18/11/2008

Jaculatória em quatro Décimas e uma Quinta ao Meu Senhor da Minha Infância com Referências Tácticas ao Irmão Doutor Sousa Martins



Para a Ana M. P. Antunes,
criatura que me topou perfeitamente um tal Camilo Ardenas






Lord, I am a surgeon
and music is my knife
it cuts away my sorrow
and purifies my life.

Paul Simon, God Bless the Absentee





Pombal, manhãs de 4, 12, 14 e 16 de Novembro de 2008




I

Olha-me, senhor da minha infância, que envelheço
– e nem sete e meia da manhã são.

Acordei hoje feliz, ó meu senhor da minha infância,
sonhei com nespereiras, respirei o ar que docemente
as viola, é bom acordar de pulmões lavados,
senhor da infância.

Ouço o cantar branco das louças, agora,
a rapariga do balcão é gentil como um lírio inclinado,
o rumor das formigas é engraçado, olha, senhor,
como levam as patitas às chávenas de café com leite,
como aproveitam os bolos, o açúcar.

Não longe, um prédio azul-claro espera advogados,
o dentista, a senhora do balde e da esfregona
– que idade terei quando baterem as oito
no sino que não há da igreja ausente?

Tanta, senhor, e tão pouca gente.
Senhora de casacão grená adquire pastilhas de mentol.
Cavalheiro de sobretudo creme (gola preta) boceja.
Metaliza-se o céu, vai chover na minha idade.
Uma família cigana enegrece a esquina do mercado.

Olha, senhor da infância, a beleza daquele velho
a cavalo em sua bicicleta velha como ele, que
formosa a rosa da sua cabeça única sustentando
o boné de padrão escocês – a que clã pertencerá
o venusto velho ciclista?

Redar-me-ei, hoje e enquanto me houver um sempre,
a rondas columbinas. Da escola de música,
dedos pequeninos emitem notas de piano, essa praia onde
a gaivota Chopin, o albatroz Schubert,
a andorinha Vivaldi, o corvo Monk,
meu senhor.

Rosto de gato: rapariga de jaqueta de napa
com botões de chapa dourada, dedos de fino estuque
com anilhas de pombo-correio, botins de pano francês,
lábio inferior seguro por argola de espúria platina
– quanta beleza, meu senhor da minha infância.

Estralejam isqueiros ante olhos fumadores,
em tão poucas pastelarias se pode agora fumar,
ele há leis muito estúpidas, são as oito e um quarto
– e estou vivo registando os pequenos lumes,
os olhos que fumam, a segunda-feira.

Morrer em vida é que não. Isso não. Recebo cavalheiros
e casais no salão do meu coração, este caderno
onde és presente como um relógio, dos de pêndulo,
que emadeiram o tempo, os anos matinais
e a minha infância que envelhece.



II

O pastor João levou os animais ao pasto e não voltou.
Voltaram os animais a sós pelo entardenoitecer.
O corpo do pastor João jazia esfaqueado por terra.
Longe (muito longe), na capital, banqueiros roubam.
As facas quase nunca são bem dirigidas.

Senhor da minha infância, o mundo não é
mais bonito, agora que não és
agora.
Tenho ouvido muitas coisas, palavras sobretudo.
Estas te digo, senhor.

Buganvílias presidem de cor a viaturas utilitárias.
Garagens com portão levadiço ferram casas.
Órfãos do comunismo branqueiam a esquina do mercado.
Um pouco de atenção basta para melhorar o mundo.
Sou feliz: nesperei-me em sonhos, meu senhor.

Uma vez, era um rio. Curso e corso: águas
da infância senhoreada pelo senhor, quando
o instante, um qualquer instante, era do
teor mesmo da própria eternidade. Creolina expedia
comboios rápidos, vinagre e moscas conviviam.

Olha-me, senhor da infância, que envelheço
– e nem meio-dia e meia é.

Pão quente em olor pela rua onde cobro e sofro
o avanço de uma desdita tão particular e tão geral
quão uma unha, uma unha de mão levada à boca,
esta terça-feira.
Expedem riscos as nuvens pluviais, agora.

Há um batente no latente coração que pensa mais
que bombeia.
Carcaças decepadas como manequins
pendem no talho do meu amigo Adriano, que
cumprimento para rememorarmos sábado.

Hortas inglesas de almanaque verdejam em minhas sinapses,
um prédio cor-de-salmão alberga lojas,
raparigas mal empregadas, pastilhas de mentol.
Hoje, ó senhor da minha infância, volve-se ontem
a cada verso.

É do mundo ser um palavroso: um animal
com vocação para o ruidoso silêncio: um par
de olhos castanhos, uma ortografia, uma pele
de crocodilo enroupando as vísceras, a ordenação
das estrofes e a louça branca.

Repassa o homem da bicicleta, o escocês.



III

A chuva torna levadiço o rio,
é uma quarta-feira.

Casal de mãe & filho, de negro revestidos ambos, em
marcha pela avenida sorumbática.
Não se vê João, hoje não, nem
o senhor da minha infância.
Um perfume a tripas, a estrofes, a remédio.

Cortiçam-se os rostos de uma espécie de
espeleologia: noite em pleno dia.
A mulher do carrinho-contentor recolhe as
oferendas, o tesouro público, papéis congelados,
maços de tabaco amarfanhados por amarfanhadas mãos,
folhetos do hipermercado, folhetos de professores
astroafricanos, olhos de vidro, dedinhos de crianças,
um cachecol do Sporting, uns óculos de sol
que não há.

Gosto da cabeça da mulher do carrinho-contentor:
é toda lenço (toda chita), aquela cabeça;
berlinde encefálico, bolita de passarito,
pérola pobríssima, excedente municipal,
ninharia cósmica, não altiva princesa de baixios,
de manhãs frias, colectora de nossas sombras.

Envelhecem-me as tripas, senhor meu
da infância que me não pertence
excepto pela palavra,
que em ouvir teimo, levadiça,
como tu levadiça e pluvial
como tu, meu senhor.

Ainda ontem:
acabara-se-me a noite, tudo o que tinha
não era mais que uns versos
de Alcipe,
aliás Marquesa de Alorna,
aliás D. Leonor de Almeida,
que morreu de velhice.
Casou-se com um gajo da Prússia,
eu não.

Era num shopping, como agora chamam
às espeluncas onzeneiras.
Uma venezuelana revoava, muito francesa, pelo
átrio do repuxo, em torno do que pasmavam
sentados os pastores da melancolia.
Eu lia.
Respondia Alcipe, aliás Marquesa, aliás Leonor,
a Natércia, dela amiga não filosofista,
antes sentimental.
Era ainda terça-feira, nem se estava ali mal.

Hoje não. Bulem-me as tripas, tenho tosse,
Expilo mucosas mariposas do cavername.
E, meu senhor, antes me nada assim fosse,
nem o tripeiro ranger, nem o ladrar macadame.

(Divirto-me, está visto, meu senhor.
Assim uma manhã discorrer pode um pobre, no
Café Esquina posto à vidraça como imprestável
móvel em montra de insolvente mobiliária.

O rio leva e disse.



IV

Os olhos daquele homem de família, olha, meu senhor,
que absorto e verde é o olhar daqueles olhos.
As pessoas são muito mais bonitas do que não crêem,
digo-to eu, meu senhor da minha infância.

Estou melhor, mas não muito, da tosse, é sexta-feira,
estou no Esquina a ver se o gajo com o Correio da Manhã
mo larga, já largou, afinal era uma gaja, elas
agora vestem calças e pulôveres como nós, sabes.
Estas palavras que leio, digo-tas, meu senhor:

VIDENTE A TRABALHAR COM DR. SOUSA MARTINS
pessoalmente ou à distância.
Um só telefonema pode mudar a sua vida!
Perdeu o seu amor? Ouro, sigilo.
Menina árabe 21 aninhos!! Zinco, desemprego.
Para não fazer mas sim para fazer.
Alfragide, Alentejo, Aljustrel, Alcochete.
Corroios, Évora, Peniche, Caminha.
Fresca ou conservadora: as duas coisas.
Liverpool, Vegas, Estoril, Wimbledon.
Inês, Sara, João, Xavier.
Iniciativa, Torres Vedras, balcão, Salvaterra de Magos.
Pesados e articulados: ministros e hectares.
Empresas sem dívidas aos bancos: oferece-se.
Tudo numa casa, como um carneiro.
Deverão possuir mãos de fada e propostas nacionais.
Chinesas e japonesas correm éditos em Ceira, Coimbra.
Valor inferior a um serrote marca BERLINEER HBP 500.
Anúncio dos Anjos locais comporta luxos próprios.
Conhecimento é um crime público que atende em privado.
Monterrey em Tallin, Azerbaijão em Dumbria.
Quatro meses e foi um inferno.
Paixão de Fialho custa um milhão.
Cumprir o ESCORPIÃO também.
Mais alternativas: à espera.

Cedo o jornal a um cavalheiro de casaco verde
que me soslaiolhava, estranhado, tanta cópia-caligrafia.
Tomo um hausto muito fresco, à porta do Esquina.
Saio.

Se alguma coisa amo, é este carrossel:
a ambulância, cuja passagem aos gritos alvoroça os velhos,
as inumeráveis folhas enumerando as árvores
(muitas se sustiveram outono adentro, ora inverno),
a notícia aromática desta senhora de luvas,
o decapitado manequim desgenitalizado,
a tostadeira a preço de rebaixa pré-natalícia,
o vento dando alto nas mansardas,
os varandins de madeira lacrados a sardinheiras,
uma menina toda vestida de verde (os olhos castanhíssimos),
a mosca triangular como um caça,
um maço de guardanapos visto de lado como um livro,
a negação gravítica da respiração da cerveja no copo,
um ser de casaco amarelo colhendo morangos,
(as laranjas, também de estufa, dourando a banca),
o cristo-rei de um poste de alta-tensão,
os meus sapatos camurçando a calçada azulibranca,
o tango dos passaritos pelo chão,
toda a renúncia e denúncia nenhuma,
os matrimónios-galheteiros vinagrazeitando as clínicas,
uma mulher a fumar sentada no muro do hospital,
um chinesito a sugar um tetrapak de leite achocolatado,
uma ideia simples na cabeça,
o médico que passa como se o levassem de andor,
o bêbado oficial da cidade gettysburgando aos peixes,
a unção ainda não extrema da melancolia,
o jogo de luzes de dois gatos assanhando-se,
uma folha de pedra cor-de-leite-creme,
as mãos do meu senhor da minha infância dele
(na minha cabeça infante, este exacto instante),
uma ânsia educadíssima,
covilhã-manchester-portuguesa-aveiro-veneza-portuguesa,
formosuras gordas nadegando esquinas,
viverei enquanto amar, DR. SOUSA MARTINS.



V

Olha-me, senhor da infância, que amanheço
– tenho ouvido muitas coisas, a chuva, os rostos,
os olhos daquele homem de família,
mais alternativas.

Acordei hoje açúcar, sou feliz, meu senhor.
Um só telefonema para não fazer.
Fresca espera,
um sempre.

A que clã voltaram os animais?
Olha-me:
a chuva torna:
de vidro os olhos.

Acordar não longe,
sou o pastor João
hoje,
meu senhor da minha espeleologia, num shopping.

Pequenos lumes, uma unha,
pão quente que não há quarta-feira.
Inês, Sara, sem dívidas, um milhão.
O tango dos sapatos pela cabeça.

Rondas de pombo-correio
pessoalmente ou à distância.
Levadiça Leonor, Natércia conservadora,
ontem.

A mulher do carrinho-bicicleta,
o verde-escocês do homem do tesouro,
pérola inferior a um serrote
princesa de Ceira, Coimbra.

Ainda a cavalo nas tripas,
a tosse de olhos castanhos,
tudo numa casa,
nem se estava ali.

Casal de moscas, estrofes de vinagre,
um pouco de atenção aos órfãos,
a ordenação da Prússia
e estas que digo ao meu senhor:

o DOUTOR SOUSA MARTINS lá está
no Largo Mártires da Pátria,
que foi Campo de Santana e da bola,
coitado, todo dejectado de moscas, pombas e orações,
a Marquesa de Alorna, não sei onde está,
sei que viveu uma data de anos e depois deixou-se disso,
as sardinheiras rutilam altas nas mansardas ’inda,
a gripe catarra as manhãs de alcatrão pessoal,
quem me dera lavar tudo, pulmões, coração, laranjas,
meu senhor da minha infância,
infância minha afinal mais tua que minha,
que mais é de pai & mãe, porque a ganham,
que do filho a infância, porque a perde,
assoo-me a livros como a lombadas de guardanapo,
o território nacional é sobrevoado por caças e por moscas,
continuo a gostar das bicicletas artesanais dos homens,
da revolução proletária ambulante de toda a mulher,
mesmo as que fumam, mesmo as que usam calças,
mesmo as que casam gajos da Prússia,
mesmo as que nunca ouviram Thelonious Monk,
às vezes dou por mim a pensar no pastor João do jornal,
um velho sai com os animais e não volta,
coisa que aliás me fizeste também, meu senhor,
e nem no jornal saiu coisa que se visse,
teria como eu degustado o castanhíssimo dos olhos
daquela menina toda verde em outra manhã,
o mundo aí o temos todo para serrar em versos
como serra o pão um tal Cristalino Vicente
que ando a compor por ócio e melancolia,
não sei pintar mas não há cor que me escape,
o preto da tinta, o branco do papel,
isto de me chamarem agora nas lojas, também,
senhor e Daniel,
meu senhor da minha infância,
ainda ontem.

Criatura nº 2











17/11/2008

Estes também

Estes sítios também são muito bons:

http://o-zero-absoluto.blogspot.com/

http://oregabofe.blogspot.com/

e já estão nos Links da Malcata, claro.

Ente Lectual

A partir de hoje, nos Links da Malcata deste sítio, http://entelectual.blogspot.com/.
Vale a pena seguir.

16/11/2008

Os Estados Unidos e a Crise Internacional sobre fundo de Castanholas de Gelo

Uma senhora minha amiga gosta muito de chocalhar as pedras de gelo do gin enquanto canta


Agora que o bandalho se foi embora
vamozaver o que o preto faz

e depois o marido vem buscá-la e não se fala mais nisso.

Cristalino Vicente - III

© Caspar David Friedrich - Abadia no carvalhal (1810)



III

Souto, manhã de 16 de Novembro de 2008



Talvez seja preciso falar da casa. É uma casa enquanto nela há um homem. Há um cão também, feito de todos os cães que foram do homem e da casa – porque é sempre Mondego, o cão. Há a boca do lume, que é negra como o céu-da-boca do cão. O catre é onde o homem dorme. A mesa, a que ele come e não escreve e não lê. Um banco duro, de assento forrado a alcatifa achada algures. O retrato da Mãe entre duas velas de sentinela, como ela, apagadas. Um dia, Cristalino Manuel haverá de chegar-lhes o fogo. Há as paredes e o telhado sem placa. Tudo de madeira, entre árvores.
No pátio, a selha da água. Um pessegueiro enferruja sem remissão. O pessegueiro tem os pés metidos dentro do planeta, como fazem as pessoas que chegam a uma praia. A água vem do céu e vem do ribeiro, que em baixo solfeja cristais muito lentos. As facas do matador estão dentro de uma caixa que foi de ananases dos Açores. Da outra riba, casais emitem dedadas de cal.
No estio, os animais cantam de dentro da terra e da cabeça. No inverno, Cristalino Vicente salga a parte do abate que lhe cabe em sorte. No inverno, é quando mais sonha com

As coisas do verão.

15/11/2008

Ofício de Poeta em O Melhor Amigo

Ide ver ao blog O Melhor Amigo (http://omelhoramigo.blogspot.com/) esta entrada: Ofício de Poeta.
Aproveitai para navegar, depois, pelo sítio. Tem coisas que ficam agarradas a uma pessoa. (Certo que depende das coisas e da pessoa.)

Cristalino Vicente – I e II

© Sandra Bernardo – Redinha, 12 de Novembro de 2008



I

Em casa, Souto, noite de 15 de Novembro de 2008


Não sabe como o sabe – porque o não leu em lado algum nem lho disse ninguém – mas parece-lhe sempre ter sabido que

As árvores sofrem muito dos braços, partem-se-lhes com uma frequência que denuncia a facilidade da fragilidade, o vento, as crianças, os camponeses impacientes que varejam à porrada, partem-se-lhes os braços muito. Mas depois elas tratam delas mesmas, curam-se, fazem nascer-se outra vez em ramos e ramos e flores e outra vez frutos, como se não houvera sido nada. Depois ficam podres por dentro, uma pessoa sabe que aquela e aquela morreram. Mas depois uma pessoa olha em torno da que morreu – e há tantas vivas à volta, tantas a nascer, mal se vêem, são do tamanho de flores, mas não são flores, são árvores que vão dar flor. E uma pessoa não sabe como sabe – porque não está escrito nem ninguém fala disso.

Os sonhos dele são assim: claros, irrefragáveis, até bonitos. Ele é matador. Chama-se Cristalino Manuel Damas Vicente e é matador. Não é um assassino. É um camponês que chamam para que mate o porco e os filhos do porco e, por assim dizer, a mulher do porco. Também acede a matar cordeiros, embora lhe custe. O carneiro, nem tanto, como aliás a ovelha. Os cabritos, igual aos cordeiros. A vaca, não é capaz de todo. Não a sonhou ainda, nem a leu algures, nem ninguém lha disse, mas a razão é que a vaca (o porte da vaca, o olhar da vaca) lhe impõe(m) a Mãe que teve e que apodreceu por dentro e que, afinal, não rebrotou nem deixou iguais a ela em torno, nem ramos, nem flores a que o matador chame irmãs, nem frutos a que ele possa chamar irmãos.

II

Ibidem


Uma ainda nem madrugada, Cristalino Vicente acorda sem ter sonhado. Sente-se um tanto vazio por causa disso, mas não se pergunta. Faltam dois minutos para as cinco, levanta-se um minuto depois do sino.
Não sonhei com nada.

Desperta lume no lar, chega-lhe a cafeteira, junta uma mão de gravetos e uma pinha. Sai ao pátio e lava cara, mãos e antebraços na selha. Frúi a friúra da água, que lhe ferra os ossos. Reentra, serve-se de café numa malga azul e verde. Serra um pão, vai ao mosquiteiro e tira o naco de toucinho cru. Come. Bebe o café em dois sorvos. A cara despede-se da água da selha, assimila a força do lume. Está pronto. O cão também. Chama-lhe Mondego. Despedem ambos pela congosta. Sobem e descem linhas de terra entre pedras. Arde a gelo a primeira pincelada de alba. O casal é a duas horas de caminho. Chegam.
Está tudo preparado. No pátio do casal, depois do carro de bois, que, sem bois, inclina as varas para descansar no chão, está o cepo largo. Trazem a porca grande. Já não pode ter nem dar mais filhos. As mães dos homens, um dia, também chegam a isto. Ele espera que os homens da ajuda firmem a fêmea, que já percebeu tudo e o olha sem rendição. Ele evita-lhe o olhar. Opera. O sangue cachoeira-se, a patroa da casa acode com o alguidar, a colher de pau, o vinagre. Para aquela ex-mãe, tudo acabou. Ele espera que a queimem à flor, que a raspem com cacos de telha. Depois, içam-na. Crucificam-na ao contrário. Ele abre-a de alto a baixo. Revela-a. Revela a humanidade dela por dentro.
Nisto, o filho da casa grita no pátio. Não tem ainda cinco anos, estava a brincar no carro inclinado, caiu mal, partiu um braço. A mãe grita, o rapaz também. Levam-no. Vai ficar deficiente daquele braço. Cristalino Vicente e Mondego regressam a casa: pedras, terra, (tantas árvores vivas, algumas mortas). Lava-se na friúra. Entra. Faz mais café. Come pão com toucinho. Trouxe laranjas, come uma. Deita-se, pergunta-se antes de adormecer
Hei-de agora sonhar com quê?

Um Mundo Catita - 23/11/08 na RTP 2

Diz o Rui e tem razão: isto é imperdível.
Lete-se luc éteda treila: http://www.mundocatita.com/main.html

Crónica nº 3 da série Notícias de Dentro - no quinzenário Notícias do Centro (http://www.noticiasdocentro.net/) a partir de hoje, 15

Pobrezas

A gente é pobre, mas pobre não é gente. Pobre só é gente no Natal, quando faz de pobrezinho. Pobre vota, mas não conta. Pobre desconta.
Pode ser-se pobre estando rico. Mas ser pobre não enriquece. Rico pobre é o que se remedeia. Remediar-se empobrece muito mais no tal Natal.
Uma coisa é a gente ser pobre. Ser remediado é a mesma coisa. Mas estar rico não é o mesmo que ser rico. Ser rico pode ser estar pobre. Remediado é que não.
Remedeio não é remédio. Remédio é cara da coroa da doença. Doença é quando se pensa. Pensar empobrece, não remedeia nem enriquece.
Pobre vale mais quando não tem remédio. Menos quando tem remedeio. Quando tem remedeio, pobre é rico pobre.
Pobre rico é outra coisa. Vive remediado e morre pobre. Enriquecer a vida é empobrecer a morte. Mas remediá-la é matá-la porque é empobrecê-la. Como pensá-la é tudo menos remediá-la.
Pobre vota, mas não bota. Pobre perdigota. Pobre perde e gosta. Não gasta. Gosta. Remediado também gosta, mas bota. Bota rico porque vota pobre.
Que remédio.

14/11/2008

Se te Der para a Decência


© Bill Brandt - Portrait of a Young Girl - Eaton Place, London, 1955






Em casa, Souto, noite de 14 de Novembro de 2008




Se te der para falar com os mortos, tudo bem.
Agora, se te der para falar com os vivos, pré-recorda
que serão mortos, e nem todos antes de ti.

Pega em meia dúzia de lápis, sai à rua com eles
esquecidos já na maleta de médico sem pacientes,
esquece-os como te não esqueceriam eles, se
te escrevessem uma carta, um número, uma cruz.

(Todas estas recomendações são estritamente decentes.)

Vai pela sombra.
Aceita
a magnitude como o magnetismo, luculentas munificências
dos deuses da geografia (ali o rio, porém a barragem acolá)
que ajudam a morsegar o coração.

(Estas, nem tanto.)

Falando de outra coisa,
que se faz sábado e depois não há tempo para isto
(a vida),
a chuva seguirá cordoando-te as décadas, quase todas
as frases
(as para os vivos como as para os mortos)
e as praias dotadas de um inverno portátil
naquilo que tanto tens morsegado.

Meia dúzia de mortos, outra meia de lápis,
vivos é que nem tantos,
por decência.

Cuidados e Direcções


© Sandra Bernardo, Cabanas de Viriato, 5 de Novembro de 2008





Em casa, Souto, manhãs de 13 e 14 de Novembro de 2008




Outra maneira de pôr as coisas:
o coração tem portas de brandenburgo
em todas as direcções.

A noite dispara tosses, na cabeça rumorejam
os retardatários senhores dos sonhos.
Os móveis florescem de vidro, louça, retratos.
No pátio, uma poça de água resume a lua.

O íntimo inverno, mais que o de fora rigoroso.
No pátio, o limoeiro de mamilos gelados.
O cão petrificado no bidão.
O céu todo árctico, todo norte
em todas as direcções.

Ciência de não saber, de cuidar apenas.

Cuidar,
como um pastor,
dos cafés abertos das ruas fechadas,
das portas do coração,
do transido erotismo dos limoeiros,
do cão
e da noite,
por causa das tosses.

Cuidar,
como um mirone,
da dançarina estatuária dos fumadores,
das pombas gordas e de chumbo como os polícias,
das rosas artríticas aos pés do bairro social,
dos submarinos cachalotando Odessa,
da solidão em casa tiritando o domingo desportivo,
das rachaduras das chávenas-almoçadeiras,
do dormir outra vez menino.

Outra maneira de pôr as coisas:
pagar com um corpo do sul o teor setentrional do pensar
em todas as direcções.

12/11/2008

O CORPO É A COISA QUE MAIS ACONTECE À PESSOA

Foto: © Sandra Bernardo, Redinha, 12 de Novembro de 2008




Em casa, Souto, noites de 11 e 12 de Novembro de 2008




Este corpo que traz frio o tempo e o tempo
dos anos.
Este cabide de si mesmo.

Aqui moramos os muitos anos de nossas poucas vidas.

Aqui as rosas, ali o alguidar de degolar a galinha,
ali onde a menina se cortou num pé, àquela janela
a mãe do pai dizendo adeus com a mão parada,
estrela mais de vidro que a mesma janela.

Este corpo que o artesão tocou no tempo, onde ele
ardia a branca louça do corpo.

As rendas guardadas em casa, a humidade
dos ratos adormecendo-as e às festas que foram
rendadas de elas.

A venusta parcimónia de seu sólio.

O profundo país que cada um de nós se torna.
E esta pátria de ninguém: este corpo só
de si mesmo.

11/11/2008

Música da Família Bellamy? Também temos.


Hoje, mesmo sendo terça-feira, a Ronda Columbina é de duas horas, como só costuma acontecer às quartas, quintas e sextas. Começa às 19h00 e vai até às 21h00, em 87.6 FM e/ou http://www.radiocardal.com/.
Começa com temas de séries televisivas para bater na nostalgia: Hercule Poirot, Hill Street Blues, Pink Panther, The Muppet Show, X Files, Woody Woodpecker, Upstairs/Downstairs (A Família Bellamy, na foto), The Sopranos e, até, MacGyver.
Seguem-se coisas de John Pizzarelli, Gem Boy, Jorge Sepúlveda, Patxi Andión, Amália, Ennio Morricone e Madeleine Peyroux & William Galison.

10/11/2008

Logo na Ronda Columbina


Morreu Miriam Makeba.
Aos 76 anos, em Itália, na madrugada de domingo para segunda-feira.
Depois de participar num concerto de solidariedade para com o escritor italiano Roberto Saviano, que está ameaçado de morte pela máfia napolitana na sequência da publicação de Gomorra.
Miriam Makeba foi uma grande senhora, senhora de uma grande voz.
Era sul-africana. Negra. Corajosa. Resistente.
A Ronda Columbina (em 87.6 FM e/ou http://www.radiocardal.com/) de hoje, 10 de Novembro de 2008, abre com ela.
Ao vivo.
Cantar-nos-á Soweto Blues, tema de Hugh Masekela.

Outras músicas alinhadas de Paul Simon, Djavan, Luz Casal, Robin McKelle, Laila Kinnunen, Jeannette, Jean-Patrick Capdevielle, Rosa Passos, Yael Naim e Tuck & Patti.

Conjuntivo


© Sandra Bernardo (Redinha, 7 de Novembro de 2008)
Em casa, Souto, fim da manhã de 10 de Novembro de 2008





Que uma flor adormeça na minha mão.
Seja uma verde, azul a outra.
Que eu não te perca.
Que a minha mão te acorde, Pai.

06/11/2008

Ronda Columbina

Tenho desde segunda-feira um programa radiofónico novo.
Chama-se Ronda Columbina.
Vai para o ar das 20 às 21hoo (2ªs e 3ªs) e das 19 às 21h00 (4ªas, 5ªas e 6ªas).

Na Rádio Cardal : em 87.6 Fm e/ou www.radiocardal.com

Sois todos/as benvindos/as.

04/11/2008

Mais Duas, mesmo nesta Idade

Pombal, noite de 3 de Novembro de 2008


I

Cão pequeno matiza leveza na alçada
da eternidade de doze anos a que
tem direito, rumo ao mesmo frio
de outra rua, que daqui se não vê.

Tenda da noite armada sobre a
cidade-vila, o sal das árvores
batendo a podridão das bocas, onde
a língua usa relicários por astúcia.

Gentios de rubicunda tez travessando
praças daguerreotípicas, embaçados
e amarelados da cercania do rio,
onde a esta hora nenhuma nau, olha quem.

Expedição também nenhuma ao Norte,
televisão sim ardendo fria em casas-de-pasto,
alsácias & lorenas, crimeias & jutlândias,
o heroísmo da Bélgica e o aneurisma do senhor Polidoro.

Uma segunda-feira regelada nos canais,
ribeiras sufragadas a gravilha e a betão,
o cão pequeno matizando leve e
a neve alguma em nossos polares corações.

O meu amor trapejando o arame funâmbulo,
Madame Leroux debicando D’Annunzio,
Miss Scarlett Morgan-Carson é que já não,
jamais mais que menos, amareladas, fluviais.

Novembro todo num minuto de novembro,
2008-1918, dá o mesmo, aqui em Pombal
como aí na Flandres, essa folha de zinco
para todas as pedradas de tantas guerras.

Aquela certa coisa pensativa dos pintores
quando bebem entre mortais, nós,
herdeiros mancúspicos e oxolótlicos,
de suas visões movediças na cor, no cão

pequeno matizando a leveza, ou
Viseu, ou o Caramulo, ou Paris,
certa segunda-feira em que me achei
com doze anos completos, olha quem.

Olha, cão.



II

Rombas me nasceram e as deponho,
às armas que bem não sustive antes.
O mais, enquanto sim, foi frequentar restaurantes
quando assalariado, como num sonho.

Tudo se nos passa e sobrepassa:
as arcaicas crestomatias, o antónio-josé-saraiva.
Dies irae me não foram, sequer, dias de raiva,
que tudo se nos sobrepassa e passa.

Pombas, se nasceram, pão lhes ponho.
Ermas, Mãe, terras que não retive diante.
O menos pão, enquanto não, no restaurante,
é muito compensado, Mãe, com medronho.

03/11/2008

Entretenimento o Bastante

Dr Pozzi at Home (1881)

© John Singer Sargent (January 12, 1856 – April 14, 1925)



Em casa (também), Souto, fim da manhã de 3 de Novembro de 2008


Às vezes levo-lhe um homem para que se entretenha.
Não tem muito que saber: o levar, o entreter.
Às vezes as manhãs gelam na ponta dos dedos, dá-se um formigueiro que corusca e fervilha nessas antenas humílimas, algumas vezes garras porém, porém nem sempre, não tem muito que saber.

As cinzas do domingo por toda a casa.
Roupa fresca, ainda assim – e a paciência avoenga de cada móvel assentando os cantos.
Escrevo um homem e levo-lho, ela gosta, pelo menos agradece-me sempre, faz-me chá e uma festa na cabeça, eu volto por outras ruas avessas como versos percebidos da frente para trás.

O organista da capela, o ginecologista afamado, o homem da lenha, o operador de máquinas amarelas – tiro um da cabeça, qualquer um deles ou nenhum deles, posso criar tantos homens quantos quiser.

Bastante é saber para que mulher.

02/11/2008

Adoração da Menina (quadras) seguida de Posse(s) (crónica da semana n'O Ribatejo) e ainda Esta Luz É a minha Derradeira

ADORAÇÃO DA MENINA

QUADRAS PARA AZULEJOS DE TABERNA PORÉM ASSAZ LEGÍVEIS (E ATÉ PRÓPRIOS) EM ESTE QUE AQUELE ANIVERSÁRIO DE VELHINHO/A SARCOFAGADO/A EM LAR DE TERCEIRA (E ÚLTIMA) IDADE



Pombal, manhã de 31 de Outubro
e Casa, Souto, manhã de domingo, 2 de Novembro de 2008




Tonsura-me o coração selénico, anda,
como estes ausentes anos outra coisa não
tens feito. Domingo, ao passar da banda,
hasteia ao frio ar a adoração.

Não me queiras mal, que sou
um alvedrio apenas, um deserdado.
Trago-te tremoços tantos do mercado!
Congosta é toda a via sobre que vou.

Pincha de riso o lábio ortodoxo
da senhora Dália, que é farfalhuda.
O pai dela, Dália, era coxo.
A mãe esbracejava, que era muda.

Reuma, fleuma, flato, mirtilo
e um par de rosas pagãs.
Tudo devidamente pesado a quilo
no fulgor breve das manhãs.

Flecha, folecha, ressalva, estearina
e um par de cravos vermelhos.
Tudo posto de joelhos
em adoração da Menina.

^^^^^^^^^^^^^^

Posse(s)

Tenho um amigo que não vê diferença nenhuma entre os “magalhães” de Sócrates e os electrodomésticos de Valentim Loureiro. Eu também não, não sei porquê.
Tenho um inimigo que não vê diferença alguma entre a minha pessoa e um saco deixado fora do contentor em fim-de-semana prolongado. E eu quase que também não, mas sei porquê.
Tenho uma prima que aos 43-quase-4 anos ainda não se casou. Todos na família a invejamos. Toda a gente sabe porquê.
Tenho uma varanda de onde avisto o mar interior de todos os marinheiros que nunca o foram nem serão. Da minha varanda, vê-se uma pastelaria, meia dúzia de limoeiros raquíticos, o tal contentor do lixo e uma pedreira poeirenta como a Lua.
Tenho um rato na biblioteca que começou pela secção norte-americana da narrativa: home, sweet home, pensará o gajo.
Tenho uma tosse esquisita às seis da manhã, hora a que me levanto para escrever crónicas e versos e números de telefone que nunca me respondem à chamada.
Tenho uma vontade danada de entrar de rompante (e de cavalo branco) nas assembleias municipais (todas elas) e espadeirar aquelas perucas todas com ademanes zorros.
Tenho um exemplar da “Varanda de Pilatos” autografado, em Novembro de 1927, pelo Autor, Vitorino Nemésio. Tenho, tenho.
Tenho vezes em que só me apetece suicidar-me ao contrário: emborcava um bocado do trigo roxo que o tal rato nortamericanizado despreza, esticava o pernil e nascia outra vez, mas para melhor.
Tenho um frigorífico tão pequenino e tão portátil, qu’inté parece um “magalhães” socrático.
Tenho umas pantufas tão puídas, que os pés me parecem fora delas.
Tenho uns sopros no coração que me levam a suspeitar da presença do mar onde, de facto, só a pastelaria, o raquitismo citrino e a desolação selénica.
Tenho práticas sideromantes que se devem todas à minha involuntária vocação para o sopitamento.
Tenho na cabeça milheiros e milheiros de palavras cujo vero significado me é impermeável.
Tenho um pardal na memória e uma memória feita de cinzas voadoras: como um hálito de pedreira.
No fundo, tenho quase nada – porque a tudo pertenço, por enquanto.
^^^^^^^^^^^^

Esta Luz É a minha Derradeira


Pombal, tarde de 31 de Outubro de 2008




Há muita amargura no mundo, metade da qual era, no mínimo, escusada.
Gente que olha o jornal sem ler o que, de facto e aliás, não foi escrito.
Rapazes escurecidos pelo divórcio dos progenitores irrompem a tacos de basebol vidraças de fiats e de corsas.
Gardénias de plástico branquejam moscas.
Noticiários noticiam amarguras felizmente longe, felizmente anestesia.
O dia passa.

Rompe o dia.
Cordas e arames crucificam camisas, abandonadas de corpo secando ao frio do mais recente novembro da História.
Da churrasqueira virada para a praça evola-se o perfume da carnificina: teclados entrecostais do falecido porco, aves esquartejadas como livros, costeletas da mansíssima vaca, o bedum activíssimo do anho mansíssimo.
Há muito perfume no mundo.

Estou sentado entre árvores. Não trouxe pão, não há pombas. Há mulheres carrinhando infantes roliços como bolas de miolo de pão, que olham o céu de dentro da nata, a brisa da respiração aderindo ao gás das nuvens e ao meu lápis.
Eles e as mães povoam os ilhéus onde a amargura espera, entre árvores.

Esta luz é a minha derradeira fortuna, que dissiparei no sábado convexo. As frases olham seu, mais que meu, pântano particular. Vou passar a tarde a ler crimes.
Serei entre móveis (ex-árvores).

01/11/2008

Partida

Em obra na Figueira da Foz, 27 de Outubro de 2008

Casa, Souto, noite de sábado, 1 de Novembro de 2008

É o império das sombras, a casa onde mora o homem que pensa na terra do Norte, lá onde os animais emitem vapor e os lagos pensam devagar na eternidade.

Rondam fantasmas de mulheres na horta-jardim, ao frio, perto da janela sinalizada pelas velas, dentro, onde o homem se norteia em vão.

Há um quadro na parede, uma fotografia de anos menos melancoólicos, mais eternos: dá para as costas do homem sentado no Norte do pensamento.

A chuva não chegou a vir. A tarde apagou-se sozinha como um cigarro esquecido, na cozinha a lenha crepita peixes e pimentos, um pinheiro acena de longe.

Os livros esperam em caixas de papelão. Há um frio subindo pelas pernas, dirigido ao coração, onde outras árvores guincham nortadas. Pássaros diferentes sublinham a negro o Grande Espelho.

Carros de madeira gemem no terreno além-fronteira: chega às vidraças a tosse dos animais de tiro, a silhueta arqueológica do condutor sentida pelos fantasmas de mulheres.

O chá arrefeceu na louça branca, uma das velas chega ao antefim, um livro quer ensiná-lo a partir, o homem fica. Quando a Primavera chegar, a casa terá partido sem ele para o Norte.

Blog a seguir

http://cettemauaisereputation.blogspot.com/

é um blog do

Cão de Deus.

31/10/2008

Rosto, Ressequida Rosa





I
Figueira da Foz, manhã de 27 de Outubro de 2008
(84 anos da Mãe)


Manhã muito cedo passo à beira dos pinhais a cuja beira as senhoras-de-aluguer perdem os nomes para sempre e a virgindade de cada vez.

A solidão é haver gente a mais no mundo, neste mundo – no outro, não faz diferença.

É ornitológica, a solidão do guarda-fios empoleirado no poste: é de alta tensão, dele a solidão.

Símile e símia é do homem do realejo a solidão: tanta gente, um realejo só.

Gregária é a solidão do carniceiro corvo comedor de canídeas carcaças atropeladas.

Costumo ver, tarde muito tarde, as solitárias senhoras-de-aluguer beirando a devassada virgindade dos pinhais. Ao longe, a fábrica papeleira fuma celulose para o mar.



II
Figueira da Foz, manhã e tarde de 29 de Outubro de 2008

Somos pobres, não temos neve.
Temos geada com fartura mas neve não.

O lugar tem uma capela que sobe branca no azul frio da manhã, mas não neve.

Apolos de motorizada e dionísios de bicicleta demandam os ofícios través os campos queimageados fincados no chão pelas estalagmites (ouro e esmeralda) que as laranjeiras são.

Somos pobres, não temos neve.
Temos geada, mas neve não.

Na televisão dizem que neste país só há neve na Estrela e nas amendoeiras em flor, mas, mesmo assim pobres, sabemos que a televisão inventa sítios e fenómenos para sermos felizes acreditando que sim, que florescem as amendoeiras, que uma serra chega a estrela. Mas não.

Somos pobres, não temos neve.
Temos geada, mas neve não.

Postes ambulantes, uiva-nos o vento, lobo transparente.

(Espera!
– diz a cotovia
que nos sonhos fala
mas acordada não.

Espera!
Ainda é a Primavera,
verás não tarda se faz Verão.)

Somos pobres, não temos neve.
Temos geada, mas neve não.

Fomos decerto ricos na infância, essa breve fortuna esbanjada sem pecado nem retorno. Natalícios de tal fugaz eternidade, excursionistas às amendoeiras sem flor nem neve nem estrela nem nada, pois agora

somos neve em pleno Verão.



III
Figueira da Foz, tarde de 29 de Outubro de 2008

Que se passou já,
que vai ’inda passar-se
nestas casas
que nem sonhos meus habitam?

Que mulheres de que homens para que
crianças?

Que estimados animais as correrão
em prisão?

Que sonhos habitarão estas
não minhas casas?



IV
Ibidem

Toca devagar a face esquerda dele,
são mais jovens que tu as tuas mesmas mãos,
não ele.

Habita-o depressa, antes que ele te esqueça.
Antes que dele mesmo se esqueça ele em ti.

Aprenderás à tua custa quão velozes
são hoje as famílias, quão velocíssimos
os casais.

Já não há, aliás, casais, mas
pares.
Nem, aliás, pares, mas
parelhas.

Indivíduos-legos, peças-pessoas,
mecanografias descartáveis
e descartadas
e mecanizadas
e mal agrafadas.

Toca ainda a face dele
(a direita agora)
e despede-te dele
e vira-te
e diz
olá
ao próximo.

E ama ao próximo menos
que a ti mesma,
não sejas parva.



V
Ibidem

Quem te dera uma frivolidade.
Quem te dera abocar o morango químico.
Quem te dera, em lugar de maneiras,
ter ademanes, lenços de pele,
calcanhares não gretados
a partir do coração.

Quem te dera não ter fissuras.
Quem te dera fressuras.
Quem te não dera aquele avô,
estes vizinhos, o telefone verde-
-ranho, quem te dera
a outro corpo, a outra vida.



VI
Ibidem

Dona Julieta de Menezes,
entradota já de idade,
usava sonhar (e sonhava) às vezes
nunca ter dobrado a mocidade.

Sonhava – e era feliz, coitadinha,
Dona Julieta de Menezes.
Um dia, morreu – e, muito sequinha,
foi ter co’s ancestros, todos portugueses.



VII
Alhais (Carriço, Pombal), noite de 29 de Outubro de 2008

Rosto, ressequida rosa,
fluente expositor de vísceras,
mapa do mundo, terra de ninguém
por alguém desterrado habitada,
fonte e foz, tu e ele e nós,
sítio onde a criança jogou às escondidas
e se perdeu,
dela deixando um apenas eu,
a outro qualquer ele igual aliás,
o rapaz,
como nós,
como tu também,
retrato de retrato de rosto de rosto,
romeiro de marias, romeu de romarias,
pano inconsútil e cru,
ázima levedura, bandeira d’amargura,
cartaz para levar sobre o pescoço a casamentos e funerais,
entre cartazes outros mas iguais,
rasto (de resto, resto de rasto) de rasto,
um olho escreve, o outro lê,
juntam-se os dois na boca para cegar de silêncio,
segando palavras
(rosto),
(dobrada a mocidade),
(gretado o coração),
(habitado o outro),
(estimado o animal),
(esbanjada a infância),
(limitado-o-tempo),
(devassada a virgindade),

rosto, ressequida rosa.

30/10/2008

Recorte-e-Colagem de fragmentos de PREFÁCIO QUANTO POSSÍVEL, de Mécia de Sena, à 2ª edição revista de 40 ANOS DE SERVIDÃO, de Jorge de Sena


Pombal, tarde de 28 Outubro de 2008





Soube-me sempre a destino a minha vida
toda uma vida agora encerrada.
O tempo-limite mais tardio
a data-ano a que o tempo se
expressamente referisse se
igualmente verificasse.
Foi preciosa durante anos
a dificuldade de
praticamente
todos os poemas.
Dentro postos os tempos:
a selecção final,
a servidão:
súmula solícita.
Particular adolescência grata e cruel:
inicialmente.
Completo corpus:
metodicamente,
inevitavelmente.
Transatlântica, longa:
a produção:
anos de perseguição:
ordenação dela.
Meninos,
armas e
bagagens.
Após dificuldades, pareceu-nos
que deveríamos seguir, mesmo
excluindo indicações existentes.

Vastíssima vida, agora
respectiva.

26/10/2008

Três Peças para Montra

Fotografia: © Sandra Bernardo (Coimbra, 21 de Outubro de 2008)





Tábua

I. Soneto Contador
Buarcos, Figueira da Foz, manhã de 21 de Outubro de 2008

II. Poema (com Vento) para Logo
Buarcos, Figueira da Foz, tarde de 21 de Outubro de 2008

III. Instantâneos de Cidade com Rio, a Minha
Fonte Nova, Pombal, manhã de 26 de Outubro de 2008






I. Soneto Contador
Buarcos, Figueira da Foz, manhã de 21 de Outubro de 2008

Passados vivo já dias futuros,
o muito já vivido pouco conta.
Há noites derramadas, dias duros
e é sempre à Lua que o Sol aponta.

E se ora me toma o sono doce,
se m’adentra um domingo sempiterno,
então sonho com quem aqui me trouxe
e com quem de mim veio no inverno.

Por vezes não se vê a lua tal
a que um tal sol aponta apontador.
Há vozes no silêncio visceral
(e nozes ao fundo do corredor).

Futuros vivo já dias passados:
me contam que eu não conto, contador.



II. Poema (com Vento) para Logo
Buarcos, Figueira da Foz, tarde de 21 de Outubro de 2008

Encrespa o vento a água dos olhos
na tarde que o mar vaza por noite.
Céu de sobrolho carregado.
Chicoteadas árvores: nenhum pássaro
à vista: nenhuma terra anunciada,
pois.

A beirais se recolhem os pobres homens,
as mulheres pobres, os magérrimos cães
soletradores da escrita dos caminhos.
Longe, um eucaliptal recolhe azul
à cripta diagonal, vem do mar crescendo
um borrão de irado Pintor, de crespo
deus intemperioso.

Agora não estou a pensar.
A uma janela alta, recorto dos olhos
o escorrimento não voluntário.

Gosto da selvajaria eólica, sempre gostei.
Atendi o telefone, mordi uma fatia de pão,
desejei o mar na antecipação de nunca
(mais) embarcar.

Encrespa o vento etc.
Logo vou ao bar.



III. Instantâneos de Cidade com Rio, a Minha
Fonte Nova, Pombal, manhã de 26 de Outubro de 2008

Os cantores vão a pé pela beira-rio.
Salgueiros pranteiam jacintos-de-água.
Cacos de tijolo etruscam o chão dos hojes.
Crianças ciganas vão ao peixe à toca e às lampreias.

Grandes mulheres lavam de branco roupa de cama.
Senhoras pasmam tais periquitos a janelas.
Rostos alguns rosáceas semelham: trabalhadas pedras.
Algumas casas são cabeças de navios na procela aterrada.

Ingerem açúcares líquidos as andorinhas e os ciclistas.
A minha cidade é portuguesa até de costas.
As pessoas são ambulatórias unidades de queimados.
No carrinho, o bebé floresce de sono.

Maçãs avermelham a banca, glóbulos de polpa.
Uma cascata de cabelo desce a mulher até às ancas.
Os dançarinos desempregados na paragem do autocarro.
Uma pensão empobrece o escritor sem casa.

Num livro, a clarividente cegueira grega das estátuas.
O bronze de pensar, a lata da vida.
Sacas de serapilheira demolham tremoços no leito.
Leitor de jornais com suspensórios compra pão.

Guitarristas e bombeiros ginjam cedo na Irene.
Mulata-se de fria sombra já a manhã.
Rapaz de cabeça quadrada desenha comboios (um fio de baba).
A montante, um naufrágio de laranjeiras.

Mulher assassina um galo para canja de arroz.
Um cão trota, inconsciente feliz da vida.
Periquitam as damas janelares, nádegas contra os retratos.
Um bule de chá branco com cromo inglês azul.

Queijos e presuntos cheiram-se mutuamente como cães.
Mastins mastigam ossos de borracha em pátios de cimento.
As mamas das mulheres instigam a lactofagia.
Púbis tarantulam venenosas comichões.

À porta da farmácia, a santinha drogada.
Polícias levitam como melros de caqui.
De navalha, o barbeiro sonha pescoços.
De borracha, mastins mastigam ossos.

As estradas de saída: infindas caligrafias.
Ponte de pau, rápida sombra na corrente (nossa vida).
Alto, o mosteiro crivado de oxiúros fradescos.
Uma profusão de bolos entre máquinas do frio.

Gerânios cancerígenos e olhares entristecidos.
Bocas onde a febre arde, palavrosa.
Palavra e rosa – e azeitona e pez.
Um adejar de membranas no amante.

Diamante com pedra lunar no mostrador.
Um padre-cruz em argila todo cagado das moscas.
Calções de pano cru na montra ao lado.
Secretas auto-sevícias das mulheres-polícias.

Homem com menino ao colo: dois gigantes.
Cinquentona em calças de ganga: ânfora anacrónica.
Maná de farinha na padaria calorífera.
Prótese dentária rindo-se sozinha como os loucos.

(E antigamente, o meu Pai muito jovem por aqui.
E este rio onde a minha Mãe caiou lençóis.
E eu, que só queria uma maçã vermelha.
Nisto, consciente, infeliz da vida, o cão pára.)

Nos Olhos

A caminho da Figueira da Foz, manhã muito cedo, 21 de Outubro de 2008



Éclogas e mercearias concorrem para o sustento do meu corpo na terra.
Manhãs e noites muito se fundem, azuis onde era de ser brancas, azuis onde era de ser negras.
Os primeiros mortos do dia e os últimos bebedores da noite encontram-se perto do porto de pesca, trocam pastorícias, vêem-se nos olhos.
Os animais rocinam a amargura gelada da erva, emitem bolhas à pele da água.
Um cedro labareda-se todo como uma árvore-de-natal sem crianças.
Roupa estendida recorda os enforcados: todos os enforcados de todos os tempos.
Um pássaro põe-se a apitar como um padeiro apressado.
Estou acordado na contramão do vento, as mãos dadas à estatuária da neve, sinto o rachar da tinta nas paredes das casas, na pele dos rostos das pessoas.
Preciso de um café, entro no salão,
vejo-os nos olhos.

20/10/2008

Crónica e Poema

A crónica (Fruto) é a nº 73 da série Rosário Breve (n’ O Ribatejo, www.oribatejo.pt).
O poema é, enfim, o que é.


FRUTO

Quando o dia se acaba todo em noite, tenho por (recente) hábito assistir à epifania lunar das árvores de fruto. Explico-me: elas (as macieiras, as figueiras, as mulheres, as laranjeiras, os pessegueiros) alunam os crepúsculos de uma espécie de gaze mental que só pode resultar ou de maravilha da natura ou de pancada da neura.
Ainda hoje. Subia a pé uma ladeira quase tão íngreme quanto a memória. Levava comigo um saco com pão, maçãs e cavacos de lenha. À minha esquerda, numa eira, uma mulher recolhia roupa do arame. Aos pés dela, ardia de febre ou de ouro uma fileira de abóboras que cheiravam a amarelo forte. À esquerda dela, uma nespereira vigorava como um fantasma benigno. Era de folhas negras, que a noite tombada de fresco prateava, lá está, de um luar de epifania. Entrei no café mais rural do mundo, assentei a carcaça numa cadeira de plástico e mandei de vir de beber. Bebi. Vieram buscar-me passado um tempo, deram-me de comer, vim aqui contar-vos isto – e sei que, lá fora, a instalação da noite ainda não cedeu aos vagidos do novo dia.
Era para vos ter escrito certas coisas que penso quando, nos cafés rurais, o televisor segrega a baba da idiotização do povo. Não vale a pena. Prefiro dizer-vos da insensatez (minha) de pasmar perante as árvores, verdadeiras forjadoras das noites. Nada adianta ao mundo, mas também o não diminui, espero.
Crise económica, aquecimento global, gangs e bang-bangs – nada me interessam. Nem já suicídios de adolescentes que perceberam a (a)tempo que nunca haveriam de ser as catarinas-bárbaras-furta-marães do futuro breve. Nem a insolência da corrupção. Nem zamericanos. Nem os senhores padres activistas de uma espécie de bloco-de-esquerda de altar. Nada.
Interessa-me ganhar a vida. Interessa-me não perder a vida. E é quando a minha vida, por uma noite, se acaba em epifanias lunares que chego a ousar a esperança de o novo dia me fazer dar fruto como uma árvore, pão e lenha à parte.



******


UMA POUCA DE NOITE

Casa, Souto, Pombal, noite de 19 de Outubro de 2008



(1)

ENDURECIMENTO, NOVEMBRO E ALHEAMENTO




Então, a luz endurece e estatela-se no céu já nocturno
e estatelando-se se estrela de esmigalhados astros, um
que outro jacto alto luzindo as invejáveis viagens para sempre
nos alheias.

Em baixo, vulgares carros rumam cegos como carrosséis.
Acabado quase, o domingo os obriga ao retorno a frias
garagens onde, tais igrejas sem imagens, dormirão
como frios cavalos sem memória de pastagens.

Sem uma mulher em casa, pode ser mais difícil.
Bem mais precário pode ser, sem um homem em casa.
Nem perto, a um canto dourado e respiratório, uma criança
exerça a qualidade mediúnica do seu sono premonitório.

Com o rolar de outubro para a valeta de alumínio de novembro,
as albas são mais duras, emaranha-se nos pinheiros a noite,
ciosa da nova hora e do despertar dos homens, das mulheres,
das crianças para sempre lhe alheias.



(2)

AB OVO



Hemos nascido: quanto bastou foi para infantes termos sido.
Alguns, felizes de feliz infância: hoje nada, tudo porém outrora,
esse nascer em um pobre país assim ainda dotador de ricas
infâncias como ovos de si mesmo cheias.



(3)

ANDORINHAS




Andorinhas: de si mesmas andores e santinhas.



(4)

RAPARIGA RINDO




Da rapariga que ao ar cristal torna rindo, guardo para vós
a perfeita dentição, que cotejar apenas posso a gargantilha
de nácar à boca subida para enfeite e tesouro do rosto
e do riso.



(5)

SONHADORES CAPAZES SEJAMOS




Agora vamo-nos deitar ao mar
do sono.
Cada um de nós de sua casa-rocha,
agora se vai deitar.
De horizontais falésias sejamos sonhadores capazes,
de verticais andorinhas riscados.
A espuma nos poalhe de branda nata branca
os corações mumificados pelo abandono
do sono,
diária morte nocturna
a nós deitada.

18/10/2008

SEIS FOLHAS DE LIVRO D’OBRA PARA UMA CONSTRUÇÃO CIVIL DO ENTE



























Fotografias: 13, 15 e 17 de Outubro de 2008




I. QUASE MADRIGAL


Pombal, “Ripa” Café, noite de 15 de Outubro de 2008



Imersos em nevoeiro, esse mar-alto à terra subido, os magnos pinheiros magros sentinelam de costas o nada que (de) fronte os vê. Acorda-se às seis da manhã para nada: para isto: prestar (ou ser) assistência desta gente de madeira imersa em nevoeiro como ela (como eles) negra.
Não está muito frio. Abriram já as padarias-cafés que à ruralidade resgatam a imitação metropolita. Entramos para tomar um café, ter um maço de tabaco para o dia (a obra), contar os minutos até quase as oito.
Chegamos. Os materiais ainda dormem, frigidíssimos: despertamos do frio o ferro e a pedra com o fogo gelado das nossas mãos. Tudo deles nos oferece uma substância onomástica e anónima e colectiva: tintas, trinchas, andaimes (andores), escovas, espátulas, josés, manuéis.
Pago em trabalho (não em ofício) o esquecimento dos pinheiros névoos.
Às onze, o sol abre-se como rosa térmica que é. Uma hora antes, comemos a bucha sentados em baldes fechados, em caixas de mosaicos, descansámos dez minutos, talvez menos.
Agora, ao meio-dia, os pinheiros reverberam como verticais braços marinhos. Um corvo moço telegrafa pedidos indecifráveis. Dois grandes, sabedores da cifra, acorrem e levam-no.
Almoçamos na obra (sentados nos mosaicos hieróglifos): sardinhas em lata, rabos de peixe-ruivo, carne guisada, pão, água: tudo frio, em marmitas de folha e embalagens de plástico glauco. Comemos depressa: gastamos dez minutos a ir e vir, pelo pinhal, a tomar a bica. No café, suportamos o ladrar fiduciário do telejornal. Folheio um diário irrepreensivelmente imbecil. Pulsam-me os pés (as mãos, não.)
Agora são as cinco da tarde, como julgo ter lido algures (mas não importa). As moscas ladraram-nos toda a tarde aos ouvidos e no nariz e nas bocas já cediças de fadiga.
Pouquíssimo antes das seis, lavamos as ferramentas, passamos mãos, antebraços e caras pela água da mangueira grande (serpente verde que dorme em água-terra), partimos, amanhã será outro
ontem.



*



II. OITO POEMAS PARA QUEM


Ibidem



1

O que dormem a esta hora os homens que conheço
sós?
A sós em suas multidões povoadas de sonhos – ou
disto o contrário: deles os sonhos de povoadas multidões – e
de horas como
esta.

2

Dobram os sinos
os corações:
aritmética nenhuma
da dúvida toda.

3

Estrela: breve brilho eterno.

4

Planeio incursões dominicais aos
domínios herdados das publicações.
Aos outros dias não posso, que trabalho tenho
e não incorro: outras obras
me chamam.

5

Terra de cedências e de peixes,
terra de cervejas e de cofragens,
terra de padeiros e de numismatas,
terra de catálogos e de liquidações.

Mar de anuências e de pássaros,
mar de igrejas e de imagens,
mar de derradeiros e de plutocratas,
mar de decálogos e de ramificações.

Água de ausências e de gatos,
água de narcejas e de clivagens,
água de aguadeiros e de vulgatas,
água de análogos e de tremulações.

Fogo de peixes,
fogo de pássaros
(narcejas, mar sejas),
fogo de gatos.

6

Troco a minha vida pelo meu esquecimento.

(Todos o fazemos.)

(Quem?)

7

Gastamos
(quem?)
uma descomunal quantidade de luz
para produzir uma única sombra.

8

Já sorrimos
(nós todos? mas quem?)
em salas povoadas da ausência dos futuros.

Havia gatos de porcelana,
pratos de fruta de barro pintado,
um galo dourava no forno o próprio cadáver,
um limoeiro perfumava o pátio
de uma sabedoria de quarta classe,
perto a igreja rondava suspeitosa
como um polícia vestido de cal,
havia as coisas que são de haver,
enquanto o livro de obra não é só de
dever.

Já mansamente chorámos
(quem?: nós)
em penumbras aluídas de esvaídas ermas casas.
Havia essas eternidades viúvas chamadas
tias,
ginecologias que restolhavam como
trigo ou pergaminhos
no quarto o avô morto ressonava cera,
o limoeiro pàtiava a qualidade citrina do ouro
em decote de moça,
o polícia orava a missa da
proibição,

enquanto o livro não havia nem
nos tanto devia,
mas a nós que
m.



*



III. CASAS ERMAS


Entre o Louriçal e a Figueira da Foz, manhã muito cedo de 16 de Outubro de 2008


Casas mais ermas que planícies.
Como planícies, antigas.
Antigas e devastadas casas ermas.

Deram já sentido aos caminhos.
Agora aumentam deles o desvario.
O desvario, o ínvio deles aumentam.

Beiram a desistência agora, outrora
não: eram vivas, nelas ardiam lume
e pessoas e animais e frutos.

Redutos publicamente furtivos, agora:
como os retratos dentro delas ’inda:
que olham para dentro adentro elas.

Sítios terríveis, terrosos, intocáveis.



*



IV. ESQUECIMENTO


Figueira da Foz, manhã de 17 de Outubro de 2008


Pensei na minha vida como barco.
Esqueci-me de pensar no mar.



*



V. DENTE


Matos da Vila, Louriçal, entardenoitecer de 17 de Outubro de 2008



Tenho-o agora na mão:
inofensivo, finalmente,
o sacana do dente.
Arranquei-mo eu mesmo,
juro pelo mais sagradinho.
De um vizinho,
o alicate trincou por minha mão
quem me mordia noite e dia
– e sem qualquer anestesia.
Morreu, incisivamente, o cão
do canino.
Ente do dente doente: era destino.



*



VI. CASA NÃO ERMA


Casa, Souto, Pombal, manhã de 18 de Outubro de 2008



A mulher saiu a buscar pão, tabaco, feijão, vinho.
Esperamo-la em casa os móveis, as várias aparelhagens que num único rumor imitam e continuam o interior da terra, as gatas que bibelotam esfíngicas, eu que escrevo para não ler nem viver.
No lar, arde o coração da casa, isto é: o fogo que reinstala a metáfora mais que perfeita da vida, isto é: do juvenil arroubo das chamas primeiras à madurez dormente do brasido – até ao encanecer das cinzas.
Na cozinha, o queijo caia-se a si mesmo; maquilhada de colorau, fulge a jóia grená do presunto; o pão lembra-nos que houve ontem, talvez amanhã também – ou ainda.

04/10/2008

CONTAGENS PARA UMA ANATOMIA AINDA RESIDENTE – (e)numerações

Viseu, tardes de 2 e de 3 de Outubro de 2008


(Tenho 44 anos.
Continuo a contar.)

*

(A minha pessoa não conta.
O meu tempo, sim.)

*

Feridas por todo o corpo: larvas
e palavras.

*

Há uma etnografia no coração,
um folclore oleiro nas mãos,
a infância picada de nervos nas plantas dos pés,
o manso boi na água dos olhos,
o figo nas tetas das mulheres,
a seda que o prepúcio sela de seiva na glande,
a flor do cuspo e a da delicadeza,
a bondade hidráulica do baço,
o fígado todo grená como um beijo coagulado,
a porcelana das unhas,
a óssea meia-lua das unhas,
diferença, aflição e agonia das tripas
(por onde começar a morrer),
o, mais que meu, eu-corpo.

E nenhuma alma e nenhuma salvação.

*

Mais bem quis e quero amar-te, ó vénus
doméstica minha, entre linhas e agulhas
cirandando, toda, como é de mulher
próprio, atenta ao labiríntico rumor da
casa.
Bem andou quem Vénus chamou a um planeta,
que planetária é toda a mulher – e toda urbe
e orbe toda.
Sideralmente amar eu quis e quero, daí.

*

O peixe grande que ora assa no parque,
entre árvores e volitivos gatos, oferece em
carbónico perfume do esplendor da sua
natação.
Fixa comigo o que importa, tudo o que
importa: o parque todo, um rio perto,
o sol fervilhando de aves lentas
(enumeradoras da inumerável máquina de crepúsculos),
esse alguém que nos ofereceu este peixe
e este lume e este entardenoitecer
sem remissão nem amargura nem amanhã.

*

Neste instante me guardo.
Componho.
Penso na palavra linho,
que de tão bonita me parece o masculino de
linha:
verso também,
portanto.

Neste instante quase me salvo.
Agora não é tão preciso morrer,
grato, caduco e cadente, a exemplo
das folhas que das árvores sobem
ao chão,
como eu,
se não compuser.

Componho? Mais recolho do que componho.
Tudo em torno fraseia:

o mendigo cuja melancolia é uma vinha de nervos,
as telenovelas barbitúricas para velhinhos de asilo,
o largo castanheiro que apetece abraçar,
os nomes que no campo-santo individualizam o esquecimento,
as portas de vidro onde o nosso rosto nos olha,
o monossílabo cego de uma união carnal,
a iluminura perfeita do ferreiro em sua forja,
o chilrear das viúvas ante o bule de chá,
os escritos sem palavras nas janelas para arrendamento,
a palavra linho e a palavra linha,
a macrocefalia escaravelha do motociclista,
os cães passeando homens ao anoitecer,
a desmesurada tristeza dos fins de festa,
a rapariga vestida de verde(e) lendo Graham Greene,
o figo de uma teta coroado a roxo por baixo,
o promontório que todo o cavalo é,
uma praia determinada noutro ano qualquer,
as rodas dos carros sublinhando as mãos dos bois,
o azul milenar do gelo do Norte,
o coração a sul de toda a melancolia,
a idade dos que amamos volvendo-se madeira,
o caudal de cometas fogueteando a seda da noite,
um poeta na taberna como um bicho-da-sede,
os instantes de guarda,
os frangos expostos e nus como cicciolinas,
os rapazes de cabelo que arde ao sol antes do futuro,
o futuro portátil de toda a criança,
o outro mendigo, afagador de cães e de portas de vidro,
a babilónia aromática dos mercados,
o salitre do idioma dando à costa na boca,
a cotovia castanha dos olhos da nossa Mãe,
o fulgor paratlético dos bêbados cantores,
o azeite que pavia a escuridão,
o teor ambulatório da condição
(qualquer condição),
o imperialismo francês jardinando palacetes,
o olhar abolidor de passaportes,
a gnosia como derradeiro livre-trânsito para a vida,
os cinquenta e quatro quilos de uma adolescente mais leve do que o ar,
a terra vista do espaço e o espaço visto da terra
(as portas de vidro, as portas de vidro),
o milagre de uma palavra justa sob a figueira,
o fadista reumático cheio de ciúmes e coisital,
a prece íntima perante um rio perto,
o perfume de um peixe e do gesto que no-lo deu,
uma galinha cozendo devagar em panela de ferro,
a lenha que a torna molusco e da família,
um bosque crivado de retratos num sonho,
o sonho de uma rainha pobre toda a vida costureira,
o ramalhar dos álamos de cartão no teatro,
a jóia de um cuspo à flor da água,
a lotaria orgânica dos cancros nas melhores famílias,
os bailes d’antigamente, em que o pasodoble e a ginja,
a portugalidade profunda das casas fechadas,
as grisalhas enxameando salões de coiffeur,
os partidos políticos e a visceral filhadaputice do género humano,
os romances de Henry James,
um sino tornando bronze o coração a quem o ouve,
a tardinha chiando doçura nos ossos do lavrador,
os avós clonando amor de amor nos netos,
o florilégio das procissões cheirando à falta de Deus,
como que se (de)volve musselina: a mulher saciada,
as costas do nadador olímpico golfinhando azuis e tejos,
aquelas cornetas compridas dos filmes bíblicos,
o Charlton Heston e a National Rifle Society
e os dez mandamentos e a merda,
a renda vegetal do Japão a amanhecer em névoa,
Wenceslau de Moraes lá, entre rendas,
os desastres de viação cutelando famílias,
os anos roçando-nos como a mato,
os ofícios, os tios, o pequeno comércio, as pontes,
o meu amor inteiriço e mole qual coágulo,
a cona das bebés fendendo a rosa,
qualquer rosa: simultânea pimba e écloga,
a promessa feita ferro na honra da palavra,
o embuste, o sortilégio, a mesa de tríplice pé-de-galo,
a Nicole Kidman lendo Greene, de verde(e),
a fonética ortoépia de David Coverdale,
a argúcia instintiva dos pássaros,
a gordura pré-republicana do último Rei, o Caçador Caçado,
o lhano boletim da morte do Irmão
(também morrerás, sossega, garantia o telegrama),
não nos adoecer o amor quando adoece quem amamos,
o nosso corpo: casa preliminar tanto de morte quanto de vida,
a estirpe bacteriológica do destino,
a cárie azul das fadistas,
as danças tristíssimas no mar-alto dos cruzeiros
(quase todos com muito dinheiro, muito cancerígenos),
o afã rumoroso dos vendedores de bananas,
a tessitura hemogramática dos ramos das árvores,
a árvore pulmonar na brisa do arfar
(pode ser do amar),
saber agora mesmo que morreu o Dinis Machado:
viva o Dinis Machado!, viva o rapaz!,
viva Mister DeLuxe!, viva Austin!,
viva Dinis Machado, viva!,
revivam também a deambulação predatória de António Botto,
a vulva métrica da Florbela Espanca
e a íris de Osíris no lótus do escaravelho
(cabeça-de-boi-cabeça-de-falcão-cão)
e Akhenaton, o apóstata de Amon,
seu longilíneo pescoço de tuberculoso,
seu crocodilo dândi dando o rabo ao sol,
lunar assunto hoje-muit’-em-dia de bares-gay,
viração do vento e luar prateando pessegueiros,
famélicos actores agindo revoadas,
facturas e divórcios azulando rodapés de casas,
e a vitrificada ternura autómata,
ouvindo sinos no bronze do coração,

neste instante que me guarda de toda a salvação.

03/10/2008

Crónica e Fotolegenda para O Ribatejo


A partir desta semana, n' O Ribatejo (www.oribatejo.pt), à crónica junta-se uma fotolegenda, em colaboração com a fotógrafa Sandra Bernardo. O título genérico das fotolegendas é Olhos Vivos. Aqui fica a primeira da série, seguida da crónica nº 71 da série Rosário Breve.
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Olhos Vivos – 1

Fotografia: Sandra Bernardo
Legenda: Daniel Abrunheiro

CONTAS À VIDA

Em um instante de inexpugnável perenidade, eis-nos ante um mortal que, pela mão afundada no peito têxtil, deita contas à vida a partir de um olhar que mais parece um ábaco do que a líquida soma de um par de olhos. Na rua portuguesa, toda a efemeridade é apátrida. Esta (a deste homem) também, mas um pouco menos, afinal de (ou feitas as) contas, do que aquela que nenhuma fotografia resgata ao resto zero da passagem.

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Rosário Breve nº 71



Fala o Comovido

A maturidade está a tornar-me lingrinhas.
Tudo me comove, mil raios me partam. Juro. Tudo me enternece. E não, nem é de criancinhas loirinhas como as espigas do trigo que estou a falar. É pior. Por exemplo: a velhacaria. A velhacaria comove-me. Como a Pátria está cheia dela, suspeito que os meus últimos anos vão ser mui lacrimejados. Hei-de proporcionar um triste espectáculo, receio bem que hei-de. Estais-me a ver: um tardio quarentão com lágrimas octogenárias perlando de cristal as dioptrias. Triste.
A roubalheira também me derrete todo. E como a Pátria etc. de roubalheiras, estais-me a ver fungando a toda a hora a gota-de-figo dos ranhosos perpétuos. Isto não vai ser alegre. Penso que é da deformação profissional. Durante alguns anos, pertenci a uma classe que, precisamente por ter perdido a classe, se extinguiu. Fui jornalista. Agora sou só cronista, que é um estatuto que advém a uma pessoa quando desiste. Eu desisti. O meu trabalho agora é enternecer-me em crónica numa comoção de última página (mas a cores, vá lá).
Também as figuras por assim dizer icónicas se me transplantaram. A Dama das Camélias e a Rosa do Adro já não me condenam ao pranto. Prefiro-lhes a Eduarda Maio e a Fernanda Câncio. Bernardim Ribeiro, João Roiz de Castelo-Branco? Nada. Nem bucolismo, nem palacianismo. Mais cativa formosura triste me pinga coração adentro um Mário Lino, um Miguel Portas. Em vão recorro aos víveres mentais que há trinta anos enceleiro para nada: Beckett, Nemésio, Sena, Bradbury? Qual quê. A melancolia está toda na pança oleaginosa do Herman, no lustral desentendimento metafísico daquele rapaz que faz “livros”, o Zé Luís, no inequívoco assombro quando chove dos presidentes de câmara-tv, na artificiosa gaguez dos noticiários da TSF. Isso sim, é que é movente e comovente.
De modo que isto me anda assim. A manquejar para velho com nervosas vísceras de passarinho anacrónico. Desconfio que é por ser tão portuguesa a minha condição. Já tentei ser espanhol, mas não consigo jogar hóquei-em-patins nem planificar o futuro.
Não, nem rosas nem camélias.


Duas Manhãs

© Sandra Bernardo (Sé de Viseu, pormenor I)



I

Viseu, manhã e tarde de 8 de Agosto de 2008


Esta manhã acordei de golpe na Noruega.
Não tive de abrir os olhos para identificar a fraude, uma mais no somatório da minha vida.
A fraude e a febre com que as palavras sitiam a minha vida, substituindo-se às sensações: acordar na Noruega ou estar vivo ainda.
Depois (ou antes, ou durante) os cavalos irromperam pela cidade – e não era já a cidade, mas um campo esmagado pela neve, uma neve infinita e negra e apunhalada de abetos, ao longe o olho cego de um lago.
Da rua, chegava música eclesiástica.
Papagaios, como jóias vivas, janelavam o íntimo horror do exílio.
Senti o cheiro a roupa quente que provinha do quarto onde a minha mulher passava a ferro.
Pus-me a ser balbuciado por palavras:
catálogo, comboio, península, arrumador, faia, balde, evangelho, roupa, catálogo outra vez, cavalo, decisão, moeda, frasco.
Deixei-me estar um pouco, aceitando a Noruega como uma criança admite uma festa na cabeça.
A mulher rondou entretanto (entre tão pouco) as outras divisões da casa, então o perfume do café mudou o da roupa, que encontrei pronta e pessoal sobre a cama ao voltar do chuveiro.
Ia pensando na costa marítima, em grandes barcos dividindo o horizonte, sombras horizontais na luz perpendicular, em ramalhetes eléctricos de estrelas de outro estio, que não viverei.
Se pude sentir o frio milenar dos icebergues sob o chuveiro quase a ferver, foi porque, por assim dizer, posso glaciar as fraudes: as palavras que me as instituíram em vida.
Molhei bolachas de centeio no café, restaurei a temperatura do sangue à janela, a que tomei fundos haustos do ar estremecido pela chuva em breve. Ainda não eram as oito da manhã, a mulher pagou-me uma bica no café do centro histórico, perto da estátua toda verde de um rei qualquer e norueguês.



II

Viseu ,tarde de 12 de Setembro de 2008


De manhã caiu-nos uma chuva de caranguejos mínimos.
Infiltraram-se por todo o lado babujando tempo, tempo, tempo.
E o tempo pôs-se a andar para trás como é próprio dele e deles.
Os cigarros cresciam-me na mão.
Os pêlos da cara recrudesciam-me para dentro.
Olhares mudaram de cor e de década.
Estátuas mexeram-se.
Sorriram, tarjados a negro embora, os rostos policopiados da necrologia dos jornais.
As mais velhas pombas enrolaram-se antes do retorno ao ovo.
Casados há quarenta anos, um homem e uma mulher beijaram-se as bocas sem ser por festa.
Os caranguejitos tomaram o bolor das paredes, a pátina das vidraças, sugaram dos olhos das velhas as cataratas da cegueira, reescreveram a baba perdida dos passos e dos paços, treparam as casas brancas que nos largos amparam a História e a Agonia.

E de manhã começa o dia.

02/10/2008

Dez Poemas de Pobre Amor a Portugal


© Josef Koudelka (Portugal, 1976)




Viseu, fim da manhã e entardenoitecer de 1 de Outubro de 2008



1

Era de manhã
um cálice de aguardente que fez e um figo que passou,
artesão de frutos que destila e embalsama.
Homem da cama erguido antes das galinhas,
descido à adega a confirmar o sono perfumado das maçãs
e do cavalo e da vaca.

De lado, como se céu não houvera, instaura-se
o azulejo da alba: repetido espanto,
contadora luminotecnia de quanto falta
para morrer, para ter nascido.

Na cozinha negra, em cima, bule já a mulher:
um ser de fumo que o fogo domina.

Esta é uma história de amor e conjunta solidão
portuguesa.



2

Entre árvores somos
um homem como elas antigo e rumoroso
– ou um cavalo que delas pasta a sombra feita erva verde
– ou alguma criança que nelas lê o último código:
que como elas arderá,
a criança,
em cavalo primeiro,
em antigo homem último
depois.



3

E quanta falta de morrer
e quanta de ter nascido.



4

Sem mulher embora, vivi já no campo,
onde integrei os venenos benignos da terra:
o azeite que mais ilumina quão mais negro,
os laranjais estabelecendo ourivesarias,
o paganismo dos magros cães que o vento açula,
os magros ribeiros engordando o tomate e o gado,
a cegueira táctil dos pinheiros pejados de larvas,
as minhas botas de cavador que nunca cavou.

E as noites iguais ao azeite, mais claras quão mais negras.



5

O local de enco(u)tro
é o amor.



6

Como a floração de pepitas de sal na boca:
clarões de lucidez,
gustativa afinal.



7

Estou sentado a uma mesa de ferro
sobre pedras assente.
Levanto-me, vejo um gato,
remexo as folhas do outono com as mãos
de baixo: as que fechei em botas,
como no ferro me fecho,
sentado.



8

(Pai:)

à chegada do estio de 1978
(abstracção de abstracção: ano e verão: e ter pai),
fomos felizes uma noite
ceando sem pressa.
No pátio ardia de sã febre
a mocidade do pessegueiro.

Não voltaremos trinta anos, nem um ao outro.



9

Era numa aldeia da Beira Alta, tinha-se casado a minha Irmã.
Lembro-me das maçãs e da saúde do frio.
Abriram na terra uma estrada, que de terra ficou.
Recordo o padre a ladrar na igreja contra o 25dabril.
Houve um par de olhos azuis que usava o rosto de uma menina da minha idade para dançar no rancho.
Os burros trabalhavam como homens – e eram, todos eles (soube-o depois), o Platero de Juan Ramón Jiménez.
Depois, tornei-me igual aos homens que trabalhavam a terra e a estrada e a terra – e burro.



10

Neste meu pobre amor a Portugal
entram milionárias coisas como:

o céu lápis-lazúli da Figueira da Foz,
o milho inteiro nas eiras noites inteiras,
o passar do pitrolino na infância,
a muito provável senectude de amanhã, o mar vendo,
as mulheres ainda rolas e peitorais e bosquímanas,
a tabuleta a dizer que há telefone na aldeia,
o celibato essencial da vaca que dá o leite como a fonte dá água,
o rumor dos carros de madeira,
os homens também de madeira junto aos bois,
a inclinação pensativa das dunas,
os largos olhos-de-água dos arrozais,
o mar querendo-vindo-querendo-vindo conhecer a nossa terra,
os relatos iconográficos das santinhas que nunca – oh nunca! – foderam
senão a nossa paciência e o nosso azeite e as nossas caixas-de-esmolas
e os nossos casamentos celebrados à imitação
do mais popular canal de televisão,
as estátuas deste e daquele
quando afinal, ó meu Portugal,
Jorge de Sena e Aristides de Sousa Mendes
e o João Roiz de Castelo-Branco e a Luiza Jorge,
o paul de Arzila e a planura de Minde,
os homens que na rua param um pouco
para ser candeeiros antes do retorno
às casas em que se apagam,
as mulheres que refilam hortaliças e filhos
o dia todo antes do retorno
às casas em que se apagam,
os pescadores fumando sem-filtros sozinhos
no mar colectivo,
a ferida abrasiva da cal quando tudo se nos alenteja,
explicarmos a um inglês ou a um americano onde é Helsínquia
e o que é uma horta e Ruy Belo
e António Osório
(e Jorge de Sena e João Roiz de Castelo-Branco),
este bastar-nos uma piscina para oceanarmos Descobrimentos,
mas não só,
não só ainda que tão sós,
tão cus-de-judas,
tão emprestada ibiza sem marbella nem maravilha,

neste meu amor a Portugal
entra a ruiva fadiga do amanhã,
a nunca vista perdiz que D. Carlos I e Último,
mas o tão famoso Tejo e o pouco reconhecido Douro,
que Mondego é nome de cão.

Penso nos oleiros, eles fazem música com o barro
e eu em Portugal
estou em casa.

Canzoada Assaltante