20/09/2020

VinteVinte - 55 (integral & início do caderno II)


 

55.

 

i. i. i. i. i.

 

Coimbra, sexta-feira, 15 de Maio de 2020

 

I

 

Tenho perdido Amigos – uns, pela janela horizontal da Morte; outros, pelo logradouro traseiro da Vida. Eu não fui amigo de Eduardo Guerra Carneiro (1942-2004), fui apenas seu leitor. Todavia, o pouco que sei dele é um pouco que me entristece muito. Muito & mesmo a sério. Alguma prosa & alguns versos dele. Certa imaginação que a figura me desperta. Penso ter visto uma fotografia dele com três amigos, naquele a-preto-e-branco de uma talvez-Coimbra em um talvez-Novembro de um talvez-1962. Voltarei a procurar essa imagem. Tristeza garantida, eu sei.

 

II

 

Telefonou-me há pouco (davam três minutos sobre as dezoito horas deste dia macilento) um Amigo que não se me perdeu – o João Artur P.C., filho do belíssimo par, já infelizmente finado, Henrique Costa & Maria Orlanda Portulez, gente tão boa dali Fontela, Figueira da Foz. Conversámos maduramente: de pretéritos, futuros & isto a que chamamos presente (rica prenda…). Voltei depois a este canto de papel. Aqui estou: cave canem.

 

III

 

Imagens infindas coruscam incessantes.

O paquidérmico Göring pilhando mortos.

A mulher islandesa acendendo o lar.

A mulher irlandesa tomando o chá.

Extermínios sistem’automatizados – todos os séculos.

O carreiro pelo canavial, cães parados à chuva.

O aparato palaciano do meu mais antigo Inverno.

O irmão do pianista Bill Evans, chamando-o d’além.

Os meus dois mas sem mim ao piano.

Aquela roda de crianças metálicas nas ruínas de Estalinegrado.

(Outr)A prenhez de Augusta Cuca resultando caixãozinho-branco.

A agonia daquela rapariga no Hospital dos Covões.

(Morreu no colo da minha Mãe em formato-pietà.)

Nomes-datas em mármore, maninha terra.

A boina de Wagner & a cornet’acústica de Beethoven.

O gato de Cortázar & os óculos do meu Pai.

Um velho esquecido à varanda que lhe dá oriente.

Ondas de trigo ao sol verde, à lua púrpura.

O estivador em pausa almoçando sardinh’enlatada.

Infindas indefessas invencíveis imagens íntimas.

 

IV

 

A outro sol foi que nos juntámos.

Foi no adro da igreja, crescia o plátano.

A geração à nossa anterior já transigia.

Juvenis éramos, cada um de si manhã.

 

Tem havido mudança na gerência.

Casario houve já arrasado até.

Duas gerações novas preparam já terceira.

A lua só nos parece a mesma, ao campo dando.

 

Diz que sempre assim tem sido a novidade-nenhuma.

À beira-rio se aluga gente, cabaz sortido.

Não, Irene, o Menino-Jesus não tem aparecido.

E o João traz as costas cheias de caruma.

 

Não de mim esperes que eu desespere.

Para o relógio, agonia & alegria são sinónimos.

O problema é se te der para a má-consciência.

De tua má-fé, versos me não faltam – espera-os.

 

Justo é que V. pareça pueril a minha cifra.

O que eu cifre & o que julgueis – quê? Nada.

A chave não importa, só importa a charada.

Como quando, Rosa, perfumavas tod’a’venida.

 

Ao leite azul da noit’etern’& sideral.

Ao sal na pele, ao grão de mel, à lua anil.

Ao nosso ajuntamento por razão alguma especial.

E ao distinguir-te eu às cegas ao sol.

 

Sim, leio bulas posológicas, gosto daquele paleio.

Não, desta ilha não saio, não há horizonte.

Lembro-me de termos frio mas também lume em casa.

Até de casa termos & sermos me lembro.

 

Ai, Belita, que António se tornou o teu Man’el!

Ai, Candita, bendita te seja a vida inteira!

Ai, Rosarita, cravito-de-papel!

Ai, Aparecidita, que grande bebedeira!

 

A minha terra é hoje a minha pele apenas.

A V.ª, não sei, nem V. me lo contais.

A outro sol foi que ficámos sem pais.

A lua aparece-nos na mesma dando açucenas.

 

Gostaria muito de não apenas por a morte sermos afins.

Conheço porém a essência desértica da vida comum.

Tanto faz o Cristo na parede como o Ritchie Blackmore.

Gostaria sim, garanto-Vo-lo sem hipocondrias.

 

Lua, lu’açucen’anil, dadora de campos & gerações.

Sol-relógio sem clemência nem faraónica paciência.

Certo Natal de quando nós-todos-vivos, colhi o musgo.

Presépio-pagão se nos volveu o coração.

 

Aqui é onde quero a estante nova, envernizo-a eu.

Não V. amei bem, é curial reconhecê-lo.

Também esta é uma carta – escrevivo-la eu.

Continuo todavia sem dinheiro para o sê(-)lo.


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Canzoada Assaltante