04/12/2014

Rosário Breve n.º 385 - in O RIBATEJO de 4 de Dezembro de 2014 - www.oribatejo.pt

Aviso

Para epígrafe de um caderno que há-de ser livro e que ando compondo desde o dia 13 do mês passado, elegi este trecho de Georges Duby (in As Damas do Século XII – 1, Editorial Teorema, Lx., 1996):
“Aviso desde já: o que pretendo mostrar não é o vivido real. Inacessível. São reflexos, o que os testemunhos escritos reflectem. Confio no que dizem.”
Mais a esta liça ajunto que: toda a vida fiz da atenção uma espécie de estúdio de fotógrafo verbal, desses de boneco-cavalinho pelas pagãs feiras santuárias da populaça, resultando na prática, a minha vida mesma, em um ror de mentiras – se não honestas e/ou piedosas, ao menos bem intencionadas, como é próprio dos infernos privados.
Ao atulhado logradouro de lembranças vou buscar ficções verídicas e inverosímeis no intuito da mistificação alegórica e pró-moral. Exemplo maior: morta a Mãe, finado é tudo o que for princípio.
Ao estaleiro da memória recorro a toda a hora, mormente quando anoitece logo pela manhã. Exemplo não menor: o meu Pai manquejando, como se o liso chão estivesse emboscado de invisíveis móveis irrequietos tropeçadiços degraus. Assim escrevo. Assim escrevivo.
A viúva que acaba de passar? – Manilha-de-paus com atavios de dama-de-copas, dessas que não raro desovam filharada póstuma bem para além das 36 semanas de regimental respeito ao falecido.
O ajudante de armazém importador de bananas com tanto quisto sebáceo na região demarcada do sovaco? – Estandarte vivo da Escrófula com que Deus Vosso Senhor intumesce os culpados relapsos de onanismo, esses punhetas ateus.
Aviso: não é que estas pessoas tenham, deveras, acabado de passar pela antecâmara do meu lápis fot’oftálmico – mas existem. À minha maneira, existem – como aliás também os anjos: só quem, pelo entardenoitecer do Outono, não foi dar aos patos fluviais uma última demão de pão velho os não sentiu. (Os não sentiu no olhar, que não pelos olhos, digo.)
De que trata, pois, o caderno-livro de que V. falo? De impreteríveis sedas & sedes, de espúrias espumas, do arco-da-velha-das-coisas, de cenas de uma violência extrema como por exemplo a epifania que toda a criança, mesmo alheia, é, de lances de censurável exposição sexual como ainda agora aquela nuvem missionariamente por cima daqueloutra (mas nenhuma nuvem, não importa, está-dito-está-feito-está-lido-está-vivido). Trata do antagonismo entre a luta e o luto. Fotografo estas povoações sem remédio mas com farmácia por que disperso a minha vida compendiável para além daquelas duas datas que sabemos.
No fundo como à flor, vivo de & para ninharias. Seja. Na dimensão daquilo a que à falta de melhor palavra chamamos Realidade, o que importa mesmo são os dois dedos manuais que um trabalhador perdeu de si em acidente laboral ocorrido no passado dia primeiro do corrente em uma empresa metalúrgica sediada em Celeirós, Braga. Isso sim. Isso é que é literatura. Eu sei. Nem sinto confusão, nem faço confusões – a mão doravante mutilada desse trabalhador conta mais do que quanta página eu seja capaz. Pois, nenhuma confusão. Exemplo: não confundo o Duarte Lama com o Dalai Lima. São carecas não mutuamente reagentes.
Fiquemos hoje por aqui. Está em curso a semana. São 7 e 19 da matina, tenho de apanhar o expresso das 8 e 20 para a minha terra, vou lá tratar de papeladas inadiáveis relativas a não sei quê (mas a quem, sei). Está frio. Levo o casaco mais pesado. Vou de botas.
Confio no frio. É uma espécie de pele de vidro. Tenho os dedos todos.

27/11/2014

Rosário Breve n.º 384 - in O RIBATEJO de 27 de Novembro de 2014 - www.oribatejo.pt

(ilustração gamada ao diário PÚBLICO)



Aquilo da gralha no livro da Eduarda Maio

A derradeira terça-feira do corrente Novembro amanheceu mais respirável. É talvez da barrela da chuva recente – ou será das notícias, que nem sempre são más ou reles?
O senhor Custódio parece mais ligeiro, dançarinos quási seus passos rumo à alfaiataria que de seu bisavô vem já. Nem o bisavô Custódio alguma vez facturou um milímetro de fazenda a mais, nem jamais o Custódio bisneto branqueou lã da Covilhã sem ser a giz macio.
A ti’ Pureza (que arrenda quartos mas o declara às Finanças) também apresenta hoje certa renovada seda-rosa na carita miúda e portuguesa. O sonho dela sempre foi estabelecer-se como porteira de prédio de luxo em Paris – mas Paris é chão de que roubaram as uvas.
O Raul Faquir Arrumador, que mama malvasias de manhãzinha como um campeão do santo-cálice (dizem uns que por desgosto de amor, outros que não, que nada disso, que é por amor & gosto à malvasia ponto-final), madrugou hoje de meia-de-leite & torrada-margarina nos queixos.
Os pintores por conta do Rafael das Obras desunham-se pró-terminação hoje-ainda-o-mais-tardar-ontem da empena principal da Junta de Freguesia, que há meses andam naquilo sem retoques finais à vista. E o Rafael desconta como deve ser para a Caixa deles e ajuda-os no IRS de cada temporada.
O tudólogo do bairro, por apodo certeiro Chico Corno, que mais fala quão menos sabe, à semelhança das comadres comentadeiras da trubisão, garante a quem o quer ouvir que “aquilo em Évora ainda é do melhorzinho p’ra preventivas cinco-estrelas, muita sorte teve ’inda o gajo de não ir para ao pé dos pedófilos e dos romenos”.
Por ser terça-feira de liga-dos-campeões, o Esteves Barbeiro só quer mas é que o seu/dele Sporting não acabe empatado como o Bloco de Esguelha. Corte por corte, à política e à ladroagem não liga pêva.
A Clotilde Viúva, que leva as cartas do tarot para o ioga na inquebrantável fé do monitor de reiki, é que está danada consigo mesma por não ter sido capaz de adivinhar o descalabro da preventiva do Coiso, ela que tanto se fiava nas procuradorias-gerais do laissez-faire-laissez-passer tão ao gosto dos apologistas do se-não-fosse-este-era-outro-qualquer-como-o-que-vem-a-seguir.
E eu, que gosto mais de biografias alheias do que da minha própria vida, eu unto-me de gozo por ter dito desde o primeiro dia que aquilo no título da Eduarda Maio era gralha grossa, que o correcto seria, e é, O Menino do Ouro, não de.
Entrementes, à flor viva do Rio, os patos gargalham mais alto – parece-me cá a mim que sim. A esquadrilha pombal, que sempre preferiu a migalha certa de cada dia ao improvável mi(ga)lhão da candonga peculata, ronda-me as botas à cata do honesto arroz-trincado e do honroso milho-partido com que há tantos anos celebro das aves a filosofia do sustento-de-cada-dia.
O único senão para todos nós aqui do Bairro 10 de Junho é não se ter ainda ouvido falar, pelo menos até ao meio-dia não, de submarinos. Ó felicidade passageira – és uma doca-seca.
Sentencioso, teixeiradepascoaesmente, o nosso decano, ti’ Abílio Cuco, a meio da taça de cevada é desta concisão lapidar:
Ninguém que trabalhe tem tempo para juntar 25 milhões. Que trabalhe. Honestamente. Ninguém.
Évora, pois. Para já e por enquanto. Ou por encanto, Eduarda.


24/11/2014

Rosário Breve n.º 383 - in O RIBATEJO de 20 de Novembro de 2014 - www.oribatejo.pt

Da iníqua alegria e coiso

No cubículo envidraçado a plástico que a gelataria berma-fluvial reserva aos fumadores, a uma luz-néon toda tela de Hopper, o rapaz cego lambe o seu cone de baunilha com uma bola de chocolate e outra de limão. A seus pés, o cão labrador que o guia, animal de negro cabelo lustral e muito limpo, carvão brilhante na cegueira de tanto néon. Mestre cicerone de seu amo, espera aos pés dele sem um monossílabo sequer, dando a ideia de poder fazê-lo para o resto da vida, isso de esperar por ele, sempre por ele e só por ele, mesmo que o cone de gelado venha a revelar-se, como a cegueira, infinito.
Eu sou o outro tripulante de tal nave. É pelo entardenoitecer. Já soprei o férvido abatanado, já queimei na boca um par de cigarros dos de enrolar, já me apeteceu ir de vez para a Noruega – mas fico mais um bocado. O que entretanto faço, é lapijar cifras para a crónica da semana. Coisas assim:
Antigamente, ao cabo do curso davam-nos o diploma, hoje dão-nos o passaporte;
Isto é um país de patetas que se julga de poetas;
Para que o raso aprisco suba a zimbório, há que ter locanda trepadora;
Dar um salto alto não é o mesmo que andar de salto-alto;
ABC – Angolanos-Brasileiros-Chineses: o Colonialismo Contra-Ataca;
Quem te visa, teu goldinimigo é;
Anábase da legionella político-financeira: ébola do regime;
Esquizofrenia geral dos colarinhos-brancos: o espírito santo a dar cabo do pai e do filho;
Em alemão, ‘Coelho’ diz-se e escreve-se ‘Kaninchen’: está tudo explicado;
Podridão: o meu País é Podregal;
Potamónimos da minha vida: Mondego, Ceira, Tejo, Vouga, Pavia, Lis, Vala do Norte;
Educação, Saúde, Justiça: três tiros no porta-aviões;
Impressionante, o que por aí vai de mortes agrícolas por causa da tractorose;
Demissão do ministro: mais vale sair uma tarde do que ficar o Macedo;
Esquisito, aquilo em Santarém: portuguesíssimos cidadãos e cidadãs normais que, correndo à noite por saúde, divertimento e convívio, se tornam ingleses de repente: midnight runners ou coiso;
Rapaz cego com cone de baunilha, labrador bonito a seus pés.
Nisto estou – e a crónica por fazer. No mesmo caderno, reencontro-me com uma citação tão mais perturbadora quão mais acertada: “"O futuro onde estamos tem a iníqua alegria dos sacanas.” (Rui Nunes o dixit, in Uma Viagem no Outono). Pois tem, senhor Rui. E a inócua tristeza dos acéfalos também. O autismo eufórico deles sacanas é mortífero. A gente vive por aqui um genocídio daqueles tipo devagarinho, género tristeza-pegada.
Lapijo ainda, ainda assim, um exórdio de diálogo cénico tipo ’tás-doidinho-ou-quê:
– Olá, sou o Virgílio das Éclogas & Bucólicas.
– Ora viva, sou o Fonseca dos Midnight Runners & Coiso.
Estou feito ao bife com sabor a petinga. Custam-me muito, os dias que não são terça-feira – porque é às terças que componho a crónica das quintas, por a terça ser o dia em que a minha vida faz algum sentido, uma vez por semana ao/ou menos. A jornada herdeira da segunda-feira torna-me benevolente e perdoável a ilusão de ser útil. Os outros dias encorpam o diabo do ócio involuntário, isso a que os sensatos chamam desemprego e a que o Passos Kaninchen chama oportunidade. É como se o horror vácuo dos domingos durasse seis dias de enfiada. Hei-de eu ainda, nesta vida que não há outra, lograr escrever como o meu Pai pintava e como a minha Mãe povoava a Casa? Não sei.
Sei tão-só que a metáfora de remate me esperava, fácil e justa, desde início: que por este morredouro de poe(pate)tas o mais é cegueira, o mais é ainda gelarmos de tanta espera, Mister Hopper.






13/11/2014

Rosário Breve n.º 382 - in O RIBATEJO - www.oribatejo.pt



Parabéns, pá

O nascimento público de O Ribatejo deu-se à luz no dia 8 de Novembro de 1985. Temos festiva data redonda no ano que vem, portanto.
Para a História relativa do jornal, este 29.º aniversário é de uma contemporaneidade triste: são estes os dias da famigerada legionella, praga que sem graça grassa por freguesias e populações de Vila Franca de Xira, nomeadamente Vialonga, Forte da Casa e Póvoa de Santa Iria. À hora a que escrevo (noite já de 11 do corrente, 96.º aniversário do Armistício de Compiègne, que, já agora, finalizou a I Guerra Mundial de péssima memória), são cinco os mortos e quase três as centenas de pessoas infectadas pela doença-dos-legionários. Suspeita-se que o maná desse mal provirá de uma torre industrial sita em Alverca. Vaporizada, aquófila e eólicotransportada, a bactéria não dá sinais de ficar por aqui, que é como quem diz por ali. O restante Ribatejo e o demais País esperam tão-só que a mortandade não cresça e que os internados convalesçam total e plenamente. Assim seja.
Quanto ao tal ano de nascimento do nosso Jornal, rezam as efemérides coisas notáveis. Nem efemérides seriam, aliás, sem notabilidade factual. Tenho carteira de exemplos.
No próprio dia 8/XI/85, o exército colombiano tomava à força o Palácio da Justiça, que os guerrilheiros haviam ocupado. Saldo: cem mortos. Seis dias depois, na mesma fatídica pátria do grande Gabriel García Márquez, dá-se a erupção de uma cratera (a Arenas) do vulcão Nevado del Ruiz. A consequente avalanche de lava, lama e rocha com 104 metros de espessura inumou a cidade de Arnero. Saldo: 23 mil mortos.
Esse Novembro/85 é também, e ainda, o mês da cimeira Reagan/Gorbatchev, na alegadamente neutral Genebra. (Fonte: Cronologia do Século XX, N. Williams, P. Waller e J. Rowett, Círculo de Leitores, Julho de 1999.)
Por cá-Portugal, o ano de 1985 é o da demissão de Mota
Pinto, a 9 de Fevereiro, da presidência do PSD, sucedendo-lhe no lugar aquele que é hoje (dizem) ministro dos Negócios Estrangeiros: Rui Machete. Duas exactas semanas depois, a 23 do mesmo mês, nasce o partido de inspiração eanista – o efémero PRD de neutra e/ou insulsa memória. A 19 de Maio, a rodagem do carro vale a Cavaco Silva o poder laranja, na Figueira da Foz. O Tratado de Adesão à CEE é assinado a 12 de Junho. A 25 deste mesmo mês, Soares dissolve-se de primeiro-ministro, fazendo o mesmo a Assembleia da República. Um exacto mês antes do primeiro número de O Ribatejo, a 8 de Outubro portanto, o PSD de Cavaco vence as legislativas com maioria simples, sendo posteriormente empossado um Governo minoritário. O ano contempla, ainda, a inauguração do muito comentado (e gozado) Centro Comercial das Amoreiras, em Lisboa, cidade em que se regista uma patusca série de incidentes relacionados com a exibição do filme Eu Vos Saúdo, Maria, de Jean-Luc Godard. (Fonte: Portugal Século XX – Crónica em Imagens, coord. Joaquim Vieira, Círculo de Leitores, Dezembro de 2000.)
Assentemos isto: O Ribatejo não nasceu sozinho em um nem para um mundo deserto. É texto com contexto, este menino paginado. A seu propósito, é curial a seguinte notação: 29 anos depois da primeira luz, a publicação teima na independência e no livre pensamento que a fizeram nascer. É um não-alinhado por natureza, por vocação e por destino. Tem (r)existido sempre, ventos vindo e marés subindo, outra arma não usando que a da liberdade responsável. A ética deste semanário, de mãos limpas sendo como é, nem usa luvas nem recorre a pinças. Talvez por isso pontualmente incomode certos sectores cujos factores (ou fautores) não gostam de espelhos, muito menos dos lavados.
Falando por mim só (que é aliás o que sempre faço, nesta página como em todas as outras da minha vida), eu cá acho mesmo a sério que O Ribatejo foi (Eanes que mo perdoe) o melhor nascimento do ano 1985 d.C. E o melhor renascimento de cada ano a cada aniversário, também.
Tudo o que sobredito deixo, vai e fica, por sincero e limpo, assinado com o nome que, por minha boa fortuna, herdei de meu Pai. 

10/11/2014

Entrada 56 do caderno 16 da série Leite dos Santos

56


Leiria, tarde de 11 de Maio de 2013, sábado




Um restolho carbónico de estorninhos ferve nata de sombra
em panorama de pinhal-barragem, certo dia além do Tempo
em que estou de pé no esquecimento como um crucifixo
ou um cão dos que aos donos ardeu a casa toda.
Quais duas jóias de vidro preto, as moscas zaranzam
no ar parado, o proboscídeo ar do Verão estancado.

Quando paro para reler a primeira estrofe do 56,
sorrio à evidência demonstrável de como
anda um homem a criar uma folha
ou uma falha
para isto.
Sendo isto

o trabalho dos armadores de ferro nas casas que começam,
algumas arderão de fogo vivo, outras do mero mortal Tempo,
príncipes que bordam o fundamento da cofragem,
um mês entre a Fontela e Vila Verde trabalhei com eles,
um deles ofereceu-me sopa da dele,
retribuí-lhe com um pedaço de queijo-ovelha-cabra,

conversámos na paragem de almoço,
pertíssimo o Mondego morria em pura glória,
pura glória é quando qualquer coisa em ti
se torna atlântica para sempre, qualquer coisa que,
como todos os do ferro, que não de ferro, sabemos,
dura pouco. 

06/11/2014

Rosário Breve n.º 381 - in O RIBATEJO de 6 de Novembro de 2014 - www.oribatejo.pt

Só meia boca esta semana

As chuvas regressam no dia em que dois dos meus últimos dentes naturais se avariam – parece-me que sem outro remédio que o de expor-lhes ao sol as raízes. Metade da boca fecha-se-me em si mesma, concentrada toda no intuito de não assanhar mais ainda aqueles dois focos de dor latente. A outra metade faz pela vida: por ela ingiro, por ela profiro, por ela não tanto me firo.
Enquanto isto, a bátega pluvial faz-se harpa no mundo visto desde o terceiro-andar do convalescente. O vento ajuda à festa do alumínio, vergando a cerviz dos choupos, tremulando a labareda dos cedros e descascando a sarna aos plátanos. Os carros patinham nos lagos instantâneos das rotundas. Como dedadas, as folhas mortas digitam os terreiros, juncam os pátios, acolchoam os bancos desertados pelos velhos. Os gradeamentos rangem aquele reumatismo tão próprio do metal exposto ao público. É tudo de uma beleza soturna: e menos soturna e mais bela seria, caso eu pudesse acudir-lhe com a boca toda.
Procedo portanto por estes dias ao mesmo a que procede o meu País: de traseiro sentad’oxidado, espero melhores dias. O televisor arde de manhã à noite como uma lareira fria. Por ele perpassam as mentiras eufóricas de Wall Street, as (ameri)canalhices do costume: os derivados, os lixos tóxicos, a Crise – e as suas marionetas do lado de cá do mar: a platinada Lagarde do FMI, o peixe-balão menos durão do que barrosão, o escol de bruxas & bruxelas que, sob a mentira nada pia da Democracia, fossam a ditadura de facto da miséria obrigatória, a começar pela moral e a acabar na dos vãos de lojas fechadas sob cartões frigoríficos.
Aproveito uma nesga de sol para me fazer à rua. Deixo amornar a bica, sorvo-a por meia beiça. Fumo pelo lado da boca como os pescadores dos postais ilustrados. Leio metade do jornal, presto metade da atenção à eterna repetição do mundo em diferido perpétuo. E é em unto de esperança de que não seja preciso arrancá-los que torno a casa a horas do antivinhótico e das papas-de-leite com poalha de canela.
Por há anos não ter em casa cão ou gato, fazem-me companhia o Jorge Jesus e o Crato. Por só a mulher ganhar para pão & tabaco, faz-me muita pena a pobreza do Cavaco.
Derivo pela habitação, por assim dizer, em éter: espero quem e o que não prometeram vir. Foi-se a nesga de sol. Enchumaçado a chumbo, o céu de noroeste indefere o esmalte das coisas – e o pombal de dias bons, hoje transido e famélico, recolhe aos nichos secretos onde a força aérea da passarada resiste à bélica invernia natural. Cerro os estores da sala, anicho-me na colcha pulguenta de há tantos anos ex-dentários e dormito como um idoso preso pelos arames das horas ao torno das décadas, sonhando-me nada menos do que Albarran-Homem-da-Embalagem-Prateada.
(Mas na verdade sonho mas é com nada.)




30/10/2014

Rosário Breve n.º 380 - in O RIBATEJO de 30 de Outubro de 2014 - www.oribatejo.pt

Pouca-terra

Sou maquinista da CP.
O meu Avô paterno foi da primeira geração de condutores de carros-eléctricos de Coimbra, vão lá já quase cem anos.
Eu fiz subir a fasquia dos anais familiares: os eléctricos, afinal, estão para os comboios como os legos da criançada estão para os tijolos a sério.
O meu Avô teria fartas, largas & sobradas razões para orgulhar-se deste neto. Só não se orgulha de facto por ser difícil o trabalho do orgulho ao cabo de 86 anos de morto.
A minha profissão reitera a vocação viária dos destinos: de apeadeiro em apeadeiro até à estação terminal.
Conheço as luzes na noite. Conheço a luz diferente que a noite é. Conheço o país dessa luz, esse país nem sempre lunar. Conheço os suicidas: o olhar aberto deles ante o touro da máquina.
Sei como verdade que é a máquina a locomotivar-se a si mesma, não passando eu de espécie, por assim dizer, de alfaiate eléctrico: o mais que faço, é estar atento aos botões.
Como de estrelas molhado o firmamento nocturno, de tíbias gambiarras as populações no veludo da ferrovia anoitecida: enfrento isso, guiador da férrea lombriga.
Já fiz muito regional, muito intercidades. Certa histórica vez, cheguei a fazer Espanha-quase-quase-França. Era no tempo das malas-de-cartão: hoje como bidonvillemente então, portanto.
Acordei vezes talvez de mais em dormitórios transitários da Companhia: mas o que é que na vida não é dormitar?, mas o que é que na vida não é transitar?
Os casamentos que contraí entretanto, à maneira de gripes periódicas, foram-se-me na pouca-terra-muita-areia do costume: marido ausente a horas certas só pode dar ou turnos ou cornos.
Coisas gastronómicas que por causa do meu ofício sei bem mais do que o gastrófilo senhor Armando Fernandes: o frango guisado com massa no Alfa de Alfarelos; as favas com presunto de Mangualde; o toucinho à Senhor Cristo do Barroca de Taveiro; a francesinha verdadeira de Campanhã; o panrico-com-margarina-de-sabor-a-manteiga-dos-ricos de Vila Franca das Naves; e a regueifa coimbrã que a minha ti’ Maria da Estação (Velha) de voz finíssima apregoava na mesma e exacta Coimbra-B do filme Capas Negras protagonizado pela divina Amália e pelo estentóreo Alberto Ribeiro.
Coisas oficiais, estas: entre mentiras crónicas (minhas) e alheios veros interstícios ferrobiográficos.
Sou maquinista da CP – é mentira.
O meu senhor Avô foi eléctricomotriz – é verdade.
E a linha CP de Santarém vai ser interrompida pelo motim histriónico que num momento de nervos o senhor Ricardo Che Gonçalves Guevara anunciou à Cidade & ao Mundo por causa das encostas-barreiras da capital do Ribatejo – é mentira. (Olha, Ricardito, vai-lá-vai, que os meus botões não contemplam travões.)
Os autarcas de hoje (não todos, mas tantos, lego de brincar por tijolo a sério) fazem muita palhaçada desengraçada, coitados. Corro-lhes os quintais e devasso-lhes os pátios. Nunca me esqueço de agradecer-lhes o tanto rir que me fazem. Gosto deles assim pequenitos, tipo aqueles ranchos de marquesmendes & antóniosvitorinos que de bibe, patrulhados à proa por uma educadorazita anoréxica e à popa por uma contínua de joanetes inflacionados como repolhos, nos ensinam por essas ruas que a vida sempre creche e aparece.
De Santarém, o senhor herdeiro caçula do Moita de fraca memória determina excitações pueris do género fala-fala-queu-touta-ouvir.
Nasceu, coitado, apenas em 1975.
De modo que se lhe perguntarmos, à maneira do BB do laçarote, onde estava ele no 25 de Abril, a resposta só pode ser equivalente ao sítio onde está hoje: que é lado nenhum.
E para Santarém, esse lado nenhum é terra-pouca a mais.


23/10/2014

Rosário Breve n.º 379 - in a O RIBATEJO de 23 de Outubro de 2014 - www.oribatejo.pt

Alô, alô, aqui Vale da Pinta

“Se todo o Estado fosse como o Poder local, não teríamos défice.”
Quem isto publicamente cuspiu aos ventos não foi o maluco cá da aldeia. Foi um adjunto governamental. Para tal risível figura, a evolução financeira dos municípios é exemplo dos mais laváveis, perdão, louváveis. E o maluco sou eu, aqui no Vale da Pinta, Cartaxo.
Já não sei, francamente não sei, o que fazer de tanto palerma.
Ele é o coiso que, perorando sobre ética e deontologia da e na docência, plagia à força toda. Ele é uma tal Associação Nacional de “Professores” (tem de ser entre aspas, se não vomito) a dizer mal dos jornais por trazerem o granchar copy-paste de cueca à mostra.
Ele é os ministérios da “Educação” e da “Justiça” (aspas, claro) serem, obviamente, citius muito mal frequentados – mormente nos respectivos topos.
Um é caric(r)ato. Ninguém lhe exija que faça o que nós, como ex-Povo, há quarenta anos andamos a fazer: demitir-se. Pois se até o Primeiro veio agora a terreiro dizer que ele foi a sua “melhor escolha para o lugar”
Quanto ao caos (sim: caos, balbúrdia, feira-da-ladra, escarcéu, trapalhada, monturo, zaragata, torvelinho, carrossel, berbicacho, forrobodó, trinta-por-uma-linha) da “Justiça”, tudo está muito bem também, graçasadeus. Os juízes recebem setecentos e tais só para subsídio de alojamento mais miles pela “especialização”. Os funcionários judiciais fazem o favor de levar o coice nos fundilhos, agradecer a suas senhorias e aloquetar o bico, que a António Maria Cardoso ainda é no mesmo sítio.
Se todo estes rol & ror de deformidades desgovernantes não são emanações espectrais do atraso cognitivo, não sei que raio chamar-lhe alternativamente. Uma pessoa liga em casa o televisor e/ou o rádio – e é imediatamente sitiada por idiotas mal intencionados de alfinete-portugalinho na lapela. Na Grécia e na Alemanha, há facínoras presos por causa daquilo dos submarinos. Aqui, há medalhinhas do Dez de Junho e do Padre Cruz para os facínoras. O Sporting foi à Alemanha ser roubado à descarada: poupasse a viagem, que para ser roubado por alemães não é preciso ir além da taprobana de Caminha.
Eu sei, eu sei: mais com fel escrevo do que com tinta. Que quereis? Ando com um edema na glândula da amargura. Olho derredor e não me sossega o que vejo. Acho os cães de rua mais magros. Acho a mocidade mais burra, mais praxística, mais vã, mais feia. Até os bêbados meus colegas bebem menos, porra. Pelos jardins deste Verão anacrónico, os velhinhos tossem a desesperança com uma espécie de fé virada do avesso. Uma espécie de febre fúnebre amplifica em redondo o Zero nacional. Um caraças de autismo multitudinário resigna-nos e persigna-nos com férrea inexorabilidade. A indiferença imbeciliza-nos. Mas o Poder local, diz o tal gnomo de rala barba, é um espelho lavado a que o Estado deveria barbear-se, comovido e grato por tal e tão subido exemplo.
Enfim, pior há-de ser falecer.
Ou não.

21/10/2014

Entrada n.º 55 (da manhã de domingo, 12 de Maio de 2013) do caderno 16 da série Leite dos Santos

55

Ib.


É raro agora pedestrar-me por Coimbra em podografia,
a vida é ora para mim sinonímia de Leiria e
e, como em toda a parte me aconteceu, o domingo é tristonho,
espécie de solução de descontinuidade entre a morte e o sonho
até as pombas pela Cidade parecem macilentas &
mais lentas, é como se pensassem sentindo que não

gostam do que sentem pensando-se pessoas.
De fêveras fracas é a flausina que veio
aquaminerar-se sem grandes maneiras educadas,
a primeira coisa que fez, ainda nem se sentado tinha,
foi ir à mesa dos três carecas cravar um cigarro,
foi esperta, evitou-me num soslaio por ter percebido logo

que eu estava com cara de pomba ao domingo pensando-se
poeta ou, o que é pior, pessoa normal.
Deu-se já ao deus-das-coisas-para-nada o meio-dia,
hoje o sol já ferra, seria bom ver o mar sem precisar 
dele, como quase tantas vezes nos acontece a quase todos,
ao contrário quantas vezes da vida, de que a gente precisa 

sem a ver.
Pensei há pouco em Coimbra só porque sim,
se fosse como nos meses em que esperei a morte da Mãe,
hoje seria dia de levar ao Café S. Paulo o bornal,
e ao senhor Manuel & don’Adelaide o mesmo,
e sentir a lâmina do Mondego entrando, azul-pomba, no peito.

14/10/2014

Livro novo, antiga viagem



Ontem, 11-X-14, uma festa muito bonita: a do 50.º aniversário matrimonial de Gina & Armindo (Lopes Carolino).
A surpresa oferecida pelos veteranos Noivos aos (muitos) convidados foi a a biografia do antigo presidente da Câmara Municipal de Pombal.
Tive a honra de escrevê-la para eles e para a minha Editora, a Imagens&Letras
Viva a Gina. Viva o Armindo.

09/10/2014

Rosário Breve n.º 377 - in O RIBATEJO de 9 de Outubro de 2014 - www.oribatejo.pt

Quer tacho

Tenho um primo de sangue directo que é médico no Cartaxo há coisa de trinta & picos anos. É rapaz bonito e afável como uma manhã dos Junhos de antigamente. Foram-lhe ásperas as primícias da vida. Até fome passou. Tudo venceu, todavia. Até a morte de um filho pequenino. Já o não vejo há tempo de mais. Não é meu costume andar pelo Cartaxo. Não é meu costume andar pelo Cartaxo por causa de Vila Chã de Ourique.
Tenho medo de Vila Chã de Ourique por causa do “terrorismo” institucional-autárquico que por aquela sede de freguesia praticam. Espero bem que o doutor meu primo também por lá não ande muito. Não quero que eventualmente o acusem de andar violando o n.º 2 da Lei 75/2013, de 12 de Setembro.
A Ção & a oposiÇão são mulheres para o encalacrar com isso se ele lá for, mesmo que só para praticar a sua, dele, bondade clínica. Quando o Relvas andou mundo fora a esterilizar freguesias e a enxugar poços, esqueceu-se de apagar de vez a Vila Chã de Ourique, que tanta falta faz ao mundo como a fome em África & Arredores. Malvado Miguel, doutor de pechisbeques & quinquilharias.
Já o meu primo médico poderia passar e passear sem medo pelo concelho todo. E eu. E eu com ele. Dos meus projectos de vida mais benignos, um é ir com o meu rico primo assistir a um treino dos rapazes Caixeiros de Santarém ao recinto desportivo de Vila Chã de Ourique. Iríamos até talvez com o marido da Ção presidente, esse que foi tesoureiro de um executivo que já não há nem me/nos parece que venha a haver. Nessa minha insensata quimera, os apaniguados do senhor Paulo Varandas não dinamitam nada. As mulheres deles não usam burcas. Nem os rapazes do PSD local rezam cinco vezes por dia em posição genuflectida de catar pulgas ao chão.
Acontece que tenho uma solução milagrosa para a embrulhada de Vila Chã de Ourique. Faríamos assim: dava-se à Ção presidente e ao marido a Junta Boa; aos outros da oposiÇão, a Junta Assim-Assim, para lhe não chamarmos . (Esta minha proposta não é meramente boazinha: é cinco-estrelas.)
Com a Junta Boa, a Ção & o marido poderiam ir almoçar fora aos domingos, amando-se com ternura entre garfadas de cozido e terrinas de canja rica. Com a Junta Assim-Assim, o PSD local, o comunista residente e os paulovarandasistas fariam uma suecada valente, rodando os três pares que seis cabeças perfazem. E eu e o meu primo sorriríamos a todos, untados ambos de gozo o mais feliz e o mais sacro. Agora, assim como está é que não dá.
Em minha casa, a senhora a que pertenço também preside – mas (atenção!) acumula a tesouraria. Não é como em V. C. de O. Eu só respiro. Sou vogal consoante, por assim dizer em alfabético paradoxo. O meu primo doutor, não sei como faz. Como é médico encartado há tanto ano, ele lá saberá. Aqui a sós comigo mesmo, penso um dia destes visitá-lo. Não conheço ainda a senhora com quem ele contraiu segundas-núpcias. Espero, tão-só, que ela se não chame Conceição. Porquê?
Porque, nesse caso malfadado, eu teria de reformular a presente crónica toda, começando-a, para meu & Vosso mal, assim:
Tenho um primo de sangue directo que é tesoureiro no Cartaxo há coisa de trinta & picos anos etc..

02/10/2014

Rosário Breve n.º 376 - in O RIBATEJO de 2 de Outubro de 2014 - www.oribatejo.pt





Bye-bye, Tó-Zé, bye-bye e não voltes

Nem todos os cristãos são católicos, nem todos os católicos são cristãos.
O mesmo se aplica aos socialistas de Portugal: nem todos os que o são, estão no PS; nem todos os que no PS estão, socialistas são.
Por outras palavras e no sentido idêntico: nem das galinhas cresce lã, nem as ovelhas dão ovos.
O que reluz e o que é ouro – raro coincidem.
Dou por mim a dar nestas lapalisseadas pelo alvor da manhã derradeira de Setembro. Uma cantoneira da Câmara vai penteando a corta-relvas o separador central da Avenida. Pela galeria da Rita, choutando a mansinho passo, uma senhorita-caniche dá trela a si mesma em gracioso par. O copofonista madrugador das sete e onze acaba de emborcar o terceiro porto mercê de uma tecnicamente perfeita cabeçada-marcha-atrás.
Dão as sete e doze quando me ocorre que o senhor papa Francisco sempre há-de, cá p’ra mim, ser tão mais cristão quão menos católico pareça. Já quanto ao novel campeão de pesos-mosca, António Costa, aliás simpático e bonacheirão portugoês do Príncipe Real, o mínimo é agradecer-lhe, para já & se calhar muito, a deserção do inSeguro da televisiva pantalha. Receio, tão-só, que os coelhos ainda venham a dar ovos, fora da pagã Páscoa do calendário comercial.
Través tudo isto, faço como os índios da Nort’aAmérica: tenho as minhas reservas. Tudo faço para não confundir a canábis com os canibais. De crónicas ferreiro, que espeto de pau me não seja o argumento. Não pretendo ser indelicado, não é melindrar que pretendo. Os “simpatizantes” do PS podem perfeitamente integrar procissões santuárias, tal como ele houve decerto muito padre que a seu tempo votou Sócrates. Não é com isso que me vou armar em cabeçudo – desses cabeçudos tão cabeçudos, mas tão, que nem se penteiam, antes estabelecem perímetro. O PS e a Igreja não me fazem mal. Também me não enchem de sopa o prato. Cá p’ra mim, a filial portuguesa de Roma e o partido rosicler são como aqueles primos remotos que todos temos algures: usam-nos o apelido mas não são nós.
Enquanto tudo isto, uma matrona conserta ao decote um fio de ouro de que se dependura a medalhinha da Senhora da Conceição. Mas, por pecaminosamente ter madeixado de trigo químico a cor natural da cabeleira, é como se a Imaculada habite o sopé de uma silveira outonal. É como a vocação dos sapateiros para serem coxos. O da minha Rua era: cambava o próprio andar.
Por este andar, dizia eu pois, o PS ainda se arrisca a deixar de vez cair a máscara. Que é como quem diz: a maquilhagem. Aquele “S” sempre significou tudo menos “Socialista”. Foi “S” de Soares, de Santos (Almeida), de Sampaio, de Sócrates, de Seguro. Só lhe faltou ser de Santana, pelo histórico descambar.
Ainda me hei-de rir um dia destes. Digo: de o PS tornar-se PC.
“C” de Costa, não de “Comunista”. Ou de “Católico”.
Agora de “Cristão” é que não, isso de certezinha absoluta.

26/09/2014

Leonor em tercina



Em tercina,
cresc. poco a poco
a Leonor,
a minha Menina.

25/09/2014

Rosário Breve n.º 375 - in O RIBATEJO de 25 de Setembro de 2014 - www.oribatejo.pt







MDI

Esta é a edição n.º 1501 do nosso Jornal. Muito bem. As minhas fuças estão pespegadas nesta página há apenas 375. Muito bem na mesma.
Há casamentos que não duram nem a décima-parte dos já quase trinta anos hebdomadários deste título. São matrimónios, por assim dizer, sem direcção, sem escrita, sem aparato gráfico, sem quem os assine – muito menos leia. Os casamentos efémeros, de tão vulgares, nem grande publicidade chegam a ter.
Por seu lado, ele há também e também por aí andam jornais que nem para forrar a gaveta-do-bacalhau servem. São pasquins devotados ao serviço pulha e infecto dos gigantes da indústria e dos anões do comércio. São coisinhas que lambem. Praticam o “jornalismo” papa-croquetes dos portos-de-honra, das tasquinhas com seu secretário de Estado portátil, das feirolas “medievais” pré-congeladas e pré-embaladas para pasmo dos asnos que confundem a História com as barracas de farturas.
Tais casamentos e tais publicações não duram – porque são existências moles, invertebradas, servis, viscosas, instantâneas, aguadilhas, vocacionadas para bufas de si mesmas.
Nos matrimónios céleres, enfim, não toco.
Já nos jornais sim, toco – mas faço-o de dedos em pinça repugnada: ena tanto especialista!, ena tantas sabedorias!, ena tanta cagança!, ena tanto sobrinho de banqueiro!, ena tanto autarca!, ena tanta namorada do CR7!
A excepção está à minha frente. Escritorzeco de pastelaria de província, habituei-me a este lugar de alumínio no extremo norte da galeria da Rita. A excepção é um casal já encanecido, desses que os anos em comum volvem idênticos como irmãos naturais.
Arreiam boa roupa lavada. Calçam óptimo couro.
Ela veio de fina blusa branca sobre saia de xadrez-da-Escócia. É de olhos azuis como duas janelas viradas para o mar na manhã clara.
Ele é cavalheiro de porte não pequeno, camisa cinzenta matizada de uma chuva de rápidos riscos verdes, calças de fazenda ponderosa, morna, daquela que faz bem à pele.
Evidentemente, invejo-os.
Às vezes, vem aqui o filho ter com eles. Tornam-se então uma espécie de namorados veteranos que se dão ao luxo de ter um amigo mais novo. É bonito de ver-se.
Venho a saber que se casaram em 1985 – há 1501 semanas, mais precisamente.
Desiludidos fiquem uns, satisfeitos por eles se quedem, como me quedo eu, os demais – pois que nem aqueles nem estes esperaram jamais que Ribatejanamente durassem tanto.

18/09/2014

Rosário Breve n.º 374 - in O RIBATEJO de 18 de Setembro de 2014 - www.oribatejo.pt

SMS: Siglas Maravilhosamente Simples

Permite-me, ó bom Leitor, a seguinte confissão: tenho uma pancada muito jeitosa naquilo das siglas. Sou doidinho por elas. Mas nota tu bem: não pelo seu real significado, mas pelas possibilidades maravilhosas de significação alternativa. Tenho milhões de exemplos.
FNAC é um exemplo bom. Não quero saber se, no plano real, é a megacadeia de livros, discos, filmes e afins coisas multimédias. Nem se era aquilo d’antigamente do ar-condicionado. Para mim, FNAC é: Fazer Nojo Aos Cães. Pronto.
NASA. Esta é outro mimo para mim: Nós Americanos Sabemos a Ânus.
Na volta para casa de algum arraial com amigalhaços de copázio & coparete, o meu ideal vir CTT: Com uma Tremenda Torcida.
A política, essa grande porquita, não cessa jamais de me ajardinar-de-delícias o coração doidivanas. Olha aqui, Leitor, como lês tu esta sequência: PS-PCP-PEV-PSD-CDS-BE? Hum? O quê? Partido tal, Partido tal, Partido tal? Mas qual quê?! Tu não vês nesta justaposiçãozinha a mão do Diabo cifrador de códigos? Eu vejo.
Concedo-te: lês nisto o nome de partidos por seres mentalmente são. O teu cérebro é um alperce fresco. Eu, são, não sou. Porque na enumeração PS-PCP-PEV-PSD-CDS-BE eu leio: Pobre Seguro – Por Culpa Própria – Por Engrolar Verborreias – Pode Suceder-lhe Doravante – Costa Depois de Sócrates – Bonito Encalacranço!
Vês, vês? Viste, viste? Estava ali tudo escarrapachadinho, mas tudo – e tu, preguiçoso, a ler banalidades onomásticas.
Lírico irremediável que sou, cultor de inúteis belezas que fui sempre e para sempre serei, sou também um irremediável leigo quanto a geringonças práticas. Mudar uma lâmpada atrapalha-me a vida por mais de quinze dias. Abrir uma torneira que não seja das dos pipos deixa-me boi ante o palácio da simplicidade. E por aí afora. A minha Senhora Esposa é que me ataca os sapatos. Nunca comi sozinho uma sardinha: tem de ser ela a desespinhar-me o peixito. Uma vez, tentei fazer a cama – ela dormiu no sofá, claro.
Tudo isto te confesso & explico por causa da sigla LNEC. O mero som dela (lnec, lnec…) não te parece aquele ruído salivar dos malcriados que mastigam de boca aberta? Ou ainda: o lnec-lnec é ou não exactamente aquele estalo do elástico da cueca na anca? Hum? É pois. Eu sei que tu sabes que LNEC significa, no mundo dos não-avariados-da-mona, Laboratório Nacional de Engenharia Civil. Seja. Mas para mim, népias disso. Para mim, é das interjeições contra-ofensivas mais lindas que pode haver. Se alguém te chatear, só tens de lhe zurzir cuspo assim: vai LNEC! Ou seja: vai Levar Nos Entrefolhos do Cagueiro!
E os ex-ministros? Ah, a meu ver e a meu ler, o que (não digo que todos, mas que quase todos) fazem – é GNR. Isto é: Guardam o Naco Roubado. E a verdade seguinte é que PSP: Poucos se Salvam da Pilhagem.
Por voltas, revoltas & reviravoltas do imparável processo histórico, a sigla URSS já não se usa. Ai não? Usa, USA! No caso da minha maluqueira, a URSS é eterna: por, sendo não raro do teor diarreico, portanto humaníssima, valer – Urgência Repentina de Soltar o Saco.
E USA? Fácil: Ungidos de Santidade Astral. No mínimo.
E ONU? Olha, Nelito, Unta-me.
E NATO? Nunca Andaste Tão Osga.
De todo o desarrazoado que supra te expus, ó meu fiel e bondoso leitor, concluirás que um bocadito de fluoxetina me não faria mal de todo, bem antes pelo contrário. Talvez. Tenho um médico amigo, o Adelino Correia. Dr. Adelino Correia. Ui: DR AC. Sigla. Já sei: Demónio dum Raio, Arranja-me Comprimidos. E ele então, com pena de mim e de eu de tão pobrezinho quase de algibeira numerária como de cabeça, paga-me bagaços até a língua e a Língua me ficarem encortiçadas de todo, e a boca e o Idioma me saberem a pomada de largo espectro de acção fungicida.
Estranharás talvez, Leitor meu caríssimo, que te não ceda a minha particularíssima e dementíssima descodificação de GRP (Governo da República Portuguesa) ou de CMS (Câmara Municipal de Santarém). Pois não. Nessas duas siglas não me meto. Não é por medo. Nicles de medo. É por uma bem mais simples razão. Esta aqui: porque tudo o que nos fazem, fizeram e vão continuar a fazer, é de FNAC, só quero que tanto uma como outro vão mas é LNEC.




12/09/2014

Rosário Breve n.º 373 - in O RIBATEJO de 11 de Setembro de 2014 - www.ribatejo.pt

Ou estudo ou nada

Felizmente, o meu curriculum académico não compreende (no sentido duplo de conter e de entender) qualquer cadeira da “universidade” de Verão da JSD.
Digo felizmente com exactidão: por ser feliz que me sinto com a memória dos meus professores sérios e com a certeza de ter usufruído de uma pedagogia humanista só p’ra pessoas. A autognose que hoje posso mostrar ao espelho enquanto raspo o pelame dos queixais deriva de um lar sólido (ou”estruturado”, como agora é moda dizer), de uma escola perto e de uma vontade de aprender a que os anos não são capazes de vergar o espinhaço.
Se a infelicidade me tivesse feito cursar a tal “universidade” gaiato-citrina, eu seria hoje um palerma vácuo, um enforcado de gravata, um imbecil irresgatável, uma lesma sintáctica, um caracol morfológico, uma besta vesga, um assessor solícito, um acólito castrado, um invertebrado viscoso, um orador afónico, um esterco perfumado, um balão sem nó, um tumor com pernas, uma unha do polegar roída por prótese dentária, um nojo literário, um asco de cavalheiro, um cônjuge corno, uma anorexia idiomática, um assinante do (Amigo do) Povo Livre, um paulo-bento-contra-a-Alemanha, um dos responsáveis pelas barreiras de Santarém, um mata-peixes da Vala de Almeirim, um palerma televisivo, um infante sem infância, um programador do CITIUS, um ortógrafo indigente, um arrumador a 20 cêntimos no estacionamento subterrâneo do Jardim da Liberdade, um turista da Águas de Santarém, um colunista de O Mirante, um bilheteiro do teatro Sá da Bandeira, um actor-fantasma no Rosa Damasceno, um vizinho tê-zero daquele rapaz-escrivão da Golegã, um artolas patusco da luta contra a corrupção no Cartaxo, um padre sem fé mas deixai-vir-a-mim-as-criancinhas, um incendiário da Barquinha, um toureiro zoófilo – e, enfim, um jove’ social-democrata.
Vale-me que tal infelicidade seja, no meu caso, do mais alto grau de improbabilidade. A escola ensinou-me a pensar com os olhos. As pessoas não me são estranhas. O social não me aparece como alienígena. A pobreza material não é por mim encarada como sinónimo directo de miséria moral. Eu não vou ali ao Gambrinus canonizar um sucateiro. As escutas que me fizerem ao telefone não me ocultarão a verdadeira face. Nisto de faces, se me baterem numa eu não dou a outra, mas troco sim – e a dobrar.
Sempre que a JSD faz uma “universidade” de Verão, o Verão acaba. E a universidade também. Cada vez que a JSD diz a palavra “universidade”, as pessoas sérias pensam no Relvas. A “universidade” de Verão da JSD está para a universidade verdadeira como a Festa do Avante ser não na Quinta da Atalaia mas na Cova da Iria.
Ou numa das barreiras de Santarém.

04/09/2014

Rosário Breve n.º 372 - in O RIBATEJO de 4 de Setembro de 2014 - www.oribatejo.pt

Isto das cores

Na mesa em frente à minha, um homem doente. É quase ’inda rapaz: uns bons (ou maus) quinze anos deve ele perfazer a menos dos meus. O rosto dele é um clarão sanguíneo. A moção gestual dele é muito lenta – como se até o ar lhe doesse. De que sofrerá? De estar vivo naquele corpo, talvez. Tomou (mas tão lentamente!) um copo alto de café-com-leite. Ei-lo a respirar do esforço. O copo de água atira-lhe quatro comprimidos (um azul, um verde, um rosa e um prateado) para o labirinto gástrico (vermelho-negro). O olhar dele é feito de duas ilhotas pretas sobre nácar coagulado. A roupa é de lavada decência – alguém (a mãe?) trata dele ainda. Usa ao pescoço um fio religioso que lhe pesa na cerviz: Deus custa quilogramas na aflição. Tomou-o cedo de mais a terminação: o meu Leitor e eu, é a um moribundo que assistimos.
Repórter coscuvilheiro, junto da patroa do botequim indago dele. Diz-me ela que o rapaz é de família de bem & de bens. Mais me conta que, de quatro filhos, é ele o último. Último duas vezes: porque dos quatro o mais novo e porque único desde que, aos três outros, os finou aquela maleita irreciclável da turbina cardíaca.
Chega entretanto à esplanada a minha pomba das sete e dez. Veio com a alba no bico. É lustrosa fêmea: maciça, virente-plúmbea, duas graciosas dedadas de tinta-permanente na junção posterior das asas. Cabeça muito viva, mui latina, mui ladina. Mesmeriza-me sem pudor: quer do comer que sabe ela lhe trago eu no saco. Faço-a esperar um pouco: estou a escrever para o meu Leitor. Ela circunvagueia como um polícia aborrecido da vida. Pica do chão, por desfastio, uma migalha invisível. Sinto a indignação a crescer nela. Mas, por me faltarem dois parágrafos crónicos, haverá de esperar um pouco mais.
Quando dela aparto o olhar, descubro, para serena mágoa minha, que se foi já embora o moço do atávico coração. Ei-lo longe já além, além passando milimetricamente a passadeira. Causa ele uma fila nervosa de carros impacientes: ser automobilista é não cuidar do coração. Perdi-o. O meu Leitor perde-se dele. Não voltaremos, talvez, a escreve-lê-lo. Resta-nos a pomba. São sete e dezassete da manhã, sete minutos a demorámos já.
Vou ao saco. Tenho arroz para ela. Quatro singelos bagos tenho eu para ela: um azul, um verde, um rosa e um todo de prata – como só ela. 

28/08/2014

Rosário Breve n.º 371 - in O RIBATEJO de 28 de Agosto de 2014 - www.oribatejo.pt

Queixa no País da Insónia

Não sei se é a má-sina a perseguir-me, se sou eu a persegui-la a ela. Talvez ambas as coisas. No caso presente, falo-vos do putedo que me não deixa dormir. Explico-me.
Na antepenúltima cidade em que vivi, a minha casa (mas só o descobri depois de arrendá-la) era precariamente vizinha de uma casa-de-alterne. As madrugadas eram o calendário mais hostil do dia. As gajas, mais os lenocidas que as parasitavam e mais os deserdados de pulseira de lata que as frequentavam – encenavam e protagonizavam altífonos histerismos de navalhada, protestos de amor a vintes e a cinquentas, forrobodós de cassete-pirata sem ballet nem rose. Um ultraje pegado. Pouco adiantava chamar as “ótoridades”. Quando vinham (se vinham), pareciam pedir ensonadas desculpas às senhoras meretrizes, invariavelmente espécimenes de brasileiredo do mais chunga, tisnadas do esterco daquela maquilhagem contrafeita de feira e armadas de garras envernizadas de amarelo-pus e escarlate-cirrose. Nunca havia detenções, nunca havia autuações. Nada. Só quando aquele circo ia dormir para algum remoto apartamento-galinheiro é que a civilização voltava à má-hora dos meus aposentos. E eu ficava com o bebé da insónia nos braços, roto para o resto do dia até ao vira-o-disco-toca-o-mesmo da madrugada seguinte.
Na cidade ulterior, vivi em paz: como no bairro também moravam senhores médicos e senhores juízes, o gado-de-aluguer não accionava por ali o taxímetro das virilhas. Dormi muitas santas noites nesse quartito sem mulher nem renda excessiva.
Há três anos e picos que vivo nestoutro burgo. Foi bom. Foi bom até este malfadado mês de Agosto. É que o putedo voltou. A prostituição-de-giro sitiou a minha rua e as circunvizinhas. Toda a noite é por aqui um carrossel ignóbil de carros tripulados por energúmenos das obras para quem o Brasil é uma espécie de quimera com direito a caipirinha falsa e a rodízio de varizes roxas como o manto do Senhor dos Passos. Isto agora onde não durmo é um bairro-da-tijuca. As alvoradas amanhecem juncadas de lixo. Há batidelas nas viaturas dos trabalhadores sem garagem que, como eu, tiveram a má-sina de ali se aquartelarem. O sotaque carioca gargalha obscenidades goianas até às cinco, seis horas da matina baiana. E já sabeis como é: pouco adianta rogar às “ótoridades” a esmolinha de por ali rondarem profilacticamente. Elas vêm mas é o carago. Devem ter medo daquelas unhas.
Posso parecer-vos xenófobo e misógino. Oxalá que sim. Conheço poucas coisas tão degradantes como a privação do sono. Talvez a fome. Talvez o desGoverno (este como o anterior, o anterior como o próximo). Podem parecer-vos ofensivas as minhas palavras. Oxalá que sim. Quero ofender. Quero vilipendiar. Quero dar troco. Quero dormir.
É claro que não tenho pensado noutra coisa senão na utopia de outra casa noutro bairro. Talvez de outra cidade, até. De outro país, não. Não posso. Este é meu. Só tenho este. Não vale nada mas só tenho este. E só quero este. Hei-de resistir nele a tais malfadados e sórdidos despojos de império colonial de pacotilha.
A não ser que ele, o meu/nosso País, vá de vez, como tem ido, com as putas. Se for o caso, o melhor mesmo é emborcar umas caipirinhas e, para as rapidinhas, desembolsar uns cinquentas, com sorte uns vintes. 

06/08/2014

da série Leite dos Santos - entrada 54 do caderno 16 - BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ

54

Leiria, manhã de 12 de Maio de 2013, sábado


Sei de uma mulher e de sua filha, o homem da casa
fugira delas para a venezuela-do-costume,
acabaram as duas, uma sem saber da outra,
por se relacionar com um rapaz de maneiras
& unhas polidas, quando finalmente se descobriram
ambas utentes do abraço dele, chamaram-no a casa

e esquartejaram-no o mais civilizadamente,
ele ocupou o estúdio das águas-furtadas,
deixaram-lhe o domingo de folga,
segundas-quartas-sextas para a mãe,
terças-quintas-sábados para a filha,
ele engordou um pouco, tornou-se algo paxá,

mas no geral a vida ia e corria bem, entretanto
o contrato dele nos Correios acabou,
de modo que elas ficaram felizes até,
tinham e mantinham uma loja de sementes,
despediram a empregada de quase toda a vida
e meteram-no lá a ele a ensacar amostras de girassol

para as feiras e para as entregas ao domicilio,
o problema foi numa destas ele se ter deparado
com Clotilde, uma viúva larga como a vida
de algumas pessoas como ela, ela-Clotilde chamou-o
à pedra da razão, pôs-lhe casa na mansarda do prédio
que todo lhe pertencia a ela, como ele passou a pertencer.

Canzoada Assaltante