09/10/2007

A Condição Litoral – versos turísticos para crianças antigas


A Condição Litoral – versos turísticos para crianças antigas

(Um dos amores invencíveis da minha vida é a cidade marítima que se dá ao mundo com o nome de Figueira da Foz. Fui feliz nessa terra feita de água e de luz. Justo é que estes versos, tendo dela vindo, para ela sejam.)

I

Quando de novo formos a ver o mar
que ele lá esteja é tudo o que peço
pouco pedir não é menos ter
se a nós ao menos nos tivermos.

São alguns gestos da claridade mesma das praias
um copo de água na mão é uma bandeira de chuva
descalços pelo areal tocamos das esferas a música
de antes as gerações viveram tudo quanto viveremos.

Palacetes e casebres da mesma areia erigidos
iguais anseiam todos por praia voltar a ser
ao longo da que maravilhosas coxeiem as crianças
como gaivotas pequenas como grandes aves.

Retornemos à frescura dos bazares miniaturais
da conventual praça onde as sacerdotisas peixeiras
oficiam salmos e salmões e o mitológico polvo
das profundezas da alma onde a memória nada.

Não podemos estar sempre apenas aqui
por nossa casa vazia correm crianças transparentes
somo-las repetidos nos espelhos adúlteros
murchando sem iodo no estanho tóxico.

Não abjuremos a condição domingueira do desejo
lautos farnéis conciliemos em seira de esparto forte
e o ar solar em profundos haustos altos bivalves bebamos
resgatada a botelha da molusca sombra fresca das rochas.

Ao mar me portes de volta muito pois muito
tenho eu enfraquecido de arbóreo mineral langor
sem outro vital transporte que este dos versos
tossidos manhã muito cedo em enxuta pastelaria.

Que o vento litoral nos accione em levitação
como a panos docemente enforcados em arame
desfraldadores das acústicas vozearias da viração
e dos transcoloridos hologramas dos barcos ao longe.

E muito morramos escalando-nos nus deitados
do homem dos gelados a voz vinícola recebendo
recebendo do homem da bolachamericana a solidão de tostão
e da Mãe outra vez nova a água de groselha maravilhosa.

E tu não sejas minha mulher sexual mas irmã minha
criança um pouco mais nova menina antiga
precoce reorientadora de minha vida em versos mal gasta
rapazito dado e perdido em nostalgias temporãs.

Na praia o favor farás de amar-me pelo que não fui
e sido deveria ter quando éramos para ser
sempre meninos de iodada derme e naturais dentes
uvas trincando como a pérolas de vinho doce.

O clarão da serra nos chegará florão do alto
a cal dardejando de suas casinhas comoventes
pouco nada nos dizendo não ainda a morte
que tais peças junta em dominó de esquecidos inquilinos.

Do fundo das águas exumaremos traineiras
com delas os escuros pescadores da prata zichadores
pelas frinchas descalafetadas escorrerá o salitre
e aos fantasmas da lota abraçaremos fraternais.

Nos não falte nem tanto mar nem amor tanto
por sobrevivente turismo de crianças antigas nós
constantes decerto de fotografias versicolores
em gama de negro giz cinza e azul.

Longe do mar em salas de velhas mães
somos já rostos de galeria passe-partout
idênticos marinheiros que perderam as graças do mar
em 1970 ano mesmo desse suicida Yukio.

Tudo o que peço é a memória das uvas lavadas
em copos de água transparente e fria
e o coração poder descalçar de sua pedestre armadura
e testemunhar na praia a memória futura.

Quando de novo formos a ser vistos pelo mar
que lá estejas é tudo o que peço
tudo já tive e nunca pedi
senão que estiveras quando eu já não.



II

Tenho tanta pena de mais vezes não nascermos
está hoje uma tarde convocatória de todo o ouro
a luz é tão bonita que um gajo sorri sozinho
como fazem os tolos como as crianças fazem
como às vezes saltam os animais benignos no monte
e os peixes felizes e amnésicos à flor do oceano
e os cavalos imaginários das infâncias solares
como a minha foi quando eu nascia todas as manhãs
às vezes a Lua demorava-se manhã acima
como uma memória futura um sol de cal
e as árvores inclinavam-se em lapiseiro capricho
e no inverno as cheias davam um pouco vontade
de morrer de beleza de feliz desgraça de pobreza
quintas e casarios fumavam lenhas e ceias
o sino da igreja aportuguesava o Cristo local
e todos os pais eram vivos e trabalhavam e eram fortes
e todas as crianças ovelhavam pela erva das colinas
os velhos usavam chapéu e olhos sábios
de mochos oitocentistas ilustrando bosques falantes
longe o mar subia à paleta vidraceira do céu
peixes e estrelas dividiam a religião do infinito
o meu corpo não era ainda espermático ou licoroso
o teu também não que eu sei basta fazer as contas
acontecia-me nascer de noite também
quanto mais chovia mais eu renascia
de olhos fechados na cama aberta pela Mãe ouvindo
o aplauso infinito da chuva ao drama do mundo
o infinito drama do mundo das crianças ouvintes
da chuva desolada desoladora e tão gaiata
como uma criança nua havia-as muito no meu tempo
descalças no esterco dos animais de tiro da agricultura
infectadas de moscas e de alcoolismos fundadores
algumas rebentavam do coração numa aflição de pássaros
desasados de golpe pelo gato da miséria patriótica
comecei a desnascer mais e mais a partir delas
dei por mim aos dezassete anos nos bailes do Clube
a música eléctrica entrava no corpo tal formigueiro
líquido era o perfil das raparigas de febras enjauladas
em gangas causticadas de lixívia e primeiras
menstruações aromáticas em fissuras de caramelo
começou então no mundo a desinstitucionalização da eternidade
os homens de chapéu tiravam o chapéu e deitavam-se nos caixões
chorados com violência por filhas e cães muito magros
o sino cantava poemas mais lentos dessa lentidão
que crava as unhas fundo no coração
desapareciam as infantis ovelhas das colinas
umas iam para serventes da construção outras para oficinas
a minha Mãe teimou que eu haveria de estudar
o Século de Ouro da Poesia Espanhola por exemplo
a Porra dos Verbos Franceses a Implantação da República
Capelo & Ivens Gago & Sacadura Stanley & Livingstone
Dr Jeckyll & Mr Hyde Marie & Pierre Curie Holmes & Watson
Bucha & Estica Yourcenar & Mishima Nascer & Morrer
à noite revisitava o meu quarto em velório de livros
no pátio os cães rondavam como sentinelas envelhecidas
aos poucos os anos tornaram-se muitos dei-me à corrente
autocarros opúsculos crepúsculos botânicos tabernas frias
nunca percebi fosse o que fosse da minha cidade
na gare rodoviária os bolos eram fritos a gasóleo
os choupais eram devassados por ciganos e homolheres
já então a tinta-da-china das matas me matava
de rendilhada beleza litográfica eu ansiava de lápis
na mão nos olhos no corpo que se me erectava
de concupiscente paixão pela pobreza de viver tanto
enquanto já tão pouco renascia digamos assim
dei por mim amando mortos coleccionando almas
expostas em ouro ao sol de tardes assim agora depois
no monte à flor do oceano entre fábricas autocarros
tolos e crianças sorrindo sós.



III

Os olhos cheios de água do mar
orlam do olhar a condição litoral
um homem maduro suporta mal
o sal que enxuga o mesmo chorar.

Por exemplo raparigas ou cães
tidos e perdidas em baías ágoras
cruzando o manso terror da dissolução
uma noite de inverno manhã de verão.

Textos: manhã de 9 (I) e tarde de 8 de Outubro de 2007 (II e III).
Pintura: Monge à Beira-Mar, de Caspar David Friedrich.

08/10/2007

A Noite em Breve - 13


Desenho: © Miguel Ruibal, Hombre Escribiendo en un Bar
(
www.miguelruibal.blogspot.com, com autorização do Autor)
.............................
A NOITE EM BREVE
ou
CORUSCAÇÕES NO IMO DE SOMBRAS
(uma portugalidade delével)
13
Caramulo, manhã de 25 de Agosto de 2007

De golpe, a vigília. A hora juvenil do sábado acorda o homem estatelado no colchão. O quarto é amplo, a janela desvela o mundo possível. Iça-se o homem de sua caverna, vai à cozinha, espreme um limão para um copo de água, vai à varanda e saúda o dia com esse champanhe lavador. É a última semana de Agosto. Um frigir de pássaros cantores crepita pelo marulho ventoso do arvoredo. O vale espraia os legos: casas que resistem à usura involuntária das vidas.
Num jornal, o óbito do Murça, que foi jogador do Porto e do Belenenses. Meses depois do Bento do Benfica, foi-se o Murça. Noutro jornal, menos suicídios portugueses em 2005 do que em 2002. É a manhã de um sábado mais.
Uma manhã mais para não perder de todo na rede virtual. Continuo o homem, que sai de casa para comprar o jornal. Na pastelaria, café e água mineral. Derredor, sol e vento, ambos frescos. Encomenda no minimercado de frango assado para o almoço. Planos sossegados de trabalho para a tarde: poesia, rádio, John le Carré, café. Sobretudo, não permitir que o Bem e o Mal surjam como únicas alternativas. A dicotomia limita e esteriliza as possibilidades da consciência agente. Agir para conhecer, agir para partilhar. O homem vai agir.
Enquanto não, o jornal traz fotografias e uma turis-(publi, enfim )reportagem sobre o Caramulo. A Lady Di volta à ribalta (dez anos sobre a morte da “santa” frívola em Paris). Folheio o periódico como o outono faz às árvores. Já bocejo um pouco – o homem boceja. Lenta, a ulterioridade da atenção vai retirando do baralho as suas cartas particulares para jogar à vermelhinha com a solidão. Isto interessa o homem: construção e reparação são simultâneas. Percepção e recepção, também. Escrita e pensamento, também. E não – não são dicotomias. São outra coisa: essa “outra coisa” é ulterior e atenciosa. Também é ubíqua, no ser (ter sido, a-ser).
A manhã vai entregando o testemunho. Segue-se a suspensão existencial do almoço (esquartejar a ave, romper o pão, sangrar o tomate, assimilar a água). Depois, o país da tarde: moratório, brancamarelo, eterno. Depois, a outra eternidade: a noite. Entre as duas eternidades, o entardenoitecer: em luz palácio-conventual, a nave riscada pelas aves que circulam espirais de progressivo silêncio. Também, então, passagem dos bebedores de sábado à noite. Seus sapatos, seus automóveis obsoletos, suas obsoletas pulsões sexuais, seu precário labor de adultos tóxicos na infância mentirosa do álcool. Ainda não nada disto.
Enquanto, a mulher, ao lado, lê Simenon (um Maigret de 1964). Vento dourador de castanheiros, ao outro lado. Suspensão de cristais no ar-água da montanha. Um motociclista zumbidor na efémera tela-janela da pastelaria: capacete preto, veículo verde, camisa branca. Pois, já pulsa o palavreado. Já se realinham, de novo, as formigas. Traspassam o homem, flechas incorpóreas, imateriais relatoras relatadoras de si mesmas. Tocam nervos, abrem a boca. As palavrosas formigas estão muito contentes. Nada lhes resiste, nada pode resistir a tais veteranas das pragas bíblicas, gafanhatadoras do interior deserto populoso: coruscações no imo de sombras. Busca o homem alinhar seus dias e suas noites em uma concordata protectora. Para tal, e para tanto, tem apenas de emprestar-lhes o seu corpo de modo a que elas se tornem corpo – em linhas (frases, versos, formigas). Incisões brancas: os parágrafos.
Recordo pelo homem uma noite de chuva passada com dois cães dentro de uma barraca de madeira. Passou um quarto de século. Agora, não passou. É outra vez a chuva na folha de zinco que telhava a barraca. Havia um sofá escuro, três ou quatro cobertores. Havia uma garrafa-termos cheia de café quente. Havia comida para os animais: estava disposta sobre uma folha de jornal, no chão de madeira. Tinta em pó dormia em frascos redondos de louça azul-escura. Almanaques e revistas espíritas eram diagonais na única prateleira do aposento único. A chuva guardava esses três seres do Passado. Vejo-os olhando-se, agradados e guardados pela quarta companhia: a da chuva nocturna. Havia um rádio, mas o homem não o ligou. Os cães eram-lhe todo a música de que precisava. Eles comeram, vieram lamber-lhe a mão esquerda, deitaram-se na ponta do sofá. O homem pousou o caderno na prateleira espírita, envolveu-se nos cobertores, teve tempo para reconhecer a durabilidade daquela chuva, daquela noite, daquela casa, daqueles cães.

Mais "Versos" Maravilhosos que o Mundo me Oferece Todos os Dias


Amigos e amigas: aqui estão mais uns tantos "versos" maravilhosos que o generoso mundo chanfrado da internet todos os santos dias me oferece. São as tais "keywords" da maltosa que vem aqui parar ao Canil (sem saber ler nem escrever, naturalmente). Mantenho-lhes a "ortografia". Suspeito que vou deixar de escrever versalhada original e dedicar-me só a isto. Espero que vós fiqueis tão viciados neles como eu: é reparar, por exemplo, no tão glorioso quão oportuno retorno das "caras de bacalhau".

(A foto foi tirada em Óbidos, na tarde do dia 30 de Setembro de 2007 - e diz mais verdades sobre o nosso Portugal do que esse anacronismo estadonovista chamado José Hermano Saraiva.)

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fragas de mulheres distraídas
nódoas de massa consistente
O QUE DIZ A IGREJA SODRE SANTA QUE CHORA SANGUE
MANUEL LUIS GOUCHA COMIDA ECONOMICA
Vitorino Nemésio, Em rosa de bateria e sol de vinho
uma noite cercada por caralhos
realmadridbarcelona
farda de chofer
cuba de inox para aquecer pedras quentes
plantas que curam da argentina
quero um exemplo de uma carta de despedimento
paroxetina faz mal para os rins
os dedos dos pés estao roxos e com feridas deve ser trombose
parada de gonta cu e mamas
Importancia do oxiuro
o que acontece com as velhas prostitutas
poemas sobre rosas do senhor
oração aos pescadores
profilaxis de la trombosis venosa profunda
velhas de 60 anos transando
canil Moscovo
exposiçao de aquarios com peixes de agua salgada youtube
poemas to ze brito
NECESSITO DE FIGURAS DE PANELAS E OU CALDERÃO
temperatura de amizade
poesias sobre mecanico de bicicleta
caras de bacalhau
pevides de abobora Peniche
pastilha elastica malefícios
ouvir musica de tony de matos gratis

06/10/2007

Dois Pedidos





I

(0. Pedido – I

Leveza e beleza
ainda

esta manhã.)

1.

Na morte dos outros
ir aprendendo a ler.

2.

No quarto dos livros
um relógio parado.

Mentiroso, ele, como eles.

3.

Manhã.
O sol amarelo e branco
como
o cão da minha vida.

4.

Exsuda o corpo
água, leite, licor:

garrafeiro de versos.

5.

Entra na pastelaria a mulher louca.
Este corpo entre nós.

Entre quem, o pensamento?

6.

Nada morrer ainda.
Viver tudo já.

7.

A jóia do amor
no estojo do sexo.

8.

Perdoa-me
o que sei,

não o que ignoro.

9.

Movido, comovido e feliz
como uma árvore ao vento

quando te recordo,
senhor.

10.

Meu Pai e minha Mãe
fizeram aquilo:

isto, que escreve.

11.

Antes de crescer para sempre,
levou-me Huckleberry Finn
em seu bote fugitivo.

Fugiu ele, afinal, só.
Eu fiquei, negro e escravo.

E vivo.

12.

D’este, vivo perfil italiano
de rapariga na pastelaria.
Beatriz? Isabel?

Portuguesa. Maria.

13.

O jogo do mundo:

nenhuma regra,
nenhuma vitória.

14.

Gerem as nuvens
luz e sombra.

Assim os amigos.

15.

A nossa pele:

mapa 1:1
da nossa vida.

16.

De vilipêndios
compêndio

também

a nossa vida.

17.

Quem negar pode
o animismo dos objectos

o faça

e se desfaça.

18.

Preta-e-branca a vida a rancores.

19.

A cara ao espelho

por outros tantos olhos
olhada.

20.

Homem em pátio crepuscular:

cada um.

21.

Mulher:

todas uma.

22.

Em todo o verso, todos os mortos, alguns vivos.

23.

Amanhã, como se ontem
nunca.

24.

Desavindos,
partilhamos lixos.

25.

Lisboa.
Lis.

26.

Eu às vezes entro na boîte do desespero
mas ouço música.

II

26.

Numa gaveta da cozinha
estão deitadas as facas.

Mas não dormem.

25.

Na impossibilidade de me deslocar no espaço tanto quanto me gratificaria, tenho em casa publicações antigas de décadas que me levam. Quase sempre está de chuva, quando assim viajo. Em redor da casa, os animais recolhem-se sozinhos às cortes. As árvores lavam-se, levanta-lhes as asas o vento dispersor de pássaros e palavras. Não preciso, então, do coração. Os olhos me bastam para usar a maquinaria da publicação rural de 1915. Nutre-me a esperança de que vingue, no plano internacional, em 1968, a carreira de António Calvário, o nosso Adamo, a quem não assustam as letras em castelhano, francês e italiano. Os olhos me bastam para chorar o luto por um menor que se chamou Manuel de Pinho Gomes e se afogou, aos 12 anos de idade, nas águas do rio Antuã, na freguesia de S. Tiago de Riba Ul, corria Julho de 1969.
Assim vou e assim regresso, a tempo, a casa, à minha vida. E o planeta voga nos anéis orbitais da total indiferença a viajantes e a publicações, as antigas como as modernas, os mortos como os vivos.

24.

Como um aplauso brusco, a revoada de pombas
enche a praça da rápida eternidade de Deus.

23.

Muito me acontece ter pela frente a vida
como perante a tília se sustém o peregrino.

Partilhamos a fadiga e o pó e o sol e a passagem.
A tília e a vida ficam, nós não.

Acontece então a outros.

22.

Os meus pés são iguais aos pés do meu irmão
as minhas mãos não desmentem a maternidade de minha Mãe
às vezes olho com o olhar do que se foi embora
parto o pão como o partem as filhas.

Só a mim não sou idêntico
ou sequer semelhante:

pois que ser um
é intervalo
entre antes
e adiante.

21.

Mais que a tarde parda, parda é
a eminência do coração.
Antiga parede de fresco caiada,
uma nota rodap’azul aos pés,
a lonjura de sobreiros mortos de sede
nas costas eminentes, solares,

pardas.

20.

Com gramatical pinça descolo do mundo
os fotogramas que, tratados com delicadeza,
à tona d’água afloram o dito fundo
de mim e dos outros, ah pois concerteza.

19.

A filha desta senhora é um relógio tão bonito, tão
mortal,
também.

18.

A palavra busca-te, topa-te, deixa-te.

17.

Em motéis de auto-estrada, a 7e500 a noitada,
inscrevem casadas e divorciados certos lirismos
depois não constantes do sol da herdada,
que para algo servem os autoclismos.

16.

Já levei junto a barragens a minha boca.
Do que deixei visto, trouxe a língua.

15.

Quando cheguei, trazia comigo
o pessegueiro enferrujado do pátio
a que se acolhiam o meu cão e o meu Pai
quando Santa Bárbara não rezava.

Muito vi chover na infância.
Chovo eu hoje nela, bárbaro.

Não santo.

14.

Deixou-me o meu Velho
por herança
todas as palavras.

Riqueza:

não consigo gastá-las
todas.

13.

O meu Velho me deixou.

12.

O meu Velho deixou-me
por herança
as palavras todas.

Riqueza:

não conseguira gastá-las.

11.

Deixou-me o meu Velho
herdade
de todas as palavras.

Outra vida tivera
o mesmo deixara.

10.

O meu Velho deixou-me
todas as palavras.

Outra vida eu tivera
não as gastara.

E outra vida tenho:

a dele.

(9.

A gente só quer um leitor.)

8.

Crepita às vezes o telefone seus brasidos
do rubi do fogo da voz há estalidos
centelha a locução seus sintagmas.

Crocitam as vozes imagens vagidos
nós temos andado no mundo perdidos
perdidos ao frio ao gelo aos magmas.

7.

Um frio corria por baixo dos pés
eram os anos 60 éramos nós meninos
ginjas de bufete cançonetavam os clubes
e lennons penteados ’inda sem japonesas a tiracolo
loveávam-nos yeah yeah yeah.

Depois vieram os cravos e os assessores
e a China a fazer de América.

Yeah yeah yeah.

6.

Um bom fim de dia bom
é quando entramos no mar
e o mar nos chama puta.

Digo eu
que sou homem.

5.

Estudei alguma fonética em tempos.
Se os dias me fazem vibrar
as cordas vocais
dias consoantes são.
Se não,
orais.
Sim, são.

4.

Falei com o moço que guarda as estrebarias.
Ele calça da condessa as botas de couro pago.
Madrugadas verdes cinzam sem despertar.
Ele bebe aguardente na folga única.

Eu tenho outra vida que não ter queria.
Eu queria ser moço de estrebaria.
A gente quer ser outro homem.
Pega-se num poema e é-se-lo.

3.

Estou outra vez no pátio, Pai.
Recomecemos.
Os bichos querem comer.
Tu tens comer para os bichos.
Nada te faltou jamais:

nem mulher, nem gatos, nem cães.

Só tu não compareceste à parada
que te chamava:

em tuas duas alturas de coxo,
entre gatos e sargentos,

pouco dado a guerras que não fossem
a interminável tua,

a que te matou

e de mim te levou.

Não te preocupes:
só tenho uma gata,
tenho comer para ela.

2.

A gente trabalha para isto:
é uma terça-feira, já choveu,
uma menina aborrece-se contra a vidraça:
mosca da nossa vida,
nossa filha,
nós o Pai,
nós os deuses da chuva.

1.

Não
o menino não voltou
não a esta casa
a esta casa que ele vai lembrar
como a casa
a que volta sempre
desde
que não voltou
o menino
não.

(0. Pedido – II

Esta noite
nem

sorte nem morte.)



Palavras todas: Caramulo, manhã (I) e tarde (II) de 5 de Outubro de 2007
Foto: Caramulo, casa, 13 de Agosto de 2007

05/10/2007

Evidências Repetentes



Dois olhos quanto basta são
para de todos os rostos construção.

****
Entre ontem e amanhã voltam-me as palavras de
nascer e morrer.
Nelas discorra, e delas, a vida mesma –
à existência anterior e a ela seguinte.
Portanto, única.

****
Escrevo para comungar o silêncio.

****
A idade, esse lego de patamares.
Pátios como o futuro traseiros,
quintais de primeiras sexualidades,
jogos muito solitários, felizes.

Em meu presente outono, ainda, e porém,
a doçura cega de cegarregas e açucenas,
o vapor da comida da Mãe,
a humana mendicidade dos gatos no cimento.

Todo o depois se tornou antes de tudo.
Agora é este reconhecimento que não conhece:
sequer a novidade cartonada das grisas tardes,
quando, marsupial, o dia embolsa no ventre

a noite, tal frio peluche de estrelas e automóveis.

Tornam-se os anos ondes:
interdita geografia, que aos passados
se não volta, pois se não volta
aonde de onde se não saiu.

A idade etc.

****
Outras vezes
em uma tarde de repente
é tudo entre
morrer e nascer.

****
Entre.

****
Ouço água correndo no escuro.
Não estou em casa.
Não estou na rua.
Não é de noite.
É um verso.

****
Toda a vida humanamente se desconhece
a evidência repetente da eternidade:
as vozes dos animais – mesmo poema
em sucessivos diferentes volumes.

****
Nada creio e pouco crio:
pouco e nada.

****
Estou seguro no amor de tijolos
de que fui, pedra a pedra, erigido.

Rúem as casas e os amores.
Não o amor, essa construtora
ruína.

****
Já saí e não fui.

****
Pega num homem e fá-lo dizer
que sabe esse homem pegado.

Se
como eu
for ele
saberá isto:

uma bandeira inútil num barco
o carácter frutívoro do vento
o carácter piscívoro da árvore ao vento
a solidão individual de todo o barco.

****
Acontece
hoje aconteceu-me
ao microfone da rádio
fazer apelo
dia 7 de Outubro
em Tondela
entre as 9 da manhã e a 1 da tarde
recolha de sangue
para compatibilidade de medula
o menino leucémico é de 11 anos
quantos anos vai ter o menino
quantos vai o menino acontecer.

****
Dois olhos usei durante a barba
reconstruí os escombros deste olhar
que me preside às coisas sociais
os dentes entraram na liça
das orelhas tufos atiraram a idade capilosa
e a boca sabia que ia escrever à mão depois

agora.

Caramulo, tarde e noite de 4 de Outubro de 2007
(à excepção dos dois primeiros versos: entardenoitecer de 3)

04/10/2007

ALternativo Outubro

A chuva voltou hoje, a gata ficou por casa.
(Agostinha à janela vendo chover, 3.X.2007)



Dia 1. OUTONAL

Já flavas madeixas cabeleiram as árvores,
outubra-se o tempo à tarde outonal.
P’lo caderno do chão, as folhas, escritas,
são pepitas de oiro, de oiro pessoal.

Nevoam as horas nuvens voadoras,
tiritam insectos do findo Verão.
Levitam os bois, gazes sonhadoras,
seus olhos tão fundos, tão de compaixão.

Mais pobres os homens, os poucos da terra,
que, tais oiros vendo (oiros de leitura),
no escrito não lêem a vilegiatura
do oiro da vida que à morte encerra.



Dia 2. FLUVIAL

Não poderá o rio tanto correr quanto de ti gosto,
pois que ele em o mar acaba e eu em ti começo.



Dia 3. PLUVIAL – I

Da chuva o rio vem quando chove,
mas eu de ti sempre: chova, faça sol.



Dia 4. FACIAL

Nas caras dos animais surpreendo impressionismos:
são rostos expressos de pessoas minhas.
(De alheias também, que os mimetismos
camaleonizam corpinhos, alminhas.)

Uma tal avó minha, tal qual uma tília,
folheia-se ainda ao vento vadio.
E o meu Pai passa sem margens: um rio
que molha os olhos a toda a família.



Dia 5. MELHORAL

O meu amor é feito de comprar o pão de não
comprar o pão de alcalinos impérios sem sal
de exsudações delicadas de frios suores.
Todo o amor já viveu seus dias melhores.

O meu amor é feito de lapsos sinápticos
e até o confesso de amores telepáticos
que negam ter sido querem ser ainda
o lugar do amor que eu tenho feito.



Dia 6. CARNAVAL

Saio à rua, entra-me a rua
de onde saiu nunca, mesmo
em casa: esta
vigência dos candeeiros públicos
em meu lírico
privado
prostíbulo.

Saio a ser visto pelas almas-áleas do parque
(é mesmo em frente a minha casa, tudo)
e sei que, cedo ou tarde, vou dar que
falar à noite, esse tristonho entrudo.



Dia 7. GLACIAL

Era para ter sido antes,
nunca mais é agora.



Dia 8. ESCRITURAL

Faz de conto.



Dia 9. ARTESANAL

Recordo a tua boca artesanal,
que nem ouvi nem trabalhei.



Dia 10. QUAL

Vi-o passar na rua, tinha já chovido,
um cão de cada lado.

Eu tenho uma gata.



Dia 11. ARSENAL

E no entanto ninguém fechou nunca porta
jamais aberta. As esmolas são poucas, a missa
é noutra paróquia.

Recordo uma finalwembley
Arsenal, 3 x Manchester United, 2.
Eu era muito novo, mas sobrevivi até
à decisão nos últimos minutos
do tempo regulamentar.

Já era a preto-e-branco,
na altura.

No fim do jogo, indicaram-me
a porta:

era em casa.



Dia 12. ORAL

Há já muitos anos que te digo as mesmas coisas.
Não é falta de imaginação, digo, é
a importância recorrente do dizível,
do não-dito no dito que te digo e repito.

Era há muito tempo já antes de serem já
muitos anos, o que te digo.
Baseia-se, é certo, em coisas que te ouvi
dizer. Mas, como não dizes já, repito-as eu,
ainda, para já,
Pai.


Dia 13. SAL – I

O meu corpo não esquece coisas
que depois não lembro mas escrevo.
São salinas apogiaturas na partitura imensa,
como estar na praia e reconhecer,
sem lhe saber o nome próprio,
o homem dos gelados da Figueira da Foz,
1970 e páginas seguintes.



Dia 14. LINGUAL

Homens, meus agora, recolheram, ermos, a casas
sem luz nem gás nem água nem internet.
Era no século XVIII.
Eles eram a língua portuguesa.
São hoje, mas pouco, e cada vez menos,
obstáculos:
ao hipismo analfabeto dos meninos burros
que o Estado Novo e o Teenostado Pós-25
nos deram.



Dia 15. LEXICAL

Síntese mais que perfeita de terra e mar,
és, ar, da água dos olhos feito e
do pó da carne coberto.
Anulador do longe e do perto,
respiras-nos tu a nós, não o contrário.

E porque a todas as palavras levas e trazes,
és, ar, o pai e a mãe do vocabulário.



Dia 16. AREAL – I

Recebi esta manhã, do meu amigo Fernando Jorge,
duas séries de fotografias da Figueira da Foz
de há trinta e cinco, quarenta, quarenta e cinco
anos.
Muitos anos – muitos passados.
De novo fui o rapazinho espantado
pela doçura do sal, a areia quente
entre os dedos dos pés, os olhos
azulados pelo mar invencível.

Não, o meu corpo não esquece coisas.
Os pescadores e as peixeiras suas mulheres
e o peixe: pão de prata
que os barcos humilimamente semeavam
e colhiam.
O farol vermelho banhado ainda,
ainda atlântico.
O Grande Hotel e sua piscina pranchada a
três, cinco, dez metros.
Os carros antigos então novos em folha.
As mulheres senhoras, os homens cavalheiros,
as crianças crianças.
A Torre do Relógio futurando pretéritos galantes.
A tenda mágica e pobre do
circo pobre e mágico.
As escadas para o areal
descendo até aqui acima
– à minha montanha,
onde, à Lua,
celebro o Sol
fotografado
da Figueira da Foz,
a areia entre os dedos dos pés,
o meu Pai vivo,
a maré alta
do meu coração,
pão,
ele também,
de prata.



Dia 17. PLUVIAL – II

A chuva voltou hoje, a gata ficou por casa.
Trabalhei todo o dia em sintaxes ponderosas.
Não vi nem senti pássaro algum, uma só mosca
foi quanto tive de direito a linhas aéreas.

Fui mijar ao pátio, não consigo
resistir ao apelo ureico da chuva.
Mijei a direito e grossamente,
a pontita do jacto algo perturbada pelo vento.

Eu também voltei hoje
ao onde de que nunca saí:
a ti, sim, amor, a ti.



Dia 18. LITERAL

Dou por mim na pobreza remediada das horas
absolutamente encantado nesta precisa banda:
a de ser alguém aquém da própria margem mesma
da língua portuguesa de Camões e de Sá de Miranda.



Dia 19. LATERAL

Uma das pedras do corpo do pontão marítimo
era o meu corpo cor-de-gabardine-pedra nesse inverno
trágico e maravilhoso de 1986.
Chegava de lado o grande vento, que a corpo
e pedras pedia a esmola de um verso.

Aqui lho dou, em 2007.



Dia 20. LITORAL

Venham
de onde vierem

a vida
e
a irmã dela.

A esta praia
chegarão

seja inverno
seja verão.



Dia 21. BAPTISMAL

Havia chá sempre e sempre bolinhos de canela
na reservada privacidade da velha senhora
que eu frequentei sendo ela por ela,
ao 18 terceiro, Rua Corregedora.

Almeida Garrett, Camilo e anis,
convivas iguais do salão literato,
maila avoenga bulha de Eça e Assis
machadando, alegre, o gentil trato.

Eu era Basílio, ela flaubertava
bovarynismos de truta madura.
E nunca a papei, pois quem a papava

era um cavalheiro de grenha mais dura
que tinha interesses, a cabral sacadura,
na revolução que se avizinhava.

Eu hoje sou pobre, ’inda leio papel.
Meu nome, qual Basílio, é só Daniel.



Dia 22. SAL – II

Uma ideia de Cristo molha por vezes o pão do corpo
em o sangue evanescido da pobreza.
Não aumenta pão, nem peixe, nem sopro.
Aumenta, cristã, o sal da tristeza.



Dia 23. PATERNAL

A nada disto quero deixar mas de tudo isto
deixar quero alguma coisa do tempo
que me não deixa.

As antigas senhoras que por ser menino não
cobicei, elas às janelas antigas mais do que elas.

Os antigos cavalheiros chapelando cortesias
em rossios ajuntadores de ócios e negócios.

Os magros cães pianolando fomes e carinhos
de maternais olhos e carraças gordas
como ervilhas.

Tudo isto
e
as minhas filhas.



Dia 24. MEMORIAL

Não tenho feito outra coisa.



Dia 25. PORTUGAL

O meu País chove sozinho a desoras certas
dou com ele a chorar esconso a um canto
parece um menino adulto de mental infantil idade
coleccionando bonecos de reis e regicidas.


A minha Terra vive de gente muito estúpida
entre a que me não furto semelhança
santorros de caruncho votivam prebendas
hagiocracias avoengam gerações e gerações.

Isto nosso não é Nação será outra coisa
não mais por isso é porém amada menos
a não Nação tão de si mesma interregna
tão por si própria adiada de si mesma.

Há muitos anos parece ontem em nosso Quintal-Kibir
não há muitos ontens se foi a espadeirar o garotelho
sebastianista umbilical malparido e fedelho
se amanhã voltar ’inda lhe calhe a puta-que-o-parir.

Da nossa Turma os idiotas oftalmológicos
gerem todos hoje bancos repartições
meia dúzia não mais de sujeitos astrais
arrastam pel’ amargura suas poéticas vielas.

Está bem assim a nossa Tasquinha festivaleira
às amendoeiras-em-flor vai-se morrer de ponte
a Fátima vai genuflectir todo o pernaltautarca
a morte é um rio há sempre lugar na barca.

Hoje mesmo em minha Casa
li de um pobre tolo os modos conjuntivos
poetazito de 25-linhas-papel-selado
do próprio umbigo o cotão mesmo adorando.

(Mas Portugal é ainda às vezes um homem bom
uma mulher forte uma rapariga descalça
um papagaio de papel-de-seda um pão fresco:

uma Pátria:

a pátria de quem
aqui havendo nascido
forçoso é que todos os dias renasça
quando
a horas incertas
conhece o Sol
pela primeira vez
o sol que só (em) Portugal.)



Dia 26. AREAL – II

Conto inumeravelmente os meus dias palavra a palavra
uma só noite soma a si mesma todas as noites
sem passado e sem futuro é como a Lua o coração
de um homem ajuntador na inumeração.
Está tudo bem assim assim mesmo deve ser
faço pela vida o mesmo faz ela por mim
à areia da memória vem bater o mar lembrado
quem foi menino pode ser que retorne uma vez
que palavra a palavra dê conto da inumerável conta.



Dia 27. MINERAL

O coração
esse granito de igreja
sem fé.



Dia 28. CAL

Todos
mais tarde ou cedo de mais
cegamos.

Só então
habitamos.

Uma faixa azul
aos pés
uma boca vermelha
na cara.



Dia 29. MUNICIPAL

Creio poderosamente na eternidade das ruas
não nas que dependem da vereação
nas outras as que trilham sulcos veredas
azinhagas becos vielas artérias travessas.
Recebo poderosamente as almas passadas
través tais ruas não controláveis pela autarquia.
A si mesmas redesenhavam conforme noite ou dia.
A mim me redesenham conforme a noite conforme o dia.



Dia 30. MUSICAL

Eu quero que o jazz das festas nos perdoe

tanta tristeza malbaratada
tanta mesa enodoada
tanta certeza incertificada
tanta pobreza disfarçada
tanta defesa atacada
tanta framboesa amorangada
tanta incerteza certificada.

Eu quero que o jazz nos festeje

a passagem breve a noite eterna
o serão todo algum dinheiro no bolso
uma cigarrilha uma companhia
um táxi honesto um pequeno-almoço litoral
um atémanhã que não doa de mais.

Podemos entrar
conheço o dono.

1-2-1-2-3.



Dia 31. FINAL

Já cavas e deixas as madeixas flavas,
novembra-se o tempo à noite invernal.
Lapisárvores riscam as rimas escravas
em metro de lama, lama pessoal.

Revoam, desoras, lunassombrações
t’imitam, se choras, um alguém passado.
Dermodiamantes do céu em cobrões
safiram o peito fundo, magoado.

Mais pobres os homens, os poucos da terra,
que, tais pratas sendo (pratas de escritura),
no lido não vêem a mesma loucura
da prata da morte que à vida encerra.





Caramulo, tarde de 1 (poemas 1 a 14),

de 2 (15 a 24)

e 3 Outubro de 2007 (25 a 31).

03/10/2007

Montanha Mágica nº 21 - Guião

© Robert Disraeli



Logo, às zero horas (repete sexta para sábado, à mesma hora), é ocasião de Montanha Mágica (MM).
Sintonia em 91.2 FM ou, pela net, em http://www.emissoradasbeiras.radios.pt/
Esta edição nº 21 convida as vozes poéticas de
Camilo Pessanha (Quem Poluiu, quem Rasgou os meus Lençóis de Linho),
João Camilo (Nada Quer Dizer Nada)
e
Carlos Queiroz (Ode Pagã).

Os textos próprios são Fotografia, Sófocles na Aldeia (Baseado em Factos Reais), Clandestinidade e Exílio, Um Fim de Tarde do Século XXI (6 de 10 Fragmentos para a História da Civilização Ocidental) e Tic Tic Tic Tic.

Segue-se o guião.

MONTANHA MÁGICA Nº 21 - Guião

1

Boa noite. A partir daqui, é tudo MM. Tudo a subir. Tudo magia.

0001 Nenna Venetsanou / Angelica Yonatos

2

Bonsoir, les ami(e)s qui nous écoutent en France. Merci, Lídia Martinez pour l’amitié, merci pour toute la musique. Soyez les bienvenu(e)s.

0002 Claude Nougaro – Dansez sur Moi

3

Perdi uma série de fotografias obtidas num domingo agora duas vezes pretérito. Na impossibilidade de reavê-las, resta-me tentar, hoje e aqui, revelá-las pela palavra.
Uma delas era de duas mulheres quase tão jovens quão pálidas. Apontavam a ninguém quatro olhos dotados da clarividência azul-cosmos dos cegos. Eram cegas, tinham seios perfeitos e apresentavam-se muito bem vestidas: talvez por serem manequins e se encontrarem expostas na montra de um pronto-a-vestir.

0003 Paul Simon – Born in Puerto Rico

4

Outra das fotografias não conservava gente, fingida sequer, à superfície da eternidade que toda a foto ilude ser. Era de um cão dormindo entre as linhas de um caminho-de-ferro desactivado. Só eu sabia que o cão realmente dormia, que por ali comboio algum passava ainda. Um observador pensaria talvez no atropelamento mortal do cachorro.
A terceira foto (mas porquê “terceira”?; por que ordenamos ainda o que se perdeu?) revelava uma mansarda eriçada de vasos de sardinheiras. Entre as flores, assomava uma cabeça de mulher cuja maior evidência era a desolação da pobreza. O olhar da mulher, recordo-o bem, fixava directamente a minha objectiva, pelo que me é lícito assentar que foi ela a fotografar a própria fotografia que eu haveria de perder.

0004 Jorge Palma – Minha Senhora da Solidão

5

Lembro-me de ter interrompido o trabalho desse domingo duplamente irrecuperável para tomar um vermute e munir-me de cigarros num café de reformados que escutavam o relato de um Belenenses-Atlético para a Taça. Sem que o notassem, fotografei dois dos velhos à contraluz da montra pontuada de cocó de moscas, prospectos de bailes e editais venatórios.
Já cá fora, a grande tenda solar estava segura ao chão por estacas de árvores e pedras de carros estacionados para sempre. Cheirava ao que os domingos cheiram: a espera e a ruas vazias.

0005 Massive Attack – Blue Lines 1

6

Fotografei de costas uma mulher de chapéu que caminhava com a graça involuntária de um charlot diurético.
Fotografei um telefone preto dos antigos, dos de discar. O telefone tocava, ninguém vinha atender, pareceu-me que até o som ficou gravado na fotografia. O som e a ausência de atendimento: ambos impressos na película perdida.
Foi um domingo de roubar luz, esse domingo. Trabalhei muito, depois devo ter guardado o rolo no bolso de um casaco cujo forro se me desforrou, como às vezes a vida se desforra de quem a não vingou.

0006 Tereza Stratos – Youkali (Tango)

7

O que vos ainda não revelei (verbo de fotógrafo) é isto: houve uma fotografia que não tirei nesse dia. Um par beijava-se na paragem do autocarro. Não um desses beijos lambidos, sôfregos, desses de dorsos linguais expostos ao basbaque dos velhos e à má-língua das velhas. Era um beijo bem posto, breve e simbiótico, um beijo dado por aquilo a que chamamos alma quando se usa a boca sem ser para falar ou comer. Não era coisa de adolescentes, mas um beijo claro entre um homem já maduro e uma mulher serôdia já. Não tirei o retrato dessa eternidade mínima.
E curiosamente, de todas as fotografias que tirei e perdi, essa foi, não a havendo tirado, a única que pude guardar para, hoje e aqui, vo-la revelar.

0007 Sam Cooke – I’ll Come Running Back to You
8

Momento ideal, na subida à MM de hoje, para descansarmos um pouco sentados nesta fraga enquanto a Sandra Bernardo dá voz à primeira poesia convidada de hoje. É de um dos maiores poetas da língua portuguesa o que vamos ouvir - Camilo Pessanha.

Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho

Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho,
Onde esperei morrer, - meus tão castos lençóis?
Do meu jardim exíguo os altos girassóis
Quem foi que os arrancou e lançou ao caminho?

Quem quebrou (que furor cruel e simiesco!)
A mesa de eu cear, - tábua tosca, de pinho?
E me espalhou a lenha? E me entornou o vinho?
- Da minha vinha o vinho acidulado e fresco...

Ó minha pobre mãe!... Não te ergas mais da cova.
Olha a noite, olha o vento. Em ruína a casa nova...
Dos meus ossos o lume a extinguir-se breve.

Não venhas mais ao lar. Não vagabundes mais,
Alma da minha mãe... Não andes mais à neve,
De noite a mendigar às portas dos casais.

0008 Ronda dos Quatro Caminhos (com Coro Alentejano e Orquestra Córdoba) – Limoeiro

JINGLE LONGO MM JINGLE LONGO MM JINGLE LONGO MM

9

Mais ou menos a um terço da subida à MM de hoje, vieram subindo connosco o grande poeta português Camilo Pessanha, ele e a música de Nenna Venetsanou com Angelica Yonatos, Paul Simon, Jorge Palma, Massive Attack, Tereza Stratos, Sam Cooke e a Ronda dos Quatro Caminhos (com Coro Alentejano e Orquestra Córdoba). Sigamos lá bem para cima, até ao topo mais tópico da MM. Agora, na companhia de Jewel.

0009 Jewel – Don’t Talk

10

É um volume com sete tragédias de Sófocles.
Ájax é a primeira. Na eira que cimenta em torno a casa, o cão vizinho, prisioneiro de não sei que culpa, arrasta a corrente grossa contra o tacho de folha. Estou na sala. A gata flutua como um pano pela casa. A rádio alinha Duran Duran. O tempo é uma redoma. Sou a flor seca na redoma.

0010 Duran Duran – The Ghost of You

11

Arranjei alguma lenha, mas é insensato pô-la a arder com este calor. Nem a noite alivia a pele. O recurso é cerrar as persianas, molhar de sombra as paredes interiores, lavar com água fria o prato sujo de ovo (com água quente, o prato fica a cheirar a aviário).
A camomila infundiu-se na caneca de barro preto. Venho à rua, facto que a gata aproveita para tomar de assalto a vinha estiolada. Já cortaram os cachos, deixaram o ouro das folhas, o cacau endurecido das vides, a condição outonal da minha vida. Da vida de toda a gente. Sófocles, paciente de dois milénios e meio, espera na mesa da cozinha.

0011 Giovanna Marini – Célébration

12

Estas jornadas de chuva fervente que Outubro nos traz: gosto delas.Subo pela chuva à nuvem onde a minha infância está guardada.Quando chove muito, estou de volta às tardes perpétuas de quando tinha nove anos, quando o mundo era uma casa arrumada. Arrumada e limpa.Na cidade onde há quinze anos acumulo outubros, falta a luz quando chove.Até disso gosto, valha-me Deus.A cidade torna-se fantasmática: água que cai na escuridão, isqueiros que brilham como pirilampos náufragos, exclamações que detonam como cartuchos.É outra dimensão, outro postal para as estrelas congeladas, clandestinidade e exílio.

0012 Lou Reed – September Song

13

Falta a luz, e só me dá para jogar às escondidas com um regozijo que os anos me roubaram.E convosco, como é convosco? A chuva faz-vos bem? Sentis, ou não, que o mundo se torna outro?Eu sinto. Por exemplo, vede este cão amarelo. Está aqui, tem as mãos no meu joelho, quer uma festa na cabeça e um passeio pelo monte.Sim, o monte: a cidade desapareceu, tenho nove anos e um cão amarelo, passeamos à chuva como fantasmas futuros e benignos, oliveiras e vinhas sucedem-se como se fôssemos de comboio no túnel sideral do Tempo, não posso perder de novo este filme, está tudo bem, está tudo tão bem, tudo tão limpo e arrumado, não tarda é noite e pode ser que chova.

0013 The Jazz Passengers c/ Deborah Harry – Il n’y a plus d’Après

14

Sou desde menino um homem do entardecer: um ser outonal.Não tenho culpa. Também gosto de ver, mas de fora, as grandes alegrias dos outros, os estrepitosos carrosséis, a invejável Feira Popular da Existência Alheia. Aprecio e passo. Digo boas-tardes e desando.

0014 Filarmónica Verdi Cambrense – Romântica Polca

15

Agora, é tempo de descansarmos um pouco mais – até porque já vamos a bom meio da subida à MM de hoje. Momento ideal para ouvirmos a voz da Sandra Bernardo dando corpo e alma e tudo a um poema convidado mais – Nada Quer Dizer Nada, de João Camilo.

Nada quer dizer nada

Abri uma carta antiga e reli-a.
Tinham perdido sentido as palavras
e as frases. Em que língua
me tinham falado? E eu entendera,
mas agora fora-se o entendimento.
Quem, se eu lesse em voz alta os sons
incompreensíveis, se voltaria para mim
e atentamente teria a paciência
de me elucidar? Reconquistaria desse modo
muitas das coisas que um dia possuíra
e depois perdera. Em que língua
exprimira a confusão e o caos
que me habitavam? Ou, mais
rigorosamente: com que língua
tentara vencer a insignificância
do mundo e da minha existência?
Nada quer dizer nada, as palavras
pesam como pedras, escondem-se nelas
o sentido e a paixão. Mas quem
pode ainda suportar a recordação
do tempo em que falar era uma parte
importante da existência, o indício
de que pertencíamos e nos reconheciam?
O meu corpo tomava consciência dos seus limites
e do que o distinguia das paredes, da mesa
e dos livros que me cercavam. O sono
começou a descer sobre mim, diminuiu
a minha capacidade de suportar a luz.
Confundia-me, enfim, com as quentes
trevas da noite? Quis manter
os olhos abertos e eles iam-se fechando.
Entendi então que uma vez mais chegara a hora
de renunciar. Na rua ouvi o jornal cair,
lançado de um carro para a porta de casa.
Levantei-me e fui buscá-lo. Podia
enfim terminar o dia, adiar a tentativa
de redução ao silêncio da minha vida.
Que ninguém dê pela minha presença,
que me esqueçam aqueles que um dia
prometi amar. Para que eu possa,
sem remorso, continuar a viver.

0015 Jacques Brel – Voir un Ami Pleurer

JINGLE LONGO MM JINGLE LONGO MM JINGLE LONGO MM

16

Já duas terças partes do caminho a subir cumprimos. A poesia de João Camilo teve por bem fazer-nos companhia, assim como as vozes e a música de Duran Duran, Giovanna Marini, Lou Reed, The Jazz Passengers com Deborah Harry, Filarmónica Verdi em ritmo de romântica polca e, ainda, o grande Jacques Brel. Sigamos para o cimo mais cimeiro da MM, agora com Everything But The Girl.

0016 Everything But The Girl – Politics Aside

17

Desando até que aqui chego, a este formoso café triste.É numa aldeia. A montra dá para o largo da igreja. Depois de tolerados dias intoleráveis, o Verão cedeu tréguas. Embaciou-se como uma limpeza de óculos. Até choveu. O largo está em obras, mas não a esta hora, quase jantar. Uma mastaba de areia, três pilhas de pedras, um passador de areia, um barraco de ferramentas isolado a aloquete: obra sem operários, por hoje. É tudo sempre tão hoje. Gosto da paisagem que vos mostrei.
0017 Michael Bublé – Smile

18

Na TV, uma série norte-americana, pois pudera.Um assassinado, cinco assassinos e uma data de polícias. O mundo à americana. Sacudo uma mosca portuguesa. Sacudida, ela voa molemente para outra mesa, onde vai afiando as unhas de pêlo enquanto o próximo escritor outonal não chega.

0018 Chico Buarque de Holanda – Realejo

19

E se alguém me perguntasse se amo a vida, diria que sim.Sim, claro, como não?

0019 Astor Piazzolla – Contrabajísimo

20

No mais, é esta demora escrutinadora.A consciência muito acesa: a cabeça como uma lâmpada. A chuva de meia tarde foi uma bênção. Os incendiários do meu País devem andar macambúzios. Os bombeiros vão poder esta noite cear, copular e dormir com suas esposas desveladas.

0020 Joan Manuel Serrat – Els Vells Amants

21

A TV muda para uma série de médicos.No café, um homem de meia calva e barba completa afixa na montra uma notícia necrológica. Dando para a rua, vejo o reverso à transparência: era uma vez uma senhora. Se a senhora fosse de ficção, teria talvez sido salva pelos doutores do “Serviço de Urgência” da TV por cabo. Mas a notícia na montra é tão real como a montra.

0021 Charlie Parler – Take Five

JINGLE BREVE MM JINGLE BREVE MM JINGLE BREVE MM

22

Estamos quase a chegar ao topo mais tópico da MM de hoje. Mas ele há ainda tempo para descansar um pouco, enquanto a Sandra Bernardo nos faz escutar um poema de alguém que foi sobrinho de uma senhora chamada Ophelia – a única namorada de Fernando Pessoa. O sobrinho dessa senhora também foi poeta – e poeta de fino recorte. Chamava-se Carlos Queiroz e é dele esta Ode Pagã.

Ode Pagã

Viver! - O corpo nu, a saltar, a correr
Numa praia deserta, ou rolando na areia,
Rolando, até ao mar... (que importa o que a alma
anseia?)
Isto sim, é viver!

O Paraíso é nosso e está na terra. Nós
É que temos o olhar velado de incerteza;
E julgamos ouvir a voz da Natureza
Ouvindo a nossa voz.

Ilusões! O triunfo, o amor, a poesia...
Não merecem, sequer, um dia à beira-mar
Vivido plenamente, - a sorver, a beijar
O vento e a maresia.

Viver é estar assim, a fronte ao céu erguida,
Os membros livres, as narinas dilatadas;
Com toda a Natureza, em espírito, as mãos dadas
- O resto não é vida.

Que venha, pois, a brisa e me trespasse a pele,
Para melhor poder compreendê-Ia e amá-Ia!
Que a voz do mar me chame e ouvindo a sua fala,
Eu vá e seja dele!

Que o Sol penetre bem na minha carne e a deixe
Queimada para sempre! As ondas, uma a uma,
Rebentem no meu corpo e eu fique, ébrio de espuma,
Contente como um peixe!
0022 Luísa Basto - Vai Ver se Chove

23

O amor é cego.
A memória é o cão do cego.
0023 Tom Waits - Waltzing Matilda

24

Estamos mesmo mesmo a chegar ao cimo mais cimeiro da MM de hoje. Vamos chegando com a companhia preciosa do poeta Carlos Queiroz e da música de Michael Bublé, Chico Buarque de Holanda, Astor Piazzolla, Joan Manuel Serrat, Charlie Parker, Luísa Basto e Tom Waits. Agora, a vez e a voz dos Jethro Tull na sua famosa Bourée a partir de Johann Sebastian Bach.

0024 Jethro Tull – Bourée

25

E pronto. Chegámos. O trocadilho justifica-se: foi uma subida honra ter subido com a sua companhia e com a arte de tantos e tão bons poetas, músicos e cantores. Agora, que é sempre a descer, todo o cuidado é pouco – mas que a magia continue a ser muita. Desçamos na companhia de Uxia cantando Camões à maneira de José Afonso. Até breve. Obrigado. Bom dia!

0025 Uxia – Verdes São os Campos

………………

Montanha Mágica: 91.2 FM / http://www.emissoradasbeiras.radios.pt/
00h00 – 02h00 (4ª, 3 de Outubro de 2007, para 5ª e 6ª para sábado).

02/10/2007

Setembro Acabando

© Sandra Bernardo
Cabo Carvoeiro, Peniche, 29 de Setembro de 2007

Setembro Acabando

Tábua

I
TRÊS RIMANÇOS (mais um que não)

Caramulo, tarde de 28 de Setembro de 2007

II
ESTE ANO NÃO FUI À PRAIA MAS LEMBRO-ME (mais três poemas)

Caramulo, tarde de 28 de Setembro de 2007

III
BONECREIRO AMOR
e CABO CARVOEIRO
Bairro das Morenas (Caldas da Rainha), manhã de 30 de Setembro de 2007


……………………………………………………………….


I
TRÊS RIMANÇOS (mais um que não)

Caramulo, tarde de 28 de Setembro de 2007

1. Azulejo de Coimbra

Tinta verde o vidro do céu estrie
convexos dedos na contraluzazul
manchas de folhagem pintalguem o dia
seque a cercadura à força de sol.

Tenha águas o rio tinteiro de sombra
à margem cinzelem lápis pescadores
e que o tudo dê teu nada Coimbra
tua branc’ amnésia tod’ a furta-cores.

2. Três Mortos em Casa

Frutos à mesa na taça de louça
como olhos cheios da cara extirpados
olham em torno a sala vazia
olhados pelas moscas d’olhos irisados.

O frio ronrona motor frigorífico
quem terá esquecido o bico de gás?
adormece o gato bonito horrífico
tome disto conta só quem for capaz.

3. (Litoral)

(Cheguei finalmente à praia prometida.
Chama-se Idade.
A tal praia tudo chega – e não é bastante.
E dela nada parte – excepto o próprio.)

4. Memória Diabética

A com delicadeza queimado açúcar cheirava
sua boca perfumadora de sentidos segundos
vestia despindo o corpo que usava
tal que lhe era a pele dos órgãos profundos

o que mais contava mas nada dizendo
nada adiantando pois quando falava
delicadamente açúcar ardendo
ao mesmo a boca dizia e queimava

……………………………………………………………….


II
ESTE ANO NÃO FUI À PRAIA MAS LEMBRO-ME (mais três poemas)

Caramulo, tarde de 28 de Setembro de 2007

1. Este Ano não Fui à Praia mas Lembro-Me

Torra o sol o mar em triangular vermelha vela
o dia deixando cair lá onde habitam
futuro e passado.
Um pouco antes tudo foi prata e peixes
mercúrio e medida infância e mercúrio.

Fáceis alegrias sexuais mostram-se católicas
em procissão com rebites de mamilo
e amareladas unhinhas pedestres.

Dos homens bóiam jibóias de ventre
gelatinando pêlos convictos de sua opinião.

Crianças salgam sua mesma doçura
antes do grande outono que aí vem
antes do grande foda-se aí à porta.

Para o ano
se puder
lá estaremos.
Ou
se pudermos
cá estarei.

2. Contagens

Conta o sítio de onde viemos.
Não nós.

Para onde vamos conta.
Nós não.

É um tanto injusto
mas é.

É.

É o que é.

3. Situação

O perfume da comida dizia casa
quando nós na rua.
O das árvores dizia vento verde
e nós na rua.

Agora o mar na televisão
nós em casa.

4. Na Nossa Terra

Na nossa terra, outros seres há.
Não são como nós, não habitam.
Cruzam e devassam panos expostos à secura.
Fogem das luzes rápidas
em nosso tempo rápido
só para eles lento – e todo.
Quando dormimos e quando não dormimos
eles hão.
Debruam da Lua a aura anil
integram das árvores
a quieta viária viração.

……………………………………………………………….

III
BONECREIRO AMOR
e CABO CARVOEIRO
Bairro das Morenas (Caldas da Rainha), manhã de 30 de Setembro de 2007

1. Bonecreiro Amor

Gosto dos tisnados rostos da pobre gente
nos cafés apiolhados do bairrismo social.
Bebem calor das chávenas, deixam moedas,
as mulheres.
Deixam notas os homens, beberam gelo.

Amo a nomenclatura triste dos meus compatriotas.
Gastam uma moeda na máquina do braço mecânico,
é raro tirarem um boneco ou um relógio.

Homens e mulheres,
bonecos,
tira-os o tempo então,
a longa mecânica
o braço breve.

E eu amo tudo
enquanto.

2. Cabo Carvoeiro

Ontem em Peniche
no diáfano tapete do ar
as migalhas de nome gaivotas.
Gatos pequeninos
abeiravam felinas falésias.
Era de novo
a incurável alegria
de tão imensa desconsolação.
Carros iguais a nós
e casais a nosso carro iguais
vieram ao mesmo que nós.
A ver a Nau, a ver os corvos.
Corvos, gatos, gaivotas.
Aquilo maior do que a nossa vida,
o mar.
Nenhum barco.
A Berlenga, fumando nuvens
com a América nas costas.
Amanhã em Peniche
eu não sei.

Mais Keywords de Bradar aos Céus

É, por assim dizer, o pão meu de cada dia: as palavras de busca que me vêm parar ao contador estatístico do Canil. Só posso ir partilhando estas alegriazinhas convosco. Bons dias para toda a gente, aí.

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folhas de marmore
ESQUENTADOR DO FUTURO
curso de unhas de gel em matozinhos porto
comida hospitalar
conto de carson mccullers aprendendo a amar pedras
post coitum omne animal triste fernando guimarães
minocas para pescaria
cachorro babando chorando tremendo
vento na saia
os perigos de um bife encebolado para a saúde
poema sobre o santo rozario
RECEITAS CODORNIZES FORNO
Trintona cota de Pinhal Novo
venda de bidons de quimicos usados
peito japonesa
montanha japonesa
fotos de sereias encotradas mortas
colo de menina em Cantanhede
fotos criança que nasce com a pele escamada
O Comboio de Nenhures
rapariga suspensórios
fervura
FOTOS DOS ANIMAIS FUGINDO QUEIMADAS
quanto custa pra montar um canil
loreto fabrica
forro camisa suada ouvir grátis
quero ouvir andorinhas da austria de strauss
boites pombal
joao tu me ama
garrafa plastica fazer café ao lume
desvitalizacao esta-me a arder
armando cabeleireiro
normandia-omaha bic

01/10/2007

A Noite em Breve - 12

Foto: © Alexandre Rodchenko
(Reunião para uma manifestação
no pátio do Instituto Superior Técnico e de Artes de Moscovo,
1928 )
A NOITE EM BREVE
ou
CORUSCAÇÕES NO IMO DE SOMBRAS
(uma portugalidade delével)


12
Caramulo, entardenoitecer de 24 de Agosto de 2007

Estas são linhas de um homem que vive numa vila de alto de montanha. É um pequeno homem, é uma vida pequena, a montanha não é alta. As linhas não podem nem pretendem ser mais do que linhas. Umas vezes, as linhas são frases, outras vezes são versos – linhas sempre. Adicionam-se a anteriores, prenunciam seguintes. Articulam a falsidade com breves lampejos de sinceridade: coruscações no imo de sombras. Umas vezes, faz a sinceridade de coruscação; outras vezes, de sombra. É tudo no imo. Não tem importância – mas tem seguimento. Exactamente como a vida – sem importância, com seguimento.
Escrevo na decadência da sexta-feira. Toda a semana vesti fato-gravata sobre camisa branca e sapatos pretos. No novo emprego, aprendi coisas e reconfirmei coisas: das máquinas, do Tempo, das pessoas, dos lugares. Por três vezes, fui condutor de uma idosa sisuda com muito mais fortuna do que tempo de vida. Almocei no piso inferior a zero entre gente que anda ali ao mesmo: ter com que pagar os almoços dos dias de folga. Atendo o telefone, vigio o fax, marco refeições, preencho formulários, faço trocos, dou recados, aceito mensagens, transmito chispas da electricidade económica que mantém tenso este mundo sem descompressão possível. E depois, ao fim do dia, escrevo linhas que não serão mais do que linhas: escrevo, escrebebo, escrevivo.
A fadiga acende-me os cigarros. Do alívio pós-profissional, bocejo catacumbas chorosas, cujas aflorações enxugo com guardanapos de papel. Como não se passa nada, tenho de fazer com que se passe. O recurso mais proveitoso está na maleabilidade da memória.
Esta madrugada, acordei pelas quatro horas. Não estava calor, mas tal não me impediu de passear nu pela casa. Sentei-me ao computador e procurei correio: pessoal, não havia. Frequentei dois ou três sítios argentinos, um inglês, dois portugueses. Às cinco e meia, tentei desistir de estar vivo – ou, pelo menos, acordado. Resisti à tentação de engolir uma pastilha sonífera, deitei-me, esperei. Tive alguma sorte: antes de passada meia hora, o lápis-lazúli emoldurou-me as janelas da cara, que fechei para dentro. O sono veio até às oito menos um quarto. Levantei-me outra vez, outra vez nu – como se nascer tantas vezes me safasse do passado prospectivo. Não safa, valendo que aquilo a que chamamos consciência é um ópio. Ajoelhamos, todo o santo dia, ante essa nuvem: carregada de imagens naturais mansas em convívio com flashes violentos. Crianças bonitas, bonitos clarões de sol que devassou bosques para filmar o lago. Estertores do anavalhado no asfalto, à chuva, cruzando-se os charcos de água e de sangue. Crucifixos de mármores quebrados pela eternidade. Linha a linha, guardo estas imagens como as mulheres guardam nas gavetas, em papel vegetal, as tranças da mãe e das filhas. Claro que sei: escrevo como se carpinteirasse um psyché. Não o inevitável espelho triplo deste móvel me convoca, mas suas gavetinhas especiosas. Fadas, burlões, anjos, econocratas – todos podem entrar nas gavetinhas para minha colecção de vistas sobre a vida tida por não-real, por tão-só falsa, fictícia, versilibrista, hialúrgica, insensata. Quero lá saber: é sexta-feira, já anoiteceu, trabalhei todo o santo dia no meu ópio privado, estou fatigado, preciso de escrever: se não para viver, ao menos para ter vivido.
Ao meu lado direito, no carro do hotel, a idosa abastada contou-me de sua nespereira em seu jardim, lá no Norte. Ela tem pavor do frio. A idosa, digo, não a nespereira. Como Proust, não pode com uma corrente d’ar. O vento frio fulmina-a. Sinto-a secar e com agravo. Não posso fazer-lhe nada, nem nada por ela. Dou-lhe a boleia consagrada pelo acordo de hospedagem: hotel-estalagem, estalagem-hotel. Dorme no hotel, passa o dia no jardim da estalagem por ser em cova e imune ao vento. Sei o nome dela, ela nunca perguntou o meu. Está certo, está bem assim: não passo de um motorista ocasional. E a verdade é que lhe presto a ela o mesmo que me presto a mim: serviço de motorista a bordo de uma lembrança de nespereira. Contei-lhe de já ter vivido em casas com quintal e uma árvore de fruto: o pessegueiro da infância, a laranjeira do ano 2000. Tenho a certeza de que nem me escutou. Está já tão atenta aos últimos pássaros, para ela entardecedores já da manhã ainda. A porra da idade. Não tardo muito. Não tardo muito, mas não me dou ainda a chorar as babas e os ranhos da entrega. Hei-de dar-me a esse luxo pobre, é quase certo que sim, mas antes dessa noite em breve tenho de alinhavar falsidades sinceras, talvez, frases, talvez versos, sempre linhas.
Lembro-me de vogar por linhas de Portugal a bordo de expressos de calçado hidráulico. Era como ser um anjo com bilhete, admitido à navegação diagonal pelos ópios da madrugada. A Lisboa, por exemplo, chegava pela hora rutilante dos últimos drogados e dos primeiros quiosques. Ia comer uma bifana no pão e beber um branco alto a um tasco muito perto do sítio onde a família do Eça tinha casa. É no Rossio. Eu acho que era quase feliz, desde que com bifana e branco. Depois, desandava pela evidência histórica dos monumentos, essas pedras e esses bronzes que desde menino me comprovam a fatalidade de ter nascido tarde de mais. (Já o disse em linha e em linha o repito: não tem importância, nada disto importa, tudo isto segue.)
Em Braga, nos últimos dois dias do único Outubro do ano (era 1986), eu era um pássaro apedrejado. Estava ali como se o telhado, de que via as ruas e as formigas fato-gravata-camisabranca-sapatopreto, tivesse aluído noutro céu. Tinha a minha dor invencível, tinham passado cinco meses e uma semana apenas sobre a ida ao campo santo da Pedrulha do Campo, Coimbra, para depósito do meu irmão. Em Braga, estive no Café Vianna (onde João Miguel Fernandes Jorge esteve e terá escrito e/ou guardado alguma coisa). Estive n’A Brasileira de lá. Não pude ser outro libertino pachecal na Idólatra. Fui um rapazinho na tormenta como um bastardo serôdio de último imperador em vésperas de o império ser abrasado pelo oxiúro multitudinário do cristianismo. Vi uma peça de António Patrício, O Fim. Estive em casa de actores e actrizes dessa peça. Uma lia os policiais e os sci-fis da Editorial Caminho. Outro fazia um truques com as orelhas (dele) que era de rir até ao pranto. Eram ambos da Figueira da Foz, minha Meca de peregrinação memorial. Estavam em Braga, nessa outubralgia da minha vida, da minha pequena vida pequena. Sigo.
Chegou o tempo das caminhadas, pouco depois. Pus-me a andar a pé por todo o lado. Caminhei milhares de quilómetros mentais com o corpo todo. Fiz Louriçal-Pombal, fiz Pombal-Coimbra, fiz terra-mar-e-ar. Já assentei praça sonâmbula em pinhais casquinhados a prata pela Lua. Já estive em praias à procura do mar sem o encontrar. No caderno do céu, assisto ainda ao lápis branco dos jactos. Catrapilos e helicópteros hipnotizam-me ainda, mérito de obras e urgências.
Os dias aqui postos como se continuassem dias, não linhas. Mas linhas. Este perambular quase inócuo pela hialurgia. Noite e dia, no fio da navalha de vidro, como se Maugham fosse da Marinha Grande. Marinha Grande?
Marinha Grande, Junho de 1978. Albergaria Nobre, hospedagem da selecção de iniciados de Coimbra, futebolzito. O fascínio daquilo: sumos à discrição, adultos benignos querendo, pelo desporto, que quiséssemos querer: conquistar coisas na vida, mais do que só no campo. Em Pombal, perdemos 0-1 com Viana do Castelo. Em Marrazes, empatámos 0-0 com Leiria. Em Leiria (no relvado!), empatámos 0-0 com Bragança. Perdemos nos penalties, ficámos em 6º de seis, ganhámos a Taça do Desportivismo (não altura, ainda não se dizia fair play). Ainda hoje acho que ganhámos tudo porque ninguém perdeu. Da mesma Marinha Grande saiu, oito meros anos depois, o assassino (sete vítimas) da Praia do Osso da Baleia. Ano para sempre mau, esse 1986.
Rápidas incursões (rápidos trapos) longevas (longevos): nos anos, na brevidade. Eu sei. Há coisas que sei. Elas voltam, fraccionadas a gosto do condomínio: lotes of it. Elas voltam: as imagens naturais mansas. Eles nunca partiram: os flashes violentos. E nem eles nem elas são mais do que seguintes, nunca importantes.
Minto? Sim. Atribuo importância a umas e alguns. Mas sou tão mau juiz, que não dou sentença. Vivo, escrevo, escrevivo, escrebebo.
Olha, nesse inverno em que andei pela praia sentado na sala da casa que não recordo, qual sala, qual casa, qual praia, qual inverno. Devo ter estado muito tempo nessa cadeira, o mar salgava os cortinados, o vento matriculava albatrozes transparentes pelas paredes, a lanterna mágica podia ser do mau vinho, sigo. Andei pela praia.
A praia era uma orelha de areia suspensa da música de búzio do mar. Como decerto voltarei a ela, a praia será uma orelha de búzio suspendendo a música do mar. Sim, a essencial surdez do coração. Sim, algures na caminhada. Sim, este corpo nutrido a bifanas, regado a branco e de si mesmo palimpsesto interpugillares.
Alegrias? Deixa cá ver. Olha, 1976-77, ano lectivo. A meio da manhã, chegava à cantina o tabuleiro de pastéis de carne a cinco escudos. Douravam o palato frígio, frigindo o barrete vermelho de uma boca que tinha céu porque tudo, então, tinha céu. Olha, 5 de Novembro de 1977: primeira vez que vi um texto próprio propriamente impresso. Foi num jornal português cujo papel era subsidiado pela União Soviética, O Diário. Na página infanto-juvenil editada por Oriam (Mário Castrim), saiu As Quatro Estações (com desenho de Catarina Rebello, filha do mesmo Luiz Francisco Rebello que, tantos anos depois, haveria de sair sem graça da Sociedade Portuguesa de Autores; e que, tantos anos depois, encontrei em Coimbra-A, encontro que depois me trouxe pelo correio uma oferta livresca do dramaturgo (duas peças: As Páginas Arrancadas e É Urgente o Amor); e o mesmo Castrim com quem por duas vezes troquei linhas faladas em sua/dele casa de Lisboa, à Avenida Luís Bívar; etc.). Publicarei no Canil, dia 5-11-2007, esse poemazito inofensivo atordoado pela remanescência, aliás sã, do neo-realismo.

28/09/2007

ENFIM A FELICIDADE e outras DEMONSTRAÇÕES DE CARINHO

Foto: © Sandra Bernardo, 2007
Tábua

I
DEZ HISTÓRIAS DÉCIMAS DE FAVOR
Caramulo, tarde de 25, manhã e noite de 26 de Setembro de 2007

II
SONETO DE REAVIMENTO FLUVIAL
Caramulo, noite de 26 de Setembro de 2007

III
ADENTRAÇÃO DOMÉSTICA DE URINÓIS
Caramulo, noite de 26 de Setembro de 2007

IV
COM TV DE CÁ, ALDEIAS PORTUGUESAS E FUTURO TAMBÉM
Caramulo, noite de 26 de Setembro de 2007

V
PRAÇA
Caramulo, manhã de 28 de Setembro de 2007

VI
CINCO QUADRAS PARA A PANELA
Caramulo, tarde de 25 de Setembro de 2007

VII
DEMONSTRAÇÕES DE CARINHO
Caramulo, tarde de 20 de Setembro de 2007

VIII. SENHOR DAS RAPOSAS DESCONHECIDAS
Caramulo, tarde de 21 de Setembro de 2007

IX. DUAS QUADRAS DEVIDAS AO AFLUXO DE SANGUE AOS TECIDOS ERÉCTEIS
ibidem

X. PONTUAÇÃO
ibidem

XI. SUBEXISTÊNCIAS
ibidem

XII. DUAS ASSINATURAS
ibidem

XIII. VELA
ibidem

XIV. TELQUÉLÉ
ibidem




****************************************************


I
DEZ HISTÓRIAS DÉCIMAS DE FAVOR

Caramulo, tarde de 25, manhã e noite de 26 de Setembro de 2007


1

No ocaso de 1996, recebi de um amigo
um pedido de favor. Veio de Inglaterra por carta.
A carta tinha uma carta dentro.
Era para entregar em mão ao filho.
Fiz a entrega ao filho da mão do meu amigo.
O meu amigo depois morreu.
Trouxeram-no de lá do mar
até se onde não vê.
Agora já não escreve cartas de cartas.
Eu ainda entrego.

2

Tenho passado por prédios novos
quando nova era a infância
que me calhou.
Perderam a pele da tinta,
a madeira dos caixilhos ganhou as
brancas de perder.
De dentro das casas, saem deitados
os homens e as mulheres
que as geriram desde sempre.
E até nunca.

3

Quartos pintados a verde ou cor-de-rosa,
conforme os filhos dos outros casamentos.
Absoluta economia e expansão relativa.
Inscrição na Associação local, pacíficas ambas,
Associação e inscrição.
Livros e discos, na sala pintada a creme,
guardam histórias diferentes,
em tudo iguais, da comum vida.
Só os poemas seriam iguais a eles.
Mas não há poesia em casa.


4

No Inverno de 1988, viajei muito de comboio.
Conheci o tempo no tempo: o horário da chuva.
Descia numa estação pobre como alguém
no começo – ou como alguém no fim.
Eu estava entretanto.
Eu não era pobre.
Tinha um inverno por minha conta.
Aprendi os horários, fixei a chuva.
Vi o Natal passar, o Novo Ano hoje extinto.
Quando volto a um comboio, estranho o tempo.

5

Uma solteira de cinquenta anos sai manhã cedo à rua.
A mãe ainda é viva, continua a morrer em casa.
Ela marcha sobre tapete de folhas, álea além.
A mãe cheira a remédios irremediáveis na saleta.
A mulher vai continuar rapariga até o último dia.
A mãe vive de últimos dias.
O outono da mulher é um caso absolutamente particular.
A mãe sente as ideias mortíferas do gato que dorme.
A mulher abre a carteira de mão, tira um lenço.
A mãe deu-lhe o lenço em pequena, cheirava a alfazema.

6

Um homem de pé na noite aumentada de um rochedo.
O mar, canal entre pontões, giza bruscas flores brancas.
Alguma da espuma borrifa o rosto do homem de pé.
Primeiro, gritam as aves. Depois, gritam os peixes agarrados.
Barcos enforcados deitam-se no cais como peixes terminados.
É provável que um deles seja o meu amigo terminando 1996.
Estou na manhã, o sítio é alto como as aves do mar.
Vivo entre pedras ferrugentas e caras de espuma.
O mar já andou por aqui, ninguém o recorda.
O rochedo do mar encabeça alguma montanha submersa.

7

Andorinham crianças ao sol de um pátio.
O carvalho antigo esconde delas antigos enforcados.
Derrubam perto estábulos para um hotel novo.
Um velho solteiro colecciona carrinhas funerárias.
De noite, vozeia o vento uma sede pluvial.
O Estado plastifica as crianças com leite chilro a subsídio.
Em alpendres, há mulheres negras que foram brancas.
Um fio de música inquieta a sonolência dos cães.
No gabinete do contabilista, urdem-se pequeninos infernos numerários.
Do carvalho, algumas folhas caem numeradas, calendárias.

8

Tenho amigos que fazem o mesmo: vivem
sozinhos dentro dos mesmos que são.
Isso acontece a vida toda, às vezes.
Ou às vezes nota-se mais que acontece.
Eles labaredam por dentro – alguns são
mulheres.
Eles e eu vemos separadamente os gatitos
que vadiam sob os contentores do lixo,
as bacias de chuva atiradas à cara do ar,
quando novembro arde nenhuma espera.

9

Certos serenos afrontamentos de homem:
um rio, um casario; um toque, um bosque.
Veredas e azinhagas alongam a pulsação dos olhos.
Acometimentos não serenos chagam peles,
por mais curtidas. Encerram ao público
estabelecimentos outrora honrados, mas é que
morrem os velhos estabelecedores, florescem os negrumes:
sobrinhos, netas, noras, irmãs velhas. E ninguém
se lembra de concorrer à herança da serenidade,
lembram-se só de acometer sem afrontar para estabelecer.

10

Amo-te além de ti, tanto, que nem amar há-de ser
isto, antes provocação às demandas do apagamento,
do suave desprezo que aos outros votamos
em insígnia do mesmo que a mim voto,
se lhe der atenção como a ti, por mais contrariado,
sigo dando. Fora do amor sem salvação do mundo, guardo
em casa – em caixas de papelão, gavetas de
castanho e sacos de plástico – tudo
quanto me não ofendeu nunca, senão fendeu,
cessado havendo. Uma carta de 1996. Um comboio de 1988.



II
SONETO DE REAVIMENTO FLUVIAL

Caramulo, noite de 26 de Setembro de 2007

Vêm as chuvas como as doenças, os rios.
É do coração a circumnavegação da flecha.
Mínimos ataques electrizam os fios,
um rio de sangue pára, que não mexa

na chuva, não mexa no vento, que deixe
a doença ter tempo também.
Os nervos se laçam depressa em feixe
se, vendo chover, se lembre ninguém

de sol já ter sido, nascido e posto.
De nem sempre novembro, setembro ou assim.
Que o digo por mim (e o digo com gosto):

às vezes, há coisas feitas para chover,
outras que a saúde quer adoecer.
Rios no-las dão e vão reaver.



III
ADENTRAÇÃO DOMÉSTICA DE URINÓIS

Caramulo, noite de 26 de Setembro de 2007

Adentro urinóis pobres da pobre nação municipal
muitas vezes – para urinar, que não outra salsugem
me lá leva.
O mesmo faço – ou fiz, o tempo vai – em festas
prósperas de gente rica, a croquetéis dada
por desfastio de sóis e rissóis.
Adentro urinóis até em casa – tendo casa.



IV
COM TV DE CÁ, ALDEIAS PORTUGUESAS E FUTURO TAMBÉM

Caramulo, noite de 26 de Setembro de 2007

As presépias janelas da pobre gente candelabram
luscos-fuscos na matina mal acesa, cinzeira.
É uma aldeia de escritórios. Acordam. Lavram.
E desjejuam tarde com dois gravetos na lareira.

Têm perto rotundas, circunvalações.
Tasquinham tremoços da marc’ americana.
E acham que é bem, mesm’ aos encontrões,
passar sem passar o fim-de-semana.

O mais é sermos burros e vacas dados a palhinhas
qu’efervescem sem Djíza-se nem pelas alminhas.

Borrada nas ancas, sulfúrea ovelha
balindo às alminhas caga-se e ajoelha.
Do resto futuro, só netas cantoras:
concursos TV, amor – e manjedouras.



V
PRAÇA

Caramulo, manhã de 28 de Setembro de 2007

É uma praça todas as manhãs inaugurada pelo Sol.
Muito branca, de olhos verdes no múltiplo rosto.
Calçado o chão de motivos atlânticos, hipnóticos.
Cercadura de árvores que já viram tudo
e a tudo e todos esqueceram já, menos
aos animais.

Perfume de comida popular mana de uma cave aberta,
negra. A taça alta da fonte recebe os pés
da estátua do conquistador de manual escolar
hoje cagado pela amnésica diarreia das pombas.
A hora é sempre a mesma, na mortandade
dos ponteiros.

Somos os ponteiros, todos: quem vê, quem é visto.
O céu perdoa-nos os ufanos afãs da irrisória condição
nossa. Senhoras maneirinhas arrulham compras deluxe
na loja francesa. Cavalheiros apessoados cigarrilham
política no café de poetas bilharistas que jogam
e não escrevem. Velhos assexuados xaropam na
farmácia os poemas das receitas. Na casa das
lotarias, expõe-se a sorte dos outros.

É, enfim, a felicidade.
Dói um pouco, ser tão parecida com a eternidade.



VI
CINCO QUADRAS PARA A PANELA

Caramulo, tarde de 25 de Setembro de 2007

1

Ainda podemos ser, temos tempo ainda.
Não de todo nos desertou a funda vaga.
Meia vida com outra meia se paga.
Meia para ser, muito tempo ainda.

2

Fora do tempo te tenho ’scrito coisas fora.
Dentro me não cabem, d’escrevê-las tenho.
Quando soltas, já cabem, embora
coisas muito idas, já delas não venho.

3

Aveludadas orquestras costumo ouvir
nas brandas horas sossegadas
a que não usa o coração latir
a cavas ânsias descompassadas.

4

Amour e glamour e azul luz e blues
e moscas as mais carniceiras,
emoções e presuntos e mamas e cus,
mais o desemprego vital das carreiras.

5

Já quinhentos anos comemorei de autodescobertas
que me não valeram descobrimentos.
Panelas há sem testo, abertas.
Outras, dadas só a fechamentos.



VII
DEMONSTRAÇÕES DE CARINHO
Caramulo, tarde de 20 de Setembro de 2007

1

Em Sesimbra, uma noite, aranhei
pela teia nocturna de candeeiros fios
composta. A asma do mar areava
o alumínio da respiração, que já então
era o menos alegre dos meus cantos.

Procurei nessa Sesimbra de Coimbra um rapaz,
além estabelecido em nocturno bar, como outrora aquém.
Não encontrei o rapaz. Entrei no bar dele, falei
com quem estava, ouvia-os através da presença
do mar do ar. Alongava cautelosamente os
braços de aranha, finos na teia de garrafas.

A manhã chegou depressa de mais, como sempre
que recordo antes. Ao olhar irisado, as falésias
monasteriavam a fé do sítio
em si mesmo: sem homens nem aranhas
nem vidas. Eu estava lá, sabia que o

meu futuro passava, sabia que a recordação
se estrofaria sozinha, uma vez que eu estivesse
(estou) na serra, longe do mar e sem outra
teia que a da miríade de babas e estrelas,

na qual deponho minha aranhação e minha
respiração, o tal canto.

2

Na Telhada, falei uma vez francês
com uma família que tinha vindo à festa
como eu ao baile.
Eu era música de conjunto: cantava segundas vozes
que nunca chegariam a primeiras
e tocava um baixo de terceira escolha,
não tinham arranjado mais ninguém,
nem para aquele conjunto,
nem para aquele orago,
como aliás acontece nos casamentos.
Fritavam peixe e assavam carne
em barracas cujos pilares eram
grades de cerveja, voluntários hirsutos
cuspiam para o chão enquanto
esfaqueavam broa e salgavam tremoços.
Moi, j’ai bavardé un tas de conneries:
comme d’habitude, d’ailleurs.

Os anos terraplanaram esse Verão irrisório.
Não sei que é feito dos franceses.
Sem conjunto, arranjei maneira
de seguir tocando mal:
vim para a poesia.

3

Tirando os anos na Lameira do Saramago,
hoje Rua 1º de Maio,
fui feliz por segundos aqui e ali,
mais ali do que aqui.
Recordo uma noite em Lisboa.
Era no Bairro Alto.
Num bar sepultado pelo coveiro da músicambiente,
gritava-se para se ser ouvido.
Eu ouvia, pois que já então
(como aliás toda a minha poesia comprova)
nada tinha a dizer.
Éramos duas mesas, talvez dez, doze pessoas.
Calhou-me uma cadeira de ferro lascado
a verde.
À esquerda, estava um monhé mentiroso.
À direita, uma rapariga boa como uma manhã
sem horas.
O mentiroso era inculto: mentia sem aquela
superioridade reconhecível nos abonados
pela graça da oratória.
A rapariga era alta nas botas pretas.
Mudámos de bar, a noite trocou-nos por outros
e a si mesma por outra.
Mas guardo um lastro feliz: uma noite,
em Lisboa,
convivi com a mentira e com a beleza
ao mesmo tempo.
Daí vim para a poesia, também.

4

Verticais pardais a senhoras subidos,
ao balcão do café café tomando,
me encantam por trás à visão das aves,
aliás casadas e ’m’ a uma perfiladas.

Tumefaz os vestidos a firme nalgação,
sustentam pontões em concha os mamilos.
Altaneiras aves de altanaria nenhuma:
com os anos não voam, q’aumentam de quilos.

Mas sempre bonitas, sãs e comestíveis.
Algumas, por graça, badanam gestinhos
’inda de solteiras, águias-passarinhos,
de brancas barrigas respirando sáveis.

Isto é no café, num dos do País.
Sou um dos que entram p’ra não mais sair.
Assisto aos pardais os mais mulheris.
Desolho e peço um copo de anis.

5

No Teatro do Príncipe Real, em meus anos poucos
da pouca idade, recebi filmes emanados
ou de Deus, se O houvera, ou dos Irmãos Marx,
que os houve.
Era em Coimbra, na Sá da Bandeira.
Eu já anotava as árvores a canivete
memorial: escrevia-as por mim o palavrador vento,
como a todos e a todas.
O vento do cinema de Coimbra trazia
rebuçados gustativos e camisas baratas
metidas à força adentro o cós.
Já então éramos todos, os dois, sós:

eu e o Príncipe Real.

6

Tenho lugar marcado, não
na História da Poesia Portuguesa, mas
na histeria da poesia portuguesa.

Sou como as outras:

mariposa queimando as asas
em torno das velas
que ninguém acendeu
nem vai acender,

que se fez tarde,
o Pai morreu
e a gente almoça.

7

Vejo-nos severamente limitados à luz dos ocasos,
o matinal por nascimento, o outro por epílogo.

Os de nós que não dormem sob as arcadas
do Teatro Nacional em cartões frigoríficos e mantas de outro
papel periódico, esses de nós
sabem(os) a insistência dos
ocasos.

Sermos sinceramente portugueses é
sinceramente
(o)caso para isso.

8

Em Setúbal, uma vez, adormeci numa conferência.
Era de gente que a si mesma chamava BDO
e síniórpart’na.
Tive pouco tempo para estar acordado
nessa importância preterível.
Eu tinha um caderno de folhas brancas,
um lápis nº 1 novo.
Deu-me o sono agravamentos nalgais
de boa cadeira num hotel tão bom,
mas tão, que a recepcionista até se chamava
desk.
Desk Tu aqui abaixo, Senhor,
a ver isto,
Cristo.
E guarda-me o sono,
Ó Benquisto.

9

Trata-se, mui naturalmente, de ter os livros
na cabeça e em casa. Trata-se disso.
O resto é a existência. Vai-se ali comprar

knorres, vai-se ao teatro provinciano,
vêm à têvê a loura feia da meteorologia
e a boa loura daquilo da dança que dá umas oficiais

com o ex-candidato oficioso – e pronto. Está feito.

Mas, naturalmente, os livros: na casa da cabeça.

10

Vem (veio) então a idade que torna siameses
todos os alheios gestos e olhares.

Sabemos ao que vêm todos e todas,
eles e elas:

ao mesmo.

11

Mesclam-se-me muito vilas e cidaldeias.
Muito a vida se me mescla.
Interdórficas secções ao pus de ideias
me ferem danticorpos: é uma festa.

12

Tenho alguns funerais infantis ’inda vivos.
Estive, mal tinha nascido, no, de um velho, enterro.
Guardei pessegueiros e raposas rápidas.
Estou pronto para o trabalho, mas vivo.

Viver, daí, acontece-me da cabeça para baixo,
onde o tampo da mesa recebe trabalhos
manuais. Vejo que isto é um cinema privado:
e um teatro quase-quase abandonado.

Avenidas ao frio sobem de cidades provinciais.
Tudo, como eu agora, se deitava cedo
ao esquecimento. E das magras chuvas de então,
não guardo senão o sol de dieta do regime futuro.



VIII
SENHOR DAS RAPOSAS DESCONHECIDAS
Caramulo, tarde de 21 de Setembro de 2007

O senhor das raposas desconhecidas
habita o meu coração dormidor de montanhas.
Ele identifica laranjas uma a uma:
citrina lhe resulta a onomástica.

Ele ouve a água das nascentes como a uma
hemorragia mineral: menos mal
que saiba quanto correr é viver e é morrer.
Na encosta nascente, o lado do sol e das laranjas.

Casebres pardos de vidas semelhantes a restos
de fogueira, chafarizes de pingão nariz metálico.
Uma frutaria vende peixe também – e selos
de correio para o Luxemburgo postal

de nosso Portugal.

O senhor das raposas desconhecidas
é um senhor – cá do burgo.
Ele amarelece com civismo ao sol diário,
chuva embora.

Rápidas cortinas cinematecam a luz das salas.
Porões de giz escrevem pretas ardósias: a memória
falsificadora dele e de raposas

não caçadas ainda nos verdes, verdes
campos de Inglaterra

por discosjóqueis de casaco vermelho,
calcinha branca e chapéu do preto das botas

como o açafrão da Índia
depois de Índia-Índia-ele-e-eu
a caminho de Viseu.

Caramulo, ano 2007:
o senhor das raposas apolíneas
prepara a tranquila amaragem da Lua,
a lunar alunagem desse alto sítio
de raposas, crateras, transmissões a
preto-e-branco
e novidades
para sábado que vem,

entre habitações
e outras apoteoses nascentes
a oriente viradas
como janelas oratórias.

Vida desse senhor, outro ano qualquer:
escrever o que for, dê lá por onde
der.



IX
DUAS QUADRAS DEVIDAS AO AFLUXO DE SANGUE AOS TECIDOS ERÉCTEIS
ibidem

À madura visão de uma mulher, digamos, boa,
sucede eu tremer adentro fracções
que não estão à venda em vulgares secções
nem economatos de portoulisboa.

Não gasto, mas gosto, de vê-la só ser
’ssim boa, madura, fruta a não colher.
Tudo o resto passa, passar é viver,
digamos, bem boa, dura, ’ma rica mulher.




X
PONTUAÇÃO
ibidem

Antes de alguma dessas doenças iguais
a pontos finais,
uma vida de reticências.



XI
SUBEXISTÊNCIAS
ibidem

Vivemos suburbanos amores sujeitos a pilhagens
de terrenos submunicipais não longe do central clarão
da sede conventual.
Garagens mínimas mal alojam carritos mínimos,
amarelecem os relvados regados a prestações
como as aliáspectativas.

Ficção científica dos anos 50 não bruxuleia já
os serões televisivos de mortos-vivos:
consolas da interacção electrónica trocaram-nos
filhos e pai por gigabáites eventuais.

Duradouros, só o alcoolismo e a pobreza.
E o suburbano amor de substituição,
em casitas que os pais até teriam
ajudado a pagar se não houvessem
desfalecido tão cedo para nossas tardias
suburbanas existências

e desistências.



XII
DUAS ASSINATURAS
ibidem

O tempo da vida do meu tio António
transcorreu-se a si mesmo
como dos rios a água corre água.
Manteve ele décadas de um amor
com minha tia e dele mulher:
rios entrefluindo águas, dois filhos,
poucas semanas depois dele
morreu ela.
E assinaram ambos
estes versos.



XIII
VELA
ibidem

Folheiam as mariposas a própria cor das asas
ao lume que chama e mata, em chama.



XIV
TELQUÉLÉ
ibidem

Celebro as bestas e as rosas
por muito olhar e mal ver.
Sou da minha língua como sou da minha rua.
Sou da nossa gramática como somos do nosso tempo.
A felicidade vale mais do que o ouro
por tão mais rara ser do que ele.
A infelicidade também tem valor: não
na raridade apoiado mas na democracia
que lhe subjaz.
Esta mesma tarde, em casa, arquivando papéis,
dei com uma carta do meu Pai.
É de 1976, Agosto.
Eu tinha doze anos, estava numa praia do Sul.
Ele tinha cinquenta e nove, estava na pintura.
Um velho amando um menino.
Descobri depois uma carta imbecil escrita por
um desalguém qualquer.
Tive gosto em rasgá-la.
Também mato palavras, fazer que renasçam não
é o meu único ofício.
Rosas e bestas.
Como toda a gente, mato e revivo.
Não sou diferente: sou das minhas rua e língua.
Amo como um caracol: babada e lentamente.
Com a chegada do meu outono particular,
considero propedêutico o carácter falsário
da memória.
Tenho saudades do meu Pai.
Amo as minhas filhas.
Ouço dizer delas o que sempre soube: que,
quando passam nas ruas delas, na língua
delas, as pessoas se espantam de também
as rosas andarem.
As pessoas amam as filhas.
As pessoas amam os filhos.
As pessoas livraram-se da dissipação
por causa das filhas e dos filhos.
Amar? É ter saudades antes.
Continuo antes do meu Pai, por exemplo.
Antes dos últimos dias dele, quando
a doença o tornou transparente como a água.
Vivo tardes abertas numa casa que fecho.
Na varanda, os vasos exclamam hortelã,
salsa, coentros, tintas.
Na cozinha, empilham-se os restos vitais
da alimentação.
Na casa-de-banho, sabão azula fímbrias
de virilhas e axilas esfregadas muito cedo.
No quarto, mantas enrolam-se como peles
raspadas pelos cactos oníricos.
No escritório, os arquivos retomam os rios
sem margens do amor e do idioma,
das bestas e das rosas.
A casa partilha
a terra e o ar,
a água e o fogo
com as outras casas da minha vida:
sucessivas carruagens de um comboio triste
e pertinaz, contumaz e relapso.
A gata holograma-se a si mesma:
sombra, silêncio, brilho topázio de olhos,
sombra, silêncio.
Contemporânea, a vida da mulher da casa
decide perpétuos movimentos: cuida na varanda
de hortelã, salsa e coentros com gestos de tinta
amadurecedora de flores.
Nisto tudo, Sol e Lua filmam tudo isto.
A parada explosão de prata da Lua.
A cal termonuclear do Sol.
As nossas vidas minicalendárias:
saldos perpétuos e vitalícias mortes.
Caracóis me debruam de baba e lentidão
o coração.
Acredito na falsidade essencial da memória.
Acredito na dissipação aliviada pelo amor.
Acredito na minha língua e na minha rua.
Esta manhã, morreu lá o inquilino mais antigo
do prédio da minha Mãe.
Chamava-se Senhor Victor Morais.
Amanhã de manhã, subirei do rés-do-chão esquerdo,
depois de beijar a minha Mãe, ao primeiro direito,
de onde o Senhor Victor Morais dará início
ao houdinismo do costume.
Seguirei depois para a cidade de Pombal,
terra em que vivi, entre tantos outros interlúdios,
o Janeiro de 2005.
Catadupas de luzes, comboios, bares, palavras:
la vie tel qu’elle est,
de bêtes faite comme de
roses.

Canzoada Assaltante