17/12/2008

Écloga Tríptica de Clarisse Nardo Nómada Gentil com Post-Scriptum mais X Sonetos Bárbaros e Felizes

© Sandra Bernardo
Menina em Fuga
31 de Agosto de 2008, Cabanas de Viriato



Pombal e Casa, Souto, dias 8, 9 e 15 de Dezembro de 2008





Quisera adormecer
como a criança acorda.
à beira de outro tempo, que é o nosso.

Só quero o que não posso.

Jorge de Sena, 8/4/1953,
in 40 Anos de Servidão



Écloga Tríptica
de Clarisse Nardo Nómada Gentil


(E o tempo junta-se a si mesmo como água,
chamado pela terra – como a grávida se junta
dentro da criança dentro dela: e o ar enche-se
de bandeiras vermelhas (negras ao longe)
como gritos de pano, como os primeiros
versos recolhidos pela cabeça cada
amanhecer)


I

A criança continua a ocorrer na pessoa consagrada.
Ribeiros escuros fluem-na eclogamente.
A criança é já pastoril para consagrar a solidão
da pessoa.
Revivescências na criança são da futura pessoa
antecipada.
Ela é radial e cêntrica e receptora.
O crime fervilha nela como um vento no cabelo.
Ela remexe a terra, depois cheira as mãos.
Tem clarões de revelação, que esquece para
sobreviver.
Só depois de morrer é pessoa: consagra-se
de escuros ribeiros, escuros fluidos.
E de éclogas escuras se consagra.

Seguem-se luxos e indigências, poeiras do corpo.
A poedeira morte desova clarões coloridos, níveos.
A vida assobia para o lado, plutarquiza-se, cenografa-se.
Ázima, inconsútil, treda e vera: a vida.
Quantas pessoas terão de ter sido para ser uma criança?
A criança é tê-la sido, impossível sê-la e estar vivo
em pessoa, entre prédios e bairros sociais.
E as ideias são os fantasmas dos acontecimentos.

Azula frios o carro de polícia pejado de primatas.
Já a mulher dos tremoços recolhe ao covil,
onde a aguarda e guarda um falo de palha.
A pessoa ao colo da criança trabalha na retrosaria.
A pessoa ao colo da criança trabalha no banco.
A pessoa ao colo da criança dá de beber aos animais.
A pessoa ao colo da criança está toda cagada das pombas.
A tristeza dá o colo à criança coleccionadora
de intervalos de pombas.

A pessoa não continua a criança senão dormindo.
A pessoa dorme a vida sempre que pode
velozmente.
Fulminam granadas azuis: o gelo da polícia
nas empenas dos prédios comunitários, onde
os cigarros de alcatrão e as injecções de mijo.
Cafés congelados no espaço-tempo, tantos,
um a um na múltipla cidadela única.
Dentro, as famílias não simultâneas:
as pessoas e as crianças em ficções paralelas,
simetrias orgânicas que pensam
contrariamente.

Desce ao palco profundo a pensativa pessoa,
que convalesce do nascimento interrupto da infância,
espumosos os cantos da boca de cavalo contribuinte
taxado a anti-histamínicos e a mordeduras de freio.
Ao longo da avenida marítima enregelam
candeeiros e vulvas de aluguer,
entre futuros ressequidos de pretéritos
e demais janelinhas caiadas em torno.
Perde-se a pessoa da criança – e que ganha?
Não alótropos do elemento carbono senão
os do céu estrelado quando é (era) Verão.
Se, por azar, lhe calha em sorte
alguma, como a poesia, arte vegetativa,
a pessoa perde-se de todo de toda a criança
que ainda é por ela a não ser.
Inútil e ocioso, por isso, escrever.

A criança Clarisse Nardo e a pessoa Nómada Gentil
desavêm-se no poço vidente – o sono frio,
entre bosques projectados pela poalha lunar.
E então eu entro em ela.



II

Que teve a criança de hierofanta,
que se sagrou e consagrou e sangrou em ela?
Éclogas escuras disse algum dia
a pastoras entenebrecidas ante
claros ribeiros álgidos lascados a prata?
Entro para reconhecer em Clarisse a criança,
crescida para Nardo, nómada e gentil pastorinha
e moribunda e nascitura na boca
sumarenta e sumaríssima,
em que as orações estalam dentes
e estrelejam cuspos.

Esta é a única criança – e eu mor(r)o nela
para poder envelhecer, para a fria manhã
de duras artérias: o comércio, a extinção,
as revoadas primaveris de pássaros recordados.

Dois pássaros: um único cativado no espelho
da lagoa.

Nenhuma lagoa.

Então, a segunda-feira bate portas e janelas,
a comunidade merca pedaços de animais,
braçadas de legumes, panos molhados de escarlate
e amarelaçafrão, rebuçados de mentol
que acordam no palato ventanias e lavandas,
estepes e estepes de cavalos degolados no talho,
colares de peixes fluviais atados pelos olhos com vime,
frutas apedrejadas à nascença por homens tortos,
casacos pesados como pesadelos,
cadernos de papel-de-seda sem marca-de-água,
bandeiras negras (vermelhas ao perto),
lacres de sinalização das bocas das mulheres,
sapatos minerais de defunto em trânsito,
louças grossas, calendários com mamas,
peças de bicicleta, lápis azuis de celestino bico,
pastéis folhados como livros,
perucas de calva metonímica,
autógrafos de pugilistas caídos
em desuso,
pagelas do Irmão Doutor Sousa Martins,
da Sãozinha da Abrigada, da Alexandrina de Balasar,
da Santa Clara de Assis, da Sofia Kovalewsky,
da Eva Lavallière, do Bernardo do Marvão,
do Alferes Fernando, dos padres Cruz e Américo,
essas pedrarias engastadas no forro católico
das almas que não lêem o corpo.

Eu bato então a segunda-feira sem Clarisse,
é intensa a minha solidão demandadora,
a criança onde?, aonde a criança?,
range-me de frio a ossatura centígrada,
levo de lado a cabeça como um pássaro pintado,
galinho pela vilaldeia como um tonto,
profeta de ontens debruados a ouropel e a fantasia
(os tomates da tua tia,
ó poeta!) ,
e a falecida criança instala a autarquia
vitalícia das mortandades: a casa sem gente
em cujo pátio florescem o mato e o cadáver do gato,
a esquadra de polícia pejada de soldadinhos desconhecidos,
as grávidas que consagram o mundo à Virgem Maria,
as cabeleireiras pintadas de cor-de-chá-velho,
os cadaverosos reinos da santa ignorância,
a palha sobre que voga o coma pensativo da vaca,
a churrasqueira onde cresta a ave,
os cânticos de Natal ladrados electricamente
pelo altifalante da Câmara,
as jaquetas de padrão aos quadrados,
os pescadores de lixo bolinando sarjetas,
a altitude nevada dos adormecidos,
o leite recordado pelo corpo alheio,
os comedores de batatas, os tomadores de infusas,
alvíssaras de pão em gangrenadas gengivas,
salgueiros e madressilvas pendendo para as águas,
um homem chamado Francisco,
um rio chamado Lena,
Francisco Rodrigues Lobo afogado no Tejo
há anos de mais para ser verdade,
a minha amiga Clarisse afogada de idade
ela também,
eu dentro dela sacudindo o pó ao retrato
(e o mato e o cadáver do gato),
a rapariga carteira sorrindo além,
o motorista dizendo adeus ao agente de polícia,
a espadaúda envergadura da tristeza
nos nossos ombros, escombros,
Leiria e Coimbra e Lisboa quatrocentos anos depois,
depois de quê depois de nada,
Clarisse em Odemira Vila Viçosa Miranda do Douro
Alportel Lagos Olho Marinho Óbidos Santarém,
quantos portugais terão de ter sido
para uma criança veloz.

Recordo
(não é um sonho, não é uma revelação):
íamos por um corredor alto, tocavam música
no grande salão, talvez o Opus Ensemble,
talvez alguma brincadeira do Teatro Experimental do Porto,
tínhamo-nos dado as mãos como gavinhas,
vegetávamos na terra-de-ninguém da
finiadolescência,
o sol palhetava de ouro as janelas enormes,
a música era muito boa, engrandecia-nos,
exaltava-nos como um vento no cabelo,
subia-nos as vísceras às constelações,
o retrato de um bispo guardava rebanho nenhum,
era tudo por assim dizer uma écloga,
uma transparência diáfana,
Clarisse e eu éramos buscados pela ourivesaria
da luz, de terças-feiras não labirínticas,

onde nós agora?, aonde nós então?
Cala-se Clarisse e eu não disse.



III

Sossego agora, ante lembradas águas de esquecido rio.
Falece aos poucos a breve tarde, que frio fogo foi.
Nada me dói, sequer a certeza da incerteza, a vida.
Não tremo nem estremeço de cornadas de cio.
Não, nada do que foi me dói.
Cumpro a jornada chegada e partida.

Há nisto uma frutada aceitação.
Palhas milhas, trigas e centeias bulho, campesino.
Em plena cidade, da aldeia o sino
diz badalim, fala de mim, badalão.

Cruzilhados caminhos guardam alminhas,
da morte-de-homem vigia cruzeiro.
De sendas sendeiro, de barros de vinhas,
eu guardo e toco sem pressa e ligeiro.

Quanta beleza no que perdemos!
Quanta prata, quanto ferro!
Não mais prantearei nem deuses nem demos,
que dentro é a pátria – e adentro o desterro.

Famílias, mobílias, buganvílias,
poalha açafrã das bandas da serra.
E mil pastorinhas (Marílias, Adílias)
tocando ovelhinhas à flor da mãe-terra.

Grácil Clarisse, minha meninice,
nascida da tinta da minha caneta,
és grácil e frágil e mais do que disse
o quanto dobraram sino e sineta.

Amanhã como ontem no mais. No mais
o fulgor dos musgos, dos grilos, do Verão.
Um amor à infância, tantos portugais
para marcar no mapa da ’nha condição.

Sossego. Sossego e aceitação.
O claro rio frio aguando facas.
Num campo, as pensativas vacas.
Perto, a silhueta de um cão.

Saúde e pão. Laranjas e vinho.
Fervente o caldo tomado à lareira.
Recordações esbraseadas sozinho,
p’la frente se estende a noite inteira.

O que não posso, quero, como Jorge quis.
O que não quero, posso, não crer é poder.
Gosto de sardinhas e gosto de anis,
também de galinhas e de feliz ser.

Poucas vezes. Certas tardes, antigamente,
o Verão era uma coisa de família.
Depois, nosso Pai deixou-se – e à gente
mais não restou que alguma mobília.

Conto quilómetros, horas, quartas-feiras.
Clarisse adormece em sedas de som.
Não faz tanto frio, à lareira é bom
tomar a infusa, pensar laranjeiras.

Ovelhinhas e cabrinhas, mondegos de arroz
espraiam-me os mortos da nomenclatura.
A torre dá horas, que a noite dispôs
em rosário de contas que são d’amargura.

A feliz tristeza da gente miúda
preenche as lojinhas de múrmuro esperanto.
Uma criança desenha sozinha a um canto.
Nos valha o Doutor, que Deus nos acuda:
e o Demo nos tome sem precisar de ajuda.

Volvem-se longes as pálidas terras,
igrejinhas sem Deus caiam horizontes.
Um pássaro lê a água das fontes
que tremem de frio em sopés de serras.

Anoitece. Um rubro fulgor fulgura aléns.
Recolhe a pobreza ao pardo tugúrio.
Viver é só ter da morte o augúrio,
um caso de ocaso em meio a ninguéns.

Clarisse veríssima em o meu coração
cinge suaves fitas facundas, sagradas.
No Verão era bom tomar limonadas,
esmeraldino sangue de verde limão.

Passam rios, horas passavam.
A dolente criança a um canto esboçava
o retrato da hora por que ela passava,
como tudo passa – por graça, estavam

vivos ’inda meus mortos. Eu desenhava
então, que ora só já canto.
Não cheguei a aprender qualquer esperanto
– só em português tudo me chegava.

Clarisse Nardo Nómada Gentil,
menino e moça da comum infância.
Do ser a ter sido vai grande distância.
Duas almas são uma – e uma é mil.

De quantas crianças precisarei ’inda
para um velho ser esta segunda-feira?
Vista de lado, a aldeia é linda.
É vila, é cidade, é a terra inteira.

Prometo-me resignação e caldos de galinha.
Leio Rodrigues Lobo, Camões, Figueiredo.
Já não tenho idade p’ra ressentir medo.
D’angústia um nada, em vindo a noitinha.

Por fortuna, Clarisse, mais não requeiro
que do peixe a posta enxuta e salgada.
E de dias ainda talvez um milheiro,
sempre são três anos, conta mal contada.

(Dá-me um perdão qualquer, criança minha,
leva-me a ver os barcos que pontuam o mar.
Paga-me refrescos, que a sede é daninha
e eu tenho tempo, infante, p’ra estar.)

Olha!, a carrinha do minimercado
que traz ovos frescos e mil requeijões.
Dois ciganos rondam, ali mesmo ao lado,
caída andorinha junto a dois latões.

Eu queria o meu rio, mas não posso rios.
Queria um mar meu, mas mar algum é
de alguém quem quer que seja, isto são desvarios,
Jacinto, Bernardo, Joaquim, José.

Clarisse Nardo Nómada Gentil,
a doce menina do amargo menino.
Nisto, das profundas lascadas do puro anil,
toa soa dobra redobra um sino.

Belo livro de iluminuras, ter sido.
Não ser um dia, belo livro também.
Elanguesce, líria, a jacinta-de-água Mãe,
no ido presente, no futuro olvido.

Trigueira, milheira, a loura criança
revive o ter-sido no ser-nunca-mais.
De quantos nomes velhos se escreve a distância?
Quantas terras nossas? Quantos portugais?

Riscos de limão, dulcíssimo azedume.
Zimbro e zoeira e xilogravuras.
(Eu escrevo ao frio, que é meu costume
prosar sensatez. O mais são loucuras,
Clarisse, o amor e as nomenclaturas.)

Pára na rua um cão. Velhote, bonito.
Esquerda-direita, decide e parte.
Quem como ele fosse – e ter arte
p’ra decidir e partir e não ser só finito.

Um finito, senhor César! E um torresmo,
que o Inverno vinga lá fora a cobrar
a um velho novo o outono mesmo
da vida que passa – viver é passar.

Ter esta idade é ser um dos esmoleres
de óbolos crus, de liminares untos.
Ao balcão de César, surgem os assuntos:
assaltos a bancos, e bola, e mulheres.

Meia tarde. Que dia é? Que horas são?
Encarnadas fitas desprend’ o coração
em meio à tarde, que tão fria arde.
’ind ’assim sossego, sem mais alarde.

Sossego e me resigno, que me não persigno.
Tenho pouco deus, tirando os santos,
que são cruzilhados e tontos e santos
– e nem todo o santo é santo benigno.

Viver é mandato a mais obrigado
que a vivo estar, que o ser é morrer.
Sai-se à sexta-feira, há vinho, há fado,
que haja azeitonas, em podendo ser.

Nenhuma cidade, nenhuma York, nova ou antiga,
pôde jamais convocar o luso rosmaninho.
Português é ser nascido em pergaminho,
é ser a turva trova, ser em cantiga.

Quer’ eu da nesp’reira celebrar a pepita
que humílima brota em dádiva pura.
Até a abob’rinha usa ser bonita,
subida ao telhado mirando a lonjura.

Fuzila o cevado seus untos maneiros,
refila o galo vermelhos ciúmes.
Grasna a patareca avó aos carneiros
qu’ invadindo a horta devastam legumes.

Do posto e dito, já vês tu, Clarisse,
o quanto uma língua lembra um menino.
E a écloga feita, desfeita meninice,
’ind ’assim não nega, mas cumpre destino.



Post-Scriptum

A noite veio toda de uma vez como certas
chuvas acordam no coração e no pátio
de repente.
Faz muito frio, nem parece coisa de país
com tanto mar à janela.
Entrei ontem numa pizzaria, havia namorados
quatro-estações de caprichosas maneiras.
Era pelo começo da tarde, domingo acontecia
como a onda da praia se embrulha e solta,
contemporânea de si mesma.
Eu tocava o meu gado interior, que não
é conveniente apascentar em fala pública
nem écloga nem vilancete.
Hoje espero outra hora perto da via rápida.
Gosto de ver passar o mudo carbónico:
os camiões grandes como comboios, os
comerciais de dois lugares com um só tripulado,
as motas varejeiras que assobiam vórtices,
os carros da brigada de trânsito bigbrotherizando
os costumes. Gosto.
Esta noite aperto o corpo dentro de escura roupa.
Tenho Rodrigues Lobo em casa – e Camões
e Antero de Figueiredo: não sou assim tão
pobre.

Tudo está ’ind ’em aberto.
Tomei algumas notas sobre a repetição dos futuros:
o expediente das casas comerciais, a menopausa
da mulher dos tremoços, o curvo ar de corvo
batido do advogado dado ao absinto e ao jogo,
a memória refractária da essencial mentira
do amor, a saudade estival (1970), os versos
escritos por gente que conheço do meu lado da
guerra, o último azul do dia (primeiro da
noite), a frauta pastoril e a medieva frecha,
a cientificamente irrecusável esquizofrenia
de toda a criança, a dolorosa paz que desce
com a música à enterocolite da alma,
talvez Doença de Crohn matando Eça em Neuilly,
Ramalho sobrevivendo quinze anos
a seu amigo José Maria,
o meu lápis em foz de tinta, o sertão que
a solidão é, os grandes planos de avenidas novas
que Clarisse já não conheceu, a vida
a olhar-nos canhota como um pássaro
ante uma lagoa que por não correr não é rio,
os amigos de peito feito ao balcão do senhor César,
a Lua tudo lascando argentinamente,
a mente carburando efervescências sinápticas,
os pés muito frios dos velhos nos bancos da avenida
velha, os guarda-chuvas deles nodosos como artroses,
esta virose de viver em diametral oposição às leis
do mercado,
o pastor Bensafrim e Bernardino e Afonso e
Bernardim, estas coisas na cabeça
como semáforos ou faróis ou presenças barqueiras,
os relatos de naufrágios, os crimes passionais,
as lotarias improváveis, a dodecafonia e a caco sua irmã,
quem acode à lembrança dos ilustres mortos de
enciclopédia? (Plutarquizar é preciso, digo eu),
tenho tempo mas este não é o meu tempo,
pena não ser possível dinamitar as centrais de
televisão, pena não ter o meu Pai vivo
para uma chávena de infusa de limão e uma viagem a
1924, quando o Outono lhe criou a mulher
minha original Mãe, Clarisse ela também
à maneira dela.

Agora o meu lápis volta a ser madeira,
que deito ao rio, a cuja margem acodem
Clarisse e um homem já velho na nova
noite: e não, York alguma nos poderá
eclogar senão em portuguesa língua.



X Sonetos Bárbaros e Felizes

I

Acode ao aspérrimo idioma dos solitários
a bárbara sílaba, a rústica sentença.
Fragas e penedias concorrem ao frasear,
que de crocitos vive, onomatopaico.

Derredor, a História segrega conjuras,
repetidoras de fábulas velhíssimas:
a posse de uma mulher, o gume da faca,
o voador couro do cavalo, a ânsia do mar.

De tudo me sobra senão vago vislumbre.
Useiro de baço entendimento, meu pensamento
come o pão muito ázimo dos lerdos.

’ind ’assim sou feliz cada amanhecer,
vaga diária imitação do nascer,
pois nem tudo é morte em quando a não for.



II

Urde tigrismos a mansa da casa gata,
desperta do sono pelo rumor da folha.
Toda a unta o Outono de mansidões
que, não veras, escondem o brusco felino.

Nenhum pardal ousa e usa no varandim
o poiso ligeiro, sequer por instantes.
Fals’ adormecida, a bela pantera
nem mia, se espia da ave o voo calígrafo.

O frio chegando, ao colo subida. Busca e dá
calor à ossatura de quem, a tendo,
dela é tido, vilegiaturando a vida breve.

Se amo na gata a mulher escondida,
é bem que eu amo: nem toda a fêmea
é p’ra toda a vida.



III

Só quero uma sala mínima. Exerço a espera,
preparo a antemão, sou rapidamente feliz,
sumário e circunscrito a meus órgãos,
vitais todos eles como é de cartilha.

Quero-me mínimo em tal sala. Conheço
longamente o rumor dos livros que subjugam
o coração. Que festim de mortos redivivos,
os autores! Quanto novo nascimento!

Imos sentidos emaranham a voz intestina,
alabastrina voz que assombra inglaterras.
Derredor, a chuva orizicultiva.

Só quero esta cadeira, estas cinzas só quero.
Tenho os retratos deles e deles os livros.
Exerço a espera – eu exerço a espera.



IV

Aprecia comigo a brancura das senhoras
que em chita passam qual fosse veludo.
Começa o século, horas voadoras
consomem senhoras e a nós e a tudo.

Vem tu comigo ver de papel os barcos
de giz bolinando na ardósia da foz.
Temos de nos ser antes que de nós
nem madeiras sobrem de esquifes e berços.

Dos altos pintores, pranchas estaleiras
trepam penedias e construções civis.
Da pedra dos ossos não sobram madeiras,
mas são tão formosos os barcos, o giz.

Do que apreciares, não escondas recado,
que a morte é defronte e a vida ao lado.



V

Tenho tempo para um copo, duas frases,
três terças-feiras, quatro anos,
cinco oceanos, seis poemas,
sete saias, oito noites.

Não tenho um milagre, duas orações,
três pés-de-galo, quatro cruzes,
cinco dedos só, seis dilemas,
sete raias, oito mortes.

Tenho um minuto, dois segundos,
três horas, quatro dias,
cinco décadas, seis milénios,

sete sóis não tenho, nem oito luas.
Tudo tenho e tenho nada:
nem comigo conto para vos contar.



VI

Da porta da rua chegou enegrecida do que chovia
a senhora Madalena, que é topógrafa de infelicidades.
Deu as boas-noites, pediu chá e queijo,
espargiu a camilha da saia, tossiu ao de leve.

Fingiu que a não sentia o senhor Adalberto,
que é marceneiro e viúvo de há muito.
Em aberto segredo muito a ama e deseja,
mas sorte nenhuma, que ela é de respeito.

É bom cá o queijo e o chá bem perfuma
as áridas tardes nossas dominicais.
Senhores e senhoras do lado da chuva

acodem ao sítio, melhor entre os mais.
Eu bebo o meu porto, mordo o meu biscoito,
mas sem sete sóis, nem luas por oito.



VII

Escadaria central de grande hotel, muitos veludos,
levita para baixo Madame de L’Amertume.
A rói dentro tristeza, tristeza e ciúme.
No bar, o dela barão engata miúdos.

Quarteto de cordas emana madeiras,
serve Bastião travessas de chá.
Há dois ou três chulos, idem bebedeiras
e versos de Eliot e de Antonio Macha-

do. Madame L’Amère amarga grunhidos,
evita o marido que se baroneia
e pede ao barman uma dose e meia

de rija genebra em copos compridos.
É cena comum, comum e não rara:
chega ela ao barão, genebra-lhe a cara.



VIII

A dolicocefalia ainda estas bandas não atacou.
Um cancro que outro, é muito normal.
Aqui nos regemos por lei de Portugal,
é triste mas é quanto nos calhou.

Hirsutas queixadas e larguezas de ombros
masculam os bares de tinto paleio.
Sorteios de cegos e casas em escombros
são lusíadas coisas no mundo, que é feio.

Ou então não é, feio não é nada,
o mundo nascido connosco ao nascer.
Às vezes há merda, ele há bargalhada
por causa de um troco ou de uma mulher.

O resto é moral, é uso vezeiro
ser triste por dentro, por fora ligeiro.



IX

Não queira a aranha de gelo constelada
invernar-me a saída na tarde acabada,
não queira. Mereço algum, digo, respeito,
que a tudo dou cara e a tudo dou peito.

Tenho tristeza de açúcares. Padeço, inclusivamente,
do triste pensar mesmo que entristece a gente.
Aos fins-de-semana costumo acoitar
’ma melancolia toda crepuscular.

De resto, o meu Styron e o meu Brandão
ajudam e conjuram o meu coração.
Meu Rodrigues Lobo e meu Soares dos Passos
irmanam rimanços com os meus bagaços.

De resto, o rosto: e tudo é tão simples,
que quero um café e um balão de Dimples.



X

Estas sílabas te trago hoje, outras não posso
nem possuo. Disto fiz – ou desfiz – a vida minha,
que a ela, afinal e final, pertenço,
segundo penso.

Estas às vezes rimas, Clarisse, suponho
tiradas do pensar, assim como num sonho.
A branda tristeza é napoleónica:
uma mão na barriga, que é mole e é crónica.

Não nas leves a mal, Clarisse, às rimas,
recursos são elas das horas mais primas.

(Noitinhas adentro, coração de semeio,
lindo é Portugal, país que, de feio,
tem queixadas hirsutas e trinta mil putas
e marados conhaques que me são cicutas.)

11/12/2008

EU É QUE SOU O TIO DA MARIANA ABRUNHEIRO, A MINHA IRMÃ É MÃE DELA MAS EU SOU TIO E GOSTO MUITO DELA DESDE SEMPRE, POR ISSO EU SOU O TIO DA MARIANA

Estamos vivos
JOEL NETO
Há vinte anos, era assim: um homem gostava de música, gostava de divas - mas depois ouvia Teresa Salgueiro e sentia a necessidade de repensar tudo o que pensava sobre ambas as coisas. Para além da amplitude e da imensa delicadeza, havia naquela voz ao mesmo tempo uma dimensão pastoral e outra urbana que, quando a ouvíamos, sentíamo-nos subitamente de lado nenhum e de todo o lado ao mesmo tempo - e isso, num país que começava enfim a desenvolver-se, virava de imediato uma espécie de biografia de cada um de nós.
Não é exactamente isso o que se passa com Mariana Abrunheiro. Mais sombria, mais intimista e, inclusive, mais sofisticada, a voz de Mariana é mensageira de um tempo novo. Acontece que também nós estamos num tempo novo, todos nós juntos e cada um por si - e portanto Pedro Ayres de Magalhães volta a acertar em cheio.
Depois da saída de Teresa Salgueiro, José Peixoto e Fernando Júdice, os Madredeus (Ayres Magalhães e Carlos Maria Trindade, pois) entram numa nova fase. Passam a chamar-se Madredeus & A Banda Cósmica - e, em vez de Teresa, trazem agora na voz duas cantoras diferentes: Mariana Abrunheiro e Rita Damásio.

Dancemos com gardénias e Ibrahim Ferrer

Rosário Breve nº 81 - crónica desta semana n'O Ribatejo do costume (www.oribatejo.pt)

Animar a malta é o que faz


Telmo Correia, CDS-PP, falta.
Teresa Vasconcelos Caeiro, CDS-PP, falta.
Honório Novo, PCP, falta.
Fátima Pimenta, PS, ausência em missão parlamentar (AMP).
Hortense Martins, PS, AMP.
João Soares, PS, AMP.
José Vera Jardim, PS, AMP.
Maximiano Martins, PS, AMP.
Joaquim Couto, PS, falta.
Marta Rebelo, PS, falta.
Mota Andrade, PS, falta.
Paula Nobre de Deus, PS, falta.
Maria Manuel Oliveira, PS, falta justificada por doença.
Duarte Pacheco, PSD, AMP.
José Freire Antunes, PSD, AMP.
José Luís Arnaut, PSD, AMP.
Mendes Bota, PSD, AMP.
Mota Amaral, PSD, AMP.
Agostinho Branquinho, PSD, falta.
António Almeida Henriques, PSD, falta.
António Montalvão Machado, PSD, falta.
Carlos Páscoa Gonçalves, PSD, falta.
Duarte Lima, PSD, falta.
Henrique Rocha de Freitas, PSD, falta.
Jorge Costa, PSD, falta.
Jorge Neto, PSD, falta.
Jorge Pereira, PSD, falta.
Jorge Varanda, PSD, falta.
José de Matos Correia, PSD, falta.
Miguel Frasquilho, PSD, falta.
Pedro Santana Lopes, PSD, falta.
Rui Gomes da Silva, PSD, falta.
Virgílio Almeida Costa, PSD, falta.

Mas a mim não me fazem falta nenhuma, eu seja ceguinho.

Yes I am an alien from Mars

09/12/2008

Não Sei se vos Disse já das Árvores


© Sandra Bernardo
5 de Novembro de 2008, Cabanas de Viriato


Este poema com árvore(s) é
(só podia ser)
para a minha tão querida e arbórea
Irmã(e) Xelinha

Casa, Souto, entardenoitecer de 9 de Dezembro de 2008




Impressão digital do Deus sem mãos nem filhos,
cada árvore vale por um atestado de orfandade.
Vale-me cada uma a mim, digo, que nada sei
nem de silvicultura nem Dele, nem Ele sabe.

Tenho passado o meu tempo a olhá-las no tempo delas.
Valem-me de muito.
O mais do tempo, ficam à beira da estrada como as putas.
Babujam a noite a partir de seus corações astrofísicos.
Eu olho-as, sabendo-as lenha e ar e cinza e demora.

São de uma primaveração inelutável, fábricas teimosas
de coisas siderais como anúncios de bailes
e pardais.

Casulos nodosos, formigam de braçadas genealógicas
sem outra lógica que a da persistência da seiva.
À sua sombra, as raparigas farfalham chitas e hímenes
lancetados a nácar e a espargo.

As da África tvdocumentarista raiam os ilimites
do deserto, tracejam a negro o amarelo perpétuo
da sede, do casaco dos leões, riscos de ampulheta
no tempo desumano.

As do Caramulo fremem de fantasmas pneumotorácicos,
albergues efémeros de senhorinhas condenadas ao agravo
dos casamentos alheios, dos espirros de sangue, do éter
que deliquesce a fala, bebedoras de lágrimas.

As de Coimbra estão condenadas à infância e à senilidade,
ramos aliás sinónimos. Um rio delas mana, empernador de
lavadeiras e afogador de ciganitos e de coelhos.

Muitas vezes senti sobre elas o compasso do milhafre,
a espuma do avião a jacto, esse giz deixado cair pelos
anjos escolares do meu tempo, os que levávamos a
enterrar no tempo da permilagem.

Muitas vezes senti través elas o mistério simples
dos labirintos verticais (anúncios de bailes
e pardais.)

Muitas vezes senti sob elas o vesúviozito onanista
das primícias moribundas da infância, quando as
meninas se arraparigaram para amulherecer
para sempre.

Tenho uma árvore no quintal.
Pertenço a este cedro, a este soberano de caracóis,
a este mágico sem circo nem volta a dar.
Quando, noite fechada, venho à varanda fumar,
toco-lhe o cabelo.
Ele ronrona e pede-me água,
que lha dou dos meus olhos
sempre.

O histórico, mítico, místico, único, inigualável Dark Side of the Moon só com vozes? A sério?

Aqui, que foi onde soube desta e de muitas outras coisas que, pela música, me/vos negam e renegam o direito à infelicidade:

http://oquevemarede.blogspot.com/

Maria Schneider Orchestra

08/12/2008

Imaculada Ronda Columbina, a de hoje


Hoje, por ser o dia que é, a Ronda Columbina vai ser cantada só por mulheres.
A imagem é A Imaculada Conceição, por Bartolomé Murillo, residente no Museu do Prado, Madrid.
O alinhamento musical prevê, entre outras senhoras, Amy Winehouse, Luz Casal, Rosa Passos,
Patricia Barber, Esperanza Spalding, Barbara Hendricks, Regina Carter com Cassandra Wilson,
Robin McKelle, Trijntje Oosterhuis e Anne Sofie von Otter.
Hoje é só uma hora.
Das 20 às 21h00.
Em 87.6 FM e
Por ser ladies' night, os cavalheiros têm entrada gratuita.

Alônzí – Coisas Boas e até Bestiais para Prendinhas e Pedrinhas no Sapatinho dos Pés-Descalços






Casa, Souto, e Pombal, manhã de 8 de Dezembro de 2008



– No fundo, no fundo, sou uma mulher como as outras
– disse-me ela.
E eu confirmei que sim, enquanto lhe fazia o serviço.

Uma coisa muito boa das culturas multimilenares, como a China
(“o comando é Mao”), é a gente entrar nos armazéns dos chineses e encontrar a oitenta cêntimos embalagens de dez lápis muito bons para sublinhar as culturas e os milénios e assim.

Toda a gente gastou já manhãs inteiras a solfejar o primeiro farrapo de música ouvido ao acordar. Aconteceu-me hoje, dia da Imaculada Concepção da Virgem Maria, com o Agosto em Portugal, do senhor Roberto Leal. Mas também bloguei logo a coisa para não ser infeliz sozinho.

Hoje é feriado católico cá na república laica.
E somos todos muito praticantes quando é feriado, pois não somos?

As putinhas casadas gostam muito mas mesmo muito por fora dos livros que vêm nas revistas por mais só 9,99 euros por terem lombadas (os livros) a cores que ficam a matar na única estante do living , logo atrás do retrato do corno com os filhotes.

O Natal é bestial para se perceber a casa pia que Portugal é: um menino nu entre um burro e uma vaca à espera que o crucifiquem não tarda nada.

Um efeito evidentíssimo do carácter nefasto da globalização? Allons-y a ele: a insuportabilidade do James Blunt ser igualzinha às do João Pedro Pais, do André Sardet, do Represas e do Abrunhosa.

Na estação de serviço, uma moçoila de minissaia e blusa mostra-refegos servia-se de gasóile. Azar: gorda como uma gamela de unto, só lhe faltava um autocolante da PROBAR na nádega esquerda.

O desespero a conta-gotas cura-se a litro.

(Depois destas prendinhas-pedrinhas, não hesiteis em, infra, voltar para Portugal em Agosto com os nossos emigrantes. Allons-y!)

Antes que comecem a moer-me a glândula com boas-vontades de Natal, tomem lá Agosto em Portugal e tomem lá Roberto Leal etc e tal

Casuística Tabágica assaz Portátil para Deletreadores Dominicais


© John Singer Sargent - A Street in Venice (1882)

Casa, Souto, noite de domingo, 7 de Dezembro de 2008



Dá para comprar um maço de tabaco,
dá para dar uma volta enquanto
a bomba não cai, dá para quase tudo,
quase nada.

Uma rua de comércio às trevas da noite de domingo
(em Arraiolos, digamos)
é quanto basta para ligar
o Canadá ao Alaska,
digamos que
o Canadá ao Alaska.

O bater do coração e a temperatura do corpo
é o que se ouve passando à janela
de um lar televisor, as pessoas
apagadas lá dentro.

Não tem mal.
Também não tem mal que a bomba
arranje sempre maneira de cair,

chama-se noite.

E o mal e o bem e a televisão e a temperatura
enformam também a bomba portátil.

Digo estas coisas com toda a seriedade,
até porque tenho para o tabaco,
em princípio dá para ter mais noites.

Isto é um sapato, isto é uma ponte,
isto é uma via rápida, isto é uma vida rápida,
crustáceo não é bivalve, cegonha não é narceja.

As palavras organizam as coisas, um dia
(se calhar de noite) a pessoa nem é precisa.
O infinito é na cabeça, via rápida também.

Deu para comprar um maço de tabaco,
deu para na volta frigir rins com pimenta
em banha de porco, azeite e vinho branco,

dá para uma ou duas chávenas de café
caseiro. Espírito de corpo, espírito de
missão. Tudo muito fácil.

Supor pelas ruas de Arraiolos os viandantes
de, digamos, Singapura. A vela acesa
no imo de cada um, ele há cada uma.

Se chove, cada pessoa a bater as asas pessoais,
estralhaçando a calma e o frio, removendo
as pedras com as garras espessas.

A pessoa infinita no imo da cabeça, frialdades
e degelos concorrendo-lhe ao coração,
à condição jugular, a roupa posta a secar.

Antigamente, os bacalhaus chegavam de barco
como heróis escalados, os aviadores também,
o povo juntava-se muito alegrete e assaz pobrete.

O que acontecia antes do presente era
a História.
Isto não faz mal, está-feito-está-feito.

Se nos encontrássemos, irrigaríamos ambos
alguma coisa, drenaríamos talvez um
canal de comunicação, um bufete de cantores,
uma convenção de dentistas, um sínodo de periquitos,
nada nos faria mal, recorrência enformadora aliás
de uma períscia perissológica.

Mas não nos encontramos: em Arraiolos como em,
digamos,
Banguecoque – vive-se de sombras priscas mui dadas
à soledade e à temperatura das asas.

Que uma indiferença nos suba, qual seiva,
a dar flor e fruto, não tem mal,
enquanto haja para tabaco e para café.

Isto é a ponte sobre a via rápida, centenas
de carros por minuto, cada carro cada pessoa,
se chovesse muito e muito e mais

muito, poderia cada pessoa vislumbrar
corvos de seda a uma contraluz de prata,
guardas e guardas e guarda-chuvas,

não hoje, mas suponhamos que hoje,
rebentada a bomba da noite a frio,
quase no Alaska ou, digamos, em
Montalegre.

Estas coisas particulares na cabeça
perante a indiferença geral.

As Nossas Senhoras Heterónimas do catolicismo
previnem muito mas remedeiam nada,
pelo que há que seguir em frente

para dentro.

Fulminam, cerrando-se, taipais de rulotes de bifanas,
acabou há muito o jogo no estádio,
holofotes cegam-se a si mesmos
como ciclopes municipais.

Da costa do castelo (mental – digamos:
Almourol mental) chega ao coração
o perfume frio das árvores arrefecidas,

crisálidas de gelo, estrelas de gelo,
enquanto a maravilha reconforta
de nada ter importância nenhuma,

para além do momento em que cada pessoa é
tudo para si mesma, não tem mal.

Podendo, inventariar muito, o possível.
Como no anúncio esvoaçando lixo ao vento,
garantir uma divulgação eficaz dos serviços prestados.
(E dentro do coração a condição fito-fármaca,
a exegese hortofrutícola e a total disponibilidade.)

Que no momento do toque a quiralgia
não sobrevenha, a soledade seja fulgurante,
a pessoa sozinha com seu fantasma portátil.

Galgar em íncola linguagem qualquer rio bárbaro,
frechar de ideografias o silêncio mais polar
(o de Arraiolos, o do Alaska),
ter os pés numa ínsua chapinhada de tangerinas,

que alegria.

Abrir na casa fechada o esplendor do lume,
rilhar a gravilha das sílabas, ser lunar
como uma taça de grés cheia de leite.

Dar-me sem ti à gliptognosia e ao léxico náutico,
como qualquer pessoa deverá fazer,
sentindo para tal inclinação,

em Montalegre como no Quebeque.

Meio maço de cigarros já lá vai, dormem pessoas já
em suas refrigérias criptas matridemoniais,
umas menos, outras mais.

Ajudar o fantasma a brilhantes tiptologias, mas
de preferência em não acordados sonhos.
Romper o papel de parede só com a verruma da voz.

Serenidade. Mais léxico, mais serenidade.
Cordura e artes náuticas para domínio terrestre
mais afivelado.

Falanstério unipessoal – a cabeça que avança
dentro, sitiada a cidade original do coração
de dejectos, versos priscos e riscos perversos.

Tudo isto embora dentro, não anoitecer de todo,
crer que a manhã vem aí a lavar louçanias
e vitrais e sarabatanas e cães magérrimos
e cegonhas e narcejas.
Não, mal algum e nenhum bem.

Uma velha dama elanguescendo entre majólicas,
cheia de cólicas, na malária da velhice:
chama-se Sara, Liliana, Bess, Tess ou Alice,

sozinha como um cão que nem cadela se sabe:
megera outrora, agora egéria.

Imaginar isto tudo: recebido ao lume e
escrito às escuras.
(Sem ti ao lume, às escuras sem ti.)

Estas coisas acontecem com toda a calma na cabeça,
como o outono acontece no ano a que termina,
regaço dado à invernia, nunca longe de um rio.

Se há rio ou não em Arraiolos, não o saberemos,
que o há muitos no Alaska e no Canadá,
pessoas é que nem tanto e cada vez menos.

07/12/2008

Oh não, mais um poema dominical pela net!

Casa, Souto, entardenoitecer de domingo, 7 de Dezembro de 2008



Aquele senhor ali é tão importante como o que faz.
Não aceita nem recusa nem pensa na importância
seja do que for.

Isto dos domingos tem de que se lhe diga porque
um domingo a sério é sempre o dia de um senhor
como aquele ali.

Basta pensar na hipótese decerto absurda de alguém.
Alguém em casa ao domingo.
Alguém em casa ao domingo como aquele senhor ali.

Visto de fora, o prédio dos alguéns tem janelas do mesmo
tamanho, recortadas todas por dormências luminotécnicas
de televisor e de computador.

Na sala, marido/ou/mulher vê o televisor.
No quarto que foi do filho/ou/filha, ele/ou/ela interneta,
vá lá, poemas.

Eu vim à rua despejar o lixo como aquele senhor ali veio.
Eu trouxe este poema, já está despejado.
Mas ele pensa no que vai fazer em casa na volta, tv ou net.

Lã Di é como os Franceses chamam a Lady Dai (mas para essa também já demos)




Casa, Souto, manhã de domingo, 7 de Dezembro de 2008



Um tal Tales de Mileto não sei quem foi,
como Demócrito não sei, demos o carreguem.
Razão têm os Franceses em chamar dia-mancha
ao domingo,
jornada propícia à melancolia e à autocrítica,
não sei porquê, como não sei quem Tales
nem Demócrito, demos me carreguem.

Sai-se, enfim, pela manhã a tomar café quente
e a ver chover na esplanada
e a fumar egipciamente um cigarro,
antecipando a pressão da bexiga de todas
as chegadas a casa
para almoço
e melancolia.
É do dia e é da mancha, será:
jorna de peditórios cristianíssimos,
para os quais,
como para o de Demócrito,
já demos.

Tenho ali um Camões anotado para reler, o que é bom,
e têvêcabo para o mapling do costume, o que não é mau.
Há comer para as gatas até terça-feira.
Raciono mais do que raciocino, o que é mais ou menos.

Lá fora, no mundo onde chove, os divórcios, o chinquilho,
as pizzarias e as esposas dos médicos tomam decisões
apesar dos clínicos que são maridos das esposas dos
médicos.

Deus dorme pesadamente seu feriado.
Os caixas das estações de serviço, não:
a conversão de Constantino não veio assim de tão longe,
afinal.

Nisto, surgem Heraclito e Anaxímenes,
carregados por inqualificáveis demos.

E nunca mais é segunda-feira.

06/12/2008

M. destas Coisas

© Stephen Shore - County of Sutherland, Scotland,1988

Casa, Souto, entardenoitecer de 6 de Dezembro de 2008

Esse choro inicial de que rezam os obstetras
tem a ver com o clarão da cegueira do início.

Recém-cegos, nascidos para a reiteração
de uma raça sem espécie, de uma espécie
de raça arrasada de si mesma, nascente
para o moriturismo da permilagem de viver.

Cego, vejo ainda o monte fundamental,
de que desasado me despassarei outrora.
Passava em baixo o comboio, o mesmo
sempre, para sempre o mesmo, e cada

recém-vidente merecia já sua escócia
pessoal, seu condado portátil pejado
de pedrinhas e de obstetrícias no mínimo tristes,
deflagrando a noite de dentro das árvores.

Escócias e escórias: o mais da gente, por nós
começando. Ilusão nenhuma, alusão toda
embora. Vejamos, cegos embora: início,
a mãe feita desfiladeiro sangrento, amniótico,

o pai nalgum bar esperando o telefonema
para o número deixado na admissão,
o comércio do mundo seguindo em carrinhas,
entregas, voltas de colarinho e outras

costuras. Ainda assim (que aos cegos é dado
cheirar), o perfume do monte rosmaninhando
até os pequenos cadáveres animais que ensinam
o fim do nascimento: de todo o nascimento enfim.

Nenhuma escassez: montes destas coisas.

De o que Nos não Diria Mr. Anthony Eden mas lhe Digo Eu ante Vós


Organização final de textos: Casa, Souto, tarde de 6 de Dezembro de 2008
a partir de textos de 21 e 30 de Novembro e 5 de Dezembro do mesmo ano,
por esta ordem de aparição




I

Não faço ideia de o que nos diria
Mr. Anthony Eden
se o chá desta manhã aceitasse
connosco partilhar
com sanduíches triangulares de pepino
e biscoitos de canela indiana.
Talvez aceitasse
Mr. Anthony Eden
o chá e a visão do rapaz encanecido já
que nos enegrece as manhãs
tentando vender,
à esmola,
o Borda d’Água para 2009.
Ou talvez folheasse
Mr. Anthony Eden
a edição de
25 de Fevereiro de 1923
do
Jornal da Europa,
que traz a
Tragédia do “Rhona”,
não sei.

Muito provavelmente,
Mr. Anthony Eden
nos não alinharia
o paginado cavalheirismo pensativo de
Giordano Bruno, Descartes, Hobbes,
Locke, Berkeley, Newton,
Hume, Jamess (William, irmão de Henry),
Darwin, Spencer, Henri George,
Byron, Shaw, Buck, dos Passos,
Upton Sinclair, William Pitt.
Decerto não.

Talvez
Mr. Anthony Eden
aceitasse contemplar-nos com
as dualidades maniqueístas
que enformam as humanas:
Stanley/Livingstone, claro;
menos claro, Scott/Amundsen,
pelo que aos Ingleses doeu
a pragmática competência do Norueguês,
salvaguardada embora a dignidade
do capitão Inglês
em sua fatal demanda do
Extremo Sul.
(Póneis em vez de cães é que foi uma chatice.)

UM GRANDE TEMPORAL
NO TEJO NAUFRAGOU UM REBOCADOR
Mr. Anthony Eden
A TRAGÉDIA DO “RHONA”
CINCO GERAÇÕES DE HOMENS DO MAR
Da sua tripulação, de 8 homens, apenas dois conseguiram
ser salvos milagrosamente
Fábricas destruídas em Setúbal.
– Noutros pontos do país também
o temporal causou enormes estragos
A família fundada pelo velho e glorioso capitão
Joaquim Lopes
Mr. Anthony Eden
continua honrando suas tradições
brilhantíssimas
Um bisneto do patrão Lopes dirigiu os trabalhos de salvamento
O acto heróico de Quirino Lopes

A realidade imediata
Mr. Anthony Eden
credita níveis de missão como de submissão:
aos temporais, por exemplo.

O Canal do Suez
(história soez essa sua,
Mr. Anthony Eden)
e a
TRAGÉDIA DO CAPITÃO SCOTT,
também exemplo.

Não faço ideia
Mr. Anthony Eden.

Falar-lhe-ei agora
Mr. Anthony Eden
de Lúcia Damiano
e de esvaídas raparigas ridentes
do meu país memorial
e naufragado do
Extremo Sul.



II

Viva a horas mortas anda Lúcia Damiano
pela cidadezinha que o domingo fechou.
Há corrimento de águas transversais,
há pensões com águas correntes, noutro tempo
já outro deste, anda Lúcia Damiano.

Viver em Paris é anoitecer de ostras e champanhe,
pensava eu em menino, é marcelproustar, não é
Lúcia ser, é ser
outra pessoa. Na cidadezinha portuguesa, tudo é ser
porém. O domingo fecha a cidadezinha, assim
José Maria Eça de Queiroz em Newcastle, Paris.

Viva a horas mortas anda o meu eu Lúcia,
hoje Damiano, domingo (amanhã como nos chamaremos,
como nos chamarão a cada um de vós?),
domingo, na cidadezinha
que não conta (nunca contou, contará nunca)
mas tem pensões: ruas transversais, todas de
correntes águas.

Anda Lúcia Damiano.
La Bande à Bonnot não aflige já, 1911-12,
o sossego prostático dos burgueses assentados: em França
como no mundo. Esta não era, também, cidadezinha
para tal ou tanto. Entretanto, Lúcia, aliás
Damiano, abre-se ao fechado domingo.

Newcastle, Paris, La Havana – e José e Maria
e Damiano, Lúcia. (Em pleno último século,
uma cabeça de efémera idade a efemeridade
pode – e, se calhar, deve – dar-se, havendo
a vida ávida a havida chuva, na cidadezinha, Paris,
no Extremo Sul.

Viva, a hora morta.
Discutem ao balcão do último bar de Lúcia.
Lúcia Damiano ganha em recolhimento.
Albertine foge de avião a Marcel,
feita homem.
Umas entreluzes de Paris, depois cidadezinha,

Portugal.



III

Risadas de raparigas restolham
p’las não ’inda aziagas azinhagas.
A memória é uma aldeia de que o sul é o corpo,
uma aldeia de cercanias só – arredores dos dias.

Como um estômago se arruína um muro,
tais dentes alúi a comum pedra.
Fátuas raparigas, fenecidas, além.
Rápidas, rubras, ridentes: ninguém.

Lumes lunares causticam na boca
a vocação do pó – da terra, da cinza.
Na botica, no adro da capela,
os animais recordam para a frente,

tudo é antanho na cal, a mesma da espuma
da manhã ancestra. Quem, senão eles, poderia
recordar e recortar as raparigas da aldeidadezinha,
os rubros risos azinhagas além,

Mr. Anthony Eden?

Revoadas: equinócios, babas e musgos,
o tempo seviciado de solstícios, tanto musgo,
o tempo desfeito, Albertine Damiano, não
aziago já, que mortos apenas.

Quem, de facto, senão o senhor,
Mr. Anthony Marcel Eden?

Um ribeiro como uma veia fria,
a aldeia mapeando amanhãs bruscos
como chicotadas dadas ontem,
para sempre dadas, esquecidas para sempre,

Mister.

05/12/2008

Filmes para Ler


© Helen Levitt – Wise Guy ( New York, 1945)

Casa, Souto, 4 e 5 de Dezembro de 2008 (0. e 1.)
Caramulo, noite de 17 de Janeiro de 2008 (2.)





DIZ O QUE VAI SER ESPECTADOR.0

A meia esquerda está rota num dos dedos pequenos,
a direita também mas menos,
é bom chegar a esta idade com os dentes avariados,
ter tido amantes em serões tresloucados
que hoje povoam as salas de espera do desengano dos médicos,
pensar no casamento da metadona com a beladona
e noutras rimas sem graça nem remédio,
ter sempre a escapatória da colecção de anarquistas anos 60
da Moraes Editores,
respirar a trinta por cento pela pomes pulmonar,
atirar da varanda de trás cascas de laranja ao galo vermelho
dos velhotes vizinhos,
pôr música a tocar e não a ouvir,
por minutos de 2008 viver segundos eternos de 1945,
estar vivo nesse lance que a fotógrafa não deixou
se estilhaçasse,
aumentar os espelhos com os rostos outros do próprio,
medir camadas geológicas de tempo num olhar contador,
vulcaniza-se o rasto nos soalhos de macadame da passagem,
é bom chegar a uma idade e ter a idade à espera na chegada
como uma pessoa amiga no terminal viário,
outras pessoas terão corrido menos, outras mais,
de corridas em círculo vêm os portugais,
New York 1945, Peniche 1986, Figueira da Foz 1970,
amanhã será dezembro na mesma de um qualquer ano
numa vida qualquer, esta por enquanto pode ser,
desde que haja filmes para ler.



FILME.1

Duas pessoas em turismo no inverno.
Não se conheciam antes da coincidência no comboio.
Agora viajam juntas, não há sexualidade entre elas.
Têm idades muito separadas, mas procuram o mesmo:
poder não voltar – ou então, poder não ter partido.
Uma delas usa gabardine nacarada, sobe a gola à boca para que o vento junto ao lago lhe não corte tanto até as frases não ditas.
A outra pessoa tem chapéu, que é escuro e duro e pensativo.
Mais de vinte anos entre os dois nascimentos.
Não tanto separará os dois passamentos.
A pessoa mais velha garante que os gatos sofrem de depressão
pluvial.
A mais nova acredita nisso, que já reparou no olhar deles
às janelas, mas nada diz.
Ambas filmadas de costas, ambas a uma janela alta.
Dá cada olhar para um campo de neve coroado por um lago.
Veados rápidos e gigantescos como cavalos, árvores negras.
Uma das pessoas fala de um sável que devolveu à água.
A outra ouve a palavra “sável” e percebe “saudável”, mas nada diz.
Isto sabe-se depois pelos diálogos, que são poucos.



FILME.2

Duas noites antes desta, comecei vendo um homem que vou
conhecer quando o for dando por escrito.
Imaginou-se-me já a breve casa dele: saleta, banheiro, quarto,
nenhuma cozinha, o tudo em chão de castanho e paredes iguais ao chão.
Come em restaurantes baratos, conforme os dias e as noites.
Vive naturalmente sozinho.
Desconheço-lhe quase tudo: a profissão, o nome, o desejo mais fundo, o carácter (mineral ou vegetal ou animal?) da tristeza.
É de olhos cinzentos quando chove ou se muda o mundo.
Azuis, se floresce a grande rosa amarela do Sol.
O apartamento dele é uma sobreloja entalada entre a senhoria da loja e um sótão fechado para sempre.
Escadas de madeira torcem uma curva do rés-do-chão à porta dele.
Tudo range: degraus e porta e ele.
Há duas noites que me habituo a esse ranger.
No filme, terei de ser eu a falar.
Não lhe conhecerei a voz, disso estou já seguro.
É um homem de que só se conhece o dito pelo feito, não o contrário – e o contrário é o de quase toda a gente.
Digo: quase toda a gente que conheço e que não escrevo.
Digo: sinto alguma alegria; a visão deste (o filme com este) homem, nocturna de origem embora, dá-me alguma alegria.
Por mais irracional que uma alegria seja (dada a vida), não deixa nunca, a alegria, qualquer alegria, de ter, pelo menos, uma razão.
A razão desta é esta: é certo que me arranjei uma companhia.
Não quero dizer que este homem seja meu companheiro, ou eu dele, ou um do outro.
Quero dizer que posso assistir a ele.
Sim, como se ele fosse o ponteiro decisivo de um relógio (mas qual, o da hora, o do minuto ou o do segundo?), ou melhor, como se ele fosse a personagem de um filme sem actor nem de carne nem de osso nem de carreira.
Há duas noites antes desta, ele imaginou-se-me.
Isto é a verdade tal como a posso e possuo, de verdade.
Tinha-me deitado depois de um cigarro indiferente que fumei à varanda.
Não era meia-noite ainda, era bem menos que essa hora lunar, esse limbo de bruxas de chácara, de gândara, de charneca, de granja.
Fumei o cigarro e recolhi-me à imitação do esquife.
Folheei uma revista de maquinaria agrícola, bebi água riscada de sumo de limão, desliguei a luz e esperei.

Falo: de quando ele imaginou que me aparecia.
Duas noites antes desta, ele apareceu em sua sobreloja exígua, uma saleta sem cozinha, um quarto, um banheiro quase inclinado de tão estreito.
Vi-o de dentro da minha noite, a que chamo minha porque lhe pertenço.
Vi-o sentado no centro da saleta.
Só há uma cadeira e só há uma mesa na saleta.
A cadeira é um cubo mutilado.
A mesa é redonda, tem uma terrina com motivos róseos de boa catadura.
A terrina é um falso século-XVIII: falsa como o século e falsa como a contagem dos séculos – no resto, verdadeira, como todo o objecto que não precisa de ser visto para seguir sendo.
Vi-o sentado na cadeira que incompleta a mesa no centro da saleta. Eu quis que ele tivesse entremãos uma revista de maquinaria agrícola: nesse caso, seria ele um sonho de outro eu, o que melhor seria, pois se sonhamos connosco sonhamo-nos para nos esquecermos de todo de acordar.
Mas ele não lia essa revista, que me pertence desde que o meu Pai se dissipou no jardim de mármore.
Vi-o que não lia nada.
Estava ali sentado, aqui sentado na minha vigília, duas noites antes desta.

Uma casa, um homem, outro homem, outra casa.
Mais ou menos o outro, o mesmo.
Vendo chover, o Sol recebendo nos olhos: é o mesmo?
Numa cadeira, a uma mesa, uma noite.
Com leitura, sem nada para ler, sons vivos que de baixo fazem tremer os pés até ao coração, um pouco também o coração, um dos corações que este mundo conserva em saletas, defuntos sons que de cima fazem tremer as pálpebras até ao coração, na saleta como na cama, quase sempre de noite.
Há a noite mineral, há a noite vegetal, há a noite animal.
Veados, neve, um lago.
Só a alba escapa a qualquer destes reinos, por dela mesma ser reino e rainha, que não deste mundo.
Outro mundo o mesmo, entre imagens e gatos repetidos em fêmeas, odiando o fumo e a novidade e o chão de madeira sem tapetes de que urdir a fiação das unhas.
Tudo isto – e a presença do sótão dentro da cabeça, os sons de baixo subindo como um fumo de cigarro à varanda que o vento quebra antes que o fumador perceba a espiral das constelações, ou enigma dos anéis-sete-escravas, ou a raiz de um verso incontinuado.
Ou incontínuo.
Ou incontinente.

Cansam-se os olhos castanhos (pretos, quando chove ou se nubla o mundo) postos na mesa, na maquinaria que preside às mesas, aos cubos incompletos e às saletas, além de a tudo o mais.
Ou menos.
Ou aqueles outros mundos a outros olhos: os mesmos, uns e outros,
como os comboios e os dedos pequenos.

04/12/2008

A CRIATURA segundo Artur Portela + Hospedaria Camões

Aqui:
http://cumcreatura.blogspot.com/

E ainda:
http://www.hospedariacamoes.blogspot.com/

EIRA E ROUBALHEIRA - crónica nº 80 n'O Ribatejo (www.oribatejo.pt)

Eira e roubalheira

Portugal é uma aldeia quase nada cristã mas muito católica onde o roubo é pecado e a roubalheira é uma virtude.
Disse “aldeia”? Queria dizer “quintal”. Não, “eira” é que é. Eira, roubalheira. E chuva no nabal. Nabal, Portugal.
Hoje estou chateado. Dói-me um dente, dói-me o siso, dói-me tudo. Estive ali na sala a ver o telejornal – e pronto, chateei-me. Com esta idade, ainda me não habituei às roubalheiras. Agora querem-me o IRS para sanear as canalhices dos banqueiros, as golpadas dos gestores de fortunas, as manobras orquestrais no escuro dessa escumalha tenebrosa e sinistra que nos infecta o dente, o siso e o nabal.
Ainda por cima, está um frio rijo, dói nos ossos o hálito de uma neve que nem neve é, mas geada de pobres. A parvónia tirita toda, os cães encolhem-se na rua como acordeões sem fole, as mulherezinhas da erva palestinam pelos caminhos muito curvadas, muito pré-históricas, muito fora do Google e do Paraíso e da Covilhã e dos conselhos de administração onde são tramoiadas as roubalheiras.
Eu queria ver o Jeremy Irons, mas só me saem júdices e balsemões. Eu queria saber astronomia, mas só me saem zodíacos e sousas-tavares e TVIquadores. Eu queria que me não doesse o siso, mas nem com copinhos de aguardente amorteço a gengiva.
Se vos pareço impertinente e quezilento, ainda bem: é quezília que supuro, é impertinência que me apetece.
Para piorar o cenário, só me faltava o Natal, a porcaria do Natal. Entristece-me a tristeza dos comerciantes dividindo o ar das lojas com as moscas. Entristecem-me as avòzinhas da erva, os nabos compatriotas e o catolicismo hipócrita cá do quintal. Perdão, cá da eira. Eira, roubalheira.
Bancos privados, “virtudes” públicas.
Resta-me pedir ao Arlindo da farmácia que me empreste um anti-inflamatório e um alicate. E um passaporte de coelho que me leve a dar, de vez, o salto para fora desta eira de ali-babás de colarinho branco-sujo.

30/11/2008

VIGILICONSTANTES - Poesia dramática para Vozes sem Corpo por aí Além


© Irving Penn
Three Rissani Women (1971)


Organização final: Souto, tarde de 30 de Novembro de 2008
Vozes: Souto, tarde e noite de 27 e manhã e noite de 29 de Novembro de 2008





I

UMA

As fundações da pessoa carecem de constante vigília.
No lar da mente, sobre a pedra mental, decorre o fogaréu perene da atenção aos díspares monumentos da vida: quase sempre palavras, certas peças de louça, certa inclinação arbórea para um rio que murmura.

DUAS

As madeiras da casa sonham bosques.
Os panos estabelecem distritos de sombra.
Há zonas ínvias, trilhadas ainda assim pelo miniatural amor às coisas e à vida.
Colectores de sombras de pássaros murmuram também: a vitrificação do mundo pela geada, por exemplo.
Outro exemplo: o teu nome dito com tinta branca.

UMA
Levanta-se a beleza de uma vez só na rua: as luzes azuis confirmando as negras, a saúde indeclinável da manhã e do frio, as palmeiras cifrando o crepúsculo – e um café duplo coroçoando a mão direita.

NENHUMA
Colector de sombras de pássaros, não enjeito um epigrama, como o não faria a um casaco de lã, chovendo no teatro como na rua.

II

NENHUMA
Por exemplo o teu nome dito com tinta branca, tinta de água da chuva, num dia cerrado, hoje, agora.
Por exemplo isso.
Quando hoje sair a colher ossos e olhos, terei a trazer ou não um nome?

DUAS
Museus ambulatórios, as pessoas:
Patologias
Cacos romanos
Mourning portraits
Avisos de recepção.
As pessoas:
seus passinhos cuneiformes como se de gaivotas no inverno das praias.
As pessoas:
encerram aos domingos perenes, sobretudo quando chove nas palmeiras.

NENHUMA
Constante vigília lhes doo.
E tanto me doo quanto doo.

UMA
Física, química e mesmerizada melancolia: tudo a lenha usa para arder, na pedra do lar.
E na pedra do teatro como na da rua.

III

DUAS
Tornámo-nos assim:
sombras fátuas, enxofradas, vilipendiadoras até das inertes belezas.
Consumpção mais que assumpção.
E palavrinhas-palavretas de renda de bilros, quando o que falta – era pano cru, pano forte, consútil embora.

NENHUMA
Pelos campos, as freguesias coalham ao soro do frio.
O nosso maior acontecimento diário é o boletim meteorológico, que a noite confirma em sono e em freguesias.

IV e Final

UMA
Constante vigília.
Apelar à fusão.
Receber da poesia a gravidade pueril da poesia.

DUAS
O hermetismo pueril da poesia.

NENHUMA
A inofensiva puerilidade da poesia.

UMA
Bahnhof-Bregenz: um comboio, seis comboios – que não tomarei.

DUAS
Desnecessidade de reconhecer naquelas pessoas, os embarcados, as pessoas de ao pé da porta, na vila velha, tantos países depois, cujo pelourinho arde de puro frio.

NENHUMA
Devassar incólume os espectros.
Exercer uma metrologia.
Tocar o rubi com a unha.
Noite quente, longe do mar, dentro de casa.
Na rua não.
Na rua nunca mais.

A UMA SÓ VOZ, TODAS
Nunca apenas mais ou menos.
Eus ambulatórios, as pessoas
carecem de constante vigília.
Vai partir.
Não tomaremos.
Não tornaremos.

28/11/2008

Ser Assim Chamá-las


© Jacob Riis - Home of an Italian Ragpicker (1888)



Casa, Souto, manhã de 28 de Novembro de 2008




Nunca as amámos nem amaremos como deve ser.
Elas sim a nós – e sucessivamente e a cada um mesmo
: como, a esmo, a folhas que, caídas, erguem o outono
do chão.

Fundimos a mãe e a concubina.
Chamamos-lhes mulheres, mal.

Deveria ser assim chamá-las
: lugar, lagar, paragem, garganta,
vaca, abelha, carmim, carne,
catarata, pomes, istmo, sufrágio,
vontade, cana, estrume, pevide,
rosa, chão, folha, outono.

Esquecemo-las em nome do pai.
Tornamo-las despojos da herança
: meia dúzia de cacos, o nome do meio abreviado,
uma praia de postal rasgado,
as gaivotas sumindo-se, pólipos ominosos.

Têm elas com Deus uma relação de criadas com o patrão.
Copulam com Ele, mudam-Lhe o óleo das barbas,
acendem-Lhe círios espermáticos, fazem-Lhe filhos,
remendam-Lhe as estrelas obsoletas do manto de mágico.
E nunca Dele dizem o Nome,
pois que também elas abreviam.

Nós entramos nos bares para arrefecer junto aos irmãos.
Comemos carne vermelha, integramos a corrente,
saltitamos de gelo em gelo, afloramos uma situação,
trocamos um pouco de cesário-verde por uma poupança-reforma,
cheiramos a cedro e a mijo de cão,
sabemos que os ciganos também têm mães mas desconsideramos
a evidência marxista da biologia,
um pouco de georges-duby por um pires de tremoços,

e quando a dor sobe à garganta
até telefonamos,
em dezembro
as chamadas para o além
custam menos
a passar
e

:rosa, chão, folha, outono.


27/11/2008

Terça-feira das Cabeleireiras: um postal português


© Sandra Bernardo
Coimbra, 21 de Outubro de 2008




Pombal, tarde de 26 de Novembro de 2008



Também as mulheres entristecem.
As cabeleireiras sem freguesas, vazias no salão.
As criadoras de gado, de crianças, de lírios:
brancos de cal de mortos seus rostos.
Os casamentos colados a cuspo genético:
as noivas que foram jacintos-de-água,
seus ventres verdes boiando à tona dos hipermercados.

Também a plástica doçura dos torsos entristece.
Revistas-caloríferos panadas de púbis raspados à lâmina.
Trepidações e comboios creolinando a terra cascalhosa.
O salão sem freguesas, a terça-feira das cabeleireiras.
O esvaziamento propiciado por tantas (uma só) terças-feiras.

Se uma vila usas que pelourinho tenha
à fósfora sangria do crepúsculo, como elas
podes entristecer em suavidade: o favor farás,
mínimo aliás, de registar como a velhice
lhes faz bem à beleza, como aves marinhas
se volvem, linhas do lápis do sal em o
pergaminho de seus rostos, essas praias.

E a azul aguadilha quase cega das avós
(as nossas filhas no futuro sem nós)
perto do lume que tosta e aura de ruivo ouro
o dorso da gata, o cobre da peça para a flor seca,
e a cobra da piça (flor seca também),

e a graça excelentíssima dos fala-sós abonados
de solidão, sacos de plástico e barbas de sebo,
nos jardins de Lisboa, nos jardins da nossa vida.
Também elas, sim, entristecem, lânguidas
em camas de repente o dobro de vazias,
isto de os maridos aprenderem internet
é tão pouco católico, tão gay, até.

O Portugal que todos quisemos para o século XXI
não era este: não este das mulheres tristes
em poemas sa(n)grados por um dos filhos
delas.


26/11/2008

Com Funcho



© Sandra Bernardo
Homem na Casa de Pasto
(Viseu, 2008)




Pombal e casa, 24, 25 e 26 de Novembro de 2008




Algumas vidas são suicídios assistidos.
Uma das minhas quatro mãos
(a que saúda)
celebra todos os dias o ouro da luz
e a prata do peixe no mercado.
Algumas vidas são mãos,
uma de cada vez,
quatro a quatro.



******



Dentro de ti está o teu coração,
dentro do teu coração está o cavalo
a que pertences.
Saúda-o.
Ele freme-te, ele é o vento feito couro.
Deves cavalgar, deves-te ser simultâneo areal
de tuas quatro mãos.

Não implorarás, não aluirás.
Dentro de ti mantém vivo o rapaz
que levas às festas no éter, na solidão
que pensa por ti dentro do teu anisado coração.

A glória e a graça pertencem, como tu, ao cavalo.
Arboriza-te em ouro vegetal.
Isto agora também já não demora muito.
Obliqua-te nas frias brisas, nos tépidos zéfiros.
Despenha-te em monção, em mistral.
Sê ambulatório arbusto da flora de Portugal.

Olha para mim sem ti:
este casaco povoado de corridas,
esta oftalmologia de anis,
esta crepitação tão cheia de misericórdia.

No coreto os soldadinhos tocam a música do chumbo,
tu sentes aquela eólica alegria dos desventurados,
à noite há fados no covil das minhocas,
frigem sardinha, servem caldo verde,
dizem mal da alegria e dos nascimentos.

A solidão do anis será legível muito mais tarde,
quando os lobos descerem à aldeia
com os teus filhos na boca.

22/11/2008

F. a História C.


© Sandra Bernardo
Peniche, 29 de Setembro de 2007





Souto, entardenoitecer de 22 de Novembro de 2008


Um homem conheço cuja tristeza toca a Lua.
É um inverso pára-quedista, por assim dizer.
Tem viajado por dentro de casacos em demanda:
de ventos coloridos como postais, de mulheres
furadas e brancas e metálicas como expositores
de postais.
Ele mesmo é, por assim dizer, ilustrado como
um postal.
A última vez que o vi, creio, foi
perto do Forte de Peniche.
Havia um incêndio para os lados últimos do mar,
era talvez o laranjal poente do costume.
Não sei dele.

Vim-me embora para aqui, o circuito comercial daqui
alberga cantoras negras
brother, can you spare a dime e fados afins,
gosto disto, por aqui também se toca muito a Lua.

Esta noite deve ser muito alegre porque é sábado,
as tristezas individuais juntam-se nos bares
e tornam-se, por assim dizer,
gregárias e gregorianas,
eu gosto de assistir a elas por dentro
do meu casaco.

Faz frio, os carros ruminam a sombra de olhos
mortiços, tudo fica por conta da escuridão mal
eles passam a caminho de suas luas domésticas
guardadas por cães naturalmente selenitas,
nas folhas do jardim o pó congelado aprisiona
as mariposas e a arte naturalmente poética
dos sodomitas dados à gosma e à gonorreia e
naturalmente à tristeza também.

Quando chego a casa, tenho estas coisas para dar
a ver, não é uma vida cor-de-rosa, a minha.

Faz hoje 45 anos que espetaram um ou mais balázios
nos cornos alegadamente católicos do djei éfe quei,
um senhor que se fazia passar por berlinense como
aquelas bolas açucaradas de creme amarelo que mulheres vendiam na praia ainda o Marcello Caetano nos conversava
em família.

Nisto, a Lua range como um fémur de violada
– e fica a história contada.

Uma Menina para o Futuro

© Walter Rosenblum - Girl on a Swing, New York, 1938



Souto, manhã de 22 de Novembro de 2008



Fada pobre de esconsos bosques petrificados,
teu voo de chita irmana o da seda.
Definitiva criança morta de sede à beira-mágoa,
risco de neve no pátio de carvão.

Corredora de décadas, pomba vencível, luz
dos olhos de algum futuro filho.

Em casa, o pai alcoólico, a mãe alcoolizada,
as aves carniceiras no beiral, os carros pretos
em baixo, as mulheres das compras, um magro
cão, três ou quatro cavalheiros de fato e chapéu
e soqueiras.

O futuro era isto, minha menina.

Saída de costume

Souto, manhã de 22 de Novembro de 2008




Sairás hoje de casa para ser uma sombra de ontem.
Secções da guerra tocarão ao lado tambores e ferros:
disso não cuidarás entretanto tanto quanto amanhã,
quando a doença e os filhos dos outros ladrarem as
encíclicas do teu envelhecimento, da tua afinal
impreparação para a vida, como se costuma dizer.

Hoje.
Sairás.

20/11/2008

Ronda Columbina, 20-XI-2008


das 19 às 21h00
87.6 FM
http://www.radiocardal.com/

Ronda dos Quatro Caminhos com Coro Alentejano e Orquestra Córdoba
Linda Ronstadt
Arcade Fire
Carlos Cano & Martírio
José Mário Branco
Claude Nougaro
Depeche Mode
Estelle
Léo Ferré
Anne Sofie von Otter & Elvis Costello
Joaquín Sabina
Joan Manuel Serrat
Nina Simone
Sting
João Bosco & Raphael Rabello & Paulo Moura
The White Stripes Elephant
Toquinho & Djavan

Cristalino Vicente - IV a VII

© Garry Winogrand - Utah, 1964

IV

Souto, manhã de 20 de Novembro e
Viseu, manhã de 3 de Julho de 2008



Cristalino Vicente adoece por quatro noites com seus dias. A febre ferve sonhos. Vê cavalos.

Pela alba, os cavalos rompem o rossio e adentram o parque municipal chamados pela sucosidade da erva arrefecida de orvalho. Saciam-se e tomam as ruas do comércio mais antigo da cidade, as mesmas por onde cada um toca a sua melancolia portátil. A alba dá vez a um azul quase completo: uma mulher solitária exceptua a branco o céu muito puro. Os cavalos correm como um só corpo, um só furor, castanho orientado pela voz colectiva do destino. Vejo-os correr da janela do meu consultório de ajuda espiritual.

Cristalino Vicente teme, na ressaca dos cavalos, a possibilidade de um homem dentro dele ter vivido fora dele: numa cidade com rossio. A improbabilidade do matador recrudesce na febre.



V

Tudo idem


Na segunda noite,

Pela alba fria, não são centauros, nem unicórnios, nem faunos – nem homens. São cavalos em tropel como batidas de coração na garganta, como palavras de metal no xilofone dos dentes. Vejo-os da janela da mesa do canto do café, onde atendo as pessoas desgovernadas que pagam para acreditar em amarração e desamarração, bons e maus olhados, potência e impotência, praga e benesse, virgindades negra e branca, desvio e aproximação, belzebu e vizinho do lado. E a angústia, vendo os cavalos, só me toma porque não fui capaz de prevê-los – como nada de facto prevejo (já tudo foi), pois que tudo já foi visto e feito e desfeito e esquecido e agora sonhado outra vez.


Na pedra do lar, cinzas. O olhar do cão espera o do homem, que fecha os olhos para a terceira noite.



VI

Ibidem


Na véspera dos cavalos, ele não é Cristalino Vicente, mas Manuel Damas, o espiritualista que finalmente recebe uma cliente. Três meses (trezentos anos) a fio sem que ninguém respondesse ao apito volante dos papelinhos que abandona sem esperança nos pára-brisas dos carros por toda a cidade – até que ela chama Manuel pelo telemóvel, aceita o pré-pagamento justificado pela magia supernegra de Xamã com laivos da superbranca de Olin. Aparece no consultório (“Há Tostas Mistas”) às nove da noite, pede um ice-tea e um pastel de nata e conta-lhe de o marido a ter traído com um colega de escritório. Nem perante tal evidência, ante tal claridade rutilante de epifania, Manuel Damas é capaz de prever os cavalos chamados pelo orvalho da alba.

Pela alba fria, não



VII
Idem e idem


A febre acaba-se como a escuridão, no catre de Cristalino Vicente. Mas Manuel Damas resiste, já que ela é


Ela é uma mulher mínima: um feixe de nervos cingido por um cinturão de napa. Calça mocassins dourados como as estrelas de papel-de-Belém. A cabecita oscila empalada por um pescoço de felosa. Mas os olhos são duros como vidro quebrado, enquanto as mãos arabescam a caligrafia da decepção e do conhecimento absoluto das maldades do mundo e do marido. Os músculos faciais fremem-lhe involuntárias frituras: mas nem assim me é dado antever que pela alba seguinte os cavalos nos vão tomar as ruas e a melancolia e o orvalho e todo o comércio humano.

Cristalino ergue-se, o cão Mondego lambe-lhe a mão direita, a mesma que o regressado Vicente leva à boca para inserir sob a língua uma pedra de sal, panaceia ideal para a contenção dos estremeções neuromusculares.

19/11/2008

Ratazanaria - crónica nº 78 para o Ribatejo (www.oribatejo.pt)


Ratazanaria

Para vos dizer ao que esta semana venho, tive de inventar a palavra que dá título ao arrazoado da crónica: ratazanaria.
Ratazanaria, entendo-a como a altanaria dos pobres de espírito. Manuela Ferreira Leite percebê-la-á como ninguém, sobretudo esta semana. Atiraram-se (e continuam a atirar-se) à garganta da senhora por causa daquelas palavras relativas à suspensão, por um semestre, da “Democracia”. São ataques ratazaneiros, os de dentro como os de fora.
A líder (?) do PSD quis ser figurativa, metafórica, irónica, lateral, cotejante, graciosa, fina, melíflua, entrelinear. Tramou-se. Ou querem tramá-la.
É um pouco triste, a ratazanaria de dentro do PSD: como se nunca tivessem ouvido os dislates pançudos do Jardim madeirense, as catilinárias higiénicas do Macário algarvio, as rés-chãs atoardas do Menezes gaiense, as irrelevâncias passarinheiras do Santana urbi et orbi.
Triste é também a ratazanaria do PS: terão eles ouvido alguma vez os inenarráveis éditos de um tal Manuel Pinho, ou a crustácea metafísica de uma (in)certa Maria de Lurdes, ou as teixeiradas do senhor Santos das Finanças, ou, ainda, os histriónicos embaraços mariolinológicos? Hmm?
Eu já sei o que vai acontecer em breve: o que vai acontecer é o Passos Coelho. Está tudo a fazer-se para ele. Incapaz de uma ironia, inapto para a brincadeira, fisicamente próximo do semblante nova-oportunidade, menino de muita jota-ésse-dê propedêutica, rapaz de razoável quilate vocálico, Passos Coelho is the way.
O problema é que, Coelho ou Leite, o PSD, em 2009, perde sempre. A não ser que fosse possível adiar os votos por, digamos, seis meses. Aí, assim, talvez: afinal, há quantos anos andamos a viver uma Democracia adiada de facto?


Ronda Columbina – 19 de Novembro de 2008 - na Cardal FM

Das 19 às 21h00

em 87.6 FM e/ou http://www.radiocardal.com/

ALINHAMENTO PREVISTO
(não necessariamente por esta ordem)

Amália – O Céu da minha Rua
Ella Fitzgerald – Have You Met Sir Jones
Estelle – Come Over
Grooveria – When Doves Cry
Uxía, Marina Rossell y Filipa Pais - Hiru Damatxo + Behin Batean Loiolan
Lisa Ekdahl (with Peter Nordahl Trio) – Nature Boy
Luz Casal – Entre mis Recuerdos
Nini Rosso – La Canzone di Solveig (Grieg)
Tuxedomoon – In a Manner of Speaking
Paul Simon – God Bless the Absentee
Robert Plant – 29 Palms
Rui Correia – The Nearness of You (Hoagy Carmichael, 1937)
TV Theme – Verano Azul
TV Theme – Mission Impossible
TV Theme – Daniel Boone
TV Themes – The Avengers (Main Theme) - The Laurie Johnson Orchestra
Uxía – Alala Das Mariñas
Anna Moffo – Bachiana Brasileira n°5 (1964), de Heitor Villa-Lobos (1887-1959)

Dois Sonetos com Ai-de-Mim!

Pombal e Souto, manhã de 18 e tarde de 19 de Novembro de 2008


I. SONETO VOCATIVO E CONFESSIONAL

Também eu, ai de mim!, vocativo lances mágicos
e solertes criaturas e até gajas e gajos trágicos.
Vai tudo (ou tudo vem) da efectivamente-tradição,
do portantos-portugal, desavergonhada ignominiosa condição.

Dou-me muito a laranjeiras (a comícios, não)
e tenho nas livrarias ademanes sacerdotais.
Mas no fundo sou um pouc’alma sem tostão,
rara vez compro o Fialho, o Ramalho, o Brandão.

Se queres, ó medusa Beatriz, atira-me pena!
Ó não minha Marília, apieda-te-me devagar!
Sou o gajo da cegarrega e da açucena,
às terças matinais é meu uso aqui passar.

O mais que invoco, choco, quarentão,
é ’inda vir a escrever como o Fialho, o Ramalho e o Brandão.



II. SONETO TIBÚRCIO E CESALTINO

Tibúrcio Cesaltino, pai de filhos,
sou e me chamo. Al mais não reclamo.
Mas sonho que me ponho em os mil brilhos
da ribalta em cena, qual Adamo.

Segredo meu, lura e loucura minha.
Já me sonhei rodando, sevilhana
de todo, lantejoulando asinha.
Os filhos, vejo-os aos fins-de-semana.

Mais como eu outros haverá decerto
ao éter clandestino das vielas.
Carnudos cavalheiros, quais donzelas,
melifluindo luas longe e perto.

Nunca estaremos sós. Tibúrcios, sim:
mas cesaltinaremos, ai de mim!

Uma destas Manhãs

© Gordon Parks - Ingrid Bergman at Stromboli (1949)



Em casa, Souto, manhã de 19 de Novembro de 2008


Por toda a casa a cabeça remexe cantos e móveis.
Quem foi importante e porquê na casa, na cabeça?
Estes comícios sombrios, o rumor do padeiro ratando,
fora de portas, a canalização morseando as águas dentro,
a flama plúmbea da pomba, o acetinado da rola,
o cedro que arde ao ar e fica e sobe, estátua
de seu mesmo plantador.

Por toda a casa, a manhã feita nação do coleccionador de musgos,
juntador de caixas de papel plenas de vidros,
contas a lápis para a aritmética da borracha:
Vasco da Gama Fernandes em 1952,
Antero de Figueiredo em 1918,
Fausto Bordalo Dias em 1978,
Clara de Assis em 1193.

Pode ser a alegria, o tugúrio.
Pode não ser.
Um pouco de queijo na mesa baixa, o vinho tornado ontem,
a demanda por
Stephan Sinding, Mabet Funston, Madeleine Choiseul,
Carrier Belleuse, Virginie Demont Breton, Tyra Kleen,
Rodolpho Galli, Gloria Steinem, George Gray Barnard:
quem? quem? quem? quem? quem? quem?
quem? quem? quem?

A casa plena de cadernos onde a cabeça.
A Bergman em Stromboli, as velhas zurzindo-lhe o
Rossellini, a beleza sem cotejo que Estocolmo deu à luz
em 1915,
três anos antes de Antero de Figueiredo dar à luz certas
Jornadas em Portugal
(São Miguel de Seide, onde o infeliz Camilo,
Penacova, onde o infeliz Eugénio Moreira).

Estas coisas.

Um vivo é quanto basta para a glória dos fenecidos.
Retomador doméstico do mundo, suas barcas,
suas epifanias 8-milímetros, suas inscrições na pedra.
E a casa ser dessa pedra – e a pedra ser a síntese luz-terra.

Contar isto ao padeiro, uma destas manhãs.

Canzoada Assaltante