30/11/2010

23/11/2010

IDEÁRIO DE COIMBRA - podografias de retorno – 123 - mais um trecho do dia 22 de Novembro de 2010




Recordo uma incerta manhã purificada pela trovoada chuvosa da noite que a gerou.
Imagino ter saído às ruas a conferir nos varandins as mortes-vivas: digo: pássaros em gaiolas & flores em jarras & cabeças de mulheres explodindo de cinza como surdas granadas-cãs.
Ainda, como então já, regresso alquebrado e acabrunhado de cansaço a isto a que chamo Casa mas é Quarto.
Minguante, naturalmente.

22/11/2010

IDEÁRIO DE COIMBRA - podografias de retorno – 123 - dois textos de hoje, 22 de Novembro de 2010

À varanda fumando só, ontem à noite, redescobri a Lua em circo alto nimbando nuvens de frio veludo azul.
Nas minhas costas, o Quarto vivia também só, desprovido até do nada que sou, coitado. (Coitado, o Quarto.)
Fez-me bem, mais do que sentir, confirmar a indiferença dos astros e dos panos celestes por quanto e quantos somos e por que e quem temos ou não, cá tão em baixo.
Atirei balcão fora a ponta ainda rubi e tornei-me a ser, na cama, um vivente insulso e convulso.
Perto, uma rosa seca pergaminhava-se a si mesma.
Tossi um pouco, apertei-me na placenta espúria das mantas, esperei na gare do corpo o comboio do sono.
E em lenta câmara (ardente) ele chegou e levou-me, sendo porém
proibido fumar e interdito ser.


*

Pela alma da minha Mãe
vos juro que não sei quem
é a mãe da minha alma.
O que é preciso é ter calma,
que mais perdemos a quem amamos
quão mais damos quanto não temos.

21/11/2010

IDEÁRIO DE COIMBRA - podografias de retorno – 112 - fragmento 4



De um ponto de vista estrita e estreitamente pessoal, o exercício da tristeza por veias & artérias da coronária Coimbra tem que se lhe diga. Falo da possibilidade de, depois de breve estada no Café Abadia, subir a dos Combatentes até onde o Botânico arde verdes verticalíssimos. Faço isto com a imaginação (dói-me o joelho esquerdo) e sorrio sem dor à bruma pederasta da Sereia, ao pico de Celas, ao artesanal olvido do Espírito Santo. Lonjuras clamam: Lordemão, Rocha Nova, Eiras, S. Paulo de Frades. Da outra Banda, S. Martinho do Bispo, Casais do Campo, Espadaneira, Ribeira de Frades. Nada disto dói ou alegra – antes circunscreve um conimbricense pobre que usa os atacadores de tinta permanente nas botas de caminhante calígrafo. A podografia é a salvação que posso. Isto um dia pode ser que fique: digo: isto de ter ido, vivido, escrevivido. Este par de jovens enamorados, por exemplo.
Quatro bonitas mãos longas, de unhas bem cuidadas. O rapaz, barba desenhada a traço de carvão castanho, cabeça de historiador oitocentista, bons dentes naturais reverberando faíscas de saúde oral. A rapariga, alta e harmónica como um piano vertical, mocassins de padrão sarapintado à cantora dos anos 60/XX, bonitas orelhas de arte cerâmica. O rapaz, sobretudo preto-cinza de botões grandes (prenda de há dois natais, querida mãe), boas botas paramilitares quase engraxadas, cachecol de malha traçando o pescoço forte. Ela, lenço de seda magenta cortinando nuca e decote de alabastro, esse feminil astro dos substantivos real-naturalistas de XIX. Ele, camisola amarelo-velho com Jens Leckman escrito sob o mamilo esquerdo. A rapariga, de mamilos sem outra ortografia que a natural pontuação dos botões-de-rosa. Gosto do par, mas já a atenção se me volve preia do revérbero eléctrico da Lua, cuja epifania matinal deixará nunca de perturbar o meu coração lingrinhas.

20/11/2010

IDEÁRIO DE COIMBRA - podografias de retorno – 112 - fragmento 3

O colossal diamante da luz matinal liquefaz a pátina em musgo das pedras. Anda-se subindo veredas, sopram-nos as árvores seu (anoni)mato milenar, crianças revoam as infâncias fulminantes, o merceeiro folheia o jornal entre ananases, o professor pensa no curso que não tirou, é tarde agora, qual diamante qual quê.

Rosário Breve nº 181 - www.oribatejo.pt

O Ribatejo x 25 anos

O Ribatejo é um semanário com sede física em Santarém e sede metafísica em muito lado. Fez 25 anos, está em festa, por mais que os tempos sejam de crise. Mereces a festa, pá – como dizia o outro. O Ribatejo nasce do trabalho de pessoas. Não há melhor maneira de homenagear o jornal e os seus leitores do que firmar e afirmar o nome de quem é pá e merece a festa. Vamos a isso: Joaquim Duarte, João Baptista, João Nuno Pepino, Bruno Oliveira, Vânia Clemente, Jerónimo Belo Jorge, Joana Margarida Carvalho, Armando Fernandes, Beja Santos, Carlos Chaparro, Eurico Heitor Consciência, José Niza, Luís Eugénio Ferreira, António Maia, António Branquinho Pequeno, André Lopes, Carlos Alberto Cruz, Albertino Antunes, Rosalina Melro, Vítor Arsénio, António Vieira, David Antunes, Rita Duarte, Luís Silva, Ana Marecos, Ana Sousa… e tantos, tantos nomes que fazem acontecer este jornal.
Um jornal (qualquer jornal) vale apenas quem o escreve e quem o lê. Estes nomes não iludem, antes aludem, à realidade. Um aniversário: um número, um lençol freático que se faz água à flor da terra, qualquer coisa assim.
E um quarto de século, sendo frescura em extensão cronométrica de vida humana, é também estigma de maturidade numa publicação periódica que, regional embora, vale bem mais do que quanto pasquim dito nacional por aí anda e tresanda.
Parabéns, O Ribatejo! Parabéns, Ribatejo! Parabéns, leitor(a) dO Ribatejo! Mais 25!

13/11/2010

Rosário Breve n.º 180 in O RIBATEJO - 12 de Novembro de 2010 - www.oribatejo.pt

Eunuco tinha pensado nisto


Antero de Quental classificou-nos uma vez como “país de eunucos”.
O apodo é duro, mas talvez (muito) verdadeiro. E não há viagra que nos salve. A não ser que.
A não ser que, na impossibilidade de outro 25 de Abril (por isso mesmo que já não temos/somos Povo para tanto), reimplantássemos a República. Outro 5 de Outubro, mas agora a sério e a cores. Começava-se pelo Ribatejo, até para podermos ir aos toiros, às enguias e aos melões nos intervalos da golpada.
Olhai o filme operacional: o comité de cabecilhas reunia-se na Casa dos Patudos, amandava-lhe com umas botelhas de Alpiarça em simbólico preito a José Relvas e arrancava dali às duas da manhã, mesmo que aos tropeções nas zundapes. Telemovilizava-se logo para tudo quanto fosse barricada arriba do Tejo. Tipo assim: Feira-dos-Santos-Cartaxo-escuto; atenção-atenção-Torres-Novas-a-GNR-alinha-ou-não?-escuto; Magos-Magos-Salvaterra-ou-não-salva?-escuto; ’tou-’tou-Constância-Mação-a-coisa-vai-ou-não?; p’la República-Nova-de-Portugal-ora-viva-o-Sardoal; alô-alô-Barquinha-como-vamos-isto-Tomar? Abr’antes-que-depois-faz-se-tarde; Ourém-Ourém-a-coisa-já-Chamusca? Barquinh’Alcanena-acim’abaixo-daí-ó-Cartaxo.
Etc.
De manhãzinha, os eunucos, ou melhor, os muito-machos deixavam as motorizadas e as mulheres ao pé da rulote de bifanas que fica à saída da Golegã, ali mêmó-lado das bombas de gasolina, e alava para Lisboa em peitosa e estrepitosa campanh’alegre (salvo seja). Eu também lá ia, armado em Fernão Lopes.
Terreiro do Paço, Arsenal, Monsanto, Centro Comercial Colombo, Xabregas, Pontinha, Frágil, Lux, Kapital e Curraleira: tudo nosso, minha gente, que a malta é de Benavente.
E depois estoirávamos só umas rolhas de castiço imitador de espumoso e deixávamo-los mas era em paz lá c’a república deles e voltávamos na ordem possível para casa, que isto de se ser eunuco e ter mulher na mesma só pode dar ou melão ou enguia ou toiro.
Escuto.

09/11/2010

IDEÁRIO DE COIMBRA - podografias de retorno – 112 - fragmento 2

DUAS CANÇÕES


 1. POR ÍNDIAS E LISBOAS


(para o M. F.)

Sinto as luzes /águas boas
que reflectem o nascer.
Corri índias e lisboas
não fiquei nada a dever.
Vi o triste sem-abrigo.
Vi quem fica sem partir.
Se o senhor é meu amigo
comigo queira repartir.
A esp’rança é uma gaja
sorri pouco / é maluca.
Muito bem tem quem o bem-haja
dá em data não caduca.
P’la vida da minha Mãe
& pela Pátria total
vos dirijo / eu também
saudades do Portugal/
país que inventou o Mar
e as Ilhas e o falar
do destino ribeirinho.
Eu aqui ando sozinho.
Sais-de-fruta, peixe & vinho.
Sinto a luz / água do olhar.

*
2. CANÇÃO DA BRANDA FILHA

(para a S.C.)
Sou da ilha a filha branda,
branca da estrela não propícia.
Sou um caso de polícia
– e da ilha a filha branda.

Dou-me de cor ao veludo
que as noites põem no sonhar.
Quis quase nada, tive tudo:
mas nisso nem é bom falar.

REFRÃO

Do meu olhar, vê os cristais
que pensam luzes siderais.
Do meu olhar, vê diamantes
nados p’ra ser o que eram dantes.

Sou do mar terna vizinha.
Às terças vou, febre terçã.
À tua vida, torná-la minha,
e sal da noite e da manhã.

E se me quiseres, aqui estou.
Vou de onde vim por onde vou.
Sou toda quanto te vai faltar,
Falo-te agora do meu olhar:

REFRÃO

Do meu olhar, vê os cristais
que pensam luzes siderais.
Do meu olhar, vê diamantes
nados p’ra ser o que eram dantes.

08/11/2010

IDEÁRIO DE COIMBRA - podografias de retorno – 112 - fragmento 1

112. APENAS-DIA-MAIS-UM-DIA



Coimbra, sexta-feira, 5 de Novembro de 2010


(...)

Noite não muito bem dormida. Acordei cedíssimo, presa de uma vaga angústia. Tentei reconciliar-me com o sono por via de imaginar o velho tema do homem dormindo ao ar livre de uma floresta través da que um rio. Mas não foi fácil. Clarões da outra vida (esta do apenas-dia-mais-um-dia) rompiam em chamas pela consciência a um terço de gás. Depois, porém, o Sol nasceu – e eu renasci também, algo pisado pelo desamparo, mas, enfim, vivo e ambulante.

*


Conheço longamente os rostos ímpares
que financiam a sombra dos corredores,
os horários das pensões, as cartas perdidas,
as flores esmagadas pela passagem do cometa.


Trabalho a minha passagem mesma,
o Dia promete-se à-luz-azul,
de Noite o manto do mágico crivado de estrelas,
o Ranho ao Nariz de perpétuo comovido


ante a desarmante, amante e amada Beleza
da Vida, relicário de lamparinas,
chispas nos olhos dos velhos
iguais às dos olhos das meninas.


Reescrevo cada dia o Pão dele, do Dia,
sabes, por vezes custa viver ao mesmo tempo
que o Corpo, rapariga de vestido sem mangas
ondulando como revoada de trigo as ancas,


tomadora de chá de tília, utente de fino
longo cigarro branco, empregadita do comércio,
TV Guia & Maria, coitada, tão bonita e tão
mal-empregada. Cada dia o Pão etc.


– e os Rostos.

05/11/2010

Rosário Breve n.º 179 in O RIBATEJO - 5 de Novembro de 2010 - www.oribatejo.pt


Em carteira





Esta que vos conto, senhoras e senhores, é verdadeira a ponto de, dela, vos jurar a veracidade pelas vidas das minhas filhas.
Coimbra, sexta-feira, 29 de Outubro de 2010. Oito e cinquenta e três da manhã. Compro o bilhete para o expresso que me vai levar a Santarém. Saio da Rodoviária. Atravesso a Avenida. Tomo café no Silvano. A bexiga telefona-me, pago a bica, subo as escadas que levam ao urinol. Um senhor de casaco castanho lava as mãos. O cubículo é exíguo, espero cá fora que ele termine. Ele termina. Sai. Eu entro. Antes de me desfazer da função, descubro-a. No rebordo da janela, uma carteira. Abro-a. Documentos e muito dinheiro dentro dela. Muito dinheiro, quero dizer, cinquenta e tal euros. Dez contos e tal, portanto. O Diabo, célere e atentíssimo, sopra-me ao ouvido direito: Fica com a nota, pá, deixa o resto aí, encontrar não é roubar.
Faço assim: tiro os óculos do bolso, ponho os óculos, consulto um dos documentos para saber o nome do senhor que lavou as mãos. Manuel qualquer coisa. Desço as escadas. Procuro o casaco castanho. Encontro-o à porta da Segurança Social. Digo-lhe assim: O senhor desculpe, eu sei que é uma pergunta esquisita, mas como é que o senhor se chama? Ele responde-me o nome certinho: Manuel qualquer coisa.
Devolvo-lhe a carteira. Deveríeis, senhoras e senhores, ter visto a cara do homem. Agradeceu-me profusamente. Julgo ter descortinado certo cristal líquido em suas retinas, não vo-lo juro.
Vim para Santarém, o que é sempre boa ideia. E a caminho da terra onde todas as sextas-feiras vos entro pelos olhos, então, o meu Pai, apesar de falecido há 16 anos, usou de mim o ouvido contrário ao do Diabo para me dizer isto e assim:
– Fizeste bem, filho. Não sejas como o Governo.

04/11/2010

O semanário REGIÃO DE LEIRIA deve-me 100 euros e censurou-me a crónica que era para sair amanhã


O semanário REGIÃO DE LEIRIA, alegadamente dirigido por uma "jornalista" chamada Patrícia Duarte (que, antes de ter sido chamada para ali, esteve no marketing...) comunicou-me ontem, por télémóbl, que a minha segunda crónica da série Corvos e Pombas não podia ser publicada. Porquê? "Por não estar fundamentada em factos". Eh eh eh eh. Ainda tive a pachorrazita de explicar, até com carinho, à rapariga Duarte que as notícias é que devem ser estruturadas em factos, não as crónicas. Que as notícias se baseiam nos pontos cardiais do Quem, do Quê, do Onde, do Quando e, se possível, do Como e do Porquê. Nada. Permaneceu impermeável, escorada na "deontologia". Coitada da rapariga. Dirige um pasquim de "conteúdos", de modo que quais notícias, né? A história é um bocado para o triste, até porque confirma o grau de idiotia que parece ter-se volvido obrigatório para se ser chefe, para se triunfar, para ir ali ao marketing e voltar depressinha e ser director(a) de uma coisa qualquer. Enfim, a crónica aqui vai. Nota final: todas as semanas, às pontuais sextas-feiras, aqui publicarei uma crónica para o Região de Leiria e para a Patrícia Duarte. Mesmo que eles paguem os cem euros que me devem. TODAS as semanas. De facto. Eh eh eh eh.

Che Guevara na Barosa (ou nos Parceiros)


Aqui há uns anos já largos, habitei, sozinho como um cão de ossos celibatários, uma casa nas cercanias de Leiria. Não me lembro já se esse meu covil ficava nos Parceiros, se na Barosa. Mas recordo com nitidez três coisas.
Uma – a casa era tão pequena e tão estreita, que os ratos tinham de subir ao poster do Che Guevara para eu poder entrar ou sair.
Duas – o pessegueiro do pátio era tão ferrugento e tão melancólico, que a visão dele se me embolava em lágrimas na gorja, esvaziando-me a vontade de viver em corpo e alma ao mesmo tempo.
E três – a senhoria era tão chanfrada da corneta, mas tão, que uma vez até acreditou em mim quando lhe menti que a senhora Odete João e os senhores José Manuel (Carraça da) Silva, José Miguel Medeiros e Carlos André eram mesmo professores. Acreditou, acreditou – juro-vo-lo pelos vossos mais fiéis defuntos.
Sozinho, não deixei porém de ter um razoável espólio de namoradas. Só que eram todas de vidro e tinham todas rolha na boca, pelo que só (me) falavam ou pelo rótulo ou pelo gargalo ou quando se estilhaçavam no chão, tombadas pela hora aziaga da solidão.
Os anos passaram. Passaram os anos e passei eu a outras (p)aragens, o que me não impede hoje, antes favorece, o luxo da nostalgia, esse sentimento que é a marca-de-água, a chancela, o timbre e a insígnia de todo o ser humano. Tão humano, que até a senhora Odete João e os senhores José Manuel (Carraça da) Silva, José Miguel Medeiros e Carlos André o devem ter do tempo em que, de facto professores, ainda nos não azucrinavam a pachorra com tanta vontade de nos servir – ou de se servirem de nós, pendurados no poster do Che Guevara, claro.

03/11/2010

Quatro linhas de hoje

Isto com poemas não vai lá, sabes.
É preciso arroz-de-frango-com-ervilhas.
Nos poemas, vá, ainda cabes.
Mas então e as filhas?

01/11/2010

Ideário de Coimbra - 107 - (dois fragmentos)

Coimbra, domingo, 31 de Outubro de 2010

Repara, não é já a minha vontade que escrevo, mas o afinal acaso (ou o final ocaso) da minha condição. Pinguim isolado na placa de gelo que se isolou, ela também, da calota – e agora flutua em liberdade triste. Fora deste sítio onde levo o serão, uns poucos carros farolinando a Noite: rubis-pirilampos anónimos e idênticos todos. Haverá, talvez, casas onde famílias. P(r)oesia, enfim. Hiberno intimamente, enfim.

*
Senhores e senhoras não
meus nem minhas,
estamos vivos. É
melancólico, mas assim
é. O vento fustiga os amieiros,
as macieiras, as pontes, o sono
das aves, encrespa as águas do
Rio para que
hei nascido,
talvez.
O derradeiro comboio do dia
leva meia dúzia dos senhores e
das senhoras, se
tanto.
Doentes esperam amanhãs mais
ainda ósseos, hematológicos.
O meu Pardal foi morto por um
gato faz amanhã vinte e nove
anos. Sinto-o
sempre, pousa na minha cabeça
’inda, confia em
mim, talvez me
ame.

29/10/2010

Rosário Breve nº 178 - 29 de Outubro de 2010 - www.oribatejo.pt



OE ou não é, chiça

Enquanto lá fora, pela (des)Europa, o anel de ferro franco-alemão, em nome da “estabilidade da Zona Euro”, se faz arganel nas ventas dos pequenitos pseudo-27, por cá, a nunca por de mais hedionda parelha Zé Sótretas/Troca-os-Passos entende-se bem, fingindo sempre que se desentende, a propósito de tostões que (nos) custam milhões. Haja alguém que, de vez, diga que isto OE ou não é. E chiça.
Entrementes, a (dona) B(r)anca engorda como uma porca que vai à manicure no intervalo de roubar. O BCP Millenium, sozinho, cevou coisa de 200 e muitos milhões de euros de lucro. Parece coisa de ténia, isto de 22 por cento mais de farelo intestinal. Este nunca-fartar-vilanagem tem matriz directa na selvajaria do neoliberalismo sem freio. Digo-o eu, que apanho beatas do chão e aproveito os restos de bica em chávenas alheias, esquecidas e arrefecidas. Os colarinhos-brancos e os botões-de-punho mamam avidamente, e sem engulhos de laringe, as taxas de juro equivalentes ao arfar das más cópulas, os onzeneiros interesses, as ganâncias judias, as imoralidades do zamericanos, o nanismo social do Sarkozy e a teutónica frigidez contabilística da Merkel.
Por cá, as autarquias deste quase-País tão lento quão flatulento, ao cabo de anos e anos soltas como bezerras sem ortografia pelas lezírias do endividamento irresponsável e do enamoramento de café de província para com sucateiros meio Ford-Transit meio BMW com matrícula K de importação alemã, urram e ganem à maneira do pato-bravo mal-casado ao descobrir que, afinal, a brasileira do Messenger tinha três filhos crescidos e os ligamentos suspensores das mamas mais descaídos do que o desafluxo de sangue aos tecidos erécteis.
Parecer-vos-ei, talvez, abespinhado como um ouriço na antemão da travessia de um terminal TIR. Mas não estou, juro que não. É que hoje, sexta, 29, vou com o meu dilecto e predilecto amigo J’aquim à festa gastronómica de Santarém. E quando assim é, está tudo bem.
Comamos-lhe, bebamos-lhe e convivamos-lhe, enfim, que a vida são dois dias e a nossa época é uma noite sem manhã à vista.



25/10/2010

IDEÁRIO DE COIMBRA - podografias de retorno – 99 (fragmento)

© Tó Vieira – Barragem do Alqueva - 2010



É a jusante que te rio.
Cristais coruscam peixes falados.
Mansidão das coisas; em pátios, pessegueiros.
Mães urdindo a economodomesticidade.


Aquela senhora ali de preto.
O vão da janela crucifixada.
O comboio ganindo no Loreto.
A casa do Gil, perdida, queimada.


Recorda sem pressa o que vai seguir-se.
Lenta parcimónia ajuda a caligrafia.
Na Turquia, o minarete preside
sem pressa ao crepúsculo, ao milénio.


Reviverei quanto puder (n)o futuro.
Dos meus irmãos a minha Mãe julga-se 55
anuária. Telefonaram-me há pouco, por isso
sei. Uns quantos versos me reviverão


e resgatar hão-de.


*


Em casas de gente, ele há louças
louçãs e rebrilhantes, belas.
Retratos as escoltam, amarelas
caras fustigadas, essas


que ficam galeriando as casas
da gente que desabita quanto pode
os terrores do Fado, do Hospital,
do Demónio e da Pobreza.


Sobre o linho que cobre a mesa,
fruta arde aromas amarelos.
Encarnada mão os rearranja.
Chopin percute cordas na sala.


Obras Completas de Júlio Diniz.
Idem aspas aspas de Eça de Queiroz.
Viver é fácil, basta ser feliz.
Não é tão difícil, basta não ser nós.

22/10/2010

Rosário Breve nº 177 - www.oribatejo.pt + Corvos e Pombas nº 1 - www.regiaodeleiria.pt



Cine Porno e outras desonras afins

Partilho com as louras falsas a secreta esperança de, no epílogo dos filmes porno, ele se casar com ela, já que tão publicamente a desonrou.
Com isto não pretendo dizer, porém, que outra esperança também secreta me anime: falo de esperar que, mais tarde ou mais cedo, este Governo se case connosco, apesar da iniludível e indesmentível pornochanchada em que ele consiste.
Eu não peço que no Cartaxo até com uvas se produza vinho, assim como nunca reclamo quando o melão de Almeirim me parece um bocado espanhol. Se, por absurdo, viesse a participar numa meia-maratona mas obrigado a partir da última fila do pelotão, vivamente vos garanto que me resultaria muito mais fácil apanhar Sócrates do que um coxo.
É por aqui e por aí voz corrente que o Pão, ao contrário do Governo, tem miolo. Tê-lo-á, mas é cada vez mais côdea. Não me recordo de crise tão crítica como aquela com que estes espúrios cavalheiros nos inseminaram. Crise financeira, mas não apenas. Crise moral, crise mental, crise física & metafísica & patafísica & tísica. Tenho a caixa de correio electrónico diariamente atulhada de indesmentíveis (e nunca desmentidas) denúncias fundamentadas de clientelismos, compadrios, vigarices, ciganices não propriamente étnicas, tachismos e assessorismos. Roubalheiras e ratarias, enfim.
O dito pelo não-dito é dito & feito. A promessa de ontem é garantia hoje de que amanhã antes pelo contrário. Estes sevandijas energumenóides desceram a arte da mentira aos ofícios da meia-verdade, sendo esta de bem mais soez sordidez do que aquela. Uma sarjeta não pode nunca ser pista de patinagem, assim como a Vodafone não é a cópula da Ivone, enfim.
A moléstia alastra (e, por desgraça, grassa) por tudo quanto é cão e rincão. A margarina do trabalhador é que sustenta o caviar dos chupistas.
A moralidade é estarmos desquitados de nós mesmos. É. Mas seria tão bonito que no fim do filme ele casasse com ela. Ou então com ele: e não estou a falar do coxo.


******

O Enigma de Marrazes



Os mistérios da vida são universais e começam pela mesma Vida – ela própria e em caixa alta. O par enigmático dela, da Vida, é a Morte. Outros casais misteriosos: o Tempo & o Espaço, o Céu & a Terra, o Ar & o Mar, o Homem & a Mulher (especial destaque para esta última), o Cão & o Gato, o Gato & o Rato, a Brevidade & a Eternidade. E Deus & o Diabo, tão naturalmente quão também.
Mas Leiria tem outro. Ah pois é. Leiria tem um enigma que é só de Leiria. Só, só. Muito só. Muito só de cá e muito só daqui. Qual é ele? É o enigma de Marrazes.
Os meus leitores, sei-o eu bem e à saciedade, já sabiam que sim – mas esqueceram-se de verbalizá-lo. Como sou pago para me lembrar de coisas que nem ao (tal) Diabo, a coisa aqui vai de seguida: em que consiste esse toponímico-gentílico mistério/enigma/charada/problema/quebra-tolas? Consiste nisto: como é que, cada vez que o glorioso onze futeboleiro de Marrazes joga no tomástaveirado Magalhães Pessoa, a assistência traseiro-sentada na bancada é, no mínimo e pelo menos, quadruplamente superior à da infra-média que se dá ao luxo triste de ir ver a União de Leiria?
Como é? Porquê? O que é de facto a Morte? E o Tempo? E o Cosmos? E Homero existiu mesmo ou foi uma data de gajos tipo Fernando Pessoa? E a formação neural da Consciência? E o ad aeternum brevis semper? E o Marrazes?
Não sei. Acontece que não posso ir demandar este esclarecimento existencial a Leonel Pontes, de quem aliás sou amigo por descuidado favor dele. Nem a João Bartolomeu, com quem ainda me não amiguei e cuja voz, apesar de fininha, ainda era capaz me parecer grossa. De modo que, para já, ficamos assim: entre Deus & o Diabo & o Cão & o Gato. Ou entre o Sport Clube Leiria e Marrazes & a União Desportiva de Leiria. Ou entre o aparentemente vitalício (ou ad aeternum…) João Bartolomeu & o monte-redondense Leonel Pontes da Leirisport. Ou seja: sem explicação alguma e com mistério para sempre.
Para sempre – ou até daqui a quinze dias.

21/10/2010

Três Sonetos da entrada 92 do Ideário de Coimbra (quinta-feira, 14 de Outubro de 2010)

(soneto-maria)


O rosto dela é matizado de azulejo.
Finíssimo cabedal de carmim lhe enroupa
a mesma boca que, atirando um beijo,
a volvê-lo se nega, por pirraça e desejo,
ensejo a que ela nunca se poupa.


Tem algo de barco andarilho.
É certo: foi já casada e tem um filho,
mas ninguém o diria. Maria (assim se chama)
oblíqua na rua, direita na cama,
tem algo de barco e espuma no trilho.


Gosta de espargos, gosta de morangos.
Aos sábados sai, vem o pai do filho.
E saem os dois e dançam uns tangos –
valsas é que não, pode dar sarilho.


*


(soneto-cão)


Vi o homem com boca de cão triste.
Vi a dama habitada pela cegonha.
Da Terra me tire e no Inferno me ponha
quem jure que eu sou alguém que desiste.


Vi já silhuetas só sombras de nadas.
Vi tantas marés, bem menos vi praias.
À espera que entres e nunca mais saias,
eu vi silhuetas de mar assombradas.


Aqui entre nós, penso ter já visto
más coisas, más almas, a que só resisto
por puro obstinado feitio nascido.
Antes isso! Que, se não desisto,
é por teimosia. Já agora, insisto
em ser o tal homem, cão entristecido.


*


(soneto-vivido)


Ela desesparadrapa sedas inconsúteis, falando.
Murmura mais do que fala, marulha.
É de tenra e terna suavidade, a locutora.
Aprecio-lhe o vocalismo brando, sonhando eu.


Pergunto sem outra voz que esta, a de dentro,
que será feito delas, digo, ela e dela a voz.
O tempo é dado a assoreamentos levadores
do que água em pessoa (me) foi, digo,


tenho perdido alguéns – e ninguém, por isso,
tenho eu mais que outros sido e/ou vivido.
Agora, o veludo usa postes para ser noite.
Fora, tudo recusa que gostes. Foi-te
precioso ter esquecido, mas eu tenho perdido
o que, vivido, nem por isso mais sido.

20/10/2010

IDEÁRIO DE COIMBRA - podografias de retorno – 96

96. RUA SEM NOME

Coimbra, segunda-feira, 18 de Outubro de 2010

Esta madrugada, sonhei (ou desejei, não sei distinguir) que seguia, a pé como sempre, ao longo de uma rua de que não pude apurar o nome. Não estou certo, sequer, de que fosse em Coimbra. Sei que, atingida a esquina final da artéria e dobrada a mesma, era a mesma rua que se me reiniciava pela frente. E ao cabo dessa repetição, para meu vago horror, a rua repetia-se, a mesma sempre e sempre sem nome. Então, ou acordei ou deixei de desejar. Pergunto-me se aquilo era a morte (como a que o patriarca Buendía de Cem Anos de Solidão recebeu), se aquilo era uma outra dimensão da minha vida podógrafa. Agora, desperto, retomo as circunvoluções cerebrais das ruas, estas sim com nomes cardiais, reconhecíveis e reconhecidas. É a Manhã – que, ontem, era Amanhã.

14/10/2010

Rosário Breve nº 176 - www.oribatejo.pt


Semelhança do buraco



Os mineiros do Chile foram resgatados. Excelente notícia. O desejo (que todos tínhamos) de que assim acontecesse, foi felizmente satisfeito. O airoso desenlace ficou a dever-se ao heroísmo lúcido dos homens soterrados e à dedicação incansável dos técnicos, que nunca souberam, estes, desistir à superfície, e aqueles idem lá nas profundas. O ocaso deste caso deixa-me, em lugar do desejo único de ver os mineiros cá em cima com as respectivas famílias, dois outros desideratos. Estes aqui:
1) Que a equipa internacional de técnicos salvadores venha para Portugal formar Governo. Só gente assim, abnegada e competente e capaz e dedicada e desinteressada nos pode tirar de um buraco como aquele em que nos metemos a partir de 1976, ano a partir do qual o PS e o PSD, alternadamente, nos meteram no fundo.
2) Que os 33 mineiros sejam secretários de Estado desses (verdadeiros) engenheiros.
Em lugar de, por mero exemplo, um qualquer José Junqueiro, seria ou não seria excelente termos na Secretaria de Estado da Administração Local um Florencio Ávalos, ou um Victor Zamora, ou um Carlos Barrios, ou um Edison Pena, ou um Jorge Galleguillos, ou um Alex Veja, ou um Mario Gomez, ou um Claudio Yáñez Lagos, ou um José Ojeda, ou um Carlos Mamani, ou um Jimmy Sánchez, hum? Seria pois.
Ou então a presidentes de Câmara, estes e os outros. Haveria de dar para todos. E todos eles nos prestariam um serviço a que não estamos habituados – e com abnegação, coragem, solidariedade, entreajuda, disciplina, contacto, comunicação, comunhão de objectivos, igualdade de ponto de partida, essas coisas que perdemos desde 1976.
Julgo que estes meus desejos, ao contrário do outro que queria ver os 33 trabalhadores sãos e a salvo, não serão resgatados de sua mesma utopia. É pena. Porque no Chile só os 33 bravos é que estavam no buraco. Aqui somos dez milhões. E os nossos “engenheiros” são do calibre que são.
Só o buraco é semelhante.

Canzoada Assaltante