13/06/2010

IDEÁRIO DE COIMBRA - podografias de retorno – 5

Vitorino Nemésio - Praia da Vitória, 19 de Dezembro de 1901 — Lisboa, 20 de Fevereiro de 1978


5. BENDITO JUNHO, À JANELA



Coimbra, sexta-feira, 4 de Junho de 2010

Quatro mais seis, dez: 4 de Junho de 2010.
De hoje a um mês, é Dia da Cidade. Rainha Santa Isabel etc. Mas hoje, hoje não poderei repetir a quilometragem melancólica do périplo de ontem. Impede-ma este abcesso molesto, este canino que ladra pus por dentro. Às quatro da tarde, trar-me-á a SB uma caixa de anti-inflamatório e outra de antibiótico, bem-haja ela. O outro remédio é maravilha: ler o divino Camilo Pessanha.
Entra na agência de viagens ao lado uma oriental de pernoca alta, branca e gorda. Saltos também altos, cabelo tinto de carvão, saia mínima: um mulherão blindado de saúde, viço, auto-confiança e tal. Do meu lado esquerdo, um casalinho irritante de adolescentes desfecha atoardas vãs como cabaças. O penteado do gajinho é à iroquês. O olharzinho pintado da faneca é tipo é-assim-prontos.
De lacrimosos aguaceiros, nada – que o tempo é de moscas ao sol. Se amanhã me encontrar melhor, hei-de rumar ao cemitério de Santo António dos Olivais. Há décadas que me prometo visitar a campa do grande plumitivo chamado Vitorino Nemésio. (Eia!, vai ali uma tipa de rija carnação assegurada por a moldura mínima de uma blusa de cavas, jambas duras e talhadas a escopro doce, braçais de musculação brunida a melaço francês, cabeleigadura nigérrima, bons óculos fumados de marca estipendiosa, sapatos nascidos para a pisadura de carpetes escarlates. Rico pedaço, Deus lhe segure as fivelas por muitos anos & algarves.) Pois então como V. dizia, em o abcesso amansando alguma coisa amanhã-sábado-5 (faz anos a Belinha do senhor Nunes), hei-de ir a tributar peito e preito ao mestre de Quatro Prisões Debaixo de Armas e de Mau Tempo no Canal.

Às 21h41m, ainda a noite não foi capaz de cerrar dela a glaucomática pestana sobre a pupila anil da tardinha. Bendito Junho. Longe como o nascimento, Vénus mais incandesce quanto mais sobe: durante diamante frio em fogo. De qualquer modo, refrescou um pouco. Troquei no quarto camisa por camisola e chego ao Nosso antecipadamente deliciado pela encomenda de um chá de limão em chávena grande. O primeiro sorvo da infusão beatifica-me de pronto em uma espécie de aura zen. O senhor Manuel e a senhora Adelaide (que gostam de me ver escrever e de me ver ler) não sabem, mas ainda em casa tive de escrever um poema, este:


À JANELA


À janela vendo o que não chove,
a minha vida quer ainda ser mais
do que o meu corpo,
coitada.

Se chove, sendo o que chove,
a minha janela não quer nem deseja,
olha e não é corpo,
em beleza.


Esqueci-me de que amanhã é sábado, dia de dar explicações no Louriçal, depois do almoço na Lagoa dos Matos da Vila. Vou de comboio até à Figueira da Foz, telefono ao João P. e ala para a terra do convento. Modos que ainda não será amanhã que hei-de descobrir onde dorme terminadamente Vitorino Nemésio. Outro dia será.

12/06/2010

IDEÁRIO DE COIMBRA - podografias de retorno – 4


4. CORPO DE DEUS, SÓ O DO SOL



Coimbra, 3 de Junho de 2010



Hoje é feriado nacional por causa de uma patranha invisível (mas colorida) chamada superstição. Parece qu’é Dia do Corpo de Deus, não sei porquê nem me apetece (agora) saber.
Rompi madrugada adentro e afora com a leitura deliciada da “Ramalhal figura”, como lhe chamava o divino Eça: de Ramalho Ortigão, hauri Uma Visita de Pêsames (hilariantíssima prosa) e O Último Prego (mais actual do que seria provável, o assunto do artesão que se suicida porque o mercado é invadido pela produção vinda da estranja). Agora, à sombra tépida de uma esplanada de mesas de baquelite vermelha – Pizzaria Solum, 13h06m – preparo-me para assimilar duas memórias prosódicas: a de Mário Ventura em Quarto Crescente e a do raro Camilo Pessanha em Contos, Crónicas, Cartas Escolhidas e Textos de Temática Chinesa, que António Quadros organizou e anotou em boa hora.
Derredor, o sol de Junho inventaria a Cidade e o Mundo, parafraseando (no “Junho” e no “inventaria”) o belíssimo título criado por Teixeira Gomes (que ainda não li, mas hei-de). A tarde é o contrário de uma gaveta, mas, como as gavetas dos antigamentes, esta luz cheira a maçãs camoesas, a pés de verbena e a almíscar de guardar camisas. (Benditos Ortigão e Malheiros Dias, cujas linhas me trouxeram o almíscar, a verbena e as camoesas.) Entretanto, mudo de mesa porque Sua Majestade Rá toma de assalto esbraseante o tampo daquela sobre que Pessanha e Ventura.
A esta hora (quase as três da tarde) mesma, não é difícil perceber que nas maternidades e nos hospitais da Cidade simultâneos nascimentos e passamentos se dão à luz, os primeiros, e à treva, os últimos. Mulheres clonam-se carne, sangue, ossos, unhas e cabelos em vergônteas infantes. Pessoas passam o rio derradeiro, perto. Na Dinamarca é o mesmo, eu sei. Mas agora só a Cidade me interessa. Vivo desta luz, que segue sendo toda a luz. Uma paz toma-me – como se eu fora água, como se a paz tivera sede. Não sofro ideias. É certo que na parede da mandíbula superior me lateja um abcesso canino, mas para outra coisa (para este caderno, enfim) me serve a boca. Leio devagar, escrevo devagar, vivo devagar. Também morro devagar e também devagar renasço. Isto de sentir é tudo letra a óleo sobre tela de papel. Fora do Nosso, o calor daria para torrar pão no ar e para estrelar ovos no rebordo de pedra da fonte. Há patos de pescoço verde-mandarim na relva da rotunda para que dá a varanda celibatária do meu quarto. Os polícias columbofilam, pesados, rondas bocejantes de dia feriado. Rapazolas de boné de pala revirada imitam acarneiradamente os ghettos do zamericanos afro. Ça ira, malgré tout. No Senegal é o mesmo, eu sei. Fazer tudo para que a beleza não seja uma falácia, embora a geral vida o seja.
A vaga de luz-calor vibra-vidra o ar: parece pensamento. Vale-nos, conimbricenses, uma brisa mondegueira que só posso comparar a translúcida serpente encantadora de pássaros e de epidermes afogueadas. É pela hora em que viver equivale a lentidão. Saio e ambulo. Levam-me pés que levo livres em sapatilhas largas. A quinta-feira, por alegada santidade, usa a largueza vã dos domingos. Ventura e Pessanha dormem no bornal – como parece dormir o Mondego represo no açude. Ciganos e pederastas sentinelam as linhas litorais direita e esquerda. Também eu sigo à margem – de tudo e de toda a gente: ou quase.
A pé, ao sol, da Solum, a-ver-vamos: vinde daí comigo. São as 16h59m. Nomes e actos do périplo: Travessa do Teodoro; Rua Manuel da Silva Gaio (escritor e poeta – sécs. XIX e XX – antiga Rua da Arregaça); painel a cores de seis azulejos 15x15 representando a Rainha Santa Isabel pintado pelo meu Pai encimando a porta do nº 58 da Rua do Brasil; panorama largo de Santa Clara, à direita, e de Banhos Secos, à esquerda; Parque Dr. Manuel Braga (homenageado pela Cidade no dia 23-3-1958); a petizada urbana, que nunca viu galinhas senão nuas e decapitadas e congeladas, diverte-se a correr almoravidamente atrás dos pombos do Jardim; passa um velhote, unionista como o Quim Jorge e como eu, mas de emblema à lapela; Hotel Astória: sem adjectivos; Rua Simão de Évora; Rua da Louça; (não havendo pressa nem sítio aonde ir, tudo é perto); siga; Casa do Sal (ponto tão antigo); Rua Figueira da Foz (onde, no primeiro quartel do século XX, o meu avô paterno, José Abrunheiro, mantinha um quarto de dormir – sendo um dos primeiros condutores de carros eléctricos da Cidade, nem sempre os turnos de serviço lhe permitiam ir dormir à casa de Antuzede); Beco do Arco Pintado; Monte Formoso; mas antes, pausa no Búzio Bar para repouso, assento e refrigério gasoso (na rádio-ambiente, som de The Power of Love, dos Frankie Goes to Hollywood); (pode ser, avento eu, que às lágrimas assista a virtude paliativa da talassoterapia); fronda-sombra-cal-sol-anil-cobalto-beira-leira-tarde-arde-jardim-anca-maçã-Ançã; junto ao parque infantil entre a Estrada de Coselhas e a ladeira do Monte Formoso, há uma das cápsulas sanitárias que há umas décadas “modernizaram” Coimbra, dessas de pagar pa’ cagar – um colega da Faculdade de Letras (ele era de Clássicas, chama-se Jorge Deserto) dizia, melífluo, que as nunca utilizaria porque um gajo se arriscava a, no fim do serviço, sair na Austrália; entram no Búzio (entretanto, cumprimentei o João Brasileiro filho, patrão da casa) três magníficos maduros de maduro ingestores; uma suave fadiga almofada-me o corpo (não o do Deus do corrente feriado); esplanadas de baquelite encarnada; e M. & I.

IDEÁRIO DE COIMBRA - podografias de retorno – 3


3. POMBAL, IDA E VOLTA



Coimbra e Pombal, 2 de Junho de 2010

O dia da expedição a Pombal começa às 05h33m, hora a que acordo para me resgatar de sonhos maus. Transpiração fria sob mantas atabafantes. Fumo um cigarro à varanda, acendo o candeeiro, prossigo na intimidade do Casal de Windsor, WE (Wallis/Edward). Antes das sete, evacuação, barba e banho. Uma chávena de café-com-leite em pastelaria igual a todas. A pé até ao Nosso, no Calhabé – mais Windsor e mais café-com-leite. Às 08h52m arranco pela do Brasil até à Estação Nova. Um pouco antes do Jardim-Escola do Roseiral, topo o meu irmão Fernando subindo a pé pelo passeio oposto. Sinalizamo-nos, vamos tomar um café. Falamos, ele vai à Carlos Seixas. Generoso e triste, como muito poucos. Separamo-nos. Eu encontrara no chão uma fatia de pão. Trouxe-a, dou-a agora a um belo melro do Parque. No degrau do limiar de Coimbra-A, visão de uma gota de sangue ainda fresca: nítida, rútila, humana, ilegível. Comboio regional 4508 às 10h25m, preço do bilhete 3,30 euros.

Pombal, trabalho burocrático cumprido. No Pic-Nic do Armindo, à Rua Amílcar de Sousa, fazendo horas para o regional das 18h42m. Vã esperança de o amigo Evaristo dentista me devolver a chamada a tempo de me libertar deste canino irremissível como um erro. Chorões bonitos, frondosos, mesmo em frente. Estou a cinquenta páginas do fim da história íntima dos WE Windsor, Wallis/Edward. Grande história na História, esta. (A degradação dos dentes tem a ver com a da vida que se levou/leva?)
(Mulherecas bradando moralidades na mesa ao lado: “Peixeiradas na rua, detesto!” – tautologia redundantíssimo-pleonástica, pois que “peixeiradas”, só na rua; em casa, são “carnificinas”.)
Regresso a Coimbra-B no regional, afinal, das 19h46m (atraso de cinco minutos). Paragens para a minha História (além de outras paragens menos viárias mas por igual férreas): Pelariga, Simões, Soure, Vila Nova de Anços, Alfarelos etc.
Fome. Ou apetite, que é diferente. Um saco carregado de roupa e calçado, uma pasta com o computador, outra com cadernos, a de tiracolo com as miudezas do costume: lápis, afiadeiras, papéis cuja demora conserva a insensatez da retenção – e mais etc.
Formoselha-Santo Varão, claro. Ainda é de dia, abençoada claridade longa de Junho. Pereira do Campo. Ameal. Largos, aquíferos, verdes, orizícolas campos do meu Mondego. Luzem como água de olhos verdes. E quão nenhum desespero remordem no entardenoitecer. Vila Pouca do Campo. Deflagram a hirsuta nogueira, o comovido pessegueiro, a parra que imita a mão aberta, o choupo guitarrista – e Taveiro, Espadaneira. Para sul, eis o regional ’té Entroncamento. Céu de cobalto alto e lavado, bonito (não pára em Bencanta, este).
E Coimbra-B, vê.

11/06/2010

IDEÁRIO DE COIMBRA - podografias de retorno – 1 e 2





1. ESCRERREVIVER COIMBRA


Coimbra, 31 de Maio de 2010

Estou de volta à Cidade que, através de um homem e de uma mulher que se amaram, me deu nascimento.
Este caderno abre-se ao sol grande da larga tarde. A luz é toda, mas andam sombrios de economia os rostos dos meus conterrâneos.
Cumpre-me escrerreviver as ruas velhas e conhecer as novas. Ando sozinho – como toda a gente na vida. Já passei hoje à do Almoxarife, à Velha, à Adelino Veiga, à dos Sapateiros, à do Brasil, à Gago Coutinho.
O Mondego é uma veia viva. Apetece tomá-lo aos haustos. Vi uma prostituta tomando o refresco de um vão de escadas, um quase nada antes do Paço do Conde. Vi uma mulher sem um braço a comer um pêssego e a pedir esmola ao pé do extinto Carlos Camiseiro, à Praça Velha. Revi a Casa de Hóspedes Europa – COMIDAS E DORMIDAS.
A tarde é a Grande Rosa Amarela-Branca. Somos dela os insectos, o homem-pulgão, a mulher-libelinha, a criança-joaninha.
Escrevo no Angola, café amado pelas putas pobres da zona. Toca-me um pouco certa ansiedade que só pode resultar da incerteza e da solidão. Sem receio, porém, seguir em frente.
Por exemplo, Portagem adentro até à umbrosa fronda do Parque. A brisa fluvial abençoa. Gente espapaçada a dormir ao comprido dos bancos. Sigo pela Rua do Brasil, longamente, largamente, até ao Calhabé. Soslaio o Campo da Arregaça, depois a Vila Marini: nostalgias sãs. Paro nO Nosso Café para refresco.
Tenho visto muitos homens doentes pelas ruas. Não são velhos, não ainda. Coimbra tem muito de mentes avariadas.
Quantos anos estive fora? E agora – volto a tempo? A tempo de quê? Caminho para os cinquenta, amo os rios e as árvores, as noites nem sempre me são nações benignas.
No televisor do Nosso, ressurge o malogrado Vítor Damas, em acção no Mundial de 1986, no México, contra a Polónia.
Depois, mergulho no Flaubert de Uma Alma Simples e desvaneço-me.

2. COM OS DUQUES DE WINDSOR, SOZINHO

Coimbra, 1 de Junho de 2010

Sol febril da Rua João de Deus Ramos (1878-1953, pedagogo), à Solum. Também febril sempre, Doistoiewsky (Sonho de um Homem Ridículo). É o dia primeiro de Junho. Namoro o fresco do Nosso à luz de uma história de amor de há quase oito décadas: a de Wallis e Edward (VIII de Inglaterra), depois Duques de Windsor, na sequência da abdicação do monarca apaixonado. Michael Bloch compendiou, anotou e prefaciou deles a correspondência íntima. O prefácio é de 24 de Abril de 1986.
Escoro com livros a minha vida. Faço menos mal, essa parte. Releio o senhor Conde de Ficalho (A Caçada do Malhadeiro e outras histórias).
E então desfere-se a noite, a Grande Mãe de todos e ninguém. Boa temperatura, contudo. Amanhã, regresso de um dia a Pombal por trabalho.
E depois, de novo Coimbra, onde me cabe convalescer para ser e opalescer.

10/06/2010

Rosário Breve nº 158 - www.oribatejo.pt

Uma desventura na Educação



O primeiro-ministro disse que “seria criminoso não encerrar escolas com vinte alunos”. Disse, disse. E pensa-o. E já deu ordens à “tia” Alçada, a das aventuras aqui e ali no país da deseducação, que as mandasse fechar. E ela mandou.
Ou eu estou doidinho ou a verdade está nos antípodas: criminoso é encerrar escolas. Fechar uma escola no interior é cancelar de vez a interioridade. É como fechar urgências, centros de saúde, tribunais, postos da guarda, fábricas. É a mesma coisa. Fechar uma escola é obliterar a geração presente vezes as futuras em cada município, cada freguesia, cada lugarejo de pastorícia e amanho da nabiça.
É necessário garantir ao primeiro-ministro que a Escola não é um sítio perigoso. Pois se até serve para vender “magalhãeses”… É preciso demonstrar ao primeiro-ministro que a Escola é um sítio a que toda a gente deve ir ao menos uma vez ou duas na vida, já que nem todos os estabelecimentos podem passar cursos por fax.
A sério, a sério, esta gente é perigosa. Ou eu estou doidinho ou está ela, ela esta, esta gente. Acontece que fiz os primeiros quatro anos da minha escolaridade antes do 25 de Abril. Cristo, ao alto da ardósia negra, continuava escoltado, como no Calvário, por dois ladrões, no caso Thomaz e Caetano. Mas aprendi a ler, a escrever e a contar, trindade de competências (como agora se diz em vácuo “eduquês”) que me ajudou, vejam bem, a pensar por minha mesma cabeça.
Se calhar, o busílis do encerramento em massa de escolas não está no frio economicismo de uns tantos tecnocratas de pacotilha simplex. Se calhar, o busílis do encerramento em massa de escolas está, precisamente, no perigo de as criancinhas virem a pensar por suas delas mesmas cabeças.
Ora, sabe quem estudou que o povo mais fácil de governar (ou pastorear) é o ignorante. Quanto mais carneiro for o maralhal, mais o pastor e seus mastins têm direito a cajados de ouro.
Eu não sou carneiro. Mas que isto me chateia os cornos, chateia.

08/06/2010

Últimos Dias do Caderno Chinês (VII - fecho)

VII – TRÊS DIAS DE CÃO EM UMA VIDA IDEM



Pombal, 5 de Maio de 2010



Dez da manhã.



A sombra divide aquelas duas casas.



Os olhos desta mulher falam sozinhos.



Uma máquina vermelha: sentir saudades.



A cabeça é insuficiente no mundo bastante.



O sol olha, o sol molha, o sol m’olha.



Falo com homens na praça. Través as frases, sinto lateral o rumor das árvores. Elas sempre assim foram, nós homens não. Consigo pensar nomes ao mesmo tempo que cores. Saio do meu coração para abrir uma fonte – ou uma carta. Isto não significa. As mulheres presidindo a bancas de tremoços. Fantasmas de carroças carregadas de carvão: as leituras. A minha Mãe vai morrer – e as Vossas, meus senhores? Quanta beleza, quão terrível beleza, a deste mundo. A minha vida com uma camisa azul. A força brutal das viaturas. Eu era para fazer casas, desfazê-las é porém quanto escrevo. Às vezes, estou sempre no Inverno. Outras, cuido do mar como os antigos de hortas. Faz falta ser feliz por segundos. Nenhuma tara subjaz ao meu gosto por olhos feminis e por maduras mãos masculinas. Agora já não inverto aquele pinhal. Olha a mulher-da-erva, olha a noitinha infestada de lírios, de tranças de menina, de bebedores sós como cães – ou como versos. Isto será um dia a minha força. Ao sol, uma vez em Antuzede, o meu Pai vivo falando com homens, ele a sentir ao mesmo tempo cores nas frases, tenho quatro anos. A minha boca doente quando ouço. Poder dormir quando se pensa numa ponte. As pessoas desconcertadas ante a beleza descomunal das minhas Filhas. Uma vez, em Viseu, gatos pequeninos como miniaturas da Pobreza Católica. Os ventres das mulheres espadanando leite. As máquinas vermelhas sentindo: cabeças humanas. Sê bem-vinda à minha esquina mental. Aqui, a esta esquina, é tudo antes da morte e depois da vida. Arquétipos: Hercule Poirot, D. Quixote, o senhor Sacramento, a Maria. Olhos que não conheço: lendo isto. Isto não significa, isto é além. Vidas em França pensando Portugal. Portugal é a minha terra-limite. Estava eu a ser moço quando o Tempo me atacou todo de repente. Quando compreendi um verso. Faces como capas de livros. Livros semelhantes a pessoas. Um perfil de gazela, as letras-esquilos, a floração (não, a fundura) púbica dos bosques. Alfredo Marceneiro numa Lisboa a preto-e-branco. A Dor: a Vida. Ainda assim, a Beleza. Os passitos cuneiformes das gaivotas pela areia do Baleal. Nós agora, ainda. Continuo a falar com homens na praça, o Sol de cada um deles, o rumor das árvores refrescando as frases, as cores. Ritual e camisa azul. Esta carta por abrir. Uma fonte voejada a pássaros, a ourivesaria sistemática das laranjeiras, a força fulva, flava, do Outono. Calado, sem dinheiro, assistindo ao fragor da espuma no farol. Não ter sido marinheiro. O coração das meninas ciganas batendo fogueiras. Ter frio, procurar o lume de um verso justo como um santo. Instrução para sempre: sendo menino, abrir uma romã e compreender rubis. Tenho irmãos no mundo: este é o meu Corpo. A raposa como uma labareda. A flecha erótica zunindo em bancos traseiros. Parado ante o Pavia, o Arunca, o Mondego, o Tejo. Na Figueira da Foz, à tardinha, depois do Café da Pernambucana, entre taxistas, meretrizes, bancários e republicanos. Uma vez, ante um pianista e um piano. Um vestido azul ao vento de comboios. Os livros que não pude. Em Leiria, certa ocasião, os filhos do senhor Salvador do Restaurante Monte Carlo. Tu amas-me. Se olharmos com atenção, as cabeleiras são sistemas de algas. Verde, verde: matas de jade. Rubro, rubro: bosques de esmeralda. Se esmigalhássemos o coração, obteríamos quartzo e vozes. Mansidão do Adormecido: mas dormir ainda me dói. Isto vai ser Coimbra-B, Buenos Aires nunca/nunca/nunca/mais. Clarões brancos de roupa estendida: e infâncias encerradas em quartos verdes. A minha Avó materna ria-se com lágrimas, a outra não sei porque não posso saber tudo antes de nascer de vez. Ruas: Nicolau Chanterene, Moçambique, Vasco da Gama, da Amargura. Sistema mais praticado da Vida Nacional: olhar os outros sem os ver. As máquinas voadoras: mais olhos. Sentado em umas escadas de prédio, atendo o telefone: e que ouço, uma voz, um pretérito, um rosa digital e/ou um convite para jantar sem ser só pão? Um homem tinha um filho muito doente – e depois o Pai Natal foi ao circo. Ter um saco de pano para pão mas repleto de esmeraldas, atirá-las todas ao Arunca menos uma, esta é para ti. Estipêndio e vilipêndio. A face amolgada de tristeza: que terá acontecido a esta mulher, a este cão? Sim, a minha Mãe urinando-se sem continência, sozinha na sala, os livros todos de Júlio Diniz em frente, atrás tudo o que volta à mente dela, as sinapses desligando-se mais e mais, o rumor das árvores emaranhando as frases, as cores, as dores. Em menino, no Monte, olhando as formigas: sendo Deus, portanto, um deus-menino. Funcho, trevo, urze, giesta, hortelã, espargo, o meu Pai vivo para a pintura, o cheiro a febre infantil dos remédios na cabeceira, o médico ao domicilio, Edmondo de Amicis, Mark Twain, R. L. Stevenson e o Pai Tomás na Cabana da senhora Harriet Beecher Stowe. Depois, o clarão de um verso, o fervilhar do plâncton, a areia toda sideral entre os dedos dos pés, os Filhos e as Filhas dos meus Irmãos e da minha Irmã. Estes homens tão cegos, mas os olhos desta mulher. A saliva adocicada: beijando uma gata. A monção, o favónio zefirando a pele, través a ponte, voando um rio. No Caramulo, entre os fantasmas da tuberculose, pelo Parque urdindo Camilo Ardenas. Em Lisboa, sozinho no Metro, sem perceber a noite que se me fechava como os serões das casas ricas. Assomos de ascética dignidade, no Rossio, nas Portas de Santo Antão, na Prior Coutinho, no Largo do Andaluz. Não poder fazer isto mais simples. Em Pombal, no Louriçal, urdindo Cristalino Vicente, sozinho em Leiria com uma saca de pano para pão repleta de livros e sem pão. Gostar de ortografia como outros, de motores. Conheço um marinheiro, um único. Acho pouco. Só que às vezes acontece-me remediar o mal-de-pensar com excelente prosápia de balcão de bebedouro nocturno. A senhora Saudade, o senhor Gabriel, os senhores Adelino C. e Adelino L. Uma noite num café-com-livros ante pessoas gentis que se perguntam em silêncio coisas a que não sei responder porque ainda não nasci na morte. Olha, um polícia fardado de pombo. Mais um pouco, um pouco mais só – e teremos sido amanhã. Tenho este amor todo nas mãos, mas os braços caem-me. A lavanda da Finlândia é odorífera na Cultura Geral. Os casamentos das pessoas, as andorinhas de barro nos pórticos dos casais, o Irmão Doutor Sousa Martins e Axel Munthe. Ter sido amanhã um anjo terminado. Uma profusão de morangos, uma mulher nua querendo-te, o quartilho de água mineral povoado de invisíveis mergulhadores que respiram bolhas de banda desenhada. Ah sim – e a Música. A Música e o Sol e a Chuva e a Churrasqueira do Cardal. Coisas deste mundo: as dores de dentes, o funeral do Pai do Joaquim Jorge (outra vez Antuzede ao sol mas já não tenho quatro anos), no bar das bombas da Redinha, Peniche forever, a prosa alemã e a poesia espanhola, passar aço na cara para poda da barba, um pouco de água nos olhos vinda de dentro. Magia de dizer lótus, dizer opala, dizer safira, dizer terracota. E dizer assim: crianças são como maçãs. Tempo de frescura na Casa-de-Pasto Cardigo, ocasião para repensar o urdume narrativo da minha vida-agora, escolhendo não saciar por antecipação a morte, pensando Vila Real de Trás-os-Montes, Tavira, Penamacor, Setúbal. O Professor Bambo das astrologias africanas, a rarefacção psicológica das divorciadas que o consultam, a minha vida há cinco anos em Viseu, a Lameira do Saramago de outrora é hoje Rua 1º de Maio na minha terra, para quê, para quem. O Nada – profundamente. A vilegiatura, sabática por assim dizer, dos adoradores do Astro-Rei, uma espécie de Egipto portátil em vez de coração. O César fazendo-me rir, o Casal de Fernão João, a louriçalense Fonte do Areal, o esvaziamento governamental da suposta Democracia, as referências mesmo assim guardadas hialurgicamente na memória activa, digo: Salgueiro Maia, Che Guevara, Julio Cortázar, o professor António Marques. Às vezes, entre comedores de grelos aferventados e pescada cozida, ponho-me a ler o Correio da Manhã como se nunca houvera lido Thomas Mann ou Mercè Rodoreda. E não tem importância. Digo um adeus cortês ao Zé Manel da Chave Verde, no outro dia até cumprimentei o Abel, que era quem servia à mesa no Restaurante Verde Gaio. Tudo passa, embora nem tudo se possa. (Esta é a minha mente a trabalhar.) O Tó Pereira algo acabrunhado, o Toninho Varela nas mãos voluntárias da Música, o Gènito das Finanças que colecciona os livros da Vampiro, devo duzentos euros de IRS não sei por alma de quem, convidaram-me para escrever um livro  e é o que estou a fazer na manhã aliás gloriosa de 5 de Maio de 2010. O João Pedro tem uma filha em França, chama-se Ana. Aquele homem come uma maçã de casca encarnada. Às cinco e meia da tarde tenho um trabalho sentado para fazer, o que serei na vida depois é que de momento não sei dizer. Coisas que no ent(ret)anto sei: Jorge de Sena é um gigante; o sabor dos frangos da Pérola é diferente dos do Rei; Leonor e Teresa são os melhores nomes portugueses para filhas portuguesas; até a corrupção autárquica é pobrezinha-graças-a-Deus; a música de Bach muda as glândulas de lugar a uma pessoa, caraças; o homem da maçã de casca encarnada está a fazer barulhos de chupar os interstícios dos dentes sem se chatear com nada nem ninguém; os agentes da PSP Escola Segura parecem mesmo periquitos, enquanto os de giro pedestre são totalmente pombos; António Osório é o mais fino poeta português vivo; as azeitonas doem na infância; perder uma mulher é perder a sério sem segunda volta; o ensino de Língua-Pátria deveria voltar a ser de facto ensino; o João Henriques Marques sabe da poda tabeliã; as minhas sobrinhas aturdem o mundo por causa da beleza invencível que as enforma; Nuno Bragança é outro gigante, idem Dinis Machado; as cegonhas do Louriçal e o que sonhas no Louriçal; as emoções aglutinam possibilidades versilibristas; uma ocasião, chorei à chuva ante uma casa cor-de-rosa; o João Faria é o protótipo do Louco Feliz; há versos de Sá de Miranda que uma pessoa, sinceramente, senta-se e sente-se; de Camões, então, ainda muito mais, caramba e carago; posso finalmente escrever quase tudo para ser quase nada. De repente, é uma e meia da tarde. Vou falar de um amor.



Era a minha vida vestida de outra pessoa – era portanto o amor. Eu tinha sentido o carácter cancerígeno da solidão, mas a outra pessoa aparecera, nada restaria de pé como antes. Assim foi. Vibrei como um junco de lago sobre que pousa o pássaro do entardecer. Despi-me. Comecei pelos olhos. Eu coleccionava máquinas encarnadas como maçãs (ou sãs crianças). Até me acontecia ser um formoso rapaz, o castanho português dos olhos encimando bem o carmim da boca, o pescoço taurino, as mãos visitadoras de pergaminhos. Era sob a nespereira do pátio. Ela era uma rapariga e uma mulher e uma senhora ao mesmo tempo. Reproduzia, mexendo-se, a ginástica da rosa que a brisa toca de volúpia. Eu era uma camisa azul. O meu nome era Inverno. O nome dela era Rosa-do-Inverno. Correram, águas sob ponte, alguns dias. As noites trituravam lâmpadas diamantinas – e a Lua uivava como as mães dos lobos. Quase não escrevia, esse eu de então. Comovia-nos a visão dos gatos pobres, o rótulo de champanhe dos peitos das freiras, a visão diáfana dos pinhais do litoral, a natureza aurífera do riso, tudo nos comovia em ademanes de encontrados uma-ao-outro. Se tínhamos dinheiro, comprávamos um bolo e comíamo-lo a meias passeando pela cidade poderosa das chapelarias, dos videoclubes, dos chafarizes, dos polícias columbófilos, das crianças emanadas do amor lácteo dos outros. (Que a minha mente funda mulheres, não é por mal.) Depois, eu tinha um duro trabalho de amontoador de pedras. Passava o dia e os dias naquilo: amontoava pedras, chegava à noite com as mãos cheias de estrofes. Éramos quem ia nascer amanhã. Também éramos os morituros, todos e todas o são.



15h43m, deixa lá o amor e dele as tessituras. O Magno Sol torna tudo o que é ar esplanadas. Cristopher Walken em cine: visão rápida cruzando montras-passeios. Fulgor e febre. Vendedores de carnes-frias. Contacto. Luís e Américo, um de cada vez na rua em cada rua. Enciclopedismo e rapid-eye-movement. Periferia melancólica e bares forrados a madeira como bibliotecas de cristal. Uma cara: rosa-grená. Outra cara: flor-do-chá. As pessoas todas na antemão do Céu como balões e foguetórios em Verão de romaria. A pobreza delas: e a poesia delas. O rasto húmido de cães numa viela de navalhofadistas. Celorico da Beira em 1978. O Zé dos Poios, a necessidade de estudo dele. Os divórcios, o dia depois de tudo ser antes. O senhor Bloom e o senhor Joyce serem agora o(s) mesmo(s). Esta coisa estranha no coração: a filiopaternidade: ou seja: afagares a face de uma filha como quando filho eras e foste. A Miss Marple sincretizava o Mundo a partir da Aldeia. Um elmo de barbeiro para D. Quixote e um rosário de lágrimas & fodas para D. Inez de Castro. Morreram deveras as crianças nascidas (por exemplo) em 1383? Herculano, A., comendo queijo e peras no tugúrio do pastor – foi Alexandre deveras: e H.? Ah, eu não sei! E Correia Garção? E Martim Codax? Leonardo Di Caprio, em outra fugaz (gás, gás) montra de telelectrodomésticos. E o moço que de nome houve Cesário Verde – e o senhor que além de Camilo, que não Ardenas, foi Pessanha. Tanta, tão terrível tenebrosa (treva, rosa) Beleza, caramba-carago! Ou o senhor Chico & a senhora Rosa dos Foitos de outra minha vida. Às vezes, eu vinha do meu dia de amontoar pedras e sentava-me nos degraus da marquise a comer um pêssego. A vida assentava-me na fadiga como um inventário de Junho. E então eu não precisava de nada, só da minha criança correndo a casa como o bolor e/ou como a felicidade. Ruas: dos Bombeiros Voluntários, do Mancha-Pé, dos Navegadores, do Dr. Custódio Freire. Ou da Cidade de Saragoça, ou de Guerra Junqueiro, ou da Manutenção Militar, ou das Convertidas. Ou das Teorias de Conspiração. Ou dos Cravos Amanhecidos. Ou de Yukio Mishima Kawabata de Yourcenar. Pan Am e Varig. Lufthansa e Luftwaffe. This is not a smoking pipe. O meu Pai dizia que um fato pobre baseado em bons sapatos parecia melhor fato do que de verdade era. Percebo isso agora: um bom livro calça um mau homem. Tento. São Sebastião crivado de flechas. O João da Bininha. A filha mais nova do senhor Veríssimo. O filho mais novo do nosso primo Mário Chato. A permilagem, doença estatística mor do salazarismo. Mas: os cães da minha de todos infância, a correcção volumétrica deles no meu de todos pátio primevo: desenhos que respiravam, pinturas que comiam, esculturas que ladravam, peças de música com carraças gordíssimas tais ervilhas em amarelo. E ter pena de morrer não ser tanta pena como a pena de nos morrerem? E a vida alternativa das bebedoras de chá sobre peanhas-conas de sessenta anos ou mais até? Uma vez, falei com a minha cunhada Gracita. Ela disse-me “Lembro-me de ser muito cedo, eu e a minha Mãe.” Eu fiquei com aquilo. Depois, algumas coisas bateram na pátina das casas, era pela Arregaça, a vida não parecia tão rica como de facto é – ou talvez seja. Isto passa, eu entretanto tenho uma dor de dentes gravíssima em Janeiro de 1985, pego num alicate ferrugento e parto o dente ao tentar sacá-lo. Diferente disto é Pierre Nordon biógrafo de Sir Arthur Conan Doyle, criador de Jeremy Brett, perdão!, de Sherlock Holmes. O Gitó e o Godinho interrompem isto, mas o guarda-redes do Celtic morto com um pontapé na cabeça, mas o Caso Profumo por causa daquela puta tão boa, mas enfim. De resto, a redenção que, entre árvores e homens e frases e cores e rumores, espero ainda. Soeiro Pereira Gomes? Ferreira de Castro? Quiñones? Serrat? Tudo. Todos. Vita Brevis. A Revolta do Grelo, digo, Coimbra-1902? A função dos tribunais, a coimbrinhice medonha e reles da mediocridade, Molly & Molloy, os mauzões de Chicago do meu defuncionado Amigo Guilherme Pais, George Michael & Filomena Daniel, os azulejos azuis do Bar de Direito, as meninas em flor que euforizam por segundos quem as vê passar. O resto do meu livro e o rosto da minha vida. O Zé Alvim e a mulher. O Tó Mota fatigado de tanto trabalho, tanta hora. O Max da Madeira, tão bom músicactor. A div(in)Amália. Trabalho às cinco e meia desta tarde mesma, depois o quê, com quem. Espero a noite – e a noite espera-me. Rasto de pó, circuitos comerciais, Samba Pa Ti, o Verão de 1978, o Verão de 1987, isto dos números serem mais do que letras. Penso ter ido em o mesmo 1978 ao cinema do Colégio de S. Teotónio. The Song Remains the Same etc. e John Bonham ainda era vivo. Era tudo tão mais fácil. O latim tem seis declinações correspondentes a outros tantos casos sintácticos. O vocativo de Senhor é importante por ser o vocativo do sacristão, isto: Dominus, Domine. Outra coisa é a Tristeza Residente: a saudade diária das filhas que os ex-casamentos apartam, as pizzerias, as montras como jóias terminais da noite das noites do século dos séculos, os enfermos grisalhos do Instituto de Oncologia, o João e a São Pinto. Na Emídio Navarro, muito antigamente, foi num Primeiro de Maio, eu e o Tó-Mané Abreu entrámos na Cervejaria da Fábrica. Aquilo estava concorridíssimo. Voemos canecas e adentrámos tremoços. Pedimos a conta. O empregado não foi resoluto, mandou-nos aliás, com alguma aspereza, esperar. Olhámos um para o outro sem sintaxes nem morfologias. Viemo embora-nos. Sem pagar. Ainda hoje gosto de o encontrar e lembrar-lhe essa poupança. Ele ri-se todo. Isto nada conta (mas conta). A Greve Académica de 1907 e Alberto Xavier? O Dragão da Rua da Porta Larga? O Café Angola? Os panilas cheiro-a-piça da Sereia? A Educação? A Instrução? O meu Professor Elias Rodrigues Faro? Mato-me agora ou não? Que seriedade é passível de tanta literatura? Espero a noite, não gostarei muito dela – e são as 17h09m. E a noite vem, acampa e é dormida em solidão.



Pombal, 6 de Maio de 2010



Dez da manhã de hoje. Por alturas da ponte sobre o Arunca, confirmo que a minha vida é única e mediúnica. E também – que o Sol desce e incandesce. O senhor Ilídio conversa com um homem de pulôver cinza sem mangas. É uma conversa portuguesa. Falam da criação de animais nas terras. Falam de adubos, máquinas, cargas de lenha, veios de água, borrachas, rotores, mais animais, gente que está na Suíça, juntar erva, padarias, foices, farpões, ferramentas, irmãos, tractores, viadutos, arranhar o chão, ser e ter e haver sem dever. Estou suspenso de atenção. (Pareço que não estou por ter os cornos enfiados no caderno, mas estou.) Na parede, sobre a porta que dá para o reservado, o relógio vigora o assassínio insensível, invisível e multitudinário. É quinta-feira, meia manhã subiu já árvores e montanhas e prédios e cabeças. Este é o nosso tempo no Tempo: nosso primeiro e nosso derradeiro. Penso naquele documentário dos suicidas da Ponte Golden Gate de S. Francisco, The Bridge. Também penso naquele filme com a Kidman, The Others. Observação e recriação da Beleza. Não desistir disso, por favor. Pensar em Sintra, pensar em Peniche. Passar em altifalante silêncio junto ao Mercado, depois Tribunal, Monumento aos Heróis (róis, róis) do Ultramar, ficar sem tinta na caneta. Não tenho medo. Respeito a tristeza, mas não tenho medo dela. Sou uma sombra entre sombras. Não desisto da novidade revisitada da Beleza, disso não desisto. Frecho oblíquos raios de oiro través persianas, colecciono o pó sideral devassador de cortinas. Comove-me tudo quanto é meninas. Penso no João Mário Gonçalves tão terminalmente doente em casa. Tafetá, lucilar, coruscação, trópico tópico. Essencial, acessório, decorativo, final. Treva e trevo, mijo e sangue. Depois, as pessoas vão-se embora, elas têm de ir-se embora, elas, vãs, vão. Uma senhora assim para mim no Figueiredo da Guia: “A vida, não vale a pena vivê-la.” E eu a contrariá-la com delicadeza e ela na dela. Entristeceu-me, era tão de manhã ainda, ela ali entre bebedores de minis e arrotadores de tremoços, ela se calhar com funda indescoberta vocação de Galerias Lafayette, não sei. Penso em pintores. Consumo o meu instante. Ardo a minha hora. Cinzas da infância que, fugacíssimo, fui. As aulas da Primária: a memória é madeira. Tantos homens sós – todos um de cada vez. Ermida, Carromeu, Portocarro, Mira. Fortunas rápidas dos patos-bravos. Cal e gesso e giz e jade. Dúbio Danúbio ubíquo iníquo. Esplendor, Inglaterra, traço a tinta de boca sobre dentes de papel.



Pombal, 7 de Maio de 2010



Dez da manhã de outro hoje. É agora. Aquela mulher é muito corada, parece uma maçã alta. Cai morrinha, o Sol de ontem é uma nostalgia. Não estou mais triste que de costume. Faço por não pensar muito. A vida é estranha, a vida é maravilhosa. A chuva esmigalhada em farinha aérea também é maravilhosa. Leio um pouco sobre Hitler. Trabalho a História.

Últimos Dias do Caderno Chinês (VI)



EM POMBAL, DEPOIS NO LOURIÇAL


Pombal e Louriçal, tarde de 29 de Abril de 2010




Desde ontem, o sol enfebrece. Falta nitidez a este céu. A temperatura apraz, porém. Um rapazinho de óculos à Alexandre O’Neill desenha num caderno pontos de interrogação ão ão. Entre amanhã, 30, e 2 de Maio próximo, o Circo Chen acampa na Quinta das Courelas. Os circos estão para a sociedade como, em notícia, os adjectivos para os factos. Publicidade ao aperitivo francês Ricard num mostrador de casa-de-pasto (Ti São). No Largo das Laranjeiras (a que pombalenses mais antigos chamam Do Bacalhau – por causa do formato da calçada que alberga árvores, bancos e charco em pedra redonda), velhos assombram-se numa placidez reformada.
Afinal, consegui voltar aqui. Mal me lembro de alguma vez Sintra na minha vida – ou Massamá. Ontem é palavra tão remota como Antigamente. Vale-me não ter, ’inda não, morrido. Sobra-me um tempo, presente desde e para sempre, para ser ente. Ente e de tudo isto parente: a febre da luz, a ourivesaria perpétua das laranjeiras, os sisudos sinais de trânsito, as crianças & os velhos, o paradoxo emocional de brisa/favónio/zéfiro que separa o coração próprio dos alheios dele homólogos, o carinho arrefecido das bonecas esperando nas montras dos bazares que as mães voltem a ser filhas, a ardência vitalícia e mortífera dos cancros detectados no Centro de Saúde pelo doutor Adelino Correia, gente jovem nomeada André, Cláudia, Daniel, Diogo, Fábio, Filipe, Frederico, Hugo, Marco, Mauro, Mélanie, Nelson, Raquel, Rúben, Vera e Zeferino, gente avoenga chamada José, Joaquina, Maria, José II, Joaquim, Alberto, Daniel, António, Serafim e Laurinda. O instante dissipa-se na febre e.
De repente, a luz mostra a mui antiga vila do Louriçal, que conventuada foi há trezentos anos por Sua Doida Majestade D. João V, o Luís XIV possível e local. Tenho aqui uma filha. Chama-se Leonor. Anda na vida dela como voam as aves nas delas. A terra dá arroz, laranja, vinha, milho e filhas. Sou o agricultor não pródigo que à casa do campo (nenhuma casa, mas todo o campo) torna. Sinto a presença das flores amarelas, do extenso chão melhorado pelo viço verde dos pastos, sinto o giz vertical da Capela de Santo António, saudades dos mortos que por aqui entretive vivos, o Armando José Oliveira encimando a melanc(o)ólica galeria. Que da minha vida? Aqui ainda vou volvendo, mas – e aonde não volverei? José, Joaquina, Maria, José II etc.
Ontem, em Leiria, expedi e arrecebi informações. Carlos Alberto, filho do extinto senhor Salvador, da casa-de-pasto Monte Carlo, disse-me da morte em Julho (sim, bruscamente, no Verão passado) do irmão. Jantámos lá. Bruscamente, é outra vez hoje, Louriçal outra vez, por umas horas mais. Em outra gaveta do meu tempo, vou escrevendo um livro de nomes. Também uma colecção de colagens próprias em verso. Tenho de ir fazendo coisas assim: primeira e última das minhas vi(d)as, a escapatória é a redacção. Ou: a redacção é a redenção.

07/06/2010

Últimos Dias do Caderno Chinês (V)

Sintra, fim da manhã, e Massamá, tarde de 28 de Abril de 2010







Já o pensei algures e algures o escrevi já: que a nossa morte já começou – nos sítios onde estivemos e a que não voltaremos. Igual destino aconteceu a outra descoberta pessoal: a de que eternidade e ubiquidade não apenas rimam como são sinónimas. De facto, só a possibilidade de estar em toda a parte ao mesmo tempo nos garantiria uma espécie de para-sempre.
Estes disparates, aliás mínimos, acabam entestando a certeza de que a minha vida é agora-hoje e aqui-agora. Não sei como será, se for, daqui-a-pouco-onde. Ninguém sabe.
Começo este livro ao cabo de uma fugacíssima passagem finimatinal pela incomparável Sintra. Duas horas não são suficientes para que tal pérola, Sintra, figure no estojo deste livro, porém. Voltarei aqui? Não sei. Espero que sim.
O entretanto chama-se Massamá. É pelo início da tarde. Faz um sol algo febril. O céu parece um glaucoma. Luiz Pacheco morou por aqui algures. Agora já não mora, está só morto. Espero as quatro da tarde para ir falar com uma senhora que não conheço sobre um trabalho que não sei o que é. Sei, porém, o nome da avenida onde prolongo a inconsequente abertura deste livro irrelevante: Aquilino Ribeiro. Perto, há uma escola chamada Eça de Queiroz. Pacheco, Aquilino, Eça: muita literatura-em-figura, apesar de tudo. Li uma placa direccional: Monte Abraão. Ruy Belo, portanto. E, em Sintra ainda, estive na Sapa, para uma queijada e uma chávena de café. Aí nos recompensaram com a bela surpresa de uma visita guiada ao estabelecimento. A simpatia do gerente, senhor Américo Soares, propagou-se-nos à sensibilidade. Levou-nos a conhecer a casa: cozinha e sala-de-chá, em cima, e fábrica das queijadas, em baixo. A Casa, bem para lá de centenária, é de uma higiene desconcertante. Os sanitários cheiram bem: poder-se-ia, sem nojo algum, comer neles. E nas paredes, vizinhos de retratos antigos dos donos antigos, estão expostos trechos do grande Eça a propósito das queijadas da Sapa. Espero voltar, um dia em que a minha vida se não haja, ainda não, tornado noite.
Em Massamá, uma cadela cumprimenta-me na esplanada onde escrevo. Gentil, gorda de bem tratada, casaco-pêlo castanho-dourado, coleira vermelho-jade. Afaguei-a, deitou-se-me aos pés a absorver a sombra. Senhoras maduras, óc’loscurados, de carnações prósperas e roupas cortinglês, palram na mansidão da hora. Rumo à Praceta Gomes Eanes de Zurara, passa, alto, um decote moreno de infalível fofura encimando uma blusa de chita sarapintada de flores vermelhas. Trago ’inda os olhos encadeados da botânica de Sintra, mas a visão de tal par de mamas não escaparia nem ao Stevie Wonder. A bênção é transversal: um suavíssimo favónio vem zefirando través árvores ao corpo. (Quero dizer que corre brisa.) Ao alcance deste observatório, professorinhas de Massamá, aos trios como mãos do jogo da lerpa, progridem passeio abaixo rumo ao esquecimento das gerações e dos séculos.
Há um aspecto em que Massamá se parece muito com Pombal, Viseu, Moimenta da Beira, Tavira, Abrantes e Vila Franca das Naves: os televisores dos cafés estão todos sintonizados na TVI, essa espécie de peçonha oftálmica da alegada pós-modernidade. Suporto mal o pus desta ferida, pelo que me ponho na alheta. Chego ao Bom Sucesso e acampo. Há, claro, o Correio da Manhã. Pego nele, folheio as facadas e o evangelismo dos bairros sociociganos. Nunca aqui tinha posto os bestuntos, mas é com certo alívio que confirmo a absoluta lusitanidade de Massamá: dois miúdos cabo-verdianos trepam um coqueiro disfarçado de nespereira de quintal de vivenda; uma musa de nádegas em trevo responde isto em brasilês a um telemobilista invisível: “São só quarenta euro, quirido, maiz lhi faço tudo, viu?”; os reformados suecam a solidão em prédios devolutos; há centros de formação profissional; e nos mostradores de vidro os croquetes de todo o ano rivalizam com os caracóis dos meses da segunda terça parte do ano.
Depois, até casa, Lisboa, Sobral de Monte Agraço, Mafra, Malveira, Leiria, Meirinhas e Fonte Nova.

06/06/2010

Últimos Dias do Caderno Chinês (IV)

Pombal, tarde de 25 de Maio de 2010



Cinzentos e vorazes como pombos de algum rossio, os meus dias correm por igual de boca no chão.
É quanta poesia posso e passo e peço.
Às duas e um quarto da tarde, espero chuva e ambulo.
Crepita de luz a ourivesaria, cheira a flores terminais a funerária, couro de cavalo exsuda o sapateiro Sebastião Ferreira, são lânguidas as nabiças que o armazenista recolhe em caixinhas de criança velha.
Em França, 1992, um homem destes aqui recolheu-se do que chovia ao umbral de uma capela.
Vejo-o, sou eu, não sou eu, não o vejo.

Últimos Dias do Caderno Chinês (III)

Pombal, tarde de 24 de Maio de 2010



Mulheres (duas) cortam o cabelo a outras tantas, oito com o espelho. São maduras como pêssegos loiros, as cortadeiras. Emanam calor e perfume fortes. É num salão que dá para o largo onde as laranjeiras brilham, loiras elas também, mas de um loiro sem outra força de secador que a do Sol. Um vendedor de loções espera vez de ser atendido pela chefe. Meio mundo e mais meio. O vendedor é um maduro de ar triste e casaco azul-escuro. Máscaras de creme, fixadores, placas de alisamento, madeixas de tinta, mises-en-scène, mas, brusca, a cena do cabeleireiro é trocada pela da casa-de-pasto.
Homens (dois) jarram tintura ante uma escudela de tremoços amanhados a alho. Porcinam orelha mui reformadamente. São a delícia melancólica de quem os lapija. A senhora aviadora é corada como uma romã das da infância. Há Dobrada. Um cigano velho graceja romanicamente para ninguém. Há um pequenino de setentas e tais, bigode branco, sem queixo, um penso-barba colado à flor da boca. Sol quase fresco no ocaso de Maio. Homens, mais homens. Os jogadores de cartas granadam falangetas no reservado.
Muitos homens e muitas mulheres, pessoas nem tantas assim.

Últimos Dias do Caderno Chinês (II - outro fragmento)

A formiga cabisbaixa baixa baixa.
É alta, entanto, sua vida falada entre
ramagens bosquíferas. Até os
peixes altos são, quando pensamos
quanto de céu tem o mar.

Últimos Dias do Caderno Chinês (II - fragmento)

Pombal, madrugada de 20 de Maio de 2010


Sou a formiga cabisbaixa
que as tocas da cidade cabeceia
de silenciosas antenas.
Toco de roídas patas os parâmetros,
os sinais de trânsito, o trânsito dos
sinais – e o destino comuníssimo
dos animais.

contra o açordo tugráfico, marchar, marchar

COMUNICADO À IMPRENSA




«Não pedimos, não queremos, e, sobretudo, não precisamos.»

António Emiliano, Foi Você que Pediu um Acordo Ortográfico?

Lisboa, Guimarães Editores, 2008, p. 30





Lisboa, 4 de Junho de 2010 – Está convocada uma manifestação de protesto contra o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990 (AOLP), na próxima segunda- -feira, dia 7 de Junho de 2010, pelas 17 horas, em frente ao Palácio Nacional da Ajuda, na cidade de Lisboa, durante a apresentação de dois instrumentos [o Vocabulário Ortográfico do Português (VOP) e o conversor para o Novo Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa (AOLP)], da autoria do Instituto de Linguística Teórica e Computacional (ILTEC).



O Ciberdúvidas da Língua Portuguesa promoveu o lançamento destes dois instrumentos, salientando que “este evento constitui o reconhecimento oficial, para além do da comunidade científica, da validade e do rigor do trabalho desenvolvido pelo ILTEC”.



Não existe qualquer reconhecimento, nem por parte da comunidade científica nem da opinião especializada, da validade da base científica do AOLP, que é a estrutura em que se sustenta este trabalho do ILTEC. Basta ler-se a extensa bibliografia sobre o assunto, para se perceber este facto.



O único parecer que sustenta o AOLP é da autoria de João Malaca Casteleiro, co-autor do AOLP. Poderá haver parecer mais parcial e menos científico? Não pode.



João Malaca Casteleiro não faz parte da equipa que elaborou o VOP do ILTEC. João Malaca Casteleiro é responsável pela organização científica de outro Vocabulário, o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (VOLP) da Porto Editora. Na badana da contracapa desse VOLP pode ler-se a seguinte referência a Malaca Casteleiro: «o representante da República Portuguesa que participou nos encontros que conduziram à elaboração do Anteprojeto [sic] de Bases da Ortografia Unificada da Língua Portuguesa e liderou a equipa técnica que assinou o Acordo Ortográfico em 1990», Como é que o co-autor do AOLP não é tido nem achado no VOP do ILTEC e como é permitido que se venda o seu VOLP sem se avisar que não é o oficial?



Como se permite que haja simultaneamente estes dois vocabulários em venda livre no território português, ao qual se junta um terceiro, o VOLP da Academia Brasileira de Letras, que Margarita Correia, principal responsável pelo VOP do ILTEC, considerou não se aplicar à realidade do português europeu? Como se explica que esteja no prelo um outro Vocabulário, o Vocabulário da Língua Portuguesa (VLP) da Academia das Ciências, anunciado em comunicado no dia 25 de Junho de 2009? Quatro vocabulários?



Com tanta confusão de dois acrónimos e uma sigla, com dois VOLPs, um VOP e um VLP, mais um vocabulário em linha da Priberam, mais os VOLPs, VOPs e VLPs que qualquer Estado de língua oficial portuguesa poderá propor, a pergunta essencial mantém-se por responder: onde está o “vocabulário ortográfico comum da língua portuguesa”, previsto no artigo 2.º do AOLP? Quantos mais VOLPs, VOPs e VLPs serão necessários para se perceber que este processo nasceu torto e que assim morrerá?



Qualquer Vocabulário oficial deverá considerar todas as facultatividades, que se revestem de carácter irrestrito no AOLP, e basear-se no conhecimento das pronunciações portuguesas vigentes em todo o espaço lusófono. A missão revela-se impossível, devido ao suspeito “critério fonético (ou da pronúncia)”. Se o Acordo não tivesse sido concebido com “um certo detrimento” para os aspectos técnicos, privilegiando-se a componente política, não teríamos chegado a este ponto.



Deve assumir-se a falência do projecto e não tentar atribuir-se uma aparência de qualidade técnica a algo que só politicamente poderia ter recebido qualquer espécie de aprovação. Do ponto de vista linguístico, o objecto em causa foi amplamente reprovado.



Não há estudos sobre as implicações no ensino de uma ortografia alfabética que se baseie simultaneamente no “critério fonético (ou da pronúncia)” da Base IV do AOLP e na “etimologia” das Bases II e V. Antes pelo contrário. Maria Helena Mira Mateus, do ILTEC, disse que “a ortografia portuguesa é fonológica e etimológica, e não fonética”.



A Base IX, 9.º do AOLP determina que “pára” se escreva “para”. Dos meios de comunicação que adoptam o AOLP, nenhum respeita esta determinação. Onde está o rigor?



Não há rigor nem consenso sobre as virtudes do AOLP.



Há uma maioria de razão sobre os defeitos do AOLP.



Pela Língua Portuguesa, pela seriedade científica, pelo nosso futuro, protestamos contra o alto patrocínio de um instrumento imposto, sem estudos técnicos, seriamente comprometedor para todos os que nele se envolveram e cujos malefícios para a realidade escrita da língua portuguesa são evidentes e para a realidade da língua falada manifestamente previsíveis.



Manuel Gaspar

Criador do grupo do Facebook

Anti-acordo ortográfico

(18 258 membros, em 4/6/2010)



Francisco Miguel Valada

autor de Demanda, Deriva, Desastre

- os três dês do Acordo Ortográfico

(Textiverso, 2009)

04/06/2010

Nomes ao Menos Moscas

Souto, 26 de Abril de 2010


What's in a name? That which we call a rose
By any other name would smell as sweet

WILLIAM SHAKESPEARE

Só é de temer o que não tem nome ou o não confirmou.

ERICH MARIA REMARQUE, O Obelisco Preto



Que me fazem em casa esta manhã os nomes de dois alemães mortos há tantos anos, Kapp e Bauer, dos idos de Março de 1920? Durante a madrugada, vieram ambos conspirar golpe e contragolpe de Estado. Pouco importa que sejam agora só tinta em papel: vieram e ficaram.
Ora, a minha vida não é a Alemanha. Para já, é esperar que o empreiteiro Falcão me telefone a confirmar que o último dos quatro pinhais da minha herança foi vendido a preço razoável e minimamente vantajoso para uma vida que não é a Alemanha. Se não concretizar a venda da madeira, terei sem dúvida de voltar à construção civil como segundo oficial de pintura ou, pior, como servente de cofragem. Em tal caso, voltarei a suspirar por essas paradoxais aves migratórias chamadas Gauguin e Brel, que demandaram no quente Sul o inverno terminal das suas vidas. Enquanto nem uma coisa nem outra (o pinhal, as obras), escuto da marquise os berros dos animais que o meu vizinho magarefe prende nos currais das traseiras. Cabritos, cordeiros, porcos, galos: nenhum deles espera a morte; pelo contrário, berram para que os soltem. Querem viver e querem fazê-lo em liberdade. Todavia, é a morte que os espera, serão depois peças limpas e penduradas no talho do meu vizinho, que é bom homem e sustenta a família e não se mete na aguardente como tantos outros desta aldeia de beira-estrada. Disse Kapp e Bauer como poderia ter dito o polaco Pilsudski e o russo Kerensky – dá o mesmo.
A manhã, por fresca, fosca e indiferente, floresce da euforia dos pássaros. Parecem-me voar mais depressa e mais cantores. Mas depois, a tarde assume baforadas de forno – e eles acalmam-se um bocado. Atiro fragmentos de pão endurecido para o tejadilho da varanda, onde poderão colhê-lo fora da atenção e do alcance dos gatos de casa e da vizinhança. O telefone continua mudo. As moscas retornaram da hibernação, que este ano foi longa. Voltaram em força, insuportáveis como sempre.

À Janela

Coimbra, entardenoitecer de 4 de Junho de 2010



À janela vendo o que não chove,
a minha vida quer ainda ser mais
do que o meu corpo,
coitada.


Se chove, sendo o que chove,
a minha janela não quer nem deseja,
olha e não é corpo,
em beleza.

Rosário Breve nº 157 - www.oribatejo.pt

Quanto futuro (não) temos


A taxa oficial de desemprego ronda, à hora a que vos escrevo, os 10,8 por cento da população activa também oficial. Quero lá saber disso. Vem aí um mês inteirinho de mundial da bola. É certo que a selecção alegadamente nacional só vai durar três jogos, mas mesmo assim Sócrates e seus acólitos têm razões feriadas para curtir mais uma temporada à nossa pala, mesmo com este alegre tiro no pé desfechado a favor do poeta Alegre.
Tanto desemprego dá muito trabalho. Ou deveria dar. Mas como já não mandamos nisto (porque abdicámos de direitos e porque nos abstivemos de deveres), que se dane.
Onde agora moro, florescem os abates de fábricas e de lojas e de oficinas e de tudo o que outrora deu de comer a quem trabalhava. Em contrapartida, irrompem as grandes urbanizações quadriláteras a juros dispara(ta)dos. Grandes centros comerciais sobem do chão vários patamares para que o nosso insosso povinho tenha por onde passear sem poder comprar nada. A mocidade grafita as paredes, imit’hip-hops lá de fora e anda pelas ruas com as calças a expor o rebordo das cuecas e o traço longitudinal que de cima para baixo dá lugar ao apartamento das pernas. A velhice pasma nos centros de dia a alzheimerar ante a pimbalhada das televisões alegadamente nacionais. A maltosa de meia-idade, essa não sabe nem o que há-de fazer, nem como desfazer o que nunca deveria ter feito, isto é, abdicar sem luta de direitos e abster-se sem ética de deveres.
A coisa não está boa nem vai ficar melhor. Qualquer pequena ilusão só pode gerar desilusão ainda maior. Claro que nem pensar em revoluções. Já não temos educação cívica nem consciência crítica para uma atitude histórica dessa envergadura. Ou seja: já nem uma vassoura sabemos usar, neste tempo de aspiradores industriais.
Vale o mundial. Aqui onde moro, o gajo do café fia as minis e os tremoços, embora só por um mês, que é o exacto tempo que temos de futuro.

01/06/2010

Como ontem ameaçado, regressa a versalhada. Esta é a primeira das últimas páginas de um caderno

Últimos Dias do Caderno Chinês





(Acabou-se-me o caderno que comprei aos chineses.)


I

Pombal, tarde de 11 de Maio de 2010

Uma sombra divide a minha casa em duas
até resto zero.
Uma sombra divide a minha casa em duas
sombras.
A minha casa torna-se rua.
Chove na rua.
Intermitências de sol: alguém
que diz, desejando-as deveras,
boas-tardes,
boas-noites.


Pode a luz de uma pessoa ser extinta?
Pode a luz da vela ser apagada?
Sobrevive a constância das árvores à escassez de vento?
Haverá garças no Nilo?


Décadas em minutos.
E a vida toda em um gesto.


Uma sombra multiplica a minha casa em casas
mil.
Passou entretanto Abril.
De bandas do Castelo, o chamamento mana
da perpetuidade mesma.
Sufraga o jardim seu caracol e sua lesma.


Vigora pelas artérias da venosa cidade
a beleza invencível das mulheres repetidas.
Conta-me este homem já maduro que
levou “a Namorada” a almoçar galo-do-campo
a um restaurante de barragem.
Ora, nós aos quarenta e tal anos já não
podemos namorar. Isso é coisa de
dezasseis a dezoito. O resto é sermos
sobras (sombras, igual) uns das outras, escórias de enganos
com partilha de bens e afinidade de
males. Não é?


Divido o tempo da escrita deste poema maravilhoso
com o redacção de uma crónica
de jornal. Ora chove, ora bate sol. A
menina Liliana deu-me as boas-tardes,
que eu retransmiti, rua mudada, ao
senhor Manuel Rodrigues Cacho.


A minha casa é uma emanação da sombra.
Conheço as ruas, o fervilhar de gentes.
O mesmo teor gentio das ruas subjaz à
precedência da existência em relação à essência.
Vale sempre, porém, a maravilha humorística
das rosas em quintais geridos por gente antiga.
Conheço lojas em que postais e louças
sobrevivem não sei como.
Agora, um raio de sol pintou de água amarela
aquela cornija, onde a pomba prospera e
a humidade tinge.
Agora, o senhor Manuel Rodrigues Cacho
diz que a tristeza não vale a pena.
Pois não pois sim, senhor Manuel.


Como faz (ou como se sente) aquele homem
que aos domingos almoça com mãe que
não gosta da nora?
Como redistribui ele pelos amigos a mágoa
duríssima que resulta de, tendo havido
filhos, não poder seguir gerando-os em
cada gesto?
Bem, isto de facto.


Diz a púrpura, Daniel.
Faz reconhecer o matiz, anda.
Muda tua mesma mesmidade.
Agora morrer não é preciso.


Passa o riquexó de província macaense,
passa o senhor Wenceslau de Moraes caminho do Oriente,
traça o senhor Wenceslau de Moraes a mort’a vida,
garça, haverá alguma no Nilo?


A dureza do olhar desta criança cigana.
Que violência a submeteu a nenhuma poesia?
Como arranjou ela moedas para dois gelados consecutivos?
E agora ela é já igual às que foram amanhã.

31/05/2010

Em breve regresso com a versalhada etc, mas para já o Rosário Breve nº 156

Instruções para ser infeliz


Definitivamente, a primeira instrução para uma boa infelicidade é ser português com livros. Ser-se luso com Mann, Levi, Calvino, Moravia, Céline, Mishima, Yourcenar, Rodoreda, Quiñones, Osório, Belo, Sabino e Martim Codax – não pode ajudar ninguém a ser feliz, mormente num tempeco de chicos zés viegas e zés luíses peixotos e possidónios cachapas e mias coutos que tais mais.
A segunda é ser português com olhos. Ver é uma coisa que prejudica o simples e animal olhar. Quem olha, vive. Quem vê, sobrevive – mas mal. Como em 1984 deixou escrito um poeta doente de Coimbra, “Quem tem um olho, é rei. Quem tem os dois, é abatido.”
A terceira instrução para uma infelicidade diplomada e certificada é ser português agora e já – derredor, as ourivesarias, as mercearias, as alfaiatarias e as demais quinquilharias primam todas por instalações-vídeo que filmam os roubos mas os não punem. Do Código Penal ao Ministério da Educação, aliás, a distância é nula.
A quarta instrução, por aparente paradoxo, remete para a felicidade pura e dura – essa estranha euforia tecnológica que transforma sobreiros em submarinos, partidas em contrapartidas, faxes em licenciaturas e cronistas tristes em parvos alegres.
O resto é o Mundial da África do Sul, José Mourinho, amantes correiodamanhãzáveis do Cristiano em solteiro e viúvos do futuro mais socrático e mais instrutivo.
Nisto tudo, a mãe do D. Afonso Henriques é que tinha razão, pena o gajo ser parvo e de Guimarães.
E feliz, se calhar.



25/05/2010

Tenho escrito mais coisitas, mas para já a crónica de O RIBATEJO da semana passada

Aqui dEl-Gay



Não sei se já vos disse quanto gosto de parar nas ruas para, ante as montras dos estúdios de fotografia, apreciar as imagens dos casamentos – gosto muito, não sei porquê mas gosto muito. Mesmo sabendo que quase tudo vai dar em divórcio e chatices com a filharada, gosto muito. A partir de agora, porém, não sei se vou gostar tanto. Com esta história do casamento gay, não sei não. A culpa (mais uma) é, claro, do Governo.
Atenção, muita atenção: nada me move contra a homossexualidade, nem a fêmea nem a macha. Juro que não. Cada um(a) sabe de si. Mas acho estranho todo este frenesim exibicionista, todo este carnaval genital, toda esta parafernália de beijos lambidos e soutiens em cima de pêlo e tacinhas de espumante em frente à Assembleia da República e aos nossos filhos gerados por via natural.
Entendamo-nos: um homem pode amar outro homem, uma mulher pode amar outra. Tudo bem. Mas o País tem outras urgências bem mais prementes, no miserável momento actual nosso e do Mundo.
Leis? Sim. Contra a corrupção, contra a falência, contra o roubo, contra a imoralidade, contra o tirano e contra o títere contra o lacaio e contra o pato-bravo.
Prioridades? Sim. A favor do pão e da rosa de cada dia contra a falcatrua do TGV, a favor do pequeno emprego contra o grande aeroporto, a favor da educação & saúde & justiça & segurança social contra mais uma ponte entre o sul de nenhures e o norte de sítio algum.
Enfim, pronto: tomai lá, róseos rapazes, e casai-vos ruidosa e pimbamente em alguma capela-RTP ou alguma ermida-SIC ou uma alguma matriz-TVI. E vós, raparigas de imaginária maçã-de-Adão, tomai lá e imitai os langores vestais da Safo e da Highsmith e da Yourcenar e daquela que tanto aviava cavalheiros de smoking como ninfas de chita, a Coisa, não m’alembra agora o nome.
Mas fotografai-vos com os telemóveis, facebookem tudo quanto vos aprouver – e deixai-me, ao menos, as montras com os casais de antigamente.

19/05/2010

Rosário Breve nº 153 - www.oribatejo.pt - 14 de Maio de 2010

Confissões e penitências



À histeria colectiva do Benfica juntou-se a histeria multitudinária da vinda do Papa.
À naftalina da euforia encarnada juntou-se, portanto, o bafio ultramontano de um catolicismo que continua a preterir Darwin em prol da costela de Adão, que teima em negar o holocausto da SIDA e a ver no preservativo uma espécie de dedo mole do Diabo, como já outrora deixei dito algures.
Confesso: comove-me um bocadito ver as escórias gentias do Quinto Império dependuradas do monumento à Rotunda do Marquês por causa do Benfica.
Confesso: enternecem-me os rosários de gente desempregada à berma-estrada terçando bandeirinhas de euro-cristo à passagem do papamóvel blindadíssimo.
Mas por igual confesso que não sei se somos, nós Portugueses, uma História mal contada ou uma piada de mau-gosto.

Canzoada Assaltante