15/04/2021

PARNADA IDEMUNO - 245 a 248


245

Quarta-feira,
14 de Abril de 2021

    Lembranças, quais círios errabundos, dimanam nimbadas fragrâncias quási ópticas em nudez. Destroços & escolhos de pretéritos erros juncam a praia deserta de um-só. Esplende o que se humanando pode dizer-se: até ao imaginífico supino. (Ou suspiro – mas esses são outros volteios.)

246

    Rodapé de noticiário: “Morreu o cantor Artur Garcia, aos 83 anos.” Era figura recorrente do nacional-cançonetismo do pré-25. Nunca, porém, me foi antipática figura. Viveu (e cantou) de acordo com as marés. António Calvário & Tony de Matos (o primeiro, ainda vivo; já desaparecido, o segundo) são desse tempo. Madalena Iglésias & Simone de Oliveira, também. Madalena achou bom-vento-bom-casamento na Venezuela, retirou-se, faleceu já. Simone ainda por aí anda, honra lhe seja. Outro que morreu: Bernie Madoff, o hipervígaro. Deixa mais raiva do que saudade. Não a mim, que lastimo apenas ao cantor Artur Garcia, português de um tempo definitivamente volvido. Ironia triste: faria amanhã, 15 de Abril, 84 anos de nascido.

247

    Quatro pessoas alinhavam fios verbais em comunhão de tempo dialogante. Resulta de tal toda uma tapeçaria retórica que me entretém – e até diverte. São, as quatro sem excepção, pessoas inteligentes. A trama do bordado ou do tapete – ou do trapo, pronto – é urdume volteado a mote de uma quinta figura, do presente conclave – ou sinédrio; ou quadrilha – ausente. Divirto-me. Digo-o não no sentido da hílare disposição mas no do entretenimento verbo-lúdico. Gosto de ler o bem-escrito como gosto de escutar o bem-dito. A tal quinta figura é um traste & é um triste. Ri-se mas é um triste. É um traste & o contraste de qualquer pessoa decente. Dou o tempo por bem-empregue. Sigo ora para outros exercícios da atenção.

248

    Uma mulher procura resolver certo problema com fundura no tempo. Não lhe há-de ser fácil. Não depende dela apenas, antes dependesse, mas não. Trabalha, ganha pouco, trabalha mais, pouco mais ganha. Legalmente, é compelida a liquidar dívidas que não contraiu – mas que em má-hora avalizou, de boa-fé & melhores-intenções se inferniza esta vida, que outra não há.


14/04/2021

PARNADA IDEMUNO - 243 & 244

© DA.

243

Terça-feira,
13 de Abril de 2021

    De esplendor & rosa esplendorosa,
    mocidade vivi que já não volta.
    Idade tenra & maravilhosa
    sem resquício de mal nem de revolta.
    Mas pronto, calma, lá-vai-que-não-volta-mesmo. Ontem & hoje dei livrescas voltas ao (meu) mundo. Comprei velharias maravilhosas – cuja maravilha foi agravada pelo preço abaixo até da uva-mijona à chuva. Já deliciadamente folheio os volumes. Neste aspecto, tudo bem. Outro aspecto todavia nada bom: morreu no Louriçal (Ribeira de Santo Amaro) um senhor meu amigo há 32 anos: o senhor Joaquim Roque, pai de Toninho & Paulo, que durante alguns tempos me fez a contabilidade anual ao vencimento de (então) professor naquela histórica & amável Vila. Verso & reverso.
    Situação clínica minha: continuo rangendo de ombro /braço esquerdos; tenho uma ferida no palato que me estorva – e quanto! – a deglutição.
    mocidade vivi que já não volta
    etc.

244

Algumas letras brancas sobre fundo negro.
Rosto velado a tule: de rapariga virginal.
Relógio em caixa de ébano sobre a lareira.
Mobiliário robusto mas finamente talhado.
A mesma rapariga, mas ora senhora casada.
Vestida de azul-ferrete, a sós na saleta.
Nem um sinal exterior de seja o que for.
Bruxuleia a lamparina animada a azeite.
Este século perder-se-á como todos: sem torno.
Não deveríeis deixá-la tão-tanto-a-sós-tempo.

No patim traseiro da casa:
Mercedes, Raquel, Serafina, Telma.
As meninas brincam, descuidosas rosas.
Andam homens empilhando lenha.
Mulheres algaraviam rouxinolmente.
A lenha é muito boa, durará todo o inverno.
A avó ensandecida fiodebaba-se na varanda.
Quando fala, fala só daquele dia na praia.
À frente de todos, o barco virou-se, afogou-se gente.
Tal não a ensandeceu, o luto sim, pelo filho, em diverso naufrágio.


13/04/2021

PARNADA IDEMUNO - 237 a 242


237

Segunda-feira,
12 de Abril de 2021

Deuses nenhuns emaranham por aqui o entendimento
Há por aqui liberdade até de erro, assim tem sido sempre
Áridos brejos não obstam a palavras corredoras quais cavalos
Senhoras claras regem a matéria de que fogem os sonhos
E no entanto é atrás da música que se vai cativamente
Algo nos torna, a cada um, única possível gente.

238

Arautos, bardos, corneteiros, declamadores,
entusiastas, facundos, gonorreicos, horticultores,
ínclitos, javardos, latrinários, mediadores,
numismatas, olheiros, pendentes, questores,
rabiscadores, sicários, telepatas, ulteriores,
verborreicos, xaroposos & zoadores:

Senhores, temos todos direito à vida
Vamos todos direitos à morte, senhores.

239

    Saindo esta tarde um pouco, dei por mim achando no chão um precioso cêntimo de euro. A massacrada moedita (riscada, amolgada, pisada, perdida & esquecida) será suficiente metáfora do coração de muita gente – do meu é que talvez ’inda não tanto assim, tenho bem tempo para me achar em perdido chão.

240

Caia a noite onde se levantou o dia
Rode-se em torno do Sol enquanto que rodar houver

Cidália das Neves + 119 pessoas despedidas
Faliu a fábrica, ninguém de cima vem explicar
Trabalhar em vez de roubar parece má escolha
Mudam as lâmpadas mas a escuridão é a de sempre

Cega-se a maralha de coruscantes consumos
De plástico ao sol passeiam ao sol o sorriso
Muitos dão de si sob os viadutos, faça-sol-caia-chuva
Outros nem enlouquecem nem medalhas peitam ao dez-de-junho

Não é fácil estar vivo pensando-se na vida
Pensar a vida não é o mesmo que pensar na vida
Expiatório negócio é viver de bolsos furados em calças rôtas
Folias pastorais, só em verso – para menos que para mais

Caia a noite onde
Etc.

241

    Prefiro ver palavras adentro, abrindo no quarto escurecido estes olhos que dos óculos descansam, agora inúteis as cangalhas pois apagada a luz-cabeceira. Vejo aquela pessoa reiterando a noite em silhueta no terraço da casa emprestada. Espécie de semiluar argenteamente algodoa o jardim, aquém, & o bosque, além. Esta é a casa na paragem mais estreme da aldeia. A povoação mesma, aliás, é esparsa já, não tem propriamente núcleo, centro, imo. Sete anos por aqui se demorará esta pessoa. Vê-lo-á a mulher que lhe traz mantimentos & lhe arruma as coisas domesticadas.
    Profiro vê-la – a essa pessoa para além de qualquer aquém. E profiro bem.

242

    Bem trajados cavalheiros dispersam-se pelo parque de estacionamento da igreja protestante, pouco depois da cerimónia fúnebre em que louvaram & começaram esquecendo um chefe-de-secção nem bom bem mau que com eles trabalhou. Atentai: alguns destes senhores tão bem vestidos são de importância, aliás tão mais influente quão mais discreta.
    O de sobretudo azul-trovoada & gravata cinza-negra é Gabriel George d’Aves Olmo. Nada lhe é alheio no submundo editorial-jornalístico. Frequenta almoços-de-trabalho com secretários-de-Estado, jantando no mesmo dia com o director de jornal a usar como papagaio propício.
    O de écharpe de seda grená listrada a anil é cunhado do anterior. Chama-se Nicolau Jacques Séneca Brandão. Tem uma fortuna em bólides na garagem. Roubou quanto tem. Não se lhe reconhece uma bondade. Trafica com a tropa: comida, combustíveis, nomeações, demissões – e, claro, armamento.
    Os dois anteriores respondem ante um velho que há muito não sabe quanto tem – mas que nunca se esquece de quanto pode. Chamam-lhe Farol – por sinalizar tanto com luz como, de preferência até, com trevas. É Gualdino São-José Rojo. Há mais de vinte anos que é velho.
    Podeis demandar da verdade do que digo. Peço-Vos que prefirais a verosimilhança à oleosa viscosa fugidia verdade. Mais V. não digo por ora: acerca-se de todos nós a meia-noite – e, sendo isto um jornal, sim, mas literário, é preferível ir por o dia-a-dia sem nem grandes ondas nem estrepitosas arrecuas de maré.


12/04/2021

PARNADA IDEMUNO - 232 a 236 (conclusão da Pascoela, 11.4.2021)

© Cassius Marcellus Coolidge


232

Falam na rádio de Kubrick, Bergman, Haydn, Schumann.
Imagino os quatro jogando as cartas em bufete de recreativ’associação.
Quatro Obras deixaram do mais supino acúmen.
Reclinado em fofa almofada, vou prestando atenção.

233

    Danbrunsson, em pavilhão de abeto sitiado pela neve januária, lê seu Dickens, seu Scott, seu James, seu Balzac. Arde em pré-pousio a rosa de lenha escolhida ontem pelo sempre prestimoso Olaf. Em ferro de tripé, a negra panela coze o presigo. Hortelã há-de boiar perfumando a cocção. Deixemo-lo assim. Outros cenários nos atendem.

234

    Gustavo, filho de Frederico & Justina, é fiel-de-armazém desde & para sempre. No seu tempo privado, urde catálogos de multiforme assunto. Em um deles, a Cronologia prepondera. Eis uma entrada:

    Virginia Woolf nasceu em 1882 (25 de Janeiro).
    James Joyce nasceu em 1882 (2 de Fevereiro).
    Virginia antecede James oito dias.
    Virginia Woolf morreu (matou-se) em 1941 (28 de Março).
    James Joyce morreu em 1941 (13 de Janeiro).
    Os óbitos são separados por 74 dias.
    Virginia viveu 59 anos, 2 meses & 3 dias.
    James viveu 58 anos, 11 meses & 11 dias.
    Total de dias de VW: 21611.
    Total de dias de JJ: 21529.
    Virginia viveu mais 82 (8+74) dias do que James.

235

    Túlio Ferdinando Sacramento Landes é duplo-viúvo: de Marguerite, natural de Toulon, extinta aos 38 por razão de acidente rodoviário; e de Selma, natural de Idanha-a-Velha, que de leucemia feneceu aos 36. Das duas finadas, o doutor Túlio tem dois rapazes (de Marguerite) & uma menina, olhos-do-rosto de Selma. Duas vezes a insensatez da tragédia fulminou o bom clínico. Todavia dotado de um cabedal psíquico assaz robusto, sobrevive em prol de sua prole tripla. A decídua natura do Tempo ainda o não vergou a chão algum. Está a seis meses da reforma. Ainda não meteu os papéis, na conspícua mas inconfessada esperança de lhe pedirem um biénio de prática mais. Em Setembro saberemos – eu, meu irmão & nossa manita, que Selma é também: menina & menina-dos-olhos de sua mãe.

236

É desta vez a asa esquerda a doer-me.
Digo: o braço, ali onde se engrena ao ombro.
Não sei se também o cálcio se oxida, se calhar sim.
Faz-me defeito, é desse braço a mão do cigarro.
De resto, tudo por assim dizer bem, tenho o que jantar.
Favas aporcalhadas com ovo escalfado & pastéis-de-toucinho.
Doce-de-bolacha, broa-de-milho, tinto-maduro.
A minha poesia não será, não hoje, literalmente famélica.
Só a asa esquerda me turva o instante, é aguda algia.
Não voltarei a tarzan-de-quintal, decerto não, não mais.

Tinem já na cozinha o talher & a louça prandiais.
Amarfanha a boca sua presa nutritiva, e bem voraz o faz.
Favas sempre foram ricas ’qui’ p’r’ò rapaz:
e enxugada a broa, a pratada quer outra mais.
Abademente digerindo eu já minhas vitualhas,
concordo seja tua a terra, se à mesma trabalhas.
Nem o sinistro braço me dói tanto, de pança cheia.
(Valha a verdade da poesia, embora resulte feia.)
Permito-me ainda café em vez de cevada:
o sono sempre virá, ’inda que por a alta-madrugada.

11/04/2021

PARNADA IDEMUNO - 228 a 231



228

Sábado,
10 de Abril de 2021

Raiz, caule, folha, flor & fruto.
Ordem, família, género & espécie.
Mas também:
Bonanno, Gambino, Genovese, Lucchese & Colombo.
Tem a Natureza-Mãe forma de (nos) ser madrasta.

229

Faias escoltam em alameda o visitante até o pórtico.
A quinta-solar esplendece qual jóia em botânico estojo.
A casa do casal de caseiros irmana a da moagem.
Tendes depois almácega, jardim debruado a buxo, rosa-dos-ventos.

Entre as alas de buxo passeou em pausa o preceptor das Meninas.
Era em privado poeta publicado por jornais da província.
Assinava elegias como Tadeu da Câmara, era fraquinho.
Todavia, ministrava bem seu latim, sua botânica, seu desenho.

As Meninas estudam as lições em carteiras de cerejeira vermelhas.
Estamos no ominoso ano de 1922 d.C. Ominoso, sim:
morre Proust, vem a lume a primeira-edição de Ulysses.
Tudo isto é porém longe, não chega a esta paz (de) solar.

São duas, as Meninas – herdarão tudo de papá & mamã.
Semelham lírios que a botânica partilhasse com a porcelana.
Diferem de nascimento ano & meio apenas.
Oferecem refinadas & lautas merendas de chá a suas bonecas inglesas.

Tadeu é na verdade João: João Nicolau Lucena de Brito.
Dá lições particulares para compensar a ruína que herdou.
O pai quase chegou a visconde – mas morreu em desonra.
A mãe matou-se por ter vindo de si a tal desonra.

Oito anos antes, mataram o Rei & o Príncipe-Real.
Tadeu da Câmara honrou com ode lacrimal os reais extintos.
O poema saiu com moldura de goivos no Ribas de Amarante.
Não há dele menção no Fidelino ou no Lapa ou no Cidade ou no Saraiva/Lopes.

Instauraram a República, destravaram & travaram a Grande Guerra.
Mataram o Sidónio-das-sopas, os (des)governos sucedem-se.
É ano de uma era já decídua: em quatro, tereis a Ditadura.
Por enquanto, João faz de Tadeu entre buxos & faias de avenida.

(conclusão no 231)

230

Domingo,
11 de Abril de 2021

    Conheci & vi em acção alguma gente videirinha – no pior sentido deste apodo. Repugna-me ainda o lembrá-la, embora já menos do que soía, pois que há benigna porção do envelhecimento que por mim acode. Com maior ou menor estardalhaço, tais carreiristas acabam apodrecendo como todos & como tudo. Assim, prefiro velejar o Domingo-de-Pascoela em sozinho arroio. Quantas vezes a própria sombra não é de cada um a melhor companhia? Muitas vezes – eis o sensato oráculo.

231

Dona Esterlina a mãe era das Meninas.
Vagava dela o tempo vagueando.
Podava suas rosas cristalinas
& o mais era viver agora & quando.

O marido, mui raro vinha a casa.
Engendrava fortuna na Mercante.
Estimava-a, tal é certo, a golpe-d’asa:
mas lídimo não era como amante.

Faias escoltam em alameda o visitante
etc.



10/04/2021

PARNADA IDEMUNO - 220 a 227

© Varela Pècurto (?)


220

Sexta-feira,
9 de Abril de 2021

    Um homem de tez muito clara, olhos de aquosa transparência com safira ao centro de cada. Fala do que sabe por experiência (muito) própria. Expressa-se com clareza, com natural harmonia não-ensaiada. Gosto bastante de escutá-lo. Nunca o fiz pessoalmente, porém. Só em documentos audiovisuais. Desconheço se ainda vive. Gostaria disso, de que vivesse ainda. Nos filmes que estudei, não era demasiado velho. Os filmes são do fim do século passado, coisa de há 25 ou 30 anos. Ainda não são, portanto, relíquias arqueológicas.

221

    Passava pouco das três da tarde, vai o céu de relampejar, trovoar, granizar & dar-se de grossas cadentes águas. É espectáculo que sempre me mesmeriza. Esplendorosa autoridade furiosa dos elementos, ante que a mão humana nem para graveto serve.
    E todavia é dia de saída: Gatito ao veterinário, Correios, pão fresco a aviar, talvez algum lápis novo.

222

    Morreu o Príncipe-Consorte de Inglaterra, Duque de Edimburgo, marido de Elizabeth II – Philip de seu nome, aos 99 anos. Sei muito pouco do extinto cavalheiro. Veio a Coimbra em 1957, ao que consta de vário documentário. É viúva, pois, a já vetusta soberana britânica. O nomeado senhor viveu perto, muito perto, de um século. Camões pouco mais de cinquenta, talvez. Pessoa, 47. Ruy Belo, 45. Cesário Verde, 31. E por abaixo adiante.
    De qualquer modo, todo um século de experiência respiratória se vai com ele. Não morreu anónimo nem de fome – e, ao que parece, deixa esposa, filhos & netos com alguma coisa de seu.

223

    E então Proust relido & retrouvé:

    “O que não tivemos de decifrar, esclarecer pelo nosso esforço pessoal, o que era claro antes de nós, não é nosso. Só vem de nós próprios o que tiramos da obscuridade que está em nós e que os outros não conhecem.”

224

    Enquanto a televisão transmite uma comédia-bufa da barraca judicial portuguesa (de que o crime sairá impune; e a culpa, solteira), vim à rua com Gato & tudo. Nada me falta. Está, como gosto, invernoso o dia. Escolhi um canto mais ou menos tranquilo para sede de exercício destas linhas com mais pretérito do que porvir. Antes de aqui chegar, soslaiei, na fila dos Correios, uma impertinência de ciganos, que acabou por serenar-se como à chuva o fósforo mal aceso. Campeia pelo mundo mais sordidez do que à vista apressada se lobriga – tanto o mundo imaterial da televisão quanto o mundo próximo de outras ciganadas à solta (algumas das quais em directo televisivo).

225

A compasso da hora, transparente instante da obscuridade, vingo
a prorrogação do respirar ’ind’algum tempo, a ver se sim ou sopas,
afinal não depende cada um de si só mas de inalienável lei-motriz,
autoritária & incondicional condição que ao humano desconta só
a sós retalhado como a granel despachado.

Ontem como amanhã (se um amanhã florir a meus olhos piscos),
a arte de r-existir ditará, como ditou sempre, seu regulamento,
o qual abarca o digerir como o pasmar, o bocejar como o tossir,
o postal como o penso-rápido, a pérola como o porco,
o pouco como o bastante, a noite como a criança nela deposta.

Biombos entre cada um & seu entendimento não facilitam,
demoramos muito a desvelar a simplicidade afinal crucial,
qualquer animal a leva a cabo sem esforço nem alternativa,
viva em nós a consciência, essa espécie de maldição irónica
com que não atinamos nem sentido-da-vida nem fuga-â-morte.

Podendo, voltarei pois a este bairro onde dizem melhor o pão,
o Gato dorme na transportadora que o cativa, café tomado abatanado,
compras feitas, tal como Ulisses embarco de retorno a casa,
dez minutos ou dez anos valem afinal por escrito o mesmo,
nada ou zero ou coisa alguma a compasso de mais nenhuma.

226

Falei hoje mui apaziguadamente com S. Gomes.
É pessoa distinta, de curtido cabedal vivido.
De outra gente ao de leve versámos assuntos.
Rimo-nos alguma coisa de algumas coisas.
Outras, porém, nos fizeram ranger dentes,
que eu aliás já nem tenho, só dos mandados-fazer.
Não vou neste poema perorar sobre tal.
Interessa-me tão-só referir que conversei – e não sozinho,
nem a cavalo de vinho.

227

    Passou um par já veterano de irmão & irmã, reconheço-os de há muitos anos, vieram para este bairro em 1977, por aí. Partilham um duplex no mesmo prédio em que viva a Conceição Peres, filha dilecta de um amigo do meu Pai. Enviuvando, a Ção foi viver para as Alhadas, não sei mais. Este par chama-se Germano & Olga, Palmeirim da mãe, Baptista do pai. Nos afinal felizes tempos anteriores ao bicho-chinoca, eu tomava café por estas bandas umas três/4 vezes ao mês. Via-os quase sempre. Germano dava um salto ao quiosque, de onde regressava abastecido de jornal desportivo + um maço de Português Suave. Esperava-o, de pé na esplanada, a irmã. Só em ele chegando se sentava ela. Ainda assim é, com a diferença de Germano ter deixado de fumar. É um manso doido pela sua Académica, com uma pontazita cosmopolita de benfiquismo moderado. Gosto de vê-los pela curial razão de estarmos os três vivos enquanto os vir & eles forem vistos.
    Tal a Conceição Peres, também já por aqui não vive o Bruno-Zé Azinheira Marques, rapaz camionista que encontrou a morte à espera dele numa auto-estrada alemã. Soube dessa tristeza quando ainda morava no Caramulo. O Bruno-Zé vivia em união-de-facto (que é como agora se diz amigado) com a bonita Verónica Maria Caldeira Palrilha. Moravam na vivenda verde cintada a lilás ao lado do posto-de-saúde. A Verónica era recepcionista de uma firma de advogados, recebeu uma compensação pela perda do companheiro, ainda bem que faziam há anos o IRS em comum. O pai do Bruno-Zé é que se foi muito a baixo. Era sindicalista reformado, tinha sido figura muito activa entre a malta metalúrgica logo desde o 25 dos Cravos. Acho que Teodoro Marques ainda vive, não sei bem. Só sei bem que ainda sei muito pouco – e que, por este andar, ainda chego à morte burro como quando nasci.



09/04/2021

PARNADA IDEMUNO - 217 a 219


217


Quinta-feira,
8 de Abril de 2021

    João Paulo Jonas Gala esteve estabelecido, aqui perto, no ramo armazenista de secos & molhados. A mulher dele mantinha tasca-petisqueira duzentos metros a montante. Essa Felisbela fritava muito & muito bem peixe, tanto do mar como do rio. João Paulo vinha almoçar à mulher. Trazia-lhe os precisos que ela telefonasse a pedir. Bacalhau do melhor, presunto, tremoços, azeitonas, garrafões – tesouros de Portugal, enfim. Casamento feliz & belo, o de Felisbela com João P.J.G.

218

    Não estraguei Tempo, não hoje. Li Soldati, Guareshi, Valéry & Proust. Não muito – ou não de mais. Fui descansar a vista à marquise. Abri frecha (as vidraças são corrediças em calha) – e então, velho fumador velho que sou, tomei profundo hausto de ar refrescado pelo entardenoitecer. Já as aves livres se tinham recolhido a seus misteriosos tugúrios. Não levaram fome, que as alimentei fartamente a arroz & pão – pombas, pardais, arvéolas, melros, rôlas, poupas, piscos. Agrada-me ter de fazer sopa nova. Tratar dos legumes entretém-me por si, invariavelmente, a de si variável mente.
    Vou cuidando-me pensando sem pressa nem ânsia, sem ilusão nem fé, sem prostíbulo nem disneylândia. É a parte menos má de envelhecer. Já não toco em salões-de-baile, já não aturo má literatura, já não me importo de comer & beber sozinho o meu pão & o meu vinho.
    E não faço, como o acima-exposto bem o demonstra, de mim assunto.

219

Há mais de um ano que é domingo todos os dias
Domingo, dia de pensar nos mortos
Os mortos, esses adormecidos que sem retorno amamos
Mas não acordamos.


08/04/2021

PARNADA IDEMUNO - 215 & 216

© DA.

215

Quarta-feira,
7 de Abril de 2021

    Neva com intensidade em Munique (Alemanha), cidade a cujas cervejarias costumava ir arengar o então moço Adolf, filho de Alois & Klara. Em Coimbra (Portugal), neve nenhuma – antes pelo contrário, espertou sol toda a jornada. Saí de casa às 16h30m para a visita das quartas-feiras. Trouxe comigo um saco de comida feita de fresco, provisão generosa para duas refeições no mínimo.
    Já a noite se faz senhora desta partida do mundo. Falam na televisão da morte de um político. O Bayern vai perdendo por 0-2 com um clubezeco franciú qualquer. Três mortes covídicas de ontem para hoje, cá. Golo do Bayern.
    Em casa, miúdas minúcias conspiram a interioridade. Os objectos particulares agasalham a dinâmica. Leituras quase acabadas, escolhas a fazer quanto às seguintes. Chá fresco (quente, digo, pois acabado de fazer), bolo com aparas de chocolate, lápis por afiar. O Bayern já empata, cabeça de Müller.
    O jogo acaba com 2-3. Na 2.ª mão, pode ser que o emblema bávaro se desforre. O que por enquanto não acaba, é o serão. Um trecho de música (Vivaldi) adornou o ar da respiração. E assim bem se está como os que o estão.

216

    Elementos do exterior encontram-se neste observatório sem demasiada importância que usa o meu corpo para lhe chamar Eu. Documentários, por exemplo, com sua revisão-da-matéria-dada. Catástrofes humanas, deslizamentos de terras, terramotos que nos deixam sem chão, erupções vulcânicas sem rolha possível, genocídios, deflorestação, ozono esburacado, tráficos de tudo o que seja mau.
    Sopeso tudo isso enquanto trato das minhas coisas. Nem eu resolvo o mundo, nem o mundo tem qualquer mote para dar voltas por mim. Nem guerra lhe movo, nem paz ele me deve.


 

07/04/2021

PARNADA IDEMUNO - 212 a 214

© DA.

212


Terça-feira,
6 de Abril de 2021

    Dois operários da construção civil (pintores) morreram após queda da altura de um quinto-piso – no Feijó, Almada. Andaime mal instalado, talvez. À vista, é estrutura anacrónica, já em desuso, porque sem guarda-corpos. Obra talvez não-licenciada. Idades das vítimas, entre 40 & 50 anos. Diz-se que Portugal é, na Europa, o quarto na tabela dos países com mais acidentes no trabalho. Nunca é o pato-bravo a morrer, é sempre o trabalhador. Eu andei nesta vida da pintura de obras. Sei o que digo & do que falo. Lamento & ressinto estas mortes como agravos pessoais.

213

    Valeriano Bento Pavana Damas – anotei este nome em Janeiro passado. O verbete não adianta mais. Penso referir-se a um homem da Arregaça, canalizador-electricista. Deve ser ele. Angustia-me um pouco não ter a certeza. É que, também daquela nobre zona operária de castiço nome, houve um Vitório Bastos Pereira Domingues – as mesmas iniciais, para minha maior confusão. Preciso de não anotar tão sucintamente. Antigamente, bastava-me bem – mas agora já vou tartamudeando arquivos, silabando menos bem, atrapalhando dados, fundindo vozes (cf., por exemplo, a entrada 211 deste mesmo caderno).

214

    Merendámos fruta fresca, abençoada criação. Passava já bem das cinco (bem-entendido, da tarde). O Gatito petiscou uma chicha de marca, é o nosso príncipe, tudo merece do melhor que haja na loja. A luz parece demorar mais horas, a Primavera vai vingando, o homem do boletim ameaçou 25 centígrados para a Coimbra de amanhã, se lá chegarmos vivos. Não vale a pena grande tristura. A sopa para o jantar tem conduto de vaca, chispe & chouriça. Voltam a passar a notícia dos dois pintores que morreram a trabalhar. Em Tabuaço, Valença do Douro, entretanto, resultou na morte de um homem de 64 anos uma desavença relativa a terreno agrícola. O homicida, de 74 anos, entregou-se à GNR. Pronto. O vírus-chinês também continua a matar: nas últimas 24 horas, diz-se que mais duas pessoas portuguesas. Lá fora, não sei quantas.
    Em suma, existimos.

06/04/2021

PARNADA IDEMUNO - 211


211

Segunda-feira,
5 de Abril de 2021



Vozes persistem na organização mental
– Não quero que a tua mãe saiba disto –
Não só quando o sono se acerca, não só
Também em vigília à luz as vozes persuadem
São emanações do tempo em re-composição
Quantas pessoas há numa, querida?
Variam em filme os cenários, não a atenção
Como na reconstituição de um cenário de crime
Quem fez o quê a quem, onde, se possível porquê
Tal não faz de nós doidinhos, receptores sim.

A actualidade é feita de sopa, é um bem o tê-la
Reconstituída a paz gástrica, o pensamento jibóia-se
De cada instante a decisão arruma-se sem luta
Nunca mais temos dias como aqueles, Ramiro
O estrangeiro começa além do passo por dar
– O futuro pertence a Deus ou ao Diabo, senhor? –
Flagelado pela zina noticiária, o rebanho barrega
Mas na cama a pessoa atabafa-se & atassalha-se
Vozes percutem em si como poalha de chuva
Perto de tantos longes, quand’inda o sono a não viola.

Na mata restam ruínas da casa do Trinta-Diabos
É espectro de bruma como José do Telhado & Diogo Alves
Ei-lo de brandões acesos, um em cada mão, descendo a escada
– Vá-se embora daqui enquanto tem pescoço –
O visitante quase se torna transparente, atemorizado
– Não quero que a tua mãe saiba disto –
Nas noites de chuva, por não ter lareira, também t(r)emo
Então a alva faz-se violeta em madrigal na marquise
Os apetrechos quotidianos reclamam seu diário solstício
Bonita, poderosa solidão em miradouro pátrio.

Reitero não ser doidinhamente que, receptores, recebemos
Vozes como a de Leonor D. na livraria pombalense
– Pai, este livro é mesmo muito interessante, sabias? –
Como a do paterAvô dela dizendo a seu benjamim
– E o Trinta-Diabos trouxe as mãos ocupadas para não o cumprimentar –
Também a minha se calará, deixo-a escrita para que não de todo
Não de todo enquanto algum leitor saiba folhear catálogos
Alguém mediatamente futuro capaz de deixar-fazer-deixar-andar
Pequeno milagre da palavra-escrita, suméria & sumária
Pedra-de-roseta-dos-ventos-de-espanha-casamentos.

Persuasivas vozes alastrando tinta na sensibilidad’infante
O carteiro-senhor-Fernando assim para a senhora Alice Duarte
– É 15 de Setembro hoje, muitos parabéns, minha senhora –
E do pátio o marido dela, Fernando também, sorrindo
Assim era no tempo em que os carteiros eram vitalícios
Como os mendigos conheciam cada porta de cada família
– Sobretudo que a tua mãe não se inquiete com isto –
Julgáveis quê?, que um poema polifónico não seria legível?, mas é
Como daquela vez em 1982 em que fomos os dois de comboio a Aveiro
O Sénior & o júnior, aveiro-de-um-ataque-de-nervos.

Animais rebentados de trabalho, os operários de retorno a casa
Invernos & verões formigando a laboriosa insensatez de continuar
Por quatro tostões parindo alheios milhares de contos-de-réis
Alguns deles tentando perceber a engrenagem, desmontá-la, melhorá-la
– Nunca fui pessoa de pôr à borda do prato o que presta –
Desde que fizeram o açude, doidinhos nocturnam a caça à lampreia
Comensais de pensões a preto-&-branco chamam ouro à sopa de cada dia
E é que têm razão, há tanto quem precise mas não tenha
– Pediu-me em casamento na noite de Rainha Santa –
Quarenta anos depois é que fomos de comboio a Aveiro.

Rio-me sem som na cama desfeita, lá fora rosas ao luar
Ouço sem abrir a boca, digo coisas a mortos pacificados
– Pai, como prometido, não lhe disse nada, mas se calhar –
É bom ter por enquanto um por-enquanto, cedo se fará tarde
Tarde de mais para ser grato, acusar a recepção de tanto amor
Essa volta que demos pela mata, Sénior & júnior, a voz ainda silábica
Narceja em seu ninho próspero, cabrinha na erva azulada da matina
Tangerineiras que a eternidade devolveu a silvestres
Elas & a pintura dos grandes mestres
– O Trinta-Diabos não queria apertar-lhe a mão, o pescoço talvez –.

Subimos aos moinhos do Lorvão, ser filho é de curial adoração
– O mundo, ó filho, já estava feito antes de p’ra cá virmos, p’ra cá fica depois –
Rôlas sem caçadores devolviam ao ar a qualidade etérea
Falar com o meu Pai não era então de natureza funérea
Uma pessoa resignar-se não é uma pessoa persignar-se
Uma pessoa admitir-se não é uma pessoa genuflectir-se
Custe o que custar, uma vez há-de ainda falar
Palavra-rara é toda aquela que nos aumenta
A vulgar é fraca, nem sequer atormenta
– Fazes hoje vinte anos, a partir de hoje é um fósforo – .

De aparente novidade se mascara a velha
(Velha, qual for – civilização ou pessoa)
– Tens alguma coisa a ganhar que eu não tenha já perdido, querida? –
Dizei-me algo que Gregos não tenham dito ou Romanos decretado
Seis mil ou seis milhões em tempo-estelar é brincadeira
Quando ainda branca, a França deu-nos algo ainda
Quando já demente, a mãe erguia-se de noite para pentear-se
Esfreguemos em nosso rosto meus os erros sociais
Os erros sociais que outros nos malencaradamente cospem pessoais
– Que a tua mãe saiba tão-só quão bem lhe faça –.

A Cas’Amarela-de-Cimalhas-Verdes
’Inda surge bela de quatro paredes
Casa singular (mas multitudinária)
Q’um dia foi lar de muit’alimária
– O médico disse-me três meses, duro talvez um ano –
– Sobretudo que a tua mãe não saiba disto, com Trinta-Diabos –
Falsa lentidão, a do sol-poente
Que dá condição à humana gente
Fumemos cigarros com nosso conhaque
Vendo passar carros, todos de combate.

Laboriosamente fomos crianças, trabalhávamos p’ra tal sem no saber
A ardósia do Estado-Novo vindicou-nos Boa-Ortografia & Má-História
Eu venho para ler livros & para versejar memória
Que seja toda contar, sabendo ler & escrever
– O senhor saiba que o seu filho trata o Português por tu –
Isto é em 1991-Ano-Mozart
De poucas certezas disponho, sendo porém inabaláveis
As mais recorrentes, mais audíveis & mais amáveis
– Os médicos sabem lá, filho, são gente como a gente é gente –
Também se enganam, claro, mas raro é que para bem.

Falei com a neta de um rapaz que há muito é sepulto
O que dele em nome-&-sangue houver nela, vozes o digam
O rapaz morreu, já não faz sombra, merece indulto
Já nem os vulgares ventos vis o vilipendiam
– Ó Fernando, olha este gajo aqui a gozar contigo –
Ou então um sítio básico, sozinho devidamente, sem prestações
Um sítio com estante p’ra cereais, velhos jornais & Camões
– Podemos não ter escrito nada, mas a morte faz-nos livro –
A solidão tira-me de o ter sido tão júnior
Estou sénior ante ninguém, vão é o desejo & vazia, a plateia de senhores-ouvintes.


04/04/2021

PARNADA IDEMUNO - 210 a 205


210

    Percursos tenho feito em singeleza
    a monte do que penso & vou sentindo.
    Algum desamparo & incerteza
    não obstam ao andar & ao ir indo.
    Do exposto supra, é exemplo certa volta que dei ao frio muito são do Janeiro de há dez anos. Era por Coimbra, naturalmente. Um sol sem febre amanteigava zimbórios. Seriam as nove da manhã, na altura não anotei. Pegavam ao trabalho os lojistas do pequeno-comércio. Rumo ao hospital, ia sobrelotado o autocarro. Um barbudo escarafunchava o contentor do minimercado. Recordo ter-me apetecido desjejuar a carcaça lendo o jornal do dia. Fi-lo conforme o apetite. Na galeria em arcada, escolhi a pastelaria mais pequena. O jornal estava livre. Café com leite, empada de frango. Como desde sempre & ainda hoje-em-dia, comecei pela necrologia. Sempre mais homens do que mulheres – e sempre menos idosos eles do que elas. Passo a narrar no presente.
    Saio dali devidamente restaurado. Já subo até onde a cruz preside à encruzilhada. Hesito: subo até à régia-afonsina via?, desço a augusta-maternal?, quê? Subo. Morou por aqui um professor meu. Apresso-me um pouco por me invadir um exórdio decassilábico, modo meu de sentir-me heróico. Desço a da cidra. Tomo café mais tarde, perto ali da igreja do carpinteiro padrasto. Tenho no bornal João Miguel Fernandes Jorge, Joaquim Manuel Magalhães, Daniel Filipe, Carlos Gomes (o controverso guarda-redes) & o Eça das Notas Contemporâneas.
    Virá no jornal que, em menos de dois meses, a minha Mãe estará morta.
    (Uso o verbo no futuro para que ainda não aconteça.)
    Percursos tenho feito em singeleza
etc.


209

    Hoje, domingo tido por peculiarmente santo, houve balbúrdia no andar de cima. “Essa puta de merda, essa merda de puta de merda!” – foi muito gritado, e repetido, no lar vizinho superior. A minha sesta ficou irremediavelmente destroçada, vendo-me eu forçado a retornar à literatura activa, esta.
    Não sei a que puta se reportava a esganiçada de cima. Tenho de imaginá-la. Literatura imagina’c’tiva, pois.

208

    Entretemos a tarde conversando sem pressa, vendo acontecer o remanso, o manso quotidiano alheio a glórias de papelão como a tragédias de fac’alguidar. Xavier diverte-nos com histórias de gajas. Álvaro cuspinha apartes escarninhos a propósito de tudo & mais alguma coisa. Cidálio come e volta a comer: frutos-secos salgados, batata-palha, croquetes, natas. Antero faz sonetos, naturalmente. E naturalmente eu faço nada, nem bem nem mal vão de mim ao mundo – ao contrário do que rosnam por aí certos inimigos-do-alheio.

207

    Bento Emanuel Gomes Valente morou perto da Estação Nova uns trinta anos. Não ligou a artes que não fossem a dele. E a dele era fotografar minúcias particulares de Coimbra: monturos de lixo, cadáveres de animais atirados para baldios, sinais de trânsito vandalizados, calçadas desdentadas, domingos esvaziados como lençóis solteiros. Bento, tal como Camilo, morreu do vírus-chinês em 2020. Bento, a 12 de Outubro, uma segunda-feira. Camilo, a 13.

206

    Camilo António Nunes Morato morou perto da Estação Velha uns trinta anos. Recolheu & salvou as produções escritas dos poetas (muitos então havia) daquela zona da Cidade. Publicou, delas, uma selecta de boas duzentas páginas. Para mim, o volume é tesouro. Nele surge pela primeira & derradeira vez a lírica tão ifigeniana de Ifigénio Barreiras Pacheco, o localmente célebre Palhinhas. Copio & cito, de Ifigénio (op. cit., pp. 83-84):

    Olá, meu gato matreiro, fiel depositário
    de dias meus perdidos como os de todos.
    Que o vinho vosso nos rode a rodos.
    Olá, meu gato-rato, meu calendário.

    Santo sol, deus sozinho, dá-te na Lua.
    Perto daqui, lixo no chão da triste rua.
    Adeus, gato compincha, meu só amigo.
    A bem ou a bem, sempre comigo.

205

Domingo,

4 de Abril de 2021

    Elisabeth/Roberto/Ivo/Capela tocaram no Café Santa Cruz para pasmado fascínio da plateia de tomadores de absinto. Quarenta minutos acústicos para sempre na retina auditiva daqueles felizardos entre que em boa-hora me incluí. Estavam lá também o Lelo Bebé, o Damasceno Cardoso, o Jorge Conceição, o Caniço Ausendo, o Cajó, o Tita, o Zito Jaime, o Al Fredo. E outros que não devo ter conhecido.
    Elisabeth, voz; Roberto, guitarra; Ivo, percussão; Capela, clarinete-baixo. Comprei a cassette do grupo no final. Tenho-a usado muito nestes 37 anos. Penso mandar digitalizá-la ou coiso como agora se diz.
    Elisabeth, de Torre de Moncorvo, veio para Coimbra estudar Direito; Roberto, de Santa Leocádia de Briteiros, também veio para cá licenciar-se, mas em Medicina; Ivo era funcionário dos Correios, ali ao pé do Mercado; Capela era monitor de ginástica geriátrica num lar, julgo que do Montepio ou cois’assim.
    Fui eu a deixar Coimbra no fim dessa década. Eles deixara-se de tocatas, profissionalizaram-se, constituíram famílias, apagaram-se no anonimato da sobrevivência. Eu também, não há por aqui grande aí por onde ir.

PARNADA IDEMUNO - 203 & 204




203

Sábado,
3 de Abril de 2021


A senhora bibliotecária vai cada Agosto para a casa branca no litoral.
A casa é caiada de novo a uma semana de cada retorno da senhora.
No próximo ano, a senhora ficará de vez nesta casa da sua vida.
Reforma-se em Maio, trata dos papéis, volta de vez ao mar.
Não é pessoa de ilusões, a propósito de seja o que for.

Esta senhora está viva, tem as contas em dia, jantou fora com amigas.
Jantou fora com amigas dos anos liceais, gostaram todas do reencontro.
Algumas outras desses tempos mesmos já lá estão, coitadas.
Umas nos Olivais, outras na Conchada, outra pelo País.
As que sobram, obram no sentido de pelo menos uma vez ao ano.

A casa litoral é branca como a neve dos postais nórdicos.
O sol volve-a preciosa como giz de aprender a escrever.
É maneirinha, tem fogão-a-lenha, quintal atrás, nespereira.
A cama de ferro, no quarto único, é branca, ela também alva.
A casa da cidade é para vender, ainda vale algo de seu.

Por volta de 1983, a senhora bibliotecária teve & manteve uma aventura.
Foi com o bedel da faculdade de letras, cavalheiro malcasado.
Durou de Maio a Outubro, ele chegou a visitá-la na casa de Agosto.
Tal vela apagou-se na rentrée lectiva, quase nem de facto ardeu.
Ninguém soube nem tinha de saber, não caiu em a vulgaridade.

A senhora bibliotecária adaptou-se bem à informatização do serviço.
Desapareceram as máquinas-de-escrever, viveram as máquinas novas.
Os livros em papel resistiram, também eles, ao furor electrónico.
Os livros ordenam o mundo, são a melhor ilusão a opor-lhe.
Em casa da senhora bibliotecária não há demasiados, só os essenciais.

Também são poucas as fotografias, nas poucas paredes.
Viver não precisa de muitas coisas, só muito de umas poucas.
Uma casa caiada no litoral não é das piores.
Estamos em 2021, número esquisito, falsamente crescente.
A senhora sabe, não é pessoa de ilusões, tão-só de uns poucos livros.

O cavalheiro-bedel reformou-se há anos já largos.
Tem a mulher doente, pensa pô-la num lar-terminal.
Vai ver os jogos da Académica, faz ele as compras & as refeições.
Já não vai a tempo de ter uma casita perto do mar.
Nem pelo menos uma vez ao ano.

204

O inferno é criação humana, dúvida nenhuma.
Inferno tirante, há criações empolgantes.
Dedico-lhes quanta atenção posso d(edic)ar-lhes.
Sou remunerado em géneros: literários mormente.

O próprio horror, artisticamente tratado,
dá de si fortuna exemplar: por revelar
o avesso da bondade prática, dele antídoto.
Sabendo nós que – Há mais gente do que pessoas.

03/04/2021

António Osório na primeira pessoa (Arquivo RTP)


 https://arquivos.rtp.pt/conteudos/antonio-osorio-2/

PARNADA IDEMUNO - 196 a 202


196

Quarta-feira,
31 de Março de 2021

    Março acaba-se a si mesmo sem ajuda externa. Há que seguir vivo. Sem pressa, cada hora vibra no bronze etéreo da duração. Fui (e já vim de) ver o meu Irmão.

197

Quinta-feira,
1 de Abril de 2021

    Estela Inácia de Rosa-Assis, filha do major Décimo Deusdado de Malta Assis, que fez a Flandres com esquecida bravura. A senhora Estela pontifica ao alto de sua mansarda pintada a rosa como o seu matronímico. Tem 94 anos, idade que exerce sem a indignidade da autocomiseração. Senhoria da loja aberta no rés-de-chão, recebe ainda uma pensão mínima de sobrevivência. Basta-se a si mesma comendo pouco & bem. Dorme a sesta sem susto.
    Penso na dona Estela no curso desta quinta-feira sem novidade maior. Vejo-a em seu alto, embora a saiba morta há bem quarenta anos. Não faz mal – à mesma a miro de cá baixo, curiosa da repetição implacável do mundo. A mansarda abre-se ao ar da praceta que oito plátanos escoltam. Tem 94 anos, tinha 54. Eu, dezasseis. Em menos de quarenta anos doravante, estarei morto também – sempre quero ver como há-de Estela ser lida & tida por viva.
    (Talvez eu não esteja a contar bem. Tal eu não saiba contar bem. Talvez eu não queira contar bem.)
    Vou ver Estela Inácia amanhã. Ela é filha do major. Ela prometeu-me o diário do pai: Soldado-Solidão, Flandres, 1917-1918. Nunca houve possibilidade de publicação. Estela quer que ao menos uma pessoa de fora saiba coisas que a História oficial ou não sabe ou não quer que se saiba. Estou muito interessado.
    Mas ela morreu há quarenta anos. Eu não duro mais quarenta. Eu vou, ela já foi, nenhum dos dois volta(mos). Muito solda a solidão.

198

Sexta-feira (dita Santa),
2 de Abril de 2021

    Soube hoje alguma coisa mais de Phoebe Snow (1950-2011). O mesmo quanto a Al Berto (1948-1997). Deixaram coisas que, figuradamente, é bom ter à mão mental. A infinitude de tal posse, figurada embora, faz bem à recatada pessoa a quem o bem-feito sempre remunera sobremaneira. E Harold Budd (1936-2020). E Lothar Wolleh (1930-1979). Se em estudioso recato as procurar sem pressa, são as pérolas a encontrar a pessoa. Nesse ano da morte do fotógrafo Wolleh (a 28 de Setembro), a banda Yes deu espectáculo na Philadelphia Arena (a 21 de Junho). Foi pouco antes da desagregação do melhor elenco de sempre daquele grupo: Jon Anderson, Steve Howe, Chris Squire, Rick Wakeman & Alan White. O baixista Christopher (Russell Edward) Squire já não respira (1948-2015) – e nasceu no ano de Al Berto. Não faltam pistas correntes. Não enquanto se vive volitivamente. Hoje tem sido caso disso.

199

Pessoas dão-se ao manifesto em qualquer partida do mundo.
Entre elas-outras & aquela a que cada uma chama Eu,
uma espécie de fosso (que é largo, pantanoso & fundo)
reflecte em glauca bruma uma imitação de céu.

200

Elsa foi operada, lipoma removido, alívio imediato.
Tadeu obteve da França certidão de cidadania.
Pulcra planeia fazer um arroz-de-pato.
E Josué tem saudade de um pires de aletria.

Nelson adere ao crédito por smartphone.
Sílvia prefere barbudos soezes.
Teotónio repugna aos pais da Ivone.
E Telma só compra nos bazares chineses.

Noémia é a flor da flora portimonense.
Florbelo é gay e é calipolense.
Duques de Lafões não há já no mercado.

Mui da boa fruta vem de ser alcobacense.
O teu tempo é teu, o meu a mim pertence.
E assim, minha Hortense, é o soneto acabado.

201

Interessa-me como algo é dito.
Não a coisa – mas como ela é posta.
O resto é menos meu fito.
Cada um vai pelo que gosta.

202

    Cavalheiro de jaqueta azul-marinho vai ao hospital ver a mãe, dar-lhe conta das minúcias do bairro, saber do internamento, apurar o tempero do amor que os une. Isto multiplicado muitas, muitas vezes: vestir de azul, ter a mãe doente, amá-la & ser por ela amado.

02/04/2021

PARNADA IDEMUNO - 193 a 195 (conclusão do dia 30.3.2021)

© DA.



193

Os lutadores conhecem apenas o momento supremo.
Ar ou terra – outros limites se lhes não revelam.
Longe deles, cervos movem-se em relvado espontâneo.
Nem aviação suja o céu dos cervos livres.
Nas traseiras da escola, a contínua Eduarda fuma em paz.
Tem o homem no Luxemburgo, uma ou duas vezes ao ano o vê.
Os barqueiros cheiram o ar, sentem a água electrizada.
Está em risco o frete da manhã, carvão & madeira mormente.
Levanta-se cedo a moça professora, é o seu primeiro ano.
A mãe andou quarenta anos nesta carreira ingrata.
Crianças perpetuam a infância, não a si mesmas.
Intuem segredos, a vida adulta sonega-lhos quase todos.
Miguel Pedro & Ângela Cristina vão ao Tivoli, sessão das 15h30m.
Dão-se as mãos no escuro, são Fred & Ginger clandestinos.
(Quem me levaria a não escrever isto, a ser de utilidade social?
Quem me faria descuidar-me de versos, dar sangue aos domingos?)
Os amadores de teatro fazem o ensaio de primeira leitura.
A peça é de um húngaro radicado em Elvas desde 1953.
José Joaquim Souza Luiz radicou-se na Holanda em 1973.
É músico de rua quando pode, colhe tulipas para compensar.
Levam farnel de carnes-frias, fruta, chocolate, pão-branco.
São ainda meus primos, tanto ele como ela, afastados mas primos.
Penso que moram agora para as bandas de Penacova.
Terra ou ar.
E água eléctrica.

194

Rutger Hauer em VHS, naquele bar de boa espécie no Norton de Matos.
Gloria Swanson num café do Luso, certa noite de 5/9.
Raul Solnado, sozinho, dirigindo-se ao British Bar, talvez 1991.
Santos Manuel, em menino, perto do farol encarnado figueirense.
Mário Viegas no Teatro Paulo Quintela, casa-cheia nessa noite.
Os Irmãos Marx no Teatro Avenida, Gene Wilder no Gil Vicente.
José de Castro como rei, António Assunção como boçal ricaço.
Michael Caine naquele pub de Peniche à face da muralha.
Em Peniche também, Helena Lisboa, extraordinária criatura.
Meryl Streep à face de Guilherme Pais, Carlos Leite & Jorge Manuel em 1982.
Nicole Kidman na bruma eléctrica do Largo Pintor Gata.
Hurt & Hopkins a 1 de Novembro de 1981, quando o Pardal terminou.
Derek Jacobi na sala da Lameira do Saramago, muito cedo na noite.
Ruy Furtado ainda mais cedo, em paralela dimensão.
Já Santareno morrera (no ano anterior) quando O Judeu no D. Maria II.
Max von Sydow na praia onde morreu o Ruizito Alpha (mesmo ano de Bernardo).
Belarmino ali onde bebi cervejas com Peep Fernando de Alvalade.
Bibi Andersson na praia de Santos Manuel com João Perry.
Laura Soveral sendo amimada por M.ª do Céu Guerra fora de auto.
Luís Miguel Cintra dizendo A Margem da Alegria perante a viúva Teresa.
Marilyn, Cliff & Gable na indústria de enlatados para canídeos.
Buster Keaton trabalhando na ferrovia em que morreu M. Garrafão.
Frances McDormand a 11 de Fevereiro de 1983 em Coimbra, sexta-feira do nevão.
Bruno Ganz & Harry Dean Stanton & Billy Bob Thornton no deserto urbano.
E Francisco Ribeiro encenando Beckett, mesmo assim, Ribeirinho & Beckett.

195

Há um italiano chamado Sforza a trabalhar no meu teatro.
Não fomos apresentados, nenhuma necessidade para já de tal.
Cumpri o prazo, entreguei a peça dois dias antes do combinado.
Disse ao encenador e ao produtor que iria entretanto ao Norte.
É falso: fiquei em casa, mas assim o telefone faz ó-ó.
A peça é para estrear em Junho, 8. Não foi possível Maio.
O enredo é (mais) uma variação da esperança contrariada.
Sforza veio trabalhar na tradução para a produção milanesa.
Disseram maravilhas dele: experiente, lúcido, antivedeta.
Cri no que disseram mas não sinto que deva importar-me.
Devo ter umas três semanas por minha conta.
Proponho-me consumi-las estudando os Gregos.
É quase nada-de-nada, bem sei – mas é mais que nada.
Aprovisionei a despensa, o peixito morreu, não sei a quem dar o aquário.
Talvez devesse escrever a peça O Aquário Devoluto. É uma ideia.
Tenho bebido pouquíssimo desde que acabei esta. A sério.
Há papelada oblíqua do tempo em que bebia muito & sempre.
A lareira está limpa, a chaminé também, tenho fósforos.
Todos parecem recear o comportamento da protagonista.
Eu não a propus nem a ela me opus, receio bem ser apático.
Acho que me desinteresso de quase tudo no derradeiro ponto-final.
Dos Gregos, não. Sófocles é tremendo. Raio do homem.
Sforza deve saber mais dele do que eu, não me custa supô-lo.
Talvez tenha já voltado a Milão quando eu for à produção.
Se esta aguentar até ao Natal, faço a do aquário em Novembro.

01/04/2021

PARNADA IDEMUNO - 191 & 192 (quarto & quinto quarteirões estróficos de 3.ª-f.ª, 30.3.2021)

© DA.

191

Este arrastado domingo espúrio chamado Confinamento, sabeis?,
há um ano encarcerando as aves que julgávamos ser, um ano
atirado ao monturo das horas desasadas, um ano soturno
que nos ensinou a contar mortos sem ser pelos dedos, tabuada
triste que a tantas famílias fez dádiva de roubo em cinza,
não devo por mim dizer que penei mais do que tantos outros, não
seria verdade, na verdade há muito me incrusto na lapa
dos fala-sós, escolha minha que ora não repilo, isso não, nunca
é demasiado cedo para persistir na via-sacra-própria, sim,
nem fátuo motivo lobrigo que a alternativa volta me cirandasse.
Os noticiários contam duas-mortes-duas a lamentar
nas mais recentes 24-horas-24, pergunto-me quem seriam,
como se chamavam, que idade ainda perfizeram, se amaram,
se viram o mar & as amendoeiras-em-flor, se procriaram,
se votaram à esquerda ou à direita, se preferiam Camilo a Eça ou
vice-versa, se idem Verdi a Wagner, Sporting a Benfica, Académica a União,
Sartre a Camus, Hopper a Magritte, Dali a Picasso, esquimó a pinguim.
Amanhã, quarta-feira, um dente mais da roda há-de trincar a luz,
sai à rua quem tem que fazer, outros hão-de furar a clausura,
não alimento espera, esperança ou sequer expectativa,
tenho por norma ir andando mesmo sentado ou dormindo,
nascer não volta a ser, morrer tem tempo, é d’aguentar-os-cavalos,
eu?, umas vezes Verdi mas outras Wagner – e Bach, sempre.
Neste sentido sigamos todavia: Antes confinados do que finados.
Não é, para já, a pior condição, não nos faltando viço & ensejo.

192

A poente da aldeia houve o forno da cal, muito lá se laborou.
Das ruínas do mosteiro, até pedra escrita foi saqueada.
A nova geração fez aqui a primária, pirou-se logo que pôde.
Água vertical não cai já da fraga velha, só quando chove.
Nisto estamos, a desertificação alastra, o litoral atrai muito.
Eu não juntei ainda fortuna a suficiente para ali me finar, perdão, fixar.
Agradar-me-ia a casita que foi dos Patrícios, ’inda meus primos.
Tem poço, leira com laranjeira, figueira & chão de horta.
Dizeis (e bem): – Mas tu não sabes amanhar terra que se coma.
É verdade. Não sei mas aprendo. Também não sabia tocar clarinete.
Não sabia mas aprendi a ponto de tocar na filarmónica da Paula.
Foi há um quarto-de-século, lá vai, até me comove lembrar tal.
Haveria de espalhar andorinhas de barro no pórtico caiado.
As andorinhas voariam, por assim dizer, em torno do nicho da Rainha Santa.
Para tal, convém que este livro se venda muito & bem.
Caso contrário, hei muito que confinar-me em este quarto mesmo.
Faz-me bem pensar por escrito no forno da cal, no arvoredo denso,
na fonte dos passarinhos à face da ferrovia abandonada,
nas alamedas criadoras de uma sombra densa como a água,
no luar de Janeiro fantasmando os rosais espontâneos,
na ermida do monte que confere à oração o cariz geodésico de Deus,
na genealogia paterna que ali me radica o sangue & o apelido,
nos indícios fósseis que inscrevem a imperecível eternidade do esquecimento.
Oro à Santa Rainha Isabel que tal graça me conceda. Caso não, hei que pensar
noutro livro, talvez uma charlatanice do tipo auto-ajuda-zen-&-coiso.

Canzoada Assaltante