25/09/2008

Sonho com Ela

Esta semana, nO Ribatejo do costume, a crónica nº 70 da série Rosário Breve.

Numa freguesia perto daqui do sítio onde como as batatas, há um cão que anda a assaltar capoeiras. Trata-se de um caso de “cãojacking”. O assaltante parece que é bruto, não hesitando em trincar as partes moles a alguns habitantes da aldeola. Uma senhora, aflita proprietária de um dos galinheiros visados pelo canídeo, tem uma galinha que sobreviveu ao ataque de há um mês, mas que “ainda hoje não anda”. Parece que estou a ver daqui a penosa: sentada sobre a própria moela, o olharzito ao mesmo tempo indignado e assustadiço ante a memória do minacíssimo morso. O cachorro, uns dizem que é rafeiro, outros acham-no de caça. Parece que o saco-de-pulgas em questão assalta para comer, motivo que o justifica a meus olhos – como os assaltantes de bancos que levam o “carcanhol” sem aleijar ninguém.
De modo que aqui estou a ler breves destas no pasquim local. Vem do alto uma tarde larga, forte, de pouca brisa e muita luz. A senhora da mercearia tem a fruta à porta, o que alegra o largo. Uma mulher muito bonita contorna a esquina, sai de vista, dissolve-se no ar vespertino. Um rapaz já descriado joga brincadeiras portáteis de computador. Tenho um livro para rever para a editora, apetecia-me galinha para o jantar. Galinha-galinha, de pica-couve, não frango-chiclete de mercearia grande. Apetece-me tanto galinha, que dou por mim a coçar a orelha esquerda com patadas rápidas e rítmicas de gajo que liga a motorizada. Bocejo e deito-me à sombra da capela, enfim, mas só depois de correr atrás de um opel-corsa e de um seat-ibiza.
E quando sonho com a que me escapou, rosno dentro do sonho.

24/09/2008

Isto não é L.

Policeman in a Dockland Alley, Bermondsey. © Bill Brandt, 1938





Viseu, tarde de 18 de Setembro de 2008

Também procuro Joanna Southcott, fora do tempo mas dentro da Panacea Society, e Jack London, quando ele andou por Whitechapel, em 1902, em demanda do povo do abismo. Isto de juntar Jack, Whitechapel e London na mesma frase, pode ser mau para a população de prostitutas. Desconheço se o sargento-detective Cribb ainda vive. Alan Dobie, julgo que sim, pelo menos desde 1932. Procuro. Vou tendo umas luzes na noite.

A noite é mais diária do que o dia. Passa-se dentro da cabeça. Uma árvore ao sol deita noite por todos os poros. Uma viela, ao contrário, pode ser iluminada pelo olhar de um gato – ou pela descoberta de uma faca ensanguentada. Estou aqui e procuro. Procuro dentro. Ao princípio da tarde, estive numa pastelaria perto dos Correios. Tomei uma ginger ale e esperei. Pensei numa história sobre um par de botas, cuja redacção iniciei.

Saí para a noite eram duas da tarde. As árvores do rossio municipal vergavam-se como anjos para os reformados nos bancos de ripas verdes. O mais era a língua portuguesa suspirada entre próteses octogedentárias. Por aqui, temos também capelas brancas, mas não são Whitechapel nem para lá caminham. São capelas portuguesas, luras pós-viriáticas, mas nem por isso viáticas, posto que não esmolam nem sacramentam. A unção é porém extrema.

Senti falta de casa. Cortei à direita, subi as pedras do Major, cujo fantasma onomástico me cumprimentou de dois dedos levados ao boné de oficial. À esquerda (ou a bombordo: eu navegava já pelo Tamisa improvável do Pavia), uma mulher vestida de negro (a noite têxtil destas mulheres na tarde) tropeçava no saquito de medicamentos. Um gato livre lavava a cara junto ao contentor do lixo. Um polícia completamente português coçava-se a nádega esquerda. Estas visões extenuam-me sempre de felicidade.

Joanna Southcott era para ter parido o Messias (ou Shiloh), pela segunda vez no caso do Messias, no Natal de 1814, mas a coisa não se deu. Ou não cedeu. Morreu um ou dois dias depois, a senhora. Dizem que deixou um bilhete de lotaria na arca das revelações. Pergunto-me se também na arca de Pessoa haveria cautela.

Não é seguro que Jack London tenha morrido de alcoolismo. O John Barleycorn pode ter resultado de um empirismo, mas as mitografias não são muito de fiar. Ainda não cheguei a casa. Compro dois lápis amarelos na loja das fotocópias. Há, em baixo, um bebedouro de água. Desço a cara e recebo esse cristal frio. Já pulsa a cruz verde de uma farmácia. O crepúsculo já borda a quarta dimensão dos telhados. Olho para longe, entre dois prédios a mancha verde da serra dói-me o mar que não há. Penso noutra coisa, mas o mar lateja dentro da fuga.

O Ripper é contemporâneo do Cribb: qual dos dois ficção, não sei. Uma criança vestida como um adulto miniatural: vejo-a lambuzar-se de gelado de chocolate, sentada muito direita no banco de jardim. A mãe gritinha interjeições ao telemóvel. Um cão muito branco boceja cor-de-rosa e negro numa espectacular amplitude de mandíbulas. Involuntário melhor amigo do homem.

Não por acaso, hoje era um bom dia para chuva. Gosto de, em plena tarde, reunir os sentidos para recepção da chuva nocturna. Havendo umas moedas, podes contemplar a massa de cor dos reclamos luminosos numa montra de pastelaria, o escarlate e o verde e o amarelo estilhaçados de água, o vapor das respirações vulcanizando as palavras que as pessoas deixam cair quando entram a fechar os guarda-chuvas. Mas faz um sol lunar, uma moeda termonuclear que reverbera de níquel e mercúrio nas cabeças, também já tão pouca gente usa chapéu, os tempos mudaram muito e isto não é Londres.

17/09/2008

Anjo em Pombal

Sexta-feira, 19 de Setembro de 2008, pelas 21h00, na Livraria K de Livro, em Pombal,
lançamento de
Terminação do Anjo.
Vai lá estar, também, o José Antunes Ribeiro.
Todos são bem-vindos, claro.

Entretanto, deixo-vos, infra, a crónica nº 69 (sim, 69...) da série Rosário Breve,
n' O Ribatejo do costume.

Crónica nº 69 n' O Ribatejo - www.oribatejo.pt

Tudo ligado, tudo ligado

O Sporting confirmou terça-feira, em Barcelona, o mau momento da economia portuguesa: a perder por dois, atreveu-se a esboçar um pálido sinal de recuperação, que os catalães “recompensaram” com três na pá. A culpa da crise económica e social não é, claro que não, do Paulo Bento. Lenços brancos são bons para o santuário de Fátima, não para as bancadas do Camp Nou nem para as alvaláxias da nossa mediocridade. É deixar, portanto, o rapaz em paz, que faz o mesmo que o Carlos Queiroz e por muito menos “pastel”. O que me preocupa são outras coisas, as quais, como todas as preocupações, se emaranham num novelo de causa-efeito que a tudo justapõe mas a nada põe justo. Exemplos, já a seguir a este curto intervalo.

Aquela histeria toda da falência do banco norte-americano por causa da deslocação do Benfica a Paços de Ferreira. O Graça Moura a desejar fervorosamente que o McCain faça a cama ao Obama enquanto o Bloco de Esquerda não sei quê casamentos de homens com homens e mulheres também não com homens. Moita Flores a dizer que “temos de enfrentar a criminalidade” e nós sem saber se aquele “nós” é connosco – e de que lado da pistola. Petah Tikva, cidade-satélite de Telavive, em Israel, que anda a analisar o ADN do cocó dos cães feito nas ruas para saber quem são os donos: suspeito que só os cães palestinianos serão abatidos. O Bloco de Esquerda a exigir o controlo governamental dos preços dos combustíveis, mas depois a vir com aquilo dos casamentos não sei quê. O senhor presidente da República a comparar a poesia e a figura de Manuel Alegre às de Camões e de Pessoa, quando nem o padre Melícias se arrogaria (digo eu…) a ser enfileirado na orla dos padres Cruz e Américo. A portuguesíssima razão inversa dos megajulgamentos com as micropenas tornada proporcional e directa com os processos sumários de despedimento colectivo. Os canhões de Navarone, a ponte sobre o rio Kwai, o cabelo do Miguel Veloso e a barriga do Rochemback.

Eu acho que isto anda tudo ligado. Sobretudo a avaliar por aquilo não sei quê do Bloco de Esquerda.

Lura

Caramulo, noite de 17 de Setembro de 2008


Já faz frio, os animais recolhem cedo às luras já.
Passo à noite pelos bairros apagados, de que a luz pública amplia a devastação.
A nada cheira: o futuro era afinal esta ausência de perfume.
Há vozearia para o lado dos bares, onde os cansados rejubilam euforias de pechisbeque.
Uma altíssima papoila pulsa no céu preto, talvez um avião a jacto, talvez um rubi sem dono nem deus.
Pastelarias e bancos e farmácias e retrosarias encerraram como se cerra o coração ao não ver retribuído o bom-dia dado manhã cedo.

Vamos por aqui.
Ali ainda canta a fonte, ainda a pedra escreve um nome de casa, podemos entreter-nos a decifrar rastos, capas, mãos de cavalos que na calçada chisparam o lume da passagem.
Vê a noite concentrada nas árvores: mais negra onde o vento lhes dá.
Outros coleccionadores de ossos peroram por aqui sua mudez, suas gabardines terríveis, suas saudades de cães, seus olhos de cães.

Chegaremos em breve.
Agora é uma praça de gravilha.
Além, uma galeria entre cujas colunas os fantasmas se dão às gincanas da memória.
Já procuramos o esquecimento, essa lura.

Obtusa Lírica Dominical (fragmentos)

De trabalhos do passado mês de Agosto, estes fragmentos.

Viseu, Mundial Bar, fim da manhã de 3 de Agosto de 2008

(…)
Um pouco de Brel pensando olhar água,
a azul de azulejo na barragem, domingo.
Ficar todavia toda a vida aqui, num café quieto,
entre posters do Benfica e cartazes de bailagostos.

(…)
Gosto de ver as pessoas repetindo-se, tais
ondas do mar fossem: espumosas, claras e,
afinal, invencíveis, as boas frias pessoas
torradas pela Lua Grande deste sertão, deste

ser tão pessoa na desumanidade.
Bailes em Agosto, ele há muitos, não os irei.
Estou recolhido no co-nãodomínio da alma.
Leio ainda palimpsestos e preços da fruta.

(…)
Francas ruas, encerradas artérias: eu vejo
dos vivos a passante sereia ao farol alteada:
canoro rastilho de doenças vitomortais,
além de Proust muito dandy, muito David Suchet.

(…)
De quantos novembros seremos capazes, humanamente?
Estas pedras históricas, que nos olham na cidade
como oliveiras perpétuas, vitalícias despedidas
iguais a barcos que titanicam tudo

e nada?

16/09/2008

Canção com Sonho de Menino

Viseu, entardenoitecer de 23 de Abril de 2008


Ando a trabalhar muito para ser
por assim dizer
o Tony Carreira da poesia portuguesa.
Os meus versos também estão todos a voltar p’a França.
Tenho muito mais cabelo do que o Tony
mas muito menos cabeça do que o Tony.
Se calhar, assim, vou só ser o Toy da poesia portuguesa.
Toy é Tony sem éne
por isso vale muito menos.
O Toy também faz carreira mas como não tem éne
não é Tony.
Uma pessoa para ter sucesso tem de trabalhar éne.

(Venha o meu tempo d’oiro doirado
a minha praia um dia futuro
os meus pais quase jovens quase moços
as áleas abrindo jardins
o vento dando nas pêras dançando nas laranjas
a água dos olhos e o crepúsculo particular dela,
está bem,
Tony?)

Dois Poemas: RETORNO e PARTIDA

Retorno

Viseu, tarde de 14 de Setembro de 2008

Estendidos nodosos troncos de árvore sob pele: as veias das mãos do homem velho.
Vi-o passar, mesmo, agora, o olhar noutro tempo, não no nosso, no meu sim.
Fendido lagarto dele o rosto: máscara e tempo e máscara e tempo.
Muito limpo, muito correcto: a jaqueta impoluta de terileno-creme, a calça fazendeira de vinco-tíbia, os sapatos espelhados a negro de graxa como uma sideração cósmica.
Um pardal, por assim dizer.
Eu amo a visão dos homens velhos.
Ele mostram-me como vai ser.
Eles dão-nos recados da soludissolução.
Pó ao pó, cinza à cinza: matéria estelar.
Na estela (na esteira), duas datas, um nome.
Um domingo qualquer: ter vivido tudo antes.
Gás e árvores e luz e sobremaneiras: atenta atitude comedora, a dos pombos, a dos velhos.
Uma velha vi eu hoje rechupando o carioca de café: lavada, ela também, a blusa cinza (à cinza), o ouro nas mãos.
O ouro nas duas mãos, o decote sardento, a laca imobilizadora de cançonetista anos-60.
Eu vejo dentro.
O passeio dos senhores que ao domingo.
O tempo que se prepara no cimento e na geografia.
Passamos pessoas umas pelas outras como vento-árvores.
Ramalhamos, fazemos cocó cor-de-chumbo, pipilamos vozes pede-migalhas.
Ao poema de ontem retorno para primeiras
rosas últimas.



Partida

Viseu, tarde de 13 de Setembro de 2008

Um dia colherás por último as primeiras rosas
que a manhã orvalhou na tua doença jardineira.
Esse dia será de noite, pela manhãzinha.
Terás franco acesso ao desespero, essa feira
que merca corações desavindos de peitos.
Toda a agonia é uma literatura portátil,
pessoalíssima e intransmissível.
E tu rumarás à alba-cinza-lunar.

Fala, porém, enquanto vivo, com teus mortos.
Eles te dirão a grande poesia de esquecer.
Dir-te-ão como às defuntas putas tornou a virtude.
Protege-te da chuva ácida de chorar.
Se de tal te protegeres um dia, aquele outro dia
te não doerá tanto.

Uma das fontes da cabeça marulha borborigmos:
água da intestina saudade dos vivos
que amar te foi possível, entre vidros.
Os vivos todos: as pessoas mortas, os animais
que correram por alegria à tua sombra.
O número da casa pintado em azulejo.
E a garagem onde a primeira sexualidade
te condenou ao lego da solidão.

Aquela álea de pereiras-de-inverno.
A almácega vitrificada de gelo e de sombras de rolas.
A infância: o instante total.
E este pedir-de-morrer-aos-versos.
A volta nocturno pelos bebedouros, a poesia.
O Clark Gable a diz
Frankly, my dear, I don’t give a damn.
Aquela álea de pereiras-de-inverno.

Um dia tu verás sem ter de olhar.
As mamas lubrificadas de seiva das mulheres.
A condição gansa da puberdade.
A tua e nossa Mãe mijando-se sozinha na sala.
As Obras Completas de Júlio Dinis pela Civilização Editora.
Os frascos de tinta em pó, tudo cerâmica.
O berro do parido contra os azulejos.
Tu verás quando fores cego.

Rosas pulsando verniz no vidro matinal.
Crianças rindo a felicidade estrangeira da infância.
Esta mão amarrando o coração como um estojo.
Este olhar cada árvore como a um relicário.
E este calvário.

Um dia atarás a sangria dos sonhos.
Terás livre-trânsito para o dealbar azul-frio
das manhãs dos outros, quando tiveres sido.
Serás um homem e uma mulher – e nada disso,
quando as tais terminais rosas
iniciais.

Bebé velho, ultimador de notícias,
colector de pacotes de açúcar e de azias.
Homem e mulher e cão e rosa.
Frequentador do inviolável celibato da poesia.
Músico mudo, utente de peles despidas,
amador de estrofes e de
áleas de pereiras-de-inverno, tu,
you sexy thing.

E Aquilino Ribeiro e Amelia B. Edwards,
lidos à noite quando chove no mundo.
Os lobos invernosos e o chá cardíaco.
A delícia do terror, a extrema educação.
Os barcos orlando de azul o horizonte branco.
Dar sapos vivos aos ciganos.
Cagar no Neville Chamberlain e em Munique e na Checoslováquia
1938.

Aquela álea rosas-de-inverno, quando olhares.
Quando vires os panos pretos, a grisa alba.
Quando vires a infância irrepetível dos mortos:
dos teus amores.
Quando olhares deitado a catarata,
o azul niágara dos mortos e de
Júlio Dinis pela Civilização.

E o Clark Gable e as primeiras rosas.
E a ínclita doçura dos amargos-de-boca.
E a amável infância dos cães e dos mortos.
E o poder todo-musical da poesia.
E ser de noite dia e quem no-lo diria.
E o trevo mijão acidulando a refrega do lembrar

O carácter descartável do amor.
A mulher que foi vista de azul num comboio.
E as mamas aos pares: um mal nunca vem só.
Quando recordares a frígida alegria de um decote,
tu suturado de pontos ventrais
atirando leite e remorsos.

Eu digo-te a pequena música.
Eu faço-te ver.
Tu olhas nos espelhos, nas partituras.
Há bares abertos toda a noite, todo o dia.
Tu amargo e tu também açúcares.
Tu és a pêra-de-inverno.
Tu és o cão.
Eu sou o cão.

As you lay dying
recorda as estrelas de osso das mãos dos reformados.
Os pobres falidos ricos de vida
nas merendas das casas-de-pasto.
A graça: a vida: o deitar-se.

Ao cemitério municipal de Viseu
fui eu
ver por ti a palração onomástica dos deitados:
os sargentos, as marias-das-conceições,
os bancários e os banqueiros,
os silvas e os tenreiros,
os anjos frágeis e eternos como louça,
as pétreas rosas pátrias
que pela manhã,
como sempre,
são rosas deitadas a anjos, a nomes.

Tu serás esse homem, essa mulher.
Esse nome de que a fraca tinta
guardará fragmentado nome:
riscos breves, duas datas.
(D. Duarte, El-Rei de Portugal,
1391-1438: tão pouco.)

Um sabor de raparigas rindo-se
través laranjeiras e limoeiros:
recordarás, depois,
as
you lay dying
.
As vozes dos homens da tua rua,
respeitando o comércio e a educação.
E a pele do nascido placentada no cheiro a terra chovida.
E as fábricas encerradas e J.S. Bach.

Um sabor de raparigas indo-se
na corrente das pequenas ácidas alegrias
(sabor a napa, de banco traseiro de automóvel),
luzes de Paris em doméstica
circunvalação portuguesa.
E o arrefecimento das farmácias,
suas cruzes verdes na noite como se de igrejas químicas.
E crescer para o fim.

Quero viver no teu sono.
No teu mármore olharei dentro.
O que me ofendia em criança era não ter conhecido vivos os mortos
antes de mim,
por exemplo a ti,
Manuel Mota,
nome-número mecanográfico xis e tal
da guerra colonial,
da família Mota da minha aldeia de Portugal,
os canaviais lá em baixo zunindo tensos ventos,
e tu,
senhor Manuel,
adormecido a tiro não sei se em Angola se em Moçambique,
a água dos olhos bebida pelas chilras rosas do
campo-santo.

Poesia, poesia: um dia colherás,
um dia as olharás, albas, azuis, frias:
e elas te beberão os olhos –e também serás
Manuel,
Maria da Conceição.

12/09/2008

ALVARÁ DE LICENÇA SANITÁRIA PARA CORAÇÕES E VÍSCERAS AFINS e outros poemas de lutar pela vida



Poesia é a gente andar cá dentro a lutar pela vida. Nem mais nem menos. A lutar com quem? Mais bem dito: a lutar contra quem? Contra a realidade. Há muitos anos (e para sempre) determinante na minha vida é a célebre epígrafe de Novalis que abria a também célebre colecção de poesia da Ática:

A POESIA É O AUTÊNTICO REAL
ABSOLUTO. ISTO É O CERNE DA
MINHA FILOSOFIA.
QUANTO MAIS POÉTICO, MAIS VERDADEIRO.


Posto isto, trago às vossas mãos e aos vossos corações e ao vosso olhar estas coisas seguintes, que de muito atrás (de muito dentro) vêm. (O melhor da festa sendo, naturalmente, a fotografia, que é da minha Sandra Bernardo, foi obtida a 27 de Agosto de 2008 em Viseu e é a nona da série Casa de Pasto. Chama-se Retrato de Senhora - Aristocracia do Povo.)

(E sim, a
“pomba ferida (…) aos pés da Sé” de um dos poemas é real. Era realíssima, ontem mesmo, senhor Novalis.)



Tábua

I. O ROSTO DA NOSSA MULHER É
Viseu, tarde de 7 de Setembro de 2008

II. ALVARÁ DE LICENÇA SANITÁRIA PARA CORAÇÕES E VÍSCERAS AFINS
Viseu, manhã de 12 de Setembro de 2008

III. APRESENTAÇÕES
Viseu, tarde de 7 de Setembro de 2008

IV. FERIMENTO MORTAL DE POMBA E HOMENS
Viseu, manhã de 11 de Setembro de 2008




I. O ROSTO DA NOSSA MULHER É
Viseu, tarde de 7 de Setembro de 2008

O rosto da minha mulher
é como o rosto do teu homem,
ambos o país profundo da nossa vida
a partir da cor dos olhos dela-dele,
se bem que azul, verde, castanha ou negra
não interessem, interessam-nos (d)eles os rostos,
o meu homem,
a tua mulher.

Ouve-me aqui um pouco: não temos
de perder tudo, só um pouco a razão,
a vaza dos domingos, sim-isso-também,
mas lembra-te da nossa mulher,
do teu homem, dos filhos que construíste
para que de novas ruínas disponham o mundo
e a arqueologia
– e o mesmo dia.

O chilro sabor do sangue na boca
como um café vermelho.
Os rostos dela-dele.
A funda tosse orgânica dos sonhos:
e a rebentação do mar adiado
a que prometemos as vidas.
E a água totalmente perturbada
da cor dos olhos
– ela mesma adiada.

Constróis um filho, constróis um cadáver:
a ama religiosa de todas as doenças
é o apanágio do amor, não o do por aquele
(aquela) com quem se fode, mas do que vai
nascer: a doença, o bebé, o cadáver.
Ouve-me aqui um pouco:
eu serei o bebé de alguém
que morreu já
mas ’inda a versos pertence
– como um rosto.

A quem poderia algum de nós
dedicar telefonemas
como telepoemas?
Pergunta-se pela saúde, comenta-se o tempo:
e a vaguíssima perdição dos outros nossa se torna.

Ombros nus de mulheres como laqueações de alabastro.
É domingo, o mundo dá suas maneiras.
Reporta a têvê seu fidelcastro.
No café só há daqui as bebedeiras.

Como laquear o riso próprio?
Como mesmerizar a pomba adulta?
Como integrar o trafic’ópio?
Como não ser uma pessoa estulta?

O rosto da minha cara é como o teu homem,
mulher.



II. ALVARÁ DE LICENÇA SANITÁRIA PARA CORAÇÕES E VÍSCERAS AFINS
(plagiado de documento municipal verdadeiro fixo em parede de restaurante viseense de minha frequência diária excepto aos sábados, quando encerra para descanso do pessoal)

Viseu, manhã de 12 de Setembro de 2008

O coração deverá ser mantido no mais rigoroso estado de asseio, não sendo permitida a varredura a seco mas sim com pano húmido ou, havendo-a ele, o coração, aspiração. Usar-se-ão os meios necessários para resguardá-lo a ele, coração, da poeira, das moscas e de outros lixos, como por exemplo a memória, essa mosca. O emprego de redes metálicas é permitido e, até, recomendado, pois que o coração é um pássaro de gaiola. É permitido o uso de copos falhados. De louças rachadas também é: a arqueologia é sinónima de cardiologia por alguma razão. A fácil deterioração dos géneros obriga a uma contenção frigorífica dos impulsos e dos bombardeamentos característicos da nostalgia, do luto e do amor.

Quanto mais hermético, melhor.



III. APRESENTAÇÕES
Viseu, tarde de 7 de Setembro de 2008

Rosa Maria, a nossa vizinha,
discreta viúva, talvez trinta anos:
é ela que passa passando a vidinha,
que o marido dela sulcou oceanos.

José, cara de galgo, barriga breve.
Camisola sujita de mostarda.
Um ar de cor no olhar leve.
Um andarilho antes que tudo arda.

De Cíntia o nordeste triste e frio.
O alterne que carambola de cona.
Mas na lembrança um pai e um rio.
E do rio a água, o pai à tona.

Ofélia remordendo malmequeres.
Restitutas volantes perdições.
Um credo só-te-dou-se-tu-me-deres.
Extintas rosas-bravas, carnações.

Francisco, curto e preto seu olhar.
Vigilância que doura o amargume.
Do risco de amar riscou ciúme,
Francisco, isco que se vê passar.

E Dália, que é mulher de popelina,
menina que ameaçou os casados,
há mais de quarenta que é menina,
quase quarenta e tais bem-mal passados.

E, dos créditos simples, o medo a cães,
que Juliana partilha com a filha,
reverte para lá de Guimarães
e de Cuba, que é país e que é ilha.

(Se nas associações recreativas houver sessões,
ficam, Mãe, feitas as apresentações.)



IV. FERIMENTO MORTAL DE POMBA E HOMENS
Viseu, manhã de 11 de Setembro de 2008

Também a manhã, que de um nasce, em um outro
crepúsculo morre.
De muitos crepúsculos é um dia feito, assim
uma vida de poucos dias é.

Guarda a pomba ferida o homem velho
que a descobriu aos pés da Sé.
Vela-a, nada podendo senão fazer por ela
vivê-la: velá-la.

Abrem a tarde comendo bacalhau outros
homens magníficos, de roupa iluminada
de escombros da cal: operários
que refazem a casa que foi de outros homens.

Outros homens entretanto feridos e não
guardados pelo da pomba, na manhã
terminal e terminada, como é usança
dos crepúsculos, um só, afinal.

"Editorial"

© Bill Brandt, Early Morning in Hyde Park


“Editorial”
Crónica nº 68 da Série Rosário Breve, in O Ribatejo – www.oribatejo.pt

Os jornais (nem todos, é certo) continuam com a toleima de publicar notícias. Alguns (poucos, é certo) até pesquisam os factos antes de os dar à luz (da publicidade). Que seita! Os jornalistas que assim procedem nunca hão-de chegar, sequer, a assessores de “comunicação” dum alarve qualquer guindado a capataz autárquico.
A minha opinião é que os jornais só deveriam ter opinião. Opinião e muitas fotos. Notícias, nunca. Quando muito, poderiam publicar “conteúdos”. Mas factos, é mau uso, péssima prática e pior costume. É, é.
Veja-se o caso dos assaltos às estações de abastecimento de combustíveis. Acontecer, acontecem: mas que é que isso interessa? Ao menos que, quando e se se noticiasse um assalto a umas bombas, que, em “caixa”, se dissesse também quanto é que tal gasolineira tem andado a roubar ao automobilista.
Outro caso: o dos desastres. Um furacãozito lá longe (Haiti, Cuba, Miami) até dá, por assim dizer, cabedal internacionalista à página. Dá, dá. Mas cá, não dá. Para acabar de vez com os incêndios, comece-se por molhar a caixa de fósforos do jornalista.
Inundações? Cá? Estás a regar. Violência doméstica? Então e elas também não batem na gente? Bairros étnico-sociais? É tudo hip-hop em flamenco-pimba.
Peço, pois, aos jornais que se deixem destas tretas que tornam feia a realidade. Nada de desastres (nem de viação, nem Manuela Ferreira Leite). A realidade é para ser teleguiada de Lisboa. De vez em quando, pelo Carnaval e pela Pascoela, respectivamente, podemos saber de Alberto João Jardim e de Rui Rio. Valentim Loureiro é que já é abusar. Fátima Felgueiras também, que é muito boa senhora, sobretudo quando estava no Brasil. O coiso de Marco de Canaveses também é giro, pode ser. E Mariza e Toy, que nos enchem de (g)orgulho o arroz cançonetacional.
A realidade pode ser feliz. A realidade pode ser feliz como uma criança pobre: desde que os jornais não refiram a existência de crianças pobres. As crianças pobres são boas mas é para reproduções de feira. Gosto sobretudo daquele menino a chorar, porque me dá ganas de rir. E os jornais deveriam ser para rir. Alguns já são. Nem todos, é certo.

11/09/2008

11 de setembro uma merda, digam 10

EM PORTUGUÊS, 11 DE SETEMBRO DIZ-SE 10 DE SETEMBRO
ou
MANIFESTO NACIONAL “SOCIALISTA”
ou
enumeração tecnológica para meninos-de-ouro


Viseu, fim da manhã de 11 de Setembro de 2008

1. – Manuel Ribeiro, 50 anos.
2. – Armindo Pereira, 53 anos.
3. – Augusto Barbosa, 57 anos.
4. – António Cortinhas, 51 anos.

1.1 – De Arcozelo.
2.1 – De Moreira de Lima.
3.1 – De Marco de Canaveses.
4.1 – De Larinho.

1.2 – Morto a 10 de Setembro de 2008.
2.2 – Morto a 10 de Setembro de 2008.
3.2 – Morto a 10 de Setembro de 2008.
4.2 – Morto a 10 de Setembro de 2008.

1.3 – De desabamento em pedreira sita em Arcozelo, Ponte de Lima.
2.3 – De desabamento em pedreira sita em Arcozelo, Ponte de Lima.
3.3 – De queda de retroescavadora em saneamento sito em Lazarim, Baião.
4.3 – De queda de cerca de três metros em construção de casa sita em Urros, Torre de Moncorvo.

1.4 – E de “socialismo”.
2.4 – E de “socialismo”.
3.4 – E de “socialismo”.
4.4 – E de “socialismo”.

10/09/2008

Faia tal que a vida durma

Viseu, tarde de 10 de Setembro de 2008



O brando outono nos queima já de vida o sono,
sobre a mesa do chão revoa o pão das folhas.
É antes do sono a vida feita de escolhas,
depois tão-só sono brando ao brando outono.

Escarlate ouropel tinge a subida faia,
perene é assim dela a caduca condição.
Tudo o que vivo sobe, morto cai ao chão:
o pão das folhas, ouro que desmaia.

Desmaio é não mais maio ser a vida,
que outubro a vigia de nascença.
Pessoa é quem pensou, não quem se pensa.
Aind’ assim ouro e sono – e faia enrubescida.

Além, urzes de áspera roupa emaranham
a doçura lenta dos animais de regresso.
Ao lume do lar, mulheres amanham
peixes e aves das idades do começo.

Nem chuva ainda – e sol já não.
Depois e antes – tudo durante.
É extinto o ínclito verão.
Ter-se-á – ou não – inverno à vante.

De nós mesmos mariposas, à luz que fenece
oramos tão-só nos salve-e-guarde
da fenecida vida que a morte não tarde:
mariposamos tão-só tal outonal prece.

Não maio mais. Mais que meio, o viver
outona canduras antes insuspeitas:
um expirar de sono, à hora a que deitas
aos pés de ou(tub)ro ouro ser.

Saudades do mar, ao cabo, como de uma pessoa enorme.
Lembrança, a mais fulva, ter sido para ser, noutra vida.
Sobe em ouro a vermelha faia enrubescida.
E adormecida (vivida), de sonoutono a vida dorme.

07/09/2008

LADO



Fotografia: DO OUTRO LADO, © Sandra Bernardo, Aveiro, 30 de Agosto de 2008
Texto: Viseu, tarde de 6 de Setembro de 2008


Era o que vai ser ainda: a vida quieta de repente.
O ar enquadrado de casas que sei (que ele sabe) vazias, em cujos dentros os móveis e os despojos continuam a emitir memória.

A praça primeira do périplo arde verde na estátua do Rei, que trepou a um pedestal a fazer de homem quieto – como a vida quieto.
Além, uma velha sentada em pedra tira lixo de um dente, seu antepenúltimo farpão.
Um homem de cadeira-de-rodas e um menino num carrinho: a similitude, a ininterrupta facsimilação.

Vê: um homem andou (andarei) pelas ruas despovoadas.
Conhece: é um homem do futuro
(pois que mais futuro pode ser que uma casa vazia?).

Tudo isto já foi.
As pessoas fogem como gases.
Ramalham para ninguém as árvores:
meia dúzia de pássaros, se tanto.

Viseu, um sábado pela tarde.
Uma volta de evanescente corpo.
Têxteis, encadernações, enchidos, loções pós-barba.
Gangas, letras, cartazes, tábuas.
Degraus, toalhas, santos, S. Paulo por todo o lado.
A noite aproxima-se.

E este rumor imanente à condição molar das coisas.
Este por assim dizer gemido das coisas.
Quanta beleza, sinceramente.

Uma senhora configura o Cavalo em andamento.
Outra atira um lençol à luz do primeiro andar.
Uma criança babuja solfejo trinado a solilóquio.
Um rapaz de óculos escuros vai de verde e azul.
Mas vazias estão as ruas e são as casas,
eu sei, ele.

Mas de uma criança os pés nus
são a substanciação da luz.

Isto será o rasto de um trabalho: um ter-vivido-depois.
Elas urdem, elas zunem, barafustam, calam:
as palavras.
E eles: os trabalhos.

E se este homem, uma vez na vida, pudesse convocar não digo os seus espelhos mas as máquinas que imaginam coisas como espelhos e homens.

Então, em vez de este apenas-sábado e de esta apenas-cidade, então todo um rodízio de imagens benignas: as crianças, a nudez luminotécnica dos pés das crianças, os têxteis diversos, as colchas, as toalhas, os lençóis, as mulheres à janela e as janelas exportando o vazio dos móveis que os mortos deixaram para ser retratos emissores.

Antes que tudo arda,
(d)enunciar o que a água fez.

E antes da noite, não muito antes mas antes, a hora a que os homens, quatro a quatro, entram nas casas-de-pasto e ordenam sardinhas fritas e jarros de vinho negro como a noite, mas antes dela.

Ou então permitir que a realidade entre em casa (o corpo) por aspectos de linguagem: conversar de açorda alentejana com reformados ao pé de uma floreira de ferro fundido; desconsiderar a escumalha norte-americana; sonhar sonos entre cedros, numa floresta rumorosa de beira-rio; conjugar um verbo inventado como precariar.

Tudo isto e o nosso (dele, dela) futuro, mescla prévia de passado com olvido e com memória: como móveis numa casa despovoada.

Viseu ou Oslo, no fundo iguais, uma parelha de centelhas de gelo, um riscar de ouro e rubis, os carros na noite anunciada, a anunciar logo, desde antes e para sempre.

Ou isto ou um homem a escrever na tarde que declina – como se declina(ra) um verbo, ou uma luz, ou uma progressiva escassez dela.

E se outro homem (outro ele) diz a este homem (outro eu) que não tem televisor porque não tem casa, porque é num quarto que mora, sessenta e não sei (não diz) quantos anos, então o homem (um qualquer dos dois) há-de olhar portadas que dão ao vento madeiras bandeirantes – e um trecho de rio lunando em solidão, própria e alheia e a mesma.

O trabalho é procurar a palavra que diga o mesmo à vida: qualquer vida, onde for. A palavra é o rasto (é o rosto, é o resto) do trabalho: a criança que começa pelos pés para ser luz.

Uma vez na vida, este homem não quer a fuga, mas o retorno. Não a evasão, mas o encontro. Nem sequer a autognose, mas a montra (têxteis, encadernações, enchidos, loções pós-barba).

Ou Nuremberga – ou Moimenta da Beira: algures os homens que esvaziam as ruas, que enchem de vazio as casas extintas, dando de bandeiras madeiras ao vento negro que cresce do mar de dentro – ou uma beira-rio brincando aos comboios e aos ciganos e aos reclamos luminosos que entontecem o olhar como miríades de diamantes pluviais.

E uma revoada de nomes sem corpo pauta o silêncio gentil: Horácio, Porfírio, Antunes, Cleto, Serafim; Maria, Luísa, Emília, Saraiva, Dolores.
E a cidade: imo de aldeias sem filhos, na cidade perdidos.

Décadas.
E o cimo do sino do sono do sonho do sim.
Somos? Fomos.

E se como aves outonais revoarem frases antigas,
o futuro todo se mexerá neste mesmo papel,
neste sábado mesmo. Haja dignidade, senhores,
porém: que a tristeza é digna, insigne até.

Também ninguém tem de falsear os signos:
eles são viver e morrer. E talvez nascer:
amanhã-antes (os pés de luz).

A evidência dos bebés, a dignidade dos animais (o Cavalo, o Cão, o Gato):
as facsimilações.

E esse tempo que o homem gastou a amar, relojoeiro de seus instantes dérmicos, suas mínimas atenções panificadoras, seu ter-sido-filho-agora-pai: ser um adulto dentro da criança
moritura,
Jesus.

Outras vidas, de tão anteriores, farão futuro:
a linha de corredores correndo gasolineiras;
os que tomaram tambores em manhãs armistícias;
a manhã de amanhã dos tocadores, dos ladrões.

Volta o canteiro de rosas no reverso,
experimenta fazê-lo: os cabogramas
de nossos pais-irmãos-filhos militares,
África, 1961-1974.
Volta a língua, corta as barbas grandes
(loções-pós-barba-marca-444).
Ouve Supertramp e Tony de Matos.
O homem que esvazia de simimesmo
uma mesma casa é homem: e é ar.

Num toque raro, os nomes cemitérios
são semi-sérios: rir metade é possível,
ante as ausendas, os borges, os almeidas,
as deolindas. Ou:

HORÁCIO; PORFÍRIO; ANTUNES; CLETO; SERAFIM;
MARIA; LUÍSA; EMÍLIA; SARAIVA; DOLORES.

Viseu, um sábado à tarde na noite de Oslo.
A grandiloquência do silêncio, os ramalhetes de secas papoilas.
Os retratos de Oslo, os dos que vão viver pós-mortos (como os nossos progenitores), nas casas vazio-viseias.
’tás a ver?

O toque do dia todo: uma pessoa ser só de si
própria e mesma e antes como depois, em bronze
como D. Duarte, o verde, o azul, o palavroso – e
idiomático: e estranho,
já agora,
iniciático de périplos e de pèzinhos de luminocrianças.

Tocam os sinos sua brônzea noite interior, a pátria não egrégia se igreja. Cai o veludo da noite em gaseadas veludações.
Quem tem homomulher a mulheromem beija.
Ele há labiações, ele há colhões.

Perdão!

Ele há homens sozinhos em ruas
vazias cheias de gente vazia.
E depois como antes o mesmo outro dia.

06/09/2008

DOIS POEMAS: VI DUAS ROSAS e DA TERRÍVEL INDÚSTRIA

I. VI DUAS ROSAS

Viseu, tarde de 30 de Agosto de 2008

(escrito para a D. Luci na primeira tarde do mundo sem ela)


Vi duas rosas sangrando a luz da tarde:
o sangue queima, a luz arde.

Eram duas rosas altas sobre verde na cinzura.
Tomámos café num sítio qualquer, na qualquer cidade
da nossa vida.

Em cem anos, fizeram muitas estradas, muitas casas:
e viveram e morreram e querem renascer.

Amontoam os carros, os sacos de compras, os pentes,
as unhas lacradas a verniz, as distracções.

Estou perante eles, sou como eles, que vós sois.
Frente a um prédio, duas rosas, uma pastelaria.

É verdade que continuamos almocreves, descalços
ao pó dos caminhos, gaseados na flandres em folha
do céu em cinza.

As novidades chegam velhas ao mercado,
vale-me a contemplação não cinegética da
grande beleza das mulheres, das rosas.



II. DA TERRÍVEL INDÚSTRIA

Viseu, tarde de 28 de Agosto de 2008

O que nos distingue
é sermos animais de coração bilingue:
falamos a vida e dizemos a morte.

E tudo está perfeitamente connosco
deste lado do rio.

Portamos certa graça morena,
certa negra graça lunar.

Varremos outonos que acabam de repente
cheios de água do país dos olhos.

Distingue-nos sim esta última saciedade ínfima:
este morrer tanto todo o dia para nascer um pouco

amanhã.

As varizes da varredora doméstica;
a grácil frivolidade do cabelo pintado dela;
a cozinheira esbranquiçada como uma galinha assustada;
o velho alcoólico atirando o aramaico da infância;
o jovem já calvo que vai a enterrar o pai;
a música interior das casas fechadas;
a nossa Mãe no cinema octogenário;
as nossas amadas árvores crivadas de pássaros e de indústrias labiais;
a seta de uma palavra certa no nosso coração;
o nosso Pai no nosso nome octogenário;
a terrível indústria que fabrica quartos fechados;
essas pessoas nesses quartos fechados;
a palavra morte ser tão viva;
as ancas das raparigas èguando as ruas;
nascemos um pouco amanhã, depois já não;
a coudelaria do anoitecer montada de fantasmas;
um peixe nadando nos sonhos;
o meu amor aferventado em leite-maria;
as ruas amarelas levando ao nenhures do pensamento;
as rosas também amarelas educando efemeridade ao ouro;
o nosso Pai tornando-se nosso irmão, depois nosso filho;
a nossa Mãe sozinha num quarto fechado;
e tudo connoscamente perfeito, deste lado do rio;
os padres que pelas ruas congregam as sombras;
uma ideia de Cristo na ânsia erótica;
a paz outonal que sucede ao desespero;
a ortografia portuguesa completa como um cristal;
o som dos sonos repercutindo cordas de bronze no coração;
e na cabeça e no estômago e no Camilo Castelo Branco;
a sardanisca que risca verde no muro solar, branco;
a nossa morena graça;
no relicário das noites, a jóia dourada das nossas cabeças;
as nossas mãos estrelando a terra;
nós aos pés do mar, fotografados agora;
o sangue feito voz escarlate (ou duas rosas lucilantes);
o chamamento dos mortos, surdino;
a memória desfazendo-se em água cor-de-terra;
a glória e a violência do amor alheio;
os pés das mulheres branqueando o chão;
o viço éreo das estátuas à chuva;
um homem de chapéu recusando o século;
uma merenda de fruta sob a latada;
o riso de uma senhora como um jorro de água;
a pulsação autofágica nas veias dos olhos;
o tempo de tirar as calças, a liquefacção das virilhas;
a palavra correcta que uma mão aberta é;
o restaurante afamado rondado de putas;
a doçura quase insuportável das partidas;
um barco denunciando a água;
o rio e o mar – e este lado de ambos;
este lado de ambos ser o coração;
o carácter vitríolo do Tempo;
a siderada condição sideral da incompreensão;
um arroz de frango comido a uma terça-feira;
a vocação elitista que faz fazer filhos;
um emprego deitado fora como um pedaço de pão;
uma colecção de versos capaz de leitor até aqui;
a sangria desatada de nós;
o poder autárquico cagando epigramas;
a boniteza perpétua de um painelazuldepaiazulejos;
uma casa branca como uma dentição amiga;
certos sábados à noite, em o antigamente ou 1981;
e as bilingues cor e acção.

05/09/2008

Telemóvel e crónica

Meus queridos e mui queridas amigas: estragou-se-me o telemóvel, pelo que tempos e águas correrão sob as pontes até que novo número me seja possível. Continuo, porém, disponível (e atento) em daniel.abrunheiro@gmail.com. Em jeito de compensação pelo vago incómodo, deixo-vos a crónica desta semana n'O Ribatejo do costume (http://www.oribatejo.pt/).
******
Rapidez em nome de Conceição

Falei com ela e ela disse-me que não, que hoje não, que hoje nunca e que nunca ela será hoje para mim jamais, eu sou Manuel Baptista, ela é Conceição Silva, para ela ela nunca se há-de ver como Conceição Baptista, enquanto eu eu até Manuel Silva, em nome de Conceição, palavra de honra. Está bem que trabalho na sapataria desde que deixei de ser fiel, isto é, de armazém, e ela é uma infiel de outros armazéns, ela é Conceição e eu sou Manuel e isto vamos ser sempre assim, Conceição ela, Manuel eu, baptistérias silvas e silvícolos baptismos à parte. As histórias de amor só são amorosas e históricas se tristes, e isto é uma tristeza para mim, que Manuel sou, não para ela, que é Conceição. Digo-vos isto à pressa por causa da brevidade da vida e por causa da brevidade que os directores de jornais impõem aos cronistas. Estou na sapataria e descalço senhoras, só que nenhuma delas é Conceição, enquanto eu continuo Manuel. Manuel e fiel, não de armazém embora. Até acabo de arrumar à pressa esta caixa de sapatos de pelica cromada a purpurina para que nas mãos, ante vós, me não sobre senão o coração: o coração ante o senão de Conceição. Como ela me foi, me não tendo vindo? Vo-lo digo: cabelo cor-de-trigo, tostadas espáduas de saliente ossatura, peitoril hirto e firme de pura morangura, bacia-baía de arenas promessas e, ainda, esse par de pernas que levitar a fazia, sendo depois Conceição de ter sido Maria.
Não. Não caso com ela, que ela disse-me não, mas eu falei com ela.

03/09/2008

Faduncho para N., V. e T.

Viseu, esplanada do Restaurante Colmeia,
manhã de 3 de Setembro de 2008


Quarta-feira, manhã nova.
Cedo saio a of’recer
pão do velho às pombas novas
que o gostam de comer.

Torno à praça sideral.
D. Duarte olha p’ra mim.
Ele foi rei de Portugal,
hoje nada, é mesmo assim.

Ruazitas levam gente
pobrezita pela calha.
É uma gente indigente
que vive do que trabalha.

A manhã nubla o sentir,
’inda o sol nos não tomou.
O passado está por vir
e o porvir nos não chegou.

Quero a flor da laranjeira
perfumando o teu olhar.
Pode ser a vida inteira,
desde que mui devagar.

São antigas como o mundo
as senhoras viuvinhas
que trocam ali ao fundo
as receitas e as mèzinhas.

Passa o rico par de mamas
de uma vaca vertical
que num alterne de damas
champanha a cento e tal.

Dou-te esta rosa pungente
como as rosas todas são.
Só que esta rosa é gente
por ser o meu coração.

Ó senhora dos aflitos
transidos de agonia,
ó minha lua de gritos,
ó meu silêncio de dia:

ensina-me a pintar,
desaprende-m’ o’ screver,
que o verso me faz calar
o que a tinta quer dizer.

Estás sozinha, Genciana?
E tu, Lurdes, estás também?
É a vida tal semana,
terça mal, domingo bem.

Subscreve o assinado,
assassinado almocreve,
e escreve e põe de lado
o fado que não se atreve

a ser fado e destino
à portuguesa maneira:
garganta não cordilheira,
sol no chão e lua a pino.

Ali na charcutaria
de mui galantes morcelas,
há senhoras todo o dia
sonhando coisas com elas.

Ladra um cãozito de louça,
voz de barro em chacota
(e que aqui ninguém nos ouça,
é um som de terracota).

Por credo e anestesia,
ele ’ind’ há quem creia em Deus.
Mas o Diabo vigia
todos os créus que faz seus.

Numa igreja aqui perto,
há lírios de plasticina.
Foi o padre (que é esperto)
quem dourou a purpurina.

Genuflecte a velha sonsa,
se estatela o beberrão.
Ela lava a mitra esconsa,
ele faz de sacristão.

(Mas, olha!, de sol um raio
vem ora solarizar.
Quanto iço, quanto caio,
nascer, viver, terminar.)

(Nascer, viver, terminar.)


X Estrofes para Aprender a Pintar

Molelos (I a IV), entardenoitecer de 2 de Setembro de 2008 e
Viseu (V a X), noite idem



I

Porque não sei pintar retratos, comprei espelhos. Às pessoas que me visitam, peço que fiquem quietas perante eles. É então que elas compreendem os seus mesmos fantasmas, que seriam os meus se os soubesse pintar.

II

Sim, a vida ainda me adeja como um vento de bandeiras. Ainda sou o madeiro que meus pais atiraram à praia antes de voltarem para o mar. Agora, confirmai-o comigo: contra o mar adejamos, a que voltaremos, ao vento.

III

É um cinzeiro amplo, de barro negro. Tem cinco bocas (dez lábios) para suporte dos cigarros. Pouso o cigarro numa (dois lábios) e fico a vê-lo ardendo sozinho. Quando não fumo, faço o mesmo ante a minha vida.

IV

Estou sentado sozinho nesta sala. As paredes são de pedra: bons muros: claros signos da eternidade escura. Há um móvel que guarda vidros e louças. Há um televisor desligado. E a minha mão deita tinta de sombra ao papel, que a tinta e mão recebe e transforma em vidro, louça e escuros signos não eternos.

V

Sempre gostei de ser tocado pela graça da tristeza em anoitecidos cafés de província. Palavra de honra que sim. É uma tristeza que, de imediato, reciclo em esta pouco secreta alegria da poesia.

VI

Os nossos mortos vivem a nossa vida. Podemos confirmá-lo na cortina que como uma pálpebra estremece à brisa que não há. A mesma coisa quando se nos interrompe a vigília e damos por nós especados perante uma chávena, uma tabuleta, um animal que passa e não vemos passar. E eles dentro de nós, mais do que nós vivos.

VII

Costumo parar na rua para ler as ementas expostas das casas-de-pasto. Parecem-me poemas, aquelas linhas que não chegam ao fim. (Até pus uma personagem de Terminação do Anjo a sentir que sim, que são poemas, as ementas. Uma pessoa pode não viver de coisas assim, mas para coisas assim. Eu vivo.)

VIII

Hoje, acordei extenuado por um sonho que envolvia a minha Mãe e o meu irmão Carlos. Tive de obrigar-me logo a pensar em coisas boas da vida. Digo-vos algumas na estrofe nº IX.

IX

Os romances de Henry James.
As mulheres quando se riem.
As mulheres quando nos perdoam.
Os romances de Henry James.

X

Agora vou para casa, tenho a mulher à espera. Uma mulher à espera é que é a casa, se a soubermos pintar.

02/09/2008

Bom Dia, Noite! - um poema para voz -

Viseu, manhã de 2 de Setembro de 2008



Bom dia, ó branco sol reiterador de matinas!
Bons dias, senhores! Bons dias, meninas!


Eu quero alcando(u)rar-me à luz grácil,
que vai escuro o tempo e a vida, frágil.

Também quero ter-te dest’arte em maneira
que me pertença ser-te eu e ser teu a vida inteira.

Bom dia, ó branco sol reiterador de matinas!
Bons dias, senhores! Bons dias, meninas!


De minha prístina retina retiro o olhar-te,
em cansada e doce e humana arte.

Do rosto das casas, um olhar de janelas
te vê branca ao sol mais bela das belas.

Bom dia, ó branco sol reiterador de matinas!
Bons dias, senhores! Bons dias, meninas!


Os fatigados pés da corredora gente
refazem a rua em rua diferente.

Se um bambino chora, tal cãozito vadio,
é o inverno em setembro, é a morte do estio.

Bom dia, ó branco sol reiterador de matinas!
Bons dias, senhores! Bons dias, meninas!


Toca-me. Não me deixes sem toque,
que um coração também usa o escroque.

Mamila-me. Não me desmames nunca,
que a vida é casa, não é espelunca.

Bom dia, ó branco sol reiterador de matinas!
Bons dias, senhores! Bons dias, meninas!

Olha, ainda há andorinhas:
reticências ao sol e tão pequeninas!

Mira, ’inda agora nasci:
e fui renascer sempre que morri.

Bom dia, ó branco sol reiterador de matinas!
Bons dias, senhores! Bons dias, meninas!


A terrena palavra do torrão natal
voa e reboa, telúrica, sideral.

Belezas arbóreas, marmóreas faces:
expostas a cru aos dias rapaces.

Bom dia, ó branco sol reiterador de matinas!
Bons dias, senhores! Bons dias, meninas!

Boa noite, argêntea lua dos fados comovidos!
Boas noites, senhoras, maila seus maridos!

Três Desejos - mais uma fotografia de Sandra Bernardo para o Povo



Três Desejos
© Sandra Bernardo.
Viseu, 31 de Agosto de 2008.
(clicar nesta e em todas as outras fotos da minha Senhora para ver à maneirex)

Cai, Sai, Vai

Viseu, entardenoitecer de 23 de Abril de 2008



Cai o dia, caem com ele as suaves palavras cansadas.
Ao perfil das igrejas assomam declinantes aves negras.
Um dia foi a morte, um dia será ela de novo, nada nos
contará nem importará, quando for, quando foi.
Subiu um pouco a temperatura, desceu a chuva um pouco.
Tenho um rosto para esconder no sono, para revelar na fala.
Não é importante, importam nada e nada contam os rostos.
Cai o dia.

Sai a noite a tomar dela as praças.
Sinto um rio correr: talvez o meu sangue.
Talvez o meu tempo caindo no chão como cartas
recebidas – ou de jogar – ou geográficas.
Crepusculam as aves derradeirando o dia.
São bonitas e inúteis, elas aves, como os nossos olhos.
Não é importante já a beleza, anoitece.
Cai a noite.

Vai a manhã, nem todos a reverão nem virão.
Ainda hoje o meu vizinho, o senhor Monteiro.
Estava a dar de comer à gata, vi pela janela a carreta.
A manhã roxa, a manhã corpo-presente, as velas.
Oitenta e sete anos, tudo pago. Era um senhor
nas minhas escadas, pedia desculpa por atrapalhar
o tráfego, a vida dos outros: como os poetas.
Vai a manhã.

Canzoada Assaltante