10/07/2020

VinteVinte - 38 (I a IV)






38.

GUARIDA POR (H)ORA

Coimbra, terça-feira, 28 de Abril de 2020 (I & II) e quarta-feira (III-XI)


I

A verdade fulgura, que à luz equivale.
Vale ela ouro puro, essa é a verdade.
Não muita hei encontrado na minha vida,
mas à que encontrei eu sempre dei guarida.

II

Fiz hoje algumas arrumações, assim externas como internas foram elas. Nutri-me devagar, sem pressa andei pelo claustro confinado desta casa. Notícias, mal as vi, nenhumas tive, nenhumas dei. Umas pouquíssimas linhas me quiseram tinta & papel, não me parecendo grave o dia – nem a noite, que, entretanto desabada, prosaica se encerra.

III

O vocábulo francês rêverie não é de fácil trasladação, por assim dizer, para outros idiomas. Para o nosso, sugiro sonhambulação. Sim, joga com sonambulismo – mas em, por assim dizer, modo-acordado: ou mot-accordé. Enfim, ainsi soit-il.

IV

Em outro, que não este, quarto, outro, que não eu, inquilino. Há dossel, crucifixo & relógio na parede apainelada a folha de castanho. Cómoda pequena. Escrivaninha com tampo de correr, não-grande também. Uma cadeira, um bengaleiro, uma mesinha-de-cabeceira. Sem prateleira, os (poucos) livros ladeiam, no tampo da cómoda, o retrato sépia emoldurado a prata de uma jovem adulta: a mãe do inquilino, solteira ainda naquela composição de estúdio com enquadramento de fundo belle-époque. Deixemo-lo(s) a sós por (h)ora.

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Canzoada Assaltante