sexta-feira, dezembro 06, 2019

CADERNETA (título provisório de coisa-em-progresso) - 10


© Wim Wenders




10. Lobo & Corvo

a) Sábado, 9 de Novembro de 2019



Incursão. Passe do autocarro renovado. Cabelo cortado. Bifana comida no Terreiro da Erva. Poalha-moinha pluvial, céu glauco – beleza r-existente desta cidade em que Garrett moço escolar & poeta militante. Nenhum barulho para nada – há sossego, o rebanho anda em fervor acéfalo pelos hipercentros. No Jardim da Manga, levo dois beijitos da minha prima Candita. Cândida como a minha materAvó Cândida, Bisavó dela. Instante brevíssimo mas gratificante: sangue-do-meu-sangue etc.

Na bus-paragem, duas senhoras de cabelo nevado sem tinta nem laca. Confiro-lhes as mãos: dedos de unhas não infernizadas, perdão, não envernizadas. De idades septuagenárias, perdão, deidades septuagenárias – pois que mais belas agora, nestes hojes da morte-não-assim-já-tão-remota. Limpas como este papel antes do meu lápis, tinta por vezes. Sacramento sem degola de cordeiro, vinho loução, pão à chuva, duas vidas.

Vou em modo miguel-paladino. Vou pela neve que Coimbra pode: ela é, no real, aguadilha; nesta caderneta, é neve. Levo as reses das minhas lembranças à pouca-erva do meu destino. Tino, menino, tino…

O sonho acontece quando se dorme.
O projecto acontece quando se acorda.
A música não é para adormecer.
A música manda despertar.
O papel de música é menos do que o papel do músico.
O músico projecta.
Já sonhou mas deixou disso.
Suspendeu o sonho para oferecer o despertar.
Do ouvinte, espera-se mais do que a paciência ou a generosidade.
O músico quer ouvir dizer de alguém o que o ouvinte já ouviu em si mesmo.
O papel de música, neste sentido, acordo no ouvinte aquilo que já não é sonho.
Por assim dizer, suspende-o: fá-lo levitar, por assim dizer.

Sonha-se a dormir.
Projecta-se de ouvidos abertos.
Bemol & sustenido são & não são a mesma coisa.
O músico é & não é outra pessoa.
O ouvinte, neste sentido sustenido, é & não é bemol.
Nem mole.
O ouvinte é o sonho projectado em suspensão: espera que comece, não sabe acabar.

Há anos de mais para aqui os contarmos um por um, o compositor conseguiu a paz de cada dia.
Entregou a partitura ao operário instrumental.
Alguém varreu o palco, alguém alinhou a plateia.
O ouvinte entrou por direito próprio no local do crime.
Crime é não ouvir.
É não saber que a música torna amanhã os anos a mais, os sonhos a menos.

Formigas na neve: as notas no pentagrama: as andorinhas nos cabos eléctricos.
Alta tensão.
Alta atenção.
A música é a metáfora mais alta do pensamento.
A tensão sobe ao alto.
O sonho desce à terra, torna-se nosso irmão na cadeira ao lado.

Era uma vez a voz.
O sonho pende.
O projecto apreende.
Era a voz uma vez.
Uma voz.
Um. Dois. Nós. Três.

*

Escrevo hoje uma carta à primeira das minhas Filhas. É a minha voz em tinta, lápis por vezes:

Ânfora-cânfora, ó perfume ondulado!
Ó cegarrega, olha o meu andar-de-lado!´

Escrevo hoje uma carta à seguinte & derradeira das minhas Filhas. É a minha voz em lápis, tinta por vezes:

Livre lebre, ó corredora d’açúcar são!
Minha rica entrega, olha a minha perdição!

*

Vãos ossos – que em vão ouço.
Meus Pai & Mãe, húmus da contrafacção.
Co’ a cervejita quer o senhor tremoço?
E vai manteiga, sim ou não, no seu pão?

A Nina faz de gato, cão & casa:
ter Nina é alfim fazer sentido.
A Nina faz-se à luz, a luz dá-se asa:
feita a Nina, o destino é cumprido.

Vejo-me sem Filhas no sábado que s’alastra tarde adentro. Sem Filhas presentes, digo, sem meu regresso a casa delas, que só por elas seria Casa. Foi que me irremediei de vida: o circo não abre, está o urso constipado. Deito-me na cama que me (des)fiz. Linhas-bus? A 5 até à Portagem. A coiso até mais ver. Ou cegar.

Ou chegar.

A pessoa que tira do papel a música atira ao ar o que dele tirou. Aí se suspende o sonho. Esse tempo não é passível de compasso. Clave é chave. Fechadura é abertura. Porta aberta, o ouvinte é projecto. E então: sou-som. Sonho.
Ou então: Vou. Não em vão. Ponho.
Ou ainda: Sou o que ouço.

As pessoas moedam raspadinhas para a fortuna instantânea.



b) Domingo, 10 de Novembro de 2019



Decerto somos todos trágicos.
Somos comédia todos decerto.
Perto, mais perto, a boa velha morte.
E, mãe dela, a nascença não-pedida,

perdida sim & só, ai isso sim.
Deu-me hoje para Vítor Baptista
& para João Miguel Fernandes Jorge,
aquilo do Actus Tragicus, sim.

O Amora recebe hoje o Pinhalnovense,
aos 80’51’’ os visitantes vencem por 0-1,
Félix Mourinho treinou os da casa,
o decadente VB (“O Maior”) era do plantel.

Penso ter sido neste mesmo terreno
que se estreou pelo Benfica
o grande sueco Stromberg,
que depois brilhou na italiana Atalanta.

Domingo é quanto país posso
estou vivo neste quarto com o meu Gato,
é branco como a neve puríssima, o puríssimo,
puríssimos seus olhos perplexos, meu Companheiro.

Sou trágico por querer imortal o meu Gato,
doce é dele o sono, transparente sua sombra,
só hoje o matriculo neste livro
mas vamos ambos muitíssimo a tempo.

Mãos de mulher antiga em linho novo,
depois desci travando a subir, usei
muitas coisas em Terminação do Anjo,
não estou tão sozinho como diz o noticiário.

Eólicos anónimos são meus ventos,
fiz ontem rir Gabriel, o quási-cego,
coimbra é o meu Estádio Olímpico,
promontório bio’necro’lógico in’fini’cial.

Na praceta de T., perdi a rosa,
a rosa amarela que mulher alvejava,
a felicidade era talvez certa,
talvez certa em-caso-de, mas não, pronto.

O Pinhalnovense venceu n’Amora,
partida que finjo imortalizar em verso,
quando eu em Lisboa já Leonor era,
era o que este níveo Gato veio ser.

Eu ainda não peço senão anoitecer,
noite-ser com dignidade ampla,
arribar-me à morte limpo de memória,
um trapo finalmente lavado na gaveta.

À mercearia subia com a senhora Mãe,
nessa era que idade se fez rígida.
Cheirava o mundo a tudo-alguém
do merecido & esperado & quê?

Amplexo-sexo deu já quão tinha a dar,
não era muito, era já vulgar ginástica.
Nunca quis mais que casa-horta
– e a janela da mulher ser a minha porta.

Tortuosa é a ínvia senda, ó oratura!
Em Elvas, a noite foi-me mais preta.
Nunca mais lá volto, quero que se dane
o eu-ter-sido-em-Elvas-Évora-Praia.

Lobo & corvo, o coração
é genitivo, pertence-se
em exclusa posse,
estima bem que os brasis se fodam.

Estou homem-em-cela mas é bela
a volta urbana, Choupal lá ’baixo.
Califórnias & austrálias ardam longe,
q’sou do país-gaiteiro, o da Língua.

Em cidade, domingo é o pior dia.
É mais vivo o absinto, perdão, o absurdo de nascer.
Em aldeia, porém, não: a horta cresce.
A fome-lobo é de outro nome-corvo.


segunda-feira, dezembro 02, 2019

CADERNETA (título provisório de coisa-em-progresso) - 9






9. Mesma Serenidade, Mesma Agonia

a) Quinta-feira, 7 de Novembro de 2019



A manhã é descerrada por uma que era Virgínia Colina, promíscua dama de anos nunca mais vindouros. Foi diamante-falso de salões valsantes: Las Vegas, Viena de Áustria, Estoril, Funchal. Na véspera do 50.º aniversário, ainda fez compras ligeiras, ainda recebeu telefonemas para festas – mas não permitiu à meia-noite que a tomasse. Comprimidos – etc. dormem-lhe os ossos num talhão-de-artistas qualquer, por aí. Só sexta-feira, para o torneio de sueca, hão-de-varrer o salão.

Georgina Pastor, admirada conservadora de galerias particulares, herméticos pardieiros em que os ricos embalsamam arte outrora viva. Havendo apreendido cedo os gerais motivos & as comuns comédias dos néscios endinheirados, fez fortuna sem soluços. Repartiu o pecúlio aforrado por muito avisadas aplicações. Tal permitiu-lhe sair de cena quando ainda não perfizera os cinquenta. Contratou o casal Regina/Leopoldo Magriço, a dupla de sempre: ele, faz-tudo; porteira-cozinheira, ela. Vivenda quase—mansão na Rua Ravel. Chegou aos 86, levaram-na, preferiu a cremação, não ficou exposta – até hoje, aqui.

Renato (da Paz) Madrid, botânico condescendente. Residência ali alta, entre o Liceu e a Penitenciária, autêntica cápsula-do-Tempo que herdou dos materavós, Irene & Aquilino Salvador da Paz. Como certa Georgina P., nunca se casou. Salvou-se da burguesia, habitando-a sem luz-de-presença. Subsistiu-a, fingindo representá-la. A seu modo, foi anjo. Foi anjo consciente da clamorosa impossibilidade de Deus. Adoeceu, deixou-se de merdas, rasto não deixou significativo ou ominoso.

Mário Bonanza, careca como um fósforo, cuidador de inutilidades, criatura de rotinas relojoeiras, nem feliz nem melancólico. Modelo portátil de pessoa assim-assim. De invejável pecúnia, nem meio-caralho fez a vida toda. Abençoado.

Identificar & captar a pequenez como a grandeza mercê da mesma serenidade, mesma agonia. Isto é claro para mim. Claro que demorou uma vida a ser claro. Vou muito a tempo de ter onde cair morto: qualquer pedaço de chão me basta.

Tenho residido suficiências.

Idem idem pouca gente.

Jorge, Angelina & Valter: manos músicos, completavam quarteto com Dinis Querido. Tributavam excelentes afinações a arranjos de música d’entre 1964 a 1979. Rodavam o circuito de bares pela música da noite. O conjunto desfez-se com a emigração de Angelina para a norueguesa Trondheim, a colocação do professor Jorge em Tavira & a desistência simples de Dinis. Valter fez posterior carreira, mas de continuidade desgarrada, em grupos similares. Nenhum dos quatro consta de qualquer publicação recenseada de bandas semiprofissionais do Pavia para cima. Nem para baixo.

Recém-nascido atirado ao lixo, o senhor Presidente da República já foi falar com o salvador do infante, por ironia um sem-abrigo. A televisão, comovida, serve-nos o doce desse momento, a guloseima da salvação. Portugalinho da diabética lagrimeta telecomandada.

Locais onde Garrett assinou versos & linhas afins: Birmingham (Warwickshire, Inglaterra); Ilha Terceira (Açores); Porto; Coimbra; Angra do Heroísmo; em pleno mar (Agosto de 1824); Lisboa; Sintra (Cintra, sic): prisão do Limoeiro (Lisboa, Agosto de 1833); Londres; Havre de Graça; São Miguel; Paris; Bruxelas. Gostaria de ver como eram estes burgos nos dias dele. Nunca terei tal gosto.

(Falta-me ler Carlo Emilio Gadda.)



b) Sexta-feira, 8 de Novembro de 2019



Manhã clara. Clausura. Temporário. Alienação paulatina, mas volitiva, de quanto arda sem calor. Existência tomada. Nomeio o meu povo. (É decerto inexacto dizer povo. Rebanho de soledades, sim, melhor carimbo.) vou confederando clarões eidéticos, por assim dizer. Quanto a legibilidade, não cuido por aqui aquém. Rolando?

Rolando Garcia, emérito cavalheiro como muito poucos, mestre oficinal de louça decorativa. Conhece, da Beleza, a instantaneidade capaz de fundir séculos em um instante sem esquecimento. Fulmina-o de quando em vez algum trecho de rádio: Piazzolla, Barber, Paredes, Grieg – contra a ignorância triunfal dos sicários, contra a morte-em-vida. Rolando sabe (como eu sei, aprendi) quão sozinha é a fruição. Como o sabe Susana em casa de Susana, Orlando em a rua de Orlando, Gil com a árvore do avô Gil, Luísa em sua saleta sem retratos. Pois?

Pois é, aqui não formiga tertúlia. Italo Calvino chama “trapalhão” a Colin Wilson? Desta monoplateia o aplaudo. Garrett refere Benjamin Franklin? Sorrio sem precisar dos dentes postiços. Heitor?

Avulsas mas razoáveis vezes o vi passando rumo a si mesmo, as mais vezes aos sábados, Heitor Sílvio Marrazes, pêlo-de-rato, roupagens monocromáticas, tão capaz de se comover ante alguma máquina bem ideada quão de repugnar-se ante os galarós capados do marialvismo tauromáquico. Casamento frio, o dele com Izaura dos Remédios Pilar, católica por apatia, sem uma frase própria, mais lhe valera o freirato recluso. Mas lá desandaram – como toda a gente. Miguel?

Miguel Paladino em plena névoa londrino-victoriana. Arrendou alojamento na Great Russell Street (WC1), que partilha com um Guilherme Guarda de Coventry. Trabalham ambos no Hammer Hotel & Lounge – Miguel no economato, Guilherme na manutenção termoeléctrica. Guilherme não sabe dizer-me se Miguel deriva dos Paladino de Colchester, se devem dos de Norfolk, se de ninguém, o que sempre seria, como o próprio Cristo, novidade. Já apurei, todavia, que o empregado de hotelaria se oferece lições particulares: piano, grego & latim, astronomia, dactilografia. Não-fumador, abstémio sem ser por moralidade, consegue pagar essas propinas sem angústias. Toma o aluguer de uma prostituta-domiciliada cada trimestre – e sempre ao dia 18: Fevereiro com Laura Travassos, Maio para Dorina Anselmo, Agosto em Telma Lemos, Novembro de Teolinda Palha. O gajo organiza-se. Ida, agora.

Ida Tranquila Ralha. Vem dos canais holandeses. Filha & neta de marítimos flamengos. Velha, bonita. Especialista em Vermeer, Hammershoi, Wyeth, De Chirico, Rilke, Beckett, Montalbán, Espinoza. Cozinheira-adjunta do Hotel George V. Biblioteca pessoal: 44 volumes de alfarrábio (até 3 de Setembro último, contei-os). Férias em Delft (anos ímpares) & na Normandia (os outros). Em viagem, casaco azul-noite abotoado a madrepérola. Elsinore (Helsingør), talvez um dia. E em dia as letras de Ida.

Vejo uma via empedrada entre casas cuja descrição poderia ser produzida ao piano por Miguel Paladino, agora que já aprendeu. Nenhum nome por tal via. Isto não a faz sinistra. Suspende-a, antes. E projecta-a para um depois que não posso, já não poderei. Como, porquê, nada de quando, onde, quem muito menos. Eu disse clausura. Não brincava quando o hei dito.

Sim, o dinamarquês Hammershoi, que Hopper não enjeitaria. Homem interior, cujo olhar é de uma densidade equivalente à do verso justo, do fotograma exacto: olhar sem depois nem antes – por interior, nem cit/ nem ult/erior. Como sentimos que uma janela nos olha – compreendeis isto? Se não, perguntai (também) a Wyeth. E se ele V. responder, contai-mo, por cortesia.

Imagem vinda de dentro já no pós-meio-dia: a mente como papel mole a que chega na diagonal uma punhada líquida: a memória. Como André W. pintando em segredo Helga T. Tal é só de ambos. Cabana vedada à idiotia alienígena, rica de mais até para monarcas ainda não exilados, quanto mais para reses de incônscio rebanho. Estou certo no & do que digo, a este respeito. Não tanto quanto a outros.

[Aparente omnipresença de um eu-árbitro, em espécie de um fulcro neutro, ante & através as várias existências de E(u)xistência. Menino & velho. Branco & nocturno. Feliz & mentiroso.]

Ou então, naturalmente à face de outro mar em outro verão, aquela tarde prussiana, mulher de leite duro subido à explosão de ouro da cabeça em coroa, improvável verão de mar sem prova, ela bordando o litoral em efígie de ausência anunciada, autora só de sua sombra longa como cauda de noiva, vi que se apartava até destes versos futuros & sem futuro, como os outros.

(Aparecer, parecer, ser & perecer. Pronto.)

Nietzsche tinha sífilis como eu tenho pena de António Botto.

A Jill Ireland de 1975 radiava finuras ductilíssimas. Eu porém contava só onze anos de nascido, então: não podíamos. Agora que, enfim, agora – agora nada, senhor Abrantes, tudo como dantes.