03/02/2009

Hoje na Ronda Columbina

Logo de Érico Dias
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Hoje, 3 de Fevereiro de 2009, entre outras vozes:
The Grateful Dead
Aldina Duarte
Siouxsie & The Banshees
Regina Spektor
Tony de Matos
Vanessa da Mata
Paul Simon
Fausto
Frei Fado d'El-Rei / José Afonso
Pet Shop Boys
Jethro Tull / Bach
Sam Cooke
Trijntje Oosterhuis
e
Nick Cave.
Em
e/ou
87.6 FM.
Até logo.

Nick Cave como só Nick Cave

02/02/2009

NOSSA SENHORA DAS LARANJEIRAS - um tríptico oratório

Souto, Casa, tarde de 2 de Fevereiro de 2009



I. CAUSA

Por que causa é tão luminosa mas tão veloz
a infância?

Por ser uma eternidade
à velocidade
da luz.



II. A MÃE

A mãe despovoa a estrada interior que leva ao mar.
Ela não pode mais, a mais não pode ser obrigada.
Ela trouxe todas as cerejas que pôde, agora tenta dormir.
A mãe apascenta agora as crianças fantasmáticas,
os filhos devindos fantasmas.
A mãe agora tem filhos pela nuca.

A mãe não sabe já onde guardou as navalhas.
Batem-lhe à janela as ruas cicatrizadas, ela pensa
que é à porta que batem, vai atender, não é ninguém.
A mãe é branca como a ovelha, ó velha ovelha mãe.
O último lobo ronda-lhe a janela, não descobriu,
ainda não, a porta da mãe.

É inútil procurar a mãe nos cafés da província,
nos da cidade muito menos, a mãe reentrou de vez.
A mãe dá golpes de alumínio no ar que chove.
Ela prolifera de humidade na cama dos pinhais.
A mãe é de uma qualidade florestal que assobia.
A mãe não é um exclusivo da civilização ocidental.

A mãe babuja sombra pela boca da manhã.
A manhã já foi já não é o país declarado pela mãe.
Foi-se fazendo noite, é o que é.
Ela trouxe todo o peixe que pôde, agora medicam-na.

O ADN das nebulosas coincide em espiral com a mãe.
A mão da mãe encarquilha-se na areia como a estrela-do-mar.
A mãe é para sempre copiosa.
Quando enrijece de frio, a mãe madona-se toda.
O sangue da mãe chama o lobo pelo nome do lobo.
A mãe é branca como a ovelha.

A mãe nunca pode ser uma mulher diferente.
A mãe é onde.
Ela usa telepatia com os retratos da sala.
Ela começa a ser a trança da avó no psyché.
Os pés da mãe são tripé-de-galo.
A mãe escreve cartas que fotografam.

A mãe é 0 que assimilou o pai.
A mãe é mãe do pai.
A mãe faz pais.
Agora a mãe não pode mais.

Na casa sublinhada pelo ribeiro está a mãe.
A casa sublinhada pelo ribeiro é a mãe.
O tempo faz de vento que traz e leva a mãe.
A mãe traz e leva o tempo ao vento.
A mãe traz e leva o tempo ao filho.
O filho é mais e mais fantasmático na mãe.

A mãe é caudalosa para dentro.
A mãe é caudalosa para dentro da nebulosa.
A mãe cauda-se toda em espiral.
A mãe vigia o frigorífico como um técnico de partos a frio.
A mãe usa telepatia com o frigorífico.
A vocação da mãe era o lume, mas a neve.
O lobo na neve procura a porta.

A mãe é o sentido do borda-d’água.
Ela faz de agonia e de cosmogonia.
Há mais habilitações na mãe do que fora da mãe.
A mãe frita sardinhas num outono oblíquo.
Bate-lhe à janela a cicatriz do inverno, ela não ouve.

A mãe já não ouve senão para dentro.
A mãe está outra vez a ser filha, agora.
A mãe tem medo que o pai dela não goste dela.
A mãe da mãe não gosta da mãe.
A mãe da mãe está na gaveta de baixo do psyché.

A mãe é o nome que o ar tem na chuva.

A mãe já não sabe tudo sobre os animais.
As plantas sabem tudo sobre a mãe.
O chão das plantas é o chão de toda a mãe.
Quanto mais chão, mais mãe.
Mais mãe quão mais planta.
Quão mais animal.
Quão mais espiral.

É inútil procurar a mãe na província dos cafés.
A mãe não pode trazer mais peixes, mais cerejas.
A mãe toca o ribeiro como uma flauta de água.
Ela reentrou na casa onde os retratos ardem neve.
O lobo e a porta são magnetos.

A mãe é o mapa do coral.
A mãe só é mãe se for o mapa do coral.
A mãe sabe como se constrói uma laranjeira.
A mãe é mãe porque ensinou a construir a laranjeira.
A laranjeira assinala a estrada para o mar.



III. COMO CONSTRUIR UMA LARANJEIRA

É só usar velozmente a luz.

QUATRO TEXTOS DE SETEMBRO DE 2008

TÁBUA

I. Latada
Molelos, tarde de 2 de Setembro de 2008

II. Peça-Carta Sextafeirante
– um ministério palavroso
Viseu, manhã e noite de 5 e madrugada de 6 de Setembro de 2008

III. Palpação
Viseu, madrugada de 13 de Setembro de 2008

IV. Que o Tempo Não Está
Viseu, entardenoitecer de 27 de Setembro de 2008






I. Latada

Molelos, tarde de 2 de Setembro de 2008


Foi debaixo de uma latada fresca e viçosa (tão viçosa e fresca, que a luz solar permeava as nervuras das parras de uma translucidez de orelhas de coelho ou de criança; tão fresca e viçosa, que a sombra possuía a consistência do musgo humedecido pelo rasto e a baba das lesmas) – que te senti, a ti sim, que já comigo não estavas porque quiseste sair da minha vida: e saíste.
Aos meus leitores, digo que foi em vida que me saíste da vida, a ela retornando pela morte, esse ardil mais inicial que terminal a que a nostalgia recorre para impor a sua autoridade desumana.
Era uma latada de traseira de casa, sob a qual os fantasmas rurais merendavam ainda a bela posta de bacalhau assado pontuada de azeitonas duras como certos olhares negros.
O azeite e o vinho recordavam sozinhos os desaparecidos, tu entre eles, para meu desassossego e minha euforia. Senti-te tão materialmente quanto uma dor – ou uma bofetada de vento. Gansos ovelhavam pelo chão de terra. Um cão dormia sem futuro a um canto, ali onde os da casa, hoje morta, guardavam o ferrugento limão e a couve maternal.
Então, espremi o meu coração contra ti: ácido soro gotejou desse barro escuro a que o amor já não molda, antes refracta e estilhaça.
Não voltarei àquela latada.
A ti, sim.



II. Peça-Carta Sextafeirante
– um ministério palavroso

Viseu, manhã e noite de 5 e madrugada de 6 de Setembro de 2008


A jornada amanheceu fresca.
Revoam pelo chão, como moribundas aves, as primeiras folhas outonais.
Saí sem casaco à rua, sabe-me bem o frio.
A luz aluminia o dia, os ossos rangem como ferragens.
De um rádio doméstico, serpenteia um pasodoble que confirma a insensatez de amar.
Todas estas palavras nos arredores do coração.
Todas elas translúcidas como medusas e obscuras como ligações.
O meu corpo há vinte e um anos, noutra cidade, desconcertando-se já ante a arrumação mundial das coisas.
Esta noite, sonhei uma peça de teatro, cujo final perdi acordando: nunca a escreverei nem reverei.
Uma leve angústia por causa disso.
Uma ligeira amargura por causa disso.
As veias dos olhos pulsando a furta-cores.
As árvores como diagramas cervicais.

(MAS:
Minha vida conta nada,
contagem é de meu passar.
Imagem de imaginar,
minha vida conta nada.)

(FAZ-SE FEZ-SE DE REPENTE NOITE:)

Noite frígida, não amorosa noite, assim de repente há milénios.
A coquettevamp de collants cor-de-rosa exerce já seu ministério de defuntos interiores pelo bar tocado a sax e a bateria electrónica, insuportável.
É sexta-feira, é hora da putaria e da bebida fria.

É outra vez 1981, é outra vez sexta-feira.
Elanguescem as veias idiomáticas, o pátrio sangue do rapazinho de bairro que, esquecido de leitibolachas, sai a conquistar o mundo conquistado, enquistado, fatigado, já nem fundo mundo.

(VOZES, AGORA VOZES:)

– Uma, duas.
– Estiquei-me todo.
– Hoje esteve frio todo o dia.
– Todo o dia é hoje.
– Todo o dia é hoje, Maria.
– Não podes querer uma moeda que não é tua.
– Freedom, freedom!
– Tu és um anjinho do caraças, não gosto nada dessas coisas.
– Dóing, dóing!
– Começou ontem!
– Eh, é!
– Esta merda.
– Passava-lhe um pano húmido.
– Vamos a setenta e tal.
– Se fosse vermelho.
– Daqui a quinze dias.
– 80.
– 81.
– Um euro, tu tens cinco euros, mentiroso!
– Metes lá cinquenta cêntimos, o euromilhões.
– Afinal cinco anos, 50 e tal contos.
– O jackpot, compras 1 casa com esse dinheiro.
– Na RTP.
– Na Rita, naquela mesa.

(UM RAPAZ MORENO ENTRETANTO ESTABELECE SEU MICROBIGODE-À-CLARK-GABLE-À-FASCISTA-LUSOBRASILEIRO-ANOS-50-DO-SÉCULO-PASSADO:)

– Cara!
– Ninguém me mexe nos joelhos que eu não deixo!
– Cara!
– Rijeza.
– Duro tom, tom, Tom Jobim.
– Liberta os escravos da própria liberdade, vai!
– Sai.
– Um fio de ouro ao pescoço faz bem à saúde e à sorte.
– Quem dera aqui vir um bocado.
– Ôda-se!

(Um dia o dia terá sido 5 de Setembro de 2008, que ridicularia. Homens e mulheres adentraram outonalmente casas-dormitórios, exaustos, fatigadas. Casa com casa, gente que dorme fora, motoristas-camionistas belgicando suécias irredimíveis. Ôda-se. O tempo dos trabalhadores; o povo antigo dos sonhos; o ser interior que resiste quando te barbeias; o silêncio todo sideral como uma joalharia muda; qualquer dia; ó Gonçalo!; estes arredores do palavroso coração; uma boa palavra recebida de uma pessoa boa numa má noite, numa hora má; freedom, freedom!; essa certeza antecipada da morte penteando o macaco da tristeza; o pai multiplicando as sombras como um dador de luz; o pai a sorrir-nos que sim e que esperemos um pouco que ele já não vem; as andorinhas alvinegras ágeis como gatas frescas; ôda-se!)

(AGORA ENTRA A FALA DO HOMEM QUE VENDE SEGUROS E FOGOS-DE-ARMISTÍCIO:)

– Sedu-lo o mar revolto branqueador de crochêspumas? Interessa-lhe o doisimeio de percentagem? Whisky de 30 anos é bom prà imagem? Gosta de ver decote a vermelho de fato-banhista? Gosta de, porizemplo, 1981? É, o senhor, senhor de suas opções? Digamos: de seus genes, seus tomates? Está atento o senhor às mudanças frias prometidas-e-cumpridas pelo zamericanos ecologistas tipo algóre tecetrital? Conhece o senhor o redivivo sangue a partir do chá de folha de laranjeira? Conhece o-senhor-a-senhora a vida inteira?)

(EM CASO DE NÃO, RESPONDER:)

Refrescarei a jornada amanhã, senhora Mãe.
Terei uma atenção personalizada para com as folhas outonais.
E mais:
serei outra vez o teu mamário colo, 5 de Setembro, fora de merdas e de ôda-ses:
e deixarei sempre crescer bigode de avatar de bares, algumas sextas-feiras,
quando outona
e tudo é tão triste quando
uma louça esquecida
entre casas mudadas.

(AQUI ENTRA O ARRUMADOR DO TEATRO, SÁBADO JÁ:)



III. Palpação

Viseu, madrugada de 13 de Setembro de 2008


Palpa devagar os teus retornos.
Palpa o teu coração como se médico foras.
Médico e genealogista, que isto de palpar sempre tem, também, que se lhe diga.
Toca a tua cozinha maternal: os cheiros, as queimadas mães, perdão,
mãos,
dela:
o arroz de frango acovardado a caldo-knorr,
a sobrevivênciazita com massa,
o maior glutão de glúten do arroz,
da papa-para-crianças do quase extinto
salazarismo.
Este é naturalmente um poema português.

Este é naturalmente um poema de um português.

******

Lembro: a minha bebé
dormia de lado como uma gata
das que tenho agora sem bebé.

Era uma frase de leite,
a minha bebé,
mas com zero pêlos.

A minha mão esquerda
era poderosa, mas só lia,
não escrevia.

Eu escrevo com a mão direita.

A minha bebé estava à esquerda.



IV. Que o Tempo Não Está

Viseu, entardenoitecer de 27 de Setembro de 2008


Soube pelo boletim meteorológico que o tempo não está
bom:
depressões, anticiclones.
Anticiclones depressivos.
Depressões anti.

Esta vida é a vida que fiz na vida.
Escrevo boletins meteorológicos.
Chove-não-chove.
Luz do sol nas praças.

Homens jovens no aeroporto
de Figo Maduro.

Nasci tarde até no futuro.

01/02/2009

DOIS POEMAS QUE VINHAM DENTRO DO MAÇO DE SG GIGANTE

Pombal, noite de 1 de Fevereiro de 2009



I


Saí para comprar cigarros e dei de caras
com a solidão gregária das pessoas, casais
incluídos, no café, ante o altar do televisor.

Soube-me bem o café, um pouco de Blake
(o N., não o W.), um pouco de Federico,
no largo as palmeiras clamavam em vão pelo deserto.

Máquinas de venda automática (cigarros, brindes, aperitivos)
e máquinas de compra automática (as pessoas):
tudo em ordem nos respectivos sítios, é a vida.

Vi uma rapariga já não virgem de boné de lã preto,
botins bicudos, calças justas como decalcomanias,
colete de malha roxo sobre blusa fina branca.

Vi um homem de boné de terileno que mantinha
as luvas calçadas, quadruplicado o olhar pelas lentes
cu-de-garrafa, fato completo de riscas, sapatos baratos.

Vi uma mulher pequenina como uma colher de chá,
camisola escarlate que lembrava uma ferida irreparável,
botinas de pelica como já nem me lembrava existirem.

Nas prateleiras de vidro, seis garrafas, sete, seis, sete,
em perfeita ordem e brilho de pano. Dois vasos
com plantas tristes. Um quadro na parede. Dois.

Vi um homem-sexual lamber um pacote de açúcar
como se pensasse, vi um bigode listrado de branco
como um código-de-barras. Não vi criança alguma.

Fui à casa-de-banho prestar contas da minha mesma solidão,
lavei muito bem as mãos no fim, voltei para este papel,
considerei seriamente a hipótese de tomar outro café

mas não tomei, continuei mas foi a ver.



II

Grácil figurinha recém-adolescente,
adentra o lugar do meu coração,
que eu não sou velho, sou ’inda gente
p’ra repenicar cauda de pavão.

Meneia as anquinhas de casca de louça,
levita as mamitas ao cimo apontadas.
Te digo, menina (que ninguém nos ouça),
que tua é casta das abençoadas.

Ó casta de casta e de castidade,
grácil gazelinha de soro de leite,
se não eu, menina, contigo se deite
quem te leve ao altar e ao macio tálamo.
E se o meu coração de velho pavão
t’inda gritar, descuida-mo. Cala-mo.

Vi(d)a de F.

Souto, noite de 1 de Fevereiro de 2009



I

Façamos uns aos outros o favor de não existir tanto
outros para uns.

II

Tirando isto,
que fica daquilo?

III

Sobre que estepes e pistas soprarei o mais glaciar
dos meus corações?

Quantos usei até amanhã?

Lobos, revoadas de neve como papel encarquilhada,
frios que ardem como uma punhalada,
a infância toda de repente no sabor de um chocolate
de determinada marca indeterminável e
terminada.

Subitamente sou claramente um homem no escuro.
Trepido sem que por fora se note, comboio de mim mesmo
como toda a gente
em sua vi(d)a de ferro.

Dando o Vento no Cedro ante a Casa

Souto, noite de 31 de Janeiro de 2009



I

Dando o vento no cedro ante a casa, dei por mim
a pensar na morte.
Não foi triste acontecer-me isso, era uma espécie
de sugestão eólica, algo assim.
O vento labaredava no cedro, eu parecia
nem estar em mim nem em casa, nem
alhures: a morte pensava-me.
Não entristeci, aproveitei aliás o momento.
Um vento num cedro, em tarde fria e pluvial,
é das mais formosas coisas em Portugal.

Depois, tratei-me a canja de galinha e laranjas,
saí para tomar café no café da aldeia, estava
a dar o Sporting não sei contra quem.
Dois homens já descriados falavam da firma,
um deles disse-me que a festa do Casal Fernão João
é hoje.

Dei por mim a pensar na dificuldade das festas
de Janeiro, o frio que faz, a chuva que apaga
o incêndio do vento nos cedros, estas coisas
assim.

Se calhar, penso muito, se calhar isso pode não ser
cá muito bom para a saúde.

Quando vivia em Peniche, o vento ardia todo
no mar.
Eu era muito novo, tinha 22 anos, e então
sim, então eu era triste.

Em Maio, tinha-nos morrido um irmão.
Eu tinha outra casa, então.
Também havia um cedro ante essa casa.
Eu tinha um cão, o mesmo
que de vez em quando me aparece nos versos.

Dando hoje o vento no cedro do futuro (isto
que veio no Tempo), não foi no nosso irmão
que pensei. Não. Foi
na morte,
nisso que acontece por telefonema

ou poema.



II

Depois, que é agora, pensei
nas courelas, nos animais que pastam nelas,
pensei no Rei e na Grei e na Lei,
mas sobretudo pensei
nas courelas.

Gosto deste café porque vende latitas de atum
e bolachas-baunilha e até cassetes do Emanuel.
Agora tenho o nome do meu Pai, Senhor Daniel.
É como me chamam e eu gosto, como se fora um
milagre ele continuar través mim.

Às vezes, ele há pequenas alegrias assim.



III

Drapeja na noite o vento negras, negras bandeiras.



IV

Agora, um homem está sentado no meu corpo no café.
A noite fechou a aldeia como um toldo de circo.
Faz o homem de animal, de malabarista, de circ’artista.
Janeiro acaba em torno, acaba dentro do poço-da-morte.

Que admirável é o nenhures a que chegamos!
Que admirável é o nenhures a que chegámos!
Casitas vigiando laranjeiras, ruelas esconsas como
as veias do coração, onde mói a moinha pluvial.

Arrefecem as mães ao lume da água, mas os cedros
flecham vento oblíquo, ateadores da benigna
flama, muito padece quem ama – etc.
O homem no meu corpo quer não sei quê, quem.



V

Devo ter ido no vento.
Esparsa palavra de gente, devo ter ido no vento.



VI

Agora é amanhã, é domingo, só à tarde
o circo trabalha, depois vai-se embora,
desmantelam os animais, a pobre magia,
concedem à noite o estatuto de
maior espectáculo do mundo,

e então eu e o cedro e o vento,
assim.



VII

Gosto de quando eles jogam as cartas, no café.
Em casa, as mulheres deles urdem caldos,
crianças, cafeteiras, lumes.
Em casa dos jogadores, as avós enviúvam os cantos.
Há retratos de antigos matrimónios a gás, no fumo
do Tempo, na casa dos jogadores de cartas.

Sabe-me a boca a pássaros chicoteados de chuva.
Latitas de sardinhas, pacotes de bolacha-maria.
Crisálidas larvam, pescarias apetrecham.
Muito ama quem padece.

Batem os duros nós dos dedos a pedir trunfo.
Manilham duramente o frio atroz da vida.
Não pensam na vida, só na firma.
Em casa os retratos, as mulheres.

Aqui, o jogo.



VIII

Infinita é a beleza do homem que vive dentro do homem.
Infinita, dele a tremenda antecipação do pó.
Feito de areias, esculpido a água, tremendo, infinito homem.
Tremendo de frio, também.

Eu tinha só 22 anos, vivia em Peniche perturbado pelo mar.
Parecia-me que não podia ser tanta beleza, que
tanta tristeza não podia ser.
Podia.

Venero a azeite os meus avós portugueses, gente
do tempo do Rei, rostos de fumo em duplos retratos
siamesados pela vida e pela morte e pelo amor,
comedores de caldos, engendradores de filhos,
esses circos do futuro de café de aldeia.

Quantos homens dentro de um homem jogador de cartas?
Especiosa especiaria, cada José, cada Joaquina.
Estupenda tristeza, o ferro no lume, as aves na brasa.
E cada todos em cada um, cada um em sua casa.

Agora, amar ter sido menino é uma pedofilia.
Agora é amanhã, que são de azeite os ontens.
Agora joguemos as cartas à face da pedra.
(As mesas são de mármore, como tudo imita.)

Quantos homens.



IX

Agora, a rosa do lume purpureia rubis de cardiologia.
Esteve muito frio toda a vida o dia.
Floresce a preta rosa, a noite negra.
O cedro diz vento, final palavra de ir

embora.

No Portugal do Zé Piaget Sócrates

30/01/2009

PERANTE O PÁTRIO AFUNDANÇO, DIZ-TE, NÃO SEJAS MANSO

TÁBUA

I. NOTAÇÕES PARA UMA PERI(QUI)TAGEM DA GRAVE CRISE ECONÓMICO-SOCIAL DE PORTUGAL PARA EXEMPLO LÁ FORA – em forma de carta de amor à minha mulher

Souto, tarde de 30 de Janeiro de 2009

II. DO PATRIOTISMO E ARREDORES

Pombal, entardenoitecer de 21 de Janeiro de 2009




******


I


Os cavalos cegos enlouqueceram,
querida,
julgo que de vez,
querida.

Usam botas que encontram no lixo,
levam para casa tudo quanto é garrafa de plástico,
prospectos de dietas milagrosas, restos de corda,
escovas desdentadas, info-reportagens autárquicas,
rodas de carrinho-de-bebé, cotos de lápis.
Que faremos,
ternura minha,
destes animais
a menos?

Estão em promoção as grandes derrotas da humanidade
dos cavalos cegos,
querida.
Estandartes de azul-vermelho tiracolam altos prédios de vidro,
a vida comercial embebeda-se de fria festa sem gente.

Quem diz os cavalos, diz os periquitos,
querida.
Lembras-te de serem mansos e domésticos e solteirões
os periquitos,
amor?
Eram todos de primeiro andar, as donas não
eram viúvas ainda, os senhores Monteiros maridos
delas estavam empregados todos e tinham todos
fim-de-mês,
ao domingo ia tudo, periquitos e tudo, à Caparica ou a Espinho
com arroz-de-tomate e bolos-de-bacalhau a ver
a chuva a dar no mar e os barcos da Marinha
parados como sonhos de chumbo na linha
do horizonte,
querida,
que então horizonte havia ainda,
amor.

Quem diz os periquitos, diz os bêbados,
amor,
que não eram alcoólicos por falta de estudos,
para mais era só vinho o que bebiam,
e quem estava vivo até se ria,
e se alguns nas mulheres batiam,
era da Bíblia,
querida.

A roupa enxuga em máquinas, não ao vento.
Pode ser que sobre cartões sequem ainda em pátios
algumas mãozadas de pevides, mas os tremoços
são de estufa, são pequenos, duros e não sabem
à carnação vibrante do sal em camisa de película
desdentável,
querida.

Cavalos, periquitos, pevides e tremoços concorrem
para uma despatriação pungente e pingente
sem gente dentro,
amor.

Pelos chamados corredores do poder, os passos são
mais que nunca perdidos.
Proliferam os enlouquecedores de cavalos, os agiotas
que agem, os idiotas
que ideiam, os versados
que cevam, os cevados
que versam,
querida,
ternura minha.

Só a morte transigirá alguma piedade,
fechadas as bibliotecas escolares,
encerrados os parques de merendas,
queimadas as maternidades,
estiolados os salões de baile,
embolorecidos os conventos,
roídos os tremoços,
plastificados os cabedais,
fritos os jaquins,
descascados os amendoins,
despedida a função pública,
exacerbada a assadura dos cus,
oleada a rótula de platina,
anelados de bodum os prepúcios,
coçada a virilha,
raspada a axila que se diz sovaco,
amor.

Temo tenham enlouquecido de vez os cavalos patriotas,
querida,
cegos que eram para as evidências até meteorológicas
da Pátria.
São mais rigorosas agora as invernias,
amor,
sabe-lo como ninguém tu,
que nunca foste de periquitos
nem de primeiro andar,
mas rés e chã
e portuguesa.



II

O patriotismo é a fórmula que o inconsciente colectivo encontrou para amar a merda.
Posso dizê-lo de outra maneira – e tenho-o feito – mas fica esta: amar a merda.
O inesgotável filão de imbecis desta puta-pátria tem o seu quê de transcendente, de quase divino, por tão humano e imanente e imbecil.
Eu deste país de merda só queria meia dúzia de oliveiras, talvez nem tanto.
Manhãs rentes ao mar, ele há muitas noutros países.
Isto é tudo tão merdoso, que nem me cansa.
Para me cansar, teria de correr – e estes paços não merecem um passo sequer.
Falo a sério, chiça.

Os insuficientes mentais da rádio-televisão, a quadrilha dos bancos, as seitas evangélicas, os poetas, os de Braga, os actores, os engenheiros, os anais e os menstruais, os cancerosos, os que alugam barcos, os à esquerda da direita e os do avesso da esquerda, os solícitos solicitadores, os abstémios, os não-fumadores, os de Setúbal, os filhos-da-puta em geral e as mães deles em particular, os sindicalistas que não fazem boi e os bois que vão para sindicalistas, os bulímicos, os químicos, os de Abrantes, os que usam cachecol, os que usam o Estado, o estado do uso, o estudo do abuso, os coimbrinhas, os que só dão o cu mas aparecem de piça à lapela, os tónico-capilares, os bic-laranjas, os rosa-cristal, os ciganos e os cigmeses e os cigsemanas e os cigdias e os cigminuto-a-minuto,, os lopes, os palopes, os motores, os promotores, os disto e os daquilo, os reformados, os reformistas, os reformadores, os formadores, os dores, os de Beja, os taxistas, os utentes, os entes, os doentes, os hirsutos, os mansos e os brutos, os anémicos, os da Pampilhosa, os que tossem, os que rumorejam, os do cinema de produção nacional, os nacionais de produção teatral, os que cortam árvores, os que rotundam, os que se arredondam, os que vendem a salvação em brasilês, os que dizem é-assim de cinco-em-5 segundos, os que dão aulas e os que faltam às aulas, os que superbockam, os que acham bem tant’auto’strada entre nenhures e sítio algum, os que amocham com o andor nas procissões, os que mesmo não sendo mulheres não têm colhões, os que tendo mulheres as deixam ir a pé a Fátima ou sabe-se lá aonde, os de Leiria, os cabeleireiros mais fêmeos do que o elástico dos soutiens, os que já redigem sutiãs, os que se pudessem não deixariam ninguém poder, os suinicultores, os que mexem nas partes dos netinhos, os netinhos, os de Tavira, os que mordem a haste dos óculos, os que bebem o vermute com o mínimo esticadinho até à unhaca de tirar cerume dos pavilhões capiloso-auditivos, os dentistas, os aut(omobil)istas, os que têm o cu virado para África, os que nos venderam a Bruxelas, os que estão em Bruxelas a vender-nos ao resto da Bélgica, os que estão em Bruxelas mas voltam, os que rogam por-obséquio, os que pedem tenhamos-a-fineza, os que nunca leram o Nuno Bragança, os que lêem o Torga, os que vomitam, os que crocitam, os que caganitam, os que gritam, os que se vêm mas não se vêem, os que compram nos chineses camisolas para levar à manifestação contra o desemprego, os secredromedários de Estado, os mais altos camelos da Nação, os do Porto, os do FC do Porto, os que têm cataratas no olho-do-cu, os que têm dois-olhos-do-cu na cara, os que fumam mentol, os que dizem cagalhão com boquinha francesa, os que estão sempre a falar no exílio de Argel, os que expectoram pescada, os das poupanças-reformas, os pais-natais, os meninos-jesuses, os das rifas, os do vê-mazé-se-te-abifas, os do torrão-de-Alicante, os de Nelas, os da tropa, os da Europa, os que põem as filhas no ballet ao dispor dos pedófilos que dão Religião & Moral, os que põem os filhos na heroa, os que dolcegabanam e os que só abanam, os que confundem os canhões de Navarone com a ponte do rio Kwai, os que são mágicos, os trágicos, os que são marítimos, os histamínicos, os cómicos, os noz-vómicos, os da Covilhã, os que trocam a rata da mãe por duas embalagens de bacalhau pré-demolhado, os que são trocados pelas mães, os de Bragança, os de Silves, os do Funchal, os do Pico, os de Cantanhede, os de Viseu, os de Peniche, os de Évora, os de Aveiro, os de Pinhel, os de Newark, os de Portalegre, os de Goa, os da Trofa, os de Sacavém, os de Berna, os só-de-taberna, os de S. Paulo, os de S. Paulo de Frades, os de Oliveira de Azeméis do Hospital de Frades do Bairro, os que paulocoelham, os que siddhartam, os que se peidam que nunca se fartam, os que dizem ámen e os que amenizam, os que vertem e os que entornam, os que tornam, os que se encornam, os que se autorretratam e os que nunca se retractam, os que vêem o telejornal, os que já viram ovnis chamados ufos, os bufos, os tartufos, os alecrínicos e os manjerónicos, os que blogueiam, os que bloqueiam, os que manoeldoliveiram no pátio das cantigas, os que nunca se movem, os que se comovem, os que bradam, os que ladram, os que votaram neste cabrão mas agora juram que não, os não foram eles, os que são outros em vez deles por não ter sido o pai deles a foder a mãe deles, os que mandam nas urgências, os médicos, os que têm tétano por profissão, os que fazem do tédio negócio e os do ódio ócio, os ósseos, os seminais, os seminaristas, os sacerdotais e os chupistas, os que foram às urgências para morrer em casa, os que nascem em ambulâncias, os que nem casa têm onde cair mortos, os de Alenquer, os sibaritas, os hermafroditas, os foditas, os jesuítas, os juristas, os naturistas, os que chupam cabeças, os da bandadalém e os que ficam sempre aquém, os de Sintra, os da Madragoa, os porteiros, os parteiros, os excêntricos, os teocêntricos, os dos amanhãs-que-cantam-quando-a-galinha-tiver-cáries, os de Pombal, os que anoitecem de manhã, os que tonycarreiram, os que encarreiram, os que encarneiram, os do poder local, os do foder boçal, os que vendem meias a paraplégicos, os que ladram Deus ao domingo, os que arrolam testemunhas na esquadra de Jeová, os holocáusticos de David, os do tremoço e os da pevide, os que não comem carne de porco sabe Deus porquê, os que dão sangue mas só o do fim da borbulha, os do Estoril e eu também – tudo merda.

Tudo.


Crónica nº 88 da série Rosário Breve - esta semana, nO Ribatejo - ww.oribatejo.pt

Coisas do caruncho local

Aqui pelas várzeas, berças, gândaras e charnecas continuamos todos a criar o pau carunchoso que é a vera riqueza nacional de que se fazem os santos.
A Lurdes do Ernesto dos Melões mostra ao peito uma medalhinha muito benta que era para ser de prata-de-lei mas, como a comprou àquele senhor do Banco que agora está preso, afinal deve ser só de casquinha, por mais santinha.
A Isaura do Loureiro da Venda não tem medalhinha nenhuma – se a teve, deve-a ter perdido dalguma vez que se portou mal ou com o carteiro ou com o homem das águas da Câmara.
O Felício da Ros’Amélia das Couves anda inconsolável porque não há direito dizer-se tanto mal do senhor Presidente, o da Junta daqui, não é o de Lisboa, e não “lhes” (isto é, a “nós”) acontecer nada, nem prisão, nem multas, nem problemas.
O Ricardino, que foi cabo miliciano em África e voltou sem um olho, sem pensão e com um cantil furado à bala, não acredita nem em nada disto nem em ninguém, e ainda no Natal passado quase foi preso por ter partido o televisor do Loureiro da Venda à cabeçada com o capacete da motorizada posto.
O filho do Jeremias dos Fogões, diz-se que abafa a palhinha.
O Manel da Gervásia dos Frangos também diz que o filho do Jeremias coiso aquilo da palhinha, mas que ele se calhar é que tem razão porque desde a implantação da República sempre os houve, até por isso é que trocaram o Rei pelo Gay.
Eu por mim acho estas coisas todas muito tristes, mas não me ralam nada, valha a verdade, porque o meu já cá canta, que eles em França mandam sempre a “retrete”, que é como eles chamam à reforma não sei porquê.
Modos que é assim, cá se vai desandando para a cova o mais devagarinho que se pode, uns dias chove, outros dias bate sol, como nesta história toda do Dr. Dias Loureiro, que não tem nada a ver com o homem da Isaura apesar do nome, e se calhar com o do Banco das medalhinhas também não tem, não sei.

29/01/2009

Mais Três Coisas Inconsequentes




TÁBUA

I. Dísticos também Pluviais

Souto, tarde de 29 de Janeiro de 2009

II. Não deste Lado

ibidem

III. Dois Sítios

ibidem


******


I. Dísticos também Pluviais

Souto, tarde de 29 de Janeiro de 2009




Como os gatos são alguns olhos:
perfeitas máquinas de brincar e de matar.

As nuvens pelo chão, pelo céu as folhas:
muito gosta de espelhos o deus sem rosto.

Uma pastorela, sete barcarolas, uma bailia e duas tenções:
tão pouco de tanto que foi um tal Martim Codax.

Não gosto de poetas pela cidade:
sujam tudo de água e de sal.

Disciplina, rigor, nenhum ardor e esperança alguma:
uso eu em prol do inconsequente.

Esta mão:
estrela desconectada.

Placenta:
medusa por terra.

Agora eu furto cores:
e sou alvinegro agora.



II. Não deste Lado

Ibidem



Estou do lado do rio onde a piedade não medra.
A minha cidade é uma laranjeira,
as luzes da minha noite são-no se laranjas,
não deste lado medra já a piedade.

Colecciono fotogramas ferroviários.
A minha língua é de ferro.
As mãos, de arame.
A piedade não move.

Já não pergunto, muito menos questiono.
Morre-se no inverno, nascer é no outono.
Pode de outros ser o verão a condição.
Deste lado, não.

É como trazer o vento às costas:
é como levar aos ombros um cão de prata:
é como suportar na cabeça o olhar:
o desejo.

O que é como contar as ondas com as mãos?
O que é como separar estrelas de rosas?
O que é como unir irmãos desavindos?
É não nascer.

Estou do lado do rio onde a piedade não medra.
Urdumes e prosápias, tenho muitas.
Faltam-me moedas, isso sim.
Não deste lado medra já a piedade.

O meu amigo trazia os braços tintos de sangue.
Não lhe perguntámos do que vinha nem de onde.
Trazia-se tinto de sangue e não falava:
tinha de novo nascido.

Deste lado da minha vida as laranjas, luzes nocturnas.
Os cães magros unindo as topografias, deste lado.
As crianças insones cujos nomes repetem os criadores.
Deste lado da minha vida o barco, as vias de vidro.

Olhos que semelham sons ou bandeiras
– conheço.
Olhos como ele os tinha na manhã
– conheço nenhuns mais.

Os magarefes de cavalos sabem do que falo deste lado.
Falo de rotas da seda, da pimenta, do marfim
nenhumas.
Quais rotas, quais carago.

Nenhuma piedade e esperança alguma,
não deste lado, onde as crianças e os cães de prata
suportam a condição do alheio verão,
a autoridade outonal dos deuses da chuva.

Pelas encostas os casais gizam ardósias,
o mais que podemos é o milhafre, não a águia,
nem do sul o condor ou o albatroz do belo norte,
onde a lavanda lava por dentro o ar frio.

O mais que podemos, é tudo deste lado, onde
piedade nenhuma, embora algum idioma.
Das gentes carregadoras de ventos e pianos,
o lugar do lume, o barco, as veias do vidro.

As nuvens ladrilham o chão em charco,
revoam pelos ares as folh’aves outonais.
Isto agora só era preciso um barco.
Um só barco, nada mais.

Não, deste lado, a piedade
não.



III. Dois Sítios

Ibidem



1. Bruxelas

No Outono de 2002 isto já era assim como vos conto:
as coisas olhos adentro.
Éramos já quase todos os últimos, que tão poucos são os primeiros – em qualquer coisa, de uma coisa qualquer.
Cheguei, o hotel era limpo, a cidade pareceu-me tão boa para morrer como para viver – qual qualquer outra.
Estava frio, fazia sol, ruas e avenidas eram limpas, o comércio funcionava, a língua era estranha e bárbara e cheia de esquinas.
Comia-se caro e não mal, também o mais eram quatro dias, não mais.
Foi onde por acidente nasceu o argentino Julio Cortázar.
Comprei umas coisas para trazer para casa com a ideia de lá ter estado, fiz mal, podia ter poupado o dinheiro, bastava ter escrito isto para ter lá estado.

2. O Meu Cão

O meu cão chamou-se Canino Rapazita dos Santos Abrunheiro.
E foi o lugar mais humano onde até hoje (até sempre)
vivi.

Cenas da Vida Pluvial

© Roger Fenton
Cloud (study, 1859)




I. Uma Vez

Souto, manhã de 29 de Janeiro de 2009



Deve estar a chover em Londres e nós aqui.
Uma criança olha de dentro da mercearia o que chove no pátio, ave engaiolada a cristal pobre.
O pinheiro mais alto lava a cabeça primeiro do que os outros.
Cheira a café e a sabão.
Os telhados parecem sangue de novo fresco.
Uma vaca serve de escala a um prado breve.
O homem do Volkswagen, é pena ter morrido.

Hoje não há azul.
Um prédio amarelo-canário acinzenta-se na bátega.
Um cãozito castanha defeca perto da vaca.
Insólita para sempre, a palmeira da aldeia sonha com o Sol.
Os gajos do saneamento lutam contra uma tampa.

A criança é de cabeça vermelha e olhar coralino.
Aquela criança não precisa de Nicholas Blake, só de que não chova.
O que chove, amortece a autoridade daquele sinal de trânsito.
Dão à criança um pacote de bolacha-baunilha, fazem-lhe uma festa na cabeça,

uma vez por chuva,
uma vez por festa.



II. Um Verso de Visita

Pombal, entardenoitecer de 28de Janeiro de 2009



Hoje não fui ver o mar, fiquei por casa.
Entardenoitecendo, saí a rever a terra.
Negrejei pelo subúrbio da vida como quase sempre tenho feito.
Hoje não fazia tanto frio, as bocas não atiravam vapor.
Numa pastelaria, esperei que um verso me visitasse, aquele verso que há tanto me procura e eu não encontro.

Torno-me avoengo, eu sei.
Benedigo, enfim, os aparatos mudos da melancolia, isto que faz de um homem uma espécie de árvore,
uma palmeira da chuva.
Pássaros são acontecimentos de tinta
– e eu só posso lápis.

Tomei café, comi laranjas, fiz um soneto, bocejei.
Andei e desandei.
Esta noite reverei o mar quando, dormindo,
puder quase não pensar.



III. Cantiga Tida ao Sol

Pombal, manhã de 20 de Janeiro de 2009




Estive ao sol da manhã na praça
como se fora um homem de antigamente
numa praça de antigamente
a um sol de outrora.

Faltava-me na cabeça o chapéu preto de Afonso Duarte, príncipe poético da Ereira.
Faltava-me ter tido colocação na Companhia Nacional de Navegação há 70 anos.
Vale-me não me ter faltado o sol, à falta de sal e de navegação e de mar.

Cortei o pão com gentileza, usei bem as mãos.
Sou o homem que quero na pior das hipóteses: um cavalheiro pobre que cheira a sabão.

Devo ter tido outra vida, mas as casas de artistas não pensionam metempsicoses por aí além.
Devo ter sido outra vida.

(E então a música torna-me devagar, vê:)

Um coração na gaiola
Um passarito na mão
’ma cravelha de viola
Um rebento em floração

Uma tricana cantante
Um direito a ser feliz
Uma promessa adiante
Um dizer que se não diz

Uma garrafa de anis
Um vizinho adoecido
A esperança de um petiz
Ex-mulher de ex-marido

Um peixe que luz de prata
Na figuração anil
Quem mui vive muito mata
Mata cem e mais de mil

Quem tem credo dorme junto
Quem não tem é só que dorme
Trinta quilos de presunto
Vêm de um porco enorme

Cantigas tidas ao sol
Entre a passageira gente
Com chapéu de aba mole
Triste e preto, antigamente.



IV. Integral com Navegação e Banda

Pombal, manhã de 20 de Janeiro de 2009



Agora não desejo já o que aliás não poderia ter.
Uma colocação na Companhia Nacional de Navegação.
Um diploma rápido e falso em Literaturas Africanas.
Uma semente maligna.
Ou uma vida mais ainda que esta digna.

Devassei em meu interior tempo lareiras arrefecidas.
Cheguei tarde a quase tudo, a começar pelo nascer.
(Mas não se deve passar as terças-feiras culpando as segundas
e as primeiras.)
Só quis ser navegável como uma floricultura idiomática.
Isso – e nunca ter chumbado à matemática dos idiotas.

Quem viesse do lado do mar, haveria de estranhar-me.
(Olha este gajo ainda por aqui etc.)
Perdoa nos outros os teus erros,
digo-me eu a ele.
Perdoa aos outros os teus erros,
anda.

Aos domingos de antigamente, no coreto a banda.
Ourejava da fliscornista a mansa cabeleireira,
negritava retintamente o bigode do bombeiro,
o tarola rufava anda-não-anda,
dia de funeral é dia de bebedeira,
já só desejo ora o meu tudo por inteiro.



V. Desimport-Export

Pombal, manhã de 20 de Janeiro de 2009




Uma das coisas mais formosas que me aconteceram, juro, foi ter vindo fazer a barba e aperceber-me da completa, total e inegociável desimportância de tudo: barba, gilete, espelho, coisa e poema e formosura.



VI. Descrição de Existência(s) em Casa de Pasto

Pombal, manhã de 20 de Janeiro de 2009



Lombo assado no forno e feijoada de chocos, meias-doses individuais.
Copos camélia-forma, armàriozinho de galheteiros.
Portas de saloon-cowboy dobradiçando lavabos.
Cozinheira absolutamente reumática mas sorridente.
Toalhas de papel, naturalmente.
Chão ladrilhado a mosaico 30 x 30.
Pratos de parede de louça grossa.
Fragrância forte a cebola e a vísceras.
Um guarda-chuva verde esquecido desde ontem no coiso de latão.
(Fora: vizinhança comercial de drogaria, advogado, camisaria, pastelaria.)
Às quatro da tarde, fígados de aviário em pires-frango: cominhos e pimenta laváveis em vinho branco.
Até à noite: uma paciência portuguesa,
uma terça-feira.



VII. Estas Coisas assim Pessoais

Pombal, manhã de 20 de Janeiro de 2009



Às cinco e um quarto da manhã, trovejou e granizou com fartura, mas ele há sempre razões para esperança.
Carreiram formigas a negrito pelo lado enxuto da terra.
Dardos de sol alvejam a amarelo lances e esquinas.
Passa um homem de avental branco explodido a vermelho como se Pollock a carregar meio porco na longitudinal.

Depois de almoço, entristecemos todos de melancolia digestiva.
Isso é normal, até porque às cinco, mais coisa menos coisa, uma quase euforia ganhará alforria própria, como um menino recente respira sem pedir ar a ninguém, sequer à respectiva mãe.

A sociedade pode ser uma coisa maravilhosa, amestradas as almas.
(Tem-se apenas de não sofrer de mar nem de mais os cinzentos, os prédios em blocos.)

Eu muito naveguei e navegarei entre bons-dias que o não foram.
Eu muito aprecio ainda e cada vez mais
os quintais
que foram, são e serão
países internacionais
para a criança
que os povoa
de estádios.

Estas coisas assim pessoais.



VIII. Surf

Pombal, manhã de 20 de Janeiro de 2009



Uma onda de água mia e tsunamia os olhos das pessoas de todo o mundo por todo o mundo.
Não há nada a fazer, é a força da natureza, é a força da água.

As pessoas doem-se muito, umas porque são mães, outras porque são pais, outras porque são filhas,

tem ondas.

Dois Sonetos

I. Soneto com Chuva e Chá

Pombal, entardenoitecer de 28 de Janeiro de 2009



Uma tinta aguada plasma a vida destes dias,
pelas ruas cachorram as gentes a existência.
As farmácias pulsam mui árcticas, mui frias.
Parece-me que chove até na consciência.

Ao longo da avenida, a vida desce – e pensa-se
a si mesma qual espelho breve de turvas águas.
Um cavalheiro cachimba e uma dama dispensa-se
de comentar das outras as chitas e as anáguas.

Apesar de o mor pesar, isto é bonito.
Uma loja de chá atrai um pequenito
à montra, onde fulgura um cesto de doçarias.
A mãe do petiz, olhar debruado a negrito,
entra e compra ao seu pequenito
um doce que adoça a vida e seus dias.



II. Soneto talvez Verdadeiro

Pombal, tarde de 26 de Janeiro de 2009



No futuro teremos sido amados e esquecidos,
deitados ao mar, atirados das pontes,
insolados de luar, fendidos e ofendidos,
sublinhados a poente doente de horizonte.

Ontem as mães terão tossido placentas,
invocado a cosmética e a solidão dos pais,
cozido a pescada e riscado sebentas,
sonetado a preceito no peito, onde dói mais.

Hoje eu amo a vida, amanhã não sei,
como ontem também aliás não soube.
A vida é tudo o que tenho, sou o rei
apenas da parte que me coube.

Estas coisas, tal como os sais, os cristais e os brometos,
podem, Gedeão, não ser verdade – mas dão sonetos.

Terceira CRIATURA sai em Abril que vem


28/01/2009

Um Poema por causa do Amor e Outro por causa do Frio

© Sandra Bernardo
Cabanas de Viriato,
8 de Setembro de 2008




TÁBUA

I. Por Amor ou Coisa Assim

Pombal, tarde de 26 de Janeiro de 2009

II. À Queima

Souto, tarde de 21 de Janeiro de 2009



******


I. Por Amor ou Coisa Assim

Pombal, tarde de 26 de Janeiro de 2009


Espera-me um pouco onde não chova,
vou morrer mas tenho tempo, espera-me
nem que seja por delicadeza ou amor
ou coisa assim.

Já fui ver o mar onde a terra começa a ser céu,
já alimentei as aves e os peixes e a nobreza dos gatos,
já trabalhei duro e fundo, já andei no mundo,
agora já não.

Tem paciência comigo, por favor.
Às vezes entristeço como respiro, vou ver as pessoas
e como elas sou pouca gente parda e parada
no Inverno portátil do coração.

Eu tenho uma vocação de ti por natureza,
ainda não tinhas nascido já eu te pertencia,
como às pedras pertenço e à poalha azul do ar,
quando o Verão nos perdoa a submissão.

As coisas principais estão se calhar nos gestos,
não nos livros, não sei, tento saber mas desconhecer
é se calhar a vera missão do coração,
aquele que pensa além do corpo, ante o mar

e a segunda-feira,
dia em que espero que me esperes.




II. À Queima

Souto, tarde de 21 de Janeiro de 2009

O frio destes dias queima-os.
Estamos todos sozinhos, cada um com seu frio em seus dias.
Emolduro a vida com a minha boca.
Boca e mão direita cercam a vida de palavras duras:
frio, saca, autocarro, café, placa, matrícula, janela.

Haveria de pegar-te na mão e levar-te ao futuro da infância.
De frio, os pés roxos como cardeais.
Na infância, os amados animais
atirando palavras terríveis:
eternidade, clínica, fronteira, monte, marco, tarde, frio.

Se era o Verão a nossa maior condição?
A essência vivia porém no Outono,
festim da nudez e do abandono.
Não, não era o Verão a maior condição.

O teu pai envelhece sentado temendo a Deus,
esse passador de passaportes para a lama
que mais castiga a quem mais O ama.
E também a Ele e a ele os dias queimam o frio.

Se tudo o que um homem pode, é um poema – está
tudo lixado nesse homem.

Pode ele ter sido rapaz, fresca voz ao vento,
inumerável e incontado, pode ter sido – agora,
queima-o o frio do eterno Inverno.

Emaranhada de silvas a cristã cabeça,
engolidora do fogo das laranjas a gelada boca,
pátrias do mijo os ossudos pés – onde raio
se terá metido o olímpico corpo
que todos alguma vez fomos no futuro da infância?

Um homem ama a mulher a que chegou
por via de insuspeitados esforços – e
tal mulher compreende mais a vida do que ele
pode – porque de poemas vive ao frio,
não de decisões.

Chão, terreno, esse homem é um de nós-homens, voz
picotada pelo que chove, par de braços esmaecidos,
mariposa rumo à vela irresistível.

Pando, bolinador, homem cercado de rio por todos os lados,
de trementes flancos, coleccionador de calendários de bolso,
comedor de bifanas frias algures no Sul,
nostálgico de um árctico Norte a que nunca foi nem irá.

Passeia à noite cães invisíveis,
o temente-a-Deus, o alma-do-Diabo.

Bicho inumerável e enumerável,
lítio sopesando seu coração repeso,
dele é a maravilha do esquecimento,
nem me lembro de quem te falo.

Pega-me tu na mão, leva-me a conhecer o (f)rio,
as bandas militares, a efusão das rosas municipais,
os bailes absínticos das nubentes cor-de-rosa-municipal,
a tragicomédia da língua portuguesa nos preçários dos bufetes,
a meia-dose que a alegria é,
feitas as contas,
leva-me,
anda.

Mais nos valera a obstinada estupidez da religião,
o umbilicalismo idiota dos messias-de-si-mesmos,
a opaca obtusidade dos moralistas-de-cagalhão,
a córnea intemperança dos que nunca-amaram-só-foderam.

É frio até o sol destes dias, como químico é pensar.
Volteia em torno a álgida noite que de manhã começa,
propiciadora de uma caligrafia tudo menos solúvel,
como solúvel é a cevada (20 % de café) na caneca romba.

E no tanque os queimados meninos nada sabem ’inda
do frio que aí vem, nem do futuro que para aqui veio.

26/01/2009

Crónica nº 87 da série Rosário Breve (O Ribatejo, www.oribatejo.pt)

Da Maria Absoluta e doutros insectos

Somos um país de insectos. Como insectos, somos esmagáveis com uma facilidade de chinelada.
Vem a imagem lepidóptera (mais a ver com traças do que com borboletas) da tragicomédia em que esta terra se volveu.´
É o tremendo sr. Sócrates a requerer a “Maria Absoluta”, essa gaja tenebrosa.
É o inenarrável sr. Madail, ao arrepio das finanças nacionais, a encomendar o Mundial da Bola 2018, depois do fartote pato-bravo que foi o Euro 2004.
É a “benesse” ético-coisital dos casamentos gay (com adopção ou sem adoção de meninos?).
É o desbocado sr. Policarpo, cuja religião não permite sacerdotisas, a dizer aos papás que livrem as filhas de casamentos com aquela maltosa que passa férias em Guantánamo.
(E já que a crónica mete o Cardeal ao barulho, pegue-se na Bíblia, encontre-se o Livro dos Provérbios e leia-se este apotegma: “Por três coisas se alvoroça a terra, e a quarta não a pode suportar: pelo servo, quando reina; pelo tolo, quando anda farto de pão; pela mulher aborrecida, quando casa; e pela serva, quando fica herdeira da sua senhora.”.)
A “senhora” em causa é, claro, a Maria Absoluta. O “tolo” é quem casa com ela.
Assim andam e desandam as coisas cá pelo “reino cadaveroso”. A canalhada mandante é vil. A desvergonha atinge foros de paroxismo. O saque é geral. A perspectiva é nula. A expectativa é magra. O “poder local” deveria levar “h” depois do “p”. O bacalhau sabe a tainha. O vinho das cooperativas é todo igual ao litro. E a traça nunca será borboleta.
Agora, que o meu leitor volte a cabeça de repente e para cima: vê? É o chinelo.

20/01/2009

Atol Matizado


© Sandra Bernardo
Teatro Viriato, Viseu, 3 de Setembro de 2008


Casa, Souto, madrugada de 20 de Janeiro de 2009



Pensei que o homem de que falávamos era poeta
por me terem dito que misturava tudo,
mas parece que a coisa, afinal, é do foro neurológico.

Ainda assim, julgo-me capaz de o perceber quando
ele me falar.

Manhã muito cedo, integro a fila dos cantoneiros contratados
à hora.
Havendo trabalho, trabalho.
Não havendo, vou aos chineses comprar lápis e indago
o foro neurológico deste lado da vida e da avenida.

Tenho trabalhado muito nisto, graças a Deus.
E posso dizer que a coisa tem dado resultados, ’inda
no outro dia o Felismino,
que também tem um blog como toda a gente,
me disse
Eh pá, porreiro, passa pelo meu blog que eu também
escrevo poemas e versos e assim.


Agora, do que gosto mesmo muito é

da trovoada nos olhos,
da assumpção matriarcal das compradoras de peixe,
dos senhores que abrem as gabardinas como cortinados nus,
dos cãezitos que trotam como vírgulas ao dispor do pessoal,
das camionetes carregadinhas de mato com uma forquilha em cima,
das agências de viagens carregadinhas de sol fotografado,
das helenas com bandós e melenas,
das madalenas em riquexós e outras cenas,
do Camões Lírico fluviando ainda e para sempre,
do Carl Sagan ter sido baptista metodista graças a Deus,
das cremalheiras das motas como dentições de óleo,
dos pintores municipais,
dos poetas municipais,
dos neurologistas municipais,
do preço das romãs em época de dióspiros,
das sucessivas traduções de Rilke,
da prestabilidade dos manetas nas passadeiras com ceguinhos,
dos esquilos que farruscam de ruivo a palidez do inverno,
das capas dos discos do Fausto Papetti
(Viggiù, 28 de Janeiro de 1923 – San Remo, 15 de Junho de 1999),
do senhor que vende bananas e latas de cera ao pé do quiosque,
da filha desse senhor, junto a quem o milho perde a bondade,
do rir-me sozinho,
de cagar de manhã a horas certas,
dos poemas que batem tipo 30 e tal por cento certo,
das passadeiras com ceguinhos e manetas atrás,
das cordas do sangue atando as sacadas de linfa,
da tundra e da taiga,
dos decotes pulsando banha,
das sextas-feiras à noite no baile das velhas,
dos rótulos mil-e-uma-noites das garrafas de ponche,
dos posters do Sporting nas carvoarias de antigamente,
da escrita da condensação nas vidraças,
do SG Gigante a preço de 1981,
das chávenas azuis que a minha mulher comprou não sei onde,
da vilegiatura lunar de foro neurológico,
de esparguete com azeite picado de alho,
de electricistas com opinião,
de taxistas mais salazaristas do que o Papa,
de crimes de guerra mas só depois da vitória do Manchester United,
dos teus olhos molhados como algas que olham,
da rosa-dos-ventos que o coração fundamentalmente é,
das mãos do meu Pai,
do carácter completamente velocipédico da vida,
dos cinzeiros atulhados de falangetas roídas,
dos cagalhões boiando à vista em dia de visita do Ministro do Ambiente,
do Yukon,
de sapatos verdes e vermelhos,
do substantivo atol,
das cicatrizes que o Tempo tatua nos cantos mais íntimos,
do Código do Notariado,
das putas que assessoram e das assessoras que putificam,
do outono,
dos alumínios entre máquinas agrícolas,
de vermute,
de saber o preto-e-branco de cor,
de queijo de cabra aspérrimo,
de pêras-de-inverno,
de senhoras consabidamente,
de alperces, de gatas e de alpergatas,
de não morrer no sono,
de dormir a vida,
de horários de carreiras para os lados do mar,
de perceber tudo ali na hora,
da munificência dos dicionários,
das capas dos discos de Ray Conniff
(Attleboro, Massachusetts, 6 de Novembro de 1916 — Escondido, Califórnia, 12 de Outubro de 2002),
de quando dá à minha Mãe para a galhofa apesar-das-dores,
da árvore do funcho das garrafas de anis,
do adjectivo matizado,
de máquinas verdes como periquitos,
de Alexandre Herculano,
de sítios onde coçar as virilhas não é índice de iliteracia,
da CIA não,
de Henry James sim,
da cidade de Paris pelos olhos de Maigret,
das preposições que regem ablativo,
das casas amarelas,
da elegância anelar de Saturno,
de lápis Viarco,
de tomar banho contra a corrente de jogo,
do olhar dos burros encontrando o meu coração,
de flores furta-cores,
de pensar que um homem é poeta,
das capas dos discos de James Last
(nascido Hans Last a 17 de Abril em Bremen),
de sardinheiras escarlateando varandas de mansarda,
de sardinhas de lata,
da Rocha Conde d’Óbidos,
de saber datas e nomes completos de cor,
da música imanente,
do Quarteto de Alexandria,
de Demetrio Stratos
(Alexandria, 22 de Abril de 1945 - New York, 13 de Junho de 1979),
de incursões oblíquas em outras possibilidades de sentido,
de palavras fulminantes,
de certa barra de chocolate comida em 1970,
de 1970 em geral e desse Julho em particular,
de desgraças que dêem mais livros do que de fazer,
de arrumar a biblioteca,
de quando está frio mas é possível escrever lenha,
de cafeteiras de esmalte azul,
de orelhas grandes atirando pêlos,
de pomadas de lavanda para os pés,
de plásticos com bolhas para rebentar

e de arranjar trabalho manhã muito cedo.

Gosto.
Não há cá misturas.

Quando um Gajo Merece, não Tem que se lhe Aponte

Casa, Souto, madrugada de 20 de Janeiro de 2009



Mereço a manhã, mereço a agonia, mereço o novo dia.
Tenho feito alguma coisa pela vida, por estes dois dias
que ela é.
Já não sou um dos bichos do carnaval, lamento.
Não vou posicionar-me sobre qualquer alteração viária.
Um gajo é apenas um gajo, uma instituição onomástica,
um cadastro mecanográfico, um príncipe em casa, um cão
na rua.
Não tem mal nenhum que assim seja.

Agora os ventos, é outra coisa.
Os ventos são importantes a ponto de se lhes associar uma rosa.
Os ventos são o sentido mais alto dos moinhos, que já de si
não são nada baixos.
Todo eu dou folhas quando me dá o vento.
Dou folhas de rosa – e mais não sou maricas.
Eu digo estas coisas porque elas são necessárias na hora.
Depois a coisa passa.
Vai no vento.

Mereço a manhã, mereço a agonia, mereço o novo dia.
Tenho trabalhado muito em prol da sociedade mais larvar:
corpo-saco que do sofá perora para o mundo certos transes
versilibristas por graça.
Do rol de cartões nasce gente hirsuta, toxicomental, gente só.
Quando morava em Lisboa, saía à noite a ver as galerias do
Teatro Nacional, onde os actores do abandono apresentavam
a produção.
Para disfarçar que os via, disfarçava que via os cartazes dos bancos,
o juro à ordem, a Europa toda ao alcance de uma moeda e de um
cabrão dum yuppie qualquer.

Hoje compro lápis nos chineses, que os viarco estão
pela hora da morte.
Saio de manhã muito cedo e espero que os chineses abram,
eles abrem, compro-lhes os lápis e toca para o café a
escrever a rosa-dos-ventos do costume.

Mereço isto, se calhar mereço isto.

Música que Veio de Noite

Casa, Souto, madrugada de 20 de Janeiro de 2009



Vim trabalhar para a música e ainda não voltei a casa.
Uma pessoa perde-se, o que não falta é bosque:
madeiras e sopros, lobos escuros como notas na neve pautada.

Agora não sei como hei-de fazer, embora saiba o que.
Às sete da manhã, vou ali ao café, há pacotes pequenos
de bolacha-baunilha, a malta reúne-se lá a discutir a última
jornada e as estrofes mais recentes do nosso mundo e o que
veio de noite enquanto as mulheres dormiam.

O problema é que depois
se vai tudo embora nos respectivos camiões,
tenho de voltar sozinho para o bosque, sopros nas madeiras, passaritos de apogiatura tilintam no cimo dos cedros,
a mulher da erva sente-se através,
não tenho fósforos, tenho pó de café, tenho cafeteira e tenho lenha,
mas esqueci-me de comprar fósforos no café para o café.

A meio do concerto, não dá para telefonar, os músicos irritam-se,
há que respeitar os músicos por dentro, eles tocam dentro,
se uma pessoa prestar atenção acaba por não pensar tanto em casa,
consegue suportar a manhã, o gelo que vitrifica a respiração,
o vago pânico de ter vindo trabalhar por conta das sereias.

À falta de fósforos, fuma-se vapor, o garruço descido aos olhos,
os pés de pedra na tumba das botas, as mãos estalando como galhos,
mas ainda assim dá para trautear aquela inclinação a verde,
o ponteiro do pinheiro que verga a verde na lividez do ar,
e não é preciso tirar um curso superior para se saber que perto
o ribeiro percute peixitos, breves, a compasso do que tenha
chovido.

Vim para a música ver se distingo de vez tristeza de graça.
A melancolia é apanágio das árvores, mas uma pessoa em bosque
acaba por lhes solfejar a íntima batida – todo o cuidado é mouco,
portanto.
Vejamos: isto é a tristeza, aquilo é a graça.
Nisto, o sino canta a meio caminho entre nós e um alegado Deus,
que, a existir, só existiu para Bach.
Vale-me que não tardam aí os madeireiros: clarinetistas quase todos.
Pode ser que um deles traga fósforos e o mapa de retorno a casa.


Segunda Passagem / Terceira Passagem

Segunda Passagem



Casa, Souto, tarde de 19 de Janeiro de 2009




Quanto temos – é quanto nos basta:
os olhos dos animais, portais astrais
que explicam a terra e a vida e a passagem.

Hoje, quantas vezes a nossa vida como se vivida
em outra vida,
além de ontem, para lá do que é fragor e passagem.

Nos olhos dos animais os vestidos vermelhos das mulheres.
Verificar isso sem problema nem solução, só passagem.

As crianças todas líquidas nos olhos dos animais.
E portas tão altas, que devemos chamar-lhes janelas
noutra língua, idioma que sobrepassa dentro dos pais.

Temos, os filhos, os filhos e este casaco, esta cafeteira,
este cesto de limões, esta colcha de embrulhar avós,
os mapas siderais em musgo pelas paredes,
pelos olhos dos animais.

Somos a passagem – agora a temos de ser, com a licença
de nossos pais.



Terceira Passagem




Pombal, tarde e noite de 19 de Janeiro de 2009



Sento-me e recordo-lhe as mãos.
Eram, digo, um par de coisas outonais.
Não eram mapas do futuro, eram madeira outonal.

As mãos antecipavam esse homem recordado.
Um arroio pulsava perto, emoldurado de arvoredo.
Ido tempo – e homem ido.

No pátio, o vento falava no pessegueiro.
Patos, pombos, cães, gatos, pardais – tudo nos olhava,
do profundo além líquido da Criação,
a esse homem e a mim, que começava
para que ele pudesse acabar.

Estou sentado num dos veios da tarde.
A noite mana já da cabeça, esta flor escura.
Estou a ver-lhe as mãos, a vê-lo nestas.
Outono-me sem dor nem recado.
Lanço as minhas redes às águas cantoras
muito frias.
Espero para trás.

******

Os calcanhares do coração roídos pelo relógio
– também fazem parte dos corpos,
os sentados como os recordados.
E o que faz parte nunca parte.

Sento-me perto dessas mãos de novo vivas:
de novo vivas para que eu possa ser antigo.
Vejo-as que tocam papéis de Paris, do Rio de Janeiro, de Londres,
de Coimbra.
Vejo-as de penar.
Vejo-as de pensar.
Vejo-as pensar a vida fora do corpo que antecipam:
formosas estrelas, cabeças de ouro, couro, ossos:
ajuntadoras de destroços.

Eu agora também recomponho papéis: liceu, aniversários,
fotocópias de Pierre Nordon sobre Conan Doyle, fadas e banshees,
anjos e motociclistas, hagiografias e gliptognosias,
transparências cromadas à maneira da oftalmologia infantil,
recordação de mãos que trocam de esquerda e direita
em espelho:
estas minhas já nas dele, quando ele.

(E em tudo isto, naturalmente, claramente,
o mais puro amor murmura.)

(E o coração faz-se rola – e arrulha
o mais puro amor.)

Vejo tais mãos de aqui,
aqui sentado.
Celebro (como elas celebraram) a glória humilde dos animais.
O vento no pessegueiro, nos álamos, nos robles, nas oliveiras.
Patrocino a espera, a demora – e nem ânsia uso já, mas
demora e espera.

******

Pulsar de estrelas concatenadas em vísceras:
nutrição e passagem.
Fogo e trabalho – de tudo as mãos do homem são capazes.
Água e fadiga – de tudo as mãos do homem são capazes.
Capazes, rapazes.

Febris, às vezes, as mãos que de um homem,
num homem,
amei.

Eu a querê-lo vivo
manualmente.

Pulsar.

******

Sento-me num qualquer aqui igual ao do leitor.
Falo do pai profundo do leitor.
Falo dessa morte patriparticular que tocou o leitor.
Falo de um leitor de cassetes em barraca de feira
franca,
francamente
– mas sem paternalismos.

Invoco a begónia e a gardénia,
a estónia & a eslovénia.
Convoco os moços-filhos ao mato da recordação manual.
Aleijo um limão pelo lado do sangue transparente:
e o amor me assiste tão em limão quão em lesão.

Homem que ama homem.
Duas mãos quatro.
Portanto oito.

******

Mãos que mudam o outono da direita para a esquerda.
Duplos pentagramas de unhas tristes e limpas: mãos para
um catecismo de filhos sem o embuste de Deus, mãos para
um danúbi’azul só por branca recordação, mãos para
o filho.

(Agraciaram objectos-despojos-destroços, vivos hoj’inda:
cotos de lápis, pagelas, páginas de guarda, centenários
como o do Irmão Doutor Elysio de Moura, do Professor Karma
(o que casou com a cigana dos fados),
da Mansa Puta que nos Pariu a Todos
por-cristo-com-cristo-em-cristo,
a todos e a rodos: as mãos dele agraciaram-me os objectos
perdidos, naturalmente perdidos – e
secos e molhados.)

Mãos que (se não) mudam.

O tempo-térmita toca, fura, rói, escava e dói.
Não, espera!
Não tem de doer.
Diz:

******

Era então amanhã, isto de amar mãos.
Mapas afinal do futuro enfim.
Coisas outonais (como os olhos dos animais).
Estrelas de pau, ossos de pão, pato & pombo & gato & pardal
& cão.

Extensões siderais da terrena natura.
Mãos caligráficas, redentoras, tristíssimas e branquíssimas:
mãos de pão & pau & pai.
Era então amanhã que as recordava,
agora enterradas em lama,
seccionadoras de begónias & gardénias,
tontas e bonitas, estelares, funâmbulas,
coisas recordadas em meu assentamento assentido,
sentado.

A última luz sobe chuva até órgãos de igreja.
Canora é a toalha de água ligadora de céu & terra.
Um pai, um filho (mas não fiz rapazes,
Pai),
(canora na mesma,
filho).

18h55 de uma tarde indiferente ao senhor,
por graça e glória.

(A gente às vezes está entre homens e pensa no pai
mas não diz nada, coisa outonal entre coisas
outonais.)

Mas mãos caligráficas
escrevendo por estas.

Canzoada Assaltante