16/06/2009

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (7)

Fotografia: © Sandra Bernardo

Pombal, 12 de Março de 2009

7

Casa, Souto, 14 de Junho de 2009

Nós e a nossa circunstância – e o nosso domingo existencial, onde a pessoa é cada uma pessoa.

Voragem e revoada: movimentos da mente, gente metalizada nas vias rápidas, ingerindo café-esferovite nas estações de serviço, suportando o absurdo com cartão de crédito.

Um de nós toca a memória activa do social-realismo do dinamarquês Anders Bodelsen, as pessoas comuns (ordinárias, ordinariamente) assacadas pela banca, pela moléstia comercial dos centros-lantejoulas, as flores de plástico, as improváveis tunísias da classe-média.

Outro de nós sofre ainda a vida-vinda à vila dos circos pobres: gente escurecida, leões asmáticos, crianças cristalizadas de ranho, banca-barraca de refrigerantes em lata, farinha frita, o vento batendo bandeiras de lona no ar que vai chover.

O cinema indiano, os rios que mostram às pessoas como ser antes o que depois é: tempo de Tempo: curso, percurso, decurso e discurso, os novos modelos automóveis, a galáxia imperial Paris-Londres-Berlim-Milão, o cinema italiano, o teatro sueco, o inverno dinamarquês, a profusão deíctica da cabeça, a fronteira mexicana, a gente jovem garageando imitações eléctricas do lerdo império pós-1945, orfanatos e falanstérios, escolas de cegos, de condução, de tradução, de estenodactilografia, excel & powerpoint-of-no-return.

Todo um domingo em uma vida toda, tocando com a água dos olhos o labor monástico de Oliveira Martins santificando o Condestável Nun’Álvares – e Eça dizendo do amigo que

“vivia então na sua linda e recolhida casa das Águas-Férreas. (…) aí viveu Oliveira Martins os seus dias mais doces, e escreveu os seus livros mais fortes (…) sem descanso, sustentado a café (…)”.

Tempo. Alimento e veneno. Pousio e fecundação. Horas não contadas na seara mental, em leitura ou em distracção, sabendo os ventos penteando as províncias, a pátria das coisas até onde o idioma é capaz, as crianças fulgurando nos quintais-estádios, a clivagem coragem-temor, nós vivos, sonhar serpentes brancas como leite, contraste dos cálculos diamantinos em frio veludo sideral, mais a doçura tremenda dos crepúsculos de Junho, festinhas de aniversário infante com champanhe a fingir.

Alguns de nós aceitam – e embarcam em – as intermitências narrativas, nutrindo de aparente inverosimilhança diegética o volume prosaico. É apenas poesia, porém – isto tudo –, portanto coisa real também, como tudo o que é, há, não é e não há. Nós ardemos brandamente Em-Ser. As antigas metáforas servem-nos preciosamente: Sono/Morte, Rio/Tempo. O planeta rebenta um dia – e nenhuma possibilidade de termos sido será. Descanso, portanto, portanto serenidade.

O domingo mobila-se de gatos, sedas vivas que andam a quatro numa elegância toda têxtil, felinas cortinas de mansidão dominical.

Por exemplo: rapazes ao lado da porta da Farmácia Donato, conversando sem pressa à doçura do entardecer. Derredor, o comércio costura as existências, a menina que se abastece de lápis na papelaria, o moço que sente vinilmente os greitastites da rádio na loja de discos (Supertramp, The Eagles, Fleetwood Mac, Creedence Clearwater Revival, The Tubes, April Wine, Rory Gallagher, Peter Frampton, Frank Zappa, Peter Tosh, The Yardbirds, Procol Harum e Alberto Ribeiro), as senhoras deliciadas a chá e biscoitos de canela na Central, as empadas como frutos ígneos, o senhor caixa bancário muito limpo, de gravata verdescura, de uma correcção gestual que chia como papel, o homem do quiosque separando facturas, o da Casa da Sorte fumando à porta a pensar no casamento da filha, o padre carrancudo que passa migueltorgamente entre autocarros, a Rua Corpo de Deus subindo humidades de bacalhau com grão-de-bico, o senhor Peres ourives ouvindo o noticiário desportivo do transístor a pilhas azuis, um dos rapazes da Donato dentro do meu coração, inquilino perpétuo.

Noite. Televisão. New South Wales, Austrália. Início da década de 70/XX. Baker, empregado temporário de quintas agrícolas, ex-recluso. Crump, comparsa de prisão, colega de trabalho e crime. Estrada de Narrabri. Um rifle. Simulação de avaria mecânica. Ian James Lamb dormindo à beira da estrada numa carrinha. O detective Barry Fay recorda-se de Lamb. Lamb é imolado a tiro, involuntário justificador do nome-anho. Bald Hill Road, abandono do veículo de Lamb. 1973, Melbourne, corridas de cavalos. Dinheiro para apostas? Vinte dólares roubados a Ian Lamb. Virginia Gay Hokke, Collarenebri, Morse por casamento, 35 anos de idade. Brian Morse. Noivos. Cônjuges. Ginny tinha 20 anos. Brian recorda-a. Casamento em fins de 1959. Collarenabri, Nova Gales do Sul: casa própria. Hoje abandonada. Então, casa de família. Brian e Virginia, três filhos: Eloise, Adrian e Robbie. Vivem em paz. Os anos passam. Allan Baker faz lista de quintas a assaltar. Rio Barwon, perto. Tinha havido tempestades. Brian não vai para os campos, leva as crianças para a escola, vai tratar de assuntos à cidade próxima, Moree. Os dois assaltantes penetram a propriedade. Tomam a senhora por refém. Também roubam três espingardas que havia em casa. Horas lancinantes para a senhora Morse. O primeiro nome de Crump é Kevin. O segundo é Garry. Rumo a Queensland. Virginia vai vendada. Implora a libertação. Crump guia, controla a quilometragem. Estão a 300 km de Barnarway. Param. Atam Virginia no mato. Cordas, pernas atadas a árvores. Violação por turnos. Quatro dias passaram sobre o assassínio de Lamb. Cadáver e carrinha continuam por descobrir à beira da estrada de Narrabri. Gourley, um trabalhador, descobre o corpo. Alerta a polícia. O detective Bull acorre ao local. Não há impressões digitais dos autores nem documentos para identificar a vítima. Noite à beira de uma estrada secundária. Bob Bradbury, superintendente de Sydney, é chamado. O senhor Morse telefona de Moree para casa. O pequeno Adrian diz-lhe que a mãe está ausente. Brian dá por falta das armas em casa, quando regressa. Começa a entrar em pânico. Rapto é evidente. Margem do Rio Weir. Os criminosos tiram a senhora Morse do carro. Repete-se a dupla violação. Decidem matá-la. Baker hesita. Crump dispara. Ou éao contrário? Atingida no rosto. Atiram-na para o rio. Queimam as roupas dela. Regressam ao acampamento em Bogorvilla. Intensas buscas por Virginia. Crianças do casal levadas para casa de vizinhos. Muita polícia, helicópteros até. Alan Doyle é um dos investigadores em acção. Muita gente a ajudar. A rádio colabora. A fotografia da senhora aparece nos jornais. Bruce Johnston, outro investigador em campo. O cadastro do ex-recluso Allan Baker vem à tona. Crump e Baker trabalham para disfarçar. Mas voltam a tentar roubar. Assalto corre mal. Polícia persegue-os. Perto de Maitland, a 160 km/h. disparam em andamento contra a viatura policial conduzida por Bill Millward. O agente é atingido, bala sai perto da têmpora esquerda. Sobrevive. Mais carros da polícia até Woodville. Tiroteio. Os criminosos ocultam-se para lá de salgueiros fluviais. Debaixo de água, respiram por juncos. São finalmente capturados. O canal faz intervalo para publicidade. Novembro de 1973. Tempo. História. A polícia verifica as armas apreendidas. Uma delas é uma 22. Steve Liebmann narra a história. Polícias seguidos por jornalista, vão até ao local do Rio Weir onde terminara a senhora Morse. Percepção do sofrimento suportado pela vítima. Perturbação dos agricultores: mulheres e filhos costumavam ficar sozinhos em casa, ninguém sentia necessidade de trancar a porta. Collarenebri: serviço fúnebre, centenas de pessoas reunidas para última homenagem. Junho de 1975, o juiz castiga. Chama-lhes “animais obscenos”. Prisão perpétua. Recomendação de clemência futura nenhuma: “Never to be released.” Prisão de alta segurança de Long Bay, subúrbios e Malabar, Sydney. Anos passam, recursos acumulam-se. O governo de Bob Carr assegura legislação anti-libertações controversas. Animais estigmatizados. O viúvo sente-se reconfortado por saber que os algozes não poderão ser libertados. Não? Celebrar com dignidade a memória de Ginny. The End.

Mariposas: Sylvia Plath e Carson McCullers.

A data do hattrick de Rodney Marsh, aquando no Queens Park Rangers, contra o Birmingham City: 17 de Outubro de 1970. curiosidade: o guarda-redes do City, Mike Kelly, tinha alinhado pelo QPR entre 1966 e 1970, precisamente. E mais: o dia em que Marsh lhe marcou três golos era a véspera do seu 29º aniversário. Um senhor chamado Robbie Fields diz-me que Kelly casou mais tarde com a viúva do defesa-direito Dave Clement (1948-1982).

E – tanto tempo antes – Aljubarrota e Valverde, Frei Nuno de Santa Maria, hóquei-em-patins, corregedor de Santarém, um rapaz galês do mundo da canção chamado Tom Jones como aquele romance de Henry Fielding (que morreu em Lisboa a 8 de Outubro de 1754, um ano antes do Grande Terramoto), carreiras reinventadas, Van Helsing em Paris na dobra do século, mais coisa menos coisa, Sylvia em Londres, Carson ao impiedoso sol de uma main-street qualquer do Sul, a Kidman descalça pela casa de chão de madeira, fogo escuro na noite branca, ilusão pentagonal de uma estrela tida na infância por companhia, ler Drieu la Rochelle, ler Joaquim Paço d’Arcos, merecer o pão mental do sono.

Não tenho, claramente não tenho, quaisquer ilusões. Estou veterano, não sou feliz nem infeliz nem créu. Resgato datas e nomes do Rio: crimes, mas também bondades; selos, mas epístolas também. Recentemente, aliás, redescobri correspondências muito antigas. São cartas que me não eram dirigidas. Encontrei-as em móveis envelhecidos a cujas gavetas a infância não volverá. Lê-las-ei nos dias de Junho, na casa quase despovoada, em algum café de província dotado de abandono e sossego. Há uma magia nisso, sinto-a já por antecipação: ler palavras que não eram para nós escritas por alguém que não éramos nem fomos. Encanto melancólico dessa literatura ínfima e íntima, humildade e melancolia casam bem. Eu sou um de nós – e um de nós quer em mim ser uma espécie de arquivo municipal, um baú de couro onde cartas, crónicas, datas do futebol e dos crimes australianos, escritos de parede, de sentinas públicas, de prospectos, de posologia fármaca, de versos até. Varandas a dar para a vida, é isso. Bosques alinhados como pentes de balas, jogo claro-escuro do horizonte, serras a que desceu a constelação pobríssima do casario, Portugal través tudo isto por nossa condição. Desejo esta partilha – pátria universal, se bem que sozinha, de vozes, um pouco muito pouco antes de amanhã e de ontem, infinitesimal ontem.

Um homem chamado Trent, um chamado Queen, um Bentley, um Salgueiro, um Navarro. Os ofícios como grafias activas. O carpinteiro Miguel é entendido em alumínios e música. O filatelista Kaye trabalhou sempre nos Correios. Lautréamont é dos tais que mais são citados que lidos. Supervielle merece ser retrazido a lume: foi um poeta importante. A família Claro dava-se à panificação. O senhor Sacramento era madrugador, cinco e treze da manhã levantava-se ao canto do galo. O filho adolescente de Travolta morreu a um 2 de Janeiro, dizem. Jeremy Brett combateu corajosamente a viuvez e a depressão maníaca: luta, luta e lítio. “Trazer o Herculano ao peito” (recorda Oliveira Martins) foi moda no Chiado de Oitocentos e tal. O Convento do Carmo foi de difícil alvenaria. Uma sensibilidade por assim dizer radiológica à poesia do mundo. A cofragem é uma tessitura. A Hogarth Press, também. Um de nós deita-se comigo nos meus olhos, quando a noite afaga de flanela os pés. A posteridade não foi boa para Neville Chamberlain. Sabóia, Lorena, Alsácia, Floresta Negra, Ardenas, Dachau. E o golpe contra a fábrica de água-pesada na Noruega. Redes e redes de agentes, capítulos gélidos, casamentos desfeitos, cigarros sem filtro, Montgomery & Rommel, belas casas de madeira desenhadas no ar com quartos arrendados a viúvas de gajos da Marinha e a filatelistas celibatários aposentados dos Correios.

Bill Evans em 1964: a natureza armilar, por assim dizer armilar, da música fluindo matadora de toda a ânsia. Leve dança, por baixo, das cortinas da sala, que a respiração da casa quer tremular com silenciosa graça. Lembrança do Reduto Bar, do Café Combinado, da Casa de Pasto O Submarino, da Churrasqueira do Mondego – este corpo com menos vinte e cinco anos, o cetim das manhãs justafluviais, o público vigorando a cidade, polícias, pombos e estátuas, professores, caixeiros e cauteleiros, tremoceiras, ourives e velhos. Corpo cidadão, jovem, franco, perturbado já pela evidência descomunal da linguagem, da alvenaria eclesial, das lojas de panos coloridos, das putas à porta da torrefacção de café, ao Paço do Conde. O Nemésio de fins de 20/XX comendo o seu meio-bife no Café Santa Cruz, longe ainda do húmus último de Santo António dos Olivais. A correcção cavalheiresca de Bill Evans: por assim dizer, à Ribeirinho.

Bill Evans Trio - My Foolish Heart ('64)

Bill Evans,Chuck Israels,Larry Bunker
Stockholm,TV Broadcast,September 2,1964

15/06/2009

Ella - treze anos depois e sempre




Recorda-me voz amiga
(http://barcosflores.blogspot.com/)
que Ella nasceu em 1918 e que faleceu neste dia, 15 de Junho, de 1996.
Ei-la, viva.

14/06/2009

Festa é Festa - Depeche Mode ao vivo em Budapeste (21 de Março de 2006)



Words like violence
Break the silence
Come crashing in
Into my little world
Painful to me
Pierce right through me
Can't you understand
Oh my little girl

All I ever wanted
All I ever needed
Is here in my arms
Words are very unnecessary
They can only do harm

Vows are spoken
To be broken
Feelings are intense
Words are trivial
Pleasures remain
So does the pain
Words are meaningless
And forgettable

Enjoy the silence

Bob Dylan pintor


Shades of a Van Gogh Man on a Bridge

© Bob Dylan



O homem também pinta. Esta e outras telas em http://www.bibliotecaignoria.blogspot.com/

13/06/2009

Ide ler "Apologético", ide


As fabulosas Pauline Collins e Jean Marsh num episódio fabuloso de Upstairs Downstairs - ligação à primeira parte de "The Mistress and the Maids"


La Reine Morte


La Reine Morte
(Inês de Castro)
© Lídia Martinez

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (6)

Página do misterioso Manuscrito Voynich

6

10 e 11 de Junho de 2009

A nossa gente é proprietária da nossa vida, a que pertencemos.
Também pertencemos aos clarões ilusórios do conhecimento.
Andrew P. Buchanan, o falso anjo deveras armado, o assassino de um “ídolo da comunidade gay”, um tal Gianni Versace: um clarão, dois tiros na cabeça, uma ilusão: do outro lado do mar, em infâmia e em ultraje.
Terminal do Aeroporto de Logan.
Plaza. Normandy Plaza Hotel.
Revistas de moda, ganchos de cabelo, copos de esferovite com café.
Mil informações por dia, todos os dias.
Fernando Carriero.
Collins Avenue & 53rd Street.
Verão de 1997.
Mil informações.
Entretanto, amamos em serenidade os valores não flutuantes.
Presunção, egoísmo, gratidão & gratificação, monismo e demonismo.
Clarões psicadélicos, gente nada especial na base de escaladas de terror, a solidão ante-televisiva dos longos domingos, a acumulação de dados, Robert Plant & Alison Krauss na brincadeira, James Patrick P. em 1957 na BBC 1 a dar-lhe no skiffle, corredores sem fim, sons como tubos de luz aprofundando céus interiores, a pré-história nazi da Puma e da Adidas, a cerveja preta içada ao desespero irlandês do pleno desemprego, os muitos iscariotes do Eire e do Ulster, o Lago Michigan em 1875, 27 de Novembro de 1875, Ben Helton é amigo de Rod Stewart, o escocês feliz, Penny Lancaster também é nome de gente, Creem é nome de revista e a Creem compensa, ao longo dos domingos há poucos quiosques abertos para magazines, chocolates, cigarros Dunhill e selos temáticos, a lua amarela ardendo fria no céu numismático, Roderick David.
Atitude íntima, pensamento cursivo, o suporte da pessoa dentro da pessoa do eu, a espiral, Jeff Beck, a disciplina antónima dos The Faces, a curtição química das sensações ao sol que se recorda vermelhamente nas pálpebras, um gorro de lã azul-escuro, camisa estampada de leopardo, Ron & Rod, P. & P., fonogramas emocionais balindo no escuro das manhãs escuras, palmeiras acústicas sofisticando a solidão universal do telespectador, as avenidas passeadas por ex-mulheres de ex-homens em ex-domingos, George Young, Kenny Dalglish, Ian Rush, Alice Cooper, Carlos Malheiro Dias, Maria Amália Vaz de Carvalho.
Coices da hipergrafia na serenidade, por felicidade. Devastação mirada de quadros-janelas, velocípede enciclopedista cumulando de ped-al-egrias o curso da solidão multitudinária, Cozy Powell seguríssimo, profissionalíssimo, sangue na estrada, como se chamava aquele programa de antigamente, quando o mundo mágico era a preto-e-branco como de facto o real é, que raio acontece aos bateristas, Cozy Powell, John Bonham, Keith Moon, raio, bolsas de retorno muito ideográficas, Phil Ramone & Ray Halee, nas ínsuas as almácegas, as palavras adoçadas pela paciência monástica, tão humana, do leitor.
Resgata-se do papel o filão de cristal de que manam sem mútua segregação os mortos e os vivos, esperam-nos, os papéis da casa em casa nos esperam, coisas europeias acontecem na solidão mundial que eles celebram fabulosamente, os papéis, Stanley Matthews, Vogts, Hoeness, Krol, Kaiser, Jongbloed, Osvaldo César Ardiles, Cuellar, Altobelli, Arconada, Riva. Só italianos nº 1? Buffon, Pagliuca, Zenga, Zoff, Toldo, Tacconi, Peruzzi. Só alemães nº 1? Tilkowski, Turek, Maier, Schumacher, Ilgner, Köpke, Lehmann.
E então 12 de Maio de 1979, Gunners vs. Red Devils, 3-2, em Wembley, claro. Cinco, seis, sete: 5 de Julho de 1982, 6 de Novembro de 1982, 7 de Junho de 1970. Julho/82, em Barcelona, o dia de São Paolo Rossi – Itália, 3 – Brasil, 2. Novembro/82, o dia de Santo Ian Rush, quatro tentos no Everton, 0 – Liverpool, 5. Junho/70, aquela defesa do Gordon Banks no Brasil, 1 – Inglaterra, 0, em Guadalajara.
Havia e deixou de haver Tommy Bolin, ai Tommy, 25 anos é lá idade para morrer!? Mais te valera ter sido Marc Allégret, antes e pós-André Gide, sim. Cuidado com a heroamorfina, menino e menina. Uma paciência assertiva, a de Bernard Pingaud ante e pós- Leonid Leonov, certo? Sim. Assim graficamente “os que melhor têm compreendido Roma”, que David Mourão-Ferreira fixava em 1968: Chateaubriand, Valéry Larbaud, Coventry Patmore, Alexis Curvers. Ai as lápides, os nomes-lápi(de)s, os nomes-datas! David onde morreu Keats (Piazza di Spagna). Um português decentemente italianizado em vilegiatura, há quatro décadas, nosso tempo de ninguém. David circunscrito ao quadrilátero encantador: Piazza del Popolo, Piazza Venezia, Stazione di Termini, Porta Pinciana. E o menino James Patrick Page, uma década antes, dizendo-se futuro investigador de biologia para descobrir a cura do cancro: isto aconteceu na Humana Idade. Um português leitor de jornais que abrisse, a 8 de Junho de 1967, o Diário Popular, teria João Palma-Ferreira, outro viajante (e grande tradutor de Joyce para português de Portugal), a propósito do Mourão-Ferreira-ensaísta. Este amarelecer de papel, Pieyre de Mandiargues & Julien Gracq (aliás Louis Poirier, 1910-2007) referidos na grega Xylocastron a uma francesinha de Poitiers, gentil lésbica talvez. Mais o definitivo senhor Erich Kästner, que brindou as crianças do futuro pretérito com Emil Tischbein – Emílio e os Detectives, do encanto de David M.-F. em pequeno, sem esquecer as ilustrações de Walter Trier. E a (con)sagrada Montanha-Alma em Heidelberga? Heilingenberg, nome que David fixou depois dos celtas adoradores de Visucius, dos germanos de Odin, dos romanos de Mercúrio e dos monges cristãos do século IX:


“Guarda sempre Ítaca no teu pensamento,
Aí será o teu último encontro”,

Cavafy, pois claro: aos anos que este homem nos oraculiza a todos, mesmo os que o não sabemos. O mesmo David, feliz autor disto dito a si-ele-eu mesmos:


“Apesar de tudo saíste de Micenas com um peso de pedras no coração.”


E não ver senão em palavras nossas o mármore branco de Carrara dando corpo à escultura de Stefano Galleti (1882-1905) que uma senhora inglesa, feliz de o governo de San Marino a ter feito Duchessa di Acquaviva, doou do seu dinheiro à Piazza della Libertà, em 1876. A senhora chamava-se Otilia Heyroth Wagner – alguém que foi, como David foi, como nós e os nossos teremos sido, Marsh de Rodney e de Jean.
Na tarde solar da aldeia portuguesa, a passarada timbra açúcares de música. Quase nenhuma brisa. Em torno, existe-se. Muito se visita sem sair de casa. Xavier de Maistre e Almeida Garrett. Não passaria a branco-de-Carrara o granítico Djugashvili, vulgo Estaline, mas acederia a fixar em tanta tonta tinta permanente um tal quinteto, não de jazz nem de hóquei-em-patins: Cambridge Five, a saber: Donald MacLean, Guy Burgess, Anthony Blunt, John Cairness e, claro, Kim Philby. David Cornwell veio do frio para que soubéssemos mais, para que mais profundamente adentrássemos a Desumana Idade, que todos temos, no Tempo.
No Tempo, velhas-glórias como as do Queens Park Rangers: os aríetes Don Givens, Les Ferdinand, Clive Allen, Nigel Quashie, Andy Sinton, Jamie Tollock, John Byrne, Ray Wilkins, Trevor Sinclair, Roy Wegerle, Gareth Ainsworth, Gavin Peacock, Trevor Francis, David Bardsley e o hattricker Rodney Marsh contra o Birmingham City em data por apurar.
Mais modéstia a nossa, no Restelo, com a defesa alinhando Sambinha, Quaresma, Isidro, Freitas e Pietra. Lá à frente, o paraguaio González dos 4-2 ao Benfica. Juvenal, o poeta do I século cristão-romano. Juvenal, o da CUF. Hipergrafia não é problema, pareidolia também não. Aplica-se-lhes a Lei de Zipf – e está feito. Não esquecer Paul Gavarni nem Honoré Daumier. Nem Madame Tallien sem nada por baixo da túnica, se houver guerra que seja púbica, púnica – e única. Rilke, algures:


“Quanto mais longe vamos, mais pessoal, mais única se torna a vida.”


Sim, nós de todos e a de nós todos.

10/06/2009

Como hoje é o DIA da tRAÇA, aqui vai crónica da semana

Alverca! Alverca! Alverca!

Este País não bate bem da bola: então o Sócrates leva uma goleada de todos os adversários na Taça Europa – e o Quique Flores é que é mandado embora?
Vamos ver, enfim, o que acontece no resto do tempo regulamentar. Ou, como rotundamente diria o imperdível Gabriel Alves, vamos ver o que se nos reserva “a nível dos dois últimos terços de terreno”, os quais, terços, são os campeonatos distritais (autárquicas) e Liga (legislativas) que aí vêm.
Da jornada de 7 de Junho último, ficou claro que o Louçã é uma espécie de Mourinho: pegou no Chelsea/PSR e no Inter de Milão/UDP e já passou na tabela o CSKA de Moscovo do PCP. Por outro lado, Nuno Melo revelou-se um ponta-direita à antiga portuguesa – e isto apesar de Paulo Portas não ir muito em futebóis com a realidade.
Rangel matraquilhou bem, evitando que Manuela fosse para o banco, onde inevitavelmente teria de assistir sentada a Dias Loureiro (banco, etc..).
O ex-CSKA Vital, relegado para o Anderlecht de Bruxelas praticamente sozinho, é que vai ter de descalçar a bota. Resta-lhe sempre o dever patriótico de, pontapé-prà-frente, negociar o Jardim da Madeira para o Shaktar Donetsk, até por ser longe.
Agora, porreiro-pá era trocar o Durão Barroso pelo Michel Platini na comichão europeia. E, aproveitando a embalagem, mandar o Berlusconi vestir-se de vez em quando, nem que fosse só com a camisola do Paolo Maldini.
Entretanto, há que continuar a forçar a descida de escalão do IRS, do PS, do Boavista do filho Loureiro e do Gondomar do pai idem. Para a “liguilha”, como se dizia antigamente, grande expectativa físico-táctica, como diz o queridão do Gabriel Alves, quanto ao desfecho do Felgueiras-Marco de Canaveses e do Fátima-Lopes. Almada-Negreiros e Toulouse-Lautrec são empates garantidos, como se sabe.
Falta tão-só, em período de “compensação de amortizações”, como diz a rapaziada dos relatos da Renascença quando quer dizer “descontos”, subir o Luís Filipe Vieira à Presidência da República. Da República ou outra vez do Alverca, dá no mesmo.

09/06/2009

John Le Carré - primeira parte de uma excelentíssima entrevista

Resistir pela Beleza



O nosso tempo não presta - mas é o único que nos é dado viver.
Resistir às atrocidades da canalha plutocrática, ignorante, escumalhante - como?
Com a Beleza, pela Beleza, em Beleza.
Keith Jarrett é um exemplo muito útil - e disponível.
Ei-lo no La Scala.

08/06/2009

Festa é Festa



Uma Festa: 6 de Abril de 1974 (DEEP PURPLE no Ontario Speedway, Los Angeles).

Senhores:
Ian Paice (dr)
Jon Lord (key)
Ritchie Blackmore (g)
Glenn Hughes (b e voc)
David Coverdale (lead voc)

Händel: Delirio amoroso, HWV 99 - 4/5 - Dessay, Haim - música de sempre contra a bandalheira do nosso tempo

http://www.youtube.com/watch?v=hL3RUjtvM34

06/06/2009

Sporting Life





Casa, Souto, 6 de Junho de 2009


I

Homens de chapéu e casaco alto como corvos da manhã
perfilam-se, gruas negras, ao longo do cais marítimo.
Fluviais são suas anónimas mulheres esperando-os sós,
ocupadas na cozedura dos caldos entre louças florais.

Bate o tempo maninho mordeduras de água fria,
barcos cervicais sulcam os corvos verticais, os homens
esperados pela solução final ao longo do cais,
pela encosta poente fulgem casebres finais.

Animais confirmam a natureza resfriada do tempo,
portadores de uma ciência primeva, monárquica,
pluvial travessia desliga cidades uma a uma
nas infâncias desportivas estiolando dos bairros industriais.

Manuscritos domésticos arrecadam gavetas iguais
à vida, iguais a termos sido: papéis como peles
fragmentadas, recados de comida no fogão, telefonemas
grilando em vão nas escadas das escalas siderais.

Guisados, coelhos de capoeira, vinho de cozinha,
retratos esfumados dos avoengos na parede da sala,
ao lado a telefonia sintonizada em Berlim-Londres-Praga-Paris,
sais para o irmão-soldado rumo à Guiné de frutos minerais.

Pela boca a podridão herbária das dentições,
quanta dignidade triste a dos homens-corvos,
seus sábados ingleses batendo nas rochas em silêncio,
seus luares a preto-e-branco-e-índigo por Deus, choupais.



II

Um deles é o homem dos lavabos do Casino.
Está ali uniformizado, fornece toalhas e papel.
Recebe moedas, que leva para casa todas.
Doze anos nisto, trinta e seis, para sempre.
Fora do Casino, os filhos ramificam filhos, problemas.
A mulher não falha um caldo, uma rosa, uma faiança.
No Café Paraíso, famílias de fora e café-com-leite.
Vem o tempo dos retornados, passa a inocência.
Voltam da Guiné os soldados.
Ainda há vespertinos.
Os materiais de papelaria cheiram.
Cones de baunilha, morango ou chocolate.
Homens emulam James Bond no entardecer do Casino.
O mar sufraga a colectividade.
Hemingway e Jacqueline Susan, ainda não há pizzarias.
Patilhas e suíças e bigodes do formato de agrafes.
Terilene e popelina, creme-nívea, castelo-do-engenheiro-silva.

Viaja, menino, não olhes para trás nem para a frente.



III

O fumo de pensar sobe gardénias e lapelas, torna-se nuvem.
Georgette está em silêncio pensando uma revista.
René transparece no vértice da sala, incandesce.
Na praça, a banda militar torra ao frio solar.

Isto dá para ser tudo sonhado: todos os homens
como nós, no tempo, refeições domésticas, gelados
para as crianças, círculo-de-leitores e fotogramas,
uma toalha, uma readers-digest, uma moeda, um corvo, uma manhã.



IV

Dele dirão

Teve os seus dias.

Dele calarão as noites.

Também não há muito a dizer de uma vida desportiva,
embora mereça referência a espectadora indignada que subiu
ao palco para esbofetear o actor Kenneth Haigh por causa do
Jimmy Porter de Look Back in Anger,
tem dias.

Vê-se fotografias de ilhas ao sol, mentais.
Ouve-se falar disto e daquilo.
Experimenta-se uma receita que pode ser de cozinha
como de farmácia.
Carros usados, facturas dos óculos, da luz.
Programas de sábado de manhã: tartarugas, pinguins,
cientistas de caqui, esperança no futuro, néon e lenha.

Dele terão dito

Manteve-se nisto dias e dias

e é justo que sim.

Florilégios de cultura geral, Memphis-Tennessee(-Williams),
Muralha-da-China, Darfur, Neurociência, os Bórgia,
o Ramadão e a Quaresma, a Bomba H, Fernando Namora
e Roger Caillois.

Muitas caixas de papelão o guardarão:
pareidolia e Manuscrito Voynich:
entropia e algoritmo:
resistir, guardar florinhas de tinteiro,
a vida é interessante.

Ele acha que

Sim.



V

Todos os homens são James Bond quando fazem a barba,
algumas mulheres também – mas menos.
Uma coisa que entretanto desapareceu: escrever para lá
uma carta.
Agora o que há muito é poemários d’internet
e assim.
Um homem tem de ser o seu mesmo Dr. Não.
Nem que escreva, tem.



VI

It’s a sporting life se a gente pensar nisso um bocadinho
– diz a senhora das couves à mulher do farmacêutico.
Um rapaz de chapéu quadrado colecciona selos ao serão.
O olhar dos gatos fende a parede maciça da luz.
Árvores fotogramáticas farpam o papel-de-cenário crepuscular.
Homens separados jamaicam martinis cabisbaixos.
No quiosque, a beleza do expositor de lápis, borrachas, afiadeiras.
O perfume sofisticado das revistas e dos brinquedos do Bazar-do-Porto.
Do Nebraska ao Montana num Taunus, refeições de café e feijão
como as dO Fugitivo.
Lombos de peixe azuis na água muito verde.
Ouvir falar disto e daquilo, entrar na onda, ser litoral.
Dar-se a brumas matinais, a catalogar raposas eidéticas, corvos
adultos.
Sendo menino, assistir ao regresso do operariado no inverno,
anoitecendo.
Ser uma criança atenta pessoa adentro.
Ser sempre isso para sempre
como o homem dos lavabos do Casino.





Biblioteca Digital Mundial

Aqui

Casa-Museu Magritte em Bruxelas (e na net)



05/06/2009

Crónicas para dizer que NÃO! à corja

1. Um Não! muito branquinho

In O Ribatejo – www.oribatejo.pt



Corria o ano de 1957. Em Inglaterra, saía a lume um livro chamado “Declaration”. A obra era composta por oito depoimentos de outros tantos jovens autores britânicos então na berra. Querendo-o ou não, ficaram para a História como os “Angry Young Men”, qualquer coisa como os “Jovens Coléricos” (ou “Irados”, “Chateados”, “Danados” etc..)
Tenho andado a ler a tradução portuguesa desse volume, que foi feita por Artur Portela Filho e publicada pela Editorial Presença em 1963. Estou a gostar. Esta tarde, estava, para vos ser ainda mais franco que de costume, um bocado à rasca para fazer a crónica. Pensava nisto, pensava naquilo – e nada de jeito me corria, nem ocorria, nem escorria. Nada. Até que eis senão quando me deparo com uma passagem de John Wain (1925-1994) no tal livrinho. Esta aqui:
“Creio que temos de ter coragem suficiente para caminhar para a frente passo a passo; e isso significa ter a coragem de dizer Não! aos nossos imbecis, por muita influência e importância que tenham”.
Fiquei com o meu problema resolvido. É que domingo que vem, dia 7, parece que estão à nossa espera em Bruxelas. À nossa espera, não. À espera que paguemos o bilhete de avião, o almoço, o jantar, a estadia e o subsídio a uma série de figuras iguaizinhas umas às outras que andam todas ao privado igualzinho da mama pública.
Pus-me a pensar no que lia e a vida iluminou-se-me: crónica já tenho, domingo já sei o que vou fazer – vou dizer que “Sim!” a este “Não!”. É que, não sendo já “young”, ando “angry” como o raio.
Isto é: pela primeira vez na minha vida, vou votar em branco. Nunca, até hoje, falhei um acto eleitoral. Nunca deixei de exercer civicamente o meu direito de voto. Também não vai ser desta que me abstenho. Preciso da democracia. E se a democracia é ir a votos, eu vou a votos. Não quero cá ditaduras, nem brandas nem duras. Vou votar. Mas levo comigo a receita do John Wain (não confundir com Wayne, o cowboy republicano dos filmes do zamericanos): coragem suficiente para, em branco, dizer “Não!” aos “nossos imbecis”.


2. Brancamente falando

Jornal de Alcochete – www.jornaldealcochete.com
Correio do Montijo – www.correiodomontijo.com



Em Abril de 1973, na cidade de Paris, escreveu António José Saraiva:

“O mundo das ideias feitas, em que assenta qualquer sociedade, é apenas um imenso banco de palavras a que atribuímos um valor de realidade. Elas não são apenas moedas de circulação, mas valor acumulado que representa o haver da sociedade inteira. Basta que esse crédito seja posto em causa para que a sociedade fique à beira da falência.”

O professor tratava, então, da questão do neo-realismo português como arte ou não-arte no contexto literário-cultural do salazarismo. Esqueçamos esse contexto, porém e por agora. O que me fez citar-vo-lo tem a ver com “algo completamente diferente”, como diziam os maravilhosos Monty Python: as eleições europeias de 7 de Junho.
Começo por vos dar a minha palavra de honra: nunca falhei um acto eleitoral. (Na verdade, os resultados práticos dos actos eleitorais é que me falharam a mim, sempre…) No próximo domingo, não conto falhar. Estou decidido a ir cumprir o meu dever cívico. Levo-me a mim nas pernas e ao cartão de eleitor no bolso da camisa, apresento-me na minha secção de voto, escondo-me atrás do biombo, regresso à urna (salvo seja) e está feito. Com esta singular diferença: desta vez, o meu voto vai ser mais imaculado do que nunca. Como assim? Assim: o boletim há-de regressar como veio. Isto é: em branco.
Faço parte da sociedade. Não perfilho já das ideias feitas que a sustentam. Pertenço a uma realidade desvalorizada, desacreditada e pré-falida. A minha palavra (o meu voto) será, pois, como aquela feérica menina dos sete anões: branca e fria de neve, por mais calor que cá fora arda.
Não me abstenho. Não risco indecências no boletim de voto. Branquejo, por assim dizer. Não vou pelas ideias (des)feitas e pretensamente “europeias” de nenhum dos candidatos de nenhum dos partidos. Não lhes atribuo valor. Não dou troco às tais “palavras-moedas” de que fala António José Saraiva. Por outras palavras: ando chateado.
Mas atenção: não é com a democracia que ando aborrecido. É com a democracia ser tão portuguesa e tão alegadamente “europeia”. É com esta malta sediciosa que vai a votos por causa do “tacho” dourado de Bruxelas. É com esta galopante pobreza nacional, este falsíssimo optimismo que nos mente terreiros-do-paço em becos-do-gato.
Não. Vou dizer(-lhes) que não. Vou dizer(-lhes) que não em branco. É a minha primeira vez. Suspeito de que não será a última, professor A. J. Saraiva.


04/06/2009

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (5)

5

1 de Junho de 2009

Junho começa com um funeral. Morreu o meu amigo Alves Mateus. A cerimónia final está marcada para o sol das quatro e meia da tarde, na Igreja Matriz de Pombal.

E no entanto a manhã é bonita. Parece um país a estrear, um território neófito. Estamos todos a acontecer, os vivos. Às sete horas, foi bom circular quase nu pela casa calma. Também foi bom sair à frescura inicial de Junho. A realidade abre-se como uma larga toalha de mesa larga. As mulheres só não andam descalças porque parece mal, diz-se. A cor parece açúcar nas coisas: árvores como clarões verdes, o azul é de longe-mar, as blusas femininas cègarregam coruscações sonoras, os pés brancos estalidam virações de ribeiro, os cães públicos são muito decentes em seus casacos castanhos e é branda a violência escarlate das esplanadas e dos reclamos. Troco algumas sentenças meteorológicas com o Jorge do Santa Luzia: que está mais fresco hoje, em relação à brasa de ontem. Verdade. Levíssima onda zéfira torna benfazeja a exposição da pele. Só tenho a lamentar que um dente avariado me povoe a boca de um latejar mesquinho. Tirando isso, dou-me bem a irrelevâncias e a metafísicas.

Tal como me acontecem muito as manhãs, assim me florescem dentro certas imagens salvadas da torrente ledora. Digo: que certas intermitências imago-verbais se me impõem sem pré-aviso no fluxo cursivo da actividade mental. Trata-se de um cinema intermitente, este fenómeno – que, aliás, suponho afim de todos os leitores de todos os (mesmos e outros) livros:

um romance policial de 1968, “Tænk På Et Tal”;
um senhor dinamarquês chamado Anders Bodelsen;
um prospecto da Portugália Editora dos anos 60 do século passado (Vergílio Ferreira, José Gomes também Ferreira e Guilherme Castilho fasciculador da Correspondência de António Nobre);
a cidade de Paris à chuva cheia de citroëns e de solitários;
Lowry no México;
Osvaldo El Gordo Soriano no interior argentino;
a cegante Luz de Agosto do senhor Faulkner;
a Leiria do Padre Amaro;
a despoliciada Évora do jovem Eça em 1867;
as tintas marinhas e cerúleas de Brandão;
os orientes de Pessanha e Wenceslau;
a Holanda de Freeling, a Holanda de Ramalho, a Holanda de Espinosa e a Holanda de Vasco da Gama Fernandes;
a Barcelona de Rodoreda, a Barcelona de Montalbán e a Barcelona de Mendoza;
a Coimbra de Trindade Coelho e a Coimbra de Adelino Veiga;
Braga e Penacova conforme o transeunte Antero de Figueiredo;
o nascimento cubano de Calvino e o nascimento belga de Cortázar;
a Évora de Vergílio;
a Alhandra de Soeiro;
a América de Miguéis e a América de Sena;
a fusão regiana Portalegre - Vila do Conde,
Setúbal e Arrábida de Osório;
os milhares de lápis de Leal da Câmara;
a Viena do Bernhard;
Ingrid Undset em fuga da Noruega;
o Senhor da Serra;
a atenção gandaresa de Carlos de Oliveira;
o Largo de Manuel da Fonseca;
a solidão portuária de Cavafy;
o Maine de Crayencour dita Yourcenar ;
a diferença chamada Fernando Sabino ;
da Estrela à Covilhã com o Horácio de Ferreira de Castro
– e
essa estranha irmandade, no coração inquilino da cabeça, de Augusto Gil, Sebastião da Gama, Cesário Verde e António Nobre:

fiéis, recorrentes, coruscantes intermitências.

02/06/2009

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (3 e 4)


Fotografia: © Sandra Bernardo
Tapéus, Soure
Domingo, 17 de Maio de 2009
(clicar na imagem)



3

28 de Maio de 2009

Esta luz é um salmo imponderável.
O verde arbóreo, sobre o cerúleo azul, apetece ser respirado. Está calor. Uma brisa refrigera o que pode – e quanto e quando pode, consola.
Estive considerando a palavra água. Quando gelo, é substância de moléculas estreitadas, oxigénio e hidrogénio enrijecidos, restringidos, mais íntimos um do outro. Quando, porém, suposta em rio, é tempo: ao mesmo tempo, passagem e permanência. Considerei isto para lograr perceber minimamente o poderio poético daquilo que nos volve homens e mulheres e gente: o salmo, a língua: mas agora, pela língua, o salmo é ponderável.

Conta-me ela que um casal toxi anda pela cidade recolhendo beatas para fumar onde logra encontrá-las. Diz-me ela que a rapariga não é velha, mas que o consumo a mostra acabada. Operam pela zona do mercado, pedem moedas, tentam ser arrumadores em lugares com parquímetro municipal, andam aí e por aí.



4

29 de Maio de 2009

Como então dizia, permanência e passagem, rio e luz.
Também o Adolfo Casais Monteiro (o de “A Palavra Essencial”, Editorial Verbo, Lisboa, 1972) às voltas com a, digamos, Dimensão-Poesia da realidade; as voltas neo-realismo versus (ou versos) surrealismo (nacionais) afloradas pelo Joaquim Manuel Magalhães de “Os Dois Crepúsculos” (Regra do Jogo, 1981); o gigantismo idiomático de António Vieira; Rodrigues Lobo afogado no Tejo em 1622, entre Santarém e Lisboa; as aves encalmadas de Sá de Miranda; o Vitorino Nemésio de “Conhecimento de Poesia” (Editorial Verbo, Lisboa, 1970); e Régio e Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca em o ano 1927 inicial de Presença; e António Nobre e Raul Brandão trazidos por Guilherme de Castilho:
estes nomes na manhã solar de sexta-feira, 29.

Vi raparigas e mulheres acaloradas no finiMaio, Junho às portas da cidade e do mundo.
Viçosas, as raparigas;
com blusas jardineiras, as casadas do campo que acodem à antiga vila a tratar das suas coisinhas responsáveis;
os pés de umas e de outras abertos em calçado ligeiro;
os óculos à moda das moças;
as cabeleiras lacadas das matrimoniadas;
e a ausência dos homens.

De onde me situei para usufruto da terminação da manhã, lobrigo um carro vermelho de pintura lascada no flanco traseiro direito;
um hom’zito de cintura de ganga subida à pança, camisa de quadraditos verdes, sapatos baratos e maus e feios e castanhos;
dois cães maravilhosos: ruços, vadios, livres, veteranos, maravilhosos;
andorinhas, pardais e pombas;
uma mulher pendurada de um saco dos supermercados Ulmar;
um pedaço de céu entre dois prédios;
uma moldura de mata a oriente;
a venezuelana casada com o Zé da pastelaria do shopping;
um reformado que veio comprar A Bola e leu o Correio da Manhã à borla;
um menino de seus quatro anitos pela mão da mãe, que não é velha nem alta;
um mercedeszorro muito preto e muito volumoso com um artista dentro a telemobilar grandes aparatos gestuais;
um homenzarrão de pele negra, fato cinza e grandes, grandes sapatos de boa qualidade;
reclamos de papel à cereja da Cova da Beira, a explicações de inglês, francês e chinês (mandarim), à precisão de empregada de balcão para café, à procura de colaboradores com experiência de técnico de manutenção industrial, à PT (“7 cêntimos para todas as redes”).

Nisto, é quase meio-dia: tempo e rio, passagem e permanência.

Sítio de Amélia Pinto Pais

http://barcosflores.blogspot.com/

De uma professora excelentíssima, este sítio é vivo - e vivamente recomendável a todos/as quantos precisam de andar navegando pelas artes poéticas.
(Fica ao lado, nos Links).

01/06/2009

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (2)

2

26 de Maio de 2009

Porto, Abril de 1969” – é a data oficial da composição e da impressão de “A Palavra Fascinante”, obra de H. Silva Letra para a Editorial Inova. Compôs e imprimiu a Empresa Industrial Gráfica do Porto, Lda.
H. Silva Letra: pouco, quase nada, sei deste autor. Que nasceu em Vieira de Leiria no ano 1927. Que foi tradutor. Que escreve muito bem: “A Palavra Fascinante” é prosa poética de muito bom quilate:

Oitenta cidades tinham sido subitamente bombardeadas, pelo que parecia sem qualquer justificação, desaparecendo algumas por completo – todavia não estava lá ninguém –, sendo nelas destruída inclusivamente parte da própria substância da noite.
É certo que existe noite por todo o lado e que a falta aqui pode muito bem ser remediada com um pouco de noite vinda dali, se, quem possuir excedentes de noite, quiser oferecer um pouco da que tem em demasia
.”
(p.25)

Talvez o pouco que sei de H. Silva Letra seja perfeitamente suficiente. Tenho o livro, que é o que fica. Não pretendo aqui reatar o velho debate (debater com quem, aliás?) do biografismo como fonte gnósica hermenêutico-exegética – e demais palavrões ociosos que tais. Não. Leio “A Palavra Fascinante” – letra por letra, quarenta anos e um mês depois de dada a lume.

(E, a páginas 60, este perfume espinosiano, por assim dizer:

E se o corpo morre, a máquina de pensar pensamentos que é cada um também morre.”)

******

Irrita-me tanto bocejo. Fico de olhos embaciados, custa-me ler. Irrita-me este desconserto do corpo, que afinal deito cedo e cedo reergo. A i-razão de tanto bocejo, desconheço que coisa quer a boca escancarada golfando-se oxigénio à pressão, o estralejar do esqueleto, a distensão da máquina muscular, o sacana do tédio trepando-me aos ombros como um papagaio de pirata desempregado.

Escrevo para não morrer tanto – ou ainda: um pouco antes de amanhã. E para viver gramaticalmente, sujeitando até a ilusão a uma norma sempre esplendorosa: a ortografia dos corpos pessoais, a beleza ridícula da cidade, as pombas incontáveis medindo o chão com as patitas estelares, recenseamento e sufrágio de fantasmas muito vivos escorando as palavras possíveis, na manhã fresca. Escrevendo, poupo-me a viver tanto: acodem-me então (agora, ontem) planos e lances que enumero ainda e sempre e enquanto não entrar na morte com justiça e o mais elementar dever (ter vivido) cumprido. Enumero:

cabeça amarela de mulher cujo coração poliglota toma café;
voz pastosa do fumador de cigarrilhas licenciado em medicina;
cachalotes brancos dados à costa para dormir eternamente: carrinhas brancas estacionadas ao alto da avenida, prédio cor-de-salmão recortando o céu fundo, sobre um quintal de pereiras e latas redondas com glicínias amestradas;
o livro de H. Silva Letra (1927 - ?);
a chuva de outro-ano-outro-inverno no Largo 5 de Outubro, onde e quando a solitária tremoceira atendia advogados e ciclistas extraviados;
bocas engessadas de cigarros; belas árvores de braços abertos no ar: como Cristos vegetais;
uma camioneta verde em direcção à serra:
a mulher do campo com totó enredado a nylon;
a comodidade da indiferença, que sempre salvaguarda o utente;
o trabalho que isto dá;
a familiaridade do idioma convocando os animais idênticos;
o conforto absolutamente milionário de tanto livro;
a economia das formigas, as humanas e as outras;
as consultas no centro de saúde, o bar dos bombeiros, as pereiras de quintal, um policial dinamarquês de 1968 servindo-me de sedativo passaporte para a noite;
o poço do corpo na ínsua do ainda-tempo;
e versos como tangerinas rutilando a ouro a vencibilidade da manhã:

enumerei.

Violenta tempestade atinge Norte da França – garante o noticiário da tarde, costa do dia a que vão dando os despojos e os destroços do mundo. Crimes económicos fazem parte do rol, a que se juntam as últimas desportivas, o presidente francês e o do Sporting de Braga, a recessão sul-africana no primeiro trimestre do ano, as brincadeiras sobe-e-desce das bolsas, o senhor Oliveira e Costa no Parlamento com cinco pedras na mão contra Dias Loureiro et alii, dissolução presidencial do Parlamento no Níger, queda brutal de encomendas à indústria na Zona Euro, 122 kilogramas de cocaína enlatada nos Açores (menos uma hora nos Açores), um tal Vital, oito mortos pelo menos em incêndio num hospital turco, a temperatura é amena e o sol brilha com mansidão.

28/05/2009

Crónicas da semana

1. Rosário Breve nº 105
O Ribatejo –
www.oribatejo.pt

Oliveira Quase e Costa

Estou decepcionado com Oliveira e Costa, mas só desde ontem, 26 de Maio de 2009. O senhor ex-presidente (ou presidente ex-senhor) do Grupo SLN/BPN apresentou-se à comissão parlamentar de inquérito, lá isso ninguém lhe tira. Durante 131 minutos, leu uns papéis escritos na cela. Depois, horas a fio, quase respondeu ao que se lhe perguntou. Quase.
A minha decepção vem do “quase”: ingenuamente, confesso ter esperado que o senhor em questão me esclarecesse, a mim pessoalmente, determinados assuntos que me impedem de viver com qualidade.
A saber: o sentido da vida; a existência ou não ou assim-assim de Deus; a analogia da espiral entre a molécula do ADN e a morfologia das nebulosas; Marinho Pinto; a quase absoluta ignorância portuguesa quanto à obra do autor dinamarquês Anders Bodelsen; Manuel Pinho; as farinhas alimentícias; a hora a menos nos Açores; as dicotomias Benfica/Sporting, Wagner/Verdi, Eça/Camilo, Labesfal/Lusiaves, Ota/Alcochete e Marguerite Yourcenar/Marguerite Duras.
Do tudo que ele quase disse, só retive que não percebe nada de golfe. E que terá tido uma inflamação salvo erro na próstata que ameaçou derivar para um daqueles cancros que se metem nos ossos como o frio e a consciência. E que só trata por tu os colegas da escola, o Joaquim Coimbra não e o Dias Loureiro também não.
Anders Bodelsen é o autor de “Tænk På Et Tal”, traduzido para português como “Um Número à Escolha” (edição Livros do Brasil, nº 307 da Colecção Vampiro). É a história do assalto a um banco. O caixa descortinou a coisa antes dela se dar. Preparou-se para a coisa. O ladrão levou dez mil coroas. O caixa surripiou 178 mil sem dizer nada a ninguém. Bodelsen (nascido em 1937) retrata uma certa classe média dinamarquesa (e ocidental, por extenso) dos anos 60 do século passado, gente vulnerável à dissensão moral do materialismo, à dissolução dos valores e à finíssima linha entre a inocência e a culpa.
Oliveira e Costa quase me falou de Bodelsen.
Quase.




2. Este Lado para Cima nº 7
Jornal de Alcochete –
www.jornaldealcochete.com
Correio do Montijo – www.correiodomontijo.com

Pratos do dia

O prato do dia é o encerramento de fábricas. Reportagem: casais casados que trabalham ali há 30, 40 anos. Os dois, homem e mulher. Rua. Há encomendas, mas as dívidas a fornecedores etc. Contactada pela nossa reportagem, a administração não quis prestar declarações. Rua.
O prato do dia é o Cristiano Ronaldo sim ou não vírgula milhões de euros no Real Madrid. O rapaz é que é esperto, o Quaresma nem tanto. O Rui Costa no Benfica, afinal, e pronto, tudo na mesma, lá vão eles passar o Verão a comprar refugo no Brasil. E o Figo em vez do Madail na Federação.
O prato do dia é a minha vizinha Guilhermina, mãe de dois rapazes já crescidotes, divorciada, caixa de minimercado, anda a tirar o 9º ano à pressa e à noite a ver se lhe dão um computador por cem euros para os filhos terem internet, sempre se gasta menos telemóvel.
O prato do dia é o têgêvê milagroso que nos vai resolver o futuro todo de uma vez só, como aliás a Expo-98 também não.
O prato do dia é o Poder Local, essa “conquista de Abril”, essa “democracia da proximidade”, essa “cidadania de bairro social”, esse prato de morangos afinal nêsperas verdes.
O prato do dia é a “Justiça” e seu tropel de avantesmas de toga espingardando-se umas aos outros para deleite do assaltante, do violador, do homicida, do ladrão de cobre, do banqueiro-off-shore, do Vale e Azevedo, de Gondomar, de Felgueiras, de Marco de Canaveses etc. Muito etc.
O prato do dia é a gripe porcina, doença que não é burra, já que tem evitado Portugal como uma pessoa de bem que não quer ser vista em local (tão) mal frequentado.
O prato do dia já não é a Esmeralda nem a Maddie, agora é aquela menina que levaram para a Rússia como se ela fosse o Quaresma ou assim.
O prato do dia é o telemóvel na sala de aula, é a professora descabelada a vociferar virgindades, é a maltosa adolescente a “estudar” em éssémiésse, é a língua portuguesa corrida a pontapé de rodapé televisivo.
O prato do dia é a TVI em todos os televisores de todos os cafés do País todo.
O prato do dia é a blogosfera cheia de poetas e de mensagens em brasilês cheias de esperança e de viagra e coiso.
O prato do dia é a ignorância orgulhosa de si mesma, a demissão colectiva de um aglomerado que nunca soube, nem sabe, nem saberá ser povo, nem público, nem gente.
O prato do dia serve-se frio.



27/05/2009

UM POUCO ANTES DE AMANHÃ (1)






1

25 de Maio de 2009


Somos eus consecutivos.
Perdemos aqui um pouco de cálcio, um tanto de ferro;
vencemos além uma palavra feliz e suficiente como uma lâmpada de rua em pleno Inverno.
Muitas vezes, mãos inquirem seda por nós, enquantomente rajadas de música vergastam o coração auricular da nossa eterna mocidade, essa quando se recebe música.
Uma praça sem gente conspira décadas e pombos, rente à febre do frio que grassa na igreja, atrás da que um jardim infantil atende violadores e portugueses.
Um dos eus quase não suporta tanta felicidade, uma vez dono e senhor da resignação: tinha sido pontual na repartição de finanças, onde declarara rendimentos de um ano qualquer dos da vida.
Um de nós viu esse eu ser um ele: corpo corredor no basalto que a luz expande em camadas para uma insignificação geo & antropológica.
A sexualidade já não hasteava bandeirações eólicas, o pecado, a havê-lo, seria não pensar: isto é: não receber a remuneração em imagens, em música silábica, em hordas ciganas juncando de lixo caminhos de cabras.
Esse eu assim: dorme no meu corpo quando escrevo, quando escrevo uma carta ou uma crónica ou uma ameaça poética qualquer.
Isto é: ou coleccionar diamantes ou escutar Nemésio reportando o susto de Camilo e Ana ante a janela raspada de ramos na madrugada glacial.
Isto, antes da brutalidade terminal, do médico amigo que a um dos nossos eus condenará à morte e à vida, chovendo na tal praça com igreja e sem gente e com pombos.
Recordar para a frente como quando se anda ao vento, com exuberância e exaltação: e feroz euforia, ao vento de comboios e tardes cinzentas como burros tristes: e de boca recortada a celofane no frio, o frio que por vezes parece um país entre onde se está e casa.
Outro dos eus suportando em silêncio no café a presença hipervocálica e hiperbólica de uma mulher bêbeda e portuguesa, avó do bairro social, que arenga bojardas morais sob o heliventilador do estabelecimento, bêbeda de vinho e de moral, ataúde vivo de beatério e bifes de cebolada, monte uivante de varizes retesas de tinto tónico, a garra esquerda enclavinhando um neto de carita envernizada de ranho por assoar, um petiz infeliz de caramelo no nariz, uma segunda-feira de temperatura avariada, nesta vida.
Isto; e a Escola de Mecânica da Marinha em 1959 recebendo a visita do ministro da salvo erro Defesa Nacional, nas escolas desse ano o tifo do século português e a anemia do milénio lusitano e a estupenda Nação cancerígena por-Cristo-com-Cristo-em-Cristo.
Como quando o leitor se interroga que quer tanta treta dizer que não diz, como se esse eu-leitor se auto-impusesse um inquérito absorto, apreensivo, à beira dos nervos da desistência.
Nada a fazer: a fria segunda-feira esparadrapa seus cromos, suas ventilações, seu recado na mercearia, sua frágil farmácia.
Um dos que somos em transe: quase aflito ante a beleza do busto verde-cinza da pomba que caminha como se medisse o chão, tão fortemente bela e sozinha na tarde que declina: sim, por vezes a beleza aflige o coração, nem todos assim somos, alguns de nós sim.
Menos uma hora nos Açores, antes da noite as mulheres resgatam comida dos dispensários, nas casas ainda vazias as faianças estalam rumores vidrados, nos campos de arroz cegonhas crucifixam-se sem outra fé que a da eterna mocidade da música visual, acaba a tarde, a vida não, não ainda, ainda não é tarde.
Ter sobrevivido não era a pior das prendas, sabendo-se o quão antropólogas são as décadas e as segundas-feiras: e o quanta volúpia é preciso gastar para merecer um nome, uma cadeira na barbearia, um telefonema.
O escândalo da morte resulta de nunca deixar de parecer prematura, diz um dos eus acendendo o cigarro, vendo que vai chover não tarda nada, fechando-se no casaco que em boa hora se lembrou de vestir ao sair de casa esta, ou outra, manhã.
E por momentos ninguém morre, nem aqui nem nos Açores, uma criança afia um lápis, uma velha faz-se gelo no retrato alto da janela de terceiro andar (há brasileiros no quarto e no quinto).



25/05/2009

Justificação da Menor Parte




Pombal e Casa, Souto, de 22 a 25 de Maio de 2009
(Foto: Barreiras, Redinha, 24 de Maio de 2009)

Os rostos como cravos brancos deixados ao ar amarelo da manhã.
Viver em obra ante rostos como brancas carnações, eu vivo.
Transitoriedade lúcida, matizadas manhãs, uma chávena de café.
Ir ao mercado adquirir vegetais, ver os animais pelas ruas limpas.
Escutar no café os aposentados que refilam próstatas e catarros.



Um sósia do historiador Oliveira Martins pasma de cigarro nas unhas.
Uma senhora de sardas arruiva a atmosfera ao pé da arca dos gelados.
A maior parte não tem justificação de existir”, clama um aposentado.
Morreu ontem João Bénard da Costa, que sabia escrever e cinema.
Um táxi descreve a Rotunda dos Bombeiros, dissipa-se no instante.



Em Évora no ano de 1867, com Eça jornalista de 22 anos de idade.
A 19 de Junho desse ano, fuzilamento no México do imperador Maximiliano.
Mulher vestida de panos pretos (blusa cinza-escura) mascando um bolo.
Cavalheiro de bigode-arbusto analisando a tabela da II Divisão, dita de Honra.



Às vezes, latino, mais do que bate,
o meu coração late um latim canino.
Late bate late bate bate late late late.



A efémera assembleia nutre o tempo comedor no escuro do anfiteatro. Do palco e da pantalha, flúem as sombrias luzes, as vozes eléctricas, as cidades estrangeiras que tocam os peitos breves. Vieram casais e homens sós e apreensivas mulheres e poucas crianças. Fora do teatro, dá-se a cinechuva a preto-e-branco. Dentro, o sábado esquece-se sem dor de si mesmo, atento à carburação da cena. Em plena tarde, a noite privada do sítio é de cordiais fantasmas vivos (ainda) povoada.



Nomes portugueses: Redinha, Vérigo, Presa, Barreiras.
S. Jorge e N.ª Sr.ª da Estrela.
Visitamos um casal criador de cores: pássaros e flores.
Criam cores, que mostram à passagem do domingo.
A mãe-melro tem ninho junto à porta da casa.
A cerejeira alimenta as aves independentes.
O homem fala de quando piloto de táxi-avião.
Come devagar, partilha o tempo-quando.
Regressamos a meio da tarde.
Há animais limpos pelas ruas.

Duas imagens de Portugal no século XXI


Mercado de Pombal, manhã de sábado, 23 de Maio de 2009
Barreiras, Redinha, hora de almoço de domingo, 24 de Maio de 2009

24/05/2009

Caça submarina na banheira?

http://www.youtube.com/watch?v=m12MY8fElIw



Nestes dois sítios, nostalgia com fartura:

http://www.velhosanuncios.blogspot.com/
http://santa-nostalgia.blogspot.com/

Parece que foi ontem

http://www.youtube.com/watch?v=NOUPjEHYFew


http://www.youtube.com/watch?v=9A-z9mccrRI


http://www.youtube.com/watch?v=r6UECReII88


http://www.youtube.com/watch?v=iP3Bj-YHR9M


http://www.youtube.com/watch?v=zX53PVe8Rck

21/05/2009

Com esta, dois anos de crónicas nO Ribatejo - Rosário Breve nº 104

Fluoxetina

A minha senhora e eu andamos a tomar fluoxetina mas não é por causa das tosses, é por causa da crise, mas não é da crise conjugal, que dessa não gastamos, é da outra, a de quase toda a gente menos os do costume, tomamos fluoxetina porque um médico nosso amigo nos disse para a gente tomar e a gente vai de a tomar como se a vida fosse Abrantes, por assim dizer.
A fluoxetina é um medicamento que parece que faz passar a crise, não faz, mas a gente, a minha senhora e eu, não nos importamos tanto com ela, pois parece que lá em cima, nos nossos sótãos cranianos, as sinapses e a serotonina e a dopamina e outras ninas da neura trabalham melhor com a fluoxetina, é capaz.
Levantamo-nos cedinho e fluoxetinamo-nos a meio da caneca de sucedâneo de café com imitação de leite, ainda a caneca não vai a meio já estamos os dois a sorrir um para o outro como se fôssemos monas-lisas, andamos a sorrir o dia todo como se fôssemos catarinas-furtados, quando à noite vou a sorrir buscá-la ao emprego ela sai do emprego a sorrir para mim e para o resto do mundo, que é onde se dá a crise.
A fluoxetina é uma grande invenção dos laboratórios suíços ou suecos, agora não tenho preciso se de uns se de outros, também não faz diferença, a diferença está no sorriso, como qualquer candidato a poeta autárquico sabe, a coisa está no sorrir sempre e avante, mesmo com a crise ou até por causa dela, sorrir e andor, que se faz noite.
Aquela professora de Espinho que aparece na TVI com voz de telemóvel se calhar também precisava de fazer como a minha senhora e eu fazemos, se calhar precisava, ela e os alunos de 12/13 anos por causa do sexo na Antiguidade e por causa da crise e da Margarida Moreira da DREN e assim, se calhar, por assim dizer, aqui quartel de Abrantes.

19/05/2009

Um pouco antes do modesto Rio Arunca

Pombal, 18 e 19 de Maio de 2009

I

A luz melhora o mundo como um sabão, estou atento.
Um homem de rosto muito lavado, os olhos muito azuis, folheia a agenda pessoal, a anca encostada a um carro na rua.
A existência deflagra como uma granada óptica, toda simultânea na necessidade.
Isto é tudo ver.
Entram no pensamento acontecimentos como fruta, mosca, guardanapo, máquina de fazer contas.
Na noite prévia, senti o rumor de máquinas urdindo a noite mesma.
Trabalhavam com obstinação, prolongavam o tempo atento.
Revolvi-me na cama como um churrasco morno.
Tinha corrido uma parte do mundo, deixado um texto, fora à varanda conferir a camélia, a rosa, o alguidar abandonado pelo jardineiro.
Dentro da casa, a livraria murmurava a espera, os amanhãs datados da leitura que tira o ser do estar.

Agora, os espelhos rápidos fulguram a manhã.
Acontecem velhices ortopédicas nas passadeiras, sombras de chapéu, itens de caderneta, bustos da paulatina necrologia.
Homem de camisa branca com saco plástico verde.
Baldio urbano pintalgado de papoilas, além de que um canavial breve.
Considerar tudo isto como um plano inalienável da Essência.

Na atenção, retornar tudo para dentro: aumentar a História de atributos notáveis e notados e anotados.
Por exemplo: se em Coimbra, da Couraça de Lisboa apreender as linhas que são Santa Clara: mais tarde, referir isso numa conversa ou num poema.

Os vendedores de alimentícios instauram os patamares do dia, visitam pontos vivos no mapa, renovam as existências (o termo não é inocente, é superlativo, é metonímico).

Ramifico-me.

Sem o susto supersticioso da morte, sem outra bagagem que a viagem mesma: travessia e rio trocando essências e identidade(s). (Neste sentido, trabalho a verdade possível em demanda das Leis.)

Não negar a atomicidade pessoal. Saber-se elo do involuntariado, do maquinismo extenso e indivisível. Assistir à vida ávida das mãos. E chamar cegueira à dor como ao prazer.

Ao cabo do corpo, a doença terminal (um dia), processo de refundição e de refundação da matéria. Antes, o durante(s), vórtice e vértice de planos do Tempo, fábrica de linhas.

Agora, a tarde como uma veterania. Pousio e moção, crescimento para o país da noite.

Áscuas: pirotecnia da força de dentro, combustão de carbonos, percepção do Plano-Nenhum da Natureza.
A força de dentro para cima.
Genealogia e arborescência.
Entre-ter as coisas, ser uma delas: entre-ser.
Absorção, digestão, evacuação: processo em obra.



II

Em obra: memória da terminação de Joaquim Agostinho, em 1984, por hematoma epidural, e da de Bento de Espinosa, em 1677, por colapso respiratório. Duas idas vidas vindas, duas velhas glórias repescáveis no contente e medíocre dia-a-dia, esta, por exemplo, terça-feira de 2009.

Não ácida mas placidamente, no curso da manhã, retomando os desenhos de Leal da Câmara (que Aquilino biografou) para A Velhice do Padre Eterno de Guerra Junqueiro: para reconsiderar a sempre actual urgência de anticlericalismo, de combate mortífero à superstição irracional cuja exploração é o pão-da-boca das instituições desumanizantes (os vaticanos, as mecas, as putas que nos querem parir). Placidamente isto, perto da igreja local.

Rio e rito: uma geminação.

Sim, conto com o mau destino de Adriaan Koerbagh e com as demissões de Casimire Périer e de António de Spínola – não esquecendo os irmãos de Witt nem o bebé de Lindbergh. História de histórias, peões do magno tabuleiro que a Língua move nos sentidos necessários. Não sinto obscurantismo nisto, mas uma bela claridade pensativa para além, quase-quase, do corpo.

E assim os nossos corpos servem de contrafortes à serra da manhã. Vivos, mexendo-se, queimando ar para incandescência das células, somos corpos que desenvolvem a trama terra-cósmica: bichos do dote, ervilhas do cesto, peixes rituais que nadam o ser.
Assim vogo em evidência: sinto claramente, colecciono sem leccionar, apre(e)ndo sem pressa nem vagar. Esta manhã, muito cedo, dei por mim emergindo disso a que chamamos sono – e que é a máquina poupando na conta da luz. De imediato, achei-me pronto à defenestração dos lixos benignos que empatam a tremenda soliloquacidade. Tão depressa me surgia possível a ingestão (absorção, digestão, evacuação) de bolachas molhadas em café-com-leite como a escolha entre cursos e percursos paginados pela escrita dos antepassados. Fora da casa, além-quintal, botes e caravelas de chapa e borracha eram outros tantos destinos automóveis rumo à repartição, à padaria, a Leiria, ao estádio, a Portalegre e ao futuro cativo do mesmo dia inaugural. Já tinha morrido um tal Mario Benedetti, poeta uruguaio de que muitos gostam e muitos não. Já tinha nascido algum botão de carne em Coimbra, em Bagdad. Cães urbanos pontuavam ruas de Soure, certamente que sim. Fumei antes do banho, repeti as calças da véspera e saí a conferir as existências que são, deveras são, o meu presépio, o meu circo, a minha pena e o meu encanto.
E o assassínio do presidente Carnot em Lyon deu-se outra vez, a páginas tantas, à passagem pela fachada da Cooperativa Agrícola, um pouco antes do modesto Rio Arunca.

17/05/2009

Um Domingo na Feira do Queijo com Espinosa




Tapéus, Soure, manhã e tarde de domingo, 17 de Maio de 2009

I

Provido de não outro mistério que o simples de estar vivo.
Numa aldeia portuguesa, manhã de um domingo, por o pré-ocaso da primeira década do novo milénio.
Cabala humilde: feira de queijos, cordões de pinhões, peixe do rio, cassetes gravadas em garagens vizinhas de estaleiros da construção civil.
A construção civil da pessoa, a unidade elementar.
Vivendas com painéis de santos, rapazes de boné com marca de tintas, senhoras embrulhadas em chita como peixes de salão, pés encanastrados a plástico de Taiwan, senhores túmidos como acontecimentos roxos, provas de vinhos, infâncias tecnológicas a pilhas rentes a vinhas vãs, muros rebocados a chapisco de talocha, gaiteiros estridentes, flores amarelas pisadas pelo chão, o órgão da missa televisiva ventando frio no café, a pausa rural da eternidade, subespécie.
Engraçada mulher – como um papagaio encarnado, lacrada a sapatos vermelhos, a pele alta de um branco ósseo, articulada, mineral, vertical de saltos escarlates, rubra epifania no corredor da feira, entre queijos, garrafas, matraquilhos, farturas e tremoços.



II

Inumeráveis finitudes pessoais por uma única infinitude.
Uma manhã acabada: como um fruto.
Pensamento, extensão, modo: estado corporativo de tanta alma.
E o coração como um carimbo endógeno.
Afeições em liberdade: pela negativa da superstição,
por amor de Deus.

Então, a cidade acampa o país de si mesma.
Os animais em pasto corredor: dinâmica, nutrição, atenção.
Chapadas gráficas na retina paisagística.
Portugal miudinho, retrato recreativo, poster de associação local.
Queijo silvestre, azeite manso, homens-silhuetas.
Na barraca das cassetes, cor e ruído e mulher infeliz.
Gravatas grenás e colarinhos azuis, cabeleiras ungidas de óleo imanente, ancas malquebradas, rugas, cintos de napa, tabernáculos, cacos de século, lavagem e cal, igreja mínima em postal.
Numerada finitude.



III

Além dos segmentos de tempo (as pessoas, seus corpos geométricos), a feira é necessária, não é contingente.
O instinto a conhece endogenamente.
A humanidade pode chegar a partilhar Deus com os animais, respirando.
Aqui o manto da montanha lasca o vento, a presença sideral do nocturno, os bebedouros frios, os adornos de prata, folclore pobre e crianças aos gritos, autarcas oxidados, probabilidade de aguaceiros para o fim da tarde
(1632-1677).

Nenhuma tristeza, quintais apenas, onde a nespereira e o limoeiro vigoram sua estatuária verde.
Uma família acampada de frangos assados vocifera gargalhadas, cascas de melão, filharada, blusas que estoiram cor, avó encordoada de varizes.

E além-dia, os dias.
E os nomes além-pessoas,
aquém.

Elementos de Fortuna para uma Eudaimonia - alguns podem revelar-se acertados, nunca se sabe

Casa, Souto, 14 a 17 de Maio de 2009



Quanto se não encontra, é quanto se não soube procurar.
Ter chegado não interessa, mas ter partido.
Décadas e segundos partilham a gema ourives da atenção.
E como uma febre fria trabalhando a extensão da praia.

A beleza acorre afogueada como um bombeiro à cara.
Rajadas de vento animam a pueril vegetação domesticada.
Quintais estagiam crianças entregues a avós vegetais.
E o vento dá nas cordas de música do tempo entregue.

As pessoas formigam leveduras margem a margem.
A chuva como uma visita diagonal ao poço das casas.
A organização social marca pontos astronómicos.
E os enterros filindianam cordatos, pluviais.

Estou entre árvores municipais esta tarde.
Sinto-me bem, o ar circula, os cães dormem a sesta.
O Caso Tichborne/Orton e a Vida de Espinosa.
E a humidade das mãos na antemão da insónia.

Informações dentro da cabeça: cuidado com elas.
Voltas da brisa em torno da massa demográfica.
Uma atenção nunca desistente, um ser-dentro-todo.
Respirar é uma olimpíada: estar vivo em gás.

Estas margens anotadas a lápis pelo corpo atento.
O poder mediúnico dos animais entregues ao holocausto.
A derivação linear das águas entr’ervas.
As casadas galinaceamente sem tristezas nem som.

Alguns movimentos orquestrais descrevem.
Do rasto de tanta gente partida pelo meio, nem rasto.
Sublevações celulares comprometem os planos de aposentação.
A senhora dos jornais hipnotiza a demora.

Uriel da Costa: suicídio e razão e solidão financeira.
Grandes talhadas de pão enroupam o frio dos velhinhos.
Lisboa, um fim de tarde, sem horário nem destino.
A penetração do perfume acamando a lembrança.

Grieg sozinho numa sala apagada pensando além-música.
Famílias na Ásia devorando peixes vivos.
Iluminuras e cordéis de couro abarcando gerações impensadas.
Derivações de entrelinhas, toques papilares de azeite, sedas.

Substância: o que é por baixo está no que é no alto.
E a Natureza arte-oficia qualquer deus de serviço.
A eternidade do presente é ser-se a-tempo.
E cortinas voaçando salas vazias menos de mental olhar.

Ética de virtude, florilégio, espírito em guarda.
Vida para felicidade. Instintivo reconhecimento.
Uns pós de ignorância. Domesticação do desejo.
O que é em baixo, o que é em cima.

14/05/2009

Rosário Breve - 103 - in O Ribatejo

Eu, Europeu

Sou pela profissionalização dos peregrinos a Fátima. Também sou pela obrigatoriedade da certificação da qualidade dos carros-vassoura de apoio aos peregrinos e aos ciclistas da Volta a Portugal. Sou pela informatização das bancas de cereja, nêspera, pêssego e laranja de beira-estrada. Sou pelo policiamento da alma e pela cardealpatriarcação do sexo e pela pasteurização dos sonhos e pela dobragem em brasilês da corrupção angolana. Alinho na transcrição dos telejornais para livros de texto da escolaridade mínima com vista a uma ignorância máxima. Subscrevo a beatificação em vida de Manoel de Oliveira e de José Hermano Saraiva. Fervo de sossegada indignação quanto ao que for preciso, como o pilhão, perdão, milhão-de-votos do Manuel Alegre, o empate técnico Caso Maddie – Casa Pia, as gémeas Salgado, o rabo-de-cavalo da porta-voz da PSP para os telejornais, as nóvòportunidades, o Vital Zita Seabra Moreira, a Baixa Geral de Depósitos, o Cancro Português de Negócios, o Cancro Privado Português, o Jorge Jesus no Benfica, a profissionalização das grávidas, a hermanjosénização do Gato Fedorento, a gatofedorentização da Assembleia da República, o Poder Local em geral e o local em particular, o 10 de Junho em Santarém e o day-after no resto do País, coisas assim.
Acho que aquilo no Bairro da Bela Vista era deixar arder. Sou pela profissionalização das noivas ciganas, mas só até aos onze anos. Também sou pela profissionalização do Bernardino Soares e dos dadores de sangue. Sou pelo casamento dos manos Portas com as gémeas Salgado. Acho que, ya!, Os Lusíadas em hip-hop era bué da Bairro da Bela Vista. Sou pela atribuição da Bandeira Azul aos cafés de não-fumadores e ao Presidente-Sombra da República, o professor Marcelo.
Sou, sou.

13/05/2009

ESTE LADO PARA CIMA - 5 - in Jornal de Alcochete / Correio do Montijo

Quarto fechado sem cortinas

Vivemos tempos pardacentos. Receio bem que o futuro nos julgue gentinha amorfa, indiferente, acrítica e, como o presente, pardacenta.
Os direitos laborais foram cano a baixo, enxurrados pelo desemprego em massa. A liberdade de opinião, por outro lado, de pouco vale a quem, como nós, não tem opinião. Os jornais empilham pequenos e grandes crimes contra a pessoa, a sociedade e o mundo. A ecologia global anda pelas vielas da amargura. A fantasia das crianças é uma invenção da literatura infanto-juvenil de origem nórdica. O Pai Natal se calhar é mentira. E (est)a realidade também.
Se vos pareço hoje peculiar e particularmente amargo, deve ser por causa de ter visto alguma televisão, não sei, talvez. Depois de jantar, adormeci no sofá. Acordei à boca da noite com a digestão atrofiada por um sonho medíocre. Levantei-me debilmente, esfreguei a cara com água fria e vim escrever a crónica: vai-me saindo pardacenta.
Vale-me que tenho ali um livro bom para ler. É policial, tem um enigma de quarto fechado em cujo interior as personagens morrem em menos de duas horas. Está bem imaginado, bem urdido, bem escrito. Serve-me às mil maravilhas para me evadir da evidência da realidade.
Preferia, porém, não precisar de ler para, fugazmente embora, esquecer que existo nisto, neste quintal magnificado sem merecimento pelo sol atlântico. Preferia não chamar pardacento ao nosso tempo. Preferia não adormecer nem no sofá nem na vida.
Amanhã talvez seja outro dia, enfim. Tenho mais livros. Comprei uma couve gorda e viçosa que é bem capaz de dar uma panela de sopa à maneira. Mudei de marca de comida seca para as gatas, a ver se elas tossem menos pêlos enrolados na garganta. Ainda não mudei os pneus ao carro, qualquer dia lixo-me com uma multa que é um mimo. Declarei o IRS a tempo e horas, bonito menino. Ainda não decidi se sim ou não vou votar nas europeias. Fiz recentemente amizade com um casal de vegetarianos. Não professo religião, mas também não atropelo peregrinos de beira-estrada. Porto-me tristemente bem em quase todos os aspectos. Como vós, decerto, também.
Tenho de arranjar uns cortinados para esta divisão. Falta-me uma estante na sala para os policiais. Devia adquirir dois anti-vírus eficazes, um para o computador e outro para a minha vida.
Ainda só vou na página 27, não sei que diabo vitima as pessoas naquele malfadado quarto. O telefone não tocou todo o dia. Ainda não é amanhã. Se vai estar de chuva ou fazer sol, não sei, talvez.

12/05/2009

Pode Ser Hoje



Pombal, Figueira da Foz e Casa, Souto, 2, 3, 10, 11 e 12 de Maio de 2009



Pode ser o horror como pode a maravilha ser,
isto de viver.

Derradeira-se o dia, último rio de si, vem a noite tomando posse das coisas, dos breves mundos pessoais.
Os prédios, tostados a frio, são os possíveis megalitos, verticais cavernas da rupestre condição dantes, em menino, mágica.
Carros acasalados farolinam às cegas pela massa cinza, matrimónios motocíclicos criancinham avòzinhas de regresso aos senil’ares, as ruas pupilam lojas eléctricas, onde os manequins esperam a moção impossível.

Pode ser o horror como pode a maravilha ser,
isto de viver.


Homens caducados obliteram o domingo, o leixões-académica de serviço, as horas derradeiras de cartão, esquecido o jornal a uma mesa despovoada, sobre que fulgura de baquelite o cinzeiro com quatro beatas (duas borradas de bâton barato). Piscam no lombo da serra os moinhos eólicos, hélices de avião nenhum, contra um céu deslavado a aguarrás. A máquina cafeteira silva vapores arfados, envelhecem no mostrador os bolos rochosos que a segunda-feira de pombos comerá.

Pode ser o horror como pode a maravilha ser,
isto de viver.


Pombos atiram chumbo ao céu pardacento da segunda-feira, um pouco tempo antes de chover. Preparo mentalmente um chá lauto: de Ceilão, com marmelada portuguesa, queijo fundido, manteiga, mortadela azeitonada, anchovas aneladas de cebola e broa e Carter Dickson.

Pode ser o horror como pode a maravilha ser,
isto de viver.


A mulher-dos-sacos: heterónima da mulher-dos-gatos do bairro-dito-social. Passagem leve de uma leve angústia: ser impossível ler tudo o que foi escrito em todas as línguas. Impossível – como não viver toda a vida toda. Mordedura benigna do chá muito quente. Espectáculo pluvial: varetas de água-aço riscando com força a cinza respiratória, o aturdimento quase feliz dos cidadãos, o guarda-chuva a cinco euros na loja dos chineses, o nanismo dos papa-reformas a trote para a feira semanal, a televisão matinal tossindo alzheimer lusíada e astrologia brasileira,

Pode ser o horror como pode a maravilha ser,
isto de viver.


As árvores envernizadas de sol coruscavam a tarde muito ampla, esta tarde que vivemos tão atentamente. Era perto do mar: e o mar é o sítio que se move, é a nação apátrida de todos os olhares. Gente formigava pela avenida, tocava a areia com as patitas apreensivas.

Pode ser o horror como pode a maravilha ser,
isto de viver.


Lucidez implacável, impiedosa sobriedade.

Pode ser o horror como pode a maravilha ser,
isto de viver.


Pacíficas pacientes explosões de cinza: as oliveiras. Mísseis lustrais: os eucaliptos. São 7h29 da manhã e já preciso de salvação. Terras com nomes de santos, de acidentes naturais, de permanências do destino, de desejos. Grandes barcos: catedrais navegadoras, vento, água, ferro, tempo. Outono-me este Maio. Meu tempo: meu ferro. Árvore de ossos, meu corpo, atirador de bandeiras cada olhar. Braços preênseis, mãos gramáticas. Olho os mármores que passam: senhoras lacadas como psychés, cães solitários como príncipes, bêbados mansos embrulhados em sedas frias. Estuário, demolições e movimentos de terra, amaragens por conta, publicações e galerias, promessa de tarde nublada para hoje.

Pode ser o horror como pode a maravilha ser,
isto de viver.

10/05/2009

MENOS UMA HORA NOS AÇORES




Souto, Pombal e arredores, 28 e 30 de Abril e 10 de Maio de 2009



Tenho por estes dias procedido à angiografia da minha vida.
Gosto de recapturar as linhas opacas, intestinas, cerebrais da minha vida.
O pensamento faz de banda sonora non-stop do nosso filme.




Os campos passam de oliveiras perfumadas de terra
o rio atira pássaros aos beirais do vento pluvial
o comboio leva o olhar aos sem-fins do céu caído
a maior parte das pessoas aperta o casaco mental
a tristeza desenha jardins com pedras macias
florões de ferro guardam gatos e laranjeiras
operários crepusculares rondam os cafés frios
a velha dos sacos monologa cabisbaixos lixos
máquinas sós profetizam o acordar dos sonhos
o amor oxida como um limoeiro de quintal
meias palavras juncam reclamos avariados
a cidade repete-se alta na planície estelar
as pessoas são únicas como a lua
gruas perfilam o anoitecer e a solidão
em celas de cristal bocejam as cinderelas de pano
um homem velho lê prospectos de agência de viagens
animais pensam com o corpo todo na sombra toda
estradas de terra ligam pinhais desertos
os mortos esperam vivamente a revisão dos nomes
uma palavra azul procura uma boca vermelha
a alegria borbota antigamente
escusado trocar o coração por uma ideia.



Ou então



Somos de nós mesmos as margens opostas ao rio do tempo.
Alguns somos amados pelo barqueiro, que não termina
de retomar a vau a travessia. Creia-me, menina,
que de nós somos nós mesmos a todo o momento.



Nos sonhos decorrem as redes de espionagem, as coisas orientais do inconsciente aparelhado de lucidez e de amargura e de pequenos dispositivos fotoangiográficos radiopacos, tristes contrastes etc..
Tudo trabalha para o mármore.
A banda sonora é esporádica, a vida não é esporádica, o filme é esporádico, o cinema não é esporádico.
Nós numa península, ist(m)o que somos.
Somos, vamos, estamos indo, entes, sendo.
Sendas do sendo, ondas do indo.
Índicos, pacíficos, ocidentoccipitais, posteriores, monofásicos.
Marinheiros.
Trabalhadores por conta.



Nos quintais trabalham em vigilância os cães-securitas
só os lobos não passam recibo verde
as rolas explodem de patitas electrogrudadas, altitensas
por mim folheio as horas
sempre gostava de saber que fazem as mãos no sono
as pastorinhas de vidro nos fontanários de diamante
um dia isto não ser Portugal mas um café de aldeia
digo: um dia isto não ser a vida mas o mármore
o telefonema que repõe o futuro o fato cinza o feriado
a volta ao bairro onde os amigos se volveram avoengos
de neocrianças latejando lácteas pelas mãos velhas
o painel das almas azulibrancas purgado a Bach e a lixívia
e a cândidas infecções nascidas todas da bactéria de viver
contrasta no céu plúmbeo a eucaliptação nefelibata
mordedura de café-com-leite-pastel-de-nata
os sábados expressos plásticos burguesinhos horríveis
e a farmacologia e os combustíveis
sou de pequenas súbitas alegrias
a chávena que duplica o café
Dickson Carr e Carter Dickson serem o mesm’único
como idem Cecil Day-Lewis e Nicholas Blake
a teoria do caos na aparente loucura do fumo do cigarro
o prumo a nível do rio pedreiro
as tainhas como tiros de esponja na água dos barcos
tudo isto angiograficamente.



Java e Sumatra e Abrantes e Valladolid. Os camiões como lançamentos internacionais. As estradas esfregadas asperamente, os polícias de trânsito como pirilampos de óculos escuros. Gosto disto, enquanto vivo, em trânsito, entre lobos, vigiado por cães. Nemésio, Sena e Belo, idos em 1978, ano em que Cortázar estabelece subterrâneas correspondências bestiárias, seja isto o que for, em trânsito angiográfico, há uma hora como há três décadas, o mesm’único. Cofragem, betão, a foz do rio oceânico, a ponte, os apanhadores de isco, a madrugada embevecida, as palavras larvando cá dentro, a potência explosiva da bexiga, a nossa vida filada, filmada, propedêutica, mortal, Aspen, Malcolm, Montana, Avintes, Burg bei Magdeburg, tantas vozes, tanto mármore. Eu agora. Sexta-feira fiz 45 anos, sábado fui de carro a casa do empreiteiro receber o salário, adentrei aldeias e freguesias completamente portuguesas, profundamente portuguesas, feias e tristes e portuguesas, para lá ouvi Rossini, para cá ouvi Nick Cave, chovia cinza no ar cor-de-coelho, vi o aparato quieto de um desastre de viação sem feridos graves, voltei cedo para casa, Dickson Carr à noite, Os Crimes da Viúva Vermelha (1935), nº 24 da Colecção Vampiro, o sono aconteceu como uma manta de pálpebras, hoje à tarde vamos domingar ante a película Dogville, à noite vamos jantar a casa de um casal amigo e ovolactovegetariano. Cada vez que se escreve, inscreve-se o que é poesia no momento, amanhã será ou não, não faz diferença, não tem importância, por agora é (o) que é, mais dia menos hora.

Canzoada Assaltante