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sábado, agosto 25, 2012

CARTA DE PESSOA À TIA ANICA no IDEÁRIO DE COIMBRA - 34 - Coimbra, quarta-feira, 7 de Julho de 2010




Um detalhe das possibilidades da manhã: não ler o Correio da Manhã mas sim, depois, de Teófilo zurzindo Antero, a carta que em Lisboa Fernando Pessoa escreve, a 24 de Junho de 1926, à tia materna, a Tia Anica (D. Ana Luísa Pinheiro Nogueira). Depois de lhe revelar que

Aí por fins de Março (se não me engano) comecei a ser médium. Imagine!

Pessoa assenta que

Há momentos, por exemplo, em que tenho perfeitamente alvoradas (?) de “visão etérica” – em que vejo a “aura magnética” de algumas pessoas, e, sobretudo, a minha ao espelho e, no escuro, irradiando-me das mãos. Não é alucinação porque o que eu vejo outros vêem-no, pelo menos, um outro, com qualidades destas mais desenvolvidas. Cheguei, num momento feliz de visão etérica, a ver na Brasileira do Rossio, de manhã, as costelas de um indivíduo através do fato e da pele. Isto é que é a visão etérica em seu pleno grau. Chegarei eu a tê-la realmente, isto é, mais nítida e sempre que quiser?

E conta mais:

Perguntará a Tia Anica em que é que isto me perturba, e em que é que estes fenómenos – aliás ainda tão rudimentares – me incomodam? Não é o susto. Há mais curiosidade do que susto, ainda que haja às vezes cousas que metem um certo respeito, como quando, várias vezes, olhando para o espelho, a minha cara desaparece e me surge um fácies de homem de barbas, ou um outro qualquer (são quatro, ao todo, os que assim me aparecem).

Por mim, quanta mediunidade posso – é esta de copiar o que ele escreveu em (primeira) Pessoa. 

sexta-feira, agosto 24, 2012

Ideário de Coimbra - conclusão da entrada 33 - Coimbra, terça-feira, 6 de Julho de 2010


Vozes e olhos. Gargantas por onde sai a alma toda. Peles que vestem as árvores ósseas. Roupagens colorindo pessoas tão vivas. Basaltos duríssimos, certos olhares. Ânsias por ternura que não provirá nem está à venda. Seres de fluvial exílio e marítimo desterro. Erotismos eólicos. Graças recebidas. Remunerações gestuais. Enclaves demiúrgicos de grande teor simbólico. Cervejas sem álcool. Filigranas e hemistíquios. Berlim-Praça-de-Alexandre. Túneis de som óptico. Rosas, ventos e rosas-dos-ventos.

*

Vi, morta no chão, perto de lixo, uma andorinha. Mas antes houvera visto uma borboleta de um castanho ferroso quase chá. Viva. Ambas são, andor e borbo, inha e leta. Um cinquentão fumador de Português Suave Amarelo ao engate de uma rapariga negra de olhos límpidos e rotunda carnação. A um metro de mim. Dispenso a escuta do fraseado, opto pela penugem gabiru dele, a cintilação quase ingénua dos olhos dela. Ela, de trabalhosas tranças finas. Ele, grisalho já em bom adianto. Ebony and Ivory etc. Por dentro, somos a mesma terra – e a mesma lama.

*

Horizonte mentalizado (fechando os olhos para ver): fumo de garças rareando o opúsculo crepuscular; mancha, esfumada também, de arvoredo a que sucedeu dunas, areias & o Mar; gente holandesa comendo arenques enquanto fala de museus e de casas-de-putas; Bolonha, Florença, Corleone, Aspromonte; nervuras vegetais que digitalizam radiografias de mãos; pulmões excrescendo sangues no Caramulo; & a Andorinha & a Borboleta.

*

Vais viver muitos anos depois que vivi.
Em alguns aspectos, nem nascente ’inda.
Janelas debruadas a verde sem gente à janela:
é muitas vezes mais triste ficar do que passar.

Aos anos que as gaivotas devoram/demoram o Mar.
Decoram o Mar há que anos, as gaivotas.
E nós, finisseculares desde nascença, não goramos.
Um coração habitado por coelhos da Berlenga, imagina.

Maravilhosa marfínica dentição, a da rapariga
tão negra, negra a ponto de luminescer.
Como lhe é genuíno o ouro pechisbeque
da pulseira, fogo de metal ardendo carvão.

Forlán, o uruguaio de olhos azuis, fita o Céu.
Joachim, o alemão de cabelo negro, também.
Quem devolve a casa os heróis do dia e
Anne Frank? É quase matricídio, tanto amar.

Ressonâncias cavam fundações no coração
que bravuras são de geral fra(n)queza.
Maus casamentos por toda a parte, mas
bons filhos: ínvia é a Humanidade, mas transita.

E tirita – de gelo em pleno Estio, ante
mulheres que se adamascam de louro,
homens que se depilam, cafés que arrefecem
em sozinhas cozinhas. Ao néon, os cesários

possíveis verdejam o gás que podem. A mulher-
-da-erva existe: lenhifica-se, muito viúva,
por azinhagas que são mais do que só-Coimbra,
mas Portugal-todo. E eu funciono, eu estou vivo.

*


Sim, viver mais vais muito do que vivi.

quinta-feira, agosto 23, 2012

Entrementes, no Verão de Coimbra de há dois anos... Ideário de Coimbra - 33 (trecho) - 3.ª feira, 6 de Julho de 2010

Ontem à noite, 5 de Julho, já bem depois da 23h00m, o calor batia os quase 30°C. Senti-me acossado pelo bafo de mufla da hora. Fui esconder-me no ar-condicionado do CalhaBar. Curto visualmente, enfim, mas sem intrusão da besta erótica, a nudez dos decotes e dos pés das senhoras de Coimbra. Mui airosas chinelam elas, mui mamariamente arfam devagarinho. Ainda agora (17h29m), um jovem casal cotovia-se mutuamente. Ele argolou uma anilha no lóbulo esquerdo, é de bom queixal, boa estrutura facial, pele serena. Ela é de calças rasgadas que revelam lisuras pernais, mãos de bom equilíbrio longo e branco, cabelo apanhado em totó occipital, seios de meia-laranja, blusa cor-de-limão, boca sem desfalecimentos, excelente dentição. Não me parecem, os felizes, que sofram de fernandopessoísmo. É provável que venham a frutificar filhos uma contra o outro, que devagar desistam de catarinafurtar-se utopias de celebridade-de-têvê-reles. Mas a mocidade instantânea deles é-me gratificante. Não ofendem a vista, antes pelo contrário: foram os bebés de alguém, não andam na droga, primaveram em pleno Julho uma seiva de figos frescos. Por outras palavras: devo-lhes algumas linhas de desangústia. 

sábado, agosto 18, 2012

Ainda mais coisas de Coimbra, quarta-feira, 30 de Junho de 2010 - IDEÁRIO DE COIMBRA - 29




Falo em directo de um porvir pessoal.
Se um dia Velho, isto relerei de ensinados olhos.
Tempo ido, perdido tempo?
É da natureza da hora ser segundo a segundo, dia por dia da Mesm’ÚnicaNoite.
Paciência em prol de ciência.

*

(Respirar é de borla, mas pensar não é gratuito.)

*

(Este é o meu trabalho, querida.)

*

Dimensões tempo-penso-espaço tergiversam medusas em coral-psique, filme adentro salões de chá e de pessoas-sós-só-pessoas.
É muito belo saber matrículas de cor, MO-45-18, Camilo-Pessoa-Pessanha-Fernando, Berliet estampada ao km 14 duma’EN qualquer perto dÉvora.
Eu sozinho na elvense Residencial D. Sancho ingerindo chilra manteiga de café-com-pão (1997, tinha caído o então-Verão).
E isto de ter um coração hemistíquio sujeito a Comissão de Cesura?
É andar andando a pé-quebrado.
E a (p)rima é branca, idem o verso.

*

Na banca de rua do Rei da Fruta (entre O Nosso e o Viaduto) vi agorinha um estendal de figos cuja roxura me acordou agnosticamente o cromatismo Senhor-dos-Passos. Láctea sobrepeliz, figo-seio-de-senhora-em-cio, belo de ver. Ao lado, a estrangeira courgette-ou-como-é-que-se-escreve, o pêssego-pente-zero, o tomate inflado de papel-de-seda, o alho odontológico, a batata humílima, a couve sobreposta em si-mesma como o Passado e as Nações. Ontem fui ao Bingo porque a minha Mãe não estava em casa, nem em casa mulher me esperava, só Brown/Chesterton. Viver tout de suite encore na mesma.

*

Um rapaz, seus trintiquatro anos, cola-croissant, almoço de bancário-com-perninha-de-fazer-seguros, certa porcinidades de bolsas queixais, tiquezito oral “é-assim”, bom fato barato, gravata azul-merda de quando se caga a azul o que castanho-verde se comeu. Liquefacção de duas horas: em espera. Eu agora vou ter de nascer outra vez, sabes, sabeis, a minha Mãe etc. Devo envergar honestidade, nem que seja para comigo. Nós vamos morrer, mas deixai-me primeiro viver um pouco disto na pista dos carrinhos-de-choque, no poço-da-morte, em Matosinhos, perto de outro, bruscamente, Verão passado embora. (Sim, nem todo o filho de Guilherme – vulgo William – é Tennessee, mas ainda assim.)

*


Eu sabia que esta tarde era já o futuro desde ontem. Aqui me tenho nela. Boa pontuação (muito boa) – e outros aliases. Daqui a pouco, na cafetaria da Almedina/Estádio, perto da impressa lareira de livros, nada longe da Igreja de S. José, o corno mais justificado da História Ocidental. Écoutez la Chanson Bien Douce etc.

Mais coisas de Coimbra, quarta-feira, 30 de Junho de 2010 - IDEÁRIO DE COIMBRA - 29

© Forest of Beech Trees - Klimt


Dou-te íris.
Vem daí um pouco.
Vamos ao Abadia ter calor, vem.
Ensino-te as ruas.
Tu ensinas-me o nome das árvores.
Sabes tu que tenho feito?
Desconhecedor dos nomes delas,
atribuo-lhes nomes de meninas:
estas três em frente ao Viaduto são
a Raquel, a Magda e a Hermínia;
a que às seis da manhã tinha um único pássaro,
perto da casa do cirurgião Manuel Antunes,
é a Natércia;
uma que uma vez trepei para que
o céu não fosse tão desumanamente longe,
essa ainda se chama Genciana.
No Choupal, claro, é uma alegria, são tantas
como as horas de uma vida, tantas, tontas, tintas, chamam-se algumas:
Brígida (do lado do bufete onde servem cerveja preta e ovos cozidos), Lenamar (já quase-quase na Quinta dos Borges), Ricardina, Olava, Nefertiti, Glúmida, Fernanda, Genciana-B, Ferrina, Bembeija, CosiFanTutti, Canina, Derília-Santos, Rítzia, Unida, Para-Sempre, Como-Nunca, Atéquefina, Mandarina, Leocádia, Literária, Nãossucede, Cáspia, Marmorta, Saudade, Genciana-C, Minhamãe, Doutíris, Daípouca, Abadia, Abanoite, Terrível, Pepita, Népia, Tercina, Apogiatura, Peneirita, Esfalfa, AdministraçãoRegionalVerde-Rubra, Semproutonal, Celorica, Ribeirapenata, Saramagente, Lívia, Múria, Naifininfa, Tomásia, Tatacha, Nectorangina, Limonetista, Ametriste, Circunvalada, Tentugalina, Sgra, Amorfa, Cortazariana, Redesprés, Egípcia, Prumosa, Rossaya, Lodimartineza, Aspília, Monteformosa, Cerúlea, Tantatontatinta, Natália, Sofista, Crúzia, Rebentação-de-Pó-de-Flor, Certa (também ao lado, mas do outro, do bufete onde servem cerveja  cozida e ovos pretos), Darda, Si, Josécídica, Dona-Lucínia, Rica, Rickygerveza, Tulimane, Inca, Iça, Quadrata, Caracola, Remanesgente, Prurida, Leixamira, Cumália, Beltina, Cetetê, Leoferriana, Frigorífica, Matatenentista, Juraquessim, Tássememaver, Horasdumavida, Queiroziana, Simónica, Mónica, Única, Betraste, Eduardiana, Noronha, Gustante, Ristra, Rubéola, Raquel-B, Magda-B & Hermínia-B.

(Pois que, não podendo versos, posso árvores.) 

terça-feira, agosto 07, 2012

IDEÁRIO DE COIMBRA - 28 (alguns trechos) - Coimbra, terça-feira, 29 de Junho de 2010


© DA, 18h27m de 16 de Dezembro de 2011




28. ESTA NOSSA MÃO ESQUERDA

Coimbra, terça-feira, 29 de Junho de 2010

(…)

Vesti hoje uma camisa muito lavada e muito fresca. Sinto-me bem dentro dela. Deveria haver camisas assim para o pensamento, sobretudo quando o pensamento anoitece logo de manhã. Não é porém tal o caso, não hoje, não esta manhã.

(…)

Pessoa, de Lisboa (4 de Setembro de 1916), escreve a Cortes-Rodrigues isto:

Se V. tem estado desterrado, eu sem desterro também o tenho estado. V. não imagina. Tenho passado estes últimos meses a passar estes últimos meses.


(…)

Três mulheres vêm bicar aO Nosso. Uma, morena no tom exacto da morenidão das brancas, vem a bordo de um vestido de alças peça-única azul com flores vermelhas. Belíssimo conjunto: pele solar e vestido leve. Tem uma tatuagem em baixo, no país que decorre entre o joelho e o artelho direitos. Deve ser bom conviver com tal filete de anchova.

(…)

(Ela fala-me em sonhos. Nos meus durante, dos dela que sonhou.)

(…)

(Esta minha mão esquerda, órfã de escrita e de as habilidades outras quase todas. Estrela pobre, coitada. Segura o caderno, como se acalmasse o cavalo do meu coração largado pela irmã dextra. Vive na sombra. Remove cera do ouvido correspondente ao hemisfério dela. É como aquelas mulheres caladas, casadas, que de vez em quando vemos passar em sonhos e pelas ruas. Mas é a esquerda, mas há a direita – pelo que aqui, tabelião notarial, certifico que uma desgraça nunca vem só.)

(…)

(Pertenço todamente a um círculo de lírios. Janto em casas-de-pasto de principesca silhueta, o garfo empunhando à guisa de caneta. A minha afeição é doida. São malucos os amores que tenho. Sou um campo diário à espera de flores nocturnas. Oh sim, eu anoiteço! – Isto são só versos, caga nisso! – Mantenho em casa lápis como antigamente gatas, retratos, canecas de faiança, psychés. Tu és diferente, pertences à Fiscalização dos Pertences & Deveres. Tu não és feliz, mas parece-lo. A rosa tatua a tua boca em lacre. És bonita, pertenceste-te & deveste-te a outros homens – não, querida, não te serei o próximo. Sou um poetinha coimbrinha, tão-só isso/isto. No Campeonato Mundial de Futebol, há corações batendo uruguaiamente. Sou desta freguesia sem clientela. Sangro resinosamente o meu mijo, o meu leite, o meu suor, algumas lágrimas oblíquas. Chamo-me Daniel mas não sou o meu Pai. Ela, não tu, fala-me em sonhos. Tu sonhas-me em falas. Sou o resineiro/engraçado/engraçado/no/falar. T-shirtamente é o despido coração entrelinear de quantos cadernos até hoje borrei de tinta asterisca. Predadores sexuais algaraviam golpes-de-rins. Engaiolador de borboletas, leitor comovido de Luís Filipe Costa, oh! também me assiste a lembrança de certo contramestre pescador da Leirosa chamado Damião, dilecto amigo do falecido Acácio Buto, pai do Paulo da Adémia (o Acácio), cuja generosidade (cuja, de Damião) era tão assombrosa, no mínimo, quanto a do clínico pombalense doutor Adelino Correia. Olham quanto se deitam as pessoas! Olha-me quantos prédios encaixotando vidas! Olha que rotina quer dizer rodinha! Olha o painço sendo ínsuo! Olha-m’ esta! Uma camisola verde, passando a praça, avermelha o meu olhar-te. Tenho saudades do futuro que não chegaste a ser. Também, sei-o tão bem, o-ser não cheguei a. Calma. Isto é tudo tão desperdício de estrelícias! Isto de haver mais poetas do que versos – é uma merda compreensível. Mastigo-te devagar trincadinhas de silêncio. Sou quem se comove ante um taxista coreano. As gajas lambedoras de Salazar cursavam necromancia. Um mester é um mistério, como todo, abrenúncio!, o ofício é santo. E é oficial a tua santidade. Derivado tenho pela Sé Velha, pela Rua das Azeiteiras, pelo arrebol tímido do meu coração-choupal, percebes tu que te não digo, pele? O senhor João Sousa, das bombas de gasolina funcionário, bebentranha-se uma coca-cola. É de olhos claros como rabanadas feitas de água. Tenho de comprar-te uns sapatos, que me descalças quanto te desejo. Esta demora de corações na mansarda que ando sendo! Molhada vagem de buganvília-baunilha em meu suburbano sexo! Oh Caldas da Rainha, ehlah! Homens de lepidóptero azul encalmado, sás-de-mirandas iníquos, ínvios, inócuos, inoculados – travessam minha transversalidade onzeneira, danados! És cá de Setúbal, olá, és cá de Setúbal? Paquiderma-te masturbatoriamente agora, anda! Se eu quiser, cometo-te versos agora, anda! Se eu quiser, cometo-te versos e partes pudendas, aviso. Mui gloriosa é a fatalidade sapateira dos mutilados de pernas do Vietnamoçambique. Pede-me que pare, por favor!)

*

Estou algo órfão de amores que foram vivos.
Conheço-me em serras inominadas sabor a queijo.
Sofro este que aquele desejo.
Um pouco de bacalhau tira da boca o gosto a cravos.

Tenho um tabuleiro de impulsos no meu ól.
Manjerica-se muito, a minha vizinha atordoada.
O mais que Cavaco Silva pode, não pode nada.
Uma fenda abre, plúmbea, a nuvem anil.

Ramalhetes violentos encimam cor-florões.
Tenho uma tia azul, não digo tal.
É triste não poder a vida empadamente.
A vida não é Toyota, não veio para ficar nem ficou.

Há ainda pertences do meu Pai por toda a casa.
Aquilo da Mãe-Viúva cheira sempre a demoras.
Éramos todos para ser felizes, mas a Senhora da Agonia.
Fiz já quatro quadras, ganhei o dia.

(…)

Shadows-heart, coeur-d’ombres.
Às vezes um amigo é quanto basta d’ombro.
Outras, as filhas licenciam-se, tiram a
carta de condução de motas 125.
Pinhais molham estradas de fragor húmido.
Musgos cerceiam a fala, pode ser terrível
estar vivo na antemão da sombria cor-coração.

(…)

Aquele homem tem de ser
um par de olhos azuis.
Mais castanhos são os meus,
aquiesces e anúis.

Nã’ redargas p’las ilhargas,
q’o ti’ Chico não conhece
a obra do Llosa que é Vargas
– nem sequer lhe apetece.

(…)


Procura-me do lado sudoeste da nossa vida,
eu mal existo mas o sudoeste existe bem.
No carnal jardim da noite, as palavras são ossos.
Bandeiras de Portugal fremem excitações revisteiras.
E o nosso falar amoroso, o mais é anti-caspa.

Lojas esperam o senhor freguês com senhora e criança,
a Kim Wilde tirou um curso de floricultura,
o meu Tempo precisa de uma caiação à maneira
(o teu, também) e
andamos para aqui tristes sem razão maior.

Tenho de ir ver a minha Mãe e Vitorino Nemésio,
a Colecção Chinesa de Camilo Pessanha e as gatas,
tenho tanta coisa, que nada ou pouco tenho,
um dia destes, no Café Abadia, começo a falar
sozinho, ’inda me põem na rua ou assim.

Temos todos um tio bêbado algures,
alguns acumulam a bebedeira c’América,
os dólares andam pela hora da morte,
os tios também – e nós também, mas
enquanto ávida à Esperança,

que é uma rapariga que só leva vinteuros
e o resto também leva, faz parte.
Eu gosto de Duran Duran e não tenho vergonha.
Em Lisboa, chamam Saca-Rolhas ao Cristo-Rei.
E nós somos a Metástase Futura do Cancro Salazar,

toma lá este Presente. Hoje, sentei-me.
Andei pouco, dormi à tarde coisa de meia hora,
vomitei o caldo de feijão-frade em um relvado
propício, derivei por esquinas aleijadas
como crianças africanas e escrevi versos.

Como é que se chamava o gajo que cantava
nos Human League? E a bichona dos
Dead or Alive? S’isto não é Alzheimer,
vou ali e já não venho. O Tony de Matos
chegou a ir a boîtes a Moçambique, eu não.

Procuro-te do lado nosso da vida nordeste.

*

O Homem-Pessoa, a Vida-Fernanda.

segunda-feira, agosto 06, 2012

IDEÁRIO DE COIMBRA - 27 (fragmentos finais) - Coimbra, segunda-feira, 28 de Junho de 2010


Antes, um dia serei agora.

*

Jamais dês uma excepção a quem,
por regra,
nunca é excepcional.
Nem regrado.

*

Isto de ser poeta em 2010 deve ser como ser soviético no século XXI. Digo eu.

*

Diz-me (que não estás nem és, mas preciso de um vocativo, portanto diz-me): que horas são? 15h54m. Calor bravo, começa no inchaço dos pés, do mau pobre calçado. Lavar esfregadamente com sabão azul. Lavar tudo, a começar pela vida, com sabão azul. O sabão azul tem por natureza o cheiro natural das mães. A gente é parida para sabão.
Já agora: que horas são?

*

Sêmea.
Izoneira.
Juditismo.
Butos.
Cefaleia.
Gato.
& Maria Helena da Rocha Pereira.

*

Tornevó marico de salume
altira ricofache de costume.
Faguei água com mão e vei’ a lume
ter tornevado rico de sem-cume.

*

Não sou já tão novo quão minha literatura
é. Posso aliás ser tão velho quão ela
não. Sou só honesto nisto, nesta
porra de todos os dias buscar o novo,
a literatura, pura puta de nenhum
aluguer. E, para mais, mulher.

*

Estou a repetir o n.º 210 da Rua Antero de Quental, mas vinte mais quatro anos depois.


*

Nisto tudo, com isto tudo, que horas são/serão, São?
Roça a noite seus minguados corpos, suas reses minguadas – e eu nada que ver com isso, eu de fora.

segunda-feira, julho 16, 2012

IDEÁRIO DE COIMBRA - 26 (outro fragmento) - Coimbra, domingo, 27 de Junho de 2010

DA, Leiria, 11 de Abril de 2012





Desconheço se a Vida é de consumo mínimo obrigatório, se de consumo obrigatório mas mínimo. É, enfim, consumo. E obrigatória. E mínima.

*

Estilhaçada a redoma de cristal da infância, desflorada a rosa da tarde, ao menos a julgar pelo relógio (15h37m) é tarde na minha vida.

*

Quintais suburbanos, uma criança solitária por cada. A montanha, longe para sempre, não mais que um fumo azul debruando o horizonte da criança e da solidão que ela já exerce, suburbana do mundo. Nas noites sem polícias nem ladrões, as estátuas trocam de jardim alvoroçando o sono dos melros, indignando as dálias, entrando neste verso. Nos sanatórios de fim-de-linha(gem), os velhos & as velhas descuram-se finalmente da mente e do final, imunes ao Tempo e ao Amor e à Solidão e às Fezes. Cada criança suburbana por cada solitário quintal iniciou já a contagem para este mover de estátuas, de dálias.

*

Nas tumbas de pedra das catedrais,
bispos e reis (e soterrados operários)
nem dormem já, que o pó não dorme.
E o esquecimento é enorme.

*

Espanejo de floral rama de laranjeira por vezes a minha vida podógrafa. Não se trata (não já) de leccionar crianças ou de coleccionar amores. Trata-se de deixar escrita uma cor que aliás nem vi, uma ave-árvore autuando a eternidade de uma tarde (uma eternitarde), algo assim difuso mas uno na minha cabeça-coração. Ainda assim, deveria arranjar um emprego melhor.

*

Conheço tão bem como toda a gente (séria) que chamar genial a Pessoa é como chamar água à chuva. Em carta ao poeta Mário Beirão datada de Lisboa, 1 de Fevereiro de 1913, ele assim:

As ideias que perco causam-me uma tortura imensa, sobrevivem-se nessa tortura, escuramente outras.

E adianta:

V. dificilmente imaginará que Rua do Arsenal, em matéria de movimento, tem sido a minha pobre cabeça.

Conclui o parágrafo:

Toda uma literatura, meu caro Mário, que vai da bruma – para a bruma – pela bruma…

*

Se as andorinhas fossem amarelas, esta menina de blusa amarela seria, em perfeição, uma delas. É filha deste casal aqui, vêem, este que lancha tantos bolos e tantas coca-colas. Todos chinelam de borracha, todos de calções. Por causa dos calções, os refegos brancos e moles das coxas da mãe enrosquilham-se magmas de banha seguros a custo pela pele. Por causa dos chinelos, os dedos dos pés do pai apresentam uma grossura de maneiras e um duplo pentagrama onicológico de esterco que escreve travessões no soalho-caligrafia do Café. Mas é por causa daquele amarelo da filha que, não sei porquê, pensei em andorinhas. E que, em andorinhas pensando, foi nela afinal que pensei e penso.

domingo, maio 27, 2012

Atropelamento Mortal (republicação)


ATROPELAMENTO MORTAL

Coimbra, segunda-feira, 13 de Setembro de 2010


Ele pôde, ou podia, haver sido
César, Aquiles ou Ulisses, mas Heitor foi
quem foi, este que morto se achou
ao cabo de poucas horas depois de
nefasto encontro de seu corpo com
instrumento rápido de contundente
natureza, vulgo carro.
Heitor de Jesus da Silva Pereira
colhido se achou e às trevas se
remeteu não ileso mas lesionado
e em muitos sítios traumatizado.
Por traumáticas lesões, por graves,
nasceu causa adequada de morte,
pois que também a morte nasce.
Em manhã de chuva sepultámos a
Heitor, imune já às disfunções
meningo-encefálicas e toraco-abdominais,
acrescidas elas das do membro inferior
direito e de certificada broncopneumonia.
Era filho de Petrónio Manuel
Ramos Pereira e de Carminda Maria
Silva também Pereira. Tinha
21 anos. Nasceu e morreu solteiro,
residente que foi em Cova de Raposas,
Portugal, algures.
Neste gabinete médico-legal o peritei
e dele pena tive, como de todos e
todas. Agora em versos o resumo,
dele porém não logrando o total, pois
que o pensamento não é
mensurável.
Sou doutor de pouca coisa, mas cumpro
quanto me indicou o Senhor
Procurador-Adjunto da República desta
Comarca.
Óbito, pois, certifico de Heitor – e
informação clínica respectiva boletinizo.
Heitor deu entrada, ou o entraram,
em centro hospitalar próprio
a 27/08/1976, vítima de acidente
de viação, vulgo atropelamento
sobre passadeira. Ia só, como todos
vamos e somos.
Veio falecer-se pelas 23h54m do
mesmo triste e fatídico
dia, noite já para ele e para os
que seus, tendo-o tido,
foram.
De evidente aparato era seu sofrimento,
nomeadamente de traumatismo
crânio-encefálico com contusão
cerebral e interpeduncular, hematoma
subaracnoideu, síndrome febril e,
como se não bastara ao infeliz rapaz,
pneumopatia.                                   
Era de cabelos castanhos, cor que a íris
imitava. Normal
estado de nutrição.
Masculino, arraçado de branco e
de idade aparente em harmonia com
a indicada como real.
Cinquenta e um quilogramas, um metro
e setenta e um de altura.
Descrevo agora o exame a que procedi do
HÁBITO EXTERNO:
pouco acentuada me pareceu a rigidez
cadavérica; livores achei, arroxeados,
fixos e abundantes nas posteriores
partes do corpo; sinais de
desidratação sim, pois que se deu a
opacificação bilateral das córneas;
também a putrefacção deu sinais, tais
como a presença de mancha verde
abdominal ab initio na fossa
ilíaca direita; à cabeça, usava o cadáver em
que Heitor se volveu, não
César nem Aquiles nem Ulisses, mas cadáver
de Heitor,
à cabeça pois, dizia, usava
equimose esverdeada peri-palpebral esquerda
na medida de oito centímetros de comprimento
por quatro de largura, cicatrizes
de recente aspecto por a região
zigomática esquerda e frontal
direita, a maior medindo, na primeira,
três centímetros de comprimento por um
de largura; não encontrei quaisquer
sinais de lesões traumáticas no
pescoço; no tórax já, os signos de picadas
me pareceram próprios do cateterismo
de vasos, cicatrizados todos na região
clavicular direita; abdominalmente,
trovei (e trovo) cicatrizes despigmentadas
dispersas, a maior das quais medi
na fossa ilíaca direita, sendo ela
de três por dois centímetros
de largura; ânus e genitais órgãos
morreram ilesos; mais de cateterismo
de vasos sinais encontrei em picadas pelos
membros superiores, que nomeio em
braço, flexura e antebraço direitos; em a face
medial do braço esquerdo, e com medida
de vinte e oito centímetros por cinco idem
de largura, ténue, mas horrífica sempre,
área equimótica esverdeada, sendo-lhe
paralelas algumas equimoses arroxeadas,
destas a maior valendo cinco
centímetros de comprimento;
descrita a área de equimose, mais digo
que sobre ela vi cicatriz
no terço inferior da face medial
do mesmo braço, de também cinco
centímetros de lonjura;
pelos membros ditos inferiores mas que
a todo o resto do ser-corpo
sustentam, removi da perna direita
a ligadura que a envolvia, observando
então equimose esverdeada outra e
com zonas arroxeadas também, medindo
vinte centímetros por dez no terço
inferior; deformidade e anormal
mobilidade claramente verifiquei
no terço inferior dessa direita;
bem ferida ela estava, que duas
feridas contusas a pictoravam,
isto no terço inferior da face
anterior, a maior com dois
centímetros de comprimento e vestígios
de dois pontos; no joelho sinistro,
oito centímetros de comprimento eram
feridos também e
ainda.
Procedi então, examinador, ao rol do
HÁBITO INTERNO:
soube que,
da cabeça,
nas partes moles
(tegumento piloso, periósteo e músculo)
vi sufusões sanguíneas subepicranianas;
nas estruturas ósseas
não encontrei
sinais de fractura nem
na abóbada nem
na base;
tantos anos levo disto
(que me levam a mim mais
do que eu a eles) – e
ainda me comovo (!) ante
meninges como as de quem
Heitor foi,
pois que em reabsorção vi
certa hemorragia
subdural
occipital
e
bilateral,
acentuada porém embora mais
à direita;
na mesma localização,
outra hemorragia,
mas subaracnoideia esta
e, ainda,
cerebelosa,
em reabsorção também;
já no encéfalo, nada de bonito,
assim que o povoavam
hematomas intracerebrais
nos lobos esfeno-temporais
e occipital não dextro,
por esquerdo ou sinistro,
medindo o maior um
centímetro de diâmetro;
mas, ainda
mais,
zonas de contusão em
zona parietal direita e
parieto-temporais
bilaterais;
cerebral edema
concluía do encéfalo
o mau poema;
peso encefálico, quilo e
trezentos gramas;
no pescoço, sim, havia,
na laringe e na traqueia,
muco purulento e
(pobre Heitor,
que mais não comerás,
rapaz)
fragmentos alimentares à superfície
das mucosas;
no tórax,
sinais fracturados não topei
nem em as costelas,
nem em a cartilagem,
nem na clavícula esquerdas;
nas suas irmãs da direita,
porém
(ó doce Carminda, de Heitor
a Mãe!),
presenciavam-se calos ósseos
(não ócios, mas péssimos negócios)
ao nível do terceiro
arco anterior
e dos sexto e sétimo
arcos médios;
circa vinte centímetros de líquido
amarelo-citrino, pericárdico humor,
na pericárdica cavidade e no
pericárdio propriamente
(mal)
dito;
pesava de Heitor o coração
algo como
trezentos e cinquenta gramas
(e com eles, gramas,
terás amado,
que mais não amas);
do coração de Heitor as cavidades
bolçaram sangue fluido
com vermelhos
coágulos e fibrinosos;
palidez moderada presidia ainda,
ainda no coração,
a hemorragias subendocárdicas
em reabsorção;
quaisquer alterações macroscópicas
nas artérias coronárias
não vi;
aorta com discretas
manchas lipídicas;
à superfície das mucosas de
traqueia e brônquios
vi que havia
muco purulento;
livres e vazias
(como de certas, tantas!, pessoas vivas
a vida)
eram de Heitor
as pleura parietal e
cavidade pleural
direita e esquerda;
mortalmente colhido pelo lado direito,
Heitor não pôde eximir dele os
pulmão direito e pleura visceral a
discretas sufusões sanguíneas subpleurais;
discretos focos de antracose;
lobo superior de cor acinzentada e
aspecto condensado;
zona de parênquima não arejado do
lobo inferior, afundando-se,
dessas zonas colhidos,
fragmentos em tina com água,
saída de pus dos bronquíolos
pós-compressão
das superfícies de secção;
estes aspectos todamente apontavam
compativelmente
para uma broncopneumonia aguda;
abundantes eram
congestão e edema
dextro-pulmonares;
tudo idem,
sem consolidação e sem pus,
no pulmão esquerdo,
que valia seiscentos gramas,
menos duzentos, portanto e por jeito,
do que o direito;
do tenro abdómen
as paredes
apresentavam infiltração
sanguínea em reabsorção
nos músculos abdominais e
fascias
da parede abdominal
antero-lateral
direita;
nascido e morto em Portugal,
de Heitor o peritoneu e a cavidade peritoneal
mostravam
atroz infiltração sanguínea dos
músculos retroperotoneais direitos, com
focos punctiformes (tão negros!) sobre
o peritoneu parietal,
correspondentes eles,
ou estes,
a focos de contusão
em reabsorção;
escureceu-se-lhe
e nigerrimamente se lhe punctiformou
variamente
o grande epíplon,
o tudo correspondendo a zona e focos
de contusão reabsorvidos;
em idêntica reabsorção
era do mesentério
a sanguínea infiltração;
lisas eram
do fígado,
que mil seiscentos e cinquenta gramas pesava,
as superfícies exterior e de secção,
mas cujos aspectos untuoso
e cor amarelada traíam
a esteatose hepática;
bílis havia,
mas cálculos não,
na vesícula e vias biliares;
dormia-lhe no estômago,
lhe de Heitor,
cerca de cem centímetros cúbicos
de um líquido de cor verde
(alguma esmeralda derretida?);
a mucosa estomacal
(Cova de Raposas, Portugal)
entretinha algumas
sufusões sanguíneas;
nos intestinos,
negra era a cor da serosa do cego,
o que de dia me pareceu que correspondia
a infiltração sanguínea em reabsorção;
e no pâncreas, congestão;
cem gramas pesava tal acabado pâncreas,
menos cinquenta do que os do baço,
cuja polpa era difluente
e que mostrava, baçamente,
cicatrizes transversais na face externa;
oito gramas cada uma, eram graves
as glândulas supra-renais direita e esquerda,
ambas com medular em desagregação;
de Heitor o rim esquerdo,
valendo cento e cinquenta gramas,
pesava mais vinte do que o direito,
demonstrando ambos lisa superfície exterior,
descapsulação fácil e
palidez moderada
(como pálida e moderadamente
todos,
enfim,
somos
e
vamos
sendo);
estava-lhe vazia, e vã agora, a
bexiga;
bacia, coluna vertebral, medula e
membros superiores
sem sinais de fractura;
mas no
terço inferior da tíbia e do perónio
direitos,
sim,
havia.
Mais e ainda recorri a
EXAMES LABORATORIAIS,
que histopatologicamente analisaram
estes versos e
fragmentos de pulmões e fígado
de Heitor,
de Petrónio como de Carminda
o único
Filho.
Do que anatomopatologicamente diagnostico:
quanto ao
HÁBITO EXTERNO,
equimoses na cabeça e membros,
cicatrizes na cabeça, tronco e membros
e
feridas contusas separadas na perna;
quanto ao
HÁBITO INTERNO,
lesões traumáticas meningo-encefálicas, a saber:
focos de contusão cerebrais,
hematomas intracerebrais,
edema cerebral
e
hemorragias subdural e subaracnoideia;
as lesões traumáticas torácicas eram
calos ósseos nas costelas esquerdas;
as idem idem abdominais eram
cicatrizes no baço
e
zonas de sanguínea infiltração
em reabsorção
no mesentério,
no epíplon
e na serosa do cego;
mais lesões traumáticas, dos membros agora,
a fractura dos ossos da perna direita;
o triste todo foi complicado por
broncopneumonia com alveolite supurada
e por
síndrome de insuficiência respiratória
com alveolite edematosa e
microtromboses septais;
o estudo histológico revelou,
no fígado,
congestão sinusoidal
e,
no pulmão,
broncopneumonia severa direita, com
supuração enobrônquica e bronquiolar e
microabcessos paraquimatosos.

Fui ao funeral de Heitor.
Era de manhã e chovia.
Era de manhã, mas era a Noite.
E, como no Fado – e nunca mais
se fez Dia.