26/04/2020

VinteVinte - 22


© Christian Boltanski



22.

DE SEXTA A SEGUNDA

Coimbra, de 27 a 30 de Março de 2020



(Da China veio o vírus que por aí, mundo-todo, vai matando à fartazana. Milhões em prisão-domiciliária. Entretanto:)

Elegância doce de uma senhora improvável – dizem-me que fisicamente morta há uns quantos anos. Conheceu muito sede a neve, teve trenó. A honradez, conheceu-a cedo também. Mulher rara, deixou obra menos melancólica do que forte. Leu, desenhou, procurou & encontrou. Ouviu muita música, sobretudo fora da sua pátria. De mui pouca gente pôde ser afim. Duvido que o haja lamentado. Conheceu um homem. Ficou com ele até que a hora expediu, dele, o passaporte final. E pronto – é hoje um parágrafo sem reticências.

Vejo vivos às janelas. Vejo o campo largo, indiferente à humana desorientação. Áreas de cultivo sem um antropóide à vista. O amplo céu faz – como (desde) sempre – de mar suspenso. Nascer é já de si pandemia. Como (desde) sempre – e a cada dia.

Já do Sábado-Derradeiro-do-Março a Luz se faz Toda. Da marquise, espreito a quietude. É muito cedo. O Mundo, parece, r-existe. Morrem uns quantos, dizem que mundos, perdão, muitos. Morre tudo de haver nascido. Uma pessoa não é perguntada, responde-lhe a morte.

A senhora da televisão diz: “Cem mortos em Portugal.” Mais: “5.170 infectados.”

Fora de toda a humana contingência, aves povoam a luz finimatinal do Sábado. O mundo é real’ternativa. Em casa, música & vozes escritas. Alberto Pimenta. Luiz Pacheco. Luís Filipe Costa. E o Raul Brandão das Memórias.

Cá estamos: finitos, rodeados de infinito. Nada que esperar. Pouco por que – ou ante que – desesperar.

Faz hoje 79 anos que se suicidou Virginia Woolf (28 de Março de 1941).  

Morrem muitos em Espanha, Itália, anda tudo em desandamento pandémico. Vou lendo as horas. Julgo, decerto com acerto, que a Mãe-Natura se vinga do bicho-humano. Sujámo-La – ela “limpa-nos”.

Durante esta espécie de interlúdio que vem de nenhures para ir a lado algum, o recurso é a livralhada. Ela felizmente abunda, generosa & fértil, sáfara é que nunca-jamais-em-tempo-algum. Produz-se uma cafeteirada, torra-se algum pão, há margarina – e há Camilos (Pessanha & Castelo Branco), Antónios (Nobre & Osório), Manuéis (Maria Barbosa du Bocage & Vásquez Montalbán), Júlios (César Machado & Cortázar). Tudo escasseando, nada afinal falta.

Por muitos lados, muitos silêncios. As televisões rejubilam, ávidas de números pânicos. Confinamento, recolhimento, estupor (no antigo sentido de espanto), absoluta evidência da inocuidade religiosa. As máquinas funcionam. Deserta(da)s, as praias aparecem lavadas como nunca. Nem a versos me empurra esta conventualidade. Há luz, há água, há gás – por enquanto. E ominoso silêncio. E aqui, à mão, os livros boníssimos.

Por uma nota-de-rodapé num telenoticiário, fico a saber que morreu Mécia de Sena, viúva de Jorge de Sena, aos 100 anos, em Los Angeles, California. Mais nada. Se fosse o caso de ter morrido alguma dessas figuras pirosas da piroseira nacional, alguma caga merdeira qualquer das “novelas” ou das frivolidades ou dos pimbas, que escarcéu por aí não se ladraria… Mas Mécia de quem? Adiante, todavia.

[Nota-para-consumo-d(est)a-casa:

Não se trata (nem é importante) de acreditar ou nem por isso nestas linhas. Trata-se de fazê-las, de dar-lhes criação – de, por assim dizer, dar-lhes linhas.
São o que faço.
São quase tudo o que faço.
São quase unicamente o que faço.
São o meu duplo-sempre: desde & para.
Isso me baste.
Isso me basta.]

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Canzoada Assaltante