19/11/2019
17/11/2019
CADERNETA PRETA - 5
5. Vagas Ondas
Sábado, 26 de Outubro de 2019
Prostração viral. Xarope
antitússico & pastilhas coiso. Canalização respiratória rumorosa, nariz
pingão de aguadilhas mucosas, lenços-de-papel enxugando quanto podem. Ossos
& fibras alquebrados como gravetos pisados.
Resisto mercê de versos de Garrett,
o Garrett já mais maduro de Flores sem
Fruto. Lentidão de essência. Sol no mundo local, é claro o sábado, não
sairei hoje do tugúrio, não ’inda. Se o amanhã contar comigo para o
cromo-de-caderneta, veremos. Segunda-feira sim, será dia de saída. Correios,
barbeiro, antiquário, voltas pelo labirinto simples da Cidade.
Enquanto não, então por aqui. Estar
adoentado é interessante. O corpo dedica-se mais ao egoísmo que lhe é próprio,
esse solipsismo sem ética, sem justiça, sem treino, sem outro objectivo, para
já, que o de chegar vivo a domingo. A mente evola-se. Por exemplo, penso um
pouco no argentino Macedonio Fernández. A viuvez dele, a demanda do livro
total. Ocorrem-me os também argentinos, e ambos Osvaldo de primeiro nome,
Soriano & Bayer. E o obscuro Sábato de O
Túnel. Borges, claro. Cortázar principesco, claro. Estes mortos redivivos
na minha prostração semideitada em mantas com inclinação angular de almofadões,
ao lado o frasco de xarope, a botelha de água morna, restos da ceia de ontem,
cigarros quietos uma vez na vida.
Nada precisa de mim, lá fora. Sem
sentimento nem ressentimento. Aproveito a quietude. Assimilo listas ao gosto
& à guisa do grande Umberto Eco, outro glorioso defunto. Assisti a uma palestra
dele na Faculdade, foi lá para os 80s/XX, Saramago também por essa altura e no
mesmo sítio, assim como Mário Viegas à frente do Teatro Experimental do Porto.
No princípio deste milénio, voltei a estar um pouco com Saramago, já Nobel ele
então, foi em Pombal, apresentei-o na Feira do Livro, foi giro, já tudo lá vai.
Para não desconsiderar, por injusto
cotejo a Agustina, penso na maravilhosa Yourcenar. A também Marguerite mas
Duras não me seduz nem interessa. Li dela alguma coisa, não restou grande coisa
– pareceu-me tipo Catherine Millet mas sem tantas piças.
Mulheres por mulheres, curti a
Highsmith & a Rendell, entretenimento prazenteiro me propiciaram com
suas/delas tramas criminófilas.
Devagar, mais Garrett. Um pouco de
Kafka. Laranja espremida. Bolachas. Coze-se carne de vaca, um naco dela, com
cebola & sal apenas. Mais logo, feijão-branco. Compota de morango. Mais
logo.
O sábado amadurece bem. Em um
parque, arvoredo bem tratado jubila ao sol moderado do mês. Pessoas formigam
por ali, não muitas. Vai à médica-dermatologista um rapaz com vermelhidão
suspeita em zonas da casca. Incisões certeiras expulsam lipomas de consistência
galinácea. Quistos dermoides ou sebáceos. A médica é competente, alivia o
maralhal sofredor & sofrido. Cicatrizes mínimas, bom trabalho de costura.
À praia da mente vêm chegando &
recolhendo-se mais vagas ondas: a figura trágica de Vítor Baptista predomina.
Datas dele: n. 18-X-1948; m. 1-I-1999. A 12 de Fevereiro de 1978, aquela cena
dele à procura do brinco depois de marcar o único golo desse Benfica-Sporting.
Tenho tudo anotado. A final da Taça de Portugal mais extensa da História: 9 de
Julho de 1967, ele muito novo no Vitória de Setúbal, vitória dos sadinos por
3-2 frente à excelente Académica dessa década. A degradação de V.B. (“o Maior”): álcool, gajas, droga,
furtos, prisão, morte ao raiar de ’99. Em paz, finalmente, já vinte anos se
queimaram ao sol. Foi o nosso George Best, dúvida nenhuma.
Costumeiras convulsões na América
do Sul. Afeganistão. Hong Kong. Síria. O Diabo-a-4-pintado-a-7. Parece haver
vietnamitas no tal camião-frigorífico-cadafalso no Reino Unido. Chile,
problemas & pedradas. Iraque, sessenta mortos em dois dias. Barcelona,
inquietação. Marselha, lixeira fanático-religiosa a-céu-aberto.
Aqui, não. Tusso, espirro, escarro,
fungo, lenços-de-papel sanita a baixo: o corpo diverte-se. Mas a mente também –
paralelismos ocorrem-me: Victoria Ocampo / Natália Correia; Woody Allen / Luiz
Pacheco; e sim, definitiva geminação George Best / Vítor Baptista. Inócuo
divertimento, que entretém o momento.
Também: clássica é toda a obra pretérita que logra manter-se actual. Neste
sentido, recebo sempre Sófocles como novidade. Idem-aspas quanto a Faulkner,
Goya, Paredes, Beckett.
Mais dois nomes que brilham nesta
caderneta: o coronel John Bevan & o agente-duplo Juan Pujol. Clássicos eles
também, por outras vias.
O sábado, de si mesmo viajante,
abocou a noite. Já esta exerce seu magistério terraplenador. Desta casa quieta
como a esta quieta casa partem & chegam motivos carregados de essência como
de ouro líquido as jóias a que chamamos laranjas. Cais da Rocha do Conde
d’Óbidos, Pas de Calais, Dover, Angra do Heroísmo. Abwehr, MI5, Securitate,
Stasi.
14/11/2019
CADERNETA PRETA - 4
4. Lapigrama d’Águas-Fortes
Sexta-feira, 25 de Outubro de 2019
Em profusão tudo menos estéril,
águas-fortes impõem-se à atenção. Foi hoje o caso de arreigadas existências –
resgatadas ao esquecimento umas, outras à ignorância. Uma mulher chamada Laura,
viúva de um Astor. Uma outra, da família Dunlopes, demasiado cedo traída pela
doença. Dois homens – Platon K. contando ideias a um Pierre B. Um fulano, salvo
erro Hernâni, bolçando vulgaridades, não sei a propósito de quê ou quem. Mais
coisas giras: burlas qualificadas, chapas torcidas em colisões rodoviárias de
cacarácacá; renovações de contratos; abusos de confiança; a China Formigueira a
fazer de vesp’asiática por esse mundo quase todo; corpos moços &
dinamarqueses aproveitando o sol; atropelamento mortal numa zona de barracas “sociais”; um decote fêmeo palpitando
frescura adiposa; livros de massa-folhada paginados a dedadas de manteiga &
ambrosia-de-ovo; uma tenda de rua atirando granadas que são afinal ananases;
apóstatas assoprando avenas do Averno; conluios semitácitos na dieta
parlamentar em vigor; Ulisses de volta à navegações ensimesmadas;
indeterminação já perpétua daquele capitão John Franklin de 1845; súbito raio
de lembrança relativa àquele concerto maravilhoso do quarteto Opus Ensemble em
meados de 80/XX no Teatro Paulo Quintela; a Religião (qualquer religião) como
cancro incurável deste mundo sem remédio; a namorada assim para o namorado – Já estou a ficar com dormência nos lábios
– e o namorado assim para a namorada – Quais
dos quatro?; miséria obrigatória dos camponeses patagónios nos anos 20/XX
(e ss.); um homem ainda moço chamado Severiano cuja exemplar solidão não pode
ser repescada por causa de Idiliana – mãe dele – lhe ter queimado os diários;
internamento psiquiátrico compulsivo de Ossianne, herdeira n.º 1 da descomunal
fortuna Ariel-Tuning; aquele caso até hoje sem clareza de Manuel Maria Botelho
Alcarraxe, caído de um céu por que não passavam naves aéreas; Lucas, o polícia,
a quem Mena traiu por desfastio; leiloada em Londres a totalidade (conhecida)
da obra pictórica de Ortiz Doom (quatro telas, duas serigrafias, lapigramas
diversos & todos representantes do rosto de Mónica Prado, sua mãe);
Florencio (sem circunflexo) residindo na parisiense Rue d’Alésia; acesso
ilegítimo, por parte da gestora bancária, a contas gordas de nonagenário em
coma vegetativo; mutualismo gregário da canalhada sacerdotal-pedómana; outra
vez mortos nas ruas chilenas; ainda & sempre pindéricas brasuquices; um avo
do clã Moreira contra outro gomo do clã Antunes; na Bolívia etc.; etc. na
Venezuela; na Baixa da Banheira, uma velhota pergunta se lhe viram a netinha,
que morreu de herôa há mais de dez anos; microchips
a €2,5 (obrigatórios) no registo de animais-de-estimação.
São não-acontecimentos a que esta
minha casa é propícia. Reportam a um mundo quase interessante & deveras
impraticável. Só tenho de descerrar-lhes a metafórica janela da atenção.
Exemplo: sepulturas sem nome dos monges da Cartuxa. Esquecido até do Prontuário Litúrgico.
Em tempos de maiores viagens, vi
cantarias de mui polida brancura a que o frio fazia aderir o pó em vidro.
Vi em Penamacor uma sala-de-jantar
muito bonita forrada a luz & fruta;
Vi em Esposende uma cadela gentia
parindo quatro crias no imo de um arbusto;
Em Santiago do Cacém (terra do
grande Manuel da Fonseca), vi uma mulher olhando em frente sem hesitação;
Em Odivelas, um rapazola vi
traficando papeletas guardadoras de poeira injectável.
Viajo estes hojes de diverso modo.
Apraz-me a lã destas meias, como me satisfaz haver lá fora o lago que me
apetecer. Neva para os lados do hipermercado, cuja mastodôntica configuração
troco sem esforço por duriense encosta graduada & vitivinícola. Na noite
individual da cama, vogo a matina fria por sendas estaladiças de geada. No adro
da cabana pastoral, já o honesto zagal sopra o breve lume sobre que se
esbraseia o naco de toucinho & palpita a cafeteira coroada de borra fresca.
Alinhei no tampo da cómoda os
ícones singelos:
de porcelana, um touro dourado de
patitas & cornitos brancos;
Um cristo de serapilheira tingida
de roxo & amarelo;
O dedal da Velhota;
Desasada, a chávena achada no areal
da Figueira há trinta & dois anos; uma migalha rutilante que sigo sem saber
se é de quartzo, se é o que resta de um olhar de ave;
Um número da Gaiola Aberta do grande Vilhena.
O tesouro enumerado no rol anterior
é tão verdadeiro quão a lembrança do nascimento. Vale-me ele – e não poucamente
ele me vale & vela. A ele hei-de juntar (de propósito, ou por acaso, ou por
distracção) garantidas premonições, algumas das quais são:
Nunca ir nem a Buenos Aires nem a
Viena de Áustria;
Rejeitar sempre a fala espúria, o
vocábulo maninho, a ricaça-pobrete & o parvo-alegrete.
Eu desando disto há muitos anos. A
velhice veio, como Outubro, a horas – mas, ao avesso do mês, não cederá ela
lugar ao que for/fosse/já-lá-vai.
Aspérrimo sentimento algum por
aqui? Não deveras. O tecto é baixo mas dá para se ser cosmonauta à mesma. Eriçada
de estrelas a gambiarra-silveira cósmica, alicerça-a esta casa mesma. É quase
como ir do Maputo à Beira à beira duma puta, isto de merecer literatura o
quase-nada de quase-tudo.
Já na cozinha assobi’silva, peremptória,
a chaleira. Há geleia-de-marmelo, pasta-de-sardinha, doce-de-tomate,
biscoitos-de-arroz, chocolate & pão-branco. Escolhi a toalha de quadrados
cor-de-musgo em campo púrpura. Não sei que horas (ainda) são. Não conto com
elas. A sexta-feira veio, é quase ida. Não fui à caixa ver se chegou ou não
certa carta.
Que sábado, enfim, seremos?
08/11/2019
CADERNETA PRETA - 3
3. Um Gajo Organiza-se
Quinta-feira, 24 de Outubro de 2019
Uma chamada Rosa com banca de
flores, velas votivas, pagelas de miraculadores, de configuração facial por
assim dizer macedónia, linhas de um vento de violentas violetas, por assim
dizer também. Essa Rosa? Viúva de um Ortega inencontrável até nos mais ébrios
arquivos desta quinta-feira. Rosa do Nascimento, cuja pobreza hereditária lhe
cravou antiguidade desde a hora mesma de nascida.
Em esta casa sita em este outeiro é
que congemino tal Rosa, viúva do desencontrado Ortega & órfã natural de um
Sebastião estivador & de uma Cecília operária dali da farinha-de-peixe.
Nisto, campainham-me o pórtico, atendo, são três meninas dos escuteiros do
bairro, compro uma rifa de quermesse a cada uma, pode ser que me saia um livro.
A Quinta-Feira-24 deu-me café,
pão-com-manteiga, bacalhau-com-batatas – e um ladrilho de marmelada, como
usava, em pobreza senescente, o antigo Theophilo Braga. Voguei tinta-em-papéis:
formigas patinhando leite. Houve mansidão decorrente de esperar nada. Escutei,
por assim dizer, vozes de um que se chamou Fernandes; e também as de: Lajos,
Mortimore, Clough, Alfonso, Azaña (que de mais pouco rimou com España),
Federico, Salinas & Osvaldos (Bayer, primeiro; Soriano, depois).
Meias de lã grossas, cinzentas,
palhetadas de castanho-ferrugem; calças de feltro azul; camisola amarela,
daquela amarelidão de canário cirrótico – assim me estatuei pela casa
desertada. Ouvi Bach transposto por Liszt, se não erro. Gás fugaz, cada hora.
Todavia, assisti à pré-aurora. Vinha das costas do mundo, lá dos bastidores
orientais. Pressa nenhuma me atarantava. Curti versos muito juvenis de Garrett,
pensei-os (a ele & aos versos dele) no antigo Teatro Avenida, depois
deixei-me dessas considerações e adormeci sobre almofadões amolgados como
esposas inertes.
Há batatas de duas qualidades, na
esconsa despensa tão minh’amiga. E ainda: pacote & ½ de farinha-de-cacau;
quatro cebolas (uma média, três grandes); seis cabeças-d’alho; um garrafão a ¾
de azeite; oito postas de bacalhau de calibre muito jeitoso; um frasco outrora
de cevada solúvel agora pleno de cotovelos-de-macarrão; um boião outrora de
caramelos-de-fruta agora meio de arroz-agulha; um saco para três quilos agora
quilo & ½ de trinca-de-arroz para pombas & pardais; duas sopas
pó-instantâneas: uma de rabo-de-boi, outra de creme-de-marisco; latas de atum
(oito), cavalas (quatro), sardinhas (duas); uma barra de sabão azul-branco por
estrear; um garrafão plástico de lixívia; jornais velhíssimos para forrar
gavetas & sonhos molhados, uma galinha de faiança com o costado oco para
guardar ovos, deixada cá pelos vizinhos prévios.
Quanto à despensa referida no
parágrafo imediatamente anterior, digo ainda que a prateleira superior me vai
servir à maravilha para empilhamento de livralhada há demasiado tempo inumada
em caixões de papelão. Vou lá enfileirar: o A.J. Saraiva da
inquisição/cristãos-novos; a antologia seiscentista do Amadeu Torres (dito
Castro Gil); o joão mínimo do Garrett; o Fielding do tom jones; o Milton
perdido-paradisíaco; o enoch do Tennyson; o calhamaço-bio do Keats (não
confundir com o Yeats); todo o Simenon que-não-maigret; o carriego & a
infâmia do Borges; a bíblia dos Alcoólicos Anónimos; o são-francisco do juvenil
Steinbeck; as cartas do Musil; toda a dourada geração do 27 espanhol (toda, a que tenho – pois muita me
falta); as sobrevalorizadas lengas-tretas do Hemingway; dois MachadosdAssis; os
Fialhos fotocopiados; a primeira edição do pilatos de Nemésio; os Namoras ao
lado dos Vergílios só para fazer rir o Pacheco; para optimizar espaço, ponho lá
também as melhores traduções da Europa-América, que são nenhumas; por ser sítio
de mercearias, vou lá deixar esquecida do finado Eduardo Prado Coelho, aquela
do “mais um copo de rum” &
coisital; e a caixa outrora para sapatos cheia de cassettes de jazz-na-madrugada
q’antigamente a Antena 2 servia a granel acho que aos sábados.
Pelo que podeis ver, portanto, um
gajo organiza-se. No entrementes, escrevo as quatro letras da palavra hoje – e sei que não é vocábulo que dure
muito. Enquanto porém dura, estou ainda sem saber se aqueles 39 mortos do
camião em Inglaterra eram búlgaros ou, afinal, chineses. Mete-se a dar o
Sporting-Rosenborg para a Liga Europa, partida que vou seguindo em periférica
sorrelfa.
Derredor, há sossego neste trecho
de bairro onde (me de)moro. O outeiro é, felizmente, ventoso – sempre gostei
muito dos caprichos eólicos da Madre-Natura. Gosto do uivo vivo dele nos
elementos mais vibráteis: telhas, arames-da-roupa, antenas, lembranças. Para
pena minha, não choveu. Ou: se choveu, não (cho)vi – ou porque dormia, ou
porque reiterava, nos papéis sobre a mesa maior da casa. A paciência que a
Morte é obrigada pelo império da Beleza.
A Beleza?
Bach.
A Damrau (Diana).
A Mitchell (Joni).
A Flack (Roberta).
N. Yepes dando-se-nos Recuerdos de la Alhambra.
Satie, chovendo ou não.
Certos plainos eriçados de minério
da Beira Baixa.
A penichense Nau dos Corvos tendo
aos pés o Tempo soluto, a irremediável beleza dessa dissolução.
Certo céu nocturno acontecido de 11
para 12 de Maio de 1994, à face do Jardim-Parque, ouvindo-se gaiteiros
transviados na álea que se dá ao Mondego.
A Beleza?
Bach.
A Amália.
Magritte 8º casal René/Georgette
com seu cão depois da guerra, segundo São Paulo Simão.
Antónios (Nobre; Gedeão; Osório;
dos Santos d’Alfama; Pina, Manuel; Maria Lisboa; Pinho Vargas; Vivaldi).
Hopper dando-se-nos falcões
noctívagos de bares terminais.
Camus, fazendo sol ou não.
Certos canaviais esquecidos de
gente que penteiam os ventos transviados como gaiteiros em Maio, pela noite.
Visto de Cacilhas, o postal de
Lisboa sem sequer um antropóide à vista, o sol sim, dando-no-lo para sempre até
ontem.
Certo céu matino acontecido a 1 de
Janeiro de 1974, no sopé suave da macia encosta a nordeste da minha
PaterMaterCasa.
Acabou-se a vela amarela que me
perfumava de amarela discrição a cabeceira. Namoro há tempos uma
cor-de-veste-do-Senhor-dos-Passos à venda na Rua da Sofia, tenho de aforrar
moedas para ela. A sul da cama, no chão de tacos polidos, dorme, alquebrada
pela espinha, a manta única sob que uso dormir. Mínimos acontecimentos embora,
são lances que me existem. Já a noite, de lá de fora, atirou aqui adentro seus
panos. E eu sem vela para ela.
(Projecto, ainda assim, algum futuro:
faço amanhã a barba. E lavo-me as partes, de caminho.)
Tirando este, deixo por ora em paz
os papéis da mesa maior. Ou seja: recolho-me ao & no próprio recolhimento.
É sarau em monolugar. Eu sei. Faz mal nenhum. Espero para amanhã uma carta,
far-me-ia bem que chegasse. Chegando ela, partiria eu – rumo por algumas poucas
horas a outros azimutes da Cidade. Se amanhã não, só segunda ou terça, se lá
chegar(mos).
(São asiáticos, os 39 mortos no
bojo do camião-frigorífico apresado no Reino Unido.)
Mais tesouros simples de hoje:
um rapaz inglês relatando os piores
anos sofridos à mercê da psicose maníaco-depressiva que desde menino o limita;
uns cabrõezitos islâmico-coisos
vandalizando Marselha, que já foi francesa;
visão de manuscritos do argentino
Macedonio Fernández, a quem Borges chamava “Mestre”;
destroços verticais de Berlim na
Primavera-Verão de 1945;
rumores da canalização-cagadeira do
vizinho de cima (que desconheço);
e houve ainda outra instância
talvez merecedora de parágrafo próprio:
Foi pela implantação definitiva da
nova noite. A parede-sul do quarto fez-se mar vertical, o qual eu sobrevoava do
céu-norte da cama. Norte ou zénite, sul ou nadir. Embarcações transparentes
sulcavam aquele pélago em derrotas imponderáveis. Gaivotas zuniam como parturientes.
Apostos a invisíveis altos de rocha, faróis pestanejavam em pura orfandade.
Ventos cruzados vieram maremotar-me o roupeiro, espalhando-me a pouca roupa
pela água perpendicular da parede, destroçando-me a cadeira & o psyché de
espelho-triplo, afogando na garganta do retrato o susto da senhora minha Mãe.
Só quando despertei me decidi a dar paz ao televisor, que a frio ardia para
ninguém, órfã lareira, praia esquisita.
Readormeci – mas isto foi
escrevendo-se na mesma. Outubro vela-me os sonhos, os mais recentes dentre os
que me fazem assistir em perplexidade & desconcerto às contas que a mente
pseudoadormecida faz de cabeça. Ainda de domingo para segunda-feira (fazendo
conta acordada, de 20 para 21): em filme-mudo & não a cores, além-corpo,
achei-me habitando uma fracção de prédio antigo, desses com porteira à maneira
francesa sitos em bairros ainda não racimulticultuconfessionais, por assim
dizer. Parece que a minha condição monetária não era má de todo. Jantava fora,
tinha mais livros do que quando acordado, quatro fatos completos & uma
dúzia de gravatas (duas de seda), sapatos clássicos à utente de academia de
música. Na sala-de-jantar, encimando a lareira, uma belíssima reprodução (a
preto-e-branco embora) de um quadro de Hopper, aquele da mulher sentada na cama
olhando a claridade da incerteza. Nisto, o marido da porteira, homem pequenino
de maravilhosas mãos de tudo benfeitoras, chamou-me sem para tal abrir a boca.
Acorri – mas levitando, vêde bem à convocatória, só que não foi na portaria que
dei por mim, dei por sim mas foi na periferia da zona estuária, ali onde tanto
era a Figueira da Foz ao pé da estação ferroviária como poderia ser Danzig ou
Gibraltar ou Espinho ou Cornualha: era à face de movediças águas, enfim &
pronto. Então, outras (con)fusões floriram: a minha Tia Maria da Visitação
oferecia peixes vivos capazes de respirar o ar das pessoas sem problema algum,
a quem oferecia ela o pescado é que não sei; estrangeiros do Norte alouravam o
ar do momento, só que nos sonhos os momentos contemporizam anos, décadas
súbitas, eternidades paradas como lagos, ainda assim não tive tempo de apurar o
que fosse.
Animais benévolos subiram-me o
corpo. Era já terça-feira, não conservei a propriedade da casa com porteira
& faz-tudo, só a mulher ocupa agora aquela cama estuária.
29/10/2019
CADERNETA PRETA - 2
2. Jus aos Nomes
a) Quarta-feira, 23 de Outubro de 2019
Instantes há em que a ilusão da
a-temporalidade me toma conta da casa, planando no ar restrito da respiração,
de móvel a móvel, a imaginária imobilidade. Mal, não faz – nem bem. Um marulhar
de segmentos vocabulares, pedacitos de talvez-versos, música intransmissível a
outros humanos – que aliás nem há. É todavia de autoritária natura que as horas
recuperem terrenos que aliás nem houveram (por) perdido. Os nomes voltam, as
gaiolas transparentes da mente rangem, referências impõem sua efectividade: a
panela com sopa da véspera, o café velho, o pão já não muito novo, o pedaço de
toucinho ganhando amarelidão. E a casa pronta para mais instantes no tempo que,
vindo mais, se faz menos sem remédio.
No Reino Unido, trinta e nove
clandestinos encontrados mortos num camião que dizem provindo da Bulgária: o
alegado sonho ocidental, encontraram-no de olhos fechados. Hordas de gente
demandando o graal capitalista da velha Ilha. Esquerda & Direita atiram-se
sacadas de estrume aos respectivos focinhos. Bocejo ao meio-dia & picos.
Fiz café fresco, torrei umas lâminas de pão, a luz da quarta-feira é
adoradamente macilenta, faz bem consultar os longes salpicados de brinquedos:
casitas, vias rurais, mansidão de mula daquela ponte, observatório, mata
nacional, curro hipercomercial, bandidagem obsoleta, autocarros às moscas,
moscas de autocarro. Aqui, sala, cozinha.
Sala, cozinha, quarto, retrete,
banheira, porta-janela de vidro alto. Mas sobre a mesa vivem, de tantos mortos,
obras vivas. Papéis que as tipografias mancharam, prensaram, deram à revoada.
Sei-os tesouros, derradeiros como primeiros redutos do que verdadeiramente me
interessa, me cativa, me prende & me liber(t)a. Dois rapazes, por exemplo:
um Jorge, Adolfo outro. Ou Florencio (sem circunflexo, este), a sós. Orlando,
Rosado. Aurora, Magda. Monge, Raimundo. Não esperam, não vão, não pedem de
comer, nada pedem. Oferecem, majestáticos, quanto têm. Recolho, de todos,
quantas datas os enformam. Dou-me ao que me dão – e, nisto, nisso, cada diz
faz-se gomo da Incontável Laranja, fruto de si mesma, Mãe & Órfã.
Agora mas há oito dias: a meio da
tarde, lá em baixo, sim, na casa-de-pasto de Lurdes & Aristides, o meu
lápis dando-se a –
b) Quarta-feira, 16 de Outubro de 2019
Estas coisas são, ou foram, do
tempo em que o Tempo era de quatro estações ao ano, quatro estações certinhas,
vindas & idas à hora em ponto, quatro estações maiúsculas,
Primavera-Verão-Outono-Inverno, dava até para acertar o relógio por elas, e
agora que o conto já se sabe que não, agora só há dois tempos, só duas estações
– calor à bruta e/ou inundações instantâneas como explosões de mercúrio – e às
vezes na mesma semana, sol no Natal até às onze da noite & geada
ubíqu’aérea em pleno Agosto, é triste, é quase cómico.
Fazia mais ou menos um ano que os
manos Crispim tinham daqui debandado, dois coelhos na mesma cartola, fugiam à
tropa colonial & refaziam a vida com trabalho duro mas não mal pago como
cá, Germano Crispim & Serafim Crispim, filhos ambos do mesmo pai mas de
diversas consecutivas mães, o pai-Crispim era Arnaldo, a mãe de Germano era
Odette com dois tês, a mãe de Serafim era Celeste Aurora, boas senhoras ambas,
não há mal que delas dizer, já ambas lá estão, assim como o que a ambas fez mijar
ossos, por assim dizer.
E se agora o conto, é porque mo
pede a vida, está claro que a minha vida, a minha vida-moeda de bífida face: a
ainda restante & a já dissipada (pouco tudo & muito nada), esta que
levo e me traz do sepulcro ao berço sem altar pelo meio, não porque seja
importante por aí além mas porque sim, que é razão bastante.
Já o plantel a que pertenci tem
mortos, misturam-se-me porém incertezas com notícias seguras, respira ou não
Hilário?, talvez que sim Manaca, o melhor talvez seja enumera-los em caderneta
não-dicotómica, Matine logo a seguir, Juvenal, Castro, Leitão e Quaresma, Vaz
também, Nascimento também, Eliseu, Raul, Horácio e Vaqueiro, é muito triste
reiterar por escrito tantos cromos já esmaecidos, amarelecidos, tantos sorrisos
invadidos pela cola-de-farinha-cuspida, por escrito a morte parece – e é – mais
mortífera, sempre posso ir enfim à rede netcoisa saber mais, mas se calhar não,
fico-me com o que prefiro não saber, saber é por vezes uma agonia, aí
ond’&quando finalmente sabemos alguma coisa é então que nos vemos descendo
já para cromo, para lavado morto, morto de afinal memória bem menos infinita do
que o afinal dom esquecimento chamado, mas digo: de tantos outros a cujo escol
pertenci, pouco-nada sei, esfumaram-se na bruma nem peso levando consigo través
a brisa, digo: Isidro, Capitão-Mor, Sambinha, Quinito, Calado, Ernesto, Vala,
Tomás, Belo, Marques, Bento, Mota, Conhé, Mourinho, Móia.
Agora que o escrevo, moro com os
nomes acima denunciados e com os que irei delatando, ou relatando, ou atando,
ou hei-de contar (contar em número e contar de narração), como por exemplo
Rebelo, o canhoto rebelo pai de tanta meninada, valente Rebelo guardador de
redes e de linhas que não estas, antes fossem. E dele a Castanho e a Nau, um brevíssimo
sopro.
O que de tudo isto é verdade
embrulhada em prosa, enfim, não guardo expectativa de alheia confirmação,
leitura sequer.
É verdade irem-me rareando os
instantes contentes, euforia é mata-ratos que não fumo há trinta & três
anos, todavia ontem vinguei-me um bocadito, o caso & a ocasião foram que de
repente me apareceram ninguém menos que Pavão e Guerreiro, quase logo a seguir
deram-me à costa Damião e Trindade, que vingou na banca até administrador,
sacana bonito & de crisóstoma lábia. Pavão vem recuperando como pode de
duas mazelas cardíacas, aquilo da neta e do genro mortos em desastre de carro
abalou-o fundamente, a filha deu em doida de falar sozinha pela rua sem
telemóvel nem nada. Guerreiro faz jus ao nome, tem dentadura até aos olhos, rebenta
de saúde camoesa o ladrão, não há bem que se lhe não achegue desde aquele
bilhete inteiro da lotaria do Menino-Jesus que lhe deu & rendeu
seicentos-contos-seiscentos há tanto ano. Damião, o belo ruivo descoroçoador de
tanta cona vadia, mantém-se dandy
& tafula & correctíssimo portador de um atavio mata-quem-se-mexa.
Quanto a mim?
Quanto a mim, não me mantenho por
Voltaire ou Casanova como aqueles burgueses notários do Tiago Belga, tenho sim
mas é em pontas, derivo no conto disto, faço por não ser nada comigo, os
senhores fazei favor de cuspir para o lado assobiando para o outro.
Escrevo “todavia ontem” a propósito
de Damião, Trindade, Pavão & Guerreiro – mas talvez minta sem ser por má-fé
de contador, quando digo ontem,
enfim, pode ser que há cinquenta anos tudo me apareça ontem (e Outubro também, ou tudo), não digo pareça, digo apareça.
Pode fisicamente a memória
atraiçoar-me, que nem por isso lhe serei infiel: refiro-me a Óscar, o alto
Óscar (que confundo, sem cacofonia voluntária, com Alhinho) perpetuamente
envergado de camisa branca sobre calça preta à maneira do arquetípico
criado-de-mesa daquele tempo em que o Tempo era de
quatro-estações-certinhas-quatro. Óscar, o elevado Óscar, vencedor da mais crua
pobreza, fez-se médico ninguém sabe como nem à custa de quê, o grande Óscar dos
passes milimétricos à beira do não-pode-ser, sei lá, cá não sei, o belo Óscar
que afinal matou a mulher & a filha naquela quarta-feira em que a Mishima
apareceu a Senhora-das-Dores. Ou Reis, história parecida, negra também.
Sim, o Reis, aquele de bigode
nigérrimo agrafado à cara pequenina de rato, não, que digo que tão maldigo?,
não Reis mas sim o ruivo Romeu, uxoricida ele também, só que magistério,
perdão, ministério-público nenhum houve por a lei & por a grei prova-lo à saciedade
& à sociedade para lá de qualquer dúvida razoável.
Estes nomes rangem como móveis
avoengos tanto na minha casa escurecida como na minha causa escura. Sim:
Fraguito-Barros-Toninho-Arménio-Melo-Raul-Baltazar-Bastos-Laranjeira-Botelho-Manoel-Seminário-Nelson-todos-mais-Peres
I & Peres II, todos operários da cerâmica, da bolacha, da cerveja, da
metalurgia, da carne, dos camiões, sim, vinde todos & deixai-vos ficar um
pouco, fervi de fresco uma cafeteira alta, torrei pão-de-centeio, a manteiga é
como a daquele soneto do Correia Garção, “O
louro chá no bule fumegando”, sim, estes nomes que rangem como ossos em
petrificação de leite, toco a ilharga de uma sensação, recebo de imediato outra
galeria onomástica, fantástica, (fant)asmática, outra caderneta cruel:
Martinho-o-das-bexigas-doidas, Cavém-o-da-mulher-preta-que-no-Algarve-viu-a-Virgem-encarrapitada-num-galo-de-Barcelos,
Carvalho-o-que-se-cativou-de-Vítor,
Bento-o-que-sofria-de-lembranças-alheias-como-um-repetidor-de- sonhos, Fidalgo-o-que-era-verd’azul-encarnado-no-campo-roxo-da-heráldica-matinal,
Delgado-o-que-estudou-para-padre-mas-acabou-escrivão-da-puridade,
Faria-o-que-recitava-na-penumbra-da-caserna-versos-puros-como-cisnes-de-cristal-que-o-segundo-furriel-Dinis-dizia-serem-de-Goethe-nisto-sendo-contrariado-pelo-cabo-miliciano-Tomé-berrando-este-que-eram-de-Rilke-mas-nem-outro-deram-na-mosca-posto-que-os-versos-cisn’alinos-eram-de-Faria-ele-mesmo.
Acabo por sorrir sem espelho (nem
boca) à vista: meti-me a isto, não me menti isto, sim: os nomes já brilham, os
dos vivos nem tanto, os dos mortos muito mais, não é hoje o dia interessante,
sê-lo-á o que & quanto este lápis, tinta por vezes, puder. Olhai Camolas
achegando-se à praceta, ou Nunes, recém-viúvo, dado à Igreja; e Eduardo,
sardinheiro & jovial como um lírio todo sal-de-prata; ou Brito, uma vez na
vida, dando de comer ao esfarrapado Isaías.
Podem os
pseudofelizes acautelarem-se o futuro ontem. Coitados. Dependem menos da
poupança-reforma do que do subo-ou-não-m’-atrevo-? ante a figueira da infância
mais baldia (ou bal-de-nuit, mas não
quero ir por ’í).
Idílio
disse-me gostar muito da terra que mais ajude um homem a dar fruto. Já Carlos,
esse poupou-se a demagogias, casou-se cedo com uma fortuna de mamas
ambulatórias. Sim: abri a caderneta – ei-la colando-me de reverso-rosto ao que
já-fui-antes-de-morto.
Morto não é
ainda Peres? I ou II, se sim? Nem Malta. Nem Jorge Melhor. A minha esperança
terá sido depois de tanta falta-de-comparência-ao-jogo, digo: fui ter com o
homem, boatardei-o, disse-lhe – O senhor
não conte mais comigo a partir de Outubro, eu vou-me em vindo as primeiras
chuvas.
E assim
foi, e fui, deveras. Vitalino, que do balcão mal disfarçava estar
ouvindo-me-nos, relatou depois – Aquele
gajo pode ser doido, mas não esgana nem engana o parceiro.
Isto foi no
British Bar, o das putas-de-luxo geridas por um tal Cardoso que era de Setúbal.
Sim: já
resma a esmo se me vem fazendo o conto. Nem em meu auto-infligido desamparo me
creria – ou quereria – outra coisa. Então, Moinhos(-o-Verde, o-da-Serra,
o-da-Perna-Partida-em-Três-Sítios) diz-me lá das profunduras que ninguém sitia
– Tu seguras essa caneca de faiança forte
munida de chá-preto abelhado a mel-amargo, tu inquietas o nome, os nomes, pões
a ferver a caderneta.
A um canto,
Asdrúbal ri-se com as grandes mãos quadradas abertas no ar rarefeito da
literatura – C’um carago,
habi-ós-mas-era-de-bos-ber-a-dar-serbentia-na-zobras-ma-za-bergar-a-mola-mêma-sério.
O(b)ra isto
é o(b)ra, Asdrúbal: Isidoro ou Pires pela esquerda?, Lobo ao centro, Castanho à
baliza, alguém Moura ou Bonacho ou Nelo ou China ou Carvalho (I ou dois, como
os Peres & os Crispins), sim, ainda onde é quieto até o de-vagar.
Sim,
esses-estes nomes ladrando à chuva como cães-d’água. Teimosos na memória como
quadros de pintores mortos pela fome chamada realidade, aqui no vagar da
espécie, da especiosa humanidade capaz de caderneta.
Também pode
ser que alguma mentira haja nisto: digo: caderneta: digo: nomes que ser já não
possam senão por essa funda ingénua maravilhosa mentira chamada literatura. E então? Então, Valdemar.
Arménio, então. Restritos paraísos de filhos-sós, órfãos à nascença, órfãos à
hora crematória. Desconhecer a multidão silenciosa que com a literatura
partilha cemitério & lista telefónica? Eu não.
Sair daqui?
Sair daqui,
nada.
Sair daqui
nada – outra, última, vez.
Falta-me
para sempre o n.º 114, esqueci o nome, era do Boavista.
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BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ
24/10/2019
CADERNETA PRETA - 1
1. Copiosa Imanência ou Por Assim Dizer
Terça-feira, 22 de Outubro de 2019
Nunca gostei de o meu corpo ser tão
meu contemporâneo. A idade que perfaço, não perfaz o que penso – muito menos o
que, apesar dela (e até contra ela), dela penso. Ali, a luz impondo a transparência
rectangular da porta de vidro: ou seja: a luz apesar da janela, a luz que fora
de mim reitera um mundo a que a idade, mais e mais, me faz despertencer.
Sim, tenho saído pouquíssimo. Esta casa
vai dando para males que não faço, bens que não mando vir, lembranças que de
mim só necessitam papel & lápis, tinta por vezes. Já agora, isto também: espécie
de copiosa imanência aufiro sempre que o que era sempre se me faz nunca. Digo:
nomes passarinhando pelo céu domesticado do meu tecto, datas solenes.
Digo mesmo: nomes solenes, este
tecto sem data – meus brinquedos mentais, inócuos & mortais, ou mortíferos,
ou vivenciais, dá tudo (n)o mesmo. Pode parecer-Vos difícil, ilegível,
irrisório até, quanto aqui, assim, agora, vou pondo – mas calma: é facílimo, é legível,
é de facto irrisório, disso Vos não demovo. Enfim & todavia: se não peço,
posso dar; se nada mendigo, tudo posso obolar.
E eu vou-me dando. Dand’andando sem
daqui sair. O corpo, para cá dos cortinados longos, digere, rumorosamente às
vezes, a sua (dele mais que minha) condição de animal exilado-em-mente. Um exemplo
elegante: ontem, entardenoitecendo a casa como se fôra uma árvore, deu-me para
ficar ouvindo uma mulher que sei morta. Era Agustina.
Agustina (sim, a escritora) dizendo
coisas da família dela, pai, mãe; de casas dela, Amarante ou Porto, Régua ou
Coimbra, não sei bem, não fixei. Dizem-me-a morta, no que decerto me não mentem
– mas achei-a viva, vivaça até, eterna porque filmada. Ou bem mais bem: por ter
escrito livros, muitos livros, pertencendo-lhes agora pela aliança inconsútil que
a tipografia impõe ao futuro da morte.
Lúdico, lúcido, mais ermo que
enfermo – felizmente. Não sei já se ontem se anteontem daqui mesmo vi chovendo
dalém. Porta & janela ao tempo mesmo, vidro entre o meu corpo enxuto &
o acontecimento pluvial dessa hora que nem V. nem eu podemos reter. Sei que era
bonito, muito bonito: digo: aquele segmento de Outubro fazendo de Deus, ou
seja: dando-no-la – e a cântaros.
Já vêdes que pouco me suficienta –
e até sobra. Nada disto é lamentação. O que é, então? É papel & lápis,
tinta por vezes. O céu desta parte da Península aparecia-nos inoxidável como
ali a banca da cozinha. Hoje, menos. Houve uma luz mais especiosa, de
amarelos-açafrões mais flagrantes com dedadas verdeazulíneas de porcelana
pertinente. Pelo menos, eu sei, nem Vos pergunto se isto é seu tanto tonto – ou
sou.
Ainda bem que, supra, V. referi
Outubro. Ainda bem, digo, por ter a ver com aquilo, supra também, de me
desgostar a obstinada colagem do meu corpo à minha idade – e da minha idade à
minha mente. Explicação ligeira: desde menino que estou – ou sou – em Outubro. Isto
que é – é mesmo isto, é assim mesmo. Mais & mais envelheço? Muito bem: mais
& mais acho cama em caduco folhedo.
Estas folhas mesmo, por mor
exemplo: a lápis como, por vezes, a tinta, não pertencem à brutalidade
incandescente destes verões últimos, destes estios automáticos de dez meses ao
ano com que brindamos ao novo – mas derradeiro – milénio. Deteriorámos o céu
& apodrecemos a terra, não foi? Foi. Agora, fodamo-nos todos à força toda. É por
isso que não saio senão pouquíssimo – e só no Outubro.
Certa pessoa antigamente minha
amiga gostava muito de dar-se a vomitórios-posta-de-pescada tipo truísmos moralóides.
Sabeis bem, senão a quem, a que me refiro: aqui-saùdinha, ali-vícios,
ali-caminhadas, aqui-cigarradas, acolá-copos, acolém-só-àguinha. Digo-a “antigamente
minha amiga” por ter morrido – não eu mas ela, essa pessoa tão certinha, mas
tão certinha, que até ao cancro se deu, e cedeu, a horas.
Ainda bem também que já V. referi a
tal senhora-de-tantos-títulos, Agustina. Fez-me teleportar a ideia até os (há
muito) idos dentre 1981-82, idade lectiva em que era, aliás felizmente, obrigatória
a leitura curricular de A Sibila. A senhora
professora desse remo(r)to 12.º Ano podia não saber (e é que não, não sabia)
tanto da literária poda quanto a do 11.º - mas soube levar-me(-nos) à fonte
agustiniano-sibilante por claro & fresco caminho.
Uns poucos anos depois, em 1986, e
por causa de Agustina se ter dado a mandatária nacional da candidatura de
Freitas (também morto agora, há uns poucos dias que se finou, coitado) a
presidente republicano cá da parvónia, o PC caiu na precipitação, ou até
fantochada, ou caricata intolerância, ou burlesca bonifratice, ou mocorongo
espalhafato, de mandar devolver os livros à autora. Eu não devolvi o meu
exemplar d’A Sibila. Era e é meu. Rábulas
que tais, (já) não.
Não devolvi o livro mas votei no
Soares à segunda-volta porque Cunhal mo-no-lo disse para. Arrependi-me muito na
ressaca de o ter feito. Enfim, turvas-águas-afinal-passadas. O Bochechas também já lá mora, ninguém cá
se demora. Livro que me chegue às unhas, livro meu para sempre – mesmo que mau,
ou falso, ou aparranado, ou gebo, ou coiso. Meu uma vez, meu para sempre. Assim
me fossem outros bens que a vida (também) tem. Ou que dizem que, por assim dizer.
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