03/04/2013

OS ÚLTIMOS ANOS DE TODA A GENTE - entradas 441 a 446. Escritas há pouco, na Rita, pelo café pós-prandial


441

Leiria, 3/IV/2013, quarta-feira

(Amanhã como hoje: assim o instinto guia e quer.
Duas pombas tenho à espera que lhes panifique o instante.
Outras vezes, só o passado hei por diante.
E então o instante é triste e é razão de ser.)

442

Ibidem

(Ao sabor dos ventos, os panos drapejam viagens.
Farfalha do arvoredo eólica euforia.
Tenho por mim que ganho o dia
na recepção dos ares que trazem imagens.

Tudo me parece palavra possível, o desamparo até.
No Rio, os patos espadanam robustas natações.
Todos os animais me merecem celebrações,
mesmo ridículas, por rimadas e por de rodapé.)

443

 Ibidem

Quando ela vier, que venha de mansinho.
Que por quem a não temeu, não digo carinho,
mas mansidão use lenta, devagarinho.

444

Ibidem

(Usura e vezura dos dias a que pertenço,
a Língua é quanto tenho por espelho.
Se de mais sinto, vejo tudo vermelho.
Tudo a preto-e-branco, se de menos penso.)

445

Ibidem

(Por vezes, é em planalto moral que me ocorre
sufragar o vale, que toalha estende ’té o mar.
Nem tudo vive, mas certo é que tudo morre.
Não se fica porém ou vai – ser é mudar.)

446

Ibidem

Colhi dos passantes a efemeridade.
É inconstante o tempo, muito dura a invernia.
Recolhi a casa (é na estrema da Cidade).
Passado é já quase o hoje do dia.

28/03/2013

Rosário Breve n.º 302 - in O RIBATEJO de 28 de Março de 2013




Visões com feijão

1. Feijão

Aqui há uns anos, fiz a viagem Pombal-Leiria. Atravessando uma chuva tão diagonal que por pouco me não tirava a vontade de viver, seguia o meu caminho. Por volta das Meirinhas, junto a um camião parado, um homem fez-me sinal de paragem. A urgência era acentuada pelo recurso aos dois braços. “Como asas encharcadas”, senti. Parei na berma. O homem veio. Pediu-me boleia para Leiria. Eu disse que sim.
Disse-lhe que pusesse o cinto de segurança. Ele puxou-o e fingiu colocá-lo. Passou o resto da viagem a fingir que o tinha bem colocado. Ia mexendo a cabeça para a frente e para trás. Fui-me pondo a pau. Perguntou-me se eu era da cidade do Porto. Eu disse que não. Então donde. De Pombal, menti. Entre a primeira e a segunda perguntas, fizemos quilómetros e silêncio. Pediu-me que o deixasse ao pé do cinema. Quilómetros depois, que o deixasse ao pé do quartel. Eu disse: “Cinema”. E ele: “Está bem.”
À chegada a Leiria, ele disse: “No quartel, eles costumam dar feijão.” Aí, eu liguei a chuva ao homem, a procura de alimento às poucas palavras. Finalmente, pediu-me “uma nota para um pão”. Dei-lhe moedas. Eram 70 escudos. Ele disse: “Quatrocentos dão para um ano”. Não sei se se referia a escudos ou a pães. Saiu.
A vida é um pouco maior do que a viagem entre Pombal e Leiria. Mas se, como às vezes parece, ela me falhar, pelo menos já sei onde arranjar feijão.

2. Visões

Segunda-feira de manhã, dei uma volta pelo mercado da cidade. Não fui às compras. Fui ver o que tinha o mundo para me dar aos olhos.
Vi um par de gémeas que, apertadas sob o guarda-chuva, davam corpo à ilusão de a vida se repetir. Vi uma mulher a cair de bêbeda sobre o passado dela. Vi um polícia bocejar contra o regulamento. Vi a chuva procurando-nos, e encontrando-nos, a todos. Vi um vendedor de lotaria sem sorte. Vi uma mulher de olhos claros a falar pelo telefone público numa língua obscura e particular. Vi um funeral com mulheres grávidas no préstito. Vi um poema sobre a companhia que Cristo faz a cada um, como se Cristo fosse a chuva. Vi pouco do mercado propriamente dito.
Resumo: segunda-feira de manhã, dei uma volta pelo mercado e vi o que vi. Muitas outras pessoas fizeram o mesmo: deram uma volta pelo mercado e viram o que viram. Cada pessoa fabrica, pois, a sua visão. E, dela, a sua verdade. Não há, portanto, uma verdade, mas tantas quantas as cabeças. Isto sossega-me. Vi as gémeas, a mulher, o polícia, a chuva, o cauteleiro, a estrangeira, as grávidas. Outros terão visto o que para mim se tornou invisível.
As vidas parecem plurais. A visão é, de certeza, singular. O que cada um descobrir sozinho, conte aos outros. Pode ser que uma solitária manhã de chuva se torne um mercado cuja principal mercadoria seja a solidariedade. Não sei se resulta. Vou tentando.

21/03/2013

Rosário Breve n.º 301 - in O RIBATEJO de 21 de Março de 2013 - www.oribatejo.pt





Viva a Graciete

Tive um sonho em que apareciam como protagonistas Passos Coelho e Lee Harvey Oswald. Já não me lembro do enredo, só que acordei feliz.
Levantei-me, pois, fresco e retemperado. Na cozinha, liguei o rádio e aqueci café. A antena debitava pela enésima vez as últimas (ou as primeiras) de Francisco I, o novo sumo pontífice. “Com papas e bolos se engana os tolos”, surdinei eu, ferrando um bolo entre goles de chávena. Lavei-me à gato com água do bidé. Ambas as torneiras do lavatório estão perras, mas é que, como vos disse na semana passada, já não há canalizadores em Portugal. Tenho em Espanha um primo que percebe disso, mas o Gaspar já disse que até pelo menos 2015 ele não volta. Quer dizer que até 2021 o não vejo. Ao meu primo.
Penteei-me com um resto de brilhantina de um boião que me deram no Natal de 2008, época em que (é curioso, enquanto escrevo, que tal me ocorra) eu já tinha sonhos tipo Sócrates & Buíça. Olhei-me ao espelho: parecia a Gioconda penteada a leite. Fiquei satisfeito, até porque não sou dos desempregados mais carrancudos da viela.
Voltei à cozinha, meti quatro bolachas-maria no bolso esquerdo da jaqueta e na direita uma garrafa que foi de iogurte líquido meia de aguardente vínica que a tonta da minha senhora se esqueceu ontem de esconder depois de assar o chouriço de colorau que a mãe dela nos deu por pena. Fiz-me então ao rio da rua. Chovia, última coisa que Deus ainda dá.
O café da Graciete tem desde sábado a bica a cinquenta cêntimos outra vez. Baixou dez para chamar de volta os fregueses. Graciete e Gaspar, em inteligência, só têm de comum a primeira letra do nome. Como meio euro é o que as pessoas que ainda têm carro dão para estacionar, ninguém explicou ainda porquê, a Graciete voltou a ter de manhã, certinhos, cinco de nós, arrumadores.
Tomei a bica devagar para parecer muita. De frio, o último sorvo sabe a gato molhado, mas paciência: ao menos habemus papam, que é como se diz tolo em latim.
Fui então, por assim dizer, trabalhar. Foi uma manhã mais ou menos: fiz quatro euros e trinta e dois tostões – tive uma senhora que se me desfez em desculpas mas que só tinha pretas, como agora acontece nos investimentos pós-coloniais em Portugal. Por ser bom gajo, disse-lhe que ela para a próxima me dava dois euros e ficámos assim muito amigos tipo troika.
Comi as bolachas, poupei para um aperto da tristeza quanta vínica pude e voltei à Graciete, devia ser quê, uma e meia já. Bebi dois bagaços com o Zé Pisco que faz o estacionamento do mercado da fruta, o sortudo, o leiteiro. Como o Record estava ocupado pelo gajo da farmácia, bocejei as cáries e deixei-me estar a pensar em nada, que é o desporto preferido do nosso povo a seguir ao futebol. Alguém porreirinho-pá deve ter pago mais alguns cálices valentaços, também já não me lembro, isto de beber é como nos sonhos, vale que um gajo se esquece até do mal, quanto mais do bem, o certo é que já não fui, por assim dizer, trabalhar todo o resto da parte da tarde.
Dei por mim era já noite (e eu matéria dela, noite), por modos que arrepimpado no rebordo do chafariz e de cós virado para as gárgulas premonitórias de uma improvável pedra-de-Ançã talhada num século diferente e talvez melhor do que este. Nem triste nem eufórico, eu. Algo desalentado, apenas, desse desalento de cortiça que faz ranger a pituitária aos bebedores sem alegria nem lembrança.
Desalentado, digo, porque eu nem toda a vida quis ser arrumador. A falar verdade, o que eu queria mesmo era ser o Oswald. Ou o Buíça, que sempre era português.
E professor, como eu também já fui.

20/03/2013

OS ÚLTIMOS ANOS DE TODA A GENTE - 239


239

Leiria, 20/III/2013,quarta-feira

Uma volúpia mansa frúi por mim a manhã clara.
Comboio de nuvens vem chegando de noroeste.
Alta, uma vivenda aproveita o sol na cara.
Um dia é o tempo todo – e tem o dia de ser este.

Fiz-me ontem talvez mal: vi fotografias antigas.
Senti-me só por dentro no arrebol da cidade.
Não é que me queime o coração, isto da idade.
Queima-o sim isto dos sonetos e das cantigas.

Mas ao fresco de Março a manhã é fruição,
é gozo barato, mansa posse, paz-d’alminha.
Não me pertence esta terra, mas faço-a minha

à fita e à força dos dias colados a cuspo.
Débil seria não ourejar à luz, a luz po-
derosa que a tudo aclara e faz fruir, mansinha.  

14/03/2013

Rosário Breve n.º 300 - in O RIBATEJO - www.oribatejo.pt


Tresloucada doença prolongada

Os jornais de antigamente chamavam “tresloucado acto” ao suicídio. Quando no activo da profissão, nunca fui muito amigo de noticiar suicídios. Talvez a minha repugnância pelo tema derivasse do respeito (e do temor) por essa máxima privacidade que é a terminação auto-infligida.
Segunda-feira passada, os jornais parangonavam mais uma tragédia portuguesa desse teor. Um canalizador desempregado de 43 anos atirou-se para um poço aberto. A diferença está em que arrastou com ele o filho, menino de tão-só dois anos de idade. Foi numa aldeia de Viana do Castelo.
Parece moda moderna, esta de precipitar os próprios filhos no reverso do futuro. Acto e facto pungem e consternam em acerbidade aspérrima a todo quem não estiver embrutecido de vez. E fazem pensar toda a pessoa a quem não apenas o pente concorra à cabeça.
Não me resulta difícil, franca e infelizmente, ver naquele poço sem cobertura o pélago da selvajaria hipercapitalista do nosso tempo. A voracidade do Deus-Dinheiro revela-se cada vez mais mortífera. A vida pessoal, esse tesouro portátil que só se gasta uma vez, deixou de pesar na balança de um prato só dos mandadores. Daí que eu considere, o mais sinceramente, o mais acusadoramente, que quem matou aquele pai e aquele filho tenha sido o Governo da Nação.
É peregrina, esta minha ideia?
É tola, esta minha raiva?
É desajustada, tal minha arrelia?
Seja. Seja. Seja.
Mas.
Mas algo tem de ser feito para que o desassossego contagie, também, os criminosos da Alta-Finança. Para que a intranquilidade se aposse, também, dos corruptores da Banca. Para que o medo erice, também, o espinhaço dos bastardos adoradores do ouro.
Aquela aldeia de Viana do Castelo é Portugal todo: sinédoque tão triste quão real. O café em que fiavam a bica àquele canalizador sem esperança é o café a que todos vamos. E aquele poço a céu-aberto é deveras o que vos disse que é.
Os jornais de antigamente chamavam “doença prolongada” ao cancro. Eu não. Eu chamo “doença prolongada” à matilha governamental. E doença tão prolongada, que me não parece seja curável enquanto o solo pátrio não estiver juncado de pequeninos cadáveres de crianças que cometeram, sem no saber, o “tresloucado acto” de nascer em Viana do Castelo, isto é, em Portugal.

05/03/2013

OS ÚLTIMOS ANOS DE TODA A GENTE - 34 (escrito hoje, 5 de Março de 2013)



Queria já tão-só, uma destas consoadas, não ser o
inconsolável ante as cadeiras vazias, três até agora:
a do Pai, a da Mãe, a do Espírito Santo.

03/03/2013

Lorde Gin (IV) - 21 de Janeiro de 2013 - in PRIMEIRA RAÇA






Era pelo vento de papel-de-seda, era no Cabeço do Picôto.
Ser menino acontecia bandeir’airosamente ao alto.
A terra tinha, parecia, instâncias do mesmo mar
que além-Bolão quase fingia ser já e ali estar.
Airosa mente, ainda não fumada ou bebida então, a minha
me subia à mundial cercania do ouro mais duradouro.
Significa: era feliz como um pássaro sem guita ou linha
e não conhecia deveras gente que deveras fosse aflita ou sozinha.
Era (n)o começo de tudo: porque o mundo só se inicia
quando uma pessoa se faz dia. Não havia reverso,
verso sim só havia (e pode ser este dele o recado).
A vida era toda de frente, rosto toda: e o rosto era lavado.

O comércio era então de coisas não encaixadas.
O que era produto, mostrava-se nu ao desejo.
A Senhora Eduarda e o Senhor Carlos (hoje dizem-se jeovás)
enchiam de carvão (tal como na Casa Pantaleão) quem lhes levasse o cabaz.
Das fábricas, ao meio-dia, os obreiros saíam ao comer.
Pontuais como as marés, era vê-los sempre reter
o passo certo, a força da hora, o Tempo feito andante cavaleiro.
Nada que não pudesse ser aparecia de ante: tudo era fronteiro.
Que é feito? Que e quem se desfez já?
Nesse tempo o não sei, perguntas dessas não há
nem as faz quem de siso, que estar triste não é preciso.
(Mas pensá-lo e perguntá-lo agora é duro aviso.)

– Voltarei entretanto a este assunto,
que o tempo agora não é muito. –

28/02/2013

Rosário Breve n.º 298 - in O RIBATEJO de 28 de Fevereiro de 2013


O BARQUEIRO

Da outra margem da minha vida, alheio a esta hora tolerada, está o barqueiro que me oferecerá flores e sombras.
Flores crescidas nas sombras da água, não longe de árvores altas que apontam, como lápis, os números sem leitura do céu. Tantas ruas agora corro, até que uma delas se feche. Entrarei. Terei chegado ao cais. Música de madeira molhada os meus pés tocarão. Verei no escuro os olhos de lobo do barqueiro. Verei o brilho dos dentes: para me sorrirem e me comer. Sentirei a vida pontiaguda das árvores-lápis apontando a desnecessidade de tanta leitura. Agora, não procuro. Sei que as ruas preparam o barqueiro. Tantas ruas, um só barqueiro. Uma porta para mim, por onde me escoarei como uma língua de luz, saciado e grato pela glória de algumas mãos cujos dedos cercaram as minhas mãos, os meus dedos já sem lápis pretos como árvores. Espero isso, caminhando embora, saindo daqui, entrando aqui, penetrando os jornais do dia (os crimes de Negritarias e Mançã) e as laranjeiras da noite, consciente de quem em bares frios adolescentes jogam videocêntimos, atiram electrodardos, escutam hipnomúsica, bebem o leite verde que lhes troca a consciência por uma hora melhor do que a vida toda. O meu barqueiro cultiva as minhas rosas. Esta noite, merecerei ainda o meu caldo de ervilhas com um naco de bovino afogado, uma lâmina de pão com cabo de mão humana, a minha esquerda, também colhedora de azeitonas e páginas pares de jornais da noite e de est(r)elas da tarde. Espero caminhando, amando a amargura, essa fiel irmã dérmica, pulsadora, intrépida corredora venosa da minha cartografia, lá onde a dopamina e outras terças-feiras se associam recreativamente para dar ao meu barqueiro estas flores horizontais a que não escapo nem quero. Posso ainda rondar o mar como um pastor de gaivotas, completamente vivo, não despedaçado ainda pela porta sideral que leva ao barqueiro cósmico, pobre funcionário crematório de rapazes tristes e putas tristes e tão triste e sossegado no leite verde que reflecte o barco, o barqueiro, as flores-lápis e as árvores-lazuli, um egipto de ruas portuguesas. Até que a porta suceda.
Truz-truz. 

23/02/2013

Rosário Breve n.º 297 - in O RIBATEJO - www.oribatejo.pt


LADO B

O Verão foi-se embora. E quem sabe o que levou com ele...”, disse o Victor com olhos de reticências, remexendo o açúcar coagulado no fundo da chávena como se tentasse ler o futuro.
Eu não respondi. Não era uma pergunta. Deixei-me estar. Então, vindo da tarde triste da rua triste, entrou o Rodrigo. Trazia uma bolsa de fotógrafo com relógios dentro. Os relógios eram pesados e prometiam uma pontualidade suíça. Notei que o tempo custa mais a passar para os vendedores de relógios. Mandei vir três botijas de cerveja. A tarde continuava lá fora, parda e fria como uma declaração de rendimentos. Entrou o Fernando.
Quatro botijas” –  disse o Fernando.
Deixámo-nos estar. O Victor contou uma história engraçada passada num baile. Rimo-nos. O Fernando contou outra coisa, sem baile mas com piada. Rimo-nos.
O Rodrigo disse que aquela bolsa lhe tinha sido dada pelo Zé Manel. Nós acreditámos. O Rodrigo tinha um colete de malha novo. O colete caiu no chão.
Eu disse: “Rodrigo, o colete caiu no chão.
O Rodrigo disse: “Então já não o quero.”
Vai daí, ofereceu-o ao Victor. O Victor vestiu-o. Servia-lhe. Ficou com ele. Então, eu contei a história do lado B.
Em 1994, trabalhei num bar nocturno. Servi botijas e mastigantes a muita gente. Uma noite, apareceu o rapaz Raul. O Raul tinha maus dentes e bons fígados. Mostrou-se uma jóia de rapaz. Falava pouco, comia muito e bebia à percentagem do falar e do comer. Uma noite, falou mais do que de costume. O Raul pigarreou e disse isto: “Pessoal, atenção: conhecem a do lado B?”. “Não, nós não conhecemos a do lado B”, respondemos em coro grego. Então, ele pôs-se a imitar o som de um gira-discos antigo. Mortos de riso, primeiro, e ressuscitados de espanto, depois, ouvimos perfeitamente o “single” a receber a agulha, percebemos, por magia, a ferrugem de chuva da agulha a chegar ao 45 rotações, escutámos, como se fosse possível tanta música, a canção (era o Palito Ortega em “Yo Tengo Fe Que Tudo Cambiará”), sobressaltámo-nos com a crepitação da espiral sem-fim da agulha no fim do disco. Foi uma coisa maravilhosa. Um acontecimento único, uma efeméride instantânea como um pudim de pó. Eu percebi que aquilo era uma história boa para contar nos bares do futuro. Acabei de contar a história do lado B. Riram-se. O Fernando disse: “Quatro botijas, Daniel.” Havia, e ainda há, outro Daniel na história. Nada de confusões. O Daniel trouxe as botijas, baixou o som da televisão e não mandou bocas. Espreitei para dentro: a noite já estava lá fora, fora do Verão e à nossa espera. Castanha como um fundo de chávena, mas sem açúcar. Pagámos, despedimo-nos, cada um foi para seu lado.
O lado A.

18/02/2013

E então esta manhã, assim a modos que sem quê nem por nem para quê, zinga com quatro sonetos mais


SONETOS PROSAICOS PARA NADA MAS ’INDA ASSIM

Leiria, 18/II/2013, segunda-feira

I

Enquanto migava e atirava o pão do dia à pomba
da manhã, ocorrendo-me veio a visão de um re-
trato dos antigos, um de cinco figuras, das quais
quatro idas já, uma vivente ainda mas por um
fio. À esquerda extrema, a Avó, desalojada da dig-
nidade do centro por loucura símia no rosto
patente e semblante; à sinistra dela, a inevitá-
vel Tia solteira, de peito chato à fundo de barco;
ao centro, a Mãe; depois, desta as duas filhas:
irrelevantes magnólias. Só a da ponta direita vive.
Tem um quarto-cozinha-retrete em Queluz. Cons-
ta que lhe ficou o prometido no Ultramar, mas
de tal nunca lhe houveram notificação oficial. Tam-
bém consta todavia que não, que é viúvo e vive em Oeiras.

II

Teve um só desgosto mas vários maus passos.
É ’inda assim uma mãe como outras tantas.
Foi vista com diversos no Estádio das Antas:
com o Rui contra o Penafiel, com o Tó contra o Paços.

É Ermelinda, tem suas cruzes. Leva a vida
entre a Sé e os Aliados, que frequenta
entre a vida que sonhou e a que aguenta
enquanto não dobra o sino por lhe despedida.

Mais não sei. Tenho ouvido dizer.
Mas do que se ouve, vá-se lá saber
se o que consta, conta ou não conta.

Derredor, a Invicta, laborinha,
faz de conta(s) o rosário da vidinha,
que, certa, a morte a tanto monta.

III

Da veterania que sofrem os velhos combatentes,
sei eu muito – que bem os vejo no Lagoa
armados de decepção até aos dentes,
aliás acrílicos, tipo Fernando Pessoa.

Serve ao mármore firme viúva.
Ele é a cabeça do chicharro, a porcina orelha,
a isca encebolada, a libação vermelha,
que tudo tão bem sabe enquanto a chuva

lá fora arpeja a harpa, ó farpa imensa.
Envelhecer o ser, é inverno que se pensa
fora de toda a primavera, por futura.

Algum, verdade, têm de seu, que o pouparam.
Joga-se agora a sueca, já embaralharam.
Mais rija é a morte que a vida dura.

IV

Do mel (do mal, de tanto bem) de um homem
de sua dele mulher polinizado, em abelha o furor do amor
leite se fez – e então carne: o filho, jovem,
jorrou de pura água amniada em fervor.

(Mais que sexo, mete este soneto assunto adentro.
Do emprenho, o empenho é purpúreo vinho
que liba do mundo o sentido ao centro
da terra e do céu, e do Algarve ao Minho.)

À fria noite, no tálamo do casebre, o azeite
tremula dos três a consequência do leite.
Abre-se a mãe em rosa. Parida, maravilhosa,

ela a pai & filho congrega, o pão rachando.
Assim se vão e vêm os três amando
em leite e mel e água e vinho e azeite e rosa.



Um soneto de 2012, ainda



D(O)URA-TE – soneto luminotécnico

Leiria, 28/XII/2012, sexta-feira

Doura-te, manhã, à luz lenta.
Sê infantil ’té que te mate o meio-dia.
A vida pode não ser a que se queria,
mas doura-te, manhã, à luz, tenta

que cada dia renascer seja a vez prima,
que à morte é de mais símile o adormecer.
De baixo sobem águas árvores a cima,
tudo é azul e verde e branco sem perecer.

Somos, manhã, teus c(r)éus discípulos.
Apreciamos teu quase-frio em versículos.
Andamos ti adentro dessedentando

o corpo da secura da vil espera.
Uma manhã destas, é primavera:
assim te vá o inverno, gentil, dourando.

17/02/2013

Ontem, em viagem


NOITE DA LEIRIA À CHARNECA (POMBAL)

16/II/2013, domingo

Fevereiro. Um carro muito amarelo na noite da estação gasolineira. Folhetos volantes de igrejas prometend’anunciando manás brasileiros, de clínicas dentárias, de desperdícios a brilhar de novos. Os anos dando nos elementos – e o terror de que tudo dê sono, apenas sono. Nem rejeição nem nada mais – senão um bocejo mal acordado ante o que os faróis despem sem acordar: o stand de usados com bandeiras murchas entre pinhais apagados, o bar-restaurante aberto 24 sobre 24 à beira da rodovia sem trânsito desde que abriram a circunvalação variante, a Lua, até a Lua, que a nublação encerrou na torre como mal comportada infanta.

15/02/2013

Ontem, 14 de Fevereiro de 2013, a última de quatro composições vespertinas


Trabalhou ele hoje já algum proveito
Ao espelho do barbeiro reiterou o vazio
A tarde ardeu qual fósforo a direito
A noite o faz sobrinho d’ó-tio-ó-tio

De bandas fluviais a brisa impera
Ao zénite ascende a lunar escrava
Ele ’inda há muita gente que não se lava
A esperança é o avesso da espera.

Em casa as coisas ressumam fidelidade
Nos nichos os santorros apodrecem
Diáfanas gazes à visão adormecem
E dão clarividência à muita idade.

Ele hoje não faz mais senão esperar
Que a esperança não doa ao peito içada
Ao espelho do barbeiro ele soube nada
E tudo já sabendo passou a estar.

14/02/2013

Rosário Breve n.º 296 - in O RIBATEJO de 14 de Fevereiro de 2013 - www.oribatejo.pt


“Esquentamento” só para a semana

Tenho sobre a banca de trabalho dois documentos que aparentam não ter nada a ver um com o outro. Um deles é recente: trata-se do discurso do bastonário da Ordem dos Advogados na cerimónia de abertura do Ano Judicial. O outro é antigo de 101 anos: trata-se da Cartilha de Higiene e foi produzido pela Imprensa Nacional em 1912 para o então Ministério da Guerra. Era (e ainda é) minha ideia descortinar afinidades entre textos aparentemente tão díspares. Prometo fazê-lo na crónica da próxima semana, já que outro tema se me intrometeu ao barulho. Na realidade, dois outros temas. Ambos têm a ver com a edição da semana passada do nosso O Ribatejo. Essa edição de 7 de Fevereiro do corrente ano traz duas coisas que sobremaneira me agradaram. A páginas 3, na rubrica Pergunta da Semana, os três leitores que responderam à pergunta que o jornal lhes punha (e que era: “O que acha da remodelação do Governo?”), fizeram-no gloriosamente. Nem mais nem menos: gloriosamente. O leitor Nuno Almeida disse: “Remodelação? Onde? Não se viu nada. E cada vez mais é preciso haver uma remodelação mas é do povo, renovarmo-nos, exigir um novo modo de estar na sociedade, visto que da classe política jamais isso acontecerá.” Certo. Certíssimo. Por seu lado, o leitor Gustavo Faria disse: “Acredito que a presença do ainda ministro Relvas e a recém-nomeação de Franquelim Alves são ofensivas.” E faz a apologia da necessidade de reconhecidas capacidades profissionais e de cidadania aos governantes. Certo também, certíssimo também. Finalmente, o leitor Eurico Costa tem um piadão quando diz: “Devia acontecer ao Governo o que se está a passar no Sporting: limpeza geral.” Devia pois. Ai não que não devia. Os meus mais sinceros cumprimentos a tão desassombradas palavras dos três leitores.
Outra coisa que muito (mas mesmo muito) me agradou na referida edição do nosso semanário foi a coluna de Arnaldo Vasques. Vinha na página 10 e tinha por título “Carnaval em Azóia de Cima”. É um texto muito bem escrito. Espero que os leitores tenham o bom hábito de guardar os jornais para memória futura. Recomendo o mais vivamente que vão em busca desse texto. A descrição é um primor. Aquele “casario branco” é perfeitamente visível “encosta acima”. Os adjectivos casam na perfeição com a realidade que musicam e pintam. Uma delícia de prosa: do “roubo” dos vasos de flores pertencentes aos “quintais das moçoilas casadoiras” à “água em caudal que enche os tanques dos lavadouros”. A crónica, em ademã de exercício da memória, é muito sã, muito afectuosa, muito clara. Senti que deveria homenageá-la em discurso directo meu. A ela, crónica, e ao seu Autor, Arnaldo Vasques. Aqui fica o registo. O registo e a promessa de para a semana vos dar conta do que me veio à ideia ao ler a discursata do Marinho Pinto, por um lado, e o cuidado que os soldados nacionais de há um século deveriam ter com os “esquentamentos” resultantes da ida às “meninas”.
Até para a semana, portanto. Sejam felizes até lá – e a partir de lá também. 

09/02/2013

UMA MANHÃ CLARAMENTE PORTUGUESA


UMA MANHÃ CLARAMENTE PORTUGUESA

Leiria, 9/II/2013, sábado

Sim, é uma manhã claramente portuguesa. A luz é toda. Dos lados da Taberna Lagoa (fundada em 1930), o Rio faz bem só de ser olhado. As aves regurgitam saúde no azul muito branco. De manhã, amandei-me uma posta de bacalhau desfiado, alhado e azeitado em punheta. À tarde, há União de Leiria-Marrazes no estádio. Um homem lê A Bola murmurando labiações soletrantes. Passa de BMW o Rodrigues da farmácia com a amante. No Lagoa, um solitário de botas de cavador trincha um belo pedaço de orelheira amaila uma meia litrada de roxo. Três rapazes do chá-mon enrolam mortalhas de papel-bíblia com tabaco-de-onça marca Águia. A Noémia da confeitaria coça uma mama distraída enquanto se prognostica a irremediabilidade do amor contrariado que há tantos anos nutre pelo Pascoal dos plásticos, que nunca s’há-de separar da mulher, aquela bisca, aquela manilha, aquela sota. Cato pão esmifrado na relva dos pardais: tinha, como eu, o pão, envelhecido em casa. Ando à luz – e dou por mim sem pensar nos meus amados mortos há mais de meia hora: um recorde olímpico. Sou o de blusão verde-ranho pela beira-Lis. Sou o contabilista de instantes inofensivos. Ao contrário do que vaticinava o meu Professor Elias, acabei por não salvar o mundo. Em compensação, apascento sílabas que querem ser quilovátios. A vida é bonita do lado esquerdo. Pensar que um dia as moléculas se rompem para se tornarem outras corporações. À noite, no Louriçal, há noite de fados com a Cristiana, filha júnior do João Portulez. No mostrador, um naco de presunto ensina ao olhar a púrpura emoldurada a ouro-ranço. Uma mosca dura como um fragmento de botelha patanisca-se em mármore. Há coisas que podem e devem ser ditas, Noémia. Não me chamo Pascoal, sou tão-só feliz à beira-Lis – e sou, claramente, sou, por minhas voz & vez, um matutino claramente português. 

07/02/2013

Rosário Breve n.º 295 - in ORIBATEJO de 7 de Fevereiro de 2013


Antes cavalo nos relinche, que asno nos Ulrich

A revista Forbes ulrichou recentemente a filha do presidente vitalício de Angola como primeira mulher afrobilionária. E isto dá-se, vergonhosamente, ao mesmo tempo que a UNICEF, sempre boazinha como o padre Melícias e a senhora Maria Barroso desde o susto da avionet’UNITA  do filho na Jamba, se propõe outra vez pedinchar por aí umas migalhas de milhões de dólares “para” (mas é mentira, como tudo o que faz esta espécie de gente) as crianças subnutridas da malograda Angola. O que eu digo à UNICEF é que os vá pedir à Isabelinha. De volta. Que os milhões, um dia, devem desmilhõenar-se de volta a quem os criou.
Belinha por Belocas, acontece portugalmente à custa dos carneiros que Isabel Diana Bettencourt Melo de Castro Ulrich (pois, Ulrich) foi re-ulrichada por Cavaco a 9 de Março de 2011 como “consultora” da Casa Civil da Presidência da República. Já o era desde 2006. Ena de carreira! No Diário da República, a profissão da senhora é “funcionária do PSD”. É demasiada profissão, digo eu, para merecer DR. Porra.
Ou chiça.
Franquelim, ali da Linhaceira, Tomar, foi agora ulrichado secretário de Estado do Empreendorismo por essa có(s)mica evidência de Nada (ou Nata) chamada Álvaro. Vem, o Franquelim, da SLN, esse esgoto por onde se escoou em alegre im(p)unidade a cenosa cloaca chamada BPN. Se o pastel de nata é cake-cream, o cream compensa.
Ou então vou eu descalço sobre silva(s) de Tavira a Valença.
A 3 último do corrente, no Público, Jorge A. Fernandes citava um economista espanhol chamado Molina. E, parafraseando o bom e saudoso Dinis Machado, o que diz Molina? Diz esta admirável e contundente verdade: “A classe política é uma elite assente num sistema de captura de rendas que permite, sem criar nova riqueza, desviar rendas da maioria da população.”. Contundente. Sim. Mas. Inútil.
Inútil – porque tudo demonstra que o que se diz à classe política não entra por um ouvido para sair pelo outro. Porquê? Porque o som não se propaga no vácuo.
O problema é a vida ser agora.
O problema é aquele verso de Jorge Fazenda Lourenço: “(…) que nada ter depois é pior que não ter nada.”.
O problema é termos mais carneiros por metro quadrado do que a Nova Zelândia.
O problema é termos deixado que nos ulrichassem o 25 de Abril.
O problema é sermos precisos dez milhões de sem-abrigo para sustentar um único Ulrich.
O problema é que o que ontem era República hoje ser Reprivada.
Quando deixaremos nós de ser um estábulo manso de carneiros da Nova Zelândia a que qualquer besta de pasto vem acertar as horas de pulso-Rolex? A que horas é que o pastor dos carneiros vem, sustentado pela ordenha do Estado, conferir-BPI a hora da ração?
A que horas acertaremos enfim a hora da razão?
Ou, alvalademente falando, quando é que seremos dez milhões de sportinguistas a correr com o Godinho que não querem o Coelho de ninguém?
Eu sei o que diz Molina. Mas esse é espanhol. Estou mais para adulterar um provérbio asiático, fácil de perceber até para o resto dos dez milhões de carneiros que não são asiáticos mas vivem entre Tavira e Valença. Assim:
Se vires um pobre, não lhe dês peixe algum; dá-lhe o Ulrich e ensina-o, ao pobre, a amanhar.
O Ulrich.



04/02/2013

INTERVALO



INTERVALO

Leiria, 3/II/2013, domingo

1

Em banco de pau ao sol pactua-se bem com o fresco da manhã fria. Pouco demora a hora (ora mais, que envelhecer é o principal dos meus trabalhos). As manhãs são o içar do prumo, que o meio-dia nivela, a tarde desfralda e a noite guarda na caixa. A obra é testemunho e testamento. A minha, também. Grandes viaturas de passageiros (mas quem não é passageiro?) estateladas ao sol no parque largo: como se caídas de uma rodoviária sideral. Uma pouca de terra estendida ao azul, pingado já o sincelo. E no pátio ao lado da taberna, a feminil laranjeira, noiva de ninguém.

2

Tudo o que me resta do passado é o próprio corpo.
Com ele escrevo intentando não ser, tão-só, corpo tão só – sem nem passado, quanto mais presente.,

3

O trabalho fosse varrer praias no Inverno. É como estou na Língua – e o que faço nela. Há muito não tenho um cão. Comigo, é o dicionário que ora anda pelas ruas. Ele me late seu latim, que em Português lambo e aproveito. Nisto, foge-me o cão prai’afora: e eu sem saber com que letra chamá-lo.

4

O paradoxo é a disfunção eréctil crescer tanto.

5

Tenho ainda alguns dias, talvez anos.
Penso isto ao sol, entre gente que não conta o Tempo, mas que o Tempo desconta.
O Tempo numerado, enumerável – mas inumerável.
É a maior vocação que me conheço, esse Sacana.

6

Tanto julgo não ter sido mau jovem,
quanto espero não ser apenas um bom velho.

7

Parece que um gajo me disse assim da minha terra:
– Pá, a Pedrulha não é Coimbra.
Eu não tinha dito que era. Eu tinha dito que era em.
Respondi-lhe com justo vinagre que:
Ó meco, ao contrário de ti, a Pedrulha sempre é a norte de alguma coisa.
Foi como tê-lo mandado ir cagar a sul de nenhures, que nunca mais o vi.

8

(A verdade é que há muita coisa e muito alguém que nunca mais vi.) 

XELINHA - 4 DE FEVEREIRO DE 2013





NOS 69 ANOS DA MINHA RICA XELINHA



O fruto do trabalho da árvore é o fruto mesmo.
A árvore não recolhe o fruto do seu trabalho.
O fruto que recolhe a árvore é o frutificar em si.
E antes dele se paga:

em flor.

03/02/2013

Da tarde de hoje, domingo, 3 de Fevereiro de 2013





I

DANTE
VIDA NOVA

Leiria, 3/II/2013, domingo

(…) conversar c’os mortos,
Quero dizer, c’os livros (…)

(CORREIA GARÇÃO, Sátiras, Sobre a Imitação dos Antigos, vv. 128-129)




Em Vida Nova (trad. de Carlos Eduardo de Soveral, ed. RBA, 1994), Dante Alighieri (n. Florença, talvez Junho, talvez 1265 / m. Ravena, 1321) expõe-se-nos em prosa. O narrador comete sonetos  também em forma pura, que divide e nos explica.
Ama uma Beatriz, que vem a morrer, talvez, ao mágico número 9 (de Junho de 1290).
O narrador diz-se de quase (também) nove anos de idade quando a viu, primeira de e entre todas, pela vez prima.
“Levava traje de nobilíssima, singela e recatada cor vermelha, e ia cingida e adornada da forma que convinha à sua pouca idade.”
O Amor (maiúsculo, divo) não mais o largou.
Dias, visões, divisões e versos sucedem-se como páginas vitais: mas o livro é o mesmo sempre, como para sempre o Amor mesmo.
O profeta Jeremias empresta-lhe(s) o latim abonatório (e venatório):
“O vos qui transitis per viam, attendite et videte si est dolor sicut meus” – “Ó Vós todos que passais, detende-vos e vêde se há dor igual à minha.”
Pergunta-se o Amante se “os nomes resultam das coisas nomeadas”.
Responder-lhe não sei, pelo que prossigo até uma página maravilhosa – aquela em que, perguntando-lhe um amigo que raio tinha ele, pois tão merencório (ou macambúzio) ao mundo (a)parecia, esta resposta lhe foi dada:
“Pus os pés naquela parte da vida além da qual se não pode ir com a intenção de regressar.”
Noutra página, o narrador/sonetista assim incide:
“O rosto mostra a cor do coração.”
Vão-se mais e mais depurando (ou purificando) os amáveis versos amantes, a ponto de a prosa mesma os sublimar. Por exemplo assim:
“(…) o Amor não existe por si como substância, antes como um acidente na substância.”
Morta a Amada, redivive o Amor – mas não sem que a visão de certa dama que o via já violáceo (ou “purpúreo”) de tristeza o atraísse. Grave desconcerto, o dele: sabia-se chorando Beatriz mas também olhado piedosamente por Outra, a quem ele desejar começa a. Ora, tal não pode ser. Diz ele que é “vil”.
Daí que olhos e coração e alma e o diabo.
Vale bem a pena transcrever aqui na íntegra o soneto, em que o imo poético se vê todo metido às onze-varas da camisa cujo pano é agarrem-me que eu vou-me a ela e vivo-a.
Vem o soneto na coerência de uma nota proémia, esta:
“Deste soneto estabeleço duas partes em mim, conforme eram divididos os meus pensamentos. A uma delas chamo coração, isto é, apetite; à outra, alma, isto é, razão; e digo como uma e outra falam entre si. Que seja apropriado chamar coração ao apetite, e alma à razão, é assaz manifesto para aqueles aos quais me agrada que o seja. Verdade é que no soneto anterior tomei o partido do coração contra o dos olhos, o que parece contrário ao que digo no presente; digo, por isso, que entendo aí coração pelo desejo, pois que maior anelo era o meu de recordar a minha gentilíssima amada do que ver esta outra dama, embora já sentisse algum desejo desta, apesar de ligeiro.”
O malandro.
Posto isto, o soneto, que é de bonita claridade:

            Pensamento gentil que vos pertence
            amiúde vem a estar comigo,
            e fala-me de amor tão docemente,
            que faz nele consinta o coração.
            A alma diz então: “Quem será este
            que vem a consolar a nossa mente,
            e é de virtude tão potente,
            que nenhum outro deixa estar com ele?”
            E o coração responde: “Ouvi, alma cuidadosa:
            é este um novo espírito de amor,
            que traz até mim os seus desejos;
            a sua vida, e todo o seu valor,
            flúi desde os olhos da dama piedosa
            que se afligia com o martírio nosso.”

É o que ele vem depois a referir como “versário da razão”.
Digo eu que “adversário” também, sem risco de falhar muito.
É já pelo cair do pano do livro. O narrador (em “vulgar”, por oposição ao latim que o impediria de chegar em bom apuro de significação a maior público) sente em si “uma forte imaginação, pela qual me parecia ver a gloriosa Beatriz com aquelas vestes sanguíneas com que me apareceu na primeira vez; e aparecia-me jovem como nessa altura.”
Traições do muito querer, que nem o escrever volve menos fantasiosas – bem antes pelo contrário.
Comove ouvi-lê-lo assim:
Comecei então a pensar nela (…)”.
Acabam-se-lhe-&-nos as páginas de Vida Nova.
Em suspense ficamos todos quando, no acume, ele nos revela ter tido “uma maravilhosa visão” – de que, sacana, nada mais revela. Diz-nos, tão-só, que estuda com dignidade para conseguir “dizer de Beatriz o que não foi [ainda] dito de mulher nenhuma.”
Garantido (pelo menos a mim, que com ele passei bela e beatrizmente a hélia tarde de domingo) é que, pela mão de Alighieri, nada jamais fica a ser como Dante(s).  


31/01/2013

Rosário Breve n.º 294 - in O RIBATEJO de 31 de Janeiro de 2013


O amanhã de Hegel a partir de uma cabeleireira

Costuma vir aqui à Rita uma cabeleireira muito bonita a que os insensíveis podem chamar gorda mas eu não. O que ela é, é de uma pujança sumarenta. Discretamente a aprecio, sobretudo quando bebo a conta, que é quando a mente se me evade de própria vontade à grave lei da gravidade, parecendo então flutuar na superfície lunar. De abundante bunda andante ela é, deveras e de facto. Mas – aquele rosto fotografa-se a si mesmo, de tão clara gravura o mesmo é de e em si. Os dentes não são menos do que perfeitos marfins rendilhados. Os lábios valem ambos por um bífido tratado da arte de recortar. As pestanas pulsam sedas lubrificadas a óleo de noz doce. As orelhas parecem poucas, por só duas e de tão porcelana. E os olhos escurecem discrições do mais virginal pudor, atenta a qualidade pluvial desses charcos.
A sul do rosto, as mãos, assim papudinhas, pedem brinquedos masculinos, que eu aliás tenho. O bom seio aponta-a ao futuro, que risonho largamente a merece toda. De diáfanos tules revestida, odalisca-se sem esforço à fantasia do retratista acidental em que me converto cada vez que a marro, perdão, narro. Sucedeu ontem com ela uma coisa muito engraçada.
A coisa com ela muito engraçada ontem sucedida foi que, folheando ela o jornal em distraída solidão (nunca, felizmente, a vi acompanhada), se dela soltou a seguinte exclamação:
– Ó caraças do meu Sporting!
Foi inevitável: nós, homens de esplanada-galeria, desatámo-nos a rir como perdizes benfiquistas ante a falência do leonino perdigueiro. Ela ficou a modos que embaçada. Isto, primeiro. Mas depois também alinhou na perdigotagem hílare. Aquilo passou.
Esta manhã, ela voltou. Vinha mais bonita e mais atrevida. Até nos bom-diou, a sacanita. O colo vinha-lhe enfunado de uma gaze roxa à Senhor-dos-Passos que não só lhe ficava a matar como nos matava, a nós homens de galeria-Rita. O amplo seio, de uma turgidez fasta e nefasta, inchava de seiva respiratória e esplendente de carnação a mais moranga. Levíssimas sandálias ourejavam dela os pés muito brancos, muito alados, muito capazes da mais etérea volatilidade. O todo da figura grassou entre nós, través e a nós cada um, o aplauso cardíaco-eufórico da arritmia. Parecia até que a cor houvera mudado à manhã do dia. Ofertara-lhe eu sem desperdício a fortuna do borboto em cotão do meu bolso. Só por ela deixara eu, avelhentados os dentes, o serrilhar onicófago. Sim, juro. Mas ela nem me conhece nem me reconheceria d’ébano entre homens claros.
Ela virá amanhã, confirmando na vi(n)da a tese tripartida de Hegel: ontem/tese/hoje/antítese/amanhã/síntese. Na mesma será bonita por mais um dia. E nem sabe que o seu cabeleireiro aparou cabelo a uma crónica, o que só em beleza a prestigia.
E amanhã será, por síntese, ó Dalila!, para este insensato Sansão, um outro dia.



Canzoada Assaltante