22/06/2007

Nenhum dos Rostos – IV

Paul Léautaud em 1952, por Henri Cartier-Bresson



Na manhã clara e fresca, estou sentado num local público.
Penso sem usar excessiva seriedade. Penso nalguns livros do austríaco Thomas Bernhard, levanto-me, vou ao minimercado comprar duas cebolas para daqui a pouco cozinhar um caldo de carne, acabo por trazer também dois tomates pequenos e muito maduros para misturar com vinagre, azeite e anchovas salgadas. Por me ter levantado muito cedo, estou na manhã com uma certa veterania. Tenho o trabalho do dia todo planeado – e também esses ofícios não são excessivos nem sérios por aí além. Já ontem tinha desejado o caldo de carne, mas não havia cebolas em casa. E hoje de manhã, na paz monárquica do trono da casa-de-banho, acabei as últimas catorze páginas de Betão, o livro que Thomas Bernhard publicou em 1982.
Às três da tarde, hei-de estar no posto de saúde da vila para que a enfermeira me acabe o tratamento ao ouvido direito. Há sangue coagulado lá dentro. Há uma semana, alta noite já, tropecei e caí nas escadas que levam ao meu andar. A cabeça embateu com estrondo no corrimão metálico. O couro rasgou-se-me um pouco, sangrei um pouco. Durante o sono, um fio escuro escorreu para dentro da concha do ouvido. Até hoje, a cabeça dói-me do lado oposto, o esquerdo. Mas vai-me sendo possível escrever e ler com a ajuda de um analgésico de oito em oito horas. Pude assim iniciar a leitura de Perturbação, que Thomas Bernhard deu à luz em 1967, ou seja, vinte e dois anos antes de morrer e trinta e seis depois de nascer.
O rolo das manhãs de Junho autonomiza estas e todas as outras brincadeiras.
De tarde, tudo é um pouco mais complicado – a começar por viver. A frescura diáfana da manhã, perdi-a durante o tempo em que cozinhava. Depois de comer, tomar o comprimido de paracetamol e ouvir as notícias da uma, saí para tomar café e ler um pouco mais de Bernhard até que sejam horas de ir ao posto de saúde. O que tinha sido puro, claro e fresco deu lugar a uma espécie de febre: a tarde é de um calor fosco, as árvores doem à vista. O mar é muito longe, demasiado longe. A montanha é o mar daqui, uma petrificada sucessão imóvel de ondas de pedra, de terra dura.
Não é que o mundo seja mais sério. Não, de modo algum. É tão-só um pouco mais doentio. Não por acaso, um dos loucos mansos do sanatório anda por perto. É cortês e velho. Pediu um copo de água na pastelaria, deram-lho, foi do balcão à mesa com o copo, bebeu a água em pé, sentou-se, levantou-se quase de imediato, pegou no copo, devolveu-o ao balcão, saiu para o calor glauco da tarde.
Outros sanatoriais são quase rapazes ainda. Usam sandálias de profetas sem rebanho. Gastam fora do sanatório mental todas as horas possíveis. As mulheres são menos – ou saem menos horas. Uma delas chefiou no Norte uma estação dos Correios. Não sei quase nada da história dela. Pinta-se muito, usa roupas de boneca anacrónica, trata por namorado um cavalheiro que diz uma frase por semana. O cavalheiro usa um bigode à brasileiro das décadas 40/50 do século passado. Calça sapatos brancos, castanhos no peito. Muda de gravata três vezes por dia – um pouco como escrevo: manhã, tarde, noite. Mas só noites, tardes, manhãs, gravatas, sapatos e bigodes reconheço, nenhum rosto.

Caramulo, manhã e tarde de 8 de Junho de 2007

Uma Volta Magra pela Vila Magra





Estou daqui a ver um homem doente que mal suporta ser capeado pelo sol. Cabelo fino e pouco pesponta-lhe, ralo, o crânio casca-de-ovo. É de olhos que já viram melhores dias. Como preciso de escrever, decido pegar numa pedra e partir o espelho.

Tenho a memória, tenho o mar.
Tenho a montanha, tenho o esquecimento.
Por que raio me falta tudo?

É no minimercado que se habita o desejo.

Uma volta magra pela vila magra.
Casas cheias de vazio.
O vento farfalhante na árvore interior.
Dois homens falam sobre mel.
Passa uma velha que cheira a sabão.

Coisa raríssima: uma criança.

Sobre nós, suspendendo-nos para baixo, a tenda do tempo. É o tempo todo. Nós somos ninguém. Só temos nomes.

Estou daqui a verificar as leis.

Antes, dei uma volta pela Noruega. Casas, fiordes, a independência em 1905, a comida, as crianças respirando através da neve. Parti depois para o senhor Sam Shepard. Regressei à vila sem dela ter saído. Memória e mar, montanha e esquecimento.

Estou daqui a sentir os anjos.

Celebrei a chegada do Verão com uma ameixa.
Só o fruto era verdadeiro.

O amor que me tiveram ainda me laca os ossos.

Antes disto, as mulheres entravam casa dentro, instituíam comidas paralisantes, recortavam pão, cediam vinho. Hoje, embora são.

Para a frente, arroios vingarão corrimentos.

Enquanto, o coração, pinçado de vidro, lanceta as têmporas.

Estou daqui a desarrumar mortalmente o baile.
E nem há baile.

Frangam sardinhas carbonizadas aos santos de Junho.
Acordeões ventilam como aspiradores.
Se cinco não perfazem um punho,
um coração não perfaz duas dores.

Esta é a minha vila.
Esta é a minha vida.

Pássaros trilam ar,
apogiaturas de penas.
Uma égua bebe água.
Que a cachorra nunca morra.



Texto e foto: Caramulo, tarde de 21 de Junho de 2007

21/06/2007

Palavras e Cores para a Minha Irmã

Rosas caíram à água.
Vento verde veio de lado,
tocou as encarnadas no azul.

Aos olhos das cabrinhas
vão as abelhas
beber o mel, as espertas.

Pois, nem tudo é morte.
Embora tudo seja morrer,
nem tudo é morte.

O ar frio muito gosta
de lamber
as axilas das árvores.

Lembra-te comigo
de quando,
os pés, na água,

a felicidade nos
fazia tilintar como
a campainhas de prata.

Hoje, o Verão
cai à água como rosas.
Nós vamos no vento.



Caramulo,
tarde de 20
e manhã de 21
de Junho de 2007

19/06/2007

Nuno Gabriel Oliveira Dixit - ou então os meninos crescem, carago

Nuno Oliveira
to me
show details
4:55 pm (3 hours ago)
Ora viva, caro amigo!

Antes de mais, dizer-te que fiquei sem palavras, ao ver que aqueles 1 poemas eram também para mim. Que dizer? Sentir a consideração de alguém que se admira é sempre um prazer enorme!
Queria ter falado contigo sobre o assunto Zé Rui. Conheço relativamente bem o ACERT, e o Zé Rui vem por inerência. A malta já sabe, de "anteontem" (como a fome do Chico Buarque), que ele é um "pintas" com uma disponibilidade enorme para receber aplausos. Enfim, é uma vicissitude deste mundo do espetáculo. Eu por acaso sempre achei que o trabalho notável que era feito no ACERT era em muito devido ao Pompeu, mas se calhar foi porque engracei mais com o homem desde início. Passa-se o mesmo em muitos outros sítios. Ali bem perto de nós, em Coimbra, os "Realejo" são um exemplo gritante: o pessoal só conhece o Fernando Meireles, por todo o mediatismo que assume, quando quem conhece o grupo sabe que o trabalho, a alma, a qualidade do grupo, é devida em enorme percentagem ao génio do Amadeu! Do Zé Rui, a única coisa em concreto que conheço é a sua pouca habilidade como actor. E enfim, alguma aptidão como "recitador" no "Soltar a lingua". Não é nenhum Villaret, mas o homem até se desenrasca bem. De resto, só mesmo o à-vontade com que dá o passo para a frente do palco, na altura dos aplausos!
Obviamente que o desenrolar dos argumentos deixa a coisa clara como a àgua, quer na forma desnorteada como o ACERT (? - todo o ACERT?) os desenrola, quer no teor dos mesmos - colocar a hipótese de que tu próprio tivesses plagiado alguém desconhecido para fazeres 15 poemas, é de uma desonestidade intelectual gritante. Enfim... merdices que acontecem!

Poesia! Muita! Muita e boa! Muita e muito boa! Estás a escrever de forma deliciosa, Daniel! E a um ritmo impressionante. Quando começas a ganhar dinheiro com ela? Ou seja... quando o(s) livro(s), e em que detalhes de edição? Há tanta poesia rasca em cima das prateleiras das livrarias, está na altura de varreres alguma dela, e lá colocares a TUA poesia, carago! A boa poesia é mal-empregue para morar apenas nos blogues!

Bem, e agora mudando radicalmente de assunto (uma vez que falávamos de BOA ESCRITA - eheheheh), remeto-te aqui um textinho meu, que sujeito à tua implacável apreciação. Seria um favor que me farias, se o lesses, e se fizesses a devida "correcção literária". É uma coisa verde (que eu sou verde!), talvez caótica, com inúmeras deficiências... enfim, estou a começar a fazer caminho, tenho noção das minhas fragilidades. Só para contextualizar, trata-se de um conto (o primeiro de uma série de 4 contos encadeados, e confluem, em tempos diferentes, nestes mesmos 2 personagens, e em mais um que surge em dois dos contos seguintes), uma história quase sem história (talvez chata por isso mesmo, mas a ausência de "acção" neste conto inicial foi algo intencional na forma como os pensei, enquanto todo). Deixo-te com este "Último Café em Paris" - trata-se de uma "derivação ficcionada" do "Último Tango...", quase uma coisa "impressionista", um desenho em traço rápido de uma memória do filme que me ficou.
Aguardo um comentário, e mais que isso, os tais "reparos, insultos, e coisital"!

Um grande abraço amigo-irmão,

Nuno Gabriel Oliveira

Nem Junho nem Inverno Acabam






I. Simetria

Casas há que são cartas por escrever.
Outras são também brancas, mas cisnes.
As casas têm pescoços caligráficos.
Elas fecham a boca e abrem os olhos.
Quando é o contrário, é a tragédia.
Todas as tragédias são domésticas.
Passo nas ruas, fica-se-me a sombra nas casas.
Nunca volto inteiro a casa.
Também os pescadores perdem no mar a sombra.
Quando voltam, voltam estátuas de sal.
Aves e mulheres tossem-nos.

Árvores há que são lápis escreventes.
Outras são também negras, mas corvos.
As árvores têm pescoços caligráficos.
Elas fecham os pés e abrem os braços.
Quando é o contrário, é a tragédia.
Todas as tragédias são genealógicas.
Passo nas áleas, fica-se-me a luz nas árvores.
Nunca volto inteiro do bosque.
Também os caçadores perdem no bosque a luz.
Quando não voltam, ficaram árvores de sal.
Aves e mulheres caçam-nos.



II. Remoçamento das Viúvas

Gnomam pelas hortas-jardins as escuras viúvas.
Eiras e leiras seivam de sóis e de chuvas.
Nabos rubescem, licoram-se as uvas.
Medram medas trigas tais douradas vulvas.



III. O Sol Daqui

O sol é feito de água.
Os homenzitos velhos flutuam de costas.
Os cães têm escamas tristes e longas.
As árvores algam as cabeleiras.
E os corações afogam-se.



IV. Pois, as Nossas Vidas

As nossas vidas são casas de putas
guardadas por nós com um carinho
que só pode ser deste mundo.
Mijamos porta fora mas dentro
até ouro cagamos – para nós.



V. Mais Música

Frequentei outrora conventos gasoleaginosos,
profetas de baunilha, sarampos de morango.
Eu fui já maravilhoso moço de tango,
entre poucos outros maravilhosos.

Nem sempre cavalocorcelei carrosséis,
mas nunca falhei valsasouropéis.
Marchitas cordatas de colete & gravata?
Muita campinei entre Zés e Manéis.

Bebopei, blueto, jazzações humanas,
’té chinelei acordeações tricanas.
Luzita vermelha, boîte azul:
coração a norte, a morte a sul.



VI. Nunca Li Feuherbach

Tão findos são os mais lindos
de si tão desavindos como
os mais feios sem meios
alheios correios
de deuses diabos caragos e santiagos
licros ouros de si despingam coitados
mundo é contratantes
antes fora de contratados.



VII. Oxi

O sinal da minha vida é esta árvore respiratória.
O sinal da minha morte é esta árvore respiratória.
Tudo existe tanto duas vezes ao mesmo tempo.
Tu nasces, escreves, morres, lêem-te. Quem respira?



Poemas: Caramulo, manhã (I) e tarde (II a VII) de 18 de Junho de 2007
Fotografia: Caramulo, manhã de 18 de Junho de 2007

18/06/2007

Onze Invernos de Junho


Estes poemas

são para

dois homens-árvores:

Armando Silva Carvalho

e Nuno Gabriel Oliveira




I. Já não se Trata Porque

Tinha vindo trabalhar em algumas palavras.
À entrada do café, fui abordado por ela.
Castanha e preta, deitada no chão.
Olhou-me de dentro do mundo.
Não sou capaz de escrever o olhar dela.
Quem me dera ser capaz do olhar dela.
É uma cadela jovem que olha da antiguidade.
Eu tinha vindo ao colo do vento.
Galgara a subida de pedra fresca.
Dei por mim no olhar dela.

Ontem, por não a ter visto, choveu muito.
Andei descalço sobre espelhos quebrados.
Evitei perder-me no bosque.
Espreitei ovelhas que nuveavam encostas.
Vi homens doentes rindo sozinhos.
Vestiam casacos cinzentos como ovelhas sujas.
Eles são gaios químicos, papagaios daltónicos.
Usam os olhos a partir das costas.
É calados que falam da chuva.
Vida e vila são-nos a mesma coisa.

Ri homens doentes vindo sozinhos.
O olhar da cadela e o olhar do bosque.
Tenho as mãos como patas de galinha.
Tenho o coração escrito em papel-carbono.
As árvores cantam.
Os espelhos não cantam.
Não há crianças, não há palavras murais.
Não há mulheres, não há palavras morais.
Os homens têm os corações cravejados de unhas.
Dizem palavras transparentes e porcas.

Às vezes, há cavalos negros, mas também são cães.
São cavalos nos sonhos que sonhamos como cadelas.
Quando o vento me dá tudo, posso ser nada.
Em torno, as pedras muram a gramática.
Pescoçamos para que nos torne campinas o vento os cabelos.
Ele torna-nos campinas.
Usamos memórias ruminantes de ovelhas.
Pássaros ladram alto como cães.
São eles quem, porém, cavalga o vento.
Eles nos levam ao colo, senhoris e ventis.

Mas são elas, as cadelas, quem nos ama.
São umas mães.
Sobrevoam a pedra e os nossos corações.
Travessam-nos como ao bosque.
Nós paramos um por um.
Nunca levantamos as mãos.
Descemos sempre as mãos.
Perco-me num deles, o mesmo casaco.
Babujo o coração.
Trabalho em algumas palavras dele.

Já não se trata de estar vivo.
Trata-se não ser capaz do olhar dela.
Pensões arruinadas deliquiam entre árvores.
Décadas parecem versos ao vento.
Calço espelhos quebrados.
Aos ombros da campina, um casaco cinzento.
Não dou por ela no meu olhar.
Os corações-carbonos não amam.
Não amam porque não esquecem.
Porque só escrevem.



II. Como a G. de G.

Agora trago as mãos como a guardanapos de gestos.
Não me torna tal diferente de qualquer morto.
Incomum não sou, tão-só sou absorto.
Medos e gelos dedos gelam antes lestos.

Arrefeço à mesa com mulheres e cristais.
Arroios de sangue tilintam rubis.
Gemem e requintam copitos de anis.
Talheres dão verniz de pratas banais.

O mais que não digo do não ouvir vem.
Perdido por mil, emprestado por cem.
Despido de roupa, vestido de trapo.

Direito de entrada, saída de morto.
Incomum não sou, tão-só sou absorto.
Levo agora mãos, gesto e guardanapo.



III. Antuzede, 1917

Era azul a água da chuva nos fatos azuis
dos operários que viviam
da chuva ao preço dela.
Castanhas duras e vinho mijão viviam no cheiro.
Era branca a água da chuva nas capelas frias
das mulheres que viviam
da chuva ao preço deles.

Ripavam bacalhau e onanismos.
Esfarelavam de si jardins matadores.
Cegavam de castanho fendidos amores.
Raspavam azulazulejos e brancorganismos.

O sol caiava de pus a tristeza sólita.
E eles agora mortos nos filhos deles,
feitos, como eles desfeitos,
da chuva ao preço deles.
E delas.



IV. Idioma

Se a boca sangra, é da língua.



V. Pedrulha, 1973

Rondas rogatórias abrenunciam a casa.
Chove trevo em torno dos arrumos-galinheiros.
Costureiras sustentam bípedes farinheiros.
Mas a vida sobe a casa à brisa.

Relatos e tangos radiofonam domingos.
Nespereiras entrevam de puro raquitismo.
Acordeonistas soltos em excursão
acordam revoltos em sol-açafrão.

Nenhuma lei. Nenhuma criança. Lua alguma.
Só da vida a morte (presto) se enciúma.
Conduzia frio, dono de NSU.
Morreu mal vestido, enterrado nu.

Rondas rogatórias, chovidos galinheiros:
que assim é a infância dos mais domingueiros.



VI. Música?

Crissas evóides pidem nesperar?
Quã gila evóide crô desperantar?
Si nã turca guela a deçamatura,
dopia neuratar laquela pingura?

Munas quilas bêm ofóssas derridas:
mortes são as pautas com as notas de
vidas.



VII. Vitral

Um pingo de vidro na ponta da piça
não faz da porcina cristal ou linguiça.
Bem pelo contrário, um tal repingar
Faz dela 1coisa mais dada a apontar.



VIII. Infantêspera Medonhesa

Nesperecinas acriançam o folhedo.
Tangepersinas chumolham os mais verderetes.
Limolinetes sangrassucam zarvoredo.
Trançacitrinas macidulam ramalhetes.

C’rac’olchoram babas ranhos gatinitos.
Pulgas medonhas vampirizam cachorritos.
Cheques de lama pagam zimbros descanáveis.
Viver não é daquelas coisas mais amáveis.

Infância toda entre muros de quintal.
Infante mudo-surdo-tudo-portugal.
Nesperecinas acriançam o folhedo.
Quem tiver cu, tem onde meter o dedo.



IX. Entram Entre

Entram por vezes maravilhas olhos adentro
e nada têm a ver connosco nem de nós-olhos.
Toalhas amarelas como lances de sol,
Baptizados honrados como lâminas de maçã.
Tenho ido a funerais com o mesmo fato.
Alongo-me no regresso a cervejarias com três ou quatro.
Conversamos sob o chumbo da hora culpada.
Metem caminhos a tralhão entre castelos e escolas.
Vem uma gaja cantar, deram horas galináceas.
Seguramos as almas amarelas como rifas:
se não houver sorteio, nem morteio haverá.

Uma calma económica tudo teria resolvido.
As putas legais assim tudo têm parido.
Depois há pontas, que são júris e prudentes.
Nada de ferro que se não morda entre dentes.

Entram por vezes maravilhas entrementes.



X. P.L.P.L.

Canitos pés de sombra madura
tocam as lívias beiras da ramagem
agem tudo como se a mesma loucura
desse cor à terra, terra à imagem.

Não é só tule mesmo coração
finge de azul ser pão e ser verão
não convoca a espera mais oficial
é mera não vera a noite total.

Deditos de fita valsam malmequeres
mulheres de chita sonham ser casadas
cortinas de crinas éguas alugueres
tu queres ou não queres tais divorciadas.

Olha o teu rio infante inicial
olho azul à vida tudo é p’rtugal
teus canitos de sombra futura
passada luzita, pouquita loucura.



XI. Europa É praticamente tudo Alentejo

Ainda canta tão manso
passarito afinador.
É cansaço sem descanso,
passarito tão cantor.

Asitas ele grila breves,
pendura de nosso ouvido.
Um cantor tão bem sentido,
gargantasas tem tão leves.

De azul pinta seu espelho,
de cal caia seu cantar.
Ao sol torra o vermelho
e à lua vai engessar.

Ramo frio, muito inverno.
Não poup’ a ave ternura.
Viver pode ser inferno,
ser do céu uma loucura.

Não repit’ o passarito,
que este canto é só meu.
Só vivi um bocadito,
que não era meu nem teu.

Vai lá cantar prá Europa,
ganhar tantos tostões mais,
que viver é uma tropa
de pretos e portugais.




Caramulo, tarde de domingo, 17 de Junho de 2007

17/06/2007

Rosário Breve - 4 (com foto de Armando Silva Carvalho)

Para minha alegria, recebi pelo correio esta fotografia penichense tirada pelo grande poeta português Armando Silva Carvalho, que, oferecendo-ma com data de 11 de Junho de 2007, me desvaneceu em imagens e letras. Aqui a partilho convosco.
O texto Cinco foi publicado n'O Ribatejo de 15 de Junho de 2007.

Cinco

Colhi duas rosas.
Tenho duas mulheres. Dei uma rosa a uma, dei uma rosa a outra. Depois, meti-me no comboio e desapareci. Elas ficaram.
Cada uma olha a rosa da outra. A mulher de cabelo ruivo tem a rosa amarela. A mulher de cabelo dourado tem a rosa encarnada. São contemporâneas, as quatro; as duas mulheres e as duas rosas. Vivem em molduras diferentes. Uma vive à chuva, outra vive ao sol. Uma anoitece para que a outra acorde. Uma delas veste um manto de veludo azul diamantinado de estrelas. A outra é uma meda de trigo amarelo sobre campo verde. Ambas são crianças antigas. Além do rubi de lábios, perlados lhes são os dentes. Ambas são de uma tristeza formosa, posto que, a cada uma, uma rosa. E ambas são de uma formosura triste, posto que, em cada uma, uma rosa existe.
E tu, leitor? Tens mulheres? Leitor: sabes onde colher rosas? Sinto muita curiosidade em relação a ti. Sim, claro, somos diferentes. Só o comboio é idêntico, como idêntica é a desaparição. Não é, leitor? Não és, leitor? Olha, vou desvendar-te a pobreza final do meu segredo.
Colhi duas rosas.
Tenho duas mulheres,
Uma chove, outra faz sol.
De rosa amarela, a mulher de cabelo ruivo é a minha vida.
De rosa encarnada, a mulher de cabelo dourado é a minha morte.
E tu, leitor, és a minha viagem.

Quatro Coisas de Ontem

Dezanove Tercetos Vivos

Não amo a minha vida.
A minha vida não me ama.
Deitamo-nos nus na mesma cama.

Tu vais morrer, minha Mãe?
Eu vou-te morrer, minha Mãe?
Para que me nasceste, Mãe?

Hoje é sábado, chove muito.
Duas bolas de vidro, os meus olhos.
A terra fuma nevoeiro frio.

O coração cheio de berlindes glaucos.
A minha vida lava de chuva o cabelo.
Tristeza e beleza de mãos dadas.

Chove tanto, o império de vidro.
Ruas dizem-me adeus.
Digo-lhes um frémito de cutelarias.

Repito as águas com o coração.
Alam-se-me rastos de terra.
Alpina-se-me de neve a cabeça.

Nem tudo é amor ou a morte.
Há outras palavras além da vida.
Molhamos as mãos em espelhos.

Um dia, a criança não te é.
Uma noite, procuras a criança.
Só o espelho encontras.

Gerânios, gladíolos, baías.
Meninas, meninos, mármores.
E olhos de chuva no chão.

Laranjeiras de cristal na madrugada.
O susto da alba no coração.
O coração da alba na alma.

É tão tecelã, a noite.
Tão fingida de manhã, a tecelã.
Aranhas crispam sua lua.

Palavras ondulam peixes.
Nadam na boca, as gajas.
Até versos ondulam.

Então a tua dor não treme aquários?
Arrefece a platina da memória, sim.
Tudo arrefece, o esquecimento até.

Isto um dia folha, diz a árvore.
Isto um dia falha, diz o amor.
Isto nunca, filha, Mãe.

O coração frita a própria lama.
Ele até troca as letras.
O coração frita a própria alma.

A Mãe dá a mão.
A Mãe dá a mão ao filho.
Mas o filho está no inverno.

O rio é vertical.
O espelho deita-se.
A sombra é um idioma.

Fui amado por um cão.
O amor dele é a mais elástica das minhas coisas.
O meu único rosto é o desse cão.

A vida do meu cão é a minha vida.
A vida da minha Mãe é a do meu cão.
Das três, amo as duas.



Soneto em Calamento

No calamento cor-de-laranja da noite particular,
casais descasados rejuntam forças de comercial a gasóleo.
Mais funcionária pública do que espermática lhes é a vida.
Hipermercados afluem, a corações, consumos de plástico.

Tenebroso não é viver, mas o teatro alemão.
A gente fode-se tanto emigrantemente.
Porcos mornos nos dão a cor da proteína.
Amarelecemos em esplanadas plásticas e lusas.

Luzimos devagarinho osteoporoses lunares,
enterramos pais com sapatos de ferro.
Treze, catorze amigos integram o enterro.

Oliveiras nos pulsam grécias testiculares,
azeite condiz a tristeza dos lares.
Morrer sempre acerta, viver foi um erro.



Ter Sido

Ter sido vivo na própria vida,
heroísmo banal, respirador.
Viva a vida viva viva.
A estiva cansa o estivador.



Rubra

O teu coração é uma ginja: cor e tamanho.



Caramulo, tarde e noite de 16 de Junho de 2007

16/06/2007

Recolha

Study of a Boy
by Loretta Lux





I

Pode o coração ser azulejo e partir-se como dentes.
Isso acontece às pessoas e aos animais.
Enlanguesce uma flor, igual a uma cidade.
As pessoas passam devagarinho a eternidade.

Eu gostava muito do senhor Sacramento da minha rua.
Ele levantava-se às cinco da manhã.
Às cinco e treze, ele ouvia o primeiro galo.
Às oito e meia, ele contava-me o galo dele.

A minha rua passa sozinha nos meus anos.
Eu passo os meus anos sozinhos sem rua.
Os galos e os maridos cantam noutro lado.
Temos um pelourinho enfeitado de almas.



II

Aqui não há mulheres.
Chove desde sempre.
Acordo muito cedo na casa congelada.
A lenha tornou-se ferro no cesto.
As árvores mancham o nevoeiro.
A chuva funga o mundo breve.
Fecharam a escola, as crianças acabaram.
Às oito da manhã é a noite.
Num carro abandonado vivem dois cães.
O talhante senta-se à porta do talho fechado.
Uma viúva não olha, só tem costas.
Ela é um corvo de azeite-luz.
Encerraram a loja de roupa.
As calças e os casacos tornaram-se estuque.
Aranhas e anjos partilham o gesso.
Ninguém quis desmantelar o baile.
As almas dos músicos medusam no salão.
Uma cadeira quebrada como uma pessoa.
Quarenta cartas na mesa, todas de espadas.
Somos homens, usamos mercúrio no coração.
A nossa astronomia é um caminho de terra.
Respiramos chuva escura.
Lampiões piscam-nos os olhos.
Cisnes de terracota? As nossas mãos.
A ferida de um homem é a boca.
Tão melancólico sangra ele resina.
Guardaram-nos em caixas de cristal.
Cheiramos a canela velha.
Pássaros de pano tocam-nos por trás o mercúrio.
A montanha desfecha-nos pedradas de gelo.
O zinco vinca a única nuvem.
O parque derrama sal no tanque de peixes.
Aqui não há peixes.



III

À tardinha, recolhemos do chão os corpos.
Recolhemo-los devagar em coisa de uma hora.
Lavamo-los na fonte, entre pedras e árvores.
Entregamo-los ao Lar, pagam-nos em moedas.

Na manhã seguinte, eles voltam-nos.
Tomam café no café, fumam cigarros baratos.
Olham para a televisão, não vêem as cores.
Vão almoçar pelos próprios pés.

Regressam empilhados de comprimidos.
Os das injecções já não voltam à rua.
Os outros levantam-se do café, saem.

Adormecem então na inclinação da luz.
Tombam com uma espécie de método.
À tardinha, recolhemos do chão os corpos.



IV

A minha terra tem o cabelo amarelo.
A minha terra é uma louca mansa.
A minha vida partilha pedras com a minha terra.
Águas e ares correm-nos a mim e a ela.
Mãos são taças, o vento com água nas mãos.
Firme é a viagem, trémulo o caminho.



V

Comeremos um pão de lama
enquanto não desistem de nós as vésperas.
Somos um copo de sangue
que não provém do porvir.

Textos:

Caramulo,

entardenoitecer de 13 de Junho de 2007 (I);

manhã de 14 de Junho de 2007 (II);

tarde de 14 de Junho de 2007 (III, IV e V)

13/06/2007

De teus Pés ao Pai

Gérard Castello-Lopes
homenageia
Henri Cartier-Bresson


Dos pés do teu Pai nasce a tua sombra solar.
Vê-lo vivo, sozinho, em ambas as mortes:
a dele, a tua nele.
Adoras o velho, o peso triste dele, ele
cavalo de papelão, embalador de ananases,
perfume macho em tua pilita hereditária.
Amas o teu Pai.
Amas a morte ebúrnea do teu Pai.
Sente-lo nas vielas sentimentais de teus pés,
sem ele já, as mesmas as vielas.
As mãos dele feitas de papel e cifras.
O corpo dele feito de grés.
A educação dele, tão cortesã sem corte,
alfaiate de lágrimas, serralheiro imemorial.
Gostas dele
Sente-lo nos teus cafés neónicos.
Vive-lo, deitado, em pé.
Conta-me tu a mim como ele foi.
Sei como ele se foi.
Não sei como ele foi.
Ainda é?
Diz-me: amas o teu Pai?
Faz um filho, pá, torna-te alfaiate,
repete, aprende, ensina.
A vida é uma menina.

Caramulo, tarde de 12 de Junho de 2007

12/06/2007

Dias Tornam-se Rios

© by Constantine Manos



Dias tornam-se rios negros entre casas e árvores.
Homens e mulheres flutuam naufrágios mudos.
Fazem e desfazem filhos, cefaleias, papéis.
Homens e mulheres são dias e são noites.

Pertenço aos meus rios. Falo contigo
sem ti presente perante: ponte poente.
Ente tremendo de púbis de trigo
que ceifado foi-se a foice, presigo.

Um olho vermelho, outro azul,
a mil dimensões bosquejam o mundo.
Seres ovelham sua mesma tristeza,
a sul o coração calçado de farrapos.

As casas e as árvores casadas no meu peito,
sentem-nos elas desaparecendo no ar,
rejubila a terra de féretros anónimos,
envelhecem as estrelas de duro vidro.

E no entanto é ainda o tempo de vivermos.
Em cervejarias valsamos gargalhadas ferozes.
Cristos meninos rodam cervejas a camelos,
paracetamol e manteiga amaciam a febre.

Que sexuais magoados olhos coelhamos
a ancas de esquadro fendidas a golpe.
Nada nos adianta de nada de ante,
palpitam a bochecho vulvas cor-de-rosa-preta.

Areia colhemos de deditos pèzitos de criança,
velas brancas azulam a espuma dos vivos.
Morrem-nos os mortos esperando-nos,
fios de cera alumiando a longa amorosa espera.

Vivo a inumerável morte da minha vida
sem mariquices nem cacos de tijolo cru.
Tenho boca, olhos, orelhas e cu,
tenho a minha morte de vida servida.

Não é grave. Gosto de ver passar os cães,
carrinhos-de-choque de pulgas e humanidades.
Todos os dias me sinto e sirvo de carnificina,
faço uns telefonemas roucos, espero a Lua.

Em barracas moram filósofos de plástico,
anilhas de lata orelham-lhes canções,
um charco sulfúrico mitiga-lhes filharada,
passo com um recorte de jornal em vez de piça.

A vida é maravilhosa e muito interessante.
Em Paris, por exemplo, putas educadas
americanizam ostras e sovietizam champanhes,
tudo tão curioso, menos nossas estéreis avós.

Portugal anoitece como um cartão de rifas,
zarolhos fatimizam santas da ladeira,
os senhores ministros pulsam colesteróis,
shakespearea-se tremoços e filhas.

Autocarros mamutam pergaminhos operários,
meus versos não dão para táxialuguer,
vou de bossa pedestre como dromedários,
cerveja e camelos e gaja-mulher.

Junto ao rio, perto do caminho-de-ferro,
às três da manhã entre bate-chapas,
sirvo-vos hilariantes fados de loja,
recolho manhãzinha ao berço de gatas.

Militamos fortemente em nossa boca.
Tocamos por vergonha rosas alheias.
Luzitas ladram cegueiras caseiras.
Morrer é viver menos a parte louca.

Olha o valor da primavera, os colégios frios,
olha perder-se um homem em dias e rios,
lagoa-se de fresco a canoa de pau,
ter dinheiro e ter fome e ser bom e ser mau.

Anoitece muito, o cosmos da barriga.
Passam os cães sua surdina diligência.
Eu ando aqui, linha por lenha, lenha por linho,
ouço as ovelhas trágicas, os cómicos carneiros.

Faluas descem a minha cidade botânica.
Pertenço a esse corso dentífrico de almas.
Repetem risos alfarrabistas, os temporais
de meu irríguo coração desaprendedor.

Corto à direita depois de S. Bartolomeu,
cheiro a podridão magnífica das putas-mães.
Baila de madeira caruncha, ateneu,
a dor seca da água, do vinho, dos pães.

Rios nocturnam luas tão solares,
que as terças-feiras domingam segundas.
Dias são tão fundos, noites são tão fundas,
corações em casas e almas em bares.

Caramulo, tarde de 11 de Junho de 2007

11/06/2007

R., R. de R.



Rosto, resto de rosa.
Que(m) de ti se perdeu?
Cara não mais maravilhosa,
apagou-se, feneceu.



Caramulo, manhã de 11 de Junho de 2007

Três Poemas a 10 de Junho

Perro
Foto de Amparo Garrido

I. Dezanove Canções para Cantor sem Lagoa

Observa ainda um rio de um comboio.
Terás um pouco mais de ambos.
Pássaros no chão, homens em telhados:
um pouco mais, ainda.

Luz de domingo coalhada na lagoa.
Florilégios olímpicos, nem em sonhos já.
Um pouco de mundo ’inda fora da cabeça.
Famílias gradeadas em vivendas sem correio.

Pó branco de jactos no céu escrito.
Para ti, em baixo, outras pessoas.
Cães e peixes, papagaios e ananases.
Os teus olhos emoldurados de madeira.

Nenhum mistério primordial, humano.
Só tu sentado na terra cor-de-chá.
Uma parede cega ao sol azul.
E o bosque como um clarão óptico.

Homens de chapéu porcelanam de idade
o chão de pedra da cidade antiga.
Rulotes de farturas fritam a noite.
E cada manhã é louça e calabouço.

Passaritos de plástico cantam a pilhas,
anjos de pedra-de-sabão contam velas.
Velhas senhoras mais velhas filhas
hossanam igrejas e feiras tão belas.

Não. Estás sempre sozinho e puro.
Do rio vejas o comboio.
Do comboio rias o olhar.
Azul e cega, a solitária pureza.

Ouves falar as formigas pessoais.
Quatro pés de cama assentes no mar.
Um quarto caiado de carvão.
A janela lívida como uma dívida.

Crianças da guerra pintainham destroços.
Rostos sem nome em álbuns fotográficos.
Na tarde eterna do domingo acabado,
tu folheias o futuro anterior dos rostos.

Fomes e tifos, coudelarias e ciclones.
Alheias lembranças em teu coração unas.
O sexo passa a logaritmo de almanaque.
Tutana-te os ossos um caldo de vidro.

Pedras de mel, fluviais magnólias,
maçãs devoradas por corvos tantos
quantos os quintais de corvos, maçãs e
magnos rios em mel de pedras.

Sim, por vezes também choves a nascente:
de que gente provirias se não choveras?
Igual iguaria de bocas e dentes,
face símile serás ao que comeras.

Sim. É domingo. Lágrimas de cebola
exsudam o caldo de carne do tempo.
Silenciosos combóiam militares e enfermeiras,
rumo ao porvir final de ontem.

Ainda vigora a substância amniota
de teu mais sentenciado corso: viver.
Encarnado, cabeçudo, roxo, primeiro:
vives um ainda, um pouco mais.

Mais pouco. Viver creditando a vida,
homens de chapéu no chão de pedra,
farturas rechinando avós precoces,
folclores honrando industriais locais.

É sempre o tempo, nunca o dia, sempre.
As tuas mãos com os meus dedos.
Rebanhos sulcados por caligráfica faca,
pastores vestidos de tinta-da-china.

Um pouco da cabeça ’inda fora do mundo.
Absortos museus de mortos eus.
Os verões nus em pregas de luz.
Léu rio ao céu, comboio a fundo.

Vinho do porto em amantes lábios,
sábado à noite, fora daqui.
Cálices doces, impuros e sábios,
nem um é tinido por ela ou por ti.

Escreves muitas canções não brancas.
Ainda é pouco mais não cantar.
Domingo. Sossegam os jactos.
A lagoa tremula, depois escuta.



II. Não Tem Dei, You Are the One

Fazer de velho sem fingir novidade
equivale a translúcido diagonal de bosque.
Ou os que não vivem saudades dos que
noviciam velhos tão novos de idade.

Nem perna nem braço nem olho nem manto
recobrem e cobram preço unitário.
Cada rês tem por si o uno trio calvário,
vinagre e fel, meio cada quanto.

Nunc’amas, não sabes, não sabes, não vês:
mestras são as traves, uma-2-três.

D’idade não vem só sabedoria,
que noite se faz dia, de noite e de dia.

Nada temos nós de nós, tudo é nosso.
(Cãozito lindito, rói, dog, o teu osso.)



III. Não, Nem

Não conta nem da alegria nem de mais alegria
o sossego que só a impotência dá.
É um sossego o comércio que houve no que há.

Gentes se fazem aos mares impessoais.
A docas chegam vacinóides.
Dão cartitas de si humanóides.
Depois transitam portugais.

Flash jack putas e pots.
Nada a ver Serra da Estrela.
Nada é vê-la como bela.
Não conta nem de alegria nem.

Textos:

Caramulo,

tarde e entardenoitecer de domingo,

10 de Junho de 2007

10/06/2007

Comércio, Diferença e Natação

I
Casas comerciais pequenas
abertas por gente pequena,
todas as noites fechadas,
um dia não abrem.
Um óbito, uma emigração,
uma falência, uma desistência.
Não sei, observo, desconheço.
Rapazes de sandálias e mulheres de chinelas
abordam rápido os pontos de venda
ainda abertos.
Cães adormecidos junto a montras
olhadas por crianças mudas.
A vila suporta sua mesma eternidade.
As crianças são de fora, são
filhas de gente que veio procurar
trabalho e casas abandonadas.
Não se faz nenhum filho na vila.
As raparigas vão
para uma das duas
cidades da região,
não voltam a estas ruas.
Ficam lá,
empregam-se lá,
emprenham-se lá,
esquecem e
são esquecidas.



II
Dentro de cada um de nós é diferente.
Dentro, o comércio é intenso.
Os olhos são as montras do bazar da memória.
Autores fátuos alternam-se no mesmo filme.
A vila dissipa-se em baía.
Ar não respiratório faz dançar flores pretas.
Santas dormem sobre lírios brancos.
Astronautas amniotas nautam ventres violados.
Violência e erotismo nas mãos calçadas.
Mais identidade nos pés do que na cabeça.
Pontes altas suspensas no ar.
Lençóis de terra encarnada sobem à tempestade.
Pássaros cantam dentro dos órgãos.
Cães mortos dentro de sacos de papel de padaria.



III
Como nadar de noite no mar ou no rio
é caminhar à sombra das árvores
molhadas de vento fresco e de inerte sol.
O meu corpo sente isso e diz-mo.
Fiz uns quilómetros de carro, deixei-o só
num pátio de cimento guardado por leões de gesso.
Depois caminhei subindo pela sombra do parque,
do lado de fora dessa solidão botânica.
Um nó de vento tomou-me a consciência.
O vento vira as páginas dos dias.
Por mim, caminho muito mais quando paro.
Nos lares domésticos como nos sanatoriais,
as pessoas são vasos florescendo para dentro.
Antes de sair em carro, folheei em casa
fotografias de gente cuja defunção é
tão viva e absurda e real como o
vento amanhã, digo, o vento
procurando corpo no rio ou no mar.



Caramulo,
tardes de 8 (I e II)
e 9 (III)
de Junho de 2007

09/06/2007

Nenhum dos Rostos – III

Retrato de uma Senhora, Apertando as Mãos
Pintura de Fernando Campos
(www.ositiodosdesenhos.blogspot.com)







Na cabana, sonho com o leito seco de um rio.
Tenho a certeza de que o subsolo está pejado de moedas de ouro, mas não escavo. Não desenterro as moedas para não perturbar a memória dos peixes pré-históricos e cegos que segue ondulando no ar enxuto. As margens correm eriçadas de plantas sem chuva, mortas de sede e de espera. Pássaros descem e comem terra e pedras, depois não conseguem voar, arrastam-se pelo leito, vão morrer e eu não posso fazer nada.
Sinto nas costas o olhar dela. Também sinto, com a omnisciência desumana de todo o sonhador, que lhe não verei o rosto se me virar de repente. Se me virar de repente, o olhar dela seguirá apunhalando-me por trás: sem piedade e sem falha. Rodará comigo, esse olhar, se me virar de repente ou devagar: como um paralelo universo inencontrável.
O despertador dispara no boletim de trânsito. Desligo-o e levanto-me. Colada pela barriga à janela, a madrugada do carteiro. O negro azula-se de cinza. Um livor alastra pelo corvo. Nem frio nem calor. Faço café na cafeteira de enroscar. Engulo um triângulo de queijo fundido. Sob a água quente do chuveiro, habito a intemporalidade da ultradimensão. Restos do sonho do rio seco, vergastados pelo chuveiro, somem-se pelo vórtice do ralo. Os objectos emitem sons trocados: a toalha tine como vidro, o sabão raspa como agulha em vinil, o café vaporiza palavras de pessoa velha, a porta do frigorífico declina um chupão de baixo-ventre de mulher quando o homem se solta dela, saciado.
Vou a pé para o trabalho. Somos doze. No gavetão mais baixo da triagem dormem as cartas que foi impossível entregar e devolver. Todos os dias trago uma para casa. Tenho centenas. Nunca abri uma sequer. Quando me reformar, terei para ler até sempre, até nunca mais.
Enquanto não leio, escrevo. Parece-me o mais acertado. Vejo as coisas, registo a mútua indiferença entre a minha vida e as coisas. O mundo é de uma impiedade imparcial, o que me sossega. Não posso ceder um palmo à normalidade: se a pensasse, ela volver-se-ia de todo intolerável.
Intolerável: as crianças enegrecendo de cancro; as cópulas espontâneas nas ruas, no metro, nos autocarros, nos jardins, nas hamburguerias, nas praças, no cais, talvez até na minha cabana; os pássaros, em esquadrilha ordenada e diagonal, falcoando os gatos apavorados; o cozinheiro chinês esquartejando cães à vista dos comedores; a minha Mãe, envergando o manto de cetim azul da Virgem Maria, carregando pelas ruas as tripas do meu Pai; os repórteres de televisão incendiando asilos minutos antes do horário nobre; as cartas abertas por analfabetos; o rio seco enxurrando de novo e para sempre; as estátuas descendo dos pedestais e acometendo de duro bronze o portão do castelo e as sopas-dos-pobres; os polícias recitando poetas; os poetas incitando polícias; electrodomésticos pesados como dívidas caindo de terraços bélicos; órfãos chamando pai e mãe ao mesmo sem-abrigo; transplantes de medula efectuados ao ar livre; fábricas patrocinando teatro; o rosto dela falar-me, na cabana.
Não. Nada disto. Uma vida certinha, antes. Escrever, antes. Para não ser nem enlouquecer. Às duas e meia da tarde, o serviço está feito. Posso derivar entre ordenados escombros – a realidade.

Caramulo, tarde de 24 de Abril de 2007

Nenhum dos Rostos – II


Amanhã é dia de trabalho, mas decido ir ao cinema na mesma.
Entre as cinco e as sete da manhã, separamos a correspondência local. Às sete e uns minutos, vamos comer uma bucha ao tasco das bifanas junto à estação do caminho-de-ferro, voltamos, pegamos no saco de couro e vai cada um para sua zona a entregar. Faltam-me catorze anos para a reforma, de modo que vou ao cinema na mesma.
O filme passou. Era um homem sentado na cama de um quarto de hotel barato e americano. Era um assassino contratado. A luz do reclamo (HOTEL em letras invertidas e na vertical) vermelhejava pulsações no quarto. Isso impedia o homem de estar sempre às escuras. A música que o homem tinha posto a tocar no leitor de cassetes era Paradox, um tema dos anos 50 de Sonny Rollins. Isto sabe-se depois no correr da história. Sempre que ficava sozinho, o homem punha Sonny Rollins em Paradox. Ele era um assassino que estava à perna com um contrato cuja execução lhe saíra meio falhada. Um senador tinha-o mandado executar um rival político. O tiro que o ouvinte de Sonny Rollins lhe deu na cabeça só tinha posto a vítima em coma. No caso de sobreviver, era certo que daria com a língua nos dentes. A partir deste imbróglio, eram as considerações existenciais do pistoleiro. Estar a ficar velho, ser a primeira vez que não matava por causa de uma hesitação, a influência da ruiva espampanante e champanhejante que era amásia da vítima, a raiva virada contra o mandador, o apelo da contrição redentora, a hipótese de suicídio – e saudades de uma cabana de madeira na montanha que era o segredo do frustrado assassino.
Claro que aquela parte da cabana me ficou. Compreendi-o perfeitamente, apesar de ser apenas um carteiro, eu, e não um criminoso de aluguer como ele. Eram onze e dezassete da noite quando saí do cinema, onze e vinte e oito quando entrei em casa, onze e quarenta e três quando me deitei na cabana, onze e quarenta e três quando ela me olhou com aquela branda ironia furta-cores, um lírio de champanhe na mão.
Caramulo, tarde de 22 de Abril de 2007

08/06/2007

Rosário Breve - 3

Hoje,
8 de Junho de 2007,
n'O Ribatejo
mais uma crónica.
Ela Voltou

Ela voltou para mim.
Confesso-vos que, algumas vezes em que me achei mais fraco e delido, muito pressenti não voltar a vê-la. Foram dias esbraseados pela inclemência canicular, noites sulfurosas em que da boca aberta e seca me saía um coração enxuto e fechado. Mas, para minha boa sorte, errei.
Ela voltou esta mesma manhã. Agora é de tarde, quase noite até, e ela permanece. Amo a sua nudez não passível de igreja, o descalabro da sua antiguidade fingindo-se moça, o seu despudor cantante, o cristal líquido dos seus gestos desossados. Ela voltou – e eu olho-a com estes que a terra há-de desidratar.
Acho-a magra. É toda linhas, por e para onde quer que a olhe. Dá a ideia, decerto segura, de ter vivido sempre descalça. Olha de cima as árvores e o traçado das ruas. Ela respira como um pára-quedista: sustendo o coração.
Sei que partirá de novo. E que de novo enfraquecerei, temendo menos a morte do que não voltar a vê-la. Assim seja, pois sempre assim tem sido. E pois que até a senhora do café, à porta do estabelecimento, a olhou longamente, exclamando-me depois: “Bendita chuva!”.

07/06/2007

Cada Um É Mais Um Menos Nenhum - poema para os 33 anos do 25 de Abril

Quatro Decálogos Prosaicos

Valencia
Henri Cartier-Bresson

No vento e nos sonhos falam os mortos.
Calam os vivos em vida.
Isolados e comuns como respirações, vivemos.
Falamos no vento, adormecidos.
Tidos seremos todos em memória tóxica.
Um de nós morre, outro de nós ama.
Na praça de uma cidade, sentei-me num degrau.
O sol fez-me inexistir.
Crianças cegas comiam pães doces.
Não havia vento e nada me sonhava.

Choveu na aldeia quando surgias do lado branco.
O meu coração estava embrulhado num toldo amarelo.
Uma mulher oferecia damascos ao senhor padre.
O vento enrolou a chuva, tornou-a olhos.
A desalegria era uma flor com ombros.
As pessoas faziam menos sombra do que as palavras.
O rosto vermelho da amargura papoilava incenso.
Troquei a memória por um jornal mais antigo.
A rapariga que nasceu na Venezuela servia vinho.
Levaste o lado branco, a noite trouxe um pano preto.

Antes dos mortos todos e de alguns vivos, tive o mar.
Perdi-me depressa por não ser barco.
A vida pôs-se-me a ranger autocarros.
A fita das estradas amarfanhava toda a ida, toda a vida.
Sei que um ser pára em contramão, contra tudo.
Nada favorece um olhar sem fato.
Comecei a frequentar um café de avenida.
As amantes à hora brasileiravam sob candeeiros.
A minha cabeça rodava como um relógio lunar.
Na Lua, há vento e mortos sonhadores.

Os meus vivos, sou a quem pertenço em papel.
Adivinho-os em suas hortas calendárias, absortas, únicas.
Envelhecem até que se parecem com os filhos mortos.
Ouvem a montanha falar, fingem que não.
Assistem à destruição da colina, compram gaiolas.
À mesma hora, no minimercado, tomam café.
Falam de doenças e de auto-estradas, de crimes escritos.
Nunca lhes voltei a cara nem a casa.
Ouço-os falar, finjo que não.
Cego e peço um pão doce.

Caramulo, tarde de 7 de Junho de 2007

06/06/2007

Dentro de Ti



Um rio anoitecido, a nossa vida, tantas vezes.
Algumas palavras apodrecem-nos a alma como canoas.
Derivamos na inconsequência de alguns ódios.
Somos gente que a vida empobrece tanto.

Estou sozinho numa sala sem móveis.
Dentro da cabeça rodam os gonzos da primeira velhice.
Escondo muitas vezes as mãos em papéis amarelos.
Um lápis segue-me, voraz comedor do meu coração.

Sonho muito com comboios vazios.
Acordo para escrevê-los, não consigo.
Adormeço dentro de um poço demasiado humano.
Sou mais um de nós num convosco de ninguéns.

Vê-me tu agora, dentro de ti, onde já morri.
Uma criança de boca azul insulta-me devagar.
No monte, pertenci às cheias de inverno.
Cachorrei anos entre cedros e oliveiras.

Depois, eles começaram a morrer.
Os cães, os rapazes, os limoeiros, o rio.
Refugiei-me dentro de uma biblioteca mortífera.
Escrevi palavras que se rasgavam sozinhas.

Tenho uma lâmpada na boca de peixe.
A sombra toca-me, muito genital.
Fecho os olhos na manhã.
O barqueiro procura-me e lê-me, tantas vezes.



Caramulo, entardenoitecer de 6 de Junho de 2007

Nota Breve

Não sou santo. Sou apenas um homem. Às vezes, excedo-me e chego a ser grosseiro. Acontece-me muitas vezes: sempre que deparo, por exemplo, com a desonestidade.
Herdei dos meus pais e de todos os meus irmãos uma fé inabalável na honestidade. Erro nosso, certamente: porque o mundo é desonesto, é feio, é vil, é histriónico.
Não quero nunca, porém, atingir uma pessoa na sua pessoalidade. Não. O que interessa é ser coerente sempre, afirmando em público o que afirmo em privado. Não sou corporativo. Não mancomuno histerias.
Sou um artista limitado. Vivo das e para as palavras. Todos os dias e todas as noites ando à caça delas. As palavras dos outros também me interessam. Frequento muitos livros, muita poesia, muita história, muito teatro, muita crónica. Não sou melhor do que ninguém.
Não roubo e não me deixo roubar. Se fui excessivo, fui estúpido. Mas há uma coisa nesta questão: tenho toda a razão quanto ao que dei e quanto ao que ajudei. E ter razão não é estúpido. É apenas humano.



Caramulo, tarde de 6 de Junho de 2007

Dicções Radiofónicas

Dançarinos sem peso nem nome nem sombra
habitam o dentro dos meus olhos nocturnos.
Também nocturnas, minhas mãos dançam também.
Sou o triste nº 6752574/B: anulada alma núbil.

As estrelas ardem gelo à pele da água.
Flores de prata são elas, as estrelas.
Palavras de mulheres assim existem em homens.
Perdição e salvação, café sem açúcar, solidão.

Animais correm cegos as veias amantes.
Eles matam e renascem e morrem.
Périplos e lótus anilam o deserto pensativo.
Doenças e licores partilham prateleiras.

Um anel de terra no teu dedo de ouro.
A tua boca cheia do meu sal.
Açafrão amarelando o olhar retrospectivo.
Fotografias falsificadas na luz real dos móveis.

O nosso coração atacado de nós como um sapato.
A luz de Junho chamando crianças às manhãs.
A tristeza das mães mudada em filhos exilados.
Um barco de mármore parado no campo santo.

Topázio, opala, ametista, safira, rubi.
Atum, canário, ganso, mosca, mulher.
Palavra, segmento, anis, rosa, pai.
Somos feitos de relicários não verbais.

Já vos falei da caligrafia de lobos no caderno da neve.
Nunca vos disse da mulher amarela ao ar verde.
A minha música é vossa, não o meu silêncio.
Em comboios vazios me encho de passagem.

Homens quase nus vestem-se de fogo.
Crimes aleatórios organizam o tédio e o terror.
Bolos de morango e cerveja de gengibre além de vidros.
A avó adoece sem nos deixar o dinheiro.

Noivas cor-de-gesso ramificam a espúria laranjeira.
Noivos de alcatrão ventoinham mariposas.
Rubicundos padrinhos cerejam o repasto.
Crianças açucaradas de angelismo voejam.

Toda a montanha é sobre o natural.
Casas ovelham em seu manto de presépio.
A Lua concede-lhes o esquecimento.
A prata faz-se pedra, faz-se olhar.

Salteamos todos cardiológico contrabando.
As tripas nas mãos como colares pobres.
No estômago algum caldo, alguma angústia.
E o fado é menor como a vida.

As mães sabem que os filhos conduzem carros na noite.
Os pais sabem que os filhos os repetem.
Rosas e estrelas partilham néon.
O segredo é ouvir com a pele.

O gás do cosmos canta a lama da terra.
Viajantes sem alma pousam como flores.
São pombas coloridas, essas almas desagravadas.
São os meus versos, são a tua atenção.

De dia pontuamos o mapa da noite.
Sonhamos apeadeiros e barragens.
Acordamos na cama que se nos tornou sósia.
Somos vagarosos e morremos depressa.

Flores de pó ossificam redomas.
Tranças vivas de mortas avós em psychés.
Cantos beduínos e cervejarias às moscas.
Na biblioteca a única vida remanesce viva.

Em nossa casa, os livros esquecem a nossa amnésia.
Em nossa casa, os discos ignoram a nossa surdez.
Somos todos proprietários de coisa nenhuma.
À beira da estrada, os bares da noite abrem-nos a boca.

Alguns gestos escrevem alguns versos.
Algumas almas são ilegíveis.
Alguns nomes são mármore à nascença.
Só o mar não pode ser escrito.

A morte está na nossa agenda mas fora de páginas.
As tias velhas têm poupanças velhas como gatos.
Mas uma manhã no mar pode ser genésica.
Fora de impostos, fora de nações, dentro de cada um.

Somos relicários sem som nem imagem.
Aderimos à cal que o pó disfarça.
Sombras de tílias nos refrescam.
Outro dia nos será ontem. E de noite.



Caramulo, tarde de 5 de Junho de 2007

Diário de Notícias, 6 de Junho de 2007

Meus queridos amigos: leiam hoje o DN, página 51.

Comentários

Activei hoje a moderação de comentários por causa de certos energúmenos/as que gostam de vir aqui fazer ataques pessoais, em vez de comentar o teor artístico e profissional de certos textos.

05/06/2007

Nenhum dos Rostos – I




Deixei de praticar a fisiognomonia durante o raspar da barba por me ter cansado de um rosto que precisa de um espelho para existir.
Tenho, desde então, uma cara, mas não um rosto.
De mim, dir-vos-ão talvez os meus vizinhos que sou um homem solitário e educado. Isto é: um pacato. Ou talvez mais certeiramente: um idiota manso.
Não importa. Nada importa. Nascemos, representamos e morremos. Todo o funeral sepulta um actor.
Foi por ócio que peguei na caneta e abri o caderno. Não espere ninguém que faça ao coração o que fiz ao caderno.
Está a chover, são quatro e um quarto da tarde. Irrelevante, indicar que tarde de que dia de que ano. Há muito que a tarde e a chuva se fundiram no mesmo a-tempo: a minha vida.
Levo a mão à boca e tusso. Expectoro uma pérola de resina tabágica. Olho a pérola. Livro-me dela na barriga da perna da calça esquerda. A mão que levei à boca era a esquerda: escrevo com a direita.
Moro num apartamento indiferente. A cidade é um pouco suja.
Moro num apartamento, mas adormeço na cabana da montanha, fora e longe de tudo isto. Lá fora, os autocarros imobilizam-se em penedos. Os reclamos luminosos sangram na neve. Os meus vizinhos tornam-se lobos e lebres, falcões e veados. Acordo no apartamento.
Não conheço ninguém, só reconheço. Não odeio as pessoas, limito-me a não amá-las.
E não tenho Deus. Uma igreja pejada de gente parece-me mais vazia do que quando vazia de facto. Sigo o meu caminho.
É claro que também os outros (como vós) não têm rosto. Há quem dê a cara, há quem nem isso. Certo: não importa.
E no entanto anoiteço na cabana com um rosto de mulher no ecrã de pensar nela. É rosto de olhos cuja cor varia, corredia e rápida, como a cor do lago ao correr das nuvens tocadas pelo vento.
Parou de chover. Pelo intervalo das letras vermelhas pintadas na montra da hamburgueria, consulto as poças de água da chuva.
Agora: um raio de sol esfaqueia o tecto de nuvens e beija-nos. Arrepiada, a luz envidraça-se toda.
Comi fritos: asas de frango e palitos congelados de batata. Bebi coca-cola. A chuva cercou-me, deixei-me ficar. Abri o caderno.
Não é com o coração que vejo o rosto dela, na noite da cabana. É ela a fitar-me, mais do que eu a ela. Como tanto pode ser mãe como amante, não é nenhuma das duas.
É só uma mulher de caleidoscópicos olhos. Uma branda ironia torce-lhe ao de leve a boca verde. As mamas são de mármore. Do delta sangra tinta azul.

Texto: Caramulo, noite de 21 de Abril de 2007
Fotografia: Caramulo, manhã de 5 de Junho de 2007

04/06/2007

R. C.

Alguns corações respiram no escuro
como árvores na noite.
O meu também.
Algumas vidas são mares.
A minha não.

Aos meus mortos dou a minha gramática.
Ando dentro de bosques registando cristais.
Trago os cristais para os meus mortos.
A minha gramática respira no escuro deles.

Somos três ao balcão.
Sou o terceiro.
Os nossos olhares são oxidados.
Ouço mais do que digo.

Certa tarde, num urinol de café,
um cigano apontou-me à cabeça uma pistola.
Queria vender-ma:
– Estou a brincar contigo, pá, 30 contos, queres?

A minha cabeça anoitece desde manhã.
O meu corpo é uma árvore de sangue.
O meu corpo usa ossos de azulejo.
O meu corpo é um cavalo de madeira.

Os meus mortos tiveram mulheres de que foram.
Vivo-os na minha noite – e no meu licor.
Pertenço-lhes totalmente.
O meu cão amarelo integra-os.

Ainda não sou estrangeiro porque a Mãe vive.
As casas amarelecem como papéis.
Escrevo mortalmente com a vida ao lado.
As ruas reais são o matadouro dos sonhos.

As cidades, cheias de mortos que ficam,
não acodem aos vivos que passam.
Janelas delas lustram o sol.
Nos telhados laca a prata dos gatos.

Estou há muitos anos na floresta.
Mesmo estando ao balcão, sou no bosque.
Os mortos cirandam a dorso de veados.
Fadas malignas envenenam as águas.

Azulejos e cristais tinem dedos vivos.
Fitas de luz no teatro das noites (as minhas, as vossas).
Nós vivemos vinagre, sonhamos azeite.
No pátio, mulheres engordam homens de matança.

Ainda assim, um lago treme o céu frio.
Passam aviões, nós passamos, o poema fica:
respiratório cristal.



Caramulo, tarde de 4 de Junho de 2007

Onze Poemas de Junho

1. Menino perante Ponte

Uma ponte de madeira sobe das frias águas.
Vista de montante, é o traço horizontal do A do rio.
O Outono está completo, amadureceu todo.
Já o Inverno crocita na boca das aves.
Escurece no dia a vegetação dura.
Homens tiram enguias que a mulheres entregam em bacias.
Fumo quebra-se no céu, de brasas ou nuvens.
Não era para ser escrita, esta terra.
Mas este rio é um verso.
Sabões da lua, as pedras assentam anos.
Serei a criança levada pela brisa dos choupos.

Uma só mulher, um só homem.
Um só homem, uma só mulher.
Não pertenço nunca mais a esse condado.
Cá fora, ruidosamente, pastelarias e gasolineiras.
Eu não.
Eu digo A, digo ponte e rio, outono e inverno.
Barquitos na bacia larga branquejam giz.
Comodoros e balzaquianas ingerem gelados e anis.
A cidade imortaliza a mais católica sexualidade.
Uma mulher, muitos homens.
Muitas mulheres, muitos filhos.
Eu já não.

Quando era menino, espelhava-me um lírio branco.
Os outros meninos liriavam também branquejavam.
Homens almoçavam bacalhau e vinho.
Víamo-los trabalhar como animais lúcidos.
Eles morreram, quase não vivem.
Suas mulheres lacteavam o ar em torno.
Uns e outras perfumavam de olhos torrados de luz.

Ainda tomo o comboio, devasso matas ainda.
Toco alheios cães na memória amarela do meu.
Funerais e casamentos frequento, astrónomo.
Tenho pouco tempo por tê-lo todo.
À sombra, a música diz-me recados.
Músicas, tempos, rios: tudo versos.

Fita taludada de areia, cabeleira de ervas.
À direita, a vala de enguias e limos.
À esquerda, a cinemateca hortelã do campo.
Mais longe, a fixação crepuscular.
A meio termo, a partitura das aves negras.
No saco, comida e agendas pretéritas.
Os pés na água, os olhos na água.
Menino, eu possuía o A do rio com ponte.
Eram as letras para trocar a vida, como trocaram.



2. Mercado

Vendedores de ananases à sombra apelam
a marchantes senhoras de cestos correctos.
Ovelhas abelhas s’enqueijam se melam
e cães mijam baixo obras de arquitectos.

Peituda leiteira divulga broinhas.
Anémica moça consagra morangos.
Solteiros penteiam a óleo franjinhas.
Solteiras s’avacam as ancas fandangos.

Cego acordeonista valseia tostões.
Fiscal de barracas aceita um portinho.
A Maria é vaca, o Zé é boizinho.
Mercados e feiras, culturas, nações.



3. Haja Quem Qu’Eu Não

Num relance à tardinha talvez apareça
um grupo de gente de que uma mocinha
o peito rijito a saia curtinha
te converse e verse e a alma apeteça.

Isso pode ser maior vez não é
o mais são casais pregados à vez
que cansados dizem vamos ao chinês
hambúrguer ou pizza ou ao mais ao pé.

Cansaço. De tudo. Todos tão cansados.
Vez ao karaoke, hip-hop e fados.
Ter casa certinha, lençol de flanela.
Cuspir toda fora a bílis amarela.

É a gaja certinha ’fessora primária
casada co’ agente senhor vereador
é a fêmea porcina porca alimária
que assusta a cria e o tratador.

O gajito-cocó que usa chavelhos
mas doutor doutóra rotundas a cem
do pai já despega os mesmos pentelhos
colados a cuspo às costas da mãe.

Não. Eu não uso. Se for à tardinha
estou fora, não vou, q’s’a’foda a mocinha.



4. Lenta Certidão

Pessoas há que são
de si mesmas a lenta certidão
de pessoas.
Conheço-as:
são boas.
Muitas vezes um casaco castanho
de mim penduro
para ser como elas
gajo pensado, pensativo e maduro.
Nem sempre dá.
Envergar vestes nem tudo cobre.
Lentidões, hábitos, esperanças, bem
isso habitua o mundo velho ao corpo
novo que, como ele, envelhece, ruas,
como ele, não passa.
Vezes há em que a minha boca sorria?
Sim há, de alegria, perante a poesia.
No mais, não.
Táxis edulcoram a viagem diabética.
A escaganifobética sem marido
coça em plena praça seu prurido
e diz-se católica, académica e global.
Porra – está mal.
Eu digo: nem sempre me acode a temperança.
Num antigo salão de putas havia dança.
Mulheres-violetas alfazemavam
o cheiro a couro d’entrefolho que conavam.
Machos perucados a elas acudiam
rezando a esmo putas os pariam.
Triste, célebre, azul mundo negro.
Eu descia, adolescente, rés do Mondego.
Acudiam-me amarelações: Sérgio, Camões.
Aprendi – e fui triste.
’inda hoje desenvolvo
manigâncias de versos
óctuplos de polvo.
Espera.
Espera agora.
Eu digo.
Levantam ao vento as saias as árvores.
A tez amarela da tarde alaranja.
Passa a menina de chita de franja.
L’além dos muros há nomes em mármores.
Sou o rapaz da hora.
Acresce-me a importância trabalhosa da memória.
Amo dois homens que não respiram.
Eles amam-me também – e isso anoitece.
Espera.
Espera agora.
Eu digo.
Do aparato ominoso
adivinham os livros
as pessoas que vão ter.
Isto é um trabalho.
Vejo vivos oficiais de seu ofício, viver.
Topo cobardes, cabos, sargentos: não
vivem, espreitam.
Não.
Eu consulto pessoas.
Toda essa língua entrada nos livros gordos.
Os alemães, os ingleses.
Os belgas, os suíços.
Eu espreito.
Espera.
Espera agora.
Eu ouço.



5. Flor e Cultura

Não cresce do corpo a luz da flor definitiva.
Terminal cresce a outra, flor ela também.
Contavas que fosse uma flor rediviva.
Uma outra pode tê-la sido também.

São canteiros. São dias sem berma.
Um gajo não pede p’ra ser hortelão.
No fundo, amor, desamor e esperma.
E nasce um gajo de pai e de mãe.



6. Difícil Entendimento

As grandes árvores do largo dançam ao vento.
Bonitas, indiferentes – como putas de borla.
Crianças e acordeões à sombra delas anos.
Chove sem elas, queixa-se a pedra do chão.

Isto é o mais difícil entendimento, o largo.
Retornados de África não podem com versos.
A mais, da Bélgica chegam corações separados.
A chuva depende dos limpa-pára-brisas.



7. Monarquia Sanatória sem mais História

Fala devagar o velho entristecido pela falta de perna.
Cortaram-lha aos 19, ele tem 66.
A memória é um joelho, a fala é um sebo.
Meninas princesas, filhinhas de reis.



8. Uma Quadra Científica

Não de todo me deu ainda a tristeza óssea de meu Pai.
Suas imagens passadas sim, deram-me, mas outras.
Penso hoje que um cabrão normal não é filho.
Também não é pai, é só uma sala de projecção.



9. Outra

A gente vai, a gente volta.
Remanso único é a coberta.
O Povo não dá de revolta
uma alma só que seja aberta.



10. Redução

Não vem da vida nada para viver fora.
Dos sonhos vem, mas tal cura a luz.
Nós dizemos muito – Queremos ir embora,
mas fora não dá, que dentro reduz.



11. Quatro

Uma pessoa morrer antes de ser a morte?
Dizer ela o número antes da lotaria?
Dizer ela azar antes de ser a sorte?
Trocar a tristeza por pura alegria?



Caramulo, tarde de 3 de Junho de 2007

03/06/2007

ACERTei-lhe o passo, ah pois ACERTei...

Não era minha intenção voltar a este assunto escuro, triste e sujo.
Volto porque me chamaram há minutos a atenção para duas "notas" constantes do sítio da ACERT (uma da Casa, outra do senhor José Rui Martins) acerca do meu "crime" relativamente ao "Andar das Nuvens".
Quem quiser ir ler, pois que o faça.
Termino e determino definitivamente a questão enumerando alguns pontos:

1 - O senhor José Rui Martins é, artisticamente falando, um deficiente.
2- O senhor José Rui Martins pensou que podia apropriar-se do meu trabalho.
3- O escritor Mario Lamo Jiménez nem sequer me conhecia. Pensou que o senhor José Rui Martins era (não é) um "mago", um "pescador".
4- Fiz-lhe todas as canções bem feitinhas e num instantinho. Editei-lhe as falas. Rasurei-lhe a ortografia. Pu-lo a escrever (por ditado) como gente grande. Falei-lhe do Belenenses. Disse-lhe que os livros também são uma coisa boa.
5- O senhor José Rui Martins é, artisticamente falando, um falso.
6- A comunicação social não caluniou nem o senhor José Rui Martins nem a ACERT. Disse o que eu pensava e disse as "maroscas" dele.
7- Nunca mais o senhor José Rui Martins vai poder contar com o que sei e com o que posso. O nível do senhor José Rui Martins é Possidónio Cachapa.
8- No decurso da minha colaboração com a ACERT, fui proporcionando-lhe gramática, modéstia, ortografia, lirismo, inovação, ângulo, aventura e, até, café e cigarros. O senhor José Rui Martins aproveitou sobremaneira o café e os cigarros. Ao resto, foi, é e será impermeável.

Concluo com isto: o meu blog e os meus livros são dos seus leitores. As canções que fiz para Mario Lamo são para Mario Lamo. Vou continuar vivo, leitor e criador. Vou continuar sem o senhor José Rui Martins por uma questão de:

a) saúde
b) vergonha
c) misericórdia
d) café e cigarros.




Caramulo, tarde de 3 de Junho de 2007

02/06/2007

Outras Palavras mas Estas

1
Na hora cinza junto ao parque homens doentes.
Também a pouca brisa um pouco febril.
O batimento dos corpos lanceta gelo.
Medicamentam o coração com ácido mole.

Esta é uma passagem para o outro lado.
O outro lado espera-nos e compõe-se-nos.
No parque as veias caminhantes ensombram.
Andorinhas e cães torneiam alamedas.

Palavras certas teriam acertado a vida.
As noites recataram todo o erro.
Muitos anos até aqui poucos.
Poucos anos a partir daqui.

Focinhamos na própria baba nós eles.
De candeeiros arde um nada de ouro.
Máquinas paradas pensam frias.
Uma mulher penteia um vaso.

Também noutra vida fui só feliz.
Leio relatos de crimes sem castigo.
Sou surpreendido por novas disposições.
Tenho um corpo que entristece autónomo.

Escadarias para ninguém juncam erva.
Águas pulsam relógios sobre pedras.
Hortos desenham comida verde.
De uma chaminé um dedo de fumo.

A cara deste homem na minha mão.
Este morto educado despindo-se no escuro.
Pão antigo igual a madeira ao ar.
As horas iguais como frascos tóxicos.

As pétalas iguais como horas.
Na carrinha do carvão a pá cravada.
Desejo outras palavras mas estas são.
Oliveiras e faias ondulam fundo.

Salas povoadas de insectos prisioneiros.
Noção de pessoas perdidas em casa.
Alimentos ensacados no bojo de aviões.
Polícias sozinhos mirando montras gradeadas.

Homens doentes envoltos na mantilha da lua.
Fantasmas de raparigas de meio século.
Uma cancela quebrada segura a pedra.
Não batem os corpos o gelo adormece.



2
A nossa vida será de outros.
Temos quando muito uma temperatura.
Desdizemos nosso mesmo corpo.
A cabeça do coração na garganta.




Caramulo, entardenoitecer de 2 de Junho de 2007

Dois Nomes para o Mármore



Agora é a noite.
Dois dias andei com ela na cabeça.
Parece uma mulher grande e fria.
Não a minha, filho, não a tua mãe.
Isto deve ter sido há anos.
Eu devo não estar vivo.
Recordo um rio, o rio fugia, era o campo.
O campo era sangrado por uma vala.
Ajuda-me a recordar, filho.
Tens de esperar mais.
Quanto menos a vida, tens.
Tu vais ser também isto.

Eu vou ser também isso.
Agora é a noite.
Da outra banda, casas e álamos.
Recolhem tarde o cavalo.
Uma mulher canta.
A prata vibra.
O nome do meu pai, uma folha no chão.
Não estou assustado.
Depois há baile, eles chamam.
Eu vou, eu estou a ir.

Eu voltava pelas vielas, meu filho.
Fritavam peixe, atiravam bacias de água.
As alpercatas apodreciam os pés.
Bebíamos água de limos.
Cada tarde chovia um novembro todo.
As mulheres rezavam e batiam.
Eu tocava de longe as rosas.
A vida já não era comigo.

Oh pai, não, eu saio.
Há um sítio de madeira, luz sobre o balcão.
Vêm outros, trazem falas universais.
Eles deixam estar.
Todo o dia contei folhas, pedras.
Aqui não conto nada.

Não é já comigo.
Eu não sou.
Faço parte de outra maneira.
Não é o amor, nem a poesia.
Não há música.
Há barcos carregados de nomes de mármore.
A lua e a cabeça.

As mulheres guardavam tranças.
As mortas lavam-lhes as tranças.
Elas fechavam-nas em papel vegetal.
As crianças encontravam o cabelo.
A trança, serpente mental, mortal.
Naftalina, alfazema, sangue, cera.
Os cheiros faziam magia.
Toda a gente pronta.
Um de cada vez, uma de cada vez.

Queremos ser outros.
Chove no adro, cortaram o chorão.
O ferreiro é viúvo, o filho rouba.
Eu não roubo, pai, eu sei-te.

Se eu te disser não, filho.
Nada te digo, tens de ser tu.
Tu hás-de vir, suprirás a semente.
Olha essas casas vazias.
Como as devassa o vento azul.
O vento é negro.
Macera os espargos, esvazia os caracóis.
Os cães fogem, cálcias pianolas.
Não te deixei a fome.

Deixaste, pai.
Eu saio sempre à noite, é sempre noite.
Eu conto as árvores.
Candeeiros frios fritam a respiração.
Vejo peixes voadores, desejo café.
Outros homens saem.
Uma tabuleta de ferro gane como um cão.
Este tem a filha em Lisboa.
Eu queria chá, que fizesses lume.

Não há madeira, filho.
Tudo é pedra.
Não tenho mãos.
Sou uma das tuas palavras.
Tu tens frio, eu sou o frio.
Sou o lobo, sou a roupa dos velhos.
Sou a cruz da igreja, sou ter sido homem.
Tu vens.

Eu sou mais e estou menos.
Vinte anos, agora, anoitece e é-se.
Não preciso do meu corpo para te constar.
Entristeci junto a mulheres que gritavam.
Elas pariam e gritavam, fiz versos.
Depois era antes, já me disseram.
Os meus gestos envelhecem.
Treme-me a direita mais do que a esquerda.

Sim, vens vindo.
Esferas, pó de giz, anos-décadas.
Sapatos, retratos, simbiose.
Eu toquei, tu tocas, longe, as rosas.
Não é morrer, é ter sido, filho.
General, bandoleiro, pintor, serpente, pai.

Um homem escreveu um livro, pai.
Tenho ali o livro.
Está muito frio, o sol não oficiou.
Estrelas iguais forram o chão.
Não é o medo, não é a tristeza.
Tenho um homem dentro da rua.
Deveria ter trazido uma camisola.
Também já não procuro.

E no entanto tu amas.
Pouca graça tem isso.
Derrubam casarios, levantam cercas.
Erigem grandes mercearias de luz.
Cegam de electricidade as azinhagas.
Envenenam o azeite.
Dir-me-ás na morte, não antes.

Sim.
Tenho algum tempo.
Uma febre fresca sitia-me sempre.
Sou o teu filho, pai da minha sombra.
Eu não tenho medo.
As palavras vieram contigo.
Tu entre elas, uma delas.
A tua pele muito branca.
A apedrejada pureza do teu olhar.
A mansidão da tua dor não hemistíquia.

Filho, tuas segundas-feiras são sábados.
Vi-te sair da baba do amor para as facas.
Recolheste cantores, sentaste-te no monte.
Os cães rondavam, pressurosos como mordomos.
A tua tristeza é genética.

Não, eu vou.
Não estou a discutir isto.
A noite azul tomou-me.
Ainda trabalho como um pássaro.
Ainda não desisti como um pássaro.
A lua na avenida, o comboio que dorme.
O sangue na minha cabeça.
Sou a criança que fala.

Oh eu sei, sempre soube.
Eu pintava a água a água.
O meu canto era de uma solidão como um cacto.
Não é possível passar isso.
A língua e o desenho existem fora de nós.
Arrefecem os pés dentro da areia.
Fulgimos em dor na ardência do vidro.
Depois não.

Cai a noite, pai.
Subimos para a noite.

Subimos para a noite.
Dois dias.
Cai a noite, filho.



Caramulo, entardenoitecer de 1 de Junho de 2007

01/06/2007

Beber do Chão



Uma cancela de ferro sob um arco de alvenaria.
Para lá, um pátio de pedra e terra com feixes de erva.
Choveu alguma coisa, há poças de água.

Animais crepusculares respiram nas bocas de sombra.
Uma luz de azeite sentinela a parede mais alta do pátio.
Uma mulher mexe-se à frente do lume.

Estou calado, calada está a faca no meu bolso.
Tenho sede, devo ter sangrado, olho o chão.
Baixo-me e bebo de um olho aberto pela chuva.

Esperarei ainda. Não fugirei mais.
O último sino fecha a aldeia, eleva a montanha.
Nenhum de nós dois viverá para contar.



Caramulo, tarde de 1 de Junho de 2007

Algumas Coisas Pequenas

Nem sempre facilito ao corpo a vida.
Não sinto o terror dele, o terror dela.
Estou por fora, penso noutras coisas.
Um braço de lago entra ervas, longo.

Não me engano mais, preciso de ar.
Estão aí as palavras todas, outra vida.
Devagar como um pássaro velho, digo.
Uma capela de luz doura o parque.

Há alimentos em casa, atendedores.
A roupa lavada dorme de fresco.
Os passados encaracolam o pouco futuro.
Digo muito menos que sim.

Não é tanta, a tristeza morna.
Sei que me preparo.
Tabacarias, bicicletas, páginas, pão.
Este era o meu mundo, amanhã.

Um pouco de fruta, alguns lápis.
O desamor tranquilo da televisão.
Um contido desprezo pela gentalha.
A assiduidade dos cães de rua.

Nenhuma sexualidade lírica.
Nada disso, sossego e mercearia.
Uma volta pela cidade alheia, gelada.
Um tasco de sopas e bifanas.

Um jornal estrangeiro, dois bocejos.
Algumas frases com o homem das plantas.
Ele sobe oliveiras com a palavra terrena.
Ele conta-me pessoas, datas, espanhas.

Guardo em casa cantores.
Às vezes, no dia frio, uma fita de sol.
Uma chávena de caldo de galinha.
Rumores labirínticos na madeira móvel.

Outras vezes, quatro da manhã, sozinho.
Mármore e veias, olhos mansos, mãos.
Na sala, entre papéis e jarros.
Muitas frases não adormecidas.

Estou a ir, sei-o tão bem.
Conheço esta transparência.
Era menino, construía coisas pequenas.
Passeio por pedras, guardo folhas.

A alegria, a alegria, inencontrável.
Esta força autónoma na couve cerebral.
A terrível beleza da manhã.
Estou calado dentro do aquário.

Fantasmas nomeiam-se com gentileza.
Um amigo diz que foi a um travesti brasileiro.
Ao lado da estação de comboios, o outono.
As mãos envelhecendo no inverno.

Pessoas que dançam dinheiro.
Na minha cidade, o bolor e o comércio.
A minha vida, fora de mim.
Eu mais perto, ela olhando-me.



Caramulo, manhã de 1 de Junho de 2007

Rosário Breve - 2

Hoje, na página 56 de O Ribatejo
(em papel e em www.oribatejo.pt,
a segunda crónica de Rosário Breve)





Ao Espelho



Às vezes, raspando a barba, sinto-me tal qual o leitor deste semanário: como se houvera chegado à última página.
Todo o espelho é um lago cruel: por ser tão sóbrio e tão vertical. Sou, no entanto, um sobrevivente profissional – viver, é o que mais faço. Só ainda não morri por manifesto excesso de tempo. Suponho que isso seja bom.
Tudo isto deriva, como um barco à vela, do vento do corpo enrugando as águas do tal lago: a consciência. E também isso suponho que bom seja.
Não tenho todo o tempo do mundo. Tenho, porém, todo o mundo que o tempo me dá: a solteirona que amarga, manhãzinha cedo, o galão; o velho mediador de seguros que disfarça a indisfarçável calva colando, à força de laca de mulher, a rala farripa de orelha a orelha; a rapariga que chora rosas materiais quando se lembra que não é possível esquecer; e o poeta que entristece sem mãos nem dentes como os putos que aprendem a cair de bicicleta.
Minha Mãe, tornada naperon entre retratos viúvos, aguarda os próximos natais com a mesma invencível ansiedade das púberes que dão beijos de língua nas mútuas festinhas de aniversário. Vale-me que ela me não sabe cronista de última página.
Tirando isto, só se fossem o aquecimento global e o arrefecimento da globalização. Tais assuntos, no entanto, não me acodem enquanto a gilete faz à espuma o que a consciência faz ao corpo, não à beira mas dentro do lago da página 56.

Canzoada Assaltante