quinta-feira, junho 02, 2011

Rosário Breve n.º 209 - in O RIBATEJO de 2de Junho de 2011 - www.oribatejo.pt


Vejam bem

Aos 47 anos, não era para admirar: a minha optometrista demonstrou-me que os meus olhos padecem de hipermetropia e presbiopia. O olho esquerdo acumula estas moléstias com um assinalável véu astigmático. Quer dizer que troquei os óculos de leitura por umas cangalhas de lentes progressivas para o resto da vida. Sou, portanto, hipermétrope, presbita e astigmata. Paciência: a idade e as fadigas deram-me as duvidosas mas indubitáveis prendas do “olho curto”, da ovalação da córnea e da formação de imagens atrás da retina.
Quero porém deixar claramente expresso, sem pretender dar nas vistas, que nada disto me impede de ver com toda a nitidez que Sócrates nunca prestou nem presta, que Passos Coelho não presta nem nunca prestará e que Paulo Portas foi, é e será imprestável. Não há desfoque físico que me impeça de ver tudo isto com a mais cristalina, reverberante, nívea, luminosa e iluminada clareza.
Podem ser turvas as minhas escleróticas, pupilas e córneas; pode o meu humor aquoso ter conhecido dias bem mais solares; pode qualquer das minhas íris nunca mais irisar com olhos de ver; pode o humor vítreo estar estilhaçado como nunca; pode o nervo óptico andar mais nervoso do que vidente; pode o cristalino achar-se, até por melancolia, mais turvo do se calhar merecia; podem a retina e a coróideia ter chegado a este ponto algo torpe da insuficiência de acomodação tão própria dos presbitas. Podem, podem.
O que não podem é impedir-me de continuar a ter os olhos abertos. Eles estarão cansados, tristes e a funcionar mal no mundo das volumetrias luminoplastas. Eles, os olhos, estão. A vista está. Mas a visão, não. Olho com dificuldade, mas vejo perfeitamente.
E o que perfeitamente vejo é que Sócrates nunca prestou nem presta, que Passos Coelho não presta nem nunca prestará e que Paulo Portas foi, é e será imprestável. Dia 5 de Junho, na posse dos meus óculos novos, não terei qualquer dificuldade em ver de onde venho e para onde quero ir. Os meus leitores verão, naturalmente, o que quiserem ver. Porque ver é ser, não é olhar para o lado.
O mais que recomendo é que, em vez de vistas curtas, se lembrem da canção que dá nome a esta crónica. Porque “não há só gaivotas (ou milhafres) em terra / quando um homem se põe a pensar”.

6 comentários:

lua vagabunda disse...

Fabuloso!!!! Poso partilhar, usando o nome do autor, claro???

Unknown disse...

Gostei! Gostaria de partilhar este texto, crónica, ladradela na minha página no facebook. Solicito permissão, aguardando resposta. Obrigado
Zé Maia

Daniel Abrunheiro disse...

Ao dispor, Z´´e. Obrigado.

lua vagabunda disse...

tb partilhei. está espectacular!

Obrigada

Aurélio Malva disse...

Caro Daniel Abrunheiro (tio da Mariana Abrunheiro?…)
Subscrevo integralmente o conteúdo e aplaudo a brilhante forma.
Espero que me autorizes a partilhar em Cantigas do Maio, com a referência ao autor, naturalmente.
Abraço.
Aurélio Malva

Daniel Abrunheiro disse...

Amigos, partilhai. Obrigado.