20/01/2009

Segunda Passagem / Terceira Passagem

Segunda Passagem



Casa, Souto, tarde de 19 de Janeiro de 2009




Quanto temos – é quanto nos basta:
os olhos dos animais, portais astrais
que explicam a terra e a vida e a passagem.

Hoje, quantas vezes a nossa vida como se vivida
em outra vida,
além de ontem, para lá do que é fragor e passagem.

Nos olhos dos animais os vestidos vermelhos das mulheres.
Verificar isso sem problema nem solução, só passagem.

As crianças todas líquidas nos olhos dos animais.
E portas tão altas, que devemos chamar-lhes janelas
noutra língua, idioma que sobrepassa dentro dos pais.

Temos, os filhos, os filhos e este casaco, esta cafeteira,
este cesto de limões, esta colcha de embrulhar avós,
os mapas siderais em musgo pelas paredes,
pelos olhos dos animais.

Somos a passagem – agora a temos de ser, com a licença
de nossos pais.



Terceira Passagem




Pombal, tarde e noite de 19 de Janeiro de 2009



Sento-me e recordo-lhe as mãos.
Eram, digo, um par de coisas outonais.
Não eram mapas do futuro, eram madeira outonal.

As mãos antecipavam esse homem recordado.
Um arroio pulsava perto, emoldurado de arvoredo.
Ido tempo – e homem ido.

No pátio, o vento falava no pessegueiro.
Patos, pombos, cães, gatos, pardais – tudo nos olhava,
do profundo além líquido da Criação,
a esse homem e a mim, que começava
para que ele pudesse acabar.

Estou sentado num dos veios da tarde.
A noite mana já da cabeça, esta flor escura.
Estou a ver-lhe as mãos, a vê-lo nestas.
Outono-me sem dor nem recado.
Lanço as minhas redes às águas cantoras
muito frias.
Espero para trás.

******

Os calcanhares do coração roídos pelo relógio
– também fazem parte dos corpos,
os sentados como os recordados.
E o que faz parte nunca parte.

Sento-me perto dessas mãos de novo vivas:
de novo vivas para que eu possa ser antigo.
Vejo-as que tocam papéis de Paris, do Rio de Janeiro, de Londres,
de Coimbra.
Vejo-as de penar.
Vejo-as de pensar.
Vejo-as pensar a vida fora do corpo que antecipam:
formosas estrelas, cabeças de ouro, couro, ossos:
ajuntadoras de destroços.

Eu agora também recomponho papéis: liceu, aniversários,
fotocópias de Pierre Nordon sobre Conan Doyle, fadas e banshees,
anjos e motociclistas, hagiografias e gliptognosias,
transparências cromadas à maneira da oftalmologia infantil,
recordação de mãos que trocam de esquerda e direita
em espelho:
estas minhas já nas dele, quando ele.

(E em tudo isto, naturalmente, claramente,
o mais puro amor murmura.)

(E o coração faz-se rola – e arrulha
o mais puro amor.)

Vejo tais mãos de aqui,
aqui sentado.
Celebro (como elas celebraram) a glória humilde dos animais.
O vento no pessegueiro, nos álamos, nos robles, nas oliveiras.
Patrocino a espera, a demora – e nem ânsia uso já, mas
demora e espera.

******

Pulsar de estrelas concatenadas em vísceras:
nutrição e passagem.
Fogo e trabalho – de tudo as mãos do homem são capazes.
Água e fadiga – de tudo as mãos do homem são capazes.
Capazes, rapazes.

Febris, às vezes, as mãos que de um homem,
num homem,
amei.

Eu a querê-lo vivo
manualmente.

Pulsar.

******

Sento-me num qualquer aqui igual ao do leitor.
Falo do pai profundo do leitor.
Falo dessa morte patriparticular que tocou o leitor.
Falo de um leitor de cassetes em barraca de feira
franca,
francamente
– mas sem paternalismos.

Invoco a begónia e a gardénia,
a estónia & a eslovénia.
Convoco os moços-filhos ao mato da recordação manual.
Aleijo um limão pelo lado do sangue transparente:
e o amor me assiste tão em limão quão em lesão.

Homem que ama homem.
Duas mãos quatro.
Portanto oito.

******

Mãos que mudam o outono da direita para a esquerda.
Duplos pentagramas de unhas tristes e limpas: mãos para
um catecismo de filhos sem o embuste de Deus, mãos para
um danúbi’azul só por branca recordação, mãos para
o filho.

(Agraciaram objectos-despojos-destroços, vivos hoj’inda:
cotos de lápis, pagelas, páginas de guarda, centenários
como o do Irmão Doutor Elysio de Moura, do Professor Karma
(o que casou com a cigana dos fados),
da Mansa Puta que nos Pariu a Todos
por-cristo-com-cristo-em-cristo,
a todos e a rodos: as mãos dele agraciaram-me os objectos
perdidos, naturalmente perdidos – e
secos e molhados.)

Mãos que (se não) mudam.

O tempo-térmita toca, fura, rói, escava e dói.
Não, espera!
Não tem de doer.
Diz:

******

Era então amanhã, isto de amar mãos.
Mapas afinal do futuro enfim.
Coisas outonais (como os olhos dos animais).
Estrelas de pau, ossos de pão, pato & pombo & gato & pardal
& cão.

Extensões siderais da terrena natura.
Mãos caligráficas, redentoras, tristíssimas e branquíssimas:
mãos de pão & pau & pai.
Era então amanhã que as recordava,
agora enterradas em lama,
seccionadoras de begónias & gardénias,
tontas e bonitas, estelares, funâmbulas,
coisas recordadas em meu assentamento assentido,
sentado.

A última luz sobe chuva até órgãos de igreja.
Canora é a toalha de água ligadora de céu & terra.
Um pai, um filho (mas não fiz rapazes,
Pai),
(canora na mesma,
filho).

18h55 de uma tarde indiferente ao senhor,
por graça e glória.

(A gente às vezes está entre homens e pensa no pai
mas não diz nada, coisa outonal entre coisas
outonais.)

Mas mãos caligráficas
escrevendo por estas.

18/01/2009

Livro novo de Nuno Dempster

Notícia que aprendo em - http://esquerda-da-virgula.blogspot.com/

Viu a luz na segunda quinzena de Dezembro, por iniciativa da Edições Sempre-em-Pé. Com 290 páginas e 216 poemas revistos, engloba toda a minha produção poética de dez anos, de Março de 1998 a Fevereiro de 2008, tendo rejeitado o que, não constando do livro, foi porém dado a ler neste meio até final do dito mês de Fevereiro.
Cessada a azáfama das vendas de Natal, a editora prevê que até ao fim de Janeiro esteja nas livrarias, sobretudo do Porto e de Lisboa, a seguir em outras cidades e desde já na própria editora online.
Deixo o poema de abertura:
ÍTACA

Quando partires, em direcção a Ítaca,
que a tua jornada seja longa (...)

Konstantinos Kavafis


Se ao longe imaginares Ítaca,
que não te dê saudades.
Uma ilha é um monte sem caminhos.
Descansam nela as aves migratórias,
e a gente que a povoa
gasta o tempo a sonhar aonde irão
as aves no seu alto voo
quando partirem.
E sobretudo Ulisses há-de
segui-las com os olhos,
lembrando-se de Circe.
O azul, digo-te, é uma cor volúvel,
e o céu e o mar são só desertos.

Tim Buckley cantando para a Sereia

Nenhum Há-de Escapar

Pombal e Charneca, noite de 16 e madrugada de 17 de Janeiro de 2009





Habitam os espelhos como os animais, os campos.
Dominam o olhar como as águias, as montanhas.
Fluem a atenção como os barcos, os mares.

Os mortos.

Temem os espelhos como os infelizes, os rios.
Cegam a boca como as mães, os filhos.
Exilam o corpo como as montanhas, as águias.

Os vivos.

Medina Carreira sem papas na língua

O meu amigo King George chamou-me a atenção para isto. É de facto algo a reter e a não perder: http://sic.aeiou.pt/online/video/informacao/Nos+Por+Ca/2009/1/istoeumafantochada.htm

15/01/2009

Uma crónica e uma coisa que mete caras

© Rebecca Lepkoff
Untitled, New York, circa 1948



Momento grave com amor
Rosário Breve nº 86, in O Ribatejo (www.oribatejo.pt) de 16 de Janeiro de 2009



Às seis da tarde, já noite, costumo ir amar a Pátria para um café sossegado entre praças esvaziadas pelo frio e pela economia. Fico ali coisa de uma hora a ser o contrário do mar: não faço ondas nem devolvo náufragos.
Dá-se a combustão espontânea do tempo, faz-se hora de ir radiofonar, pago e desando.
No trajecto entre o café e o estúdio, assisto à exposição permanente e universal do meu pequeno e não admirável mundo: o cabelo no chão do salão de cabeleireiro, a luz da farmácia como um clarão glauco, o erro de acentuação na placa de um solicitador, a melancolia aritmética da mini-mulher da caixa-mercado, a demanda esfregona na padaria que encerra, os polícias tão parecidos com pombos e os pombos tão parecidos com polícias, as crianças prisioneiras nos bancos de trás dos carros, o fulgor frio das letras que escrevem HOTEL a néon no céu nocturno e o frio fulgor da estação ferroviária, essa intransigente metáfora da vida que passa a ferros.
Às nove, saio do ar e sou devolvido sem apelo à terra, onde se me impõem a escolta do frio e as algemas da economia. É um momento grave. Na churrasqueira da viela, operários sem mulher e bancários divorciados autopsiam meios frangos. Passa quase sempre uma ambulância, mas calada e escura como um carro funerário. Algum cão publica um mijo convulso num rodapé de palmeira. Ciganos fordtransitam espreit’enviesando os polícias columbinos. Não se vê praticamente mais ninguém desde 1143. Então, zipo-me da zona viril à maçã-de-Adão, fecho a cabeça num carapuço que vos garante que I Love NY e decido-me por uma libação no bufete da associação recreativa menos próxima do coração e mais parecida com a Pátria.



******


Recebo na Cara Rostos
Pombal, noite de 14 de Janeiro de 2009

Recebo na cara rostos.
Vêm de frente em galeria rápida, como quando se anda de encontro, não ao encontro.
Recebo-os na cara em água, saem-me pela nuca.
Nunca me volto para trás por suspeitar que eles continuam rostos não voltados, nas minhas costas.

Esta noite, cedo ainda, subindo a avenida na graça do frio, conferi as árvores envernizadas de chuva, que durou a tarde mas não sobreviveu ao crepúsculo.
O ar era esmalte endurecido, custando-me quase tanto o respirar quanto o viver.
Conferi também a nitidez das trevas, uma espécie de claridade, como direi?, desumana, como se minha e nossa fosse a culpa dos reclamos eléctricos.

Não fui à estação ver quem espera comboios, nem quem vem ver quem espera.
Também não entrei na Senhora da Matrix a pedir por quem precisa.
Praticamente não fiz nada hoje.
Recebi rostos na cara – mas isso não é fazer, é ser, é só deixar-me ser, só.

Os velhos andam mais macambúzios que de costume.
O frio enxotou-os do parque.
Agora, como desde que nasceram, não sabem que hão-de fazer à vida.
(Suspeito de que também eles recebem na cara.)

Mais tarde, fez-se agora.
Uma orquestra desarruma partituras no coreto da cabeça.
Lavaram o mercado do peixe à mangueirada, cheira na rua a rio baixo, a peixes invisíveis.
Tenho um saco de pele com ossos dentro, dentro onde os músicos desarrumam peixes.

Não tenho algo que favorecera o não pensar o pensar.
O pensar pensa-se (mal) como o sentir se sente (mal).
Não tenho a máquina de pensar bem para me sentir melhor.
Falta-me um bocado de aeronáutica e outro tanto de fitocultura.
Não me falta tempo – curiosamente, nunca me faltou tempo, sequer para a frente (que me lembre, pelo menos).
Recebo na cara rostos.

Vi tantas coisas.
Vi-as mal porque as pensei.
Vi o menino juntando água na fonte.
Vi um homem atrasado para o trabalho, era de cabeça cor-de-ferrugem-de-cenoura.
Vi um cão a ser feliz sem pensar nisso.
Vi um perfil de comboio carregado de perfis de gente passageira (como toda a gente todo o tempo passa).
Vi a anáfora recorrente da tristeza.
Coração, vi o anacoluto do coração.
Vi o merceeiro descansar um pouco, sentado em caixas de ananases.
Vi uma mulher tomar vinho como uma sacerdotisa andrajosa.
Vi a capa do livro de Edmondo de Amicis em que há 40 anos aprendi o que significa andrajoso.
Vi rostos vindo, viandas de luz andarilha vindo,
indo-me
embora pela nuca.

14/01/2009

Ronda Columbina, 14 de Janeiro de 2009

A Ronda Columbina de hoje, por ser 4ª-feira, vai para o ar entre as 19 e as 21hoo.
Em 87.6 FM e/ou www.radiocardal.com (emissão online).

Contempla gente e som como:

Regina Spektor (ver e ouvir em baixo, duas entradas antes desta),
Jeremías,
Cocteau Twins,
Billie Holiday,
Dee Dee Bridgewater,
Sérgio Godinho,
Archie Shepp Quartet,
Kátia Guerreiro,
Shirley Bassey & The Propeller Heads,
Jethro Tull (a partir de tema de Bach),
Tito Paris,
Luísa Basto,
António Calvário,
Frankie Miller,
Yaël Naïm,
Paul Simon
e
Paul McCartney.

Bem-vindo/as à Ronda.

Por Falar Nisto

Casa, Souto, 12 a 14 de Janeiro de 2009

Temos de falar nisto de uma vez por todas.
Um corpo que pensa noutro corpo com uma alegria furiosa.
Um desarranjo da estrada, uma turvação do tráfico, o amor.
Uma balbúrdia.
Dinheiro para a recepção do hotel, um casaco castanho, um volume
da Agatha ou do Simenon para ler enquanto não vens de uma vez por todas.

Dizer em voz alta assim:

– Estás hoje tão bonita todos os dias.
– O que tu queres, sei eu.
– Mas no corpo da minha mulher eu amo o mar ser de ondas.
– Senhora, que guardas em casa que me possas mostrar?
– No armário tenho oiro que é o azeite do altar.
– Em casa vais, senhora, algum dia me guardar?
– Os ossos te guardarei na terra do meu olhar.


Ou então:

Que fogo e água se conjurem em vista e boca
tal que a bruma de sonhos ferva alta.


Ou então:

Somos os irmãos do meio
do ontem nascido
e do amanhã sepultado.


Dizer isto de uma voz
por todas.

Regina Spektor - Lacrimosa



12/01/2009

TODA A GENTE MONTA UM CAVALO DE VIDRO, NÃO ME VENHAM COM HISTÓRIAS - aditamentos para uma cardiologia da submersão

Casa, Souto, e Pombal, tarde e noite de 12 de Janeiro de 2009



I

Um rio de palavras abarca as margens da vida pensada.
Jogos de poder assaltam íntimo anelos.
Com o tempo, até o terror falece a tempo.
As casas resistem na composição postal.
Instintos distintos sufragam a resistência.
A harpa da chuva pizzicata a paciência.

Magnas leis transparecem das instituições magnas:
o ar, a montanha, o trânsito, a eira ao sol.
Uniformizados de luz, os frutos conciliam a cor.
Uma paleta de atitudes pinta o retrato pessoal.
Os mortos e os vivos jogam as cartas.
As tipografias trabalham por conta da memória.

Toda a gente monta um cavalo de vidro.
É preciso não desistir de respirar com indústria.
Panos relvados atapetam a serenidade.
O presépio de barcos decora a face do mar.
Moinhos celebram a solidão mais aérea.
A geologia subjaz aos ossos humanimais.

Na curva do rio, o maciço segrega sombra.
É bom tocar os elementos pelo nome, nome a nome.
Cordas de peixes procissandam veios claros.
A cabrinha canta a glória da maternidade.
Num café longe do nascimento, anotar a conta-corrente.
Racionar os apetrechos da supervivência, também.

Recordar no bosque a catedral.
Na rua, a álea.
No cavalo de vidro, o nascido e o ido.
Na praia, a História.
No cometa, a ave.
Na Lua, o Sol.

Coleccionando cidades, unir a aldeia única: a mente.
Redigir tempestades na manhã internacional.
Somar ruínas castelãs, atiçar verbos.
Sim, atiçar verbos contra o esquecimento.
Respirar muscularmente, olimpicamente.
Apedrejar sem rebuço o solipsismo estéril.

Obter pianos, festejar o andor da caligrafia.
Aguentar ainda um pouco, na seda do sono.
Na senda do outono, tocar de ouro-velho o frio.
Reconhecer aos olhos o teor de espelhos mágicos.
Borboletear pelas flores verbais, agraciá-las de mel.
E sentir sempre, pensar sempre cada sentido.

E então ver o rio e tudo recomeçar nascendo
na seda,
na senda.



II

Um pensamento, uma cidade submersa.
Adentremos a beleza antiga da senhora
que envelheceu ao balcão-contador da taberna-mercearia.
Também o coração dela tem um lado-mozart.
De quantos invernos foi ela capaz de subir à tona,
que chás tomou sozinha quantos domingos?

Uma cidade, um pensamento submerso.
Em uma churrasqueira despovoada, o último
cliente ceia a solidão de um peixe.
Cá fora, as estrelas ao frio como cães sem dono.
No coração desse homem, uma planície estelar.
A neve em sua cama: e silêncio e ossos.

Tantos príncipes, tantas princesas submersas,
tanta tão pensativa nobreza, alienados rumos
que ensinam a perdição e a coragem,
o santo cálice demandado pelo ébrio,
a prostração labiríntica do ano,
a monarquia absoluta do peixe, da solidão.

E com toda a atenção, a magia toda,
não desistir jamais do lado-mozart da vida.



III

Sendo homem, tendo mulher, ver nela a nação mais vertical
– e a mais alta domadora de cavalos de vidro.


E se em vez de versos eu pusesse mazera só aqui coisas do Bruno Aleixo é que estava bem, mas prontos

Duas Urbanas para Uma Campestre


© Sandra Bernardo
Aveiro, 30 de Agosto de 2008

I. NENHUM DE NÓS VAI NUNCA MAIS SER PARA SEMPRE
– composição urbana para ler no campo

Para o Ca’litos, nos 31 anos do menino

Café Esquina, Pombal, noite de 8 de Janeiro de 2009




Crua nua luz de farmácia,
dentro as ovelhas clínicas abastecendo-se
de pílulas de erva e poções de água de ribeiro químico,
coitadas.
Tenho muita pena das pessoas, nas farmácias como fora delas.

Sou compensado em minha vã misericórdia
pela visão de uma senhora na ponte do rio.
Alguns 60 anos bem medidos.
Roupa cómoda e quente, matizada
de castanhos graduados do claro ao escuro.

Já é escuro, claro, a esta hora.
Passei em frente à entrada traseira do tribunal.
Lembro-me de uma manifestação popular ali.
Foi há muitos anos.
Tinha havido mais um dos pobres crimes pobres
da nossa ruralidade: gajo mata esposa e suicida-se.
O povo juntou-se ali não sei para quê, o gajo
já estava morto.
Deixou saudades como a fome, o cabrãozinho.
Pus isso num livro chamado O Preço da Chuva.

Gostei de passar pela senhora sexagenária na ponte.
Houve tempos em que quis ser um velho assim:
enroupado de flanelas castanhas, sereno, bonito.
Duvido, muito sinceramente duvido.

Escrevo composições urbanas com o coração no campo.
Se me quiser furtar a isto, vou ao bar onde
os amigos e demais companheiros de fadiga tabágica
abocam cocacolas de laranja
e pirezinhos de orelha ensalsada.
Fico ali umas horas a deitar silhueta às paredes.
Hoje não.

Sempre que posso, enfuno as velas de caligráfico vento
e dou-me alas.
Dou-me azo, dou-me asas,
sio sem cio rés-vés as casas,
ponho-me na alheta atlântica,
isto de ser-se atlântico em doca seca é que é,
a vida nunca facilitou nada ao vivo,
há que ingerir carbono e gordura e vitaminas
e sais minerais da-sibéria-aos-urais.

Suave pátina de gelo nas sobrancelhas,
bafo árctico fumando a boca endurecida,
as mãos cortadas no tempo do pão,
versos escuros (lobos correndo na neve),
Jack London lido à lareira no fundo inverno,
não,
não envelhecerei sobre uma ponte, dando o rio.

Agora eu vou estabelecer regras imprestáveis
para uma loucura civilizada, triste e macambúzia
mas civilizada.
Nenhum de nós vai nunca mais ser para sempre.

Mas podemos amar uma língua,
podemos ser nacionais e de flanela por dentro,
podemos alinhar as farmácias, os tribunais,
os bares – os cartórios líricos
que nos dão
o usucapião
de nosso mesmo cultivo e amanho,
a tudo retribuindo os impostos devidos.

Sim, sim:
o coração pode ser o n.º 2 do art.º 64
do Código do Notariado.



II. NA MINHA PRIMEIRA E PENÚLTIMA JUVENTUDE

Charneca, casa do JP, Pombal, noite de 10 de Janeiro de 2009



Na minha primeira e penúltima juventude, andar com o coração nas mãos não era uma doença.
As patologias vieram depois, decorrentes daquilo a que chamamos normalidade.
Hoje, vivo de amigos, quando posso, estou sozinho à varanda a ler no escuro as estrelas eléctricas da cidade atiradas ao veludo por um deus desesperado e brincalhão.
Faço dos sábados um caderno, tenho ideias de rejuvenescer contra tudo e contra todos, persigo a cristalização do verbo em verso.



III. SEMANADA



Casa, Souto, tarde de 12 de Janeiro de 2009


Segunda-feira, a erva é o cabelo de enterrada cabeça de telúrico monstro.
Terça-feira, duas nuvens mancham uma folha de sol e giz azul.
Quarta-feira, espero-te do lado da ponte, sobre corrente calendário de água.
Quinta-feira, volto para junto do monte onde celebra a raposa um labirinto de laranjas encarnadas.
Sexta-feira, se puderes, vai-me buscar.
Sábado, paga-me uma taça de fruta, deixa-me andar nos carrinhos, evita-me o hálito, oferece-me o crepúsculo da agonia.
Domingo, se puderes, vai-me buscar.

09/01/2009

Lord, I Am a Surgeon, and Music is my Knife, It Cuts away my Sorrow, and Purifies my Life



Implicação da Iguana

Casa, Souto, na madrugada de 9 de Janeiro de 2009



I. Impropriedade

A sombra de uma nuvem, como um pensamento, marcou uma área do terreno. Passei a contar duas realidades: a que se mantinha de sol e a que a sombra marcava: como um pensamento contemporâneo do corpo, simultâneo dele mas sem ser ele.
Atrás, na casa, ficaram as coisas que são a casa mas também a não são: pode queimar-se no pátio, ou não, a cómoda que define um quarto? Ficou a laranjeira, ficou a casota de cimento do cão (imita em miniatura a arquitectura da casa humana).
Todos grelhámos peixe, ninguém estava ao serviço de ninguém, houve aquela solidariedade benfazeja dos instalados. O sítio do lume era agradável, uma terceira casa, de dimensões entre a principal e a do cão. A mesa era larga, de boas ripas envernizadas. Um banco corrido de cada lado, toda a gente tinha lugar.
Mas há sempre um depois que a tudo torna antes, um fim de festa, vim-me embora a pé. Tive de aliar cortesia e firmeza para recusar boleia até à estação. Por assim dizer, vim ver a sombra da nuvem. A cidade (mas tenho tanto tempo) não é longe, fui protelando a chegada procurando água na terra, maciços verdescuros, grutas (mas não há grutas), choupanas (mas não há choupanas).
Pensei (estou já no comboio) que gostaria de dormir por ali, onde a nuvem. Agasalhado, dormir ao ar livre, ouvir a música da noite, seus instrumentistas de pena e pêlo, a percussão de algum curso de água, mínimo embora. Não o farei. Acho que nunca o farei. Habito uma cidade, os meus hábitos e as minhas obrigações justapõem-se a ponto de ser sinónimos, julgo.
Gosto das pessoas que abandono no campo, mas o meu lugar, parece, não é entre elas, com elas, para elas. Não demorou muito, a viagem. Uma hora e um quarto, para aí. Vi-me na estação de chegada como se estivesse à minha espera: este corpo avançando para mim. Agora tenho de dividir tudo com o recém-chegado: o meio-bife na casa-de-pasto, o bilhete de cinema (e o filme), o copo de vodka no bar que nunca fecha antes das seis.
Não há problema nenhum: é domingo, o dia nasce do rio, gosto de ir ver esse filme sem plateia e sem bilheteira. Também poderia escolher uma margem, um sítio decente bem tufado, de chão elástico e relativamente enxuto, dormir ouvindo a água dentro do sono. Não, claro que não.
O meu apartamento é pequeno e suficiente. É um casulo, faço de bicho-da-seda. A sombra da nuvem, agora (mas não sei que horas são) pensa-se a si mesma – e aquele terreno não me pertence, nem eu àquele terreno, ainda não.



II. Mentira

John-Joe não voltará a Kilburn.
Morreu, não voltará.
Ninguém o reverá perambulando por Grosvenor Square.
Estão-lhe interditos pontos do mapa: Gastonbury, a Isle of Wight.
Terá deixado semente em Cardiff ou a sul de Wales, em Newport?
Terá João-Zé entristecido sem razão especial em Bristol?
Diz-se que gostava dos filhos.
Por que motivo lhes não compra agora gelados em Brighton, um raro dia de sol?
Porque morreu – é tão simples.
(Os mapas são coloridos – mentem a cores.)



III. Implicação da Iguana

Pode trabalhar-se toda a noite em qualquer sentido.
Neste momento, trabalho com duas palavras:
iguana
e
implicação.
Não sei que farei delas: que tessitura, digamo-lo assim.
De qualquer modo, não estou preocupado – mas ocupado apenas.
Isto é um trabalho.
Procuro a música.
Isso é certo: procuro a música.
Ela é feita de materiais pré e pós-verbais – mas só o durante me interessa.
Interessa iguana, interessa implicação.
(Muitas vezes o som
i:
como um atrito de unha em vidro, por assim dizer.)
Também um lume (uma chispa, depois uma carburação) me resultam de gravoso interesse.
Configurar os paradoxos: por exemplo
(este exemplo é bom),
a boca cheia de saliva – e nenhum nojo, nenhuma autoagonia infantil.
Compreender além da opinião pré-congelada.
Aceitar apenas os onanismos não mortíferos:
certa rua amarela de ouro aéreo, algures na cidade ou na infância,
um olor construtivo de mercearia à passagem
(tabaco, bacalhau, fruta, sabão, café),
correios, telégrafos e telefones,
guarda-chuvas esquecidos em vestiários de teatros,
24 mulheres bonitas como uma flor cortada em fotogramas,
sequências espectaculares
(crepúsculos, frases, laranjas, cães, crianças),
fundos de guarda-vestidos com ADN não despistável,
a secreta marisqueira aromática do primeiro sexo,
a organização constitucional dos móveis da Mãe,
a canela tocando a transcendência (arroz doce de olhos fechados),
a iguana, a implicação.



IV. Situação

Qualquer eu está situado um pouco a baixo do coração, só que a perspectiva é invertida pelo prisma da cabeça.
Digo
eu.

Mas depois vem de novo o dia 12/8/73. O poeta Jorge de Sena vai a Segovia. De lá me/vos recorda os versos de Antonio Machado:

no es el yo fundamental eso que busca el poeta
sino el tu fundamental




V. Montra (e) Partida

Fui ao alpendre e olhei: névoa mundial, duas horas e oito minutos do novo mundo. Tenho de ficar aqui, não sei voar – e não falta muito para que a lenha acabe. Isto é um trabalho. Não é um ofício (eu sei, já vo-lo disse – mas é o meu trabalho).
Revoada de aves brancas como papel (noutra vida – ou então noutro lance de uma vida que não vivi nem revoarei).
As esculturas e os animais – que os funde?
Digo: funde-os a dignidade vertical.
Sempre me interesse pelo mundo involuntário (a outra dimensão) das montras do comércio: o carrito-matchbox caído de lado, o micromúsculo labial do manequim que sorri e depois e depois finge que não, os discos e os livros atirando-se de nome desfraldado à fita de água que usamos a norte da cara e se chama olhar – sim, gosto de montras.
(Nunca compro nada, mas gosto do outro mundo a que chego por elas.)

Manhã cedo, talvez tenha de partir.
Não é preciso arrumar muitas coisas, um saco é quanto basta. Depois, talvez como das outras vezes: a estrada vindo direita ao peito, os olhos acaramelados de sono, sacudir tudo isso com uma taça de café, uma chapada de água fria no lavatório do bar das bombas, contar as putas de berma-esperma ao longo da nacional-nº-tal, contar os animais atropelados, notar a transição por assim dizer idiomática da luz conforme os distritos se sucedem e encarquilham no curso da ida, da névoa, do mundo.


VI. Mr. Thompson não É Daqui

Mr. Thompson não é cá da vizinhança.
Andou pelo Vietname, sobretudo a cerca de 400 km de Luanda.
Não tem mal, agora já não faz mal.
É um major reformado, gosta de dálias e de glicínias
(e de gajas chamadas Licínia, que é o que ele chama a todas as vietcon(g)as a quem paga bitoques antes de as levar para o quarto que arrendou à cabeleireira).
Toda a gente tem os crimes, é certo, mas também as suas qualidades.
Mr. Thompson tem a qualidade de não recordar crime algum, massacre nenhum.
Isso – e não dever nada nem na loja nem em My Lai, ou lá como se chama aquele sítio perto de Nova Lisboa.
Mr. Thompson já não gosta de música daquele tempo – seja qual for o tempo a que ele, aliás, se não refere nunca (16 de Março de 1968, Mr. Thompson, filho-da-puta).
War é guerra – e ao contrário é raw, que significa cru (ou cruel).
Mr. Nixon também não é destas bandas, nem Mr. Kissinger (de quem a parva da Liv Ulmann se esqueceu o azul glacial) – vale-nos que nenhum deles há-de voltar de Kilburn.



VII. Noutro Tejo

Noutra Lisboa, fui a mariposa acossada pela friúra das luzes.
Faltou-me não o corpo que me levava mas o corpo que eu deveria ter constituído nas épocas prévias.
Nada disto tem importância: mesmo que, por exemplo
(este exemplo é bom), o poeta Rodrigues Lobo se não houvesse afogado no Tejo, o outro Tejo (o Tempo) tê-lo-ia afogado na mesma.



VIII. Capote e Outros

(Iguana.
Implicação.)

A vida fantasiosa dos poetas (não todos) e a idem idem dos séri’assassinos tem mais afinidades do que as crestomatias criminológicas e os arquivos líricos permitem supor.
Isto é assim até nos Estados Unidos, onde os poetas não puderam competir nunca com os assassinos,
a começar por Truman Capote.



IX. Licínia Também

(Três e dezanove do novo dia-mundo.
Sou que mais espaço-ser, na hora-mundo nova?)

Uma mulher (imagino-a, filmo-a, escrevejo-a) compra anéis. É joalharia barata, ela não é rica, está divorciada só há dois anos e sete minutos, é recepcionista de dentista, chama-se Licínia. Ela é como eu sou – neste aspecto: nenhum(a) fomos nunca à Noruega. E neste: também não voltaremos de Kilburn.
E no entanto barcos transitam estrelas, azimutes de leite & veludo, capazes do frio e da física e da metafísica – mas nem ela nem eu rumámos a Norte.

(De modo que três e 23.)



X. Aviso

You ought to fear the truth, Madame Thompson.
(Quem diz Madame, diz My La(d)i.)



XI. Nenhum Leopardo Foi Possível Alugar para o Chá da Senhora d’Arcy

Que bonitos, benvestidos e inúteis são os cavalheiros-figurinos que vêm ao chá da Senhora d’Arcy, verdade?
Os pássaros verdadeiros que encimam os bolos são tão perfeitos, que parecem de louça: não terão alguns deles um coraçãozinho de rubi?
Com os dedos da mão que não
escreve – dar borrões de cor à impressão do papel-tela:
para figurar no Salão de Inverno da Senhora d’Arcy, depois,
em outro século,
quando Henry James já não for lido nem esperado.



XII. Sorte

Longe da nossa vista, ferve o caldeirão dos hospitais.
Cozem a fogo-frio, que não brando, os doentes terminais.
Fora, na manhã cedíssima, geadam as flores no centro do relvado redondo.
As ambulâncias chegam com as consultas rurais.
Dentro, em cubículos passados a éter e a lixívia, olhares fixos em tectos.
Mãos transparentes, ventres finalmente miseráveis, pés já inúteis, barbas por fazer até das senhoras.
A Universidade, a Caixa, os Correios, o Café, a Rodoviária – tudo funciona, não há azar.



XIII. Bandeirantes

Então – e as pessoas que parecem bandeiras?
Ele há pessoas assim, que são bandeiras.
Andam na rua – e o ar fica colorido, o ar drapeja, o ar ganha música alta.
Essas pessoas ligam a terra verde ao céu azul.
Nós nem sabemos como amar devidamente essas pessoas.
Astros, mastros – pessoas fora da série genética, parece.
Uma chamada Rebeca; outra, David; esta, Catilina; aquele, Tomé.
Pessoas que florescem no ar ao nível do olhar, gente cujo sono nos acorda e pressuriza, que de repente nos saca tapet’e’strada de sob os pés.
Quem de nós quis alguma vez nunca dar-se a uma pessoa tal?
Quem não foi senhor(a) de assim querer levar-se em bandeira?
São de olhares como inflorescências, como incêndios de milho, essas bandeiras.
Um dia, a terra não nos é suficiente.
Como nos é impossível ir-a-ver-o-mar, saímos à vila e damos com elas, as bandeiras, as pessoas-armilares, as pessoas-campos, as pessoas-brasões, as pessoas-pessoas.
Amar é terrível.
Eu aqui não digo a bandeira-tropa-pátria-clube, digo a Pessoa.
Essa que se distingue sozinha e de nós, além da gente, além de gente.
Sofia Loren é um bom exemplo, claro.
Mas eu queria dizer-vos mais terra-a-terra.
Não digo que elas bandeirem a toda a hora sobre tapete-vermelho.
Não, não digo isso.
Digo as bandeiras – se dissesse iguana, o mesmo implicaria.



XIV. Uma Força

Uma força de ir ver lagos existe aqui dentro.
Civilidade, também.
Poucas hipóteses de proceder a um escrutínio decente da vida, também.
Lançamentos de seixos à água, a ver as ilhas concêntricas animadas pela gravidade dinâmica (o susto dos peixes, coitados): uma pessoa reproduz as pessoas, os gestos paterpatrimoniais, os versos.

Se pudesse, uma pessoa reanimaria as décadas, o chinquilho, as tardes solheiras (sol e eiras) de domingo, essas a que os olhos muito azuis de Laurinda presidiam, entre rodadas de groselh’e’gasosa e dentadas tremoceiras, tendo passado a banda e dito o senhor padre
imprecações.

Sim, a vociferação existe aqui dentro, também.
Os que morreram novos sem poder justificar o nascimento.
Os que demandaram a Venezuela e voltaram com outra boca.
Os que sem terem saído daqui aqui voltaram com outro olhar.
Rapazes que gastam o dinheiro das férias em tónicos capilares.
A Lúcia no céu com diamantes.
O senhor Nardo desconfiado de Mr. Thompson, pois pudera.
E o tapete-vermelho entre a igreja e o campo-santo.



XV. H.-M. na V.

Perto de casa há um café-mercearia a que vamos a bolachas e laranjadas.
Não é que vendam lenha, mas arranjam se avisarmos de véspera.
O senhor Gervásio é homem para não largar o jornal toda a manhã.
Há quase sempre canalizadores-electricistas a beber moscatel.
O mais são horas-mortas na vida.

08/01/2009

Dinah Washington e o gin dela




Uma crónica e alguns, digamos, poemas


© Juan Pando
Arenga al más Joven Ejército Posible
Febrero 1939, Madrid




Pombal e Casa, Souto, 6 a 8 de Janeiro de 2009



Higiene, coentros e maduro
Crónica nº 85 da série Rosário Breve
nO Ribatejo (
www.oribatejo.pt) de 9/1/09

Pergunta-me um amigo se vi pela TV a entrevista do primeiro-ministro. Disse-lhe que não. Não vi por uma questão de higiene. Mental. Minha. Muito minha e muito mental. Não vi. Não quero saber. Não sou um jornalista ao serviço dele. Nem dele nem de ninguém.
À hora da dita entrevista, estava eu em casa muito sossegadinho a ler o meu dicionário da Porto Editora, escrito ainda sem a porcaria ortográfica pró-brasuca que aí vem. “Higiene mental: ramo da higiene destinado a manter a saúde mental e a assegurar a profilaxia das neuroses e das psicoses, combatendo os factores nocivos (excessos de tabaco, choques emocionais, intoxicações, alcoolismo, etc.)”. Tirando a parte do alcoolismo, percebi tudo.
Como não rimo “jornalista” com “acólito”, não assisti, nem de joelhos nem de cócoras, à tal entrevista. Tinham-me dado uma rica garrafa de tinto maduro, a mulher tinha trazido broa e bacalhau desfiado, num frasco de vidro grosso havia azeitonas perfumadas de alho e coentros em sal também grosso. Comemos e bebemos à saúde um da outra. Nem ela nem eu vimos a entrevista do senhor. Não vimos. Cheira-me que também não vamos ver a próxima.
A minha mulher também é muito higiénica. Por dentro e por fora. Foi uma riqueza que me aconteceu, a minha senhora. Às vezes, estamos na cama e rimo-nos muito. Eu digo o nome de um ministro (um qualquer) e ela desata-se a rir, contagiando-me irreversível e inelutavelmente. Depois, ela diz o nome de outro (outro qualquer) e eu desmancho-me, contagiando-a inelutável e irreversivelmente. De modo que somos felizes assim, felizes com a desgraça dos outros portugueses que já não se riem. Podia dar-nos para pior.
O amor é assim: nenhuma TV e um fio aromático de coentros cortando a espuma roxa de um tinto para esquecer.



**********


Trouxa



Não sou já uma trouxa de carne
que mulher alguma pegue, pague e leve
aos ombros
para um desses motéis de filme
surdo-e-mudo.

É que se me estragaram os dentes
e se me avariaram as gónadas.
Secaram-se-me as sementes.
Sou ora dos velhinhos nómadas

que já lá não vão.

Nem é isso que me dá tristeza.
Entristece-me o pender, sim,
mas para o verso.
A poesia é uma arte que não chega a ofício,
a não ser que se conheça alguém no Motel
Gulbenkian
ou assim.
(Mas não é o que m’acontece a mim.)

E
no entanto
fui já um(a) trouxa assaz moteleira.
Tomei de facto já o meu porto miniatural,
já atirei o meu chiste erógeno,
colhi já em campo o morango dum mamilo
(devagar, ao de leve e com estilo).

Agora já não.

Agora, dou-me mais ao nunca ocasional ocaso
da subúrbia condição.
Amanho a minha horta, pinto a minha porta,
digo bons-dias ao carteiro (que é rapariga)
e a mais ninguém me obriga.
O resto é cantiga.



Brasil, 2 – Rossi, 3



Um livor a dar para o azul-frio com barcos
é quanto vejo dentro da cabeça, fechados os olhos.
Não tenho 18 anos como tive em 1982, tenho uma
colecção incompleta do Mundo de Aventuras
e outra de anos.

Tenho um amor sem escalímetro pela topografia da vida.
Conheço vendas de fruta que perfumam a luz a quem passa,
conheço o meu Cesário e o meu Pessanha, sei com quantos paus
uma canoa vai ao fundo,
conheço o mundo.

Em 82, o Paolo Rossi deu cabo, praticamente sozinho,
do melhor escrete que já vi jogar: o Júnior, o Cerezzo,
o Sócrates (não era este daqui da Covilhã, era um doutor
mesmo), o Zico, o Falcão, caramba.

Eu hoje estou praticamente sozinho no ataque como
o Paolo Rossi – e como ele
a dar-me cabo.



A Guerra do Uruguai



Dá-se algures na casa ainda e para sempre,
nalgum dos livros que não relerei.



Parelhas



Fiambre e rosa.
Ciúme e perfume.
144 e grosa.
Couro e curtume.

Tacho e macho.
Vou e não volto.
Cão e irmão.
Solto e não solto.

Tacha e taxa.
Toscânia e Praga.
Guimarães e Braga.
Ter racha e tarraxa.

Meu Pai e Mãe minha.
Irmãos e sobrinhos.
Viver e vida:
hei-de ter netinhos.



Declaração de Rendimentos em Poemas e Morais




Casar com uma ex-estrela porno
deve ser como andar de lambreta
na auto-estrada.

A tristeza é o vero produto nacional
bruto.

Santana Lopes é uma realidade portuguesa.

(O velhote da mesa ao lado tem um filho deficiente,
nenhum dos dois faz barulho, o senhor lê o jornal,
o filho olha embevecidamente para ele,
está-se bem aqui.)

Um fiapo de nuvens acama por cima a avenida.
Entardenoitece, carros frios, primeiros faróis ligados.

(O filho deficiente diz
Então, pai?).

Estou sozinho, espero que a minha ela venha do trabalho
para tomar um chá de casca de limão,
para a minha vida prometida aos bichos,
os meus versos às larvas-parvas-palavras.

(É de olhos azuis como o pai,
Então, pai?,
tem alguns 50 anos,
o pai é senhor para 70 e muitos.)

Preciosa, cristalina: pedra de água atirada ao pano do ar,
frase toda música, Paris em 1911, Coimbra em 1917,
garça que por graça grassa no algodão memorial,
fico por aqui por agora.



Outro Dia



Toda a tarde em ronronante solidão.
O sol de inverno é franco na varanda.
Há rumor de casas afastadas: crianças, cães.
O cedro, muito cervical, labareda-se muito verde.
Agradável, viver.

Preparo uma expedição a Coimbra para breve.
Ver a Irmã, trocar uns livros no alfarrabista, ir
ao parque da cidade
consultar o rio como um baladeiro sem voz,
subir alguma calçada, descer alguma catacumba,
permitir-me a essência íncola de ali ter nascido.

Arrumo na boca as graçolas líricas que quase
me impedem de estar vivo e pensar ao mesmo tempo

e
então
deixo fluir:

a graça toda luz do ar emoldurando o pinhal,
o formigueiro automóvel do género humano,
a poça de água fria despertada de sol entre erva,
a munificência idiomática da minha pobreza pessoal,
o tiro de longo alcance de um telefonema por fazer,
a efervescência trevo-mijona de um verso exacto,
um gato alheio em estrangeiro quintal olhando para aqui,
o Denzel Washington e o Russell Crowe às 4 da manhã,
o torno mandibular do frio apertando o corpo,
os óculos na cara como uma aranha fria,
a suficiência futura dos livros ’inda não lidos,
uma espécie de amor, uma espécie de música,
a quinta-feira dourada de suas mesmas cinzas,
um prato de salada-russa meio consumido,
a guerra do Uruguai e a selecção do Brasil/1982,
a infelicidade das pessoas muito suave, muito diária,
a explosão láctea da taberneira perto da rotunda,
os apartamentos que clonam a quarentona e o adolescente amásio,
a erva-de-cheiro de uma frase bem dita,
as pedras glandulares no tabuleiro do metabolismo,
o cálculo-cinismo da má poesia,
o florilégio da boa,
o sortilégio da muita boa,

o tempo há-de melhorar,
outro dia.



Telefonema



Um dia hão-de telefonar-te de muito longe,
de quase tão longe quão certo rosto perto
do teu.

Dir-te-ão da condição
interurbana
que tive para contigo,
eu, logo eu,
que daqui não saí
nunca.

07/01/2009

Mulher depois de Rosa

Pombal, noite de 6 de Janeiro de 2009



Uma canção para a Mariana, claro



Matou-me a vida já algumas rosas.
Cravos me devastou sem pedir antes.
Nada m’é já agora o qu’era dantes.
Matou-me a vida já algumas rosas.

Do mar eu sei tão-só que são distantes
as ondas e as gaivotas escritoras
dos versos mais voados, mais amantes,
amados mais que rosas voadoras.

Guarda-me rios, vida matadora,
deixa que um choupo chore sem chorar.
Outrora fui menina, ora senhora,
algumas rosas sei também matar.

Não creio já em quem me não trouxer
recado da baía da agonia.
Eu já vi muita noite em um só dia:
ontem fui rosa, ora sou mulher.

Matou-me a vida já algumas rosas.
Cravos me devastou sem pedir antes.
Nada m’é já agora o qu’era dantes.
Matou-me a vida já algumas rosas.

Senhoras e Senhores (Fêjota principalmente), eis o Homem, eis a Voz: Scott Walker



06/01/2009

Para ela, não há como Ella





A única, a maravilhosa, a Amália do zamericanos, aqui com a minha dupla favorita de compositores dElla: Rodgers & Hart.

Ao Sol, Somos de Transparente Nome

Casa, Souto, entardenoitecer de 6 de Janeiro de 2009


Ao sol, somos de transparente nome,
também ninguém no-lo pergunta, di-lo
o nosso corpo atirando sombra ao chão
como água preta.
Precisamos de esperar a noite para
que nos seja devolvido o anonimato civil.

Eu agora sei estas coisas de cor
a preto-e-branco, sei porque sei, sei
porque estou vivo ou coisa assim,
tirando o meu corpo.

Sempre fizemos
tanto barulho
em poesia
com o tema do silêncio,
tanto foguete com o da noite,
tanta vozearia bradada a surdos,
tanto pirete à cara dos cegos,
sei que é assim pelos livros que tenho tido e lido e sido,
não sei é porquê,
deve ser daquilo a que se chama a
Condição Humana,
Malraux incluído.

A gente tem de aproveitar o sol, esse foguete perpétuo
que torna tudo agosto e tudo português para sempre,
eu acho que é assim, aproveitar o sol sempre
com o nome todo virado para ele
antes que se faça tarde
e seja noite.

Depeche Mode - (I Don't Believe in) Miracles

Noite de Ramos e Manhã de Baunilha


© Paul Strand
Untitled (1915)
******
I. Noite de Ramos

Casa de Pasto A Social, Pombal, noite de 5 de Janeiro de 2009


Sou hoje um dos homens que menino vi passar há muitos ontens.
Persistem em Janeiro as iluminações públicas de Natal.
Como elas persisto.
Ganho para a bucha, tenho um casaco preto.
(Sou esse casaco preto para os meninos que me vêem passar.)
Não destoo do vulgo, graças a Deus e ao Diabo por Ele.

Toda a paciência e nenhum exorcismo.
Não entro em ondas nem saio delas.
Um homem como tampouco tantos outros.

Subo à boca o fiapo de bacalhau esmifrado em alho.
O corpo entre ruas, primeiro, depois acolhido por mosaicos verticais que ladrilham a frio a casa de pasto.
Exercício de visão e de escuta: o vulgo come, o vulgo é homem.

Não vejo meninos.
Vejo um homem gárrulo com um garruço preto na cabeça, nem o tirou para se carapauzar, no chão batendo piafés.
É de botas idênticas-me.
É bom que assim seja.

Devo ter dado confiança a mais aos incunábulos.
Ainda assim, não devo ter-me perdido da vida:
eis-me-la.

E do balcão para a mulher da cozinha diz o rapaz versos cuja poesia desconhece:

– O senhor Cravo também quer bacalhau, mas de cebolada.
– O senhor Ramos vai querer iscas.
– O senhor Rogério torresma-se a preceito como de costume.
– O senhor Daniel só quer café com cheirinho, afinal.
– O senhor Baptista veio dizer adeus mas não o sabe, morre amanhã de manhã nas traseiras da loja mas não o sabe.


As palmeiras recolhem o toldo para a noite, fecham as grandes asas como descomunais pombas vegetais, faz frio, proteger a cabeça é boa ideia por ser pela cabeça que se nos esvai a temperatura.

– A senhora Margarida octogena-se à janela.
– A senhora Isabel faz trouxas de ovos muito finas.
– A senhora Teresa procura Cristo na viela.
– A senhora Leocádia tem uma casa de meninas.
– À senhora Julieta nunca houve Romeu que lhe chegara.


Este é o temp’agora: contrição e ex-meninice, idioma e azulejaria, báculo e tabernáculo, missanga e sambenito, faca e alguidar.

(Comenta-se uma ida ao hospital, alguém diz
ISTO DA TENSÃO ARTERIAL TODO O CUIDADO É POUCO
e é.)

Eu agora não posso ser o menino que vê homens.
Eu agora se pudesse ia nas iscas com o senhor Ramos.



II. Manhã de Baunilha

Fonte Nova, Pombal, manhã de 6 de Janeiro de 2009



Faz-se manhã. A luz é de uma consistência e de uma doçura de baunilha. Um rosto bonito com mulher por baixo leva-se café à boca. Aqui dentro está-se bem. Da padaria chega ao salão o bafo dormente dos fornos a lenha. Surge uma criança encarnada com uma chave vermelha na mãozita. Lá fora, os cedros fumegam geada, esculpidos pelo sol de inverno. A formosura toca as coisas por dentro. A terça-feira ergue e estende a tenda colectiva: córregos, azinhagas, vertentes, pedreiras, taludes, eiras, jeiras, laranjeiras, capelas como dedadas de cal nos vidros que ladrilham os longes. Sinto a quietação dos prenúncios: toda a paciência e nenhum exorcismo. Até que seja hora de almoço vogarei. Nisto, penso em casa, nos móveis que em casa me aguardam alguma atenção de pano, algum carinho higiénico. As gatas borralham sem pressa alguma. O poster do Che Guevara enruga-se também sem pressa. Que palavras poderei merecer hoje? É-me lícito supô-las aguardando o meu corpo para efeitos de trânsito e fixação – a verdade é que as palavras nos precisam: precisam de nós para atingir esse nirvana a que chamamos (a que elas chamam) esquecimento.
Esquecimento – ou baunilha: morreu esta manhã o senhor Baptista.

05/01/2009

Joe Strummer parece-me cavalheiro que de grande decência foi



Fausto Bordalo Dias



Humanidade Portuguesa- uma modesta contribuição nossa para a Global


© José Luis Cuevas


Casa, Souto, 5 de Janeiro de 2009


Mário. Célio. David. Telmo.
Clara. Graça. Sílvia. Marta.
Damas. Peres. Sousa. Assis.
Bento. Pinto. Costa. Porto.

Mário Damas. Célio Peres. David Sousa. Telmo Assis.
Clara Bento. Graça Pinto. Sílvia Costa. Marta Porto.

Mário Damas e Clara Bento.
Célio Peres e Graça Pinto.
David Sousa e Sílvia Costa.
Telmo Assis e Marta Porto.

Mário Damas com Clara Bento Damas, Patrícia Bento Damas.
Célio Peres com Graça Pinto Peres, Inês Pinto Peres.
David Sousa com Sílvia Costa Sousa, Catarina Costa Sousa.
Telmo Assis com Marta Porto Assis, Joana Porto Assis.

Mário sem Clara.
Célio sem Graça.
David sem Sílvia.
Telmo sem Marta.

Mário com Graça, Marco Pinto Damas.
Célio com Sílvia, João Costa Peres.
David com Marta, Alexandre Porto Sousa.
Telmo com Clara, Francisco Bento Assis.

Mário. Célio. David. Telmo.
Clara. Graça. Sílvia. Marta.
Patrícia. Inês. Catarina. Joana.
Marco. João. Alexandre. Francisco.

Etc.

04/01/2009

Noite, Vem



Fotografia: regresso a casa, noite de 21 de Outubro de 2008
Texto: Casa, Souto, noite de 4 de Janeiro de 2009



Noite, vem.
Sê um país de veludo.
Talha cordilheiras de jus a montante,
trabalha tua música de mochos,
solta no ar de veludo o papagaio de estrelas,
casa o ouro com a prata num cadinho de ébano,
deixa-me ser, se não feliz, sereno.

Vem, noite.
Coralíferas pérolas queiras demonstrar
em nacaradas pulsões.
Instiga a furtiva escrita dos gatos,
o clarão ominoso dos candeeiros,
a ganga dos solitários que um por um
te regressam,

como eu te ingresso,
venhas logo que vieres.

A felicidade? Ouvir esta música (de Patrick Gowers) associada ao que lá vinha a seguir: Jeremy Brett a fazer Sherlock Holmes



CADERNO PARA LIVRO DE ILUMINURAS VERBAIS

1

Pombal, noite de 3 de Janeiro de 2009


Fluidos e esferas e mecânica e fluidos
– e ser láctea a vida das pessoas,
áurea a dos animais.
(Todos os animais, nem todas as pessoas.)

No fundo do mar, um banco de jardim.
No fundo do mar, um banco de jardim aguarda
as almas-medusas, a translucidez final
dos náufragos-em-terra-em-vida.

2

Casa, Souto, madrugada de 4 de Janeiro de 2009


Porno abundante nas assembleias.
Gabardinas, calcinhas, calcanhares gretados como lábios.
Plano do bairro anti-social, esquerdireita, cimabaixo.
Marquises e marquesas, plantas apeadas.
E a vida pervagar as pessoas.
Pulsões leitosas, chaminés e faróis.

Ter pena da vida, num canavial poupado pelas imobiliárias.
Ter pena do Japão.
Aceitar os credos que revestem de verniz o caruncho, não.
Transportar os ossos.
Não aceitar o que suspende a vida.
Não ler, ver apenas?
Não ver, ler apenas.
Ler apenas, não ser.

3

Ibidem


Quarto-cozinha em sótão final.
Janela-nesga dando para baldio de ciganos,
onde um cavalo emagrece de couro e muitos outubros.
Os outubros dando rabanadas.
Chuva nos olhos: o prisma.
Pessoas caçadas a chorar à chuva.

4

Ibidem


O cansaço extremo de um homem.
Sentado na borda da cama.
Nem capaz de levar as mãos ao rosto.
Os pés lá em baixo, longe, um nu,
o outro com meia de xadrez azul-creme.

A passagem para dentro do olhar que se apaga para fora.
Violência da paz: anos quietos sempre perto de uma cozinha.
Aceitação dos termos da vida:
renque, anca, frasco, íris, sebenta, linóleo, pão.

5

Ibidem


Afectação dos recursos nacionais,
sábado futebol clube,
um peito muito magro procurando carinho às cegas,
haplologias recordadas perto de uma fábrica de sapatos,
mulheres tropeçando sacos de víveres,
ultimação caligráfica dos pássaros marinhos,
o papel todavia atlântico da solidão,
os cadáveres das árvores-de-natal alinhados no talude da ferrovia,
a ferrovia de dupla linha como os cadernos de caligrafia
de outro século,
camisas negras corvoando arames de secar,
notação dos ursos nacionais,
usos & costumes & comes & bebes,
circulação pré-cancerígena dos ourives pobres da Baixa,
facilidade da delação,
ganga & sarja & napa & terileno,
suspensão das actividades marítimas do coração,
apreensão de limalha de ouro em boca de pássaro,
torre com relógio fantasmando corredores do tempo-espaço,
vantagem libidinosa do endinheirado,
bafios & bolores & mofos & belidas,
camisola interior de cavas durante o barbear,
certas palavras fundamentais garantindo livre-curso nas veias,
o mapa cosmológico do cérebro,
jazz & narcóticos & amanuenses & o-rapaz-chamado-Estêvão,
carros da polícia tubaronando vielas-lixeiras,
biografias imprecisas e malevolentes de santinhos sem paróquia,
a bênção filosófica de um molho de tomate bem feito,
o cálice grosso é para o anis, o fino para a malvasia,
côdega & códão & geada & sincelo,
jornais antigos debandando o futuro,
um pânico de aranhas patinhando-patinhando,
o-rapaz-chamado-Estêvão comendo um cachorro-quente ao frio,
uma fileira de garrafas cor-de-petróleo nas costas de Ibraim,
Ibraim-o-senhor-da-loja-no-outro-século (vendia cadernos),
passeio marítimo na primeira hora de luz (cinza, cinza),
palmeiras morrendo de pé na areia castanha,
respirar o amarelo & respirar o azul lá em baixo,
um bigode fino tracejando uma boca oblíqua e fina,
saturação de componentes tóxicos a olhos nus
(um olho nu, o outro calçando padrão de xadrez azul-creme),
tanta véspera e amanhã nenhum,
vozearia de peixeiras atrás de pedras,
cacarejar de crianças metidas em água e sal,
esquecer um nome como esquecer uma terça-feira,
o armàriozinho branco dos medicamentos sem portinhola,
o espelho mágico que troca rostos por retratos,
o céu todo chumbo emoldurando Deus,
a rapidez das mães na morte,
viuvez & caldos de galinha & psychés & naftalinarcas,
Amor à Pátria & Amor de Mãe & Temor a Deus & Arreda-que-é-Chumbo,
galeria de manequins vestidos à Antiga Portuguesa,
coliseus sem virgens nem leões nem gladiadores (só cristãos crus),
juízo & risco & segredo & cominação,
turismo & barbiturismo & facilidade & delação,
esquartejar reses e cantoras por ofício imemorial,
às vezes a paz sem ser por castigo,
sistema de trocas no comércio carnal,
marulhar intestino de porão árctico,
bestialidade das funções suavizada pós-frequência de reuniões com bule,
a ecceidade: voo e ave em simultâneo,
cubículo com porteira aquecendo café chilro em bico de gás,
Estêvão-nome-de-rapaz

– e o que mais se verá.

Quinze Mínimas Mais

Casa, Souto, tarde de 4 de Janeiro de 2009





Alimentamo-nos
desde os animais.

*

Sendo,
sondo.

*

Indo,
ando.

*

Ando
estando.

*

Ando indo.

*

Ente,
sondo.

*

Ente:
onda.

*

Manhã,
acorda.

*

A cor d’amanhã
acorda.

*

Açor
a ser.

*

Açordamo-nos.

*

Nascer,
não ser.

*

Vir,
ser,
morrer.

*

Mor’ir.

*

Menos ânimo,
mais animais.

Satie - Trois Gymnopédies



Cinco Mínimas

Casa, Souto, tarde de 4 de Janeiro de 2009





No cimo,
o pássaro
de guarda
à árvore.

*

A mão
em concha
eleva
o mar.

*

A cara,
areia por dentro:
o tempo.

*

Uma
rosa:
todas.

*

Uma árvore
guarda
todos
os pássaros.

Entre Ida e Volta

Casa, Souto, alba de 4 de Janeiro de 2009



Às cinco da tarde é de noite,
às sete da manhã não é manhã ’inda.
Dá para fumar no escuro,
para escutar a primeira volta
e a primeira ida do silêncio.

Dá para ser a hora
e o que ela trouxer
ou negar
de luz.

03/01/2009

Da Traça Calígrafa


© Alfred Stieglitz
Snapshot, Paris 1911




Casa, Souto, noite de 3 de Janeiro de 2009


Escusado procurar as chaves anteriores da casa futura.
Escusado buscar amanhã o século interior.
A traça de hoje esburaca os livros de ontem,
mas a traça deve ser assumida como caligrafia imanente.
A senhora foi aos ovos?
A menina é parva?
As árvores e os corvos fazem o que lhes é humanamente possível.
Odessa e cifração Enigma ao fundo da avenida.
Tanto faz o lado esquerdo como desfaz o direito.

Agora, calma.

O cavalo compassa o ritmo ósseo.
As moscas zunem as carcaças talhadas a ferro.
O Teatro Oficial apalhaça-se de gala para a amante
do senhor ministro, que é congolesa de nascimento
mas tem passaporte belga.
As instituições funcionam.
Há uma calma larga. Se chover, paciência.

A esta hora um barco escreve espuma no Canal da Mancha.
Acima, um pescador reproduz o céu de olhos.
Mistificações e mesas tripés sempre cantaram de galo.
Não nos vamos chatear por causa da hora tardia,
do século tardio, da tardia dia noite.

Vale muito mais bocejar nas inaugurações.
Vale muito mais arrotar o champanhinho corrupto da fé.
Transborda-se a carga orgânica de comboio para comboio,
manda-se vir uns violinistas húngaros, acende-se uma fogueira
no pátio de pedra, vigia-se a emanação menstrual da
Sociedade de Geografia, toda a hora é tardia.

Um tempo material como um vaso é presente na sensação.
Na ideia, é outro: é outro e floreia, tem uma cor de ar.
Um homem transporta um escadote, os olhos no chão.
O comércio abre a boca como o peixe, diz adeus e bom-dia.
Coitado do comércio, coitadas das pessoas no presente interior.

Os chapéus subiam as cabeças à condição de faróis.
A pele das mãos ainda escreve as mãos, mas ser antigo agora
não tem o mesmo futuro que tinha antigamente.
Agora, ainda assim, alguns rostos são moedas brilhadas
pela lua, resistem às marés, não os derrubam os carros
sem condutor que passam decapitadamente pela cidade.

Daqui não sairemos defuntos, muito menos amanhã.

Record, não

A imprensa desportiva já valia o que não valia.

Hoje, folheando o Record, verifiquei que os fulanos seguem o "acordo" ortográfico.

Nunca mais sujo as mãos com aquela tinta.

Chopin - Nocturno nº 1




Versos Elásticos das Cuecas de Albert Einstein





Fotografia: Regresso a casa, Figueira da Foz, 27 de Outubro de 2008

Texto: Pombal, 3 de Janeiro de 2009
(com alguns versos de 18 de Dezembro de 2008)




(Um acontecimento regional como a chuva pode ser o bastante para uma universalidade pessoal.)

Nada entendo do continuum espaço-tempo.
O mais que sei – é se está a chover ou não.
O espaço é feito de ruas de comércio e de
manchas de pinhal ao longe.
O tempo é quando chove e quando não chove.

Não posso associar-me a outra gravidade
que a de fazer cara séria no café.
Big Bang é (só pode ser) um tiro grande
de filme de cowboys, que aliás deixei
de apreciar.

O nosso pai outra vez novo sem ser em fotografia:
o tempo reverso, espaço da alegria.

Este é o meu trabalho, isto é tudo quanto posso.
Isto é um lírio?
O que é um lírio, além de um ser-flor?
Olha-se o cacho de estrelas no céu de Verão:
o que se olha, além de um céu-estrelas?

Que cor teria o Grande Nada?
E por que seria grande, nada sendo?

Largo da Portagem, Coimbra.
Rua do Mancha-Pé, Pombal.
Largo dos Castanheiros, Caramulo.
Rua Lucília do Carmo, Lisboa.
Largo de D. Duarte, Viseu.
Rua Maestro David de Sousa, Figueira da Foz.

Protões, fotões, melões: tudo é, será, terá
sido.
Mas – e se Nada?

Segundo a organização norte-americana
Gerontology Research Group,
à data de hoje,
3 de Janeiro de 2009,
estão vivos 73 indivíduos com idades acima dos 110 anos,
65 dos quais são mulheres.
Sexo fraco?

Chamou-se Maria de Jesus, nascera num canto da Via Láctea
chamado Urqueira no dia 10 de Setembro de 1893.
Vivia noutra rincão lácteo chamado Corujo, concelho de Tomar,
Portugal.
Morreu ontem
(disse a filha aos jornais que “como um passarinho”)
aos 115 anos de idade.
Descontinuum espaço-corujo-tempo-XIX-XXI?

Sábado, agora, talvez faça caldo verde para o almoço,
talvez asse uma galinha gorda com batatas
e lentidão.

Choveu muito no curso da madrugada,
ouvi da cama esse aplauso prolongado
do mundo a si mesmo,
senti a esponja das árvores dilatando-se
para respirar tanta água,
little bang
mas bang.

02/01/2009

Além da Sarah

Além da senhora Sarah Vaughan (lê-se "vóne", cuidado - ouvir em baixo), a Ronda Columbina de hoje, 2 de Janeiro de 2009 (entre as 19 e as 21 horas, em 87.6 FM e/ou http://www.radiocardal.com/), faz alinhar gente preciosa e especiosa música como:

Lotte Lenya - Moritat Vom Mackie Messer (Kurt Weil - Bertold Brecht ),
Lisa Ekdahl - Love for Sale,
Patricia Barber - Autumn Leaves,
Molly Johnson - Summertime,
Robin McKelle - For All We Know,
Karen Souza - Miss You (dos Stones),
Judy Garland - Wizard of Oz -Somewhere Over the Rainbow (Yip Harburg, Harold Arlen - 1939),
Anne Sofie von Otter / Elvis Costello - For No One (dos Beatles),
King Crimson - Heartbeat,
Swing out Sister - Masquerade,
Nnenna Freelon - I Say A Little Prayer,
Jacques Brel - Les Vieux,
Léo Ferré - Ni Dieu ni Maître,
Diamanda Galas - Unclean,
Pink Floyd / Roger Waters - Hilda's Dream,
Uxia - Verdes São os Campos e,
da banda sonora de Rain Man,
Stardust (Rob Wasserman and Aaron Neville).

Ah pois é.
Quem é amigo, quem é?

Sarah Vaughan na Ronda Columbina de hoje, 2 de Janeiro de 2009

VAMOS POR PARTES - versalhada de alto teor patriótico





I. Parte da Casa

Pombal, noite de 29 de Dezembro de 2008

Deixo uma parte da casa pelas ruas
Pelas ruas deixo o caminhar em tesoura dos ébrios
Pelo caminhar deixo ao novo mundo o mundo velho
Pelo mundo me deixo
Pelo deixar faço a casa.

*

Uma pessoa mancomuna-se com o coração
e ele sobe-lhe aos olhos como uma pedrada na água

Uma pessoa é todas as caixas de correio que desabitou
e uma pedrada na água é não ter aonde lhe escrevam

A cozinheira não se importa com o jogo na TV
e ter cortado menos batatas de manhã não fazia mal algum

Houve os Gregos há os gregos houve os Iberos há os espanhóis
e a gente foi sempre a gente foi sempre a gente.

*

Na rua em que cresci não havia samurais
nas outras suponho também não
Acreditar em Deus deve ser como crescer
em ruas pejadas de samurais
não sei.

Hoje a rua em que cresci continua toda na rua
deveria ter direito a uma casa a minha rua
mas isto nem para as ruas está fácil
de modo que
Deixo uma parte da minha casa pela rua.

*

Um samurai é um cavalo sentado numa espada
que chama burro a toda a gente em japonês
Não eu não acredito em Deus.

*

Uma pessoa está mais para lá que para cá
e nem cá é o lugar do coração
o sítio da pedrada.

*

A luz é água a água é luz
a noite sobe a praia bebe a areia
nenhuma estrela nos será diferente
a cada estrela indiferentes seremos

e no entanto

somos luz que é água
que é luz que é noite.

*

Um dia destes estive para telefonar-te
mas há sempre o problema do telefonema
o problema da longa distância.

*

Aquele homem é um caso perdido
Cada homem é aquele.

*

Cada homem é

no entanto

cada homem é aquela luz
aquela água aquela praia
aquela noite
um dia destes.



II. Parte da Noite

Pombal, noite de 30 de Dezembro de 2008

Ó escurecida rosa comedora de sonhos, ó noite
muito escura e muito branca
ó tua tinta permanente, narrativa noite:
esculápia prosápia ínclita magistral minuciosa
escurecida comedora rosa.
A ti não logro deixar pelas ruas.

*

Em cada pessoa triste
a tristeza feita pessoa.

Cada pessoa cada candeeiro
cada vela cada pessoa parte
de sua noite parte
para as estrelas eléctricas.



III. Parte das Estrelas

Pombal, manhã de 2 de Janeiro de 2009

Carta pessoal das estrelas eléctricas – eis
o que ando a escrever.
Estrelas, bilhetes de parquímetro,
industriação labial, manhãs feitas
de papel-de-água – eis
o meu mundo.

Minha topografia ázima, meu eléctrico coração,
o meu coração é uma rulote de bifanas
ardendo gelos e gritos de porco em antecipação
da degola das noites e das semanas.

Estou tremendamente feliz, é sexta-feira,
zunem na via rápida os fittipaldis assassinos,
passa uma mulher-barco carregada de tangerinas,
não estou a pensar em nada, parado passo
eu também.

Sim, o eu-corpo funciona, mesmo comigo a bordo.
Tenho comido pouco, nunca fui gordo.
Tenho outro livro de António Osório,
a felicidade raspa-me a janela qual ramo.

Que me lembre, nunca andei às gajas.
Coleccionei o trevo, juntei as unhas,
recebi palavras gentis, frigi e infringi,
o meu caldo de galinha sai aveludado.

Toco agora as estrelas arrefecidas,
sei a cotação da prata e o valor da merda:
tudo é dedutível – e ainda é cedo
para ter morrido, para haver nascido.

Furiosa vela branca adeja na linha do mar,
como poderia eu entregar-me à morte
esta manhã? Não seria capaz de desunir
as sílabas do teu amor, da tua confiança.

Uma pessoa é uma instalação de bandeiras,
sabes, como as bandeiras à porta dos hotéis pobrezinhos,
uma pessoa é um turismo para dentro,
digo-to eu, que tenho viajado montes e vales
e nespereiras e poesia portuguesa setecentista.

Florações muito aquosas: olhos pelo chão,
bocejar à chuva perto do tribunal, além
o mercado do peixe, galinhas em caixas
aflitas de pintainhos sem lâmpada quente,
advogados jovens gravatam petições e vermutes,
como eu amo tudo isto, estar vivo ao pé
de tanta água, tanta pátria.

Portugal todo de repente na professora primária
com seus patinhos de bibe em visita
à fábrica de bolachas gimnodesportivas.

A loja dos chineses sempre aberta,
o maoísmo reciclado em bricabraques de plástilástico,
ele não há feriados para esta gente multimilenar,
comem arroz e vísceras de andorinha
e sorriem em silêncio suas manchúrias
íntimas.

Casadas lusitanas galinholam cabeleireiros patuás,
canecas de louça benficasportingam escaparates,
olha o lírio de celofane a treze a molhada,
olha o caldo verde rosmaninhando alguidares,
olha o nosso Portugal-alvíssara-no-país-
-das maravilhas.

Maravilhas, quais estrelas, eléctricas:
mão que grita verniz escarlate empunha telemóvel,
vendedor de lenha palitando um molar azul,
mediador de seguros com sapatos verdes,
animais furta-cores caleidoscopiando transparências,
toda a vida trinta anos Mário Botas,
toda a vida vinte e sete anos Sebastião da Gama,
amarelo, branco, rosa, lilás, roxo, preto, branco.

As hamburporcarias pejadas de adolescentes,
a cosmogonia estatelada do pintor de paredes,
a Suíça acenando ao longe chalés e berças,
as mulheres todas iguais, todas com madeixas de hena,
ena ena,
o cavalheiro socialista empregado no banco
cheio de joanetes ideológicos,
os tomates padrinácios do senhor da cambra,
o papel branco cheio de versos para te escrever,
rumo às estrelas.

Não falta muito para que meio-dia seja,
nesta terra há menos pombos do que esperava,
ando com os bolsos cheios de pão e nada,
terei de ir ao rio panigratificar os peixes morenos.



IV. Para uma Geografia Patriótica,

nada como Versos Toponímicos ou Assim

Pombal, noite de 17 e manhã de 18 de Dezembro de 2008

1

À vossa é igual a minha vida.
Muda de sítio, tão-só.
Um quase-nada de Sesimbra,
Mafra disso um pouco mais,
meia hora de ar respirado em Santiago do Cacém,
um lapso na tristeza tido em Oeiras:
à vossa praticamente igual, portanto.

Cada dia procuro, como vós, a diferença.
Nada.
Nem à vossa idêntica mas igual é a minha.
Os mesmos frascos altos
(arroz, massa, farinha, açúcar, sal, feijão)
na similar bancada da cozinha.
O sofá mesmo ante gémea lareira,
na sala igual.

Claro que, enfim, Sesimbra, Mafra, Santiago, Oeiras
etc..

Vossa, minha, igual
e Portugal.

2

Manter casa e, em casa, prateleiras manter
com fólio-sistemas roçadores de metafísica.
Isso e ter vizinhos em caso de urgência.
No mais, uma eira e uma laranja:
laranjeira.
Gatos bailarinando cercanias domésticas,
notícias próximas relativas a promoções preçárias
(precárias),
um serviço de louça e outro de alumínios
(além de alusões vagas a montes hermínios)
– e sabedorias breves:
os bons-dias perpétuos,
as morredouras boas-noites,
o pré-congelar o tomate de tempero para mais
fácil arranco da pele em água,
a nódoa do coração que não sai nem com limão,
o nada-de-que-viemos-para-que-vamos,
da Gama Sebastião.
Isto e Setúbal, uma vez,
eram as sete da manhã.

3

A campanha de sobrevivência do país-Portugal começou
– como a toda a gente, sem excepção, acontece –
no nascimento.
Afonso Henriques, quatro onças de ouro para o Papa,
o Papa etc..
Houve depois a dupla avionética das notas de vinte paus,
o Gago e o Sacadura, o Santantónio também das de vinte
que, afinal, era de Turim,
a expedição de José Maria Eça de Queiroz à Palestina
(via Suez) – e
pouco mais.
Houve os Retornados, é verdade.
O Vasco Gonçalves a discursar em Almada,
o Prior do Crato e a selecção nacional de hóquei em patins,
o duque de Palmela e o encerramento das urgências,
o Buíça e o chinquilho,
D. Amélia e os pobrezinhos,
a Rainha Santa e os pobrezinhos,
o Tomás Taveira e a vaselina,
o António José da Silva e o imposto do isqueiro,
o Raul Solnado a falar pró Camões no alto da grua,
o Eládio Clímaco com boquinha de galinha,
o Alfredo Marceneiro a embirrar com os músicos,
o João Villaret a flanelar por Paris,
o Afonso III a lixar a vida ao II,
o Pinheiro Chagas da inelutável imbecilidade,
a sanha gástrica do Fialho de Almeida,
o Euro-2004 e as merendas nas hortas,
o Diário de Coimbra e os pobrezinhos.

Ficam feitos os patrióticos versinhos.

Canzoada Assaltante