulmão direito e
pleura visceral a
discretas sufusões
sanguíneas subpleurais;
discretos focos de
antracose;
lobo superior de
cor acinzentada e
aspecto condensado;
zona de parênquima
não arejado do
lobo inferior,
afundando-se,
dessas zonas
colhidos,
fragmentos em tina
com água,
saída de pus dos
bronquíolos
pós-compressão
das superfícies de
secção;
estes aspectos
todamente apontavam
compativelmente
para uma
broncopneumonia aguda;
abundantes eram
congestão e edema
dextro-pulmonares;
tudo idem,
sem consolidação e
sem pus,
no pulmão esquerdo,
que valia
seiscentos gramas,
menos duzentos, portanto
e por jeito,
do que o direito;
do tenro abdómen
as paredes
apresentavam
infiltração
sanguínea em
reabsorção
nos músculos
abdominais e
fascias
da parede abdominal
antero-lateral
direita;
nascido e morto em
Portugal,
de Heitor o
peritoneu e a cavidade peritoneal
mostravam
atroz infiltração
sanguínea dos
músculos
retroperotoneais direitos, com
focos punctiformes
(tão negros!) sobre
o peritoneu
parietal,
correspondentes
eles,
ou estes,
a focos de contusão
em reabsorção;
escureceu-se-lhe
e nigerrimamente se
lhe punctiformou
variamente
o grande epíplon,
o tudo
correspondendo a zona e focos
de contusão
reabsorvidos;
em idêntica
reabsorção
era do mesentério
a sanguínea
infiltração;
lisas eram
do fígado,
que mil seiscentos
e cinquenta gramas pesava,
as superfícies
exterior e de secção,
mas cujos aspectos
untuoso
e cor amarelada
traíam
a esteatose
hepática;
bílis havia,
mas cálculos não,
na vesícula e vias
biliares;
dormia-lhe no
estômago,
lhe de Heitor,
cerca de cem
centímetros cúbicos
de um líquido de
cor verde
(alguma esmeralda
derretida?);
a mucosa estomacal
(Cova de Raposas,
Portugal)
entretinha algumas
sufusões
sanguíneas;
nos intestinos,
negra era a cor da
serosa do cego,
o que de dia me
pareceu que correspondia
a infiltração
sanguínea em reabsorção;
e no pâncreas,
congestão;
cem gramas pesava
tal acabado pâncreas,
menos cinquenta do
que os do baço,
cuja polpa era
difluente
e que mostrava,
baçamente,
cicatrizes
transversais na face externa;
oito gramas cada
uma, eram graves
as glândulas
supra-renais direita e esquerda,
ambas com medular
em desagregação;
de Heitor o rim
esquerdo,
valendo cento e
cinquenta gramas,
pesava mais vinte
do que o direito,
demonstrando ambos
lisa superfície exterior,
descapsulação fácil
e
palidez moderada
(como pálida e
moderadamente
todos,
enfim,
somos
e
vamos
sendo);
estava-lhe vazia, e
vã agora, a
bexiga;
bacia, coluna
vertebral, medula e
membros superiores
sem sinais de
fractura;
mas no
terço inferior da
tíbia e do perónio
direitos,
sim,
havia.
Mais e ainda
recorri a
EXAMES LABORATORIAIS,
que
histopatologicamente analisaram
estes versos e
fragmentos de
pulmões e fígado
de Heitor,
de Petrónio como de
Carminda
o único
Filho.
Do que
anatomopatologicamente diagnostico:
quanto ao
HÁBITO EXTERNO,
equimoses na cabeça
e membros,
cicatrizes na
cabeça, tronco e membros
e
feridas contusas
separadas na perna;
quanto ao
HÁBITO INTERNO,
lesões traumáticas
meningo-encefálicas, a saber:
focos de contusão
cerebrais,
hematomas
intracerebrais,
edema cerebral
e
hemorragias
subdural e subaracnoideia;
as lesões
traumáticas torácicas eram
calos ósseos nas
costelas esquerdas;
as idem idem
abdominais eram
cicatrizes no baço
e
zonas de sanguínea
infiltração
em reabsorção
no mesentério,
no epíplon
e na serosa do
cego;
mais lesões
traumáticas, dos membros agora,
a fractura dos
ossos da perna direita;
o triste todo foi
complicado por
broncopneumonia com
alveolite supurada
e por
síndrome de
insuficiência respiratória
com alveolite
edematosa e
microtromboses
septais;
o estudo
histológico revelou,
no fígado,
congestão
sinusoidal
e,
no pulmão,
broncopneumonia
severa direita, com
supuração
enobrônquica e bronquiolar e
microabcessos
paraquimatosos.
Fui ao funeral de
Heitor.
Era de manhã e
chovia.
Era de manhã, mas
era a Noite.
E, como no Fado – e nunca mais
se fez Dia.
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