
Young Russian Jewess
Ellis Island, NY, 1905

Perto de nós as bandeiras da roupa deixada a secar como nós.
As lojas inaugurando por dentro a noite como cubos de luz.
Muitas cidades se fazem uma só numa só vida.
Trabalhei sem importância todo o dia, sinto-me bem.
Há bolo no aparador, café feito de fresco, regressam a casa os animais que instauram a lentidão dos regressos, os pensativos regressos dos animais e das casas e das perdas.
Alguns conduzem carros, outros balem, todos estão vivos e demoram-se.
Era isto que nos esperava, estes ofícios, a confirmação de um punhado de mentiras piedosas, viver e pensar nisso como se pensa numa pedra sozinha numa praia,
no inverno.



Adormecemos, somos de novo fetos astronautas
à deriva no regaço da mãe-noite, essa princesa
cheia de jóias frias.
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Noite de 13 de Fevereiro de 2009
DEPOIS A NOITE
É o sítio capaz dos desvalidos.
Flanela que a oftalmologia não favorece.
Território dos discos pe(r)didos.
Mãe q’engorda, pai q’emagrece.
Sítio de imos lobos. Raposas poucas
favorecem os faróis entelógicos.
No mais, as coisas são loucas.
Também os loucos estão e são lógicos.
Vamos ao Tó-Mário. Dinheiro,
enfim, é coisa pouca, no Canadá.
Antes te valera ser paneleiro.
Agora dá, ora não dá, Abrunheiro.
O corpo do menino é todo o menino.
Ele já favorece o sal, a areia e o sol.
O menino é uma das flores continentes
derredor. Não há que chatear a Natureza.
Os animais praticam uma elegância pobre:
sobrevivência se chama a elegância pobre
dos animais. Os animais são a elegância pobre
dos bichos. E os bichos são a elegância pobre,
meninos.
Dentro do idioma, a pessoa tem condições para resistir. Pode não ter mais nada. Pode só ter o idioma, só. Tendo idioma, tem resistência: é riquíssima.
É claro que dores excessivas, por excessivas, podem exceder o idioma: a morte de algum filho. Se Deus nos não livrar disso, por inExistência, então que as Estrelas. É claro.
Noite agora em Pombal. Li. Vi. Ouvi. Não conheço, mas reconheço.
Tempo das palavras novas, sim:
Céspides
Holograízes
Choupalimas
Favoríceas
Delumbantes
Temorquídeas
Semelumbrantes
Morrímeas
.
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Manhã de 12 de Fevereiro de 2009
Hoje: 25 anos exactos sobre a morte física de um gigante – Julio Cortázar: 1914-1984. Qual 1984?! 2009 e ss., isso sim.
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Fim da manhã e tarde de 13 de Fevereiro de 2009
A minha S. faz hoje anos.
Retomo, para concluí-la, a leitura de Europa, de Vasco da Gama Fernandes, edição do Autor, Leiria, 1953. Entre as páginas do volume, redescubro uma nota manuscrita:
“Confio no ensino dos campos.”
(Antero de Figueiredo, Jornadas em Portugal, 2ª ed. (1918), a pp. 52)
O universo parece-me eminentemente rural. O meu, digo. O teu e os vossos, não sei. Versos e universos, ele há muitos. Na manhã de domingo, quantos domingos e quantas manhãs. A minha e o meu nasceram frescos, banhados a ouro pelo lado casquinha das árvores. O ar, grande aquário. Fui um peixe vermelho e negro, cedo na pastelaria, entre comedores de farinha cozida e leitores de jornais desportivos.
Na manhã aniversária da minha S., sol e céu são uma bênção unificada. A luz alaranjeira-se toda. Há um grande ar lavado para respirar lavadamente. Vou a pé à cidade ter com ela. Um presente, um almoço, depois a tarde, a noite depois. (Antes de almoço, compro-lhe, na Livraria K de Livro, Robert Doisneau, edição fotográfica da Taschen. Florista encerrada mais cedo, impossível levar-lhe uma rosa amarela. Alegria: ao desbarato, um livro profusamente ilustrado sobre a Buenos Aires de Borges e um Roteiro de/sobre Italo Calvino: leituras seguintes em linha, de que me/vos darei conta, talvez.)
À espera de S. para almoçar. Nas escadas rolantes do centro comercial (chama-se, em vernáculo, PombalShopping), vejo um ser feminino de boa envergadura, calças de tinta vermelha, cabeleira de tinta preta. Ancas muito simétricas, de um magnetismo enérgico. Cabelo comprido e liso, cerceado ao alto por um risco branco-nácar de salão. Uma comedora de fatias de quíche, saladas em pires fácetefúde. Agradável à vista, que não ao tacto, na hora solar.
Depois de almoço (ela bacalhoou à Gomes de Sá; eu fui, e bem, pela raia grelhada), o Sol continua a ser a notícia mais esclarecida do dia. Breve volta pelas papelarias em busca de cartuchos de tinta permanente de cor alternativa a preto e azul. Não havia. O desejo era (ainda é) escrever com uma tinta que desse este desmesurado branco todo, que sufraga a existência e a hora, que exalta a eternidade rápida da beleza do mundo. Mas já leio o Calvino. Vasco da Gama Fernandes esperará um pouco mais.
No fundo como à superfície, trata-se(-me) de aproveitar a vida para escrevê-la e de escrever a vida para vivê-la.
Não pretendo dizer mais nem menos do que isto.
Na tarde soalheira, o Adriano do Talho idem e o Amadeu do Mercadinho (agora também com loja anexa para abastecimento de produtos para animais, onde era antigamente o Restaurante Verde Gaio de outra memória, servido à mesa pelo mui benfiquista senhor Abel) conversam soalheiramente. Vejo-os à distância, não me meto agora com eles, que vim fumar à rua e depressa fumo, já que quase completei a leitura deliciada e séria de Italo Calvino – um Roteiro, edição de 1996 da Editorial Teorema – o Roteiro propriamente dito é de Mario Barenghi e Bruno Falcetto; a Bibliografia é de José Colaço Barreiros. (Já agora, como a Teorema foi absorvida por um paramonopólio editorial luso, o ex-distribuidor da editorial anda pelas livrarias da amargura a recolher dez-réis-de-mel-coado em sobressaldos de gigantes como Calvino e Norman McLean, entre outros: Palavra do Senhor, Graças a Deus.) Depois a noite.
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Entardenoitecer de 11 de Fevereiro de 2009
OFERENDA NENHUMA
Aos exércitos da noite assiste a impiedade.
Furtivos homens mínimos rescendem a bosque.
Sou já também uma sombra na cidade,
um mínimo furtivo ser dos que
existem por a pura contramão.
Toca a rebate o fim das merendas.
Recolhem a casa solidões em solidão.
A impiedade é, não há oferendas.
Posto isto, assimilo devagar a flor retórica de Cortesão a propósito do ulterior franciscanismo social-cristão do Eça dos últimos anos. Em paralelo, habito o Canadá novofrancês de XVI e XVII: Quebeque, Montreal e Trois-Rivières, principalmente.
Tardias figuras conjuram-me versos a cuja factura resisto: mais e mais prosaico, voltei a ler contra os dias muito adentro e afora. Não é já a tristeza, mas uma espécie de brandura banhomariana, um torpor que chego a confundir com uma tranquilidade.
Na madrugada, visão em casa de um documentário: The Bridge, a propósito de um ano (2004) de (24) suicídios (reais, realíssimos, humaníssimos, flagrantes) na Golden Gate Bridge, em S. Francisco, EUA. Filme de uma delicadeza cirúrgica e de uma contenção lírica absolutamente desarmante. Homens e mulheres à beira do desespero e da solução final: mergulhando na brevíssima glória do alívio. Os que ficaram deles e delas sem elas e sem eles. Os nomes, as idades, as doenças, os problemas – tanta humanidade em um só ano, em uma ponte só (e tão bonita, a porra da ponte inaugurada em 1937).
Finda a ponte, regressei ao Canadá da Nova França e quase não pensei mais naquelas pessoas voadoras, anjos pesados, traídos e levados pela gravidade fluente das águas.