16/02/2022

REGISTOS CIVIS - 65 a 68

© DA.


Landes & viandas mirandas – 65

                     

 

    Lago turquesa entre ribas verdenegras. Natureza por enquanto poupada. Não longe, todavia, duas centrais de produção eléctrica a carvão. Em diverso panorama (em diverso ano também), edifício amarelo-canário-alimentado-a-limão de janelas verdescuras. Uma horta. Profusão de gatos semivadios. Laranjeiras potentes, carregadas de filhas. Derredor, mansões devolutas (clãs extintos). Cultivos geométricos. Alguma pecuária.

    Dor imponente. Sensibilidade riscada à unha-garra. Impotência perante o desconcerto de alguém muito estimado. Mas ao mesmo tempo: ante a peremptoriedade da extinção, resignação sem romantismo. Frio nenhum no Fevereiro corrente (neonoite de Dez-do-Dois-Quinta-Feira). Um par de adultos conversa sobre a reparação de um autoclismo (casa de D.ª Teresa): com descontos & tudo, trinta & quatro euros.

    Era em Paris. Alimentavam-se a ostras & champanhe. Talvez o caviar tenha chegado com os ballets-russos-&-os-pássaros-de-fogo-&-as-sagrações-da-primavera-&-o-bodo-ao-Maiakovsky. Era antes da afroarabização global. Proust era vivo por um fio, Wilde extinguira-se em particularíssimo holocausto. A repescagem possível? Duas fotografias de vez em quando, aqui & ali algum verso menos infeliz, com que aliás rima Paris.

    Registe-se que Coimbra em muito difere do imediatamente exposto supra. A poesia de aqui, há que sonegá-la aos colégios. Digo: aos pretensos (& pretensiosos) cânones. Não temos vida-literária, temos só vida – o que, ante a morte fazendo contas, nem é assim tão pouco. Antigamente, havia ainda no Gil Vicente uns ciclos Tati, Hitchcock, Kurosawa, Bergman. Acho eu que havia. Mas, se houve, foi já dia.

    As quatro-estações da idade nada querem saber do caos climático real. Estou em meu pré-inverno. Não estou para fazer o/a great-american-novel-à-portuguesa. Circunstâncias (circos, instâncias) & vicissitudes (vícios, atitudes), tudo concorre a uma mordomia que não há porque não é. Já me custou mais, digo, a lucidez de ser a sós que se tem voz.

    À Rua-Primeva-Fundamental? Sim, posso descrever-Vo-la:

Ali Alice se disse enamorada
de Germano, belíssimo mancebo.
Ali foi que eu, à luz de sebo,
li pisco a Odisseia & a Ilíada.

Ali foi que foi-se a Armandinha
que de cavaquinho era tão mestra.
Ali foi que eu, uma certa sesta,
sesteei co’ Anabela Ligeirinha.

Derredor, pessegueiros quintalavam
guaritas de vivendas mais-ou-menos.
Ali éramos todos tão pequenos,
que o Sol & a Lua altos nos miravam.

 

R., R. – 66

                      


No que me rebelo, me revelo.
Ou como dizem os nórdicos: Ei Blot Til Lyst.
Umas quantas (mas poucas) sempre vou conhecendo.
Algumas (mas poucas) merecem-me até sonetos.

Do que valho, resvalo.
Entre o que penso & o que escrevo, há intervalo.
Vivi ontem uma noite em, por assim dizer, consumação.
O Sol de hoje bate egipciamente em o nosso deserto.

Descreio na eternidade da alma & até da alma mesma.
Creio na rede neuronal, na noz cerebral, tangível, maravilhosa.
Creio na ambivalência couve/rosa.
Creio em Vós também – mas é separados que seguimos.

Preciso de sapatos novos, estes estão desconjuntando-se.
De pés, não mudo – nem de caminho.
Não sem certa glória me obstino andando.
No que me rebelo me vou revelando.

 

Esparguete – 67


 



Referi hoje Mercè Rodoreda a uma senhora de minha conversação.
Julgo tê-la, à conversada senhora, interessado titularmente.
Em conversa, cada um/a revela de si a una condição.
(Onde digo una, digo singular – mas multiplamente.)

Com certa onicofagia me tenho ainda assim desenrascado.
(Não, não me envernizo, só me infernizo.)
De resto, disponho de tudo o que é preciso.
(Tirante talvez algum bolo, algum trocado.)

Bárbara Moraes de Lopo Guimaraens
casou-se com magnata dono de milhões-vinténs.
Poesia? É como uma plantação de esparguete:
só nela se metendo sabe que/quem nela se mete.



 

Proverbial – 68

                      




“Não há fome que não dê em fartura”
– fartura de fome, mormente.


 

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Canzoada Assaltante