20/09/2012

Rosário Breve n.º 275 - in O RIBATEJO - www.oribatejo.pt



A tristeza de Cristiano Ronaldo e a nossa

Pica-se miudinha como o Messi a cebola a alourar com dente de alho, folha de louro e meia malagueta das rijas. Esparge-se o lote de cubos de vaca não desprovida de um quase-nada de fímbria sebo-gorda. Esburga-se o tutano ao osso vacum e deita-se-o lá pa’ dentro. Chora-se uma mijinha de vinho branco no tacho (sacudir no fim porque a botelha não sabe fungar). Espera-se o desenrolar ígneo da coisa bebericando uma taça do mesmo brancolas, que ontem se deixou ao fresco da varanda enrolado em peúga lavada e demolhada. Quando se topar que a carniça já chia, bota-se arroz do agulha. Queimar não se deixa, ourar é que sim. Tomate picado então. Se possível, do de coração-de-boi, do de estufa não, que sabe a nada. Colherdepaular o refogado. Ervilhar a contento. Deixar suar o compósito. Um cachito de água morna melhorada pela infusão prévia de bacalhau, um nadinha dele para especioso contraste marinho da vaca abatida à nórdica. Meia colherita-de-chá de açúcar: a ervilha gosta deste truque aprendido nas mães. Beber outra tacita de branco frio enquanto a mulher está ao telefone. Ir fritando finas fatias de pão branco com alho picado miudinho à Messi e orégãos em azeite produzido pela humanidade alentejana ao lume baixinho e bom como o Messi. Não pensar na vida nem no Vítor Gaspar. Amandar-lhe com mais um branquinho, que a vida são dois dias mas os decilitros são três. Sintonizar o rádio da cozinha na Antena 2 enquanto o Relvas não acaba com ela. Telefonar à dona Dolores Aveiro a sossegá-la quanto àquilo do filho não ser tristeza de maior mas sim de júnior da vida, que em sendo preciso a Irina sempre lhe empresta um milhão ou quatro. Desligar a rosa do gás e abafar. Acabar o branco e encetar a de vermute que o Lídio da Graciete deixou cá quando foi pelos anos do cachopo. Copinhar um cálice dele com raspa de limão perfurador à Messi e um coice de gin do Beefeaters ou, não havendo dele, do Bombay Sapphire, ou, para mal dos nossos pecados, do Gordon’s ou do Larios, essa chilra genebra dos pobrezinhos. À saúde do CR7 e das gajas boas, enquanto a mulher nunca mais acaba a converseta com a Irene dos Moldes Semedo Unipessoal Marinha Grande junto à Rotunda do Vidreiro. Servir a pratada na louça azul do enxoval. Rechupar a papel-algodão o azeite panificador da fritura. Abrir o tinto de Murça à saúde da Porca do mesmo transmontano sítio. Amandar-lhe logo com um pr’atestar. Continuar a não pensar nem no Vítor Messi nem no Cristiano Gaspar. Reticenciar de azeitonas lusitanas a malguinha de barro vermelho e exclamar pickles ao vinagrete a de esmalte inox. Alpistar o canário, reiterar o Murça rebrindando à santa Porca, desligar o rádio e ver o resumo do Barcelona-Real de sábado passado, confirmando que o Messi é a perder de vista muito melhor do que o Cristiano, só não é melhor do que a russa, a Irina, que ele também não há milagres. Saber que o CR7 já sabia que a prima-direita dele, a coisa, ia para a Casa dos Segredos. À cautela, ir abrindo outra Porca de Murça enquanto a ervilha refresca e o arroz se não solta. Saber que nenhum golo do cachopo madeirense vale mais do que um gole desta pomada de atrás-dos-montes. Decidir mandar pró facebook do Ronaldo uma mensagem a dizer-lhe que ele há bué d’abismos de diferença entre estar triste e ser um triste. Esperar que a Irene dos moldes nos largue a mulher e que a Irina não o largue a ele, caso contrário então é que ele saberia o quão portuguesa é a rima com tristeza, mais milhão menos milhão. 

15/09/2012

E na manhã de terça, 11, Setembro, 2012


XARÁ

Leiria, manhã de terça-feira, 11 de Setembro de 2012

– A imaginação dispara logo.

É a frase que ouço três mesas além. Dois cavalheiros limpos que conversam, um de pé, sentado o mais velho. À despedida, o da frase disparada chama Daniel ao outro. O homem da Rita é Daniel também. E quando fui buscar café ao balcão, a Rita assim para uma Lena:

– Então e o teu Daniel ’tá bom?

E a tal Lena:

– Lá vai andando. Atão e o teu?

De modo que me sinto xará de cavalheiros com quem não trato verbalmente, à excepção do gentil e discreto marido da Rita.
A manhã por ela mesma é todavia o meu assunto. Vai por enquanto fresca, a undécima deste Setembro (39 anos do golpe CIA-Pinochet em Santiago do Chile; e que se lixem as Twin Towers de há onze). Daqui a pouco vou comprar um lápis, acção que me agrada muito (mas tanto) há mais de quarenta anos. A loja a que vou é servida por uma jovem senhora: bonita, muito bonita, bem nascida de formas e dicção, roupinha tratada, uma quase timidez de água quase verde subida aos olhos. Quando há mais fregueses, toco os cadernos expostos, desejando tê-los já escrito a todos. Não sei que espécie de cadernos os outros Daniéis do bairro escreverão com que espécie de lápis. Alguns serão, mesmo que não de papel e sentada literatura como a minha. Serão ou não, não sei, como serão ou não nossos netos os filhos dos filhos a que chamamos nossos.
(Casas, casais, quintas, quintais: vejo e passo, sem abrir os olhos nem sair do sítio. Pratico a vida como a uma espécie de sono.)

Uma manhã deste Setembro/2012, 13, quinta-feira


SÓ COM CANELA

Leiria, manhã de quinta-feira, 13 de Setembro de 2012

É um quiosque de jornais, tabacos e demais utilidades a meio da praça central da freguesia. Foi de Casimiro Pai, é de Casimiro Filho. É como se as décadas só pudessem ser notadas porque o filho é um quase-nada um quase-tanto moreno quanto o pai. Há café de cafeteira sobre chapa eléctrica. Nem pai nem filho quiseram uma máquina-expresso das pequenas. A mulher do actual Casimiro vem de duas em duas horas trazer café novo, leva a cafeteira que servia e serve a cafeteira que traz. Do outro lado, a padaria do Acácio tem os biscoitos de canela. Traz-se dois biscoitos (um é para o Casimiro, que não perdoa ingratidões), pede-se café – e é uma alegria simples e de pé. Do lado oposto ao Acácio, vive e trabalha a taberna. Chama-se, por graça de apodo, Tasca Mosca. É do Adérito Filho, tão Mosca como o defunto Adérito Pai. O Acácio Pai, também falecido já, foi casado toda a vida com a irmã do Adérito Mosca pai deste d’agora. A padaria chama-se Progresso da Mocidade, mas ninguém lhe chama assim porque às vezes o povo é mauzito. O povo chama-lhe Padaria da Mosquita, por causa da patroa, a Irene, mãe do actual Acácio, ser dos Moscas, por modos que já o pai dela, Adérito também e avô deste d’agora, era Mosca.
Há quem, como eu, traga a cadeirinha de campismo e fique por ali um par de horas boas à espera da boa-sorte, que tanto pode ser uma terminação jeitosa da lotaria como um telefonema de França crepitando daquele lado do mundo a voz da nossa filha, que anda por lá de ménage a fazer pela vida, sempre é menos mau do que andar por lá na vida a fazer ménages a três e a uma data deles mais.
Percebemos vagamente, obscuramente, que já não é como dantes, quando viemos de África e em vez de ficarmos aqui no sossego fomos para a Europa. Não costumo alinhar nessas falas porque o pessoal encarniça-se um bocado e isso é mau porque todo e cada um tem a sua caçadeira em casa e ninguém mora assim muito longe do Casimiro.
Quem também aparece muito mas só de vez em quando é o Autarca. A gente, por ser màzita, chama-lhe o sou-Residente-da-Cambra. É por causa de ele lá estar há quase tantos anos quantos tem de viúva a Irene Mosquita. Ele sabe mas faz de conta que não, ri-se na mesma c’a gente e da gente.
Nisto, o Tempo passa. Em lugar dele, fica o falarmos. Um conta que a mulher lhe apareceu horrorizada na cozinha. A gata da casa tinha devorado no pátio duas crias dela mal acabadas de nascer e nascidas mal acabadas. Tinham sobrado apenas, para horror dela, duas cabecitas. – Parecem brinquedos estragados da minha netinha – gania ela. Outro relata o tempo que andou na Bélgica a canalizar obras, o dinheiro que podia ter ganho se lá tivesse ficado só mais uns doz’anitos.
Quando me levanto para ir almoçar a casa, nem sei se o faço ontem, se depois de amanhã: como nunca sequer rabo terminal de lotaria alguma vez me contemplou, nada há que me marque qualquer linha separadora na vida, à semelhança do antes-depois dos tónicos capilares. Quando muito, talvez, termos tido, a Graciete e eu, a filha, que acabou por casar em França com um brasileiro daquelas seitas evangélicas e coiso que nunca quis nem hei-de querer conhecer, no que sou apoiado sem meias nem peias pelo pessoal do quiosque e pela Irene Mosquit’ Acácia, que é quem faz os bolos de canela tão bons de morfar com café de cafeteira. 

14/09/2012

O meu "náinilévãne"...


CONE

Leiria, manhã de terça-feira, 11 de Setembro de 2012


A tempo de sur/com/a/preender um trecho da vida movida nesta ínfima partida do Mundo: às 16h52m de uma tarde total e radiante, portuguesa e pousada como uma descomunal ave clara na pedra do Orbe.
Ao cabo de muitas linhas de Gerald Martin a partir da vida do Grande Colombiano nado em Aracataca no ano 1927 (Março, 6), a intenção sumária é registar alguma fauna humana de galeria-Rita, passerelle nunca enjeitável & procissão sem outro andor nem outra santidade que o/a da inocência bonecreira dos passantes mesmos.
À direita-alta, o par de avôs aposentados em boa altura: sorvem devagar suas duas taças de vinho morno, tagarelam com placidez e bom-humor a propósito do antimito (o tudo que é nada) de estarem vivos e moderadamente sãos. Junta-se-lhes neste precis’instante um quase-sósia do Pinto Balsemão mas sem uso do nariz nem anacronismos “tios”.
À esquerda-alta, uma mulher de alguém dentro de carro estacionado em segunda-fila. O alguém dela veio dar um pulso à caixa multibancária. Ela espera sem abrir a janela, pelo que infiro funcione o ar-condicionado do calhambeque.
Fugazes e fugitivas, outras sombras varejam de luz têxtil o proscénio de efémera durabilidade: o rapaz da doença neuromotora que gosta do Record; o motoqueiro cuja bola craniana não difere do capacete; a criança levíssima encavalitada num cone de baunilha-gelado quase do tamanho dela; uma hortaliceira de bigode que rasteja à passagem um lastro de caralhadas sem pimenta possível.
Nisto, obtidas as 17h00m, desarmo a barraca e rumo a algo tão futuro como a minha casa, a que chamo nossa porque, na verdade é (d) ela.   

Tarde de quinta-feira, 6, e manhã de sexta, 7 de Setembro de 2012

Edward Steichen - The Little Round Mirror (1901)




EL CORONEL NO TIENE QUIEN LE HIJA

Leiria, tarde de quinta-feira, 6 de Setembro de 2012

Apesar da fornalha, saio à rua pela meã da tarde. Fiz bem, porque o faço a tempo de (d) (escre) ver uma gorda muito elegante de blusa  amarelolimonada cujas alças finas sobrelinham os ombros sólidos e delicados sem contradição. O rosto é de uma formosura de boneca habituada a ponderar. Não logro a cor dos olhos, que vivem piscicolamente no aquário fumado das lentes da época. Respira o largo peito como um acordeão sensível, mas não é de suar muito, por decerto revestida a manteigas de nome francês e preço de estufa. Quando decide ir-se embora do ponto-de-mira (que acabo de afiar), fá-lo com uma leveza de dança que não contradiz a quilometria dos untos. Leu uma revistazeca de “celebridades”, mas tal não me impede de lograr com ela uma revisita à Paris de 1956-7, aquando do esfomeado e autoimposto exílio de García Márquez, que lhe trouxe El Coronel no Tien Quien le Escriba e lhe levou Tachia Quintana. Mas não. A vida é assim – mais leva do que traz.

E OUTRO ANO E OUTRO DIA

Leiria, manhã de sexta-feira, 7 de Setembro de 2012

O soldado da sentinela nocturna fuma às ocultas da guarita. Pensa na noiva, que é de duas aldeias além a dele, no Noroeste. O frio não é transcendente às quatro horas, sob a silveira de estrelas muito puras e límpidas, aqui a Sul, na noite rumo-aurora.
Os turnos de vigília anteriores foram cumpridos por mancebos nados e criados em Alvega (Abrantes), Boleiros (Fátima), Castelões (Penafiel), Damaia (Amadora), Encarnação (Mafra), Fernão Ferro (Seixal), Gâmbia (Setúbal) e Ílhavo (Aveiro). Os próximos marcaram praças de Juncal (Leiria) Lajes (Coimbra), Merufe (Monção), Nadadouro (Caldas da Rainha), Odiáxere (Lagos), Pernes (Santarém), Rans (Penafiel), Teixoso (Covilhã), Vila Franca das Naves (Trancoso) e Zebreira (Idanha-a-Nova).
Piratas e bandoleiros não são esperados, no entanto, senão por via dos “mercados” financeiros intercontinentais. A espingarda do sentinela contra isso não dispara.

A noiva do moço das quatro sonha com outro, que a quis apalavrar na Senhora da Agonia há um ano & um dia.

E então, na manhã de quinta-feira, 6 de Setembro de 2012...

A Virginia não veio a 6 mas veio ontem e hoje também.






SER A POMBA

Leiria, manhã de quinta-feira, 6 de Setembro de 2012

Ser é ter-se. Enquanto isso, proceder em posse (dos latinos sum e possum). Não tarda, é tarde. Por enquanto, é tarde de menos. Espero o jornal do dia. Espero a pomba da manhã, também. Vou-me cinematop’screvendo as telas móveis da quinta-feira: as páginas vivas que permito confisquem a minha vida. Os combustíveis iniciais são: café, leite, chocolate, tabaco. Arranque feliz: na Rita, sou o primeiro a dispor do jornal. Os topónimos portugueses põem-se logo a fervilhar ocorrências, a zunir ourivesarias, a vibrar mulheres mortas por ex-gajos, a crepitar incêndios, a sussurrar lixos socialites, a zumbir esticões de pescoço, a zoar troikas, a ciciar bebedeiras – tudo numa áscua repercucientíssima que me desvanece & encanta. Muito gosto eu dos espécimes de tal pueril colecção (puerilidade minha, que não rejeito nem combato). Quereis ver? Ler? Ser (&ter)? digamos:

ALMACEDA (Castelo Branco), BIRRE (Cascais), CÊTE (Paredes), DEMÓ (Porto de Mós), ESTARÁ LÁ (Caldas da Rainha), FILHA BOA (Carvoeira), GRAVE (São Pedro do Sul), HOSPÍCIO (Azeitão), IMAGINÁRIO (Caldas da Rainha), JUZO (Cascais), LAJES (Coimbra), MUNDÃO (Viseu), NOGUEIRA (Cinfães), ODECEIXE (Aljezur), PENTEADO (Moita), QUINTA DE VALE DE VENTOS (Caldas da Rainha), RUNA (Torres Vedras), SAPATARIA (Sobral de Monte Agraço), TAVAREDE (Figueira da Foz), URQUEIRA (Ourém), VERIM (Póvoa de Lanhoso), (sempre o problema do X, não me tem aparecido lugar assim iniciado), e ZIBREIRA (Torres Novas).

(Nos entrementes, acabo de redigir uma palestra encomendada por um amigo que, domingo próximo, na sua qualidade de presidente da associação-cultural-desportiva-recreativa da terrinha local, recebe “entidades” num certame local. Quis pagar-me dez euros pelo frete, que indeferi auferir em resgate de um cálice de doce pré-prandial, 11h29m que são já elas.)

11h30m da quinta-feira, 6 de Setembro de 2012 – o futuro era isto, que à hora de alguma leitura o já não é. Também a aurora (aura, hora) lá vai – irresgatável qual vermute tomado. Um cão alvodourado sonolesce na galeria da Rita, aos pés da velha dona. Além, um careca raybânico à Tom Cruise sem mota nem caça-a-jacto folheia as rosas paginadas do Correio da Manhã. Leiria acontece como um dédalo resignado de ariadnes.      
A pomba da manhã não veio.
Fez-se tarde. 

13/09/2012

Ontem, quarta, 12, de manhã cedo


GENTE D’OVÍDEA, PESSEGUNHA E ARREDORES

Leiria, manhã de quarta-feira, 12 de Setembro de 2012

I

Um rapaz de esplendorosos olhos entre o azul plácido e o chispa violeta, orelhas cravejadas de metal cosmético, mãos quase artificiais de tão cuidada cera viva, roupa azul (clara no tronco, pernas escuras), mocassins de couro vivo também.
Acompanha-o uma dessas enxabidas inteligentes e interessantes que vão para arqueologia e depois acabam casadas com um enfermeiro muito mais velho com três ou quatro filhos da arqueóloga anterior à perna, uma que agora é lésbica tanto na alta como na baixa-roda do social.
Sucede-lhes uma ninfeta empregada aqui no bairro não sei em qual das poucas lojas, que isto anda tudo mais para fechar do que para voltar a abrir. Alta e branca como vela da procissão nocturna do 14 de Agosto, magra e graciosa como vela de barco: vela duas vezes e bela uma.
Depois, uma rapariga da minha idade mas mais pró acabadota: blusa verde-prémio-por-pontos, saia azul-prémio-da-montanha, pés insossos cuja pele se escarola em andamento, mãos de muito trabalho humilhado que a má circulação infesta de silvas hematológicas. Cara de quem lhe bate o homem.
(Se não paro de escrever, as pessoas também não param. É o caso de:)
Homem revestido de algo impensável em 1967 – camisa cor-de-rosa-rosa-mesmo. Não lhe assenta mal a malha: é de pele iodada pelo bom uso das praias meridionais, a que decerto este Agosto concorreu com uma seira de filhos e uma mulher vestida como os ciclistas da Volta a Portugal. (E na Itália o maillot rosa equivale ao amarelo daqui, da Vuelta espanhola e do Tour gaulês.)
Entretanto, o jornal do dia chegou. Imirjo nele com a plácida delícia dos resignados: sempre é uma literatura, enfim.

II

Ricamente apetrechado de topónimos verdadeiros, ainda assim me dou à fantasia inventora de nomes de lugares que me fazem falta no Portugal-paralelo que habito sozinho como um cão. Eis alguns topos espúrios:

ABRESSILVEIRAS (Magalógica)
BIRAL (Eixó)
CIRANDA DO COURO (Esquadro)
DAMASDECOR (Serlento)
EQUINO (Fazrazia)
FARRUSCA-A-ANTIGA (Celeiriz)
GASPARVIM (Dédala)
HERMINIL (Runa Magna)
IZOTE (Beirro)
JUNÇÃO (Jalosia)
LIBERTADOR (Quédêle)
MEMBOM (Malpaços)
NESTAVIDA (Salguenquer)
OVÍDEA (Amorarte)
PESSEGUNHA (Gilvar)
QUOTA (Recimal)
REISPODES (Carremédio)
SINTOMUITO (Casal Perneta)
TRUNA (Cabisbaixo de Cima)
UNTAS (Policreme)
VIGARISMAS (Cambra Rota)
XENIEL (Brunheiro)
e
ZÚNITE (Claritade).

III

Bandejam pombas sobre claras frescas águas,
drapejam rolas defenestrand’ o fresco ar claro:
haustos voadores tomos fundos no só olhá-las,
como quem se dessedenta do licor mai’ raro.

Esta tarde de hoje, 'ind'agora há bocadito ali na Rita


STOP DREAMING ME, MY CHILD, E FICA MAS É POR AQUI

Leiria, tarde de quinta-feira, 13 de Setembro de 2012

I

É possível que, havendo sempre quem vigie ao mesmo tempo que outros dormem, os sonhos transitem por turnos pessoais. O que sonhei hoje entre as seis menos dez e as sete e dezoito da manhã pode estar a ser re-sonhado por algum velhote de lar terminal em momento de sesta.
Digo isto por causa de uma doravante não secreta esperança: saber o fim da história, no caso de o acaso me permitir o conhecimento de quem sonhou por mim.
No sonho do fim de madrugada desta quinta-feira, um dos meus irmãos subia um andaime de pintor de paredes no intuito de socorrer um mocho preso a um cabo eléctrico esquecido na base da cimalha da casa. Não tenho a certeza de qual irmão, mas, a ser casa própria, só podia ser o mais velho, o meu Carlos. Eu acompanhava de baixo a operação. A minha vaga angústia resultava porém menos do eventual destino da ave magistral do que da íntima certeza de não poder tirar o olhar de lá cima: porque a meus lados, à altura já de ambos os joelhos, uma mata voracíssima de plantas carnívoras vinham crescendo-crescendo-crescendo como o Bolero de Ravel – e se eu as olhasse, era certo ser ali engolido sem remorsos por elas, as putas.
A dois segundos das 7h18m, o Irmão, triunfal, mirou-me e riu:

– Já está, pá!

E nesse instante eu quis gritar-lhe a preto-e-branco que o que ele tinha na mão não era um mocho mas um retrato do nosso Pai. Um retrato dele quando aquele irmão já tinha nascido mas eu não, anos longe disso. Acordei então – e então olhei para baixo: e lá em baixo

era o que eu queria saber. Que me comam se eu não queria.

II

a) Senhora de camadas untocarnais de telemóvel activo pela galeria da Rita. Farfalha-se-lhe a anatomia por camadas febra-freáticas, é certo, mas não proboscideamente, ainda assim: é de desenvolta ginástica até, tida em conta a incontável tonelagem daquele calado todo. O rosto é daquela bonomia de todo o comedor de cozidos dominicais. Pés como cascos de transatlântico, mãos como bolos de paio, unhas baixas e cimas tipo casca-de-camarão.
Sei-a casada com um quase-sósia do Professor Tournesol, aquele do Tintin. Esse aparece pouco por estes quadrilados: suponho-o na oficina-anexo da casa tentando ressuscitar lâmpadas enquanto ciciassilvassobia La Cumparsita para grande exasperação do canário, que sabe tudo de música menos tangos.

b) O moço do Talho Freitas & Sobrinho não é sobrinho do Freitas, é só Meireles. O acne torna-lhe mais vivo o bife do rosto do que as carnações expostas ao frio no mostrador. É um rapaz infeliz devagar. Ou então assim: um bernardo-soares que ainda vive com a mãe, que o não deixa comer em casas-de-pasto de sobreloja.
Ninguém lhos dá, mas já dobrou os cinquentas. Também ninguém lhos tira. Tirou ele a sexta-classe à noite, a mãe empregou-o logo no Freitas, aí estamos todos felizes da vida menos (ao menos aparentemente) ele. É sócio do União de Tomar e das Marchas SantAntoninhas do bairro da Encarnação. (Encarnação é a imóvel musa, ou tusa, dele; o bairro propriamente dito é o dos Cântaros de Deus, de por lá chover que Ele a dá, mesmo que o resto da cidade seja mais enxuto do que o Arizona.)
Tenho-o visto muita vez ao acaso ao ocaso derradeiro das jornadas, quando levo o cão a desbexigar-se e a ler com os óculos na ponta do faro as mijadas dos outros no sopé dos plátanos, ali ao pé dos táxis e dos homens-sexuais de beira-rio. (Não estou a dizer que o Meireles também atraca de popa. Não tenho, aliás, nada que dizer dele, pelo que ficamos mas é por aqui.)

Rosário Breve n.º 274 - como sempre, nO RIBATEJO - www.oribatejo.pt

Blind Woman - New York - Photograph by Paul Strand (1916)




Alegoria perfeita

Queira o meu gentil e leal leitor não desconfiar de eventual publicidade enganosa no título da crónica que hoje lhe chega a mãos e olhos. É perfeita a alegoria com que o CM de terça-feira, 11 do corrente, decerto involuntariamente embora, me presenteou.
“Cego dá tiro nele próprio ao limpar uma caçadeira” – este o título de uma notícia de quatro parágrafos que muita gente há-de ter lido também. Lendo-a eu, não pude obstar a que me tomasse a mania de tresler de viés a realidade. Naquele pobre homem de 70 anos, que se chama Cristóvão Valente e reside na Rua do Casal (Avintes, Gaia), eu vi, ou li, Portugal. E na acidental caçadeira, democracia. Pois. Pancada minha. Portugal, porque cego. Democracia, porque contra o próprio povo virada.
Ao sair de casa para ir à Rita cronicar, não era este o mote. Era a lembrança de eu ter sido alguém mais feliz do que menos no Inverno de 1988/89. Trabalhava então no turno nocturno de uma escola. Apanhava o comboio crepuscular para lá, regressava na mesma carruagem por volta da meia-noite. Jantava no Barroca, que me saudava por senhor António, ao que eu redarguia boanoitando-o por senhor Professor. Era o nosso inocente sketch de cada dia.
Eu comprava livros ainda. Conheci então a poesia de António Osório e a de João Camilo. Li Vargas Llosa e Ezra Pound. Morava na Figueira da Foz, Rua Vasco da Gama. No piso de baixo, a senhoria era uma mulher sozinha como o sonhar cujo deserto resid’existencial lhe atraía uma aura fantasmática de gatos e gaivotas. Da minha marquise, via-a regando as begónias da sua discreta solidão.
O ar marinho tomava conta de mim todo nos viáticos ociosos a que procedia pelas ruas mais antigas do burgo, a que as casas envelhecidas de amarelo-âmbar conferiam uma respeitabilidade perpétua e melancólica.
Acasalava-me eu então com uma rapariga recente, decente e docente, ela também. De muito branca natureza, eram para ela sinónimos inextricáveis as higienes corporal e moral. Tinha lido A Máquina do Amor da Jacqueline Susann aos doze anos, o que diz muito da sua precocidade, a qual se reflecte hoje, muito inflacionada, na filha que muitos anos depois veio a ter sem meu concurso biológico e sem minha responsabilidade civil. Os nossos dois salários de jovens professores eram mais do que suficientes para arejar a casa, o pátio, o picadeiro dos dias e a pertinência humanista das noites, que então eram mais antecâmaras de (a)manhãs do que dispensário de tantos ontens que já não cantam.
Mas então e o cego? Mas então e a alegoria? Quase dela me esquecia, com isto da involuntária nostalgia (ia, ia, ia) de professor com escola e futuro. Se calhar, pode que não seja assim tão perfeita. Recapitulemos: o infeliz cego que por acidente se alvejou a si mesmo vale por Portugal, que não tem feito outra coisa do que não ver e se ferir na cabeça, tronco e membros. A caçadeira vale pela alegada democracia do regime de fome em vigor há 35 anos, descontados os três primeiros pós-Revolução. Mas.
Mas é que a alegoria (qualquer alegoria e qualquer outra coisa na vida) só se alça à perfeição quando é isenta de paradoxo. A tal caçadeira, supostamente democrática, não aponta apenas ao cego de Avintes. Aponta-nos a todos. E acerta-nos em cheio.
E quem a dispara (lá vem o paradoxo) – é um homem chamado Coelho.

12/09/2012

Anteontem à tarde, segunda-feira, 10 de Setembro de 2012




ANIS PARA CICLISTAS

Leiria, tarde de segunda-feira, 10 de Setembro de 2012

Ignorar não é esquecer, esquecimento não é ignorância, como cheiro não é fragrância.
Massa frutada de ar-livre é o corpo almado daquel’além arvoredo a prazo da eternidade.
Sem psiquiatrias vãs, faço (assumo) a despesa do instante, que ou é agora ou vai-t’imbora.
A golpe seco, recebo separação e devolução: faço por entender notarialmente as doações, as coacções, os abusos, os azares da fortuna.
E então?
Cai a pique a época ciclística, sabemos que o calor serôdio apodrecerá de gelo à primeira oportunidade – mas por enquanto não.
Inversa piscina que às aves torna peixes, o céu é grande como uma popularidade inesperada.
Retiros estivais zonam ilhéus familiares.
Embatem-se percursos, nacionalizam-se cabeças, mudam-se diversões, concorrem-se laivos pérfidos, procuram-se corpos desavindos de outros.
A edição da tarde transporta pacotes de chá, açúcar amarelo, presilhas de pantalonas senhoris.
É o que faz refrescar o anis. 

11/09/2012

Ontem de manhã, segunda-feira, 10 de Setembro de 2012



GOTA-DE-LEITE ETC.

Leiria, manhã de segunda-feira, 10 de Setembro de 2012

Uma espécie de curiosidade bem alicerçada na ignorância dos métodos do mundo adiciona-me sem custo à petrificação da atenção. Ponho isto assim sem dor nem pressa – e sem ansiedade, posto que a noite dormida foi apesar de tudo uma jornada de apaziguamento de demónios & fantasmas autodidactas. Deitei-me, deixei-me.
O mundo retornou cintado de azul, coroado de nuvens e sem abafo. Tacteei na cozinha o desjejum enquanto a máquina da cabeça pipilava como a estremunhada cotovia sobre ramo de faia. Lavei o corpo a seguir na catarata domesticada a que por aí chamam polibã não sei porquê. Revesti-me de tecidos cansados (tenho de comprar calças e camisas um dia destes, projecto que se me insurge há anos sem qualquer consequência assinalável), alicercei-me no calçado, aventei-me ao reconhecimento das poucas ruas que vão da minha cama a este caderno.
Ei-la, à falsa estática do mundo: o poder das coisas, o coleccionismo de fumigações, os cinquentenários de pochette à Cunhal, o esmifrar do cronometro, a sombra lúdica que a álea beira-fluvial atira qual a passadeira. Na Nova Zelândia, a esta hora, dormem talvez os carneiros e os pastores mecânicos – pois isso não sei. Neste antípoda, o senhor Fernando sobrolha o Record, ingerida a cevada preventiva do AVC que o há-de levar num pré-Outono, oxalá que não este.
Faço por não ceder à ira impensada. De joelho elástico, passa pedaciclando o senhor Meireles que tinha a retrosaria, entretanto e em má hora passada ao filho, esse Tomé que depressa e valdevinamente a torrou ao jogo no casino. Vale ao Meireles o amor-de-neta, que o Tomé em boa hora se lembrou de fazer a uma empregada da retrosaria antes de os oficiais de justiça irem inventariar e selar a loja.
Estas coisas parecem mentira por causa da literatura. Eu sei. Mas gostaria de vos ver no meu lugar-de-vista – mormente quando a Noémia do Costa está lixada da vida por causa dos desfalques que o Costa lhe plantou antes de cavar para o Canadá ou Cabo Verde, não se sabe.
A contratempo arpejado, jamaico estes reggaes da lusa miudeza leiriense. Uma suavíssima badana de vento pagina a possibilidade aérea (e merencória) do seguinte parágrafo, o qual é:
Trio de mãe & casal de filhos, largos e gordos todos três. A filha é daquela boniteza oleosa pronta-a-inchar a cada dentada de bolo-de-arroz. O filho é daqueles batoques pègão-de-ponte e dedos de pés túmidos como salsichas miniaturais de hotel-breakfast. A mãetrona parece raiar dois distritos fronteiros a cada passada de turquês. São de uma imponente portugalidade, daquela lusitanidade que é afinal a santa maior do meu altar nativo.
Outro parágrafo é este, em que me ocorre a verosímil eventualidade de cada um ser tão-só o que merece(r). Acumulei pelas casas pretéritas e pelos pretéritos casos um cadastro conivente com certos dós-de-peito indispensáveis à ópera-bufa das minhas vidas (a escrita e a outra). Faço por também disso não cuidar agora: que ao breve longe, a cinta azul se fez campânula no céu não por enquanto proibido ’inda, preciosa joalharia a céu-aberto superintendendo à loja-dos-trezentos de cada existência galeria-rítia. Esta avó aqui mesm’agora: totó-carrapito em rodilha occipital como se para suporte & transporte de cantareira bilha atravessada, blusa como as da minha Mãe quando nem ela nem ninguém havia morrido, saia de alarga-pernas à fumadora de bordel, mas coitada da senhora, que nem fuma nem me parece alternadeira, fátimo-peregrina é que sim, é moed’aposta fácil de ganhar sem suor.
Num carrinho, visão de menina absorta em seu trono portátil. Move-a o irmão, adolescente também grave. Galeria afora, sentido minhas costas. Viro-me e aprecio: da porta da farmácia, acena-lhes a mãe, que foi aos bem-u-rons e aos pensos femininos. De que três vida dou notação ’inda, quando estas noto? Que lugar para elas (e a partir delas) na História de Portugal, esse morredouro incurado e incurável de esquecimentos? O mais que posso tentar:

A menina em gota-de-leite derramada às flanelas,
o rapaz pensativo que a irmana e move,
a mãe relicária das tantas pagelas
que à fé do povo anima e comove.

Em torno o mundo retoma e retorta
o drama das coisas mais comediantes.
Tudo nos será qual nos era antes.
Tudo gente viva, dormida, absorta.

A hora é chegada de retomar a casa: bacalhau de molho e Alphonse Daudet em seu moinho. Dar de beber às plantas da cozinha e do terraço. Não esperar telefonemas nem braçadas de lírios brancos. Levitar no abandono controlado da esperança mais vácua (seja do que for). Envelhecer centímetros ao meio-dia (são as 11h03m agora, sou ’inda moço), aquecer os despojos nutrientes da véspera, bordar as divisões a fio-de-ouro barato, pessoal, passável ao ferro-crivo do Idioma.
E petrificar até o ar da atenção, aqui onde uma pessoa é um animal (a)palavrável, arável – e, podendo, amável.

Manhã de domingo, 9 de Setembro de 2012


DOMINGO DE MANHÃ AO LONG’ÁLEA

Leiria, manhã de domingo, 9 de Setembro de 2012

Os últimos dois anos (digamos que os últimos dois anos) da minha vida levaram-me (ou trouxeram-me) a integrar as sucessivas paisagens (ou seja: país-[im]agens) à maneira da árvore que, envelhecendo para cima, se volve afecta a um caruncho ponderoso e a uma única mão concludente de muitos braços – ou ramos. Naturalmente, a mão que escreve: a mão que escreve a-mão-que-escreve. Ou então: a mãoquina-de-escrev(iv)er. Por outra: tenho andado a dar bolotas.
O equipamento não é muito: um corpo para e por umas poucas ruas. Lápis e caneta alternam consoante a vogal necessidade de ou macieza ou agrestia. Os meus padrinho e madrinha de casamento vão-me fornindo de cadernos, que, uma vez povoados de ramagens, resguardo em casa do vento ominoso e da caca de pássaros.
Rola o calhau terráqueo pelo éter gelado da galáxia – e eu na galeria da Rita ou na colónia da Rosa fazendo tinir o diapasão de muito cálice, supondo nuvens na parte do tecto que reclama pintura; ou aplaudindo por tautologia o rumor de aplausos da chuva, quando a verdade é dar-se na rua um sol canicular que esboroa de sal os polícias e mumifica de poeira as velhas-dos-sacos-e-gatos. Tem sido muito assim.
De quando em vez, procedo ao ilusionismo do desenraizamento, i.e., mexo-me – e então atiro braçadas de palavreado a meia-dúzia de amigos, cuja recepção invariavelmente me acusam como de rosas: mas é palavreado.
Não careço de maravilhas decorrentes de urbanidade. É prolixo, o mundo: este casal da mesa à esquerda-baixa, por e para exemplo. Ele e ela comem de talher os respectivos mil-folhas, supondo-se talvez os mais pontiagudos aríetes da civilização. Isto – num País que desunha à mãozada a sardinha multitudinária de cada inauguração de fontanário por um qualquer zé-hermano do Governo. Pior: ele está de calções longos estampados de castanho-cocó-de-segunda-feira. Trai-lhe a remo(r)ta mocidade rebelde, porém, uma tatuagem de sereia ao longo do flanco da tíbia direita. Não foi, todavia, com uma sereia que se consorciou. Ela é de ombros quadrados como o homem-da-regisconta ou qual os vilões do Dick Tracy. Usa braços enroscados de unto em si mesmos, que culminam: o esquerdo, num relógio de pulso à guarda-nocturno cuja mulher esteja entrevada desde o estoiro do Sá-Carneiro em Camarate; o direito, numa pulseira que lhe garrota o pulso autoritário mas mole.
Quando, desconfiados desta escrita demasiado vizinha como toupeiras de periscópio, se levantam e desandam, não fico mais pobre nem desamparado sem remédio: do lado do Lis, fina como a comissura labial da mulher que por nós amada em baixo nos revira o olho lácteo para cima, uma flanela de sombra refresca-me a pré-fadiga de tanto-lápis-tanta-tinta-tanta-página. Ao longo-álea, corredores dominicais ajuizadamente procedem à oxigenação dos respectivos calhambeques anatómicos: bancários grisalhos que sempre votaram Cavaco, mesmo quando o Cavaco não concorria ainda, raparigas empregadas na Câmara especializadas naquilo da feira-medieval-produtos-endógenos-sensibilização-rodoviária-&-demais-croquetes, cachorros cruzados de labrador falso com pequinesa espúria, avós de cinquent’anos cujo látex-de-treino ao quarto cálice disto que bebo agora ’inda marchava, matilhas esfarrapadas de ciclistas forcejando os velocípedes modernaços, mineiros peruanos no desemprego tocando à esmola el-condor-pasa onde se está mesmo a ver que só passam pombas e desempregados, crianças abandonadas como crias de casais ingleses em férias vinícolas, velhinhas que acreditam na intervenção pessoalizada da senhora-de-fátima nos cancros do António Sala e do Marco Paulo, um homem que veio comprar cigarros e acaba de descobrir que nunca mais volta nem a casa nem para o namorado, dois especialistas em escriautatomática cuja hermenêutica favorita é atirar caroços gordurosos de azeitona um ao outro nos jantares memoriais de curso de que foram, são e hão-de ser os únicos comensais como o Miguel e o Relvas, um leitor do Diário de Notícias que acha muito bem o brasilês por causa de se-não-fosse-assim-como-é-que-se-percebia-a-novela, o plumitivo do jornal local que pensa que a Balada da Neve, o Só, o Cântico Negro e Os Lusíadas são coisas maravilhosas do Miguel Torga, um funâmbulo de circo desmantelado crestado da nostalgia de aparar os vértices pilosos à Mulher Barbuda – e pelo chão a revoada das primeiras folhas outonais de inverno como o regaço da Mãe.
Na sequência (ou em consequência) da hora (as 11h30m), a manhã do Senhor fumega já furnas de rescaldo. Do alcatrão aquecido vidram ar acima os miasmas perigosos da antiga tísico-química. É acertado instante para derramar o lance do abandono. Quem tinha de vir ao pão, parece-me já ter vindo. Sofro então (agora mesmo, antes mesmo do primeiro mesmo estar escrito) da angústiazita do porta-lápis que odeia a borracha evacuadora. Em vão me socorro da pedregosa calvície do diariodenoticiarista brasilófilo cujas sardas cocurutas equivalem a punções da tal caca dos tais pássaros do fim do segundo parágrafo. Em vão saúdo sem fremir um músculo a chegada pernalta de uma quase-sósia da boazona da Uma Thurman, cuja arriba ventral, de tão lisa, promete babas as mais concupiscentes a todo o gajo menos a mim. Em vão me sinto vão – ou vácuo caraças: segue-se no calendário mental o terror da tarde de domingo, esse planalto a que sobem as horas mais insulsas e os ócios mais lenitivos. Valer-me-á, talvez, a íntima certidão de ter atenazado pelo menos um quarto de hora aos dominicanos amigos, esses santos que, a esta hora, ou miram comissuradamente de cima as respectivas senhoras ou se preparam para jurar a pés-juntos e a quem os ouça que nunca votaram no Cavaco nem acreditam naquilo do MarcoAntónioPauloSala, por mais látex use a velha aeróbica.

08/09/2012

ONDE É QUE ESTAVAS ÀS SETE DA MATINA DE HOJE, 8 DE SETEMBRO DE 2012, QUE É SÁBADO, HÃ?

Todo o pato é feLis. Ontem pelo menos era.



VOZES CÁ DO ANIMAL

Leiria, manhã de sábado, 8 de Setembro de 2012

I

Manhã muito boa para nupciar este trecho da Cidade. A tenda da luz armou-se fresca & chilreada a preceito. Luz propícia a cismar as sete da matina. Uma quase-névoa quis londresinar o bairro. Um negro grande de boné de marca e porte endinheirado chega ao carro também negro e grande também, ajusta o retrovisor, parte. A flausina seca pica-veias folheia a revista-TV enquanto boceja cavernames de pólen-d’haxe pelas guelras escancaradas. Não me têm visitado, nem a Virginia nem o Leonard. Trago-lhes sempre pão, mas. Tenho-me sentado por aqui. É uma profissão como as outras, só que sem fé e sem círios. É um livro-de-horas como os outros, só que sem outros claustros que os da galeria da Rita e os da ermida colonial da Rosa.

O que vou ser hoje, começo por o amanhã descortinado há tantos anos: um recebedor de sílabas, pescador de linhas.

Ádua (ou adua), cães correndo.
Alfeires, porquinhos da engorda.
Joldra, tantos sicários.
Récova, bestas de tiro.
Troço(ô), que a cavaleiros encorpa.

E mais prontuárias maravilhas vozeiam pelos animais:

A andorinha gazeia.
A andorinha trinfa.
A andorinha trissa.
(É multímoda, a cantora.)

O burro orneia.
A burra orneja para o contrariar.

O cachorro ganiza, o cão cainha.
O camelo blatera, mas a cegonha glotera.
O canário trila.
O cavalo rincha.
Já o coelho, esse guincha.

Chora o chacal, que o chasco chasqueia.
Crucita o corvo (mas prefiro crocita), a coruja chirreia, fretene a cigarra tanto, a tonta, que zangarreia.
Arensa o cisne e bale o cordeiro.
Canta a cotovia à luz do meu dia.
Cucula o cuco, chora o crocodilo, blindado de lata nascida ao quilo.
Pissita o estorninho de estar tão sozinho.
Cocoreja a galinha e, vá o elefante bramá-lo, cucurita-cucurica o pedante do galo.
Também a garça gazeia (e, mais, nem é feia).
Grulha o grou enquanto aqui estou.
Cuincha o leitão de todo o coração.
Grassita o pato muito ao desbarato.
Pipila o pavão, galreja a pe(ê)ga, gruguleja o peru.
O ralo rala, acasalado com a própria voz como todos nós.
Regouga a raposa doze dúzias à grosa.
E assobia a serpente em ademanes de gente.

(É formosa, tal e tanta música.)

Sossegada que não soporífera, a hora marca passo como este homem-bengala que não há-de ser, se o for, muito mais velho do que eu. É de bigode sorumbático, ao contrário da camisa, cujo castanho berragrita dourados impensáveis nos homens da minha infândistância. Não parou para café, segue bengalando galeri’além em compasso de 3/4 qual palito métrico que tivesse estudado solfejo. Fico eu – e de sentinela. O caderno incha de quanta tinta eu sinta. Era para ter ido hoje pintar a casa do Pitéu, que ardeu toda há coisa de meio ano, só que ele não arranjou tinta, modos que não vou. Um rapaz com crachá ZON TVCABO parece um clone morango-com-açúcar, fala sobretudo incluída, picotada de é-assins e sendos-ques, cabelo eriçado a cuspo-geleia, semblante tonyado de óculos marca Carrera. O engraçado é parecer-me bom rapaz, sem a tola veleidade de sofrer de consciência. Imune à Arcádia Lusitana, imperturbável ante o sermonário vieirano, tão mais poroso aos Buraka Som Sistema quão menos susceptível de Redol Soeiro Aquilino, é, como a bengala do coxo de há pouco, o futuro a que Portugal se há-de encostar – e encosta; e gosta.
(Modos que resvalo para a amargurazita-fímbria das manhãs de sábado. Não pode ser. Retomo aonde ia & ao que vim:)

Nupciar cismando a luz de bonés agrícolas
na Cidade plena de coisa quase alguma.
(Que voz terá o puma?)
(Que silabam elas, as vesículas?)

Mansa doidice. Tomei já duas bicas, cafeinando o verbal coração de creme & torrefacção. Se pudesse, estaria por esta hora na praia a dunar visões de opíparos rêgos de cus portugueses, que a outra adiposa cara são do rotundo moedame das panças pogonóforas, velosas, hirsutas, cabelosas, pêlos-caminhos-de-portugal-eu-vi-tanta-coisa-linda-vi-um-mundo-sem-igual-ó-mário-gil-ó-brasil.
Os cigarros estão-me a correr bem. Em casa, a minha senhora suspirou de alívio ao sentir que a porta me saía elevador a baixo rua afora. Sinto-a daqui resvalando lá para o outro lado do espelho, onde uma vez por semana se permite tangerinar de novo as aventurosas peripécias simples de ter sido uma criança como todas as mundiais já idas, sidas, tidas, havidas e por haver no porvir. Cismo nela agora (e sinto a brandura abrandando-me a mão: não tarda, paro de escrever) porque, afinal, foi para nupciar cismando que me levantei tão cedo, razão mais do que legítima que me assiste agora, agora mesmo, que paro de escrever – cainha o cão.

II

Quando me levantara já para ir ao balcão (balcainha o balcão), pagar o gasto    e retomar/retornar a casa, chegou o jornal de fresco. Atarraxei de novo o cu ao alumínio da cadeira, abri jornal e caderno, ponho-me a existir no lado de lá do mundo paginado (como se alguma outra coisa fizera já na vida). A Direcção-Geral de Saúde receia (e prevê) mais doença mental e mais suicídios ao virar da esquina. Coelho, o ministro-primo, saqueou toda a gente menos os tubarões. O Joaquim Gomes da Mata Mourisca fica em preventiva por ter assassinado o irmão e a cunhada na quarta-feira. A avestruz existe e a cegonha também. A Vida pode ser – deve ser – uma CronoCartografia, por mais incerta, insensata, improvável e/ou inverosímil. Cavaco tem aquele ar de cana seca ao vento que não há. A Alexandra de Figueiró dos Vinhos atirou os recém-nascidos para o lixo. Fodeu, emprenhou, despejou, matou, despejou, confessou. Diz que tinha uns quistos que a inchavam. O primeiro-ministro etc. O coelho guincha. Mosteiro é no concelho de Pedrógão Grande. A cadeia de Santa Cruz do Bispo pertence a Matosinhos. Atropelamento em Caneças (Odivelas), gajo com droga em Leiria, restaurante assaltado em Coimbra (tabaco, leite, refrigerantes), ouro e computadores furtados de casa na Covilhã, metais gamados no Fundão, pés de canábis no Pinhal Novo (Palmela), car-jaquim em Samora Correia (Benavente, na estrada da Samorena), carro desgovernado mata mulher de 48 anos em esplanada de pastelaria na Gafanha da Nazaré (Ílhavo), chamava-se Maria Clara e merendava com a filha, corte profundo na virilha exsanguinou-a fatalmente, Stephen Street e Colette McPartland, os professores ingleses bêbados que deixaram vaguear a filha de dois anos pela rua, vão poder visitar a menina desde que não bebam tanto vinho na ocasião, foi exonerado o comandante da GNR de Braga, parece que por causa de seis militares fardados terem participado em Guimarães no Funeral de Portugal Continental, peça de teatro no âmbito da Guimarães Capital Europeia da Cultura, Caso Casa Pia (pia o mocho ’té ficar roxo) continua a dar que comer aos prelos e aos chapéus de artista do Sá Fernandes Ubíquo de Tudo Protagonista, a frase do dia é de D. José Policarpo, o cardeal-patriarca, que se assume preocupado por “saber de sacerdotes que ousam dizer: ‘A Igreja pensa que, mas eu penso de outro modo’.”, nem sei de que está ele à espera para mandar acender as fogueiras no Rossio, pois que tanto incêndio grassa (grassita o pato) por aís-ais-portugáis, regressou a venda de cigarros avulso fora de controlo, as pessoas, as pessoas, as pessoas avulsas & convulsas, o País a retalho:

e se isto fosse tudo, como já vai e aos alfeires, mas era para o caralho? 

06/09/2012

Rosário Breve n.º 273 - in O RIBATEJO - www.oribatejo.pt

Leiria, manhã de segunda-feira, 3 de Setembro de 2012



O morto de Ourém vezes dez milhões

Um vento de incêndios faz do Sol destes dias uma espécie maligna de rosa encarnada, violácea, lúgubre, tóxica. O ar é cor-de-sirene, enquanto a ansiedade colectiva corresponde ao sequestro das cinzas. Um morto em Ourém.
Locais de trabalho, casas, animais: tudo carbonizado na embriaguez ígnea das penúltimas manchas florestais deste País já ardido na economia, já carbónico no desemprego, já requentado na justiça, já esturricado na corrupção.
Às cidades vem chegando a revoada de neve-cinza dos lugarejos sem escola, sem médico de família, sem tribunal, sem GNR e sem futuro. Bombeiros praticam o heroísmo possível. O nó de angústia das gargantas é agravado pelo pigarrear acre que tanto resulta do ódio ao furtivo incendiário inimputável como à suspeita de tanto helicóptero prontinho a alugar a peso de ouro nestas impensáveis mas certinhas ocorrências.
Por outro lado, ninguém no Inverno roça sequer o mato de ao pé da porta. Também ninguém se lembra de que, entre um reles submarino para o almirante-marujo e uma frota de camiões-tanques pelo mesmo preço para o bombeiral, não era preciso vir o Diabo para escolher. Há anos de mais que ando prègando no deserto a (para mim) evidente urgência de se alimentar a tropa com o orçamento dos bombeiros e vice-versa. Qual quê: às peitaças medalhadas por nada a cada 10 de Junho, o milhão; e à honesta farda cor-de-fogo dos bombeiros, o tostão. É por isso que o morto de Ourém deve ser multiplicado por dez milhões: porque todos ficamos a arder com a criminosa insensatez da errónea distribuição de recursos que, provindo de todos, só a uns poucos serve de ração.
Sei do que estou a falar. Tanto o sei, que me não apoquenta nem uma sombra de cabelo a eventual indignação patrioteira e pesporrenta de uma cambada de inúteis que por aí andam fardados colegiando nacionalismos de alfarroba seca.
Não se pode pedir a um bombeiro, voluntário ou não, que se transcenda mais do que aquilo que já se transcende. Também é mais do que altura que as corporações locais deixem de ser dirigidas pelos compadrios empreiteiróides da useira e vezeira baixa política paroquial. Conheço-os a todos tão bem: ao esforçado e anónimo bombeiro, como ao pato-bravo presidente de tudo e mais alguma coisa, dos humanitários ao clube da bola, do grupo de pesca & caça à fábrica da igreja, do colégio à confraria do figo remeloso.
Sim, o morto de Ourém não estava sozinho quando, tentando proteger o seu ganha-pão, se viu sem pão e sem vida.
O único paradoxo que nos falta alumiar, por assim dizer, é este: como é que uma democracia que não vale um fósforo consegue arder tanto, tão depressa e tão, vamos lá, sem uma chapada de água fria no focinho? Ou, vá lá, em dez milhões de focinhos? 

Canzoada Assaltante