06/07/2021

PARNADA IDEMUNO - 533 a 550

© DA.


533

Sexta-feira,
2 de Julho de 2021

Rapariga (in)vestida à Stendhal:
de rouge-et-noir graci’omin’oso.
Rica noiva dará, só bem mal
há-de ficar ao cabo afinal
quem dela não fruir o véu & o gozo.

534

O ex-menino é ora pai de menino também.
Não mais um frio finlandês lhe arrepanha o coração.
É visão bonita, a de um ao colo do outro.
A falta de sentido da vida abre então excepção.

535

Vivemos anos de aspergida insalubridade
A idade destes anos é velha desde a nascença
Religiosidade fascistóide tem direito-de-cidade
O cidadão fala, não diz; tem cefaleias, não pensa.
Chega a fascinante, a quantidade de idiotias
Fascinante, a ignorância ser tão chique
Lancinante, o ror-horror de cascalenses tias
Vassouras verticais à maneira do Titanic.
Valem-nos certas manhãs mais refrigérias
Certos rictos sorridentes de crianças distraídas
Sorrir com elas é das coisas mais sérias
Dessas coisas tais violetas & margaridas.
É pena todavia tão avulso tiroteio
Nas escolas dUSAmericanos há mais chumbo que giz
O sionist’árab’extremista é sempre feio
E feio é cada deus & mísero & vil & infeliz.

Vivemos anos
Etc.

536

    Do poema anterior, importa sobretudo a essência oximórica daquilo que filtro do real pelo laconismo do verso. É muito menos a brincar do que possa parecer. E não é propriamente novidade no meu contexto.

537

Vi pela televisão o filho do meu querido
Professor de Latim, há muitos anos ido.
São seis os casos da Língua Latina, a saber:
Nominativo, Vocativo, Acusativo, Genitivo, Dativo & Ablativo.
Com o primeiro, digo: o Sol.
Com o segundo, chamo: ó Sol!
Com o terceiro, vou-lhe directo: (vejo) o Sol.
Com o quarto, torno-o proprietário: calor do Sol.
Com o quinto, vou-lhe indirecto: glória ao Sol.
Com o sexto, ou com ou por: com o Sol, por o Sol.
O filho do meu querido Professor de Latim é Paulo.
Era ele o número 10 da mesma equipa de que eu era o
Número 6: Clube de Futebol União de Coimbra.
Na linha anterior, Coimbra está no tal genitivo.

538

Ao limiar da vetusta Igreja de Santa Cruz,
à hora de pior febre solar, ardendo o ar,
o pedinte-em-chaga espera caridade,
claridade não.

Padece de grave solenidade o instante anónimo,
padece de solene gravidade o momento inúmero,
haverá no restante mundo símil cenário, sim,
mas igual não, a este não.

Mão-de-obra quero ser – e sou – tão-só em vida,
pós-morto me não aquent’arrefenta obra qualquer,
pré-nado a mesma coisa, vivo currente-calamo,
há bem quem mais mail viva: ou obre.

539

    Às 18h33m, a recatada sombra pública abrigado, aproveito a doçura do instante: estas linhas dando as costas ao tampo da mesa escarlate-Buondi-Caffè. É em momentos afins que mais falta sinto de quem amei enquanto-sempre-para-sempre-vivos. Talvez, agor’aqui-mesmo, e por uma raríssima vez, meu Pai aceitasse uma imperial muito fresca; minha Mãe, café + água-mineral; o Jorge, uma compal-de-alperce + uma sandes-mista; o Rui, água como a Mãe. E eu, que me pèlo por aguardentes, sendo assim bebo nada. Carpe diem – dizem-me os Amados Mortos. (Não dizem, mas pronto.) Et noctem etiam – queixinho-me eu.

540

    Digamos que nascimento & infância são categorizáveis ao nível dos 32-avos-de-final. E que a puberdade, vá, ao nível dos 16-avos-de-final. E que dos 20 aos 45, oitavos. E dos 46 aos 59, quartos-de-final. E que dali em diante uma meia-final sem possibilidade de substituições. Certo é isto: que, com ou sem prolongamento, indo ou não a penalties, a final, perdemo-la, sempre, sempre.

541

    Gerardo Manique Cotim Cação, importador de frutas, genealólogo amador (mas de fino quilate & robusto gabarito), 52 anos (a disputar os quartos-de-final, portanto), solteiro, utente mensal do prostíbulo Diana-Doce. Topo-o por vezes à porta da botica, conversando ele com Sebastião Soprano Luciano Montomem, o boticário. Também já o vi no cinema, ele gosta de filmes a dar para o bomba’spectacularóide como os do Jaime Camarão ou então dos chorinca-raciais como os do pueril Estêvão Spílula Bergue. Gerardo não me conhece. Já me viu na rua, decerto, mas nunca nos falámos. Estou, julgo, em vantagem: já li quatro opúsculos de sua lavra, enquanto ele de nenhum dos meus deve alguma vez ter sequer lido o título. A minha mulher costuma ir-lhe às bananas: mas no plural. No plural, ó cabrõezinhos mal-intencionados.

P.S.: “cabrõezinhos” tem de vir no vocativo.

542

Era pelo entardenoitecer, suavidade havia
no ar adocicado pela fábrica das bolachas.
A casa tornava, fatigado & sério, o operariado,
pais & mães de meus compatriotas de pátr’infância.
A casa chegadas, nossas mães seguiam lidando,
urdiam sopa que à vida perfumava fervente.
Ainda então de nós mesmos nos não condoíamos,
’tadinhos adiados das prestações ao banco.
E certa glória-benfica-sporting impedia
sermos todos fascistas como então soía.

Revivo essa idade por escassa me quedar esta,
festa que aquela foi, fim-de-festa q’esta é.
Ínclita & egrégia, como no hino, a vida d’então
parece hoje objecto malperdido ou bem malseco & malmolhado.
Aos dois mais infantes dos Cucos tentei ainda
ensinar as letras-primas, as contas-à-prova-dos-nove:
resto-zero tudo, receio eu que, resto-zero tudo.
(Espero, leais, não leiais isto pela cusquice pseudobiográfica:
há talvez mais verdade no não-sublinhado
do que no pretenso confessional-escarrapachado.)

543

De ebúrneo-marmóreas glórias falsas
não cuida o artista-com-hombridade:
qualquer Patet’-Alegre dança valsas.
(És pouca boa és, ó Piedade!)

544

    Procedi no quarteto prévio (cf. 543) ao elogio irónico (firmando o contrário do afirmado) de Maria da Piedade Feliciano Rana. Referia-me à sua bondade moral, não à sua gostosura física. À sua cordura ética, não à sua descomunalidade corpórea. À sua estesia modelar, não à sua estética de modelo.
    Maria da Piedade Feliciano Rana? Mais conhecida por aqui como Diana-Doce.

545

Fotografei o crepúsculo p’ra bandas de Santa Clara.
Esparge-se a finiluz a finos dedos pró-veludo.
Esta luz é nossa-comum – daí que rara:
pois nada somos mas, olhai, temos tudo.

546

Eu assim para o meu Amigo C.S.:

– Daqui a menos de três anos, também tenho de re-renovar a carta-de-condução. E eu que nem carro tenho… estou desempregado há tanto tempo, que os gajos dos autocarros já me confundem com a velha-dos-sacos…

Líric’alternativa à autocomiseração prévia:

Daqui a menos de três décadas, estarei morto. Ide lá pedir carta-de-condução ao livrete que vos pariu.

547

    Quanto à actual Turquia, digo tão-só que um gajo pestilencial, perdão, presidencial como nome tipo medicamento só pode ser um cancro. E é.
    Quanto ao actual Brasil, prova-se pela enésima vez que a tragédia é menos cómica do que a comédia (bolsonaro)trágica.
    E no entanto
    Algo de gente decente haverá turca.
    Algo de gente decente haverá brasileira.

548

(Plano do zé-ninguém-que-nem-José-se-chama-mas-ama:

Ir calafetando fissuras mercê de publicações próprias & bem-feitas.
E pouco mais.)

549

Leite-sobre-azul (como a Torre-de-Belém),
meu bem ela era, ante o Tejo assentados
ambos nós: quão moços nós, nós quão bem!
Enfim (suspira, cão!), águas & anos passados.

550

Isto de velhas mães & cadelas velhas,
o mínimo é levá-las a dar a volta da noite,
deixá-las mijar em qualquer escaninho,
deixá-las andar,
sabê-las de costas,
a casa voltarmos a sós de vez ao anis mais capaz de, truz!,
sem elas nem nós.



1 comentário:

Patrícia Cardoso disse...

548
(Resposta ao plano: que calafete; que siga calafetando. Cal'a(c)fetam uns Zé-ninguém e iguais outros vão arejando)



(...) digo qualquer dia.
PC

Canzoada Assaltante