31/10/2008

Rosto, Ressequida Rosa





I
Figueira da Foz, manhã de 27 de Outubro de 2008
(84 anos da Mãe)


Manhã muito cedo passo à beira dos pinhais a cuja beira as senhoras-de-aluguer perdem os nomes para sempre e a virgindade de cada vez.

A solidão é haver gente a mais no mundo, neste mundo – no outro, não faz diferença.

É ornitológica, a solidão do guarda-fios empoleirado no poste: é de alta tensão, dele a solidão.

Símile e símia é do homem do realejo a solidão: tanta gente, um realejo só.

Gregária é a solidão do carniceiro corvo comedor de canídeas carcaças atropeladas.

Costumo ver, tarde muito tarde, as solitárias senhoras-de-aluguer beirando a devassada virgindade dos pinhais. Ao longe, a fábrica papeleira fuma celulose para o mar.



II
Figueira da Foz, manhã e tarde de 29 de Outubro de 2008

Somos pobres, não temos neve.
Temos geada com fartura mas neve não.

O lugar tem uma capela que sobe branca no azul frio da manhã, mas não neve.

Apolos de motorizada e dionísios de bicicleta demandam os ofícios través os campos queimageados fincados no chão pelas estalagmites (ouro e esmeralda) que as laranjeiras são.

Somos pobres, não temos neve.
Temos geada, mas neve não.

Na televisão dizem que neste país só há neve na Estrela e nas amendoeiras em flor, mas, mesmo assim pobres, sabemos que a televisão inventa sítios e fenómenos para sermos felizes acreditando que sim, que florescem as amendoeiras, que uma serra chega a estrela. Mas não.

Somos pobres, não temos neve.
Temos geada, mas neve não.

Postes ambulantes, uiva-nos o vento, lobo transparente.

(Espera!
– diz a cotovia
que nos sonhos fala
mas acordada não.

Espera!
Ainda é a Primavera,
verás não tarda se faz Verão.)

Somos pobres, não temos neve.
Temos geada, mas neve não.

Fomos decerto ricos na infância, essa breve fortuna esbanjada sem pecado nem retorno. Natalícios de tal fugaz eternidade, excursionistas às amendoeiras sem flor nem neve nem estrela nem nada, pois agora

somos neve em pleno Verão.



III
Figueira da Foz, tarde de 29 de Outubro de 2008

Que se passou já,
que vai ’inda passar-se
nestas casas
que nem sonhos meus habitam?

Que mulheres de que homens para que
crianças?

Que estimados animais as correrão
em prisão?

Que sonhos habitarão estas
não minhas casas?



IV
Ibidem

Toca devagar a face esquerda dele,
são mais jovens que tu as tuas mesmas mãos,
não ele.

Habita-o depressa, antes que ele te esqueça.
Antes que dele mesmo se esqueça ele em ti.

Aprenderás à tua custa quão velozes
são hoje as famílias, quão velocíssimos
os casais.

Já não há, aliás, casais, mas
pares.
Nem, aliás, pares, mas
parelhas.

Indivíduos-legos, peças-pessoas,
mecanografias descartáveis
e descartadas
e mecanizadas
e mal agrafadas.

Toca ainda a face dele
(a direita agora)
e despede-te dele
e vira-te
e diz
olá
ao próximo.

E ama ao próximo menos
que a ti mesma,
não sejas parva.



V
Ibidem

Quem te dera uma frivolidade.
Quem te dera abocar o morango químico.
Quem te dera, em lugar de maneiras,
ter ademanes, lenços de pele,
calcanhares não gretados
a partir do coração.

Quem te dera não ter fissuras.
Quem te dera fressuras.
Quem te não dera aquele avô,
estes vizinhos, o telefone verde-
-ranho, quem te dera
a outro corpo, a outra vida.



VI
Ibidem

Dona Julieta de Menezes,
entradota já de idade,
usava sonhar (e sonhava) às vezes
nunca ter dobrado a mocidade.

Sonhava – e era feliz, coitadinha,
Dona Julieta de Menezes.
Um dia, morreu – e, muito sequinha,
foi ter co’s ancestros, todos portugueses.



VII
Alhais (Carriço, Pombal), noite de 29 de Outubro de 2008

Rosto, ressequida rosa,
fluente expositor de vísceras,
mapa do mundo, terra de ninguém
por alguém desterrado habitada,
fonte e foz, tu e ele e nós,
sítio onde a criança jogou às escondidas
e se perdeu,
dela deixando um apenas eu,
a outro qualquer ele igual aliás,
o rapaz,
como nós,
como tu também,
retrato de retrato de rosto de rosto,
romeiro de marias, romeu de romarias,
pano inconsútil e cru,
ázima levedura, bandeira d’amargura,
cartaz para levar sobre o pescoço a casamentos e funerais,
entre cartazes outros mas iguais,
rasto (de resto, resto de rasto) de rasto,
um olho escreve, o outro lê,
juntam-se os dois na boca para cegar de silêncio,
segando palavras
(rosto),
(dobrada a mocidade),
(gretado o coração),
(habitado o outro),
(estimado o animal),
(esbanjada a infância),
(limitado-o-tempo),
(devassada a virgindade),

rosto, ressequida rosa.

30/10/2008

Recorte-e-Colagem de fragmentos de PREFÁCIO QUANTO POSSÍVEL, de Mécia de Sena, à 2ª edição revista de 40 ANOS DE SERVIDÃO, de Jorge de Sena


Pombal, tarde de 28 Outubro de 2008





Soube-me sempre a destino a minha vida
toda uma vida agora encerrada.
O tempo-limite mais tardio
a data-ano a que o tempo se
expressamente referisse se
igualmente verificasse.
Foi preciosa durante anos
a dificuldade de
praticamente
todos os poemas.
Dentro postos os tempos:
a selecção final,
a servidão:
súmula solícita.
Particular adolescência grata e cruel:
inicialmente.
Completo corpus:
metodicamente,
inevitavelmente.
Transatlântica, longa:
a produção:
anos de perseguição:
ordenação dela.
Meninos,
armas e
bagagens.
Após dificuldades, pareceu-nos
que deveríamos seguir, mesmo
excluindo indicações existentes.

Vastíssima vida, agora
respectiva.

26/10/2008

Três Peças para Montra

Fotografia: © Sandra Bernardo (Coimbra, 21 de Outubro de 2008)





Tábua

I. Soneto Contador
Buarcos, Figueira da Foz, manhã de 21 de Outubro de 2008

II. Poema (com Vento) para Logo
Buarcos, Figueira da Foz, tarde de 21 de Outubro de 2008

III. Instantâneos de Cidade com Rio, a Minha
Fonte Nova, Pombal, manhã de 26 de Outubro de 2008






I. Soneto Contador
Buarcos, Figueira da Foz, manhã de 21 de Outubro de 2008

Passados vivo já dias futuros,
o muito já vivido pouco conta.
Há noites derramadas, dias duros
e é sempre à Lua que o Sol aponta.

E se ora me toma o sono doce,
se m’adentra um domingo sempiterno,
então sonho com quem aqui me trouxe
e com quem de mim veio no inverno.

Por vezes não se vê a lua tal
a que um tal sol aponta apontador.
Há vozes no silêncio visceral
(e nozes ao fundo do corredor).

Futuros vivo já dias passados:
me contam que eu não conto, contador.



II. Poema (com Vento) para Logo
Buarcos, Figueira da Foz, tarde de 21 de Outubro de 2008

Encrespa o vento a água dos olhos
na tarde que o mar vaza por noite.
Céu de sobrolho carregado.
Chicoteadas árvores: nenhum pássaro
à vista: nenhuma terra anunciada,
pois.

A beirais se recolhem os pobres homens,
as mulheres pobres, os magérrimos cães
soletradores da escrita dos caminhos.
Longe, um eucaliptal recolhe azul
à cripta diagonal, vem do mar crescendo
um borrão de irado Pintor, de crespo
deus intemperioso.

Agora não estou a pensar.
A uma janela alta, recorto dos olhos
o escorrimento não voluntário.

Gosto da selvajaria eólica, sempre gostei.
Atendi o telefone, mordi uma fatia de pão,
desejei o mar na antecipação de nunca
(mais) embarcar.

Encrespa o vento etc.
Logo vou ao bar.



III. Instantâneos de Cidade com Rio, a Minha
Fonte Nova, Pombal, manhã de 26 de Outubro de 2008

Os cantores vão a pé pela beira-rio.
Salgueiros pranteiam jacintos-de-água.
Cacos de tijolo etruscam o chão dos hojes.
Crianças ciganas vão ao peixe à toca e às lampreias.

Grandes mulheres lavam de branco roupa de cama.
Senhoras pasmam tais periquitos a janelas.
Rostos alguns rosáceas semelham: trabalhadas pedras.
Algumas casas são cabeças de navios na procela aterrada.

Ingerem açúcares líquidos as andorinhas e os ciclistas.
A minha cidade é portuguesa até de costas.
As pessoas são ambulatórias unidades de queimados.
No carrinho, o bebé floresce de sono.

Maçãs avermelham a banca, glóbulos de polpa.
Uma cascata de cabelo desce a mulher até às ancas.
Os dançarinos desempregados na paragem do autocarro.
Uma pensão empobrece o escritor sem casa.

Num livro, a clarividente cegueira grega das estátuas.
O bronze de pensar, a lata da vida.
Sacas de serapilheira demolham tremoços no leito.
Leitor de jornais com suspensórios compra pão.

Guitarristas e bombeiros ginjam cedo na Irene.
Mulata-se de fria sombra já a manhã.
Rapaz de cabeça quadrada desenha comboios (um fio de baba).
A montante, um naufrágio de laranjeiras.

Mulher assassina um galo para canja de arroz.
Um cão trota, inconsciente feliz da vida.
Periquitam as damas janelares, nádegas contra os retratos.
Um bule de chá branco com cromo inglês azul.

Queijos e presuntos cheiram-se mutuamente como cães.
Mastins mastigam ossos de borracha em pátios de cimento.
As mamas das mulheres instigam a lactofagia.
Púbis tarantulam venenosas comichões.

À porta da farmácia, a santinha drogada.
Polícias levitam como melros de caqui.
De navalha, o barbeiro sonha pescoços.
De borracha, mastins mastigam ossos.

As estradas de saída: infindas caligrafias.
Ponte de pau, rápida sombra na corrente (nossa vida).
Alto, o mosteiro crivado de oxiúros fradescos.
Uma profusão de bolos entre máquinas do frio.

Gerânios cancerígenos e olhares entristecidos.
Bocas onde a febre arde, palavrosa.
Palavra e rosa – e azeitona e pez.
Um adejar de membranas no amante.

Diamante com pedra lunar no mostrador.
Um padre-cruz em argila todo cagado das moscas.
Calções de pano cru na montra ao lado.
Secretas auto-sevícias das mulheres-polícias.

Homem com menino ao colo: dois gigantes.
Cinquentona em calças de ganga: ânfora anacrónica.
Maná de farinha na padaria calorífera.
Prótese dentária rindo-se sozinha como os loucos.

(E antigamente, o meu Pai muito jovem por aqui.
E este rio onde a minha Mãe caiou lençóis.
E eu, que só queria uma maçã vermelha.
Nisto, consciente, infeliz da vida, o cão pára.)

Nos Olhos

A caminho da Figueira da Foz, manhã muito cedo, 21 de Outubro de 2008



Éclogas e mercearias concorrem para o sustento do meu corpo na terra.
Manhãs e noites muito se fundem, azuis onde era de ser brancas, azuis onde era de ser negras.
Os primeiros mortos do dia e os últimos bebedores da noite encontram-se perto do porto de pesca, trocam pastorícias, vêem-se nos olhos.
Os animais rocinam a amargura gelada da erva, emitem bolhas à pele da água.
Um cedro labareda-se todo como uma árvore-de-natal sem crianças.
Roupa estendida recorda os enforcados: todos os enforcados de todos os tempos.
Um pássaro põe-se a apitar como um padeiro apressado.
Estou acordado na contramão do vento, as mãos dadas à estatuária da neve, sinto o rachar da tinta nas paredes das casas, na pele dos rostos das pessoas.
Preciso de um café, entro no salão,
vejo-os nos olhos.

20/10/2008

Crónica e Poema

A crónica (Fruto) é a nº 73 da série Rosário Breve (n’ O Ribatejo, www.oribatejo.pt).
O poema é, enfim, o que é.


FRUTO

Quando o dia se acaba todo em noite, tenho por (recente) hábito assistir à epifania lunar das árvores de fruto. Explico-me: elas (as macieiras, as figueiras, as mulheres, as laranjeiras, os pessegueiros) alunam os crepúsculos de uma espécie de gaze mental que só pode resultar ou de maravilha da natura ou de pancada da neura.
Ainda hoje. Subia a pé uma ladeira quase tão íngreme quanto a memória. Levava comigo um saco com pão, maçãs e cavacos de lenha. À minha esquerda, numa eira, uma mulher recolhia roupa do arame. Aos pés dela, ardia de febre ou de ouro uma fileira de abóboras que cheiravam a amarelo forte. À esquerda dela, uma nespereira vigorava como um fantasma benigno. Era de folhas negras, que a noite tombada de fresco prateava, lá está, de um luar de epifania. Entrei no café mais rural do mundo, assentei a carcaça numa cadeira de plástico e mandei de vir de beber. Bebi. Vieram buscar-me passado um tempo, deram-me de comer, vim aqui contar-vos isto – e sei que, lá fora, a instalação da noite ainda não cedeu aos vagidos do novo dia.
Era para vos ter escrito certas coisas que penso quando, nos cafés rurais, o televisor segrega a baba da idiotização do povo. Não vale a pena. Prefiro dizer-vos da insensatez (minha) de pasmar perante as árvores, verdadeiras forjadoras das noites. Nada adianta ao mundo, mas também o não diminui, espero.
Crise económica, aquecimento global, gangs e bang-bangs – nada me interessam. Nem já suicídios de adolescentes que perceberam a (a)tempo que nunca haveriam de ser as catarinas-bárbaras-furta-marães do futuro breve. Nem a insolência da corrupção. Nem zamericanos. Nem os senhores padres activistas de uma espécie de bloco-de-esquerda de altar. Nada.
Interessa-me ganhar a vida. Interessa-me não perder a vida. E é quando a minha vida, por uma noite, se acaba em epifanias lunares que chego a ousar a esperança de o novo dia me fazer dar fruto como uma árvore, pão e lenha à parte.



******


UMA POUCA DE NOITE

Casa, Souto, Pombal, noite de 19 de Outubro de 2008



(1)

ENDURECIMENTO, NOVEMBRO E ALHEAMENTO




Então, a luz endurece e estatela-se no céu já nocturno
e estatelando-se se estrela de esmigalhados astros, um
que outro jacto alto luzindo as invejáveis viagens para sempre
nos alheias.

Em baixo, vulgares carros rumam cegos como carrosséis.
Acabado quase, o domingo os obriga ao retorno a frias
garagens onde, tais igrejas sem imagens, dormirão
como frios cavalos sem memória de pastagens.

Sem uma mulher em casa, pode ser mais difícil.
Bem mais precário pode ser, sem um homem em casa.
Nem perto, a um canto dourado e respiratório, uma criança
exerça a qualidade mediúnica do seu sono premonitório.

Com o rolar de outubro para a valeta de alumínio de novembro,
as albas são mais duras, emaranha-se nos pinheiros a noite,
ciosa da nova hora e do despertar dos homens, das mulheres,
das crianças para sempre lhe alheias.



(2)

AB OVO



Hemos nascido: quanto bastou foi para infantes termos sido.
Alguns, felizes de feliz infância: hoje nada, tudo porém outrora,
esse nascer em um pobre país assim ainda dotador de ricas
infâncias como ovos de si mesmo cheias.



(3)

ANDORINHAS




Andorinhas: de si mesmas andores e santinhas.



(4)

RAPARIGA RINDO




Da rapariga que ao ar cristal torna rindo, guardo para vós
a perfeita dentição, que cotejar apenas posso a gargantilha
de nácar à boca subida para enfeite e tesouro do rosto
e do riso.



(5)

SONHADORES CAPAZES SEJAMOS




Agora vamo-nos deitar ao mar
do sono.
Cada um de nós de sua casa-rocha,
agora se vai deitar.
De horizontais falésias sejamos sonhadores capazes,
de verticais andorinhas riscados.
A espuma nos poalhe de branda nata branca
os corações mumificados pelo abandono
do sono,
diária morte nocturna
a nós deitada.

18/10/2008

SEIS FOLHAS DE LIVRO D’OBRA PARA UMA CONSTRUÇÃO CIVIL DO ENTE



























Fotografias: 13, 15 e 17 de Outubro de 2008




I. QUASE MADRIGAL


Pombal, “Ripa” Café, noite de 15 de Outubro de 2008



Imersos em nevoeiro, esse mar-alto à terra subido, os magnos pinheiros magros sentinelam de costas o nada que (de) fronte os vê. Acorda-se às seis da manhã para nada: para isto: prestar (ou ser) assistência desta gente de madeira imersa em nevoeiro como ela (como eles) negra.
Não está muito frio. Abriram já as padarias-cafés que à ruralidade resgatam a imitação metropolita. Entramos para tomar um café, ter um maço de tabaco para o dia (a obra), contar os minutos até quase as oito.
Chegamos. Os materiais ainda dormem, frigidíssimos: despertamos do frio o ferro e a pedra com o fogo gelado das nossas mãos. Tudo deles nos oferece uma substância onomástica e anónima e colectiva: tintas, trinchas, andaimes (andores), escovas, espátulas, josés, manuéis.
Pago em trabalho (não em ofício) o esquecimento dos pinheiros névoos.
Às onze, o sol abre-se como rosa térmica que é. Uma hora antes, comemos a bucha sentados em baldes fechados, em caixas de mosaicos, descansámos dez minutos, talvez menos.
Agora, ao meio-dia, os pinheiros reverberam como verticais braços marinhos. Um corvo moço telegrafa pedidos indecifráveis. Dois grandes, sabedores da cifra, acorrem e levam-no.
Almoçamos na obra (sentados nos mosaicos hieróglifos): sardinhas em lata, rabos de peixe-ruivo, carne guisada, pão, água: tudo frio, em marmitas de folha e embalagens de plástico glauco. Comemos depressa: gastamos dez minutos a ir e vir, pelo pinhal, a tomar a bica. No café, suportamos o ladrar fiduciário do telejornal. Folheio um diário irrepreensivelmente imbecil. Pulsam-me os pés (as mãos, não.)
Agora são as cinco da tarde, como julgo ter lido algures (mas não importa). As moscas ladraram-nos toda a tarde aos ouvidos e no nariz e nas bocas já cediças de fadiga.
Pouquíssimo antes das seis, lavamos as ferramentas, passamos mãos, antebraços e caras pela água da mangueira grande (serpente verde que dorme em água-terra), partimos, amanhã será outro
ontem.



*



II. OITO POEMAS PARA QUEM


Ibidem



1

O que dormem a esta hora os homens que conheço
sós?
A sós em suas multidões povoadas de sonhos – ou
disto o contrário: deles os sonhos de povoadas multidões – e
de horas como
esta.

2

Dobram os sinos
os corações:
aritmética nenhuma
da dúvida toda.

3

Estrela: breve brilho eterno.

4

Planeio incursões dominicais aos
domínios herdados das publicações.
Aos outros dias não posso, que trabalho tenho
e não incorro: outras obras
me chamam.

5

Terra de cedências e de peixes,
terra de cervejas e de cofragens,
terra de padeiros e de numismatas,
terra de catálogos e de liquidações.

Mar de anuências e de pássaros,
mar de igrejas e de imagens,
mar de derradeiros e de plutocratas,
mar de decálogos e de ramificações.

Água de ausências e de gatos,
água de narcejas e de clivagens,
água de aguadeiros e de vulgatas,
água de análogos e de tremulações.

Fogo de peixes,
fogo de pássaros
(narcejas, mar sejas),
fogo de gatos.

6

Troco a minha vida pelo meu esquecimento.

(Todos o fazemos.)

(Quem?)

7

Gastamos
(quem?)
uma descomunal quantidade de luz
para produzir uma única sombra.

8

Já sorrimos
(nós todos? mas quem?)
em salas povoadas da ausência dos futuros.

Havia gatos de porcelana,
pratos de fruta de barro pintado,
um galo dourava no forno o próprio cadáver,
um limoeiro perfumava o pátio
de uma sabedoria de quarta classe,
perto a igreja rondava suspeitosa
como um polícia vestido de cal,
havia as coisas que são de haver,
enquanto o livro de obra não é só de
dever.

Já mansamente chorámos
(quem?: nós)
em penumbras aluídas de esvaídas ermas casas.
Havia essas eternidades viúvas chamadas
tias,
ginecologias que restolhavam como
trigo ou pergaminhos
no quarto o avô morto ressonava cera,
o limoeiro pàtiava a qualidade citrina do ouro
em decote de moça,
o polícia orava a missa da
proibição,

enquanto o livro não havia nem
nos tanto devia,
mas a nós que
m.



*



III. CASAS ERMAS


Entre o Louriçal e a Figueira da Foz, manhã muito cedo de 16 de Outubro de 2008


Casas mais ermas que planícies.
Como planícies, antigas.
Antigas e devastadas casas ermas.

Deram já sentido aos caminhos.
Agora aumentam deles o desvario.
O desvario, o ínvio deles aumentam.

Beiram a desistência agora, outrora
não: eram vivas, nelas ardiam lume
e pessoas e animais e frutos.

Redutos publicamente furtivos, agora:
como os retratos dentro delas ’inda:
que olham para dentro adentro elas.

Sítios terríveis, terrosos, intocáveis.



*



IV. ESQUECIMENTO


Figueira da Foz, manhã de 17 de Outubro de 2008


Pensei na minha vida como barco.
Esqueci-me de pensar no mar.



*



V. DENTE


Matos da Vila, Louriçal, entardenoitecer de 17 de Outubro de 2008



Tenho-o agora na mão:
inofensivo, finalmente,
o sacana do dente.
Arranquei-mo eu mesmo,
juro pelo mais sagradinho.
De um vizinho,
o alicate trincou por minha mão
quem me mordia noite e dia
– e sem qualquer anestesia.
Morreu, incisivamente, o cão
do canino.
Ente do dente doente: era destino.



*



VI. CASA NÃO ERMA


Casa, Souto, Pombal, manhã de 18 de Outubro de 2008



A mulher saiu a buscar pão, tabaco, feijão, vinho.
Esperamo-la em casa os móveis, as várias aparelhagens que num único rumor imitam e continuam o interior da terra, as gatas que bibelotam esfíngicas, eu que escrevo para não ler nem viver.
No lar, arde o coração da casa, isto é: o fogo que reinstala a metáfora mais que perfeita da vida, isto é: do juvenil arroubo das chamas primeiras à madurez dormente do brasido – até ao encanecer das cinzas.
Na cozinha, o queijo caia-se a si mesmo; maquilhada de colorau, fulge a jóia grená do presunto; o pão lembra-nos que houve ontem, talvez amanhã também – ou ainda.

04/10/2008

CONTAGENS PARA UMA ANATOMIA AINDA RESIDENTE – (e)numerações

Viseu, tardes de 2 e de 3 de Outubro de 2008


(Tenho 44 anos.
Continuo a contar.)

*

(A minha pessoa não conta.
O meu tempo, sim.)

*

Feridas por todo o corpo: larvas
e palavras.

*

Há uma etnografia no coração,
um folclore oleiro nas mãos,
a infância picada de nervos nas plantas dos pés,
o manso boi na água dos olhos,
o figo nas tetas das mulheres,
a seda que o prepúcio sela de seiva na glande,
a flor do cuspo e a da delicadeza,
a bondade hidráulica do baço,
o fígado todo grená como um beijo coagulado,
a porcelana das unhas,
a óssea meia-lua das unhas,
diferença, aflição e agonia das tripas
(por onde começar a morrer),
o, mais que meu, eu-corpo.

E nenhuma alma e nenhuma salvação.

*

Mais bem quis e quero amar-te, ó vénus
doméstica minha, entre linhas e agulhas
cirandando, toda, como é de mulher
próprio, atenta ao labiríntico rumor da
casa.
Bem andou quem Vénus chamou a um planeta,
que planetária é toda a mulher – e toda urbe
e orbe toda.
Sideralmente amar eu quis e quero, daí.

*

O peixe grande que ora assa no parque,
entre árvores e volitivos gatos, oferece em
carbónico perfume do esplendor da sua
natação.
Fixa comigo o que importa, tudo o que
importa: o parque todo, um rio perto,
o sol fervilhando de aves lentas
(enumeradoras da inumerável máquina de crepúsculos),
esse alguém que nos ofereceu este peixe
e este lume e este entardenoitecer
sem remissão nem amargura nem amanhã.

*

Neste instante me guardo.
Componho.
Penso na palavra linho,
que de tão bonita me parece o masculino de
linha:
verso também,
portanto.

Neste instante quase me salvo.
Agora não é tão preciso morrer,
grato, caduco e cadente, a exemplo
das folhas que das árvores sobem
ao chão,
como eu,
se não compuser.

Componho? Mais recolho do que componho.
Tudo em torno fraseia:

o mendigo cuja melancolia é uma vinha de nervos,
as telenovelas barbitúricas para velhinhos de asilo,
o largo castanheiro que apetece abraçar,
os nomes que no campo-santo individualizam o esquecimento,
as portas de vidro onde o nosso rosto nos olha,
o monossílabo cego de uma união carnal,
a iluminura perfeita do ferreiro em sua forja,
o chilrear das viúvas ante o bule de chá,
os escritos sem palavras nas janelas para arrendamento,
a palavra linho e a palavra linha,
a macrocefalia escaravelha do motociclista,
os cães passeando homens ao anoitecer,
a desmesurada tristeza dos fins de festa,
a rapariga vestida de verde(e) lendo Graham Greene,
o figo de uma teta coroado a roxo por baixo,
o promontório que todo o cavalo é,
uma praia determinada noutro ano qualquer,
as rodas dos carros sublinhando as mãos dos bois,
o azul milenar do gelo do Norte,
o coração a sul de toda a melancolia,
a idade dos que amamos volvendo-se madeira,
o caudal de cometas fogueteando a seda da noite,
um poeta na taberna como um bicho-da-sede,
os instantes de guarda,
os frangos expostos e nus como cicciolinas,
os rapazes de cabelo que arde ao sol antes do futuro,
o futuro portátil de toda a criança,
o outro mendigo, afagador de cães e de portas de vidro,
a babilónia aromática dos mercados,
o salitre do idioma dando à costa na boca,
a cotovia castanha dos olhos da nossa Mãe,
o fulgor paratlético dos bêbados cantores,
o azeite que pavia a escuridão,
o teor ambulatório da condição
(qualquer condição),
o imperialismo francês jardinando palacetes,
o olhar abolidor de passaportes,
a gnosia como derradeiro livre-trânsito para a vida,
os cinquenta e quatro quilos de uma adolescente mais leve do que o ar,
a terra vista do espaço e o espaço visto da terra
(as portas de vidro, as portas de vidro),
o milagre de uma palavra justa sob a figueira,
o fadista reumático cheio de ciúmes e coisital,
a prece íntima perante um rio perto,
o perfume de um peixe e do gesto que no-lo deu,
uma galinha cozendo devagar em panela de ferro,
a lenha que a torna molusco e da família,
um bosque crivado de retratos num sonho,
o sonho de uma rainha pobre toda a vida costureira,
o ramalhar dos álamos de cartão no teatro,
a jóia de um cuspo à flor da água,
a lotaria orgânica dos cancros nas melhores famílias,
os bailes d’antigamente, em que o pasodoble e a ginja,
a portugalidade profunda das casas fechadas,
as grisalhas enxameando salões de coiffeur,
os partidos políticos e a visceral filhadaputice do género humano,
os romances de Henry James,
um sino tornando bronze o coração a quem o ouve,
a tardinha chiando doçura nos ossos do lavrador,
os avós clonando amor de amor nos netos,
o florilégio das procissões cheirando à falta de Deus,
como que se (de)volve musselina: a mulher saciada,
as costas do nadador olímpico golfinhando azuis e tejos,
aquelas cornetas compridas dos filmes bíblicos,
o Charlton Heston e a National Rifle Society
e os dez mandamentos e a merda,
a renda vegetal do Japão a amanhecer em névoa,
Wenceslau de Moraes lá, entre rendas,
os desastres de viação cutelando famílias,
os anos roçando-nos como a mato,
os ofícios, os tios, o pequeno comércio, as pontes,
o meu amor inteiriço e mole qual coágulo,
a cona das bebés fendendo a rosa,
qualquer rosa: simultânea pimba e écloga,
a promessa feita ferro na honra da palavra,
o embuste, o sortilégio, a mesa de tríplice pé-de-galo,
a Nicole Kidman lendo Greene, de verde(e),
a fonética ortoépia de David Coverdale,
a argúcia instintiva dos pássaros,
a gordura pré-republicana do último Rei, o Caçador Caçado,
o lhano boletim da morte do Irmão
(também morrerás, sossega, garantia o telegrama),
não nos adoecer o amor quando adoece quem amamos,
o nosso corpo: casa preliminar tanto de morte quanto de vida,
a estirpe bacteriológica do destino,
a cárie azul das fadistas,
as danças tristíssimas no mar-alto dos cruzeiros
(quase todos com muito dinheiro, muito cancerígenos),
o afã rumoroso dos vendedores de bananas,
a tessitura hemogramática dos ramos das árvores,
a árvore pulmonar na brisa do arfar
(pode ser do amar),
saber agora mesmo que morreu o Dinis Machado:
viva o Dinis Machado!, viva o rapaz!,
viva Mister DeLuxe!, viva Austin!,
viva Dinis Machado, viva!,
revivam também a deambulação predatória de António Botto,
a vulva métrica da Florbela Espanca
e a íris de Osíris no lótus do escaravelho
(cabeça-de-boi-cabeça-de-falcão-cão)
e Akhenaton, o apóstata de Amon,
seu longilíneo pescoço de tuberculoso,
seu crocodilo dândi dando o rabo ao sol,
lunar assunto hoje-muit’-em-dia de bares-gay,
viração do vento e luar prateando pessegueiros,
famélicos actores agindo revoadas,
facturas e divórcios azulando rodapés de casas,
e a vitrificada ternura autómata,
ouvindo sinos no bronze do coração,

neste instante que me guarda de toda a salvação.

03/10/2008

Crónica e Fotolegenda para O Ribatejo


A partir desta semana, n' O Ribatejo (www.oribatejo.pt), à crónica junta-se uma fotolegenda, em colaboração com a fotógrafa Sandra Bernardo. O título genérico das fotolegendas é Olhos Vivos. Aqui fica a primeira da série, seguida da crónica nº 71 da série Rosário Breve.
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Olhos Vivos – 1

Fotografia: Sandra Bernardo
Legenda: Daniel Abrunheiro

CONTAS À VIDA

Em um instante de inexpugnável perenidade, eis-nos ante um mortal que, pela mão afundada no peito têxtil, deita contas à vida a partir de um olhar que mais parece um ábaco do que a líquida soma de um par de olhos. Na rua portuguesa, toda a efemeridade é apátrida. Esta (a deste homem) também, mas um pouco menos, afinal de (ou feitas as) contas, do que aquela que nenhuma fotografia resgata ao resto zero da passagem.

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Rosário Breve nº 71



Fala o Comovido

A maturidade está a tornar-me lingrinhas.
Tudo me comove, mil raios me partam. Juro. Tudo me enternece. E não, nem é de criancinhas loirinhas como as espigas do trigo que estou a falar. É pior. Por exemplo: a velhacaria. A velhacaria comove-me. Como a Pátria está cheia dela, suspeito que os meus últimos anos vão ser mui lacrimejados. Hei-de proporcionar um triste espectáculo, receio bem que hei-de. Estais-me a ver: um tardio quarentão com lágrimas octogenárias perlando de cristal as dioptrias. Triste.
A roubalheira também me derrete todo. E como a Pátria etc. de roubalheiras, estais-me a ver fungando a toda a hora a gota-de-figo dos ranhosos perpétuos. Isto não vai ser alegre. Penso que é da deformação profissional. Durante alguns anos, pertenci a uma classe que, precisamente por ter perdido a classe, se extinguiu. Fui jornalista. Agora sou só cronista, que é um estatuto que advém a uma pessoa quando desiste. Eu desisti. O meu trabalho agora é enternecer-me em crónica numa comoção de última página (mas a cores, vá lá).
Também as figuras por assim dizer icónicas se me transplantaram. A Dama das Camélias e a Rosa do Adro já não me condenam ao pranto. Prefiro-lhes a Eduarda Maio e a Fernanda Câncio. Bernardim Ribeiro, João Roiz de Castelo-Branco? Nada. Nem bucolismo, nem palacianismo. Mais cativa formosura triste me pinga coração adentro um Mário Lino, um Miguel Portas. Em vão recorro aos víveres mentais que há trinta anos enceleiro para nada: Beckett, Nemésio, Sena, Bradbury? Qual quê. A melancolia está toda na pança oleaginosa do Herman, no lustral desentendimento metafísico daquele rapaz que faz “livros”, o Zé Luís, no inequívoco assombro quando chove dos presidentes de câmara-tv, na artificiosa gaguez dos noticiários da TSF. Isso sim, é que é movente e comovente.
De modo que isto me anda assim. A manquejar para velho com nervosas vísceras de passarinho anacrónico. Desconfio que é por ser tão portuguesa a minha condição. Já tentei ser espanhol, mas não consigo jogar hóquei-em-patins nem planificar o futuro.
Não, nem rosas nem camélias.


Duas Manhãs

© Sandra Bernardo (Sé de Viseu, pormenor I)



I

Viseu, manhã e tarde de 8 de Agosto de 2008


Esta manhã acordei de golpe na Noruega.
Não tive de abrir os olhos para identificar a fraude, uma mais no somatório da minha vida.
A fraude e a febre com que as palavras sitiam a minha vida, substituindo-se às sensações: acordar na Noruega ou estar vivo ainda.
Depois (ou antes, ou durante) os cavalos irromperam pela cidade – e não era já a cidade, mas um campo esmagado pela neve, uma neve infinita e negra e apunhalada de abetos, ao longe o olho cego de um lago.
Da rua, chegava música eclesiástica.
Papagaios, como jóias vivas, janelavam o íntimo horror do exílio.
Senti o cheiro a roupa quente que provinha do quarto onde a minha mulher passava a ferro.
Pus-me a ser balbuciado por palavras:
catálogo, comboio, península, arrumador, faia, balde, evangelho, roupa, catálogo outra vez, cavalo, decisão, moeda, frasco.
Deixei-me estar um pouco, aceitando a Noruega como uma criança admite uma festa na cabeça.
A mulher rondou entretanto (entre tão pouco) as outras divisões da casa, então o perfume do café mudou o da roupa, que encontrei pronta e pessoal sobre a cama ao voltar do chuveiro.
Ia pensando na costa marítima, em grandes barcos dividindo o horizonte, sombras horizontais na luz perpendicular, em ramalhetes eléctricos de estrelas de outro estio, que não viverei.
Se pude sentir o frio milenar dos icebergues sob o chuveiro quase a ferver, foi porque, por assim dizer, posso glaciar as fraudes: as palavras que me as instituíram em vida.
Molhei bolachas de centeio no café, restaurei a temperatura do sangue à janela, a que tomei fundos haustos do ar estremecido pela chuva em breve. Ainda não eram as oito da manhã, a mulher pagou-me uma bica no café do centro histórico, perto da estátua toda verde de um rei qualquer e norueguês.



II

Viseu ,tarde de 12 de Setembro de 2008


De manhã caiu-nos uma chuva de caranguejos mínimos.
Infiltraram-se por todo o lado babujando tempo, tempo, tempo.
E o tempo pôs-se a andar para trás como é próprio dele e deles.
Os cigarros cresciam-me na mão.
Os pêlos da cara recrudesciam-me para dentro.
Olhares mudaram de cor e de década.
Estátuas mexeram-se.
Sorriram, tarjados a negro embora, os rostos policopiados da necrologia dos jornais.
As mais velhas pombas enrolaram-se antes do retorno ao ovo.
Casados há quarenta anos, um homem e uma mulher beijaram-se as bocas sem ser por festa.
Os caranguejitos tomaram o bolor das paredes, a pátina das vidraças, sugaram dos olhos das velhas as cataratas da cegueira, reescreveram a baba perdida dos passos e dos paços, treparam as casas brancas que nos largos amparam a História e a Agonia.

E de manhã começa o dia.

02/10/2008

Dez Poemas de Pobre Amor a Portugal


© Josef Koudelka (Portugal, 1976)




Viseu, fim da manhã e entardenoitecer de 1 de Outubro de 2008



1

Era de manhã
um cálice de aguardente que fez e um figo que passou,
artesão de frutos que destila e embalsama.
Homem da cama erguido antes das galinhas,
descido à adega a confirmar o sono perfumado das maçãs
e do cavalo e da vaca.

De lado, como se céu não houvera, instaura-se
o azulejo da alba: repetido espanto,
contadora luminotecnia de quanto falta
para morrer, para ter nascido.

Na cozinha negra, em cima, bule já a mulher:
um ser de fumo que o fogo domina.

Esta é uma história de amor e conjunta solidão
portuguesa.



2

Entre árvores somos
um homem como elas antigo e rumoroso
– ou um cavalo que delas pasta a sombra feita erva verde
– ou alguma criança que nelas lê o último código:
que como elas arderá,
a criança,
em cavalo primeiro,
em antigo homem último
depois.



3

E quanta falta de morrer
e quanta de ter nascido.



4

Sem mulher embora, vivi já no campo,
onde integrei os venenos benignos da terra:
o azeite que mais ilumina quão mais negro,
os laranjais estabelecendo ourivesarias,
o paganismo dos magros cães que o vento açula,
os magros ribeiros engordando o tomate e o gado,
a cegueira táctil dos pinheiros pejados de larvas,
as minhas botas de cavador que nunca cavou.

E as noites iguais ao azeite, mais claras quão mais negras.



5

O local de enco(u)tro
é o amor.



6

Como a floração de pepitas de sal na boca:
clarões de lucidez,
gustativa afinal.



7

Estou sentado a uma mesa de ferro
sobre pedras assente.
Levanto-me, vejo um gato,
remexo as folhas do outono com as mãos
de baixo: as que fechei em botas,
como no ferro me fecho,
sentado.



8

(Pai:)

à chegada do estio de 1978
(abstracção de abstracção: ano e verão: e ter pai),
fomos felizes uma noite
ceando sem pressa.
No pátio ardia de sã febre
a mocidade do pessegueiro.

Não voltaremos trinta anos, nem um ao outro.



9

Era numa aldeia da Beira Alta, tinha-se casado a minha Irmã.
Lembro-me das maçãs e da saúde do frio.
Abriram na terra uma estrada, que de terra ficou.
Recordo o padre a ladrar na igreja contra o 25dabril.
Houve um par de olhos azuis que usava o rosto de uma menina da minha idade para dançar no rancho.
Os burros trabalhavam como homens – e eram, todos eles (soube-o depois), o Platero de Juan Ramón Jiménez.
Depois, tornei-me igual aos homens que trabalhavam a terra e a estrada e a terra – e burro.



10

Neste meu pobre amor a Portugal
entram milionárias coisas como:

o céu lápis-lazúli da Figueira da Foz,
o milho inteiro nas eiras noites inteiras,
o passar do pitrolino na infância,
a muito provável senectude de amanhã, o mar vendo,
as mulheres ainda rolas e peitorais e bosquímanas,
a tabuleta a dizer que há telefone na aldeia,
o celibato essencial da vaca que dá o leite como a fonte dá água,
o rumor dos carros de madeira,
os homens também de madeira junto aos bois,
a inclinação pensativa das dunas,
os largos olhos-de-água dos arrozais,
o mar querendo-vindo-querendo-vindo conhecer a nossa terra,
os relatos iconográficos das santinhas que nunca – oh nunca! – foderam
senão a nossa paciência e o nosso azeite e as nossas caixas-de-esmolas
e os nossos casamentos celebrados à imitação
do mais popular canal de televisão,
as estátuas deste e daquele
quando afinal, ó meu Portugal,
Jorge de Sena e Aristides de Sousa Mendes
e o João Roiz de Castelo-Branco e a Luiza Jorge,
o paul de Arzila e a planura de Minde,
os homens que na rua param um pouco
para ser candeeiros antes do retorno
às casas em que se apagam,
as mulheres que refilam hortaliças e filhos
o dia todo antes do retorno
às casas em que se apagam,
os pescadores fumando sem-filtros sozinhos
no mar colectivo,
a ferida abrasiva da cal quando tudo se nos alenteja,
explicarmos a um inglês ou a um americano onde é Helsínquia
e o que é uma horta e Ruy Belo
e António Osório
(e Jorge de Sena e João Roiz de Castelo-Branco),
este bastar-nos uma piscina para oceanarmos Descobrimentos,
mas não só,
não só ainda que tão sós,
tão cus-de-judas,
tão emprestada ibiza sem marbella nem maravilha,

neste meu amor a Portugal
entra a ruiva fadiga do amanhã,
a nunca vista perdiz que D. Carlos I e Último,
mas o tão famoso Tejo e o pouco reconhecido Douro,
que Mondego é nome de cão.

Penso nos oleiros, eles fazem música com o barro
e eu em Portugal
estou em casa.

30/09/2008

SAÍDA DO SANTO SETEMBRO e outros poemas mas poucos

Viseu, entardenoitecer de 30 de Setembro de 2008




DIFERIMENTO

A minha Mãe, como a Vossa, é por vezes a claridade
mesma: quando, achando graça a um dito juvenil,
ao que ouviu celebra de riso mais ainda pueril
do que o que lhe disse algum filho, ou filha, na outonal idade.

Octogenária já, já quase cega, vê ’inda, sozinha em casa,
viventes muitos, embora mortos em outra vida.
Gosta de vê-los, a magana, e esconde-os na asa
que, tal como a casa, é já, ó Mãe, tão diferida.



DOURAÇÃO

Quase nunca doce do anis a flor da introspecção,
resulta sempre quase amarga no horto do coração.

Às vezes (muitas vezes), é por um nada:
o gume de uma esquina, uma avenida esvaziada.

Outras (muitas também), pelo mínimo tudo
de tudo ser outro e o mesmo e contudo

próprio alheio: a furtiva laranjeira noivada
de anéis mil de ouro nunca esposada,

a fatia da porosa melanc(ol)ia expedindo o Verão
e todos quantos nele são.

Fere então o sino a ave sonhadora
que vai e voga e doura e não dura.



DÍSTICOS PREPARATÓRIOS DA SAÍDA DO SANTO SETEMBRO


Se a tristeza te tocar pelas ruas como a um cão,
dá-lhe por comer a tua sombra, escuro pão.

Floridas raparigas trinam dentecristalinos sorrisos?
Atira-lhes as brandas pedras dos olhares furtivos.

Fechados em fechadas casas encerram vidas mistérios.
Outras sequer mistérios, tão-só finais limpos e sérios.

Tinta de asas usam as aves para riscar
a escrita ilegível: os poemas do ar.

(Eu vou pelos da água e do vinho:
homem que sou, só voo baixinho.)



SAÍDA DO SANTO SETEMBRO

I

Sucumbe hoje em suor de santidade o suave setembro.
Mais branda ferve no seio das árvores a seiva viva.
Pêssego e ametista é ’inda a pele pessoal dos cidadãos,
que de todo se não recobriram ’inda, dada a brandura.

Madreperla-nos já a lua futura, que outubra a gás
frio e dura prata. Nos lares, aurígneos gravetos
ourejarão o rubi e as assadas viandas, perto
de que algum tostado gato sonolento, nos pátios ventando.

Por enquanto não. De setembro as horas últimas
atiram-nos sedas e musselinas, fadas fados silvando
não estrídulos. Uma paz de vitória alguma toma
o sítio, sítio sendo ao que sombra deitamos,

nós, sombras de sombras. Tudo na cabeça me
outona folhas, falhas e filhas: matérias de pensar,
quando um setembro se me nos despede
até mais não ver, nem ser.

II

Acontece os cidadãos perderem o próprio nome,
volvendo-se furtivos animais acossados pela predação.
É pelo cair da folha: faz o coração de charco
de óptica água depressa cega da Queda.

Não digo isto com força de lei: é mais
como me sinto, urdindo o outono
dele as auriflamas decadentes.
É mais como ter frio ao sol.

De uma janela alta caem escalas de piano,
escarlatam sardinheiras quais domesticadas papoilas.
Vista de baixo, a volante pomba une os pontos
derradeiros do folhedo das tílias.

Na praça, coalham famílias
o soro que da ceia suma a hora.
Mais frio aqui dentro do que cá fora,
esqueço o meu nome, chama-me.

III

Chama-me, chama auriflama, que outoniza a vida
não ser primo nem vero: aves voando virão que verão
a ver no setembro que vai
o outubro que vem – ou não.

Nenhuma dor nisto, nem urgente euforia.
Brônzeos sinos só e sós, indiferentes
à eternidade e ao horário comercial.
Por finais de outubro, há já luzes de natal.

(Zénites, tântalos, sísifos e nadires
ouropugnam argênteas demandas.
Mais porém idos há do que há porvires:
possante é o passante rio, mas duplas as bandas.)

Resistamos um pouco ainda, ainda assim.
(Hospícios e prisões servem h’ora a sopa.)
Vistamo-nos de luz, é só mais um fim:
pérsica ametista, setembrina roupa.



ÚLTIMOS DÍSTICOS DESTE SETEMBRO

Confirmo as janelas velando a noite,
a noite volando quieta nas casas.

Confirmo a maravilha das cores, mas só de cor,
que a noite anoitece até a paleta da memória.

Confirmo a quietação escondida das aves,
nos beirais pisando estrume e cascas de sementes.

Tinta de asas usaram para pintar
a tela invisível: as pinturas do ar.

COSTA

© Josef Koudelka – De Joelhos (Irlanda, 1972)



Viseu, tarde de 30 de Setembro de 2008




Horizontais medusam pelas ruas as pessoas entre algas, altas
árvores. Transpareço eu também, fóssil morador de frases
todas por dizer, nenhuma por ouvir. Quero ir à festa, mas Deus
não recebe senão os ajoelhados. E eu deitei-me à música, o vento
arrasta já o manto da noite, essa senhora tão branca, tão
enegrecedora de litorais.

Digo mais: pátios da cidade não enclausuram já idos avós e marços,
o sol floresce de ferro na figueira doente, um fio de água põe ovos
de ar numa selha fria como um olho cego. Além, a senhora que trata
de meninos doentes enquanto as mães dos meninos registam
as mercearias do futuro nos hipermercados. Nas minhas costas, mais
pessoas deitadas passando, ondul’andando como aquáticos minerais.

As marés sargaçam sinais de trânsito, arenosa serradura duna
o chão das tabernas, em cujos porões o sangue do Senhor manda
ajoelhar as bocas ao altar do vidro e do mármore. Quanta beleza,
a destes suplicantes horizontes que nem já pedem nem podem já
senão perder o que se deu nunca
à costa.

29/09/2008

Fala a Boneca Partida

© Clarence John Laughlin - A Strange Situation, 1938





Viseu, manhã de 29 de Setembro de 2008






Às vezes consigo recordar sonhos como o de ter nascido.
Apareço nesse sonho como uma boneca partida.
O corpo vibra muito para ser uma árvore, um rio, uma coisa assim.
Desperto na luz crua, deixaram a janela do quarto aberta,
o frio entra duro pela luz como uma pedra, uma coisa assim.

As palavras musselinam-se todas nas cortinas, vestem senhoras
brancas de olhos esvaziados na cor do céu, longe como o mar.
Entro na taberna e não escrevo, quase não vejo, escuto
a história da humidade nas paredes, as garrafas de ginja,
o amor pátrio, o hálito avinagrado dos peixes deitados na morte.

Retiro as minhas conclusões e perco o sonho, o nascimento.
Envelheço na sombra física, queres-fiado-toma.
Aqui na terra não há escritores, foram todos para a Suíça.
Às vezes quero falar com alguém, mas alguém fechou a janela.
Deito-me no quarto e espero renascer, os olhos abertos no escuro.

Todos Vós


Viseu, 28 de Setembro de 2008


Agora tu dizes eu para ser um ele.
Ele é o meu homem dentro de ti.
A nossa vida toda ao mesmo tempo
neste único corpo.
Às vezes como se eu fosse alheio e nós
manchando de sombra a luz das ruas
antes e depois.

26/09/2008

Linhas de Partida

TÁBUA

I. LINHAS DE PARTIDA
Viseu, Casa de Pasto A Marisqueira, horalmoço de 26 de Setembro de 2008

II. ESTE SÍTIO DAS MANHÃS ME DESPEÇO
Viseu, Café Penedo da Sé, manhã de 26 de Setembro de 2008

III. DE BOTAS
Viseu, perto dos Correios, tarde de 18 de Setembro de 2008

IV. UM HOMEM NEM SEMPRE VÊ
Viseu, Mundial Bar, manhã de 3 de Agosto de 2008

V. OBTUSA LÍRICA DOMINICAL
Viseu, Mundial Bar, fim da manhã de 3 de Agosto de 2008

VI. SETE POEMAS DE ABRIL DE 2008
Viseu, entardenoitecer de 23 de Abril de 2008

VII. EM TERRA DE PAI, ACORDA QUEM É FILHO
Viseu, Café Mundial, tarde de 4 de Agosto de 2008

VIII. FUNCIONAMENTO MARINHO
Viseu, fim da manhã e noite de 8 de Agosto de 2008

IX. DORMIR
De comboio, Pombal-Mangualde, tarde de 12 de Agosto de 2008

X. (NO INTERVALO DAS ÁRVORES)
Viseu e Molelos, tarde de 14 de Agosto de 2008

XI. (FADO A ATIRAR PÓ RELIGIOSO)
Viseu, manhã de 20 de Agosto de 2008

XII. CENTO E MUITOS MORTOS EM BARAJAS
Molelos, tarde de 20 de Agosto de 2008

XIII. TUDO O QUE SABES DESTE HOMEM
Viseu, Bar Estado d’ Alma, fim da manhã de 25 de Agosto de 2008

XIV. SEREI FINALMENTE FINAL
Viseu, Restaurante Colmeia, noite de 25 de Agosto de 2008

XV. GPS COM RIMAS PORTUGUESAS E OLHOS DE MULHER PRÓPRIA
Viseu, Praça do Rossio, tarde de 27 de Agosto de 2008




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I. LINHAS DE PARTIDA
Viseu, Casa de Pasto A Marisqueira, horalmoço de 26 de Setembro de 2008

Estou de partida, vou deixar estas cónegas ruas, estas praças a este sol. Para onde vou (para onde vamos), não sei. Tenho uma ideia, mas não sei: não é isso pensar? É um ciclo que se me fecha. Gostei destas pedras. Viseu é uma cidade onde uma pessoa (ou duas), enfim. Deixo-vos hoje estas muitas linhas. Como todas as que escrevi (como todas as que li), são de partida. É certo que às vezes regressamos: a uma cidade, a um corpo, a um olhar, a uma gare rodoferroviária, a uma linha. Ainda esta manhã pensava nisto. Para não mais pensar, escrevo. Escrevo para não pensar. Serei mais sincero ainda: escrevo para não viver.

Seguem-se linhas. Elas não têm importância. Ou têm uma importância que não vale – ou um valor que não importa. O que me importa, é telefonar de vez em quando à minha Mãe, é procurar nomes de pessoas que já não há para poder nomear personagens de livros que não escrevi. Importa-me uma sardinheira numa mansarda, sobre que uma cabeça de mulher antiga e portuguesa. Importa-me o perfil de um castelo: caligrafia mineral do Tempo: e certificado de duradoura finitude.

Escrevo estas coisas com uma cara muito séria. Hoje, tive de almoçar sozinho. A mulher meteu-me uma nota no bolso, disse-me que viesse aqui comer, eu vim. Lá para onde vamos, que crepúsculos matinais parelhos nos esperarão? Os mesmos outros. Isto é todo o Tempo: estes hojes volvendo-se linhas, partidas.

À minha frente, avó e neta. Populares. A velha, de carrapito capilar apertado a malha de seda-nylon. A púbere, de óculos de plástico escuros como pisaduras. A velha, bacalhau. A nova, febra de porco. A velha, tinto. A moça, coca-cola.

Respiradouros: as linhas respiram, são como aqueles bichos que abrem buracos na onda que recolhe da areia. Respiram a invencível finitude. (Mas sei que vamos para não muito longe do mar.)

De modo que em breve gaivotas. Não já só pombas. Não tem importância.



II. ESTE SÍTIO DAS MANHÃS ME DESPEÇO
Viseu, Café Penedo da Sé, manhã de 26 de Setembro de 2008

Este sítio das manhãs me despeço.
Quando se a ele e elas retornarei
não sei.
Vou ver outras pombas
as mesmas decerto na minha vida mesma.
Os mesmos outros homens antigos
de chapéu-de-chuva aberto ao aberto sol
reterei
lá para onde sigo agora
como antes.



III. DE BOTAS
Viseu, perto dos Correios, tarde de 18 de Setembro de 2008

No pólo sul de uma pessoa vi esta tarde umas botas iguais às que há um ano desejo à passagem pela sapataria da Rua Direita. O melhor atavio da pessoa resultava-lhe daquelas botas. O vestuário era regular: limpo, de cor neutra, sem outra mensagem que a da neutralidade mesma. Casaco escuro, de um azul fechado. Camisa de cor e consistência de casca de ovo. Cinto de matéria sintética e fivela rectangular. Calça castanho-terra, mas de terra sobre que choveu há pouco. E então, magníficas, a sul de tudo, aquelas botas irmãs das minhas, que não tenho.

Segui-as pela cidade. Repeti-lhes os passos, o meu desejo calçando-as. Vi-as esperar enquanto a pessoa comprava um chocolate numa confeitaria que está há anos em trespasse: como todos nós. Vi-as avançando devagar na fila para entrega do boletim do euroloto. Vi-as cercadas de pombas no rossio municipal, sob uma chuva de migalhas de pão. Vi a direita esmagar sem conhecimento uma ampola perdida em frente à gare rodoviária. Depois isto passou – vai daí, era outra a manhã.



IV. UM HOMEM NEM SEMPRE VÊ
Viseu, Mundial Bar, manhã de 3 de Agosto de 2008

Um homem nem sempre vê: é lobo só quando é cego,
é uma condição até triste, só aqui entre nós
que ninguém nos ouve.
Uma mulher, não sei.
Tenho este homem para não ver.

Delicadas faianças expostas em alheias casas
marilynmonroem envelhecidos chás barbitúricos:
do que sobra, cobra
o tempo impropérios e ciprestes:
e impérios e infâncias
e roubos na região.

Ai estas estrofes obtidas a pulso!
Ai tanta malvasia mal cheia alhures!
Não me vem da pulsação qualquer gnosia!
Não me vem da noite manhã nem dia!

Um homem nem sempre é lobo.
É homem sempre um lobo bem filmado.
Sábados de manhã, nos documentários
há crianças antes, ante-têvês.

A vida foi toda tanta há tantos anos,
que uma criança num homem, sábadànoite,
nem procura remédio, nem elixires,
nem descontos especiais antoceanos.

Era ter lido mais o Raul Brandão. E o
da Lisboa em Camisa, o Gervásio Lobato.
Um lobo também precisa de ser gato
ao pé dum pires, sei,
de um império cordato para o preto.

Um cigarro bem fumado antes que os olhos
anoiteçam de todo é tudo quanto olho e peço:
muita gramática se insurgiu
a bordo de baleeiros, esfaqueando a neve

maus irlandeses e piores portugueses.
Hoje, mamas glaucas olham silicónicas
próstatas sem aposentação lupina,
adjectivo aliás mais próprio de raposa.

Eu não vejo, mas olho.



V. OBTUSA LÍRICA DOMINICAL
Viseu, Mundial Bar, fim da manhã de 3 de Agosto de 2008

Abomino mais do que domino, domingo,
o mundo – e, por extensão, a minha vida.
Ainda não é porém grave, entre tanto
modo de vida que nos dominabomina.

Um pouco de Brel pensando olhar água,
a azul de azulejo na barragem, domingo.
Ficar todavia toda a vida aqui, num café quieto,
entre posters do Benfica e cartazes de bailagostos.

A verdade que procuro não é para encontrar.
Frequento por fora o comércio: o das lojas
como o das pessoas, essas boas pessoas
que repetem o fabrico e o consumo e a verdade.

A beleza e a solidão parecem-me gémeas.
O sol não evita a noite em pleno dia.
Da gare rodoviária, três ou quatro almas
inventariam a humanidade toda e arredores.

A própria banha luz na pele dos rostos.
Circumnavega a lustral emigração
da boca para o coração, se penso em ti,
se alguns dos meus mortos por mim te pensa.

Ser o positivo dá homofobia, isso que a História
arrebanha pelos arvoredos municipais.
Na América dita Latina, uma cantina
serve cantigas e sais (mas não sais) minerais.

Perpétuo ensaio clínico, a vida é laboratorial.
Somos portugueses de Portugal: so what?
What-whatson-pedra-holmes
nos lavará, uma à outra, as mãos?

Espera-me à esquina descoroçoado encruzilhar
de cebolas e almas e enforcados e lápis.
Sou todo azul no manto sideral:
orgânico e visceral e velocipedista de beaux mots.

Agora é para sempre desde que nunca mais.
Eu quero uma mágoa domesticável.
Já não presto para este coração, filhas.
Esqueci-me dos rendimentos, não dos cedros.

Gosto de ver as pessoas repetindo-se, tais
ondas do mar fossem: espumosas, claras e,
afinal, invencíveis, as boas frias pessoas
torradas pela Lua Grande deste sertão, deste

ser tão pessoa na desumanidade.
Bailes em Agosto, ele há muitos, não os irei.
Estou recolhido no co-nãodomínio da alma.
Leio ainda palimpsestos e preços da fruta.

Efabulo fracamente, aliás e a lilás.
Gosto de cores: o preto, o branco. A cinza.
Deu(s)-me para isto: ser um anjo
não voador, atento à terminação e ao romanesco.

Francas ruas, encerradas artérias: eu vejo
dos vivos a passante sereia ao farol alteada:
canoro rastilho de doenças vitomortais,
além de Proust muito dandy, muito David Suchet.

Belas palavras. Cruz ilhada bem-querença
ao desumano género que de gatos povoa Lisboa
e a Vida e arredores. Um barco, um bramir,
uma entraciclopèdiada: algum nome, duas datas.

Agora faço sobretudo escrever quadras sobre nada.
É a minha vida, Mãe.
Há-de haver um refúgio (um refugo) nisto:
uma absolvição. Se não, uma insolação.

Trago-te à trela, coração é a única coisa
que me ocorre para dizer corda.
Na Noruega, faria de preto ba(m)bilónico:
nunca, como aqui em casa me perceberiam

as quadras, a obtusa lírica dominical.
Olha a triste beleza: palavras portuguesas:
quadril, cenho, canja, espaldar, cós,
ricto, manjar, tez, borborigmo, anacoreta.

Preta opereta de lustres aurígneos: A Raposinha
Matreira, checa em branco. Reembolsa e
bolça: paga o que deves por ter nascido
de um convulso, como a tosse, amor.

Maio, algures na minha vida. Um salto colector
de margaridas, um lapso e uma elipse,
um desenho absolutamente trabalhador de
cerejas, atenta a obra civil suburpovoadora.

De quantos novembros seremos capazes, humanamente?
Estas pedras históricas, que nos olham na cidade
como oliveiras perpétuas, vitalícias despedidas
iguais a barcos que titanicam tudo

e nada? Ai eu, tu ai. As pessoas reflexas
como verbos de coçar, de caçar, de dizer adeus
a Deus, nós que não cremos nem crimos
nunca todavia e porém, entre tanto

deus-de-aluguer. E se for um cancro?
Haverá ele Segurança Social?
Miríade de telefonopoemas de um lado
(Campo de Ourique) para (Algés) outro?

Isto é tudo tão a sério, que me faz rir.
(A vírgula entre o sério e o que é normativa.)
As pessoas dão-se a não rir rios, perdem
com isso margens (de lucro).

O domingo, olha agora. Treze dias
são um minuto solar: e a Lua
concede passa-emanações de ventre,
atento o relógio das mulheres, o ponteiro dos homens.

Toda a língua quando faltar a boca.
O trânsito ribeirinho pela terra seca.
O Chiado ’té ao Rossio nos anos 30-XX,
nunca menos que trinta. E um.

As pobres bombas carbonárias.
Os mortos da Estrela.
O talhão militar pago a selos.
A estrela navegadora e o gajito magro de Santa Comba.

Disse’l’assim: Não tenho nada pa’ te dizer.
Falei mal, mas disse bem: a mulher
também é de redondos vocábulos, umas
somas agroaciprestes.

Um simples toque de dedo no cérebro molecular.
Ruas a fio proibidas de fumar: Maio-68
dá merdasquerdas pa’ teatros à direita,
o Bronx, o West-End-Ham, o Coventry

de Crystal Garden. Muita chusma, muita
mourama ama não amar Cristo & Pedro &
o Peixe-Catacumba-de-Constantino-o-Créu-
-Burro-como-as-Casas-as-constantes-

-constantinoplas-da-cultura-geral-das-
-palavras-cruzadas-do-Diário-Popular-
-entretanto-extinto: entretanto ex-
-tinto como tudo o que, domingo,

não bebe, nem vive, a vida mesma,
a morte própria: palavras portuguesas,
domingo, virgo, ferrete, álacre lacre, nanja,
canja, espaldar, mino e mina: e azul.



VI. SETE POEMAS DE ABRIL DE 2008
Viseu, entardenoitecer de 23 de Abril de 2008

1. Este Nosso Tempo
Viseu, entardenoitecer de 23 de Abril de 2008

Este nosso tempo vivo ainda é do melhor que temos.
A noite instala seus trâmites arrefecedores, porém pomos à mesa uma fervura de caldo, um pão branco, as quatro mãos.
Laqueamos as janelas, atiramos as mantas: não recordaremos, não hoje.
Este nós vivos no tempo.



2. Câmbio
Ibidem

Já se me velaram muitas coisas, não as palavras, não ainda.
Por elas troquei a família e a vida.
Nunca me valerão quanto, e quem, troquei.



3. Fins
Ibidem

Pelo fim da tarde, pelo fim da vida,
é bom receber, da avenida,
a gorjeada luz, o som tão são
das aves que dão arribação
à melancolia, ao fim da vida e ao fim do dia.



4. Chega e Volta
Ibidem

Chegou-me a homem uma tristeza de menino
o sol raia ainda luminações melanc(o)ólicas
não sou já rapaz capaz de fazer o pino
nem o meu destino de alegrias eólicas.

Mas sinto o vento. Isso sinto. Sinto muito aliás
os funerais e as inaugurações de rotundas.
Aos domingos chego mesmo a ser audaz mas
rabo entre as pernas volto a casa por vielas imundas.

Volto. Volto sempre a casa. Ond’ela é isso não sei
que voltar volta-se sempre pelo pinhal qu’El-Rei
semeou para defender do mar a terra aonde voltar.
Uma tristeza de menino vai-me chegar.



5. A Minha L. M.
Ibidem

Isto nas minhas mãos: a minha vida.
Tão igual a um farrapo dourado, a um bilhete de comboio.
Tão como a tua precisa: e sem ambas precisão.
Isto além das minhas mãos: o meu mármore.
Isto além do meu amor: o meu nascimento.
Isto na minha vida: a minha língua manual.



6. Memória de um Menino Bem Comportado
Ibidem

As mulheres são os combatentes veros.
Os homens, combatidos e batidos, esperneiam gases,
intoxicações patrióticas, anemias ópticas.
As mulheres controlam o mercado.
Os homens, varridos a versos adversos, dão-se a agonias
nem sempre malfazejas: dependem da cal e das igrejas.
As mulheres buscam, caçam, prendem.
Os homens não as entendem.



7. Não É Mau é Meu
Viseu, tarde de 24 de Abril de 2008
(Pai, catorze anos sem)

I

Tenho a vida sentada no meu amor
não é mau que assim seja
sento-me aqui tomo um licor
sento-me e tomo uma cerveja
tenho o amor assente na minha vida
não toda a perderei. Assim seja.

II

O meu tempo é feito de coisas simplicíssimas
como viver e como morrer.
Nada está profundamente errado.
Tenho uma língua tenho um coração.
Não ando aqui a enganar ninguém.
Amo o que amo amo quem amo
mais desprezo do que odeio
o dia pôs-se bonito
mesmo chovendo não seria feio.

III

Escrevi há pouco um texto para a minha Mãe.
A revista estava no fecho, tinha de ser rápido.
Fui rápido a escrevê-lo, lento a senti-lo.
Era afinal um texto sobre a mulher da minha vida.



VII. EM TERRA DE PAI, ACORDA QUEM É FILHO
Viseu, Café Mundial, tarde de 4 de Agosto de 2008

Acordei esta manhã como se nasce: tarde.
Acordei tarde e iluminado pela certeza de morrer mais um pouco.
A outra vida dos móveis rumorejava no quarto, alastrando pela casa como um bolor musical.
A mulher existia a vida das mulheres: na invencível recordação para a frente.
Os retratos, que não olhei, olharam-me como cães muito cinzentos.
Um pouco de lixo e um pouco de ouro: uma casa normal: mal e norma e bem.
O carinho alimentar das gatas zunia comichões dorsais.
A língua mora-me (já-é-de-tarde) rente a um dente apodrecido.
Na madrugada, assisti aos fotogramas da concubinante solidão de Norma Jean, vulgo Marilyn, Monroe de nome de mãe.

Era outra vez isto.
Também vos digo que me pus de imediato a recolher informações: perto dos Correios, a maré láctea dos decotes das senhoras, o titubear sonífero dos toxis, a predadora navegação dos táxis, as vontades avinagradas pela existência real, um tudo ser outro, nisto, à vez.

(Eu ponho muita morte nos poemas porque o sexo me vai passando. Daqui que a minha poesia possível seja possivelmente boa para uma assexuação de bonecos sem genitália, embora o Google nos roube as filhas.)

Muito cedo na minha vida, levaram-me a Antuzede ao funeral de um senhor.
Ele tinha envelhecido tudo de repente.
Entre Deus e o cemitério, tiveram de poisá-lo como um pássaro ao sol ardente.
Recordo esse clarão.
Percebi de imediato que, quando me sucedesse o ingressar no rol de coisas a pegar, deveria ter escrevisto dotes mamários, consumpções, heroilíricas e versos.

Esta manhã, portanto, acordei em Antuzede.



VIII. FUNCIONAMENTO MARINHO
Viseu, fim da manhã e noite de 8 de Agosto de 2008

Suponho que a esta hora, alhures, o mar esteja em funcionamento.
Não o reverei hoje, tão depressa o não reaverei.
Perdi-me dele em terra que sobe pedras ao céu, esse outro mar de peixes de diamante povoado.

Outrora segui as passadas dos pássaros na areia.
Como se dirigia eles a lado nenhum, me dirigi eu a lado algum.

Ainda fecho os olhos entre pedras para frequentar os círculos deles, quando sobrevoam o mar que perdi, que não reverei nem reaverei.



IX. DORMIR
De comboio, Pombal-Mangualde, tarde de 12 de Agosto de 2008

O meu Pai está a dormir há alguns anos dentro da terra, eu estou na terra descalço.
Ele ensinou-me a atirar pedras às árvores, eu atiro pedras às árvores.

O meu Pai é um homem que está a dormir.
O meu Pai é um homem muito bonito dentro do sono, apesar de seus defeitos.

O meu Pai está a dormir dentro da terra, eu escrevo-o a ele dentro de um comboio, eu estou acordado dentro do dormir dele, pode ser que por causa de ele ter amado tanto os meninos que se descalçam na terra.

O meu Pai é um homem a dormir a partir de um retrato.

Os mortos exercem sempre uma autoridade fotográfica.

Qualquer homem num comboio tirou o bilhete para o Pai.
Ele não vem.
O comboio vai.



X. (NO INTERVALO DAS ÁRVORES)
Viseu e Molelos, tarde de 14 de Agosto de 2008

Somos as presas da floresta dos dias.
Não o semelhamos talvez, mas somo-lo decerto.
Lavamo-nos com água azul e sabão frio,
saímos a preencher os lugares (dos) cativos:
as estações gasolineiras, as dos caminhos-de-ferrro,
as dos anos: outono, inverno, outono e inverno.

O nosso mal não é nunca o menor,
o amor entre os quais principais.
Quem me dera revoar paradamente,
ter um emprego nos Correios, aceitar
as cartas das pessoas que ainda
escrevem.

É muito bom o sol nas praças, o incêndio
termonuclear das estátuas cada vez mais e mais
verdes, como nós envelhecendo, verdes.
Que bonitas são as descuidadas raparigas
melhorando o próprio leite pelas frescas
sombras da rua que desce de buganvílias

até onde o santo tocou os animais e o rio.
Ainda outro dia me aconteceu falar sozinho
perto da praça de táxis: aproveitei todas
essas frases para um poema que não pude
’inda escrever porque agora é a vez deste,
verde.

Somos o intervalo das árvores, idem do
carros. A cidade precisa de nós por razões
estratégicas, que vão da grelha estatística
à gastronomia regional: precisa de
nós para que aceitemos as reses, os planos
dormitórios, a menstruação dos vereadores.

Talvez não seja ainda hoje o dia
que a noite escolha para nos levar
a dormir perto de água-sabão azul e fria.
Estes golpes no gongo do coração,
o sangue mineral gaseificando as têmporas,
a ansiedade rondando a barriga da presa.

Os casais de turistas consumindo café com leite
e coisas com mostarda. Mas: uma álea de
pereiras-de-inverno no reverso da ideia,
a resistência floral dos ossos da cara: e a
cara quando sobe a ser rosto, norte
das nossas mãos tão portuguesas, tão bonitas.

Vamos lá a ver uma coisa: a vida, pagamo-la
com a vida – e nem troco nos dão, também
quem no-lo daria, senão nós? Viva mas é
a beleza, apesar de tudo tanta ainda: o
sol na praça onde já choveu e choverá,
os pés muito brancos das mulheres: como

se calçassem neve. Esta morrinha perpétua
de pensar a vida em vez de vivê-la, isto terá
de acabar. Calma. Com um pouco de imaginação,
é-nos possível ver alguma ponte ardendo de luz
no azul muito puro da imaginação, tão
melhor fundamentada do que a realidade.

Bitter afternoon endings were the daytime they’ve
chosen to a lesser bitter bit of a conversation,
and a drink or two or twelve – por assim
dizer, embora fora mais bem dizer
nigh’time instead. Tudo uma questão de
terminações (de anjos) – por assim dizer.

Sim, as presas somos – e, pessoas, umas
às outras presas: e predatórias.
Um derradeiro assomo de primeira lucidez
nos acode: e que é o de a língua portuguesa
ser a última oportungalinidade – por
assim dizer.

(Se me perguntasses se quero dormir,
responder-te-ia sabão e água e frio e azul.
E o rosto a norte e as mãos a sul.
E ainda assim, ó florestal, sorrir:
que a muito sobe quem a rosto aurou
quanta e cada cara olhou.)

(Uma mulher descalça e civilizada,
a seu fortuito animal pessoal domesticada:
a ela quero ainda, menino não de todo ido
às pastagens demográficas da mortal estatística.
Se um menino aprende um idioma,
a presa apreende um idioma.)

Transitamos ruas de traça medieval,
ardem auríferos os bolos de bacalhau,
os pedintes portam um boné da Selecção Nacional
por um cêntimo, mas de preferência um euro,
a senhora vereadora desce a chefe de gabinete,
são cada vez mais fáceis os divórcios e os amores.

Esta é a floresta dos dias: estes os cafés de província,
onde bigornar a poesia e a sede a duros martelos
ferradores da hora crua, estes os homens e estes
os animais e estas as mulheres como árvores de figo
dando a áspera gota de leite dulcíssimo,
onde as crianças repetem o terror e a luz.

A vida às vezes desaparece – e ficamos
só nós sós nos intervalos dela, isso a que
é possível chamar interlúdios para disfarçar.
O papel do ardendo-lhe de luz os cantos,
torrando-se os laranjais, o budismo das hortas,
um ribeiro gelando os dentes maravilhosamente.



XI. (FADO A ATIRAR PÓ RELIGIOSO)
Viseu, manhã de 20 de Agosto de 2008

Movediça comoção concorre ao som do sino
da branca torre antiga provindo.
Dá a crua manhã o dia por findo
– e a noite se devolve a destino.

Viseu, hora de almoço, última ceia.
Iscariota-se vagamente pelas vielas.
Josés piolham a areia arimateia.
Marias mui se tunicam amarelas.

Passa um camelo, um vago mago rei.
Deus sempre foi Menino p’ra isto:
operado a um tumor morre dum quisto
um padre cujo nome já nem sei.

Votiva-se a usuras relicárias
o ardente tesouro espoliado
na manhã de fés tão urticárias
quão várias as letras deste (en)fado.



XII. CENTO E MUITOS MORTOS EM BARAJAS
Molelos, tarde de 20 de Agosto de 2008

Cento e muitos mortos em Barajas, Madrid.
O avião fez-se bola de fogo ao cabo da pista.
Neste café, uma grávida fuma em plena placidez.
Há caracóis, diz-me um papel, mas tenho as moedas contadas para o gasóleo, que sempre arde menos do que a gasolina de avião.
A vida vai-se fazendo disto e desfazendo disto também.
Esta é uma sala aprazível, a dos fumadores.
Há uma lareira: boca negra que é bom ver carburar o ouro íntimo da lenha, no inverno.
Agora ainda é verão, mas isto passa.
Há muita mosca nesta altura, os televisores dos cafés estão todos ligados à TVI, não vivemos tempos fáceis.
Envelhecer pode não ser uma opção sensata, na vida.
(Digo isto mas já fumo menos, assim como quem não quer a coisa.)
Às dezanove e vinte e cinco arranco o cu da cadeira e faço-me à estrada.
Chego ao cimo da serra, ainda é dia.
Ponho a rádio naquela estação dos pianos e dos violoncelos e vou fazendo por não pensar de mais no nada do costume.
Vou com atenção à estrada e ao ponteiro do depósito.
Apesar de tudo, a vida sempre é uma coisa que merece atenção, embora nem sempre.
(Isto digo mas nunca deixo de colher a fruta que as árvores mais extremas dos quintais abandonam pelo chão, como se foram rainhas dadoras de pão.)
Já estive em Barajas duas vezes, mas uma à (v)ida e outra à vi(n)da.
Não conto lá voltar.



XIII. TUDO O QUE SABES DESTE HOMEM
Viseu, Bar Estado d’ Alma, fim da manhã de 25 de Agosto de 2008

Tudo o que sabes deste homem cruzando a praça
não passa disto: nasceu e morrerá.

Canoras papoilas são os ruivos pássaros
que fazem chilrear as árvores municipais.

Orquestra de cordas claras é a fonte,
luminosa de água canora ela também.

Pega na minha mão, aprecia quão
pobre estrela ela é, ainda assim aberta.

Pega na mão desse homem cruzando a praça,
não passa de uma mão de homem, uma estrela.



XIV. SEREI FINALMENTE FINAL
Viseu, Restaurante Colmeia, noite de 25 de Agosto de 2008

Serei finalmente final e velho
quando o corpo de todas as mulheres
for igual ao da minha Mãe

quando já nenhuma sede
e água nenhuma.

Serei velho
então
e então
estarei prontíssimo
para morrer
ou
digamos
para renascer.



XV. GPS COM RIMAS PORTUGUESAS E OLHOS DE MULHER PRÓPRIA
Viseu, Praça do Rossio, tarde de 27 de Agosto de 2008

Rola o planeta repletamente pleno
de animais não isentos de humanidade:
a pomba económica, o cão esmoler
e um gato cujos olhos são azuis e iguais
aos da minha mulher.

Fartam-se os municípios de estoirar recursos
e reservas ecológicas com putas de aluguer:
mas gatos há neste planeta de iguais e azuis olhos
aos da minha mulher.

Muito pode a concentração das petroleiras.
Muito pode a filhassimplesdeputice.
Pouco pode Alice ante suas mesmas autistas
maravilhas (tanto Alice quanto nossas filhas).
Mas quando Alice for mulher,
há-de querer, e até crer, ter iguais olhos
aos azuis da minha mulher.

Por aqui ando, no planeta breve
do poder local, cancro pouco benigno
do poder revolucionário que mal houve em Portugal.
Passa o vereador idiotizado
por mesmerismo de televisão.
Passa o assessor, que é assessor
e cabrão – por atributo de funções,
que mais se assessora quem mais troca a
própria senhora
por colhões.

Rola o planeta plenamente repleto:
e abaixo o acordortográfico que é
um peido obsoleto.

Pela minha vida, breve tal vossa por igual,
olhos de mulher, ortografia de Portugal:
Portugal, ó pátriazinha, azul, mor(t)al
e azul e minha.

Portugal, minha pátria nossa que, quando quer,
tem iguais olhos azuis aos da minha mulher.

25/09/2008

Sonho com Ela

Esta semana, nO Ribatejo do costume, a crónica nº 70 da série Rosário Breve.

Numa freguesia perto daqui do sítio onde como as batatas, há um cão que anda a assaltar capoeiras. Trata-se de um caso de “cãojacking”. O assaltante parece que é bruto, não hesitando em trincar as partes moles a alguns habitantes da aldeola. Uma senhora, aflita proprietária de um dos galinheiros visados pelo canídeo, tem uma galinha que sobreviveu ao ataque de há um mês, mas que “ainda hoje não anda”. Parece que estou a ver daqui a penosa: sentada sobre a própria moela, o olharzito ao mesmo tempo indignado e assustadiço ante a memória do minacíssimo morso. O cachorro, uns dizem que é rafeiro, outros acham-no de caça. Parece que o saco-de-pulgas em questão assalta para comer, motivo que o justifica a meus olhos – como os assaltantes de bancos que levam o “carcanhol” sem aleijar ninguém.
De modo que aqui estou a ler breves destas no pasquim local. Vem do alto uma tarde larga, forte, de pouca brisa e muita luz. A senhora da mercearia tem a fruta à porta, o que alegra o largo. Uma mulher muito bonita contorna a esquina, sai de vista, dissolve-se no ar vespertino. Um rapaz já descriado joga brincadeiras portáteis de computador. Tenho um livro para rever para a editora, apetecia-me galinha para o jantar. Galinha-galinha, de pica-couve, não frango-chiclete de mercearia grande. Apetece-me tanto galinha, que dou por mim a coçar a orelha esquerda com patadas rápidas e rítmicas de gajo que liga a motorizada. Bocejo e deito-me à sombra da capela, enfim, mas só depois de correr atrás de um opel-corsa e de um seat-ibiza.
E quando sonho com a que me escapou, rosno dentro do sonho.

24/09/2008

Isto não é L.

Policeman in a Dockland Alley, Bermondsey. © Bill Brandt, 1938





Viseu, tarde de 18 de Setembro de 2008

Também procuro Joanna Southcott, fora do tempo mas dentro da Panacea Society, e Jack London, quando ele andou por Whitechapel, em 1902, em demanda do povo do abismo. Isto de juntar Jack, Whitechapel e London na mesma frase, pode ser mau para a população de prostitutas. Desconheço se o sargento-detective Cribb ainda vive. Alan Dobie, julgo que sim, pelo menos desde 1932. Procuro. Vou tendo umas luzes na noite.

A noite é mais diária do que o dia. Passa-se dentro da cabeça. Uma árvore ao sol deita noite por todos os poros. Uma viela, ao contrário, pode ser iluminada pelo olhar de um gato – ou pela descoberta de uma faca ensanguentada. Estou aqui e procuro. Procuro dentro. Ao princípio da tarde, estive numa pastelaria perto dos Correios. Tomei uma ginger ale e esperei. Pensei numa história sobre um par de botas, cuja redacção iniciei.

Saí para a noite eram duas da tarde. As árvores do rossio municipal vergavam-se como anjos para os reformados nos bancos de ripas verdes. O mais era a língua portuguesa suspirada entre próteses octogedentárias. Por aqui, temos também capelas brancas, mas não são Whitechapel nem para lá caminham. São capelas portuguesas, luras pós-viriáticas, mas nem por isso viáticas, posto que não esmolam nem sacramentam. A unção é porém extrema.

Senti falta de casa. Cortei à direita, subi as pedras do Major, cujo fantasma onomástico me cumprimentou de dois dedos levados ao boné de oficial. À esquerda (ou a bombordo: eu navegava já pelo Tamisa improvável do Pavia), uma mulher vestida de negro (a noite têxtil destas mulheres na tarde) tropeçava no saquito de medicamentos. Um gato livre lavava a cara junto ao contentor do lixo. Um polícia completamente português coçava-se a nádega esquerda. Estas visões extenuam-me sempre de felicidade.

Joanna Southcott era para ter parido o Messias (ou Shiloh), pela segunda vez no caso do Messias, no Natal de 1814, mas a coisa não se deu. Ou não cedeu. Morreu um ou dois dias depois, a senhora. Dizem que deixou um bilhete de lotaria na arca das revelações. Pergunto-me se também na arca de Pessoa haveria cautela.

Não é seguro que Jack London tenha morrido de alcoolismo. O John Barleycorn pode ter resultado de um empirismo, mas as mitografias não são muito de fiar. Ainda não cheguei a casa. Compro dois lápis amarelos na loja das fotocópias. Há, em baixo, um bebedouro de água. Desço a cara e recebo esse cristal frio. Já pulsa a cruz verde de uma farmácia. O crepúsculo já borda a quarta dimensão dos telhados. Olho para longe, entre dois prédios a mancha verde da serra dói-me o mar que não há. Penso noutra coisa, mas o mar lateja dentro da fuga.

O Ripper é contemporâneo do Cribb: qual dos dois ficção, não sei. Uma criança vestida como um adulto miniatural: vejo-a lambuzar-se de gelado de chocolate, sentada muito direita no banco de jardim. A mãe gritinha interjeições ao telemóvel. Um cão muito branco boceja cor-de-rosa e negro numa espectacular amplitude de mandíbulas. Involuntário melhor amigo do homem.

Não por acaso, hoje era um bom dia para chuva. Gosto de, em plena tarde, reunir os sentidos para recepção da chuva nocturna. Havendo umas moedas, podes contemplar a massa de cor dos reclamos luminosos numa montra de pastelaria, o escarlate e o verde e o amarelo estilhaçados de água, o vapor das respirações vulcanizando as palavras que as pessoas deixam cair quando entram a fechar os guarda-chuvas. Mas faz um sol lunar, uma moeda termonuclear que reverbera de níquel e mercúrio nas cabeças, também já tão pouca gente usa chapéu, os tempos mudaram muito e isto não é Londres.

Canzoada Assaltante