15/07/2021

PARNADA IDEMUNO - 642 a 649


 

642

Quarta-feira
14 de Julho de 2021

    Por mais leituras feitas, por mais escritas praticadas – morre-se analfabeto. Talvez por isso os ignorantes creiam tanto na vida-eterna: para eles é mera continuidade, trivial mais-do-mesmo. É escusado tagantá-los a preceito nos lombos: podem ser eles a ter razão.
    Tagantá-los? Significa chicoteá-los, azorragá-los, zurzi-los, vergastá-los, afiambrá-los, paudemarmeleirá-los. Só posso fruir o léxico – e tudo o resto – enquanto vivo. Como ontem à noite era o meu caso, podeis (já podeis, pois que me tendes acompanhado, só este ano, por 641 + 1 ocasiões) facilmente perceber a minha alegria ao dar de viseira nestas gemas: tagana, fataça, mugem, liça & tagarra – tudo sinónimos de tainha (o peixe). Tainha que é também alhures chamada – corveu (ou corvéu), galhofa, garrento, mugueira, negrão. Caramba: rica de sinónimos como espinhas, tal nadadora. É, convenhamos, de debacar analfabetos.

643

    Esta é a minha veniaga, outra não tenho, posso ou quero. Não a quero, sequer posso ou terei por incompta, grosseira, rude, sem finura. (Disse-a veniaga – e é-o, mas não sei mercadejá-la, não sei. Escrevivo de borla, com ou sem remédio, é conforme não sei o quê.) Enfim: que não seja, prosa ou poesia, mera alografia.

644

    Aqui muito perto, descida a ladeira quási rectilínea que une o meu promontório à avenida, dormem homens ao relento sob a via-rápida assente em pilares maciços como a miséria. Vejo-os amiúde. Documentam eles as maravilhas-do-progresso. Partilham algo de lixo & anjo ao tempo mesmo. O que (des)fazem, e como, e desde quando – não sei. Valem-me de espelho, mais vezes até do que é confortável pensar. Por isso, passo já à entrada seguinte.

645

    Fake-news: “Bolsonaro internado com obstrução intestinal”.

    Facto-vero: “Bolsonaro É a obstrução intestinal”.

646

    Edinburgh, ano antigo. Uma Rua de Santa Maria. Bares com pista circular de dança. Uma noite fria, muito depois de Arthur ter vindo estudar Medicina, mesmo muito depois. Fria & escura, a noite nova na velha cidade. E a tragédia golpeia, jovens desaparecidas, nenhuma sensata esperança. Duas mortes por & para nada. A história exigiria um escritor mais seco, mais árido, menos dado a ornatos barrocos – não me pede, pois, autoria.

647

Pedra-de-toque dos meus dias
A luz mede também o poço
Do que vejo, do que não & do que ouço
À sombra mesma das noites frias

Frias por dentro algumas vezes
Por fora em brasa agressiva
Matéria da memória viva
Doçuras candentes, pessoas soezes.

648

    Tivemos o 25 de Abril, somos livres.
    Isto no geral. Já no aspecto particular, não é bem assim. Na verdade, pessoa nenhuma é – ou está – livre: do coice de uma besta.

649

Descaroável série de sociopsicopatas.
Muita dessa merda-bípede no mundo.
Tomai uma: Angus Sinclair, fideputa.
Não há, mas deveria haver Inferno.
O de Dante não basta.

14/07/2021

PARNADA IDEMUNO - 637 a 641

© DA.



637

Segunda-feira
12 de Julho de 2021

    Imagens de há meio-século. Jovens de então expressando desejos artísticos que, seus, querem tornar viáveis a outros. Ainda o 25 de Abril não acontecera. Cinquenta anos volvidos, são vivos alguns. Filmados a trabalhar, a depor, a fazer-em-frente. Reconheço um. É de obra-feita. Este género de imaginário tem sempre a minha atenção. Vejo. Revejo. Noto. Anoto. Conheço. Reconheço. O meu País (ainda) tem validez humana. A maioria não alcança reconhecimento – aplauso ainda menos, gratidão ainda menos que aplauso.

638

    José Macedo Galopes Mosteiro, com vivenda beira-fluvial. De & por suas mãos fez a cobertura do terraço à face do salgueiral. Ajudei-o na empresa como servente-de-obra & achegador-de-materiais. Concluída a coisa, o espaço tornou-se um reduto por que perpassava em fio o frémito feliz do sossego. A meio da tarde, o Sol deixava de agredir o recinto, subindo do rio a sombra líquida. Vinha de dentro o jarro de limonada muito verde, muito ácida, muito apedrejada de gelo. Conversávamos, fumando cada um seu lento cubano. Aí lhe contei alguns parágrafos ainda por escrever & por prescrever. O seguinte foi um deles:

    Em uma encruzilhada do subúrbio nordeste, um estabelecimento de refeições-ligeiras com serviço de esplanada. Marcou-me ali encontro a professora Isabel Maria Osório Amaral. Era para uma entrega, dela a mim, de provas tipográficas para revisão integral & final – tese de doutoramento sobre o crédito rural no limiar do século XX português. Muito interessante (achei eu porque sonhava). Apercebi-me da presença de Itália Maria Lagar Novas, à minha esquerda e atrás, sob a latada de gardénias infiltradas de cravos. Estava com o marido, duas amigas & uma pequenina. Não nos falámos – não por voluntária descortesia mútua, isso não, mas porque ela nunca me viu nos dezoito minutos de película onírica. E quem diz os dezoito minutos – diz o mesmo de toda a vida até então, essa de nos casarmos cada um por seu lado.

    José M.G.M. achou-muita-gracinha-achou ao meu devaneio de adormecido. Disse ele também tê-los – mas com feéricas desconhecidas, dessas sem telegrama de vinda nem verbete de adeus-foi-quase-um-prazer.

639

Terça-feira
13 de Julho de 2021

    Há menos invenção do que podeis talvez julgar no que acumulo em papel riscanhado – a meu ver, é mais jogo de criação/recriação/recreação o que aqui (se) passa. Exemplo: também a Eduardo Mateus Monda Norton contei farrapos de sonhos que dormevivi. E até lhe disse – em franco aparato de verdade – que já detestei sonhar, mas que ora nem tanto. Aquele, contado a Mosteiro, das/com as senhoras Isabel & Itália – sim, vividormi-o em uma espécie de êxtase anestesiado, por assim dizer. Ou narcomesmerizado, palavrão capaz de dizer (d)a minha condição estatutária no enred’onírico em causa.
    Eduardo, que é atento como é atencioso, disse-me dormir muito – sempre que pode – mas sonhar pouquíssimo. Nem ele nem eu atribuímos qualquer valor ominoso, profético ou coiso aos sonhos. Sabemo-los clarões da mente a menos de meio-gás, tão-só. Nada de jung-freudismos-de-quinquilharia para senhoras malcasadas e/ou poetas-de-croquete.

640

    O pensamento pensa-se a si mesmo.
    Parece-me admirável maravilha.
    Não me interessa a auto-sentimentalidade.
    A mentalidade importa; a sentimentalidade, nem sempre.
    Penso o pensamento por adentraforatravés.
    A pessoa existe nesse processo-em-pessoa.
    E nessa fronteiriça interacção constante com o além-corpo.
    O próprio riscanhar no papel: interior em ideia, externo em consequência.
    Deixar que muito entre em troca pelo muito que sai.
    O Carlos Celeste na choupana, sua base agrícola de todo(s) o(s) ano(s).
   Encontrei-o à porta da churrasqueira, gracejámos um pouco, gostámos de revermo-nos. Falámos de outros anos, de como vão as saúdes de gente nossa afim.
    Houve ali perto um armazém de gás, outro de conservas alimentares. Morou ao lado um canteiro com mulher, três filhos & uma filha. O matadouro. A camionagem. A fiação. O aviário. A cantaria. A escola. O pavilhão. A ladeira que sobe à casa de um réprobo. A escola para cegos. O tanque no bosquete, o bosquete, a passagem-de-nível.
    A enumeração precedente não é, toda-ela, exterior-em-si: é pensamento, é(-me) íntima – por vir & ser palavrosamente.
    Cá está: palavrosa mente.

641

Cada dia, em cada elemento, busca & quietação irmanam-se.
Como indivíduo, abarco finalmente a escassez & a libertação.
O que poderia ter sido – deixou de ser tema sequer de minuto.
Não tenho Verdurins que frequentar – nem desejo de.
Diminuto há-de tornar-se o não já imenso mundo.
A imundície impera sob a pátina, o esterco no sabugo envernizado.
O extremismo climático tem os seus colabora’nega’cionistas.
Não sei (ainda) que seja ter netos – mas receio já por eles.
Há por enquanto remédio: visitar & revisitar tesouros.
São estes de diversidade magna, é bastante a variedade rica.

Ainda que mínima, qualquer comunicação efectiva é preci(o)sa.
Patinha-se no éter, como aquando se era adentro a placenta.
Dessa solidão visceral há talvez sulcos de sombra no adormecido.
Como ir à Holanda sabendo-se lá esperado por algo & alguém.
(Sim, a imagem do verso anterior não carece de nitidez maior.)
Ou: como saber & praticar matemática, latim, botânica, carpintaria.
Ou então: saber & praticar algo & alguém.
Cada noite, entregamos o corpo ao desconhecido amanhã.
Ninguém sai ileso de cada véspera sua.
Na África do Sul, saques & morticínios: humor-negro, ao que dizem.



13/07/2021

PARNADA IDEMUNO - 634 a 636

© Varela Pècurto


634

Domingo,
11 de Julho de 2021

    Faço que & quanto posso para impedir que a superficialidade & a frivolidade não tomem de assalto o produto papeleiro que diariamente babujo. Tenho sempre tal em mente. Já encontrei coisas não-superficiais & não-frívolas. Fui por elas. Ainda vou.
    No entretanto, abriu-se às sete da manhã o Domingo. Enquanto dactilografava, Vivaldi revivia. Maravilha. Muita gente por o mundo o tem por tesouro seguro. A música (digo: a Música) dele continua a florescer em milagre quotidiano. Com a nova maquinaria do século XXI, é imediatamente gratificante & gratificantemente imediato o acesso à Obra descomunal deste homem ímpar.
    Ao cabo da dactilografia, boto-me a ler uma colecção de trechos que juncam a caixa encarnada (de papelão sapateiro) ao canto do sofá. É material de diversas espécie & índole. Às nove horas, repouso um pouco as oftálmicas. Mas Vivaldi ainda não pousou o arco, felizmente.
    E depois vejo & ouço Adele Dixon cantando Magic Rays of Light. É já na plenitude vesperal do Domingo, o programa é agradável. Depois, um plano (breve) de Berlin/1930. As máquinas-do-tempo trabalham em quase-perfeito silêncio, o que as não impede de fazer jorrar (as) História(s). Atrai-me compreender o que no passado pensavam do futuro. Os sinais/indícios maturam a compreensão. Adele Dixon terminou a canção, Berlin já atravessou mais 91 anos.
    Por outro canal, vi o nadador no lago da montanha. Acercou-se-lhe depois a nadadora. São pessoas que têm & mantêm ali perto um bungalow. Sempre que podem, desertam da Cidade & instalam-se naquele reduto basicamente apetrechado. Podem fazê-lo, fazem-no. Não por escapismo – mas por reencontro consigo mesmos em um ambiente não-degradado.
    Em carreira de três horas, segue destino o professor de Desenho. Tem mais quatro de contrato – depois se verá o quê, para onde, não interessa. Ele não antecipa. Vai sendo, acontecendo, desenhand’andando. É esperto, não é frívolo nem se fi(c)a pelas/nas aparências, desenha em profundidade & altura.

635

    Um DiMarco telefona de Veneza, atende-o em Paris a sócia Cuca. Combinam a transferência de dinheiro na quarta-feira seguinte. Desligam. DiMarco janta no hotel, Cuca sai com amigos. Enquanto se dá o telefonema acima exposto, segue de comboio, no sentido Campanhã-Santa Apolónia, Ataíde. Conseguiu chegar a tempo, por muito pouco não perdia a viagem. Ninguém o espera em Lisboa. Quando a composição pára em Coimbra-B, descem Sara & Martinho, estudante de Química ela, praticante de farmácia ele. Têm adiado o casamento por causa da praga-viral. Espera-os o pai do rapaz, ajuda a futura nora com as malas, seguem de Opel Corsa até aos Olivais, onde Sara tem quarto arrendado. À passagem pela António José de Almeida dão prioridade ao peão já a um terço da passadeira. É o velho doutor Sepúlveda, cirurgião aposentado, a caminho de Montarroio. Quando o idoso chega à porta de casa, já DiMarco se deita na seda especiosa da cama hoteleira, já Cuca decide fazer o mesmo – mas sem ser em seda & com um tal Jean-Luc, dizem que sobrinho do Alain Delon, peta recorrente dos engatatões da Ville-Lumière.

636

    Uma noite de tempestade impõe humildade aos pretensos donos-desta-merda-toda: os seres ditos humanos. É sensato respeitar a Natura – temê-la, não é covardia. Estragá-la, é.



PARNADA IDEMUNO - 631 a 633



631

Sábado,
10 de Julho de 2021

    Falam de uma senhora (E.M.) bonita que morreu em & de sofrimento prolongado. Foi dona de si mesma, ao que percebo. Não sei se subsidiou a felicidade de alguém – dizem que sim. No fim, pura exaustão a terminou. Acabado o programa, outro em momentos se lhe segue – e diz-se que é sempre assim.

632

    No curso da tarde do Sábado, é referida a existência de um casal de robusta planta financeira. Reside o par no bairro (muito) chique de Paço-Félix. Tanto ele como ela provêm de uma povoação litoral deveras longe de qualquer centro urbano de mor dimensão. Conheço essa povoação, morei nela quase um ano. [E adormeço – não ingloriosamente aliás, com a procissão da história no adro textual (…)]

633

    Em outra quinta-feira, as existências nesta Cidade fervilhavam em plena normalidade. Um rapaz de família empobrecida procura emprego, leva um papel em que o nome e o endereço do advogado pulsam como sílabas de oráculo. O casado Leonel Baptista entra no Santa Cruz para café & um telefonema à amante. Na Visconde da Luz, o do quiosque deposita na calçada, rente à fachada, as caixas com a livralhada em segunda-mão, a aranha dos postais-ilustrados, a Bandeira Nacional, um vaso com gladíolo. Cheira a sardinha fritando na Rua da Gala. Na dos Sapateiros, o cedo Eduardo já ocupou o poiso. O senhor Rodrigues franqueia a sapataria. O Sandokan cauteleiro brada pela Praça Velha. Plena, invejável normalidade.

PARNADA IDEMUNO - 624 + 626-630

© DA.


624

Sexta-feira,
9 de Julho de 2021

    No país dos carreiristas-carteiristas, encontra-se detido o presidente do meu pobre Benfica. Já preparam, os sobreviventes, a sucessão: parece que querem entregar o leme da grande barca ao Rui Costa, equívoco príncipe-real de um Clube que não deveria ser uma monarquia. Nem uma monarquia, nem uma república-de-ou-das-bananas. Mas é. E é as duas coisas, hélas!

(...)


626

A humanidade é tão capaz de um
Leonardo di Ser Piero da Vinci
quão de um
Peter Norris Dupas.
Assim é, sempre foi, há-de sempre ser.

627

Em outro plano ou dimensão
Sou feliz sem pensar nisso
Talvez V. tenha sido assim também
Alguma vez no V.º caminho
Oxalá que sim.

Partes da Austrália há
Que gostaria de ver & percorrer
Da Noruega a mesma coisa
Não é provável todavia
Satisfazer tal gosto.

Neste quarto mesmo
Depravação & maravilha coexistem
Devidamente número-paginadas
Infinita criação autoral
Me entretém o purgatório.

Adriana da Caridade
Atacada sexualmente
Ante a campa da avó
Era pelas quatro da tarde
O calor sufocava o Tempo.

Gargalhadas infantis vivificam
A rua pela matina antiga
Era noutro século & eu
& eu um de tais infantes
Não me procureis senão lá & então.

Em outro plano da dimensão
Etc.

628

Fulham, London.
Julho de 1986 (dia 28?).
Suzy Lamplugh desaparece.
Quem era “Mr. Kipper”?
Qual a sua realidade, além de nome na agenda de Suzy?
Ela mediava aquisições no ramo imobiliário, acho.
Enigma acrescido: o carro da desaparecida é detectado:
na Stevenage Road (SW6, London Borough of Hammersmith and Fulham).
É a milha & meia do apartamento que ela agendara para mostra.
Um chapéu da rapariga permanecia, mas sem dona, na viatura.
Matrícula desse Ford Fiesta: B396 GAN.
Não deve ter sido ela a conduzi-lo e a estacioná-lo (mal estacionado).
Carro não-trancado mas sem chaves.
Nenhum indício de luta no tal apartamento agendado.
Bonita era Suzy, de clara bonomia sorridente.
Família ingressa em desespero.
A polícia-metropolitana apela ao público para obter pistas.
Quanto mais horas/dias passam, pioram as perspect’expectativas.
Nenhum suspeito determinável, demasiados quadrados sem X.
Beco-sem-saída, especulações, o irmão Richard teme o pior.
Agonia. Desconhecimento. Um fundo caritativo é criado em seu nome.
Visa protecção-em-vida de potenciais vítimas de crime(s).
A época de 80/XX não é só charme.
Em Londres, o IRA anda activo.
Há grandes assaltos, também.
Os anos empilham-se & dissipam-se como toros apodrecidos à chuva.
Catorze anos, circa fins de 1999, inícios de 2000.
Pululam & fervilham teorias, hipóteses, especulações.
Suspeita-se de um John David Cannan.
Uma jovem de 29 anos, Shirley Banks, de Bristol, desaparecera também.
Foi em Outubro de 1987, um ano & pouco depois de Suzy.
O nome & a figura de Cannan começa a ser recorrente.
Tem olhos de tubarão, porém azuláceos: duas pedras-de-arremesso.
Na prisão, Cannan é conhecido como Kipper.
Mas o sistema permitia-lhe sair para trabalhar.
Fôra vendedor de carros, julgo.
Parecia ser de boa-compleição, vulgo eucrasia, mas de falso cavalheirismo.
Rejeitado porém, recorria à agressão sexual.
A zona de Somerset é buscada, em demanda de Suzy – em vão.
O Suzy Lamplugh Fund (Live Life Safe) ainda funciona.
Já auxiliou milhares de pessoas em risco.
Sim, a família de Suzy revirou a sua desgraça própria em graça alheia.
Os stalkers passaram a ter mais dificuldade na sua arte.
O caso continua em aberto.

629

    Dois homens conversam numa sala-de-projecção. Um é cinéfilo, o outro é seu fornecedor. O anfitrião, muito rico, encomenda dois filmes ao seu convidado. A sala é na cave da mansão. As películas em questão não são obras de ficção – mas sim home-made-movies. Cenas domésticas & felizes de famílias entretanto extintas. Por que as deseja o milionário, não o sabe nem quer sabê-lo o outro. Acordam o preço, que duplica se a entrega se der antes de um mês a contar desta noite. Voltarei a este assunto? Ainda não sei.

630

    Quando, dadas já as 23h00m, me disponho a uma hora de documentário criminal (A Surfeit of Cyanide: The Murder of William Murfitt, 1938 – by Mark John Maguire), tenho essa vagamente perturbadora sensação a que se aplica a estrangeira justaposição – déjà-vu. Depois, passa. Passo às anotações: 8h30m, 17/5/1938 (3.ªf.ª). o senhor Murffit morre de uma dose cavalar de cianeto-de-potássio, que alguém pôs na lata de sais (Fynnon Salt). O médico cheirou a lata: amêndoas-amargas, odor inequívoco. Autópsia no West Suffolk General Hospital. William M. nascera em 1882 e casara-se em 1903. Muitas fotografias. Muitos dados. Muito interessante. A última hora da sexta-feira torna-se-me, por conseguinte, boa de viver.



12/07/2021

PARNADA IDEMUNO - 614 a 619

© DA.



614

Quinta-feira,
8 de Julho de 2021

    O topónimo Camberra já surgiu hoje no recinto rectangular continente de papéis dedicados a lugares. Brisbane também. E Brookfield. Há um contentor para nomes/datas ao lado dos mapas: Allison/2012; Barros/1972; Clay/Abril?; Debbie/1942. Há um balde com recortes algo pueris: utensílios, veículos, marcas industriais, flora, marcas comerciais, religiões, cores, selos, aves, batalhas, catedrais. Alicate, Datsun 120 Y, Vaqueiro, Gerânio, Nicola, Coprofilismo, Amarela, Queen Elizabeth II London 1952, Pisco, Ardenas/Bulge, Köln. Entre as folhas de um jornal morto, um nome sem contexto: Derek Percy. Outro: Gerard Baden-Clay. Victoria. Perth. Dupont. Montblanc. Landowner & Squire. Cinda Goes. Linhas mais extensas relatam as buscas pela esposa desaparecida, Virginie Creek-Mell. Em a cozinha, uma refeição interrompida: fotos, indícios-ADN, demais buscas. Kholo, jogador de vólei, pintor-de-paredes depois de retirado. Pode ser da natureza dos arquivos a tentação labiríntica. Timótea, mulher de Kholo, faz limpezas full-time no Centro Comercial Asdeyzis. Victor Sílvio contrata apólices de seguros, mormente no ramo Vida. Tem havida, perdão, havido complicações na natureza equívoca de alguns óbitos: causas naturais?, suicídio?, homicídio?, acidente?, incidente? V. Sílvio pensa mui seriamente em mudar-se para a pastorícia na vertente-poente da Estrela serrana. Em punhado, pode tudo parecer (& ser) fútil. Fragmento a fragmento, todavia, a Beleza (que pode ser útil também, nada obsta a que o seja deveras) pode brotar: crianças saltando em dunas branco-douradas; reflexos à impressionismo do sol-cadente na pele do lago; obras limpas, respeitadoras do ambiente, propiciando energia & saneamento; o número de telefone (muito antigo, de cinco dígitos apenas) da casa de Elisa & Raul. Mas também: destroços de casamentos falhados da raiz ao fruto passando por flor nenhuma; aquele tão malformado agente de polícia armado em best’armada; o carecazito que se pensa doutorzeco-de-lixeira-a-céu-aberto (mora no 2.ºB do prédio da Clara Craveiro Getúlio Rocas, aquele azul em cujo rés-de-chão opera a sucursal do Victor Sílvio). Então, as coisas prosseguem: Setúbal; David/1900; martelo, Toyota Corolla etc. etc.

615

    Fernando na sala, Joy Division (Les Bains Douches) a rodar na aparelhagem, na rua um sol vivo, muito cru. Segue-se The Cassandra Complex (Power). Hoje-Há: Canja de Galinha Perfumada a Hortelã; Red-Fish Assado no Forno com Toucinho & Batata-Pequena; Arroz-Doce; Chá de Menta. Na Cidade, já aconteceu a encortiçante algarvização-para-inglês-ver que vai da Portagem à 8 de Maio.
    Mário pensa sair um pouco, apanhar o das 17h15m, voltar no das 20h00m talvez. Ouviu dizer que para 9 & 10 próximos o calor vai ser proibitivo.

616

Na mesa à esquerda da minha, falam de Pirandello:
como se andassem, os falantes, à procura-dele-Autor.
Eu, por mim, espero um velho Amigo, Godot.

Armazenista de bacalhau & de hortícolas, Eduardo Ramos:
vice-presidente da Associação da sua terra, honorário cidadão.
Casado com Maria Alice & amásio de Alice Maria: homem de simetria.

Mário sempre saiu um pouco, viu uma pouca de mundo.
Em um terraço alto, senhora alta de estampadas flores brancas.
Flores brancas sobre azul-ferrete, azul-ferrete sobre senhora.

(Já antes escrevi tercetos, mas não muito.
O quarteto é de outra estirpe.
O terceto tem seu quê de ajaponesante.)

Hoje, durante o duche, ocorreram-me versos de Herberto Helder.
Poderosas linhas, de não-plural singeleza, relojoeiras.
Já esfregando-me a toalha, fingi esquecê-los/as.

Mário, alter-lego.

617

Evoco uma espécie de felicidade partilhável mas indivisível
Essa de quando a vida dava luz como as árvores dão sombra
Aquela talvez de quando nem nascidos éramos mas já vínhamos
O nosso pai fez aquilo à nossa mãe & eis-nos brotando brutos
Ávidos de ar, teatros, luzes, versos, máquinas, laranjas frescas

Amo tão poucas coisas agora que as amo talvez de mais
Nunca fui de equilíbrios, eu ou oito ou oitocentos
Tudo ou nada, norte ou sul, às refeições & fora delas
Vai passando o Horácio à trela da mulher, danada dama
São felizes assim, mas não a tal felicidade evocava eu

Evoco uma espécie de felicidade
Etc.

618

Brilha o ouro da tarde anónima & eu a pensar no meu Pai
Eu a pensar na bondade macerada desse homem finalmente em paz
Perto dos sessenta anos começo finalmente a saber lê-lo
Antes não sabia, apenas intuía.

Antes não soubesse, antes não intuísse.

619

No poema anterior voltei a chagar-Vos a mote do senhor meu Pai
Não me leveis a mal, sei que amor-duradouro não está em moda
Se quiserdes, mudo de tique, chago-vos a mote da mulher dele
Sim, a Dona Hermínia, minha Mãe, já lá mora, coitada
Mais do que a ele-Pai, custou-lhe a ela-Mãe morrer
Decerto pelo vício incurável – mas curado – que (man)tinha de viver.

Sou algo interesseiro quanto ao Casal exposto na primeira estrofe
De certo entendimento de humores entr’eles nasci eu afinal
Fiz as contas, terá sido certamente no tórrido Agosto de 1963
Talvez pela fresca da madrugada um dos dois, talvez ambos
Um dos dois do outro se acercasse & murmurasse
(Se tiver sido ela) Pedro; (se tiver sido ele) Inês.

E depois é que Era Uma Vez,
Eles os Dois Mais Eu = Três.

11/07/2021

PARNADA IDEMUNO - 609 & 611 (duas amostras para conclusão do 7-7-2021)

© DA.


609

    Certa ocasião, escrevi uma carta para cujas linhas jamais me chegou resposta. O Tempo encarregou-se (é deletério ofício, o dEle) de delir qualquer importância que o assunto pudesse ter. Anos volvidos, ocorreu-me de repente averiguar em torno da situação da pessoa destinatária de tal minha carta. Assim foi que soube ter ela morrido uma semana antes de eu depositar no mar a missiva que se lhe dirigia.
    Se este caderno for publicado depois da minha hora-terminal, a perspectiva será a inversa: alguém vivo lendo o que um morto teima em recordar – e que consiste em, vivo, escrever (par)a mortos.

(...)


611

    Aconchegado na cama de infante, sentia o vento despassarando a nespereira. Era por vezes forte a sério, a comoção eólica. A árvore, brava, resistia. Outras noites, o plenilúnio mercuriava a nocturnidade. Era sempre bonito, tudo – a começar pela minha idade mesma.
    Já não durmo a quatro metros da nespereira. O vento é aqui outro, como outra a idade que perfaço. Ainda a Lua dá de si – mas também essa hóstia-pomes envelheceu: já nem os astronautas a querem. Menos mal, tenho ainda cama & roupa a que me aconchegue.
    Razão tinha – e tem – o velho Lavoisier.



10/07/2021

PARNADA IDEMUNO - 606 a 608 (ainda na quarta-feira, 7.7.2021)

© DA.


606

    Autores portugueses, ora já defuntos (há pouco ou há muito), há com quem eu gostaria de ter conversado em presença pessoal. Fi-lo, por pouco tempo embora – e uma vez só – com os valiosos Manuel da Fonseca & Armando Silva Carvalho (este último teve mesmo a supina gentileza de me oferecer, via CTT, o seu O Amante Japonês). Com José Saramago, duas: uma vez em Coimbra, por os meados de 80/XX, e outra quando o apresentei ao público na Feira do Livro de Pombal, julgo que em 2001, por aí. Com o grande Ruy Belo, nunca. O Poeta morreu no exacto dia em que completei 14 anos & três meses de nascido: por conseguinte, não seria talvez de grande interesse, para ele, o que eu tivesse a dizer-lhe ou a perguntar-lhe. Com Herberto Helder, outro grande, não sei se gostaria. Com Fernando Pessoa, o mesmo. Talvez gostasse de conversar com Vergílio Ferreira. Idem com Mourão-Ferreira. Penso que com Fernando Namora nem sim nem não, só talvez. Com Torga, nunca-em-tempo-algum. Com Eça, sim. Com Camões, sim. Com Bocage, conforme o que um de nós dois tivesse bebido. Com Luiz Pacheco, não propriamente mas também nada contra. Com O’Neill, sim. Com Cesariny, hum, não. Com Nuno Bragança, sim. Redol, idem. Soeiro, também. Cesário & Pessanha & Wenceslau, decerto. Aquilino, não sei. Com Ramalho & Teófilo, não – pela estupidez com que destrataram o genial Cesário Verde, já mencionado supra. Com Sttau, sim. Com Alçada, julgo que também. Com Cardoso Pires, não sei, gosto pouco de levar cabeçadas nas fuças. Com Fialho, hum, népias. Com Mário de Sá-Carneiro – nunca me ocorreu. Com Almada, se calhar não. Com Camilo, não sei mesmo. Com Gaspar Simões, não. Com Régio, talvez não. Com Branquinho da Fonseca, talvez sim. Com Afonso Lopes Vieira, sim. Com Joaquim Paço d’Arcos, não. (Lembrei-me, agora mesmo, de já ter falado com Mário de Carvalho, mas este é felizmente vivo ainda – embora a conversa tenha sido por meros instantes e num contexto escolar.) Com Rodrigues Miguéis, sim. Sim, tomaria chá & torradas com Correia Garção. E com Raul Brandão. Com Castilho, ná. Com Antero, hum, hum, talvez nim. Com Oliveira Martins, sim, acho. Incógnita total quanto a Sá de Miranda, António Ferreira, Rodrigues Lobo, João Roiz de Castelo Branco, Martim Codax & D. Dinis. Com a besta do Pinheiro Chagas, nunca. Com José Gomes Ferreira, falou o meu Irmão Zé Daniel. Ah! Gostaria – muito – de ter conversado com Dinis Machado.
    E com António Osório – sim, muito, que vivo segue o mais felizmente.
    Quanto a mulheres-escritoras, é curioso – nunca falei com nenhuma que fosse autora relevante. Nunca falei com Agustina. Nunca, como?, com Ana de Castro Osório. Nem com Fernanda Botelho. Nem com Maria Velho da Costa. Nem com a fatal Espanca. Com a Natália, acho que não, não teria grande coisa a dizer-lhe que pudesse interessá-la para lá da boquilha longa.
    Enfim: se eu estiver errado & o papa Francisco, certo – lá nos veremos todos no Purgatório, venham daí esses ossos.

607

    Há a História de antes de Cristo & a de antes dos Cristãos. Não são a mesma coisa. Basta pensar na América pré-Colombo – e no que, em nome do tal Cristo, lhe sucedeu depois. Aplique-se o mesmo raciocínio – ou critério – a tudo o resto: a começar por África, naturalmente.

608

    O papel é diverso espaço-tempo quando escrito.
    Diverso de diverso, quando por escrever.
    A existência comum-quotidiana segue outras regras.
    Na despensa, as duas prateleiras superiores têm livros.
    As inferiores, mantimentos & outros produtos.
    O chão, batatas, azeite, água, acessórios de limpeza.
    O prazo-de-validade da História Universal (título hiperbólico, pois os vinte voluminhos são todos de terreno-planetária circunscrição) do Carl Grimberg, por exemplo, diverge do do azeite. O azeite (mas não este, NB) já era antes do sueco Grimberg – mas este (o azeite) conheceu menos sítios do que os factos interpretados pelo historiador. Na prosa grimbergiana, a bondosa Florence Nightingale (“may she be free from strife”) continua lamparinando, noite adentro, os moribundos da Guerra da Crimeia; perto dela, a ensaística sergiana faz as delícias dos polemistas em pleno Estado (dito) Novo; abaixo de Florence & de Sérgio, café, atum, óleo, pimenta, lava-tudo & uma vassoura de cabo rachado.
    O papel é diverso
etc.



PARNADA IDEMUNO - 601 a 605 (continuação da Quarta-Feira, 7 de Julho de 2021)

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601

Movimentos singulares são o que mais cativa a minha atenção.
Desde menino que sim, por alguma razão de meus miolos.
O recurso ao verbo cativar tem alguma coisa de petit’princ’exupéryano?
Pode ser que tenha, agora que releio o primeiro verso – pode bem que sim.
Movimento buco-facial da pessoa que vejo (mais do que ouço) falando-me:
cativa-me o como diz o que diz, mais do que o quê ou o porquê.
Como os lábios ondulam, como os dentes chispam, como fremem as sílabas.
Como os maldosos se espalham de imediato: entre sobrancelhas & narinas.
Como os ingénuos se desnudam por inconsciência de sacrifício.
Como o silêncio-voluntário pode relampejar o mais fragorosamente.

A boca da meteorologista ameaçando caloraça quarent&talcentigradeira.
Os olhos do rapaz acometido de síncope em pleno relvado desportivo.
O desenho das letras publicitárias que emolduram o recinto.
A homossexualidade privada ser tão diversa da paneleirice-em-desfile.
O profundo vácuo chamado sentido-da-vida, toda ela, sob este céu.
Ainda assim, tudo apalavrável, digamo-lo assim, ainda que assim.
Singularidades cativantes, enredos na aparência quietos.
Paixões assolapadas que, uma vez assoleimadas, se assamaram.
A rapariga dinamarquesa beijando o beija-flor: redundância, pois.
Essa belida chamada crescente-esquecimento – de mim por ti, sim.

602

    Apareceu de lábios lacrados a verde, cosmética de pretensa irreverência – afinal, de muito mau-gosto apenas. Era às portas da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra. Uma segunda-feira. Eu tinha ido às Letras tomar café, torrar um pouco a saudade de ali ter sido feliz entre 15 de Novembro de 1982 (segunda-feira) & 22 de Maio de 1986 (quinta-feira). Café tomado, fumado cá fora o cigarro, dei de caras com a tal boca esverdinhante. Pertenciam tais beiças a um carão fêmeo de má-catadura aparente – mas só aparente, pois que Alice Amélia Rebordão Gamarra se me revelou um açúcar-de-pessoa. Eu lia então a tese de Pierre Nordon sobre a vida & obra de Arthur Conan Doyle (Sir). Ela investigava os anos macaenses de Camilo Pessanha. Conhecemo-nos, simpatizámo-nos, tornámo-nos amigos. Depois de desesverdear a boca, casou-se com um hidrómetra de ricas (mas não boas) famílias. Eu também me casei nos entretantos ulteriores: primeiro, com Maria da Glória Sanjoana Temuda; depois, com Maria da Anunciação Teles Braganza, Maria do Patrocínio Galvão Charneca, Maria do Lado Basílio Noronha, Maria da Nazaré Sanjoana Temuda (irmã mais nova da minha iniciática) & com Maria do Sumiço dos Santos Abrunheiro, tenda esta última – o mais felizmente – feito jus aos nomes-próprios seus, pelo que aqui me revejo, e me V. como tal apresento, solteiro & muito bom rapaz.

(603)

    (Acabo de perguntar a mim mesmo se o que escrevo nestes tantos cadernos tontos não poderá um dia – naturalmente póstumo no que me concerne – ser reunido sob o título, aliás justo, de Sobras Completas.)

(604)

    (Não penso responder ao exposto no 603.)

605

Uma coisa é fazer, das tripas, coração.
Outra é fazer, das mesmas, miolos.
Eu é que bebo mas és tu a ter mais-fígados.
E sim, amores perfeitos, só os há, e com hífen, na Botânica.
Vai, por isso, ao produto do que pensas.

PARNADA IDEMUNO - 599 & 600

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599

Quarta-feira,
7 de Julho de 2021

    Colecciono instantes de puro deleite & de imediata gratificação hedonista de que zero me arrependo. Tais momentos configuram, memoriais & memoráveis, comemoráveis & autocomemorados, toda uma galeria (alegria) por assim dizer fílmica a que retorno sempre que certa espécie de melancolia quer galgar-me.     Sei-os irretornáveis – mas tal lucidez só mos agrava & entesoura. Cheiram alguns a pinhal, traspassada a hora arbórea por brisa nocturna. Rio ou mar próximos, tantas vezes também. Diversa comparticipação ofereci ao que se me dava fruir. Levar & trazer, é comércio transitário & transitório que substancia a dinâmica, agora verbalizada enfim, vivíssima.
    (Com esta prosa, materializo um mecanismo/artefacto/expediente/instrumento/ferramenta/utensílio/dispositivo de sobrevivência: em fase má, recordar boa. Em fase neutra, é deixar andar.)

600

Tony de Matos interpreta uma canção a preto-e-branco.
O arquivo encontra-se em razoável condição de preservação.
Depois do cantor, um autor apresenta o seu novo livro político.
Segue-se-lhe um compositor que brilha na etnografia musical.
Mortos, todos.

Planos aéreos do Vale do Tejo, primeiro; depois, dos Campos do Mondego.
Aspectos de uma povoação de predominância agrocultivadora.
Aspectos de um bairro de predominância fabrilobreira.
Uma filarmónica: ensaio filmado conforme combinado.
Permanência & duração.

A fugacíssima actualidade tenta dar luta aos arquivos.
Mal ela sabe quão pouco de si merecerá memória-futura.
No Haiti, mataram o presidente, parece que a tiro.
Na Holanda, atentaram contra a vida de um jornalista.
Em Lisboa, detiveram o senhor que tem presidido ao SLB.

Tudo coisas a que prefiro, de longe, Tony de Matos.
Também um tal “Rei dos Frangos” foi detido.
Parece que por causa de imbróglios roubalheiro-bancários.
Aquele esquisito da art’esquisita também berlind’anda.
É a espectacularidade pindérica da corrupção-em-flor.

Tony de Matos, Artur Garcia, Rui de Mascarenhas, Carlos do Carmo
– todos são hoje arquivos-vivos de uma época.
Na correnteza das décadas, memória & esquecimento brincam.
Brincam às escondidas, jogam à macaca, ao catrapónei-vai-o-pónei.
É um esquema de marés sem lua, por assim dizer.

Hei café fresco na cozinha, a médica não mo interditou.
(Se calhar, esqueceu-se de mo dizer; e eu, táctico, de lho perguntar.)
Na mão-dextra de Tony de Matos, um belo cigarro-filtro.
Na mesinha (de ferro pintado de branco) ante si, whisky & água-gás.
E a canção diz a uma mulher que se vá a par de outra. Lindo.



PARNADA IDEMUNO - 591 a 598

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591

Terça-feira,
6 de Julho de 2021

    Há um pouco mais de meio-século, escrevia Nuno Bragança in A Noite e o Riso:

    “(…) há na escrita a fúria meticulosa da subversão que recusa à Ordem falsa a própria seriedade.”

    São palavras adequadas ao presente em que foram escritas, ao pretérito-recente que pretendiam obliterar & ao futuro que se fez hoje. Digo eu – mas a obra citada é muito melhor do que qualquer coisa que eu diga: sobre ela e/ou sobre outra coisa qualquer.

592

    Noite antiga, ígneo azeite em lamparina, Lua causticando de sua viva cal as ossadas defuntas nos ontens de séculos-por-séculos.
    Casebres em que arde o magro graveto colhido do pinhal do rico, ausente em Lisboa oxalá que para sempre.

593

Tive hoje notícias de certa mediocridade autobeatificada
Novas (afinal) velhas de certa mesquinhez autocanonizada.

Porque essencialmente rapaces mas covardes também
Os abutres só atacam vivo o moribundo sem autodefesa.

Sinto profunda repugnância por afins noticiários
Mas faço que desconheço & me calo, excepto em papel-lápis.

Ite, piça est.

594

Não alinho com os que querem volver norma a anormalidade.
Não atino com os que querem tornar regra a excepção.
Não abençoo os que fazem ao desvio honras de lei.
Tudo recuso à “Ordem falsa” a que Nuno Bragança se referia.
Muito a sério, ó-de-Esguelhas!

595

    Catarina Maria Cavaleiro Aberdine
    Casada com Jonas Pio Salado Bizarras
    Ainda tem unhas mas não usa guitarras
    Unhas poderosas, que são garras
    Com ela é mauzito que se desatine.
    Conheço-a de um filme super-8 de produção caseira (casa dela, não minha). A película foi impressionada em Montemor-o-Velho (Castelo & Vila), circa 1972/3. É uma besta – e não me refiro à película. Até no filme (mudo) se vê como ela soslaia o manso Jonas. Puta como as casas. Pinta de pantera-galinácea, se bem me entendeis: boa apenas para arranhar os ovos. Falo-Vos dela porque sim. Estou chateado com merdas que hoje soube a propósito de duas orcas que nem nadar sabem, coitadas. Ora, estas fizeram-me evocar aquela. As três, marca-cagalhão. Pim-pampum-pampapão.

596

Nenhuma volta a dois tornaremos a dar pelo entardenoitecer.
Não veremos o fatigado encerramento de expediente & comércio.
Não voltaremos ao Pinto a tomar o derradeiro do dia tinto.
Nem nos fará sorrir o bondoso sapateiro das Rãs, velho Fabrício.
Isto de envelhecer, até por a prática, parece tornar-se ofício.

Volteio eu a sós – e não já muito, mudaram-se-me as volitivas.
Fico mais em esta casa a que por bondade me acolhem sem nojo.
Faço por pensar o menos possível em as voltas que não voltam.
A vida é em frente – dizem os positivos. Pois é – e a outra também.

597

    Gosto, sempre gostei, de rir-me a bom rir entre amigos que, como eu, apreciam uma piada pensada & dita com finura, temperada desse sal irónico que legitima o absurdo da condição-humana – gosto muito: mas há para aqui uns quarenta anos que me não acontece muito.
    Em 2015, aconteceu. Estava eu de visita a um certo casal quando uma quarta pessoa nos tirou, aos três, uma fotografia-de-pose. Na foto, fiquei tipo Menino-Jesus: entre marido & mulher, ou seja, entre um burro & uma vaca.
    (Naquele dia, a piada foi minha. E hoje volta a sê-lo.)

598

    Vis-a-vis-a-cara-o-rosto
    Oh que barba tão mal feita
    Atavio & bom-gosto
    Do homem que bem s’afeita.
    Já só uso o umbigo para dele sacar o cotão que se lhe incrusta. E o espelho, só para ralamente me barbear. Nem aquele nem este uso em literatura. Cada vez que escrevo eu/me/mim, é a outro que firo, perdão, confiro, perdão, refiro.

09/07/2021

PARNADA IDEMUNO - 574 a 590

© DA.


574

Segunda-feira,
5 de Julho de 2021

    Azulejos toponímicos indicam-me um remo(r)to bispo Dom Lucêncio como tendo existido, funcionado & coiso nos irrecuperáveis séculos VI & VII, tendo sido ele o primeiro abade do Mosteiro de Lorvão. Se este senhor – como espero – se tiver enganado, não será no Céu que esvoaça agora: nem cinzas ao vento há-de, o que ele foi, ser sequer. Ámen.

575

Fevereiro é mês dito menor mas não incapaz
de grandes coisas como os demais meses
todos embora a ele maiores em jornadas totais.
Em Fevereiro nasceu Rui de Moura Belo,
facto que de pronto torna científico
o primeiro trio de versos deste poema.
Isso foi há 88 anos, 4 meses & sete dias,
ao momento em que escrevo.
Há setenta, entrou o Poeta na Faculdade de Direito (Coimbra).
Há 65, foi até Roma.
Há 60, Aquele Grande Rio Eufrates.
Há 44, Despeço-me da Terra da Alegria.
Há 43 (em Agosto próximo), despediu-se deveras.
E no entanto.

576

Desaprender a lamentar custa quase tanto quanto
a deixar de fumar, beber excessivamente, andar triste.
Regulei as minhas contas turvas para com Vicente Canas.
Estamos bem agora, não (nos) lamentamos: aprendemos.

Quanto a outros espécimenes, menos remediável o caso.
Digo: cada caso, pois de pessoa a pessoa varia o melro.
Não tenho, felizmente, razão sempre – apenas sim quase sempre.
O rancor rói ratamente o grilo cardíaco, cave canem!

Vou hoje a uma consulta, digo, fazer um teste-de-esforço.
A consulta será depois, em Agosto, mês terminal de Ruy Belo.
Vou entretendo-me com estas marcações de velho.
Mas já tive vint’anos, já flori, já mandei vir.

(Agora, é ir que mando.
Sabeis bem aonde.)

577

A minha literatura vive em hotéis que não posso pagar.

578

A minha literatura vive em hotéis que não posso pagar,
mas tal não me desobriga de a tentar cinco-estrelas.

579

    Há Portugueses para quem aprender línguas estrangeiras pouco custa – excepto a Portuguesa.

580

De mim tereis (alguns de Vós só, não todos) tão-só
um pétreo silêncio de inesiana morte-matada.
A V.ª pretensa superioridade ética nem vale pó.
A V.ª tensa diarreicidade óptica vale zero & nada.

581

Certa autodesconsideração tem dias de tomar-me
Sacudo-a espremendo o antídoto do papel-em-branco.
Não fui para radiologista, merceeiro, cantor-de-charme
E não tendo três braços também não sou manco.

582

    Nas extensas filas das repartições, centros de saúde, caixas-merceeiras etc., gosto de sentir-me parecido, idêntico, comum.
    Mas ovelha, não.
    E carneiro, muito menos.
    Antes cão. Antes cão.

583

Enviei hoje mensagem.
Espero resposta afirmativa.
Cor, som, volume, imagem.
(Obrigado, Sertório Oliva.)

584

    Sem quaisquer veleidades predatórias, dou por mim, na fila-das-consultas-externas-do-Hospital, aproveitando a visão-consideração do, perdão, da seguinte:

    Morena natural de redondezas sedosas, perfeita simetria mamária, rebordos firmes & nada pneumáticos, cabeleira nascida daquele esplendor do pardal ao sol, pèzitos sem mesura possível, cada ombro uma colina pela matina, da boca cerrada a linha sendo de si mesma verso.

    Ainda bem que há tantos anos me vi penduricalhado de disfunção eréctil: há moles que vêm por bem.

585

Anda tudo mascarado.
Mas: mais máscaras, menos más-caras.
Nem tudo se perde.

586

Galão & queque para Clementina.
O marido quer nada, só resmunga.
Leonorita vai de tangerina.
Chega uma Ford-Transit carregada de chunga.

Já hoje murganhou, era bem cedo.
Vim vindo ’vagarinho, pressa p’ra quê?
Cada um olha, nem tudo vê.
Pod’ria ser pior, não tenhais medo.

Broa & azeitonas para Amália.
O marido quer pinga, não quer bucha.
Vai de camoesa a Alic’Eulália.
Cariada & risonha, a alvar gorducha.

Vê-se desta em vis trabalhos, o Gil.
Não contava com tal soda, pobrezito.
A mulher anda por ’í cedendo o pito.
De galhos já ele conta mais de mil.

587

    Camisola branca, calção laranja, meia branca com tira dupla laranj’amarela – tenho dez anos, desfilo com muitas dezenas de meus afins etários pelas ruas Doutor Manuel Rodrigues, Sofia, Praça 8 de Maio, Visconde da Luz, Ferreira Borges, Portagem, Ponte de Santa Clara, Estádio Universitário. Alegria clara como mãe-d’água.
    E agora? Volto por onde? Para onde? E quando?
    Devolve-se o equipamento a quem? Que é (des)feito das dezenas de meus pares?
    E da minha única dezena de anos?

588

Sideral poeira astral ainda somos
Sempre fomos, sempre seremos
Serenos pois seja que enfrentemos
O ’inda-a-ser no que fo(r)mos.

589

Fui eu a procurar algumas – sim, mas poucas.
Outras me procuraram, acharam, desertaram.
Tudo isto, rapaziada, dá de si pouquidão.
Prefiro andar a par do boletim-meteorológico.

Taçadas de fruta, terrinadas de canja,
sacadas de pão, almoçaradas de cozido,
jantaradas de leitão, cavalhadas de gajas,
bandejadas de acepipes, rodadas de aperitivos.

Com aquela da Lourinhã, só uma – e de manhã.
Com a de Marrocos – grêlo murcho, ovos chocos.
Com a de Silves (ou Tavira?) – depressa dá, depressa tira.
Com a de Castelo Branco – mula coxa, burro manco.

Virtuosismo retórico: do espanhol Javier Marías.
Finura avinagrada: do inglês Tom Sharpe.
Domínio absoluto do fio narrativo: do norte-americano O. Henry.
Inigualável notação sensorial: do argentino Julio Cortázar.

Évora, 26 de Agosto de 1976: quinta-feira.
Mafra, 8 de Março de 1988: terça-feira.
Coimbra, 1.º de Maio de 1974: quarta-feira.
Pedrulha, 1.º de Outubro de 1970: quinta-feira.

Lisboa, 25 de Julho de 1996: quinta-feira.
Auxerre, 2 de Março de 1973: sexta-feira.
Viseu, 24 de Maio de 2008: sábado.
Louriçal, 30 de Agosto de 2019: sexta-feira.

Mas acima de tudo:
Porto, 22 de Julho de 2015:
quarta-feira,
formatura da minha Leonor.

Alternativas para pontofinalização/resposta-seca:
– Esta vez já passa uma a mais da última;
– Deveria ter-te visto o dente, mesmo dada.
– Nem mé, nem 1/3 de mé.

590

    Conhecer a estupidez & a maldade – é preciso.
    Não coincidem forçosamente – é verdade.
    Há coisas que, por mais malignas, temos de saber.
    A autoprotecção implica sabedoria, não só instinto.
    A maldade é, ou pode ser, perigosa.
    A estupidez também – e até letal.
    Vejo com frequência documentários. São de diversa índole temática, conforme a minha inclinação de momento. A criminalidade é, enquanto assunto, terrivelmente atractiva. Desnuda uma dimensão (que é exclusivamente humana, já muitas vezes Vo-lo reiterei) que fulmina qualquer pessoa-de-bem. Sublinho: pessoa-de-bem. Não suporto o vulgar (e também ele sórdido) mirone. O necrófilo, o mórbido – puta-que-o-pariu. Tenho por certo que o estudo criminológico aponta vertentes da condição-humana mais comummente disseminadas do que é tranquilo supor. Não estou a descobrir/inventar a pólvora, bem sei. Mas na vida como em papel & em filme já tenho (entre)visto muita coisa capaz de causar sideração até aos menos ingénuos.
    A fotogenia dos gatos compensa de tanto horror.
    E os mistérios fixes entretêm o terrível tédio:
    Roanoke / Croatoan / 1590
    Tunguska / 1908
    Dyatlov Pass / 1959
    Somerton Man / 1948
    São assuntos bons como andar através da poalha pluvial. Depende muito da abordagem – e, como sempre, da parcialidade subjectiva com que abordo a informação disponível.
    Recatado, perdão, resguardado em casa, viajo prodigiosamente sem içar o fofo da cadeira. É infindo o ror/rol de coisas a saber, cismar, duvidar, confirmar, suspeitar – e a, claro, poetar.

08/07/2021

PARNADA IDEMUNO - 571 a 573

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571

Domingo,
4 de Julho de 2021


Casa abandonada até por os fantasmas
Sobretudo por dentre estes os mais medíocres
Em ti durmo pela anestesiada imaginação
Tantos anos ardidos mas em ti eu durmo
Não é como nos filmes com (d)efeitos-especiais
Na parede da sala, a lápis, as nossas alturas
Próprias hoje de anões, não de gigantes
Que será feito desse lápis nessa mão desfeita, não sei
Alhures embora há tanto, em ti durmo. E convoco-os,
chamo-os na penumbra-lunar-poeira-roseira-nespereira.

Tanto ou mais custa desfazer uma casa que fazê-la
Atirá-la ao chão como a pugilista decadente
Como a casebre de cartas sem naipe de trunfo
Não tive jamais a mínima hipótese ou alternativa
Não temo nem tremo, mas doer – dói-me a sério
Quero que acabe em mim a genealogia sorumbática
Não quero que às Filhas passe e as limite em curso
Troco por papéis lapijados a minha altura mesma
Não é de anão, não é de gigante, vem nos livros
Os livros que posso & passo, sem ergofobia alguma.

Jamais leito algum meu foi de novo tão populoso
Tão povoado de novo quanto o meu em a meninice
Isto do Tempo é uma insidiosa relojoaria:
Há horas, tive uma infância
Há anos, tenho uma velhice
Não tem a ver com ponteiros
Tem a ver com algo inominável
Mas inominável só enquanto eu não
Enquanto eu não aprender a escrever
Aprender a escrever mesmo muito bem, a sério.

Vamos por uma metáfora simples & botânica:
Digamos que a minha & a V.ª poesia(s) são arbustos
Compreendido? Arbustos murando-nos a casa
Então, a poesia de Fernando Pessoa é o luso Gerez
Então, a poesia de Fernando Pessoa é a teutónica Floresta Negra
Então, a poesia de Fernando Pessoa é as florestas todas do Canadá
Então, a poesia de Fernando Pessoa é a Amazónia
A desproporção é essa, caros amigos – e nada pouca
Entramos numa idade finalmente fétida sem embuços
Cheira-nos o peido a frang’assado, o mijo a medicamentos.

Tudo isto é muito menos trágico do que parecer possa
Bem miradas as coisas, chega a ser cómico ter nascido
Um homem & uma mulher aflitos de amor geram-nos
E depois dizem-nos: – Fizemos a nossa parte, fazei ora a vossa –
E nós a anuir, a aquiescer, a deferir & a não-entender
Viemos de França na cegonha, viemos toyotamente para ficar
E o erro não é total porque deveras eterna é  a infância
O problema está em deixarmo-nos seduzir
Deixarmo-nos seduzir como as árvores, sim como as árvores:
também elas crescem – e afinal são para abate.

São para abate se não arderem antes, presas dos loucos
Os loucos que ateiam fogos para curtir o espectáculo
O me(r)diático espectáculo da sofreguidão noticiária
Os repórteres-no terreno atropelando a gramática
Os basbaques-mirones feitos récuas asininas
Mas pronto, tudo bem & nos conformes, é deixar arder
Vai-se para a esplanada mais bem assombrada
Emborca-se um almude de cervejola, uma arroba de salgadinhos
A-vida-dois-dias-o-carnaval-três-&-quatro-os-ases-do-baralho
Sim, almocei hoje frang’assado & tomei os remédios à risca.

De abandonada casa porém V. dizia eu tristuras
E no entanto ela foi viva, gerou-criou-atirou vidas
Ríamo-nos muito no quarto às escuras
A infracção fazia-nos rir, os Velhotes queriam sossego
A Lua tomava então o espectro, lá fora ao pó a roseira
No pombal as pombas, na casota o cão, em nós a condição
A humana-condição-à-condição, isto não é para sempre
Tenho dois Irmãos mortos, Pai & Mãe também, os quatro Avós
Mas vá que sobrinhos-netos vão já rompendo futuro
Não sejas lamechas, Daniel, põe-te a fancos da tristeza.

Fotografei a casa evacuada até de fantasmas
Há muito não lhe passo já em face
Distraio-me como posso, assobio versos para o lado
Publiquei a primeira composição aos treze anos
Vi logo ali que sim, era por ali o caminho
Tenho hoje 57 & nada mais tenho feito
Nada mais do que recompor a composição primeva
A qual, justamente porque primeva
Assim começa: Quando chegou a Primavera
Já o único texto publicado da minha Mãe era sobre O Outono.

Agora o mais engraçado é, indo eu de autocarro
Entre as pessoas-sacos-de-compras-problemas-certidões-consultas-adiadas
Ir cismando na casa pobre de mais até para sustentar fantasmas
Essa casa mesma que foi um Taj Mahal
Essa casa mesma que foi todo um Versailles
Essa casa mesma que foi o farol no promontório de Sagres
Essa casa mesma que era, por assim dizer, quem éramos: anti-órfãos
Sendo hoje portanto nada, ninguém & nenhures
Mas para mim tudo, todos – & em tudo qualquer lad’alhures.
Assim seja & se cumpra, que eu não duro sempre.

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Pessoas ambulam, nem todas boas, nem todas más.
Todas são interessantes, vai da atenção adequada.
Falo dos vivos – mas também digo coisas aos mortos.
Eles respondem sempre quando sei fingir que respondem.

Casas pontuam panos de terra gerações’trás’gerações.
Sem os registos civil, predial & poético, nada restaria delas.
Esta madrugada mesma, revisitei a minha, que em ruínas é.
Na próxima madrugada, lá estarei – aqui porém aboletado.
Haydn (este sim, era Zé) soa na tarde em recolhimento.
Entre as 15 & as 18, recolhi-me aos cavernames.
Aproveitei pois o Tempo no limiar vida-morte-son(h)o.
Haydn, agora – Debussy depois, diverso vento, praia mesma.
Steinway & Sons a dourado sobre negro, parece fácil até.
Händel, seja bem-vindo a este imodesto casebre meu.
Não é dia hoje de mores expansões do que as curiais.
Jim Morrison fez ontem 50 anos de morto.
Como Marat, morto na banheira, é o que dizem.
A Música no-los reserva vivos, assim o estejamos nós.

    Ulano Daneca Lémure Loriga, professor de Álgebra na Escola Sidónio Paes & cruzadista de top & frequentador do Café Arcádia, ali à Ferreira Borges, que-deus-tem. Era sósia quási-perfeito do Oliveira Martins de 70/XX. Outros conimbricenses sósias de celebridades: o alto Capela, que era a cara-chapada do guarda-redes académico & belenense Manuel Maria Nogueira Capela; Carlos Eduardo Malita Sottomayor, do Príncipe de Gales (ainda em vigor); Sétimo José Ventura Veneno, Einstein sem-tirar-nem-pôr; Hernando Ingote Santos Rolando, outro Cesariny mas ginófilo; Alberto Fernandes Vilaça Alvarim, novo & renovado Vladimir Ilich Ulianov, vulgo Lenin; Mário Victor Juliano Couraça, perfeito Bill Evans (coca & heroa inclusive); & outros, de que V. irei dando rol quando m’alembrar.

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    Figuras bem vestidas, asseadamente ataviadas em um tempo de estações exactas a ponto de intransigentes. Não digo muito mais por não saber muito mais. Disponho, isso sim, de gravuras-móveis sem continuidade coerente ou sequer fiável. Alguns nomes, algumas cicatrizes, não muito mais.
    No arquivo-geral, fichas das famílias: Cerqueira, sapateiros; Silvestre, magarefes; Escola, dançarinos; Mirtilo, solicitadores.
    Nas arrumações da gare-do-norte, volumes nunca-reclamados continentes de toda uma parafernália maravilhosa: facas, pijamas, guarda-jóias, próteses, ex-votos, anzóis, jarros, a cabeça mumificada de alguma mãe-de-família envenenada pelo cônjuge adúltero com a conavência, perdão, conivência da amante, um exemplar da primeira-edição de Clepsydra, uma galinha suíça capaz de cacarejar relógios-de-chocolate, uma torre-eiffel em prata, a asa ou de uma cegonha ou de um anjo ou de ambos-em-um (coisa de que há muito suspeito).



Canzoada Assaltante