27/05/2022

REGISTOS CIVIS - 127 (último texto)

© DA.



Encerramento – 127

                      



    Encerro com as linhas de hoje estes Registos Civis. Outro caderno se me vem impondo, em estes dias mais precários (que de costume) da minha vida. (Ou da minha morte – isto nunca é garantido.)

    Necessito de uma depuração, uma higiene, uma purga. Ontem, domingo-3-do-4, numa taberna da Baixa, escutei longamente os deserdados da vida-coimbrinha. Fui um deles.

    Tenho falhado gloriosamente os factos normais da vida. Já nem me refiro aos ditos especiais: o Prémio Nobel para a Literatura, por exemplo. Nada disto, todavia, não ’inda, me mata.

    Tenho, também, mais bem conhecido a humanidade próxima. Não é propriamente olímpica - nem titânica. Como eu não sou, ela não teria de sê-lo. Há normalidade nisto.

    Encerro com estas linhas este caderno-improvavelmente-livro – mas como encerrar a vida, não sei. Tal encerramento é certo: mas dias há (hoje, um deles) em que a ignorância me pesa mais.

    Abril-do-22-do-XXI: voltei a dormir fora da graça-de-deus, por assim dizer. Um nicho me acolhe, bicho. Versículo, um cubículo me aloja. Tenho conservas, duas mantas. E um número: 170.

    Caligrafo estes signos talvez pressagos com alguma desenvoltura. Pertencem-me todos, a ninguém alijo responsabilidade de/por eles. Adquiri muito vocabulário – a pão deveria ter feito o mesmo.

    É o meu tempo de sopa-dos-pobres. Sempre me ele chegou, afinal. De momento, janela nenhuma se me abre à luz do entendimento. Tenho insistido na mui íntima degradação.

    Se sempre iniciar o próximo caderno-livro, tentarei a concisão lapidar que tanto admiro em túmulos sem lembrança como em livros esquecidos. Mas não sei, de momento não sei.
    
    Nisto, por o ápice da ladeira da Estação Velha
etc.



FIM



25/05/2022

REGISTOS CIVIS - 126 (penúltima entrada deste caderno)

© DA.


A espaços – 126

                   

 

A espaços a morte
Sem quadra à solta
Revolta-se à sorte
Sem saber-se revolta.

Olhai os cativos
Da tristura santa
Que à morte da Infanta
Se davam por vivos.

Semeia a discórdia
O triste infeliz
Que não sabe nem diz
Qual a cor do dia.

Ó Guilherme Pais!
Ó Tó Conceição!
Como ides/vais
Fora da estação?

À face não falte
A mor compleição
Nem whisky de malte
Em mor garrafão.

Em ’98
Morreu-me o Bininha
Há muito o sei solto
Desta só-vidinha.

E as rimas-brancas
Que Ruy Belo entendia
Tornam gémeos ambos
A noite & o dia.

18/05/2022

REGISTOS CIVIS - 122 & 123

© DA.


Comboio – 122

 

Vou de comboio a Aveiro com o meu Pai.
Ninguém nos filma – tenho de versejar tal ocasião.
Rosas maduras como pêssegos idosos se nos dão a cheiro.
Tenho 18 anos; o senhor meu Pai, 65.
Estou hoje sozinho na ferrogare que foi nossa.
Não espero comboio mas tenho destino.



Vivido – 123



    Em circunstâncias diversas, não me seria impossível dar-te a saber coisas frescas: como as da Gréci’Antiga, que moça se mantém, a danada. Tal frescura de tais coisas, ouve-me, provém de aturada paciência no/do manejamento de cartapácios o mais gloriosos.
    Nem só grécias. Maugham (W.S.) & Buck (P.) dão-se-nos a todos os cheiros de uma glória colonial por aquelas ásias pacientes & temíveis. London (J.) abriu-nos as pistas de neve com seus homens canilupinos, por assim dizer. Calvino (I.) prescreve-nos a ciência-da-escrita. O argentino-nascido-em-Bruxelas-mas-afinal-parisiense (Cortázar, J., 1914-1984), igual a Italo Calvino em inteligência pura.

Enche-se de pó-de-ratos uma casa que não tenho
Esqueci-me do conforto burguesito-nascido
Ou uma taça-de-espumante ou chorarmos baba & ranho
Muita coisa sob o Sol nos tem já acontecido.

Areias-de-um-Egipto transmudadas, hieroglíficas?
Conheço-as – de canhenhos sem mais consulta.
O resto de atitude, por vã, por estulta,
não me propicia coisas magníficas.

Venho de berço-d’-ouro (por afecto).
Vou estragando a fortuna como posso.
Já nem família hei: meu não é nosso,
mas tal me não faz menos dilecto.

Certeza-de-morte? Todo o nascido
dela tem conta cert’assegurada.
A força & a beleza do vivido?
Valem tudo por pouco & por nada.

17/05/2022

REGISTOS CIVIS - 120

© Tina Modotti





Dias de menor bondade, estes meus mais recentes.
Ou, como diria P.F.R., “sem-perspectiva”.
É-me precário lidar com a lava viva
do vulcão pensativo de maus magmas decorrentes.

Monologo solilóquios cavos, até vis & estéreis.
Aos eus que fui, rosno: Não sois já quem éreis
– e nisto não minto, pois que os não sou ou serei.
Pode que não seja culpa minha, é se calhar força-de-lei.

Ou então assim:

Ontem, Domingo, vi a moribunda em uma casa,
vi em outra a recém-nascida.
Não me saiu ilesa
a visão ante tal vida.

Dia duro, mordaz, agreste, ígneo, fero.
Já lá vai – e voltar, não volta.
Pastam meus rocinantes todos à solta.
Crer, não creio; quanto a querer, pouco quero.

Em alternativa:

O nosso nome-próprio atirado aos leões do esquecimento.
A nossa fortuna dissipada antes de auferida.
Na casa-prima, a moribunda em sofrimento.
Na casa-prima, a festa que era a recém-nascida.

Brônzeos gongos da morte por enquanto alheia:
dobrais em doblez enfermiço-outoniça.
É súplice a espera, frisante, enfermiça:
mesmo sem aranha, permanece a teia.
 

16/05/2022

REGISTOS CIVIS - 119

© DA.


Vínculos, ainda – 119

                      



    Domingo. Já Ausenda da Costa Alves (1935-2022) dormiu em terra a primeira de todas as noites derradeiras. Lá estive, lá revi rostos em progressiva desconstrução: a minha gente, a minha geração. Estive com seus três filhos remanescentes: aves de quebradas asas. Revisitei as campas de meus Pais & Irmão. Cirandei em apurado silêncio por entre mármores que já não gritam. Ainda vínculos me enleiam a um tempo-espaço (aquele chamado Pedrulha do Campo) que me não rejeita ou espera. Vi edificações – novas a meus olhos, pois que o meu natural exílio me tornou desconhecidas tais construções. Vi portas devolutas tresandando ao irretornável despejo dos mortos que além-elas foram vivos quando eu infante, primeiro, púbere depois, adulto para nada, finalmente.
    Domingo. No ex-Lusa Nova, outros rostos de demorado reconhecimento. Alguns deles raspadinhando lotarias-instantâneas. Outros, atafulhando-se de farináceos, galões, laranjadas, martinis. É a glória possível da manhã possível.
    Exaurida a matina já, entra em cena a eternitarde dominical. Ao cúmulo de anos vividos (que já muitos me parecem, não sem razão), as tardes de domingo sempre se me apresentaram – ou eu me apresentei a elas – de teor desértico, maninho: e até de certa letalidade.



13/05/2022

REGISTOS CIVIS - 118

© DA.


Ausenda– 118

 



    Vem-se-me volvendo mais insidiosa a premência de produção daquela vaga narrativa de que Vos fiz si(g)nal na entrada 107. Não há-de ser hoje, pois que hoje é dia de ir ao funeral da ti’ Ausenda, viúva que era do ti’ Armando & mãe do meu saudoso Amigo Tónio, para além do Zé, da Maria & do Valdemar. Revejo-me, pois, na contingência de sinalizar a amigos sobreviventes quanta solidariedade me é possível. Não me esqueço da multitudinária acorrência de pessoas aos meus funerais de família.
    O Tempo, matador de excelência, vinca & vinga todas as dobras da existência – toda a existência, não tão-só a humana. (Sei muito bem ser banalíssimo o que acabo de escrever – mas nem por isso deixa de ser vero.) Tudo isto, porém, está em mármore-perpétuo por mão do maravilhoso Proust: “(…) o Tempo ordinariamente invisível, que, para deixar de sê-lo, vive à cata de corpos e, mal os encontra, logo deles se apodera a fim de exibir a sua lanterna-mágica.”.
    Hoje, Sábado-26-do-3, vou ao funeral de uma senhora que toda a vida se estruturou pilar-contraforte de sua casa-família. Sim, uma dessas mulheres de cimento-armado que sustentam a borboleteante efemeridade dos machos que ou de quem parem. Sou filho de uma destas tais. A organização que sou não dispensa essa consciência, essa idade – essa perene pertença. Ou dito assim: mátria-biológica.
    Em pouco tempo saberei (o funeral é às 14h30m, são agora as 12h17m) a idade final de Ausenda da Costa Alves (7-7-1935/25-3-2022) – mas sei de cor a de Eça quando em 1900 morreu: 55 anos. Lamento, como a uma perda pessoal, que ele não tenha resistido (ou r-existido) meros treze anos mais, tal que lhe fôra possível ler o proustiano primeiro-tomo da Recherche. Que acharia ele da monumental obra-prima? Achá-la-ia de facto monumental, como prima deveras? Eça morreu demasiado cedo, todavia tendo chegado talvez a conhecer aquilo a que o lapidar Proust designou por “a douta fadiga dos velhos”.






12/05/2022

REGISTOS CIVIS - 113



Dias outros - 113

 



        “Isso está tudo em águas-mortas” – disse Anselmo, de telemóvel colado à face dextra. “Hoje temos iscas-de-fígado-de-vaca” – redarguiu-lhe, sapiente & paciente, Dom Ventura.

    Nada tenho que opor ou apor à troca dialogal anterior.
    Eu sou só de versos, valho pouquíssimo.
    É complicado ser-se interior.
    Dizem que o exterior é que é riquíssimo.

    Pergunto-me: Com quem vou falar hoje?
    Tempus fugit: O Tempo foge.
    Macau de Pessanha? Tokushima de Wenceslau?
    Uns dias, é bom; outros, é tão mau.





05/05/2022

REGISTOS CIVIS - 111 (terceira dezena de endechas)

© DA.


 



Épocas melhores
Aonde vão elas?
Futuras? Piores
Cheias de mazelas

Em pura gratidão
Ando pela berma
Cósmico & palerma
Como qualquer cão

Passa aí uns trocos
Doce caridade
Mesmo sendo poucos
Da melhor vontade

É inelutável
A grã escalada
Do idiota odiável
Testa-de-manada

Em vão, os sensíveis
Em manif’zinhas
X os combustíveis
E as panelinhas

Flor do fontanário
És, doce Alicita
Pede-lhe a mão, Dário
Sê não patetita

Ó pulsão-de-morte
Ó minha Rainha
Ó meu vil desnorte
Ó má sorte a minha

Só por ilustração:
O pus é escaparate
De anticorpos que são
Mortos em combate

Merece respeito
A fértil viúva
Que de guarda-chuva
Ao sol dá de peito

(Já quanto ao finado
Tanto dá-não-deu
Morto & entrevado
Esquecido, esqueceu)

04/05/2022

REGISTOS CIVIS - 111 (segundas dez endechas)

© Friedrich Frotzel




Ó leve andorinha
Singela & ninguém
Leva à minha Mãe
A saudade minha

Arrote, seu bruto
Postas de pescada
Logo o seu conduto
É merda & mais nada

Grácil, timorata
Dócil & esquiva
Sei-te tão altiva
Por pura bravata

Em timocracia
Manda o ladrão
Em democracia
Uns sim, outros não

A Beatriz Costa
& o Vasco Santana
Vão na mala-posta
Além-Taprobana

Em ano incerto
(mas qual o não é?)
Fui co’ mano Zé
(Fica de aqui perto)

Ao Manel das Iscas
Que naquele tempo
Dava provimento
A mil pataniscas

E a gordas moelas
E a ossos tenrinhos
Broas amarelas
& os mais roxos vinhos

Esgarça-se o cordame
Que umbilical foi
Doer, ainda dói
[Pardon, ma(mã)dame]

A Bristol me leva
A costureirinha
Que ninguém se atreva
Não tê-la por minha



03/05/2022

REGISTOS CIVIS - 111 (primeiras dez)

 

© DA.


Endechas talvez bárbaras (mas escravas não) - 111

                      

(primeiras dez)

 



É de porte altivo
Fantasma que sonho
Pesar redivivo
Altivo & medonho

Não uso esperança
Não gasto crendices
Não é minha usança
Da fé palermices

Da tinta mais pura
É aquela ave
Parece pintura
De meu Pai suave

Cinzas ao nascer
Todos somos só pó
Vento nos vai raer
Q’o mal nunca vai só

Acre desespero
Ou terna bondade
Creio mas não quero
Crer (isto é verdade)

Lê o chão c’o bico
A arvéola esbelta
Já a tarde alta
Da luz flava é eco

Flavescente hora
De era obscura
Vem & vai-se embora
Sem mais ter procura

Diz-me, Idalina
Que te disse João
Pois esse rapagão
Demanda menina

Rimas dicionárias
Lexicões vetustos
São templos augustos
De épocas várias

Muito nos falamos
Pouco nos dizemos
Pobreza aguentamos
Ricos parecemos





28/04/2022

REGISTOS CIVIS - 110

 

Dísticos - 110




Prevejo bosques de teor pretérito
Fortuitas idas ao hospício-matadouro

Esquecer & ser esquecido faz bem à saúde
À saúde de quem, nem sempre é claro

O ucraniano a par de quem pintei a obra
Esqueci dele o nome, dele a metafísica

Não esqueci o dono da obra que nos pagava
Um bardamerda de calças compradas nos ciganos

Quatro postas de peixe-vermelho
Cozeu em tachito solitário o Arnaldo

Arnaldo nasceu, como Gastão, em Faro
Mas como Gastão não deixou monumento

Proust, no derradeiro tomo da Recherche:
“os verdadeiros paraísos são os que perdemos”

Não pouco me acoima a memória:
Mas mais me acoima, menos me açaima

O amor?
Coma auto-induzido

Urdume de amados finados?
Sim, entreteço & entretenho

Escandindo, vou demudando-me
Em o que fica, pois que não fico

Cediça, esfumada, perispirítica
Em vez de alma, outra película

Especilhando sigo minha vanidade mesma
Faço-o aliás como Mariana Abade: em liberdade

Vou-me a tomar ares:
Pois que também o ar se mede ao litro.

19/04/2022

REGISTOS CIVIS - 109




Gastão - 109

                     

    Domingo passado, 20 de Março, morreu em Lisboa o Poeta Gastão Cruz. Nascera em Faro a 20 de Julho de 1941 (domingo também). Lega-nos poesia de supino quilate. Há muito tempo o não releio. Hei isso que tratar.


 

18/04/2022

REGISTOS CIVIS - 108 (conclusão)

© DA.




    Então, em noite de estupenda precipitação, vão & vêm-me ocorrendo episódios cuja factualidade não posso avençar sem que me cresça o nariz. Miríade de encruzilhadas tracejam o mapa, também ele sideral, do pensamento involuntário. Duas casas em ruínas, a talvez menos de quatro quilómetros uma da outra. Ambas tomadas pela mais hirsuta vegetação. Alguma fauna ocasionalmente as toma também – mas de que espécie(s), ignoro. Já não vive quem decerto me ensinaria muito, se não tudo, sobre isso: Valdemar Manuel Mudo Pereira, engenheiro que foi das Águas Municipais & filantropo de orfanatos. Calou-o um rasgão pericárdico quando, manso & santo, dormia com a amante de quarenta invernos, Angelina Terça Joca Xavier. Resta-me dirigir a minha ignorância em outros sentidos. Arrisco-me a um porvir mais incerto do que seja talvez injusto. Não sei – nem bem, nem mal. Talvez volte a nevar em Coimbra – como aconteceu naquela madrugada de sexta-feira, 11 de Fevereiro de 1983. Nestes mais recentes dois mil anos, mais quinzena menos coisa, muita coisa viu acontecer Coimbra. Sei cá: paixões lúgubres, investiduras manhosas, liberais pederastias, tias pós-menstruais, modernistas tresandando a originalidade-xerox, adoradores de São Miguel Torga, templários de São Manuel Alegre, gajas francamente-ambulantemente-escandalosamente boas, pobres-de-andar-ao-cartão a que ninguém passa cartão, licenciados em a arte de desrolhar garrafões de carrascão, mestrados & amestrados, doutorados sem capelo & capelães sem médico-de-família. (NB: Quando, ali supra, na primeira linha deste terceiro parágrafo, escrevi em noite de estupenda precipitação, não era nem é caso de estar referindo-me, por precipitação, a ocorrência de copiosa pluvialidade. Não, senhor. Ele até nem chove na corrente noite. Não. O ponto está nisto: precipitação é a vocação que tenho seguido em todas as decisões de vital importância nestes últimos quase 58 anos. Sim – esse tipo de decisões que, precisamente por importantes & vitais, prescreviam o antónimo de chuva, perdão, de precipitação. Mas olhai:

    Nenhum médico me dá por tão-só quinze dias
    Nenhum fideputa morigerador me isca anuências
    Que eu não sou paspalho de aquiescências
    Não sou quem poderia , é certo – mas há mais vias.
    Mais vidas, não: isso não há – nem Inferno ou Céu.
    Mesmo morrendo-se vestido, nasce-se sempre ao léu.






04/04/2022

REGISTOS CIVIS - 108 (segundo parágrafo)

 

Era pela alva, chegava em púrpur’anil o barco-correio. No quarto da sobreloja que eu então habitava, surdia baixinho a radiofonia: Mahler, primeiro; Seixas, depois. Eu despertara muito cedo, saciado de me fingir defunto. Preparei chá forte, comi um ovo, tomei dois dedos de conhaque-nacional. À cabeceira, os sonetos da Espanca, a trágica irmã-de-seu-irmão. Enleado daquela autoridade que resulta da indiferença (não digo desdém) das/pelas coisas minhas coevas, era só por parlapaliteraturice que me acudia o intróito – Era pela alva, chegava em púrpur’anil o barco-correio. No patim do meu prédio, vigorava um festão de hortênsias. O nome de tais flores recordava-me sempre (e aqui nada minto, pois que a mais casual menção ou o mais efémero avistamentos delas me o recorda) a pungente história do atropelamento mortal de que, uma eternidade antes, fôra vítima uma menina de cerces vinte anos, Hortênsia chamada, bonita, operária, irretornável. Escrever-lhe o nome é, em meu imo, como matar a fome com água. Entristura-me, põe-me merencório, sentimentalona-me, esfrangalha-me o viço. No ano em que meu Pai nasceu, 1917, parece que Florbela deixou o marido, largando de Évora para Lisboa. Eu, nesse então, ainda me não sobrealojava, sozinho como um cão-de-louça numa exposição de relógios, naquele recanto desta Cidade por onde António Nobre ocasionalmente ambulava ruminando o seu incipiente neogarrettismo pintalgado de parnasiana profissão-de-fé. O ano 1917, penúltimo da Primeira Grande Guerra, é todavia um marco-fanal para mim. Pessoa nem trinta anos perfizera. Proust era vivo & já publicado. Joyce também respirava. Descarregaram as malas-postais, os marinheiros desembarcaram, foram beber ao Café Estuário, a cujo limiar pontificava a vendedeira de caranguejos e de pichas & de percebes frescos como gotas marinhas em manhã pluvial. Aquele caso lancinante de Hortênsia terá sido há uns (pelo menos quase) cinquenta anos – já nem Florbela, nem Fernando, nem Marcel, olha, olha, olha. (Mas, ilusoriamente embora, mais retornável este trio do que a donzela operária que um camião esmagou ali perto de onde o meu Irmão Zé Daniel teve oficina artística.) E então:



30/03/2022

REGISTOS CIVIS - 108 (primeiro parágrafo)

 

Hortênsia - 108

                      

Terça-feira, 22 de Março de 2022

 

Anoto quanto posso, não me perguntando nem me respondendo por/para quê. Uma nota: Jacques Doriot: 26.9.1898 – 2.2.1945. Outra: Gastão Belo Cidadestado Valedhive (saber datas). A memória do Dr. Veiga e Moura recitando: “Júlio César, homem de todas as mulheres e mulher de todos os homens.”  Mais outra nota biocronológica: L.F. Céline (27.5.1894 – 1.7.1961). Nótulas afins juncam os meus dias-depressa-décadas. Cada uma delas presenceia o instante perdido em que julguei ganhar tempo. Como esta ingénua, tão ingénua: Antes pessoa de bem que de bens. Sim, já fui selenita. Hoje, propendo mais para m’ir-afonso com tais ingenuidades. Sou fâmulo de clarões idiomáticos. Espeto espontão em relíquias vocabulares. E estudo (em vão, bem o sei) para aguazil. Sofro por maravedis que nunca sobram, antes soçobram apenas. Parte da mente, tenho-a lacrada por certa gafeira viciosa. Não me vejo em acomodatício transe – não (por) agora. Também me não associo (não mais) a foliculários. Se mereço enxovia? Já a terei merecido menos, agora que por escrito penso nisso. (Até este texto mesmo é atrabiliário – mas não faz mal, deixá-lo-me ser.) À brasileira, sou animal-teatino. Esplendente alvoroto de passageiras agonias, perdão, alergias, perdão, alegrias. Tive um amigo, na década de 80/XX, que, proficiente de mente & gordanchudo de corpanzil, fez as minhas delícias oratórias. Pressago destino (m)o levou, em paz (de)more. Vida acerba. Destino mais de terracota que de granito. De escassos, ínfimos, atómicos aprestos disponho. Não me vereis sátiro. Sentir-me-eis acre, isso sim. Bravatas & mofas? Antes estas do que aquelas. Frase-feita, quem não, afinal corteja a morte – pela simples teima de viver? Lerdas merdas, enfim. Pessanha & Wenceslau mirando sampanas. Conchego de (muito) relê-los – meu. Afuselados são os metafóricos dedos do Ceifeiro-Terminante. De altos alcantis cai quem foi feliz. Flamante donzela em cadeirinha de rotim. Ó morte, poterna, mais que prometida, garantia. Ainda assim, enquanto respirante, relutante. E agora: posso eu dizer de diverso modo? Posso, pois. Posso sempre. Pois:



28/03/2022

REGISTOS CIVIS - 107

© DA.


Signos - 107

                      




    Começou hoje, Terça-22-do-3, impondo-se-me a criação de uma narrativa nova com a preeminência & a predominância de dois nomes masculinos: Hermínio, um; Delfim, outro. Talvez estes Registos Civis tenham de dar vez & lugar ao novel projecto. Ainda (me) não decidi.
    Enquanto não, meteorologizo: dia invernal em plena Primavera já oficial, hoje. De uma maquineta audiovisual, chega-me em manação todo um cardápio de vocábulos mais ou menos ligados entre si: segurança/status/autoestima/associação/poder. Outros: deserção/filiação/integração/ideia/mochila.
    Esta atenção aos signos nunca me desampara a loja. Pode ser que, (se) chegado à velhice, venha a desamparar-me-la. Não sei – mas julgo tempo estragado pôr-me agora a pensar em tal. Se algo conheço, é por/com/de/em signos. Mais: se algo me conheço, é em/de/com/por signos.
    Na mocidade universitária, estudei umas quantas coisas de semiologia/semiótica. Mal me fez nenhum. Naquele tempo, idade & novidade eram-me sinónimos. (Ou signónimos, para trocadilhar um bocadito.)
    Hermínio & Delfim – dizia-Vos. É cá uma ideia. Uma possibilidade. E até: uma probabilidade. Hermínio relata coisas a Delfim: actos/factos/gajas//datas/hábitos/óbitos/etc. Delfim faz de compère/mudo – mas atenção & cautela: o seu silêncio é de forte compleição retórica. (Tenho de ver como conseguir tal tácita coisa, é desafio giro.)
    Outras coisas em necessidade-de-consecução:

Alguma palavra-justa quando, justamente,
mais falta faz a um pobre-de-deus-&-de-espírito.
Alguma doutrina pessoal capaz de resistir ao vento
de inânias de “amigos” afinal imigos.

O teu rosto sobre um corpo que já não frequento:
se bem me entendes, ou te recordas, ou não negas.
Ali à beira da vivenda cor-de-rosa do engenheiro,
no pátio da que rodavam os ranchos & os tristes.

De não somenos importância: validade da pers’ex’istência,
obstinação, pertinácia, vontade-de-viver-apesar-de.
Não é mentira, isso da dor-crónica – não é.
Mas ajuda não nos expormos a dentadas ou sordícies.

Toda a tarde hei por frente nenhuma fronte
– ou, sequer, fonte. Hei a vida teimando recorrências,
ipsilateralidades, (in)constâncias & (in)certezas.
Mas como disse – tudo signos, signos tudo, tudo

por-quem-os-signos-dobram.




23/03/2022

REGISTOS CIVIS - 105 & 106

© DA.


Vincelhos - 105

                      

 

    Um homem na berma do trânsito que fervilha na avenida. Muita intensidade na sua mente, enquanto progride em marcha rumo ao centro da Cidade. Se se descuidar, mais aflitivos lhe serão os dias – que noites precárias mal separam. O ano é indistinto – mas é vinda já a Primavera com seus mortos perfumados, ungidos a esquecimento.
    Sempre algo virá. Sempre algo será. Melhor coisa seria não tão intenso o que fulgura na mente. Difícil controlar essa azáfama. Digamos que uma segunda à tarde tem de tratar da reparação dos óculos. Digamos que uma sexta de manhã tem de apresentar requerimento a um instituto oficial. Digamos que ele cumpre essas manobras. Há sempre o perigo da desimportância-de-tudo.
    Entreter & entretecer liames à realidade suportável – bom objectivo. Nem que provisoriamente, nem que com vincelhos – bom objectivo. A existência como documento-autêntico, avulso embora. Isso na cabeça desse homem sem particular (pública, muito menos) notoriedade. Alguma coisa em algum sentido se resolve. Segunda à tarde, sexta de manhã, algum sábado menos cruento, algum domingo não tão pungente.
    O tempo-individual de tal homem + o tempo-multitudinário em que age: permanente interacção de mundos. E entre um & outro, não muitas são as peças-legos, por assim dizer. Os vínculos são precários, há que, em constância, forçar diques, oposições, alheamentos, indiferenças. Tal embate é de perfeita inexorabilidade.
    Este homem é de uma naturalidade & de uma nacionalidade. Trata-se de uma pertença: de freguesia-nação. O que vale isso em amendoins? Em tremoços, nada. É um vínculo de outra essência. É uma condição em que a Língua bate em cheio. Esse tempo-contínuo do Idioma unifica & multiplica, à vez mesma, a pessoa natonacional. (Chamemos-lhe assim, mal não faz.)
    Talvez um sábado à noite. Já sucedeu muita alegria a muita gente nas noites sabatinas. (Muita agonia também, vai & vem do regulamento.) Algum rosto em vez de uma cara qualquer. Algum fraseado em lugar de qualquer alarido. Um encontro de afluentes na rumorosa noite. Barcos chapinhando como patos. Frio lá fora, não aqui entre nós. (Nós – por assim dizer.)
    Em pura interioridade, aliviar o nó estreito-angustiante mercê de recurso a imagens fortes, bem inscritas & bem gravadas, dinâmicas & gratificantes. Não já o hedonismo primário mas outra coisa – outra levitação.

 


Em frente - 106

                      

 

Pensei hoje em António Nobre.
Há muitos anos que faz parte da minha plêiade.
É por excelência um literato oitocentista português.
E é um dos finados demasiado-moços da galeria.

Por arrasto, também Cesário Verde me acudiu.
Outro-único, virtuoso quedado tão novo também.
Tanto Anto quanto Cesário preconizam a modernidade poética.
Têm sobrevivido alguma coisa – não muita mas alguma.

Por mim, andam comigo sem esforço.
Faço deles releituras as mais vezes tranquilas.
Invariavelmente me encantam & gasalham.
Há muito não ensino – mas desde sempre aprendo.

Pensei, também & ainda, em regato murmurando pedras.
Apascentavam-se quadrúpedes em inclinado plano.
Árvores esparsas pintalgavam a contraluz panorâmica.
Soube-me o pensamento a tempo estagnado na mente mesma.

Em trâmites ordenados, recebo vozes escritas coerentes.
(Há ordem nessa dimensão da minha vida, garanto-o assaz.)
Escuto-as pensando-as, tenteando em suas areias líquidas.
E não me parecem de todo mortas, não enquanto respiro.

Em outras dimensões, falo o mínimo sobrevivencial.
Fora de papéis como este, não excedo a alheia paciência.
Prefiro rondar os silêncios esmagadores da roda social.
Sim, espécie de levitação (última palavra do 105, sim).

Penso ora em um dos tu(s) que já avizinhei em fala.
É pessoa em constante afã, de úbere dinamismo constante.
Pessoa de merecimento singelo, ordenadora da existência.
Melhora o mundo por gostar de viver quanto possível.

Não estranharia que lhe falasse, eu, de Nobre & Cesário.
Ou de outras coisas, diversos lances, farrapos de coisas, tudo.
Ou quase tudo, enfim, do imaginário real &/ou surreal.
As pessoas às vezes partilham deveras & de facto tesouros.

Sem nome, é mais precário estender a ponte.
Sem rosto, não julgo possível fazê-lo.
Ainda respiro? Então caminho em frente.
Ainda penso? Então caminho em frente – (a)onde Anto & Cesário.








22/03/2022

REGISTOS CIVIS - 103

© DA., Sr.


Pai(s) - 103

                      

 



    Dia do Pai. Já não tenho um. Estou por minha conta. Não tenho sénior a quem responder. É como é. Lei velha sempre remoçada. Não faço queixa nem apresento reclamação. Faço versos – isso sim, faço. Do popular adágio francês: “On ne peut pas contenter tout le monde et son père.” Não estou em maré de contentamento. Em dias assim, o sentimento de orfandade é mais preclaro, mais imperioso, menos fácil, menos suportável. O meu Pai ficou órfão de Pai em menino. Eu não. Faltavam-me duas semanas para fazer trinta anos quando ele se desmatriculou desta escola. Acompanhei-o até à véspera do passamento. Fui depois um dos que deram mão ao caixão. Foi sem serviço religioso: sou de um clã sem igreja. O Rui beijou-lhe a testa na sala, ali o velámos. Dia do Pai, dicunt mihi. Está sol, é de luz aberta o dia corrente, Sábado-19-do-3, é um dia de portuguesa boniteza. Entra um senhor portador de saca plena de maçãs doiradas. Bela fruta. O cavalheiro parece-me de alguma ilustração sapiente. Fere as sílabas todas, não elide. Isto acontece no bairro chamado Santa Apolónia, a célebre (conimbricensemente falando) “cidade-satélite” de há umas poucas décadas. Não me importaria de conversar um pouco com ele, saber algo de suas sabenças. Não acontece nem vai acontecer. Ele veio investir moedas no euromilhões, não olha derredor nem se demora. Eu sou tão-só um corpo inclinado a lápis sobre um papel. Nunca fui ou serei outra coisa – ou figura, ou (in)distinta aventesma. Sou filho & neto de desaparecidos-em-combate: nada original, por conseguinte. (Irmão também, irmão também de, ’té ’ora, dois.) Há quem (feliz) de mui diverso modo lide com o luto-de-sangue. Parece nem ser coisa que sobremaneira lhe(s) diga respeito. Feliz gente. Seguem em frente descuidando fímbria de abismos. Morriam de congestão, antigamente, na Barrinha de Mira. Hoje, morrem de terem nascido tão-só. Não estou fora de tal bicha – mas é ordeiramente que espero vez, sem queixa nem reclamação. Dia do Pai? Tanto ao mar & tanto à terra. Consueta orfandade. Comunizo com fantasmas vagamente silábicos. Alguns deles deixaram monumentalidade de si: Herculano, Camilo, Eça, Wenceslau, Pessanha, Cesário, Pessoa. (E o senhor meu Pai, que, não escrevendo embora, contou.) E o vago rapaz-da-camisola-verde de Pedro Homem de Mello. Nada a fazer quanto à extinção de sua fisicidade – a grande porra é a maravilhosa voz aliada à maravilhosa escrita. (Gostaria de ter dito isto ao senhor das maçãs doiradas em Santa Apolónia. Não pode ser.) Vou ver o meu Irmão Zé esta tarde (que é, também, Pai de alguém). Depois? E depois? A rua. A anónima rua de nomes históricos. E as pessoas-sem-Pai que andam aí a fazer de adultas, digo, crescidas, digo, este poema do Dia do Pai?






21/03/2022

REGISTOS CIVIS - 100

© DA.


Fala o pobre maravilhado - 100

                      

 

Maravilha de pobres: a passarada livre reiterando os céus.
Dou a tal epifania as poucas moedas que vale a vida.
Do patamar de Alberto Fidalgo, assisto às esquadrilhas aéreas.
Tenho a manhã livre, só trabalho à tarde hoje.
Hirsutas, grisalhas oliveiras em o terreno baldio.
No essencial, a infância sobrevive (– mas faz doer, faz sim).

Estudo algumas leis, aprendo uns quantos ardis operatórios.
Continuo porém a recorrer à dupla Óscar Lopes / António José Saraiva.
Não me ouvirá falar muito quem comigo se acampe, se acaso.
Disseram-me que Anselmo começou tossindo sangue em Janeiro.
Isso entristece-me, logo agora que se reformara de pensão completa.
Dizem-me que todavia segue venerando a Senhora de Fátima.

Na mocidade, José Roberto Vinhas Fernandes conheceu Maribela.
Dela se encantou ele muito – mas assaz em vão, por rejeitado.
Maribela nem era daqui, nascera em Portimão mas parecia alemã.
Como todos os amores perdidos, acabou migrando para Lisboa.
(Refiro-me a ela, que o Zé-Berto por Coimbra se ficou – e finou.)
A beleza destas histórias está no serem tão tristitas & tão inúteis.

Arfa a máquina-cafeteira, muitas bicas ela serve.
Senhoras encanecidas vieram a seus abatanados.
Lê o Diário de Coimbra um cavalheiro de perfeito atavio.
Morreu em autodesastre o rapaz que presidia à AAC, donzel Cesário Silva.
Não sou mais inteligente do que outros: e esperto, muito menos.
Descuidei a fortuna, dei-me (& dou-me) a fraquezas & a irrisões.

Já as andorinhas tracejam tinta-rápida na luz-matina.
À porta da mercearia, um casal moço confere as compras/contas.
Ele, parece que trabalha na fábrica dos artefactos de borracha.
Ela, diz que está desempregada, q’era caixeira de retrosaria.
Vão duros os tempos, isto na Ucrânia também só desajuda.
Digo-Vos isto por saber que V. interessa excruciantemente.

Já meã, a corrente manhã aguenta-me vivo, mais não peço.
Professoras reformadas gralham, muito alegres, aqui perto.
Eu nunca serei nem professora nem reformada – mas também gralho.
Daqui a meia-dúzia de cigarros, torno a casa, refervo o caldo.
Dois rapazes do Oriente tomam lugar perto das ex-docentes.
São vintistas decerto, duvido que conheçam o que seja ter trint’anos.

Fuma-se (só, a sós) na rua, há que respeitar as pessoas-de-interiores.
O antitabagismo é uma das mais viçosas neo-religiões, aliás.
É um tempo de “derivad’ò facto”, um tempo de “elo-de-ligação”.
Geral alegria de escola-mandada-à-merda, rapaziada!
Geral euforia de parecer valer mais do que ser, rapaziada!
(E não, não há remédio para os simplóides, os ignaros, os eleitores.)

Desinformação massiva ao gosto sionista-hollywoodesco?
Sim, por aí sem graça grassa, sim, não há como negá-lo.
Renitente escol proletário (perdoe-se-me o paradoxo, sff)
persiste na pureza dialéctica de uma doutrina falada mas falida.
O capitalismo-selvagem é papá de todas as bombas-de-gasolina.
Mas eu vou por Óscar Lopes / António José Saraiva: e é bem que vou.

Maravilha de pobres: rés-meio-dia, a livre passarada ceruleando-se.
O tempo (meteorológico) revira-se um pouco, talvez ’inda cacimbe.
Tornou-se mercurial o firmamento-matino, somos em aquário.
Lentos rapaces carvoam o ar da Conchada, daqui avistado.
Rápidos rapazes passam ao gás, em caminheta distribuidora.
(Gostaria muito de telefonar à minha Mãe, mas hoje não pode ser.)

Há perto de 900 anos (mui perto) somos Portugueses:
mas duvido por vezes de que queira tal coisa ser,
abre-se-me de madrugada a rua fria, estou sob o viaduto,
a mamã-de-Marcel-não-vem-beijinhar-me, pas-de-Paris-par-ici,
abandonei de modo decente a carreira docente,
outra não tinha, ou só a fingi, digo, escrevendo.





20/03/2022

REGISTOS CIVIS - 99 (incompleto)

 

Consec'úteis - 99

 



    Em a lei não especificando dias úteis, são consecutivos então. É esta a norma. Da utilidade dos dias, a utilidade propriamente dita, não há muito que se lhe diga. A corrente segunda-feira, 14-do-3, é fosca. Anda arredia a luz alta. Edital de sombras húmidas, a dúbia claridade hodierna. Talvez saia um pouco pelas quatro & picos, ainda não sei. Não sei se posso chamar-lhe, à corrente segunda-feira, útil.

Não mais dilação.
Pedras rolaram pela encosta.
Atiram lixo a zonas-verdes.
Desrespeitam impunemente.
É tudo feiamente triste.
Outras vezes, o sol lava.
Nem todos a crédito:
mas todos a prazo.

Jorge vai à Farmácia Donato.
Benedito visita Ulisses.
Elias rememora Fernando.
Bernardo convoca seus sócios.
Isabel chora na igreja.
Juliana cozinha regiamente.
Antonieta é feliz em casa.
Tiana, doida por compras.

Linha de choupos à berma-rio.
Homens maltrapilhando derredor.
Grandes cheias, as de outrora.
Foi antes do açude, muito antes.
Um carrito verde través as águas.
Afogamento de galo, tragédia-mor.
Daqui a vista atirada a Montemor.
Em poucos anos, a eternidade.

Por enquanto, a eternitarde.
Pânico: o preço dos combustíveis.
Barafunda: o preço do pão.
Não há volta a dar ao humano.
As bestas-bélicas nunca pensam.
Há um novo Diabo-Inimigo:
é o Homem-Branco-Agnóstico-Heterossexual.
Toda a demais raça é santa.

Marcial abre loja electroméstica.
Tó-Zé rilha pêssegos furtados.
Adalberto tira brevet-d’aviador.
Jesualdo reforma-se à-maneirex.
Graciosa abre loja florista.
Carmina rói nozes rangentes.
Telma só anda de bicicleta.
Túlia tem onde cair morta.

Cite-se. Notifique-se.
Efectue-se. Envie-se.
Electrifique-se. Abone-se.
Copie-se. Arquive-se.
Parecemos diligências adiadas:
semelhamos excepções avulsas.
(Por regra, semelhamos.)
E pendemos a granel.

Inclino-me a vocábulos.
Espalho-os pela mesa.
Junco deles a cama.
Durmo-os dentro.
Adentro-os em son(h)o.
Reconvenciono-os a jeito.
Espadano sílabas capitosas.
Há mais de 50 anos o faço.

Consigno por vezes a verdade.
A verdade é a rima da pessoa com o real.
A mentira é mais fácil em verso-livre.
(Se disser verso-branco, sou racista?)
Desgosta-me a gula espectacularóide:
do jornaleirismo mormente.
Também me desgosta a má-literatura:
a que ao espelho escrevo mormente.

Embargam-se-me de salitre os olhos
quando acaso reajo a alguma má-fé.
Passa-me depressa, também Vo-lo digo.
Não mais dilação.
Não mais o-mal-pelas-aldeias.
Rumo antes à simplificação.
Amanhã ninguém me fala.
Hoje não estou surdo. Nem mudo.

Se longe, tudo te corra bem.
Se não, que o mal te corroa.
Que sejas sombra de ninguém.
Que a vida te não seja boa.
Se longe, tudo te faça feição.
Se não, que o Diabo te conheça.
Se não, que Deus te esqueça.
Mas se longe, não; e adeus, coração.

Consumamos agência de auto-execução.
Somos de uma atenção notificanda.
Nem toda a hora é execranda.
Suave nos pode ser a condição.
Livres destas peripécias?
Marcelino, Tomé, Luís Filipe, Manuel;
Delmina, Cândida, Hannah, Marguerite
(Eis-me consignando guardo verdade.)

Trivializando: vinde comigo.
Metamos juntos o euromilhões.
Tomemos café no Sílvio.
Enviemos foto de grupo ao Anacleto.
Divirtamo-nos até às vinte & trinta.
Digamos mal do Benfica & do Marcelo.
Opinemos doutamente sobre a Ucrânia.
Sejamos milionariamente tesos.

Ou então: Heidegger é capaz de se ter borrado.
E ainda: nazismo & estalinismo diferem?
E mais: nazismo & sionismo divergem?
Enforcando Eichmann, matou-se o Mal?
Estou em a posse das respostas, mas só minhas.
Interessar-me-ia conhecer as Vossas (se existísseis).
Tudo isto não passa porém de solilóquio.
Há mais de 50 anos que não.

Tendes a V.ª doutrina – pois ainda bem.
Vosso é o receituário – pois ainda bem.
De V. não difiro ou divirjo senão em detalhes.
De resto, carne a prazo todos.
Chamai-me pessimista ou incréu:
ambos os apodos me assentam luva.
Creio tanto no Putin quanto no euromilhões.
(Mas o Vladimir vale menos que 2,5 euros.)

Em virente prado, as ovelhinhas.
Na hipersuperfície, as ovelhinhas.
À hora de votar, as ovelhinhas.
De meu sono arredios, os carneirinhos.
Os tv-canais multiplicam os imbecis.
Promulgam a idiotia compulsiva.
A pobre lusa-manada chouta no pó.
E há quem chame música ao hip-hop.

(Eu não. Por mim, quando Mahler, nunca pior.)
Sábado passado, com a minha L., vivi.
Soube (de) coisas novas de gravidade.
Vi-me depois de novo a sós, é normal.
Em 1985, fui ao cinema ver a Meryl Streep.
Ainda então fruía a prosperidade.
Águas muitas sob pontes d’então correram.
Nihil obstat, imprimatur potest.

O Paulinho Aduelas tem companheira.
É-lhe mulher fiel, ele teve sorte.
Não chegaram a filhos, ela não podia.
(Ele poder, podia – mas não conseguia.)
A Micas Rolhas já vive sozinha.
Foi-se-lhe embora o marido, que já não torna.
Estas coisas acontecem muito, na verdade.
Acontecem muito – mas uma só de cada vez.

Lêdes a extensão desta versalhada
& pensais talvez que hoje al mais não fiz,
pois bem Vos equivocais, lavrei sete horas,
das-nove-às-cinco como as dactilógrafas
que antigamente havia & se casavam
mal & parca & porcamente com mancebos
licenciados em Letras como as mulheres,
águas muitas sob pontes d’então morreram.

(...)

É hoje segunda-feira-14-do-3, tempo ocluso.
Não raia o Sol, antes a nublação impera.
Eu gosto. Sincera & o mais francamente, gosto.
Tenho qualidade de hibernador, talvez por isso.
Deveras, há quantos anos durmo a vida?
No mínimo, há 35, quase 36.
Nada disto morigero como normalidade.
É coisa minha – & a que, a sós, pertenço.

Tiago Marques liga a Miguel Licínio.
Combinam obra para Abril.
São de contas expostas a escrutínio.
Por junto, já fizeram mais de mil.
Valenciana Augusta p’ra Ricardina:
– Queres ir ao chá-das-cinco amanhã?
Ricardina – que não, q’anda malsã,
que já se vai deitar com aspirina.

Da janela do quarto de meus Pais,
vejo quanto chove sobre a nespereira.
Ou pessegueiro? Ou tangerineira?
Não há janela, nem quarto, nem já Pais.
É na era dos livros do Fernando Namora.
É também na da Colecção Livros RTP.
Julgo há muito ida tal era-hora.
Mas se ora ainda a escrevo? Ninguém m’a lê.

Eis-me aqui devagarinho pensando em W.
Digo: Wenceslau (o de Moraes, o niponófilo).
Ele & Pessanha, que dupla sem par!
E deles a tinta em pergaminho: só perfeita.
Em Wenceslau, o povo-dos-barcos.
Em Pessanha, o povo-de-Camilo.
Portugal nem imagina quanto foram.
Wenceslau bi-viúvo, Pessanha enamorado de Ana de C.O.

Onde o cansaço me tombar, herói de nada:
de nada & de pátria alguma, onde tombar?
Sim, conheço nomes, forjei uma enciclopédia
imprestável (mas emprestável) & delicada.
E agora, agra juro que não prometo
(Houve aqui alguém que se enganou
– e só eu aqui estou, é o carago.)
Onde a fadiga me cortar as unhas.

O calor nutriente, hauri-o a tempo certo.
Este é o inverno entrante, a moda é outra.
O modo, também, e o tempo – incerto,
faz-se por modos nec-plus-ultra.
À flor da lembrança, ao arrepio do frio;
à cabana inexistente, ao aviador perdido;
à face de um entendimento, ou então de um verso;
tenho-me ratado de modo mui rente.

Li na idade certa o senhor Carlos de Oliveira.
Fez-me bem: parece(u)-me exemplar.
Guardo dele os livros, que vou ofertar
a quem os merece de toda a maneira.
Hoje, não conversei grande assunto.
Fiz dois testes, passei sem mor distinção.
Nada me adianta puxar p’lo bestunto,
isto é mais à base de arroz com feijão.

Quando a vida for um pouco menos aritmética,
poderei talvez clonar os velhos da minha infância,
curtir à guisa deles o sol em banco de pedra,
esperar a ressuscitação dos Gregos Antigos.
Se alguma solipampa d’entretanto
me não liquidar ali nas Urgências,
terei todo o gosto em V. falar do bel-canto
que cantaram senhoras & demais excrescências.

Sim, assistimos todos ao retorno de Z. da guerra-colonial.
Houve foguetório, o pai dele fumava Ritz.
Éramos já as crianças-da-revolução, tais éramos.
Hoje em dia, duvido da reforma curricular no/do Ensino.
Se lês mal, não vás ao lançamento de bons livros.
Como os bons livros são poucos, vai ao lançamento dos maus.
Sempre dá para te iludires leitor da alma impressa,
quiçá parente dos espíritos mais coiso, mais marcelo.

(...)

Passo a descrever um sol-poente-de-postal:
era em Julho/1970, era-me viva a Mãe.
Cirandando ambos pelo litoral,
aconteceu-me a mim – mas a Ela também –
a doce maravilha & o suave aprazimento
de Mãe-com-seu-filho, irreparável momento
que se hifeniza por filho-com-sua-Mãe.
(Q’isto fique só em verso, não o digais a ninguém.)

(...)

Tanto verso porquê? Para quê? Hã? Como quê?
Porque isto: para isto: hã: como isto:
pelo rocio que em 1973 vi cercando a base do pinheirito:
& pelas sílabas a negro sobre chapa-amarela na Escola Primária.
Qualquer coisa adversa que os totós-de-Lisboa ou os palermas-do-Porto
possam vir a advogar de encontro à minha constância,
desde já aviso que ainda dá para o torto
o direito sem recta que nem mede distância.


(...)

Oh dilação forever!




Canzoada Assaltante