23/11/2007

O Corpo de Volta

A partir de hoje, 23 de Novembro de 2007, n'O Ribatejo (www.oribatejo.pt), a crónica nº 27 de Rosário Breve.

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O Corpo de Volta

Depois de tantos anos pendurado da alma ou das árvores, o meu corpo está de volta a mim. Em vão, pelos vistos, o exilei.Sei de vago modo por onde andou e que andou fazendo, mas só agora me dou conta de quanta falta me fez. Podia tê-lo vivido, posto a meu serviço. Não o fiz e, embora não seja tarde de mais, julgo, há coisas que ambos, eu e ele, perdemos sem remédio nem resignação. E se as más vontades julgarem que estou a subdeclarar mulheres, não estarão de todo enganadas. Também, claro que sim, mas não tão-só.Há mais coisas para que um corpo é útil. É preciso para se regressar do mar, por exemplo. Sem corpo à mão, a alma fica lá, lânguida e embrulhada na ondulação como uma alga. A minha questão é parecer-me que este corpo quer levar-me para lá.Um corpo é sempre bom para ir ao mercado sopesar os frutos, auscultar o coração dos morangos e dos melões, unhar o ouro de lei das laranjas, tocar o vidro embaciado do olhar dos peixes, transportar a fome ao tabuleiro da mulher dos bolos, deitar sombra fresca como água aos baldes de flores.Está de volta, agora, o meu corpo. A questão, agora, não é o que vou fazer dele, mas que vai ele fazer de mim.
Não o esperava. Sinceramente: nesta idade, já o não esperava. Tenho-me desenrascado mais ou menos bem sem ele. Antigamente, dava-o ao manifesto. Um dia, talvez uma noite, ele ficou por lá, no manifesto. Eu fiquei no algures de cá, transparente e tributável. Dele, guardei o nome: eu precisava de um, ele nem de mim precisava, quanto mais de um nome. Ainda por cima, de um nome igual ao do meu Pai, senhor que há tantos anos não é corpo.
Agora, tenho de vesti-lo, calçá-lo, coçá-lo, dar-lhe pão e água e laranjas e cafés. Em retorno, ele dá-me pressa para evitar a chuva iminente, unhas para roer, bocejos metafísicos que me marejam de água os olhos e olhos que assento sobre as coisas como uma tinta aquosa.
Está de volta. Deve ter vindo dizer-me que, um destes dias, talvez de noite, estarei eu de partida.

21/11/2007

MDP CDE 1

Inicio esta noite, aqui mesmo, uma nova série. Eu sei, eu sei: tanta série não pode ser pa' levar a sério. Pois claro que não. Já por aqui anda A Noite em Breve. Já por aqui anda Nenhum dos Rostos. Já por aqui andam as histórias da rádio. E isto para já não falar na versalhada a dar com um pau. Eu sei, eu sei. Pronto, mas esta noite aparece mais uma. Chama-se, por extenso, Mais Descobrimentos Portugueses (Com Direito ao Engano) - ou MDP CDE para os Amigos. Mas não só para os Amigos. Como também por aqui furtivamente andam os Ranhosos, os MDP CDE, de tão apurada e confessa ranhosice, também são para os Ranhosos. Boa noite.
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Mais Descobrimentos Portugueses (Com Direito ao Engano)
- ou MDP CDE para os Amigos e não Só –


1

À noite (se a noite for hoje), aquece-se um caldo que se teve congelado dias a fio e a frio na porta de cima daquele coiso branco que rosna e tem asma e a que, por ternura e habituação, chamamos O Frigorífico. Eles estão para isso: O Frigorífico e O Caldo.
Um gajo, a seguir, tem de sair para devir mais um gajo a não seguir.
E porra, que hoje foi noite todo o dia, está um frio tão, por assim dizer, global, que A Natureza, O Mundo e A Sociedade parecem outras tantas modalidades de O Frigorífico.
O que vale – é que se leva O Caldo bem cá dentro, aninhado ao pé de, ou contra, O Coração.

Caramulo, noite de 21 de Novembro de 2007

Submarino d'Amour - história 79 do Anoitecer ao Tom Dela

Há um senhor em Viseu que gosta das histórias que escrevo para a terceira hora (rubrica 1002 Noites, 22-23h00) do programa radiofónico Anoitecer ao Tom Dela. Esta é para lhe agradecer que goste.
(Anoitecer ao Tom Dela, 20-24h00, de 2ª a 6ª feiras, em 91.2 FM e/ou http://www.emissoradasbeiras.radios.pt/. Blog do programa: http://www.anoiteceraotomdela.blogspot.com/).

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Submarino d’Amour

1
Chamava-se “O Submarino” e nada tinha a ver com o mar. Era uma casa-de-pasto gerida por uma mulher cuja decência tinha a claridade do sol. O marido tinha emigrado para França e regressado nunca. Aos avanços de alguns homens demarcados pelo hálito da aguardente, resistia ela com uma inquebrantável viuvez de vivo remo(r)to.

2
“O Submarino” servia uma comida muito limpa e barata. Aos tampos de madeira das mesas chegavam os pratos de louça azul e as malgas metálicas com sopa ou salada de alface com tomate e cebola. Eu gostava de ali comer a bifana nadadora de cerveja, a cara de bacalhau rezando alho, a mão de vaca jogadora de berlindes de grão-de-bico, a isca de fígado inturgescida pelo sono em leite.

3
Cheguei demasiado tarde a “O Submarino”. Fechou pouco mais de meio ano depois da minha descoberta. Lembro-me da minha primeira vez na casa, como é curial recordar as outras primeiras vezes de uma vida que a si mesma se ultima de cada vez. Foi numa tarde de sol, eram quase as três da tarde. Já ninguém almoçava. Eu pedi para comer. A senhora disse-me que sim com uma limitação:
– Tem de ser bifanas. Batata, pode escolher frita ou cozida.

4
Regressei quantas vezes pude. Nunca bati o território àquela fêmea de uma decência solar. E hei-de recordar para sempre o dia do aniversário dela. Ao jantar desse 14 de Novembro, ela não se pagou do café com cheirinho de conhaque nacional. Ela disse que fazia anos e que um dia não são dias. E não são – excepto quando passam: o dia e os anos e os dias.

5
Eu dei aulas de geometria descritiva na Escola Comercial e Industrial da Vila. Tinha um salário piorado pela ingenuidade, cariz que me levou a dizer que sim à minha mulher quando ela quis abrir uma retrosaria com secção de perfumes e cosméticos. Isto foi antes de ela se ir embora com um médico velho do Centro de Saúde e me deixar uma gaveta cheia de facturas por pagar dentro de envelopes por abrir.

6
A retrosaria (que se chamava “Glamour d’Amour”) fechou-se sozinha como uma idade – como, anos depois, “O Submarino”. Deixei o ensino e fui trabalhar para uma loja de pássaros. Depois, conheci, ganhei e perdi “O Submarino”. E depois, noutro junho igual, fiz cinquenta anos. Nessa sexta-feira de meio século, entrei num tasco perto da gare rodoviária e mandei vir conhaque nacional. Talvez tenha desejado que o cálice chegasse à mesa pago por ela – e que fosse 14 de Novembro à data, não 30 de Junho.

7
Dou-me bem com os pássaros sem árvores da loja, bem com a freguesia e bem com o patrão da loja. Dou-me bem com tudo e todos porque não me dou a nada nem a ninguém. Deixo andar – como se o andamento me precisasse de deixação. Passo em frente à padaria-pastelaria onde foi o “Glamour d’Amour” e não recordo a mulher frívola nem a estante de perfumes caros de mais para o gentio mulheril da Vila. Mas recordo “O Submarino”, que permanece afundado além das portas encerradas. Nem de ramo mudou – como um pássaro ou um fruto móveis na aragem.

8
Se gostaria de revê-la? Acho que não. A ninguém temos o direito de pedir que seja o mesmo alguém que nos chegou ou a que chegámos. Revejo-a na tarde serôdia da primeira vez, quando comi sozinho numa sala cheia de sol que não recordava o mar. Também a revejo oferecendo o café e o bagaço na noite muito chuvosa daquele 14 de Novembro. Isso é-me bastante – mesmo nada sendo, como tudo é.

9
Talvez eu a tenha amado da melhor maneira: sem que nem eu nem ela soubéssemos que eu a amava. Esse amor é, de tão parecido com a ignorância, o melhor conhecimento. E há-de ser uma boa memória, de tão fundado na simultânea amnésia de si mesmo. Digo eu, que nada sei nem possuo, nem pretendo saber ou possuir: sequer noções, já, de geometria descritiva.

10
O periquito macho é azulado nos orifícios nasais. Alguns dias são azulados também, mas nunca machos ou fêmeas, antes uma dimensão assexuada e estéril cuja maior promiscuidades são as noites e as indisposições gástricas. Para destas me precaver, aliás, almoço sozinho entre pássaros. Uma maçã e uma fatia de pão de milho bastam-me para recordar bifanas, caras, mãos e fígados. Ou para recordar o olhar dela em mim, que o sentia eu quando ela nem me olhava, como nunca olhou.

Caramulo, tarde de 20 de Novembro de 2007

Tristezas "gratis"

Segue-se mais uma colecção de maluqueiras dos buscadores da net. Dá-me ideia de que esta maltosa já aplica o coiso ortográfico novo, aquele que nos quer pôr a escrever húmido sem h. Ou o caraças com dois ss. Haja paciência.

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fotos de manequins maquilhadas
poemas"gratis" de tristeza
talocha de celulose
venda reprime portuguesa cavalo
lista telefonica de aldeia da cruz concelho de figueira dos vinhos
bebe com tosse e"chiadeira" como proceder
foto de mulher de fio dentala
igreijas de Coimbra
jose strummer em português
LEITE COM CONHAQUE ALIVIA TOSSE
o make me a mask
poemas de agradesimento
receita queijada de tentúgal
cigano morto à facada em Viseu
hopper e os poetas
ruy belo em fugitivos da catástrofe
DESANHOS DO CASTANHEIRO
receita de anis escarchado
papel de parede onde os peixinhos mexem gratuito
tia con una teta pintada con el escudo del Sporting
videos gratis de pessoas semdo atropeladas
poesias em Coisas pequenas
orelha de porco ensalsada
hortencia porque murchou
musica menino jesus do céu esferovite um lindo postal
ordenado guarda nocturno

19/11/2007

Avenida Lázaro

Esta é, precisamente, a entrada nº 1000 do Canil. O texto que lhe dá corpo é a história nº 78 da rubrica 1002 Noites, do programa radiofónico Anoitecer ao Tom Dela (http://www.anoiteceraotomdela.blogspot.com/ - de 2ª a 6ª feiras, entre as 20 e 24h00).





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Foto: © 1939, by Edward Weston (Rubber Dummy, Metro Goldwyn Mayer)

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Avenida Lázaro

1
Há quinze, vinte anos, um dos entreténs da minha vida era sentar-me em paragens de autocarros e ficar a ver o fluxo do trânsito nocturno. Os autocarros vinham e iam, eu não tomava qualquer deles. Com as horas, acabavam as carreiras, rareavam os ligeiros. Um que outro táxi passava devagar com esperança em mim. Chegava a hora das mulheres que alugavam o amor rodoviário. Também me olhavam, mas desistiam depressa. Eu olhava e não desistia.

2
Como o trânsito, os anos passaram. Uma espécie de noite ininterrupta garantiu-me o direito a parar na paragem que não pára nunca mas sempre finge tão bem que sim. Além, nas traseiras da Rodoviária, é o rio. Nas minhas costas, é a fábrica de artefactos de borracha. De tanto mexerem em versos, as mãos pergaminham-se-me, rugosas, mortais e pacientes.

3
Há quinze, vinte anos, já era o futuro. Nada me importou nunca que tudo fosse passagem. Uma das consolações da mortalidade é a eternidade aceitar prestações. O crédito é finito, eu sei, mas a despesa é ilimitada. Eu sentia isso à uma e meia da manhã, na paragem do autocarro. Em frente, a Avenida pulsava reclamos de seguradoras, ferragens, farmácias e senhoras de aluguer.

4
Clarões rápidos desmentem, fugazmente embora, o teor perpétuo do meu assentamento. Recordo manhãs na mesma cidade. Brilhavam cordas de ouro: e era a chuva quando fazia sol nela. Os meus destinos eram breves: uma taberna de terreiro, um pátio onde se mercava algum número improvável do Mundo de Aventuras, a margem direita do rio, a estação ferroviária que partia para o mar sem chegar nunca a lado algum: como eu, precisamente.

5
É verdade que continuo a ver passar autocarros e a contar quantas vezes certas senhoras acendem cigarros na solidão cronométrica do aluguer. Igual verdade é não haver aqui e hoje, quinze ou vinte anos depois, quaisquer senhoras e carreiras algumas. Também vejo cavalos vermelhos no monte, muros brancos sem vivendas depois. Se não vejo, escrevo. Escrevo para ver.

6
Escrevo para viver. Ou, ao menos, para passar vivo por fora, lado de que ficam as instituições, os casamentos, os centros de emprego e as recolhas de sangue para meninos leucémicos. É curioso que, mais e mais, leia menos. Eu sei: é o outono, essa estética caduca do autismo. Mas não o faço por mal. Nem o faço, aliás: acontece-me. Parei na paragem, sentei-me.

7
Parei na paragem, escrevo para (vi)ver, passo na passagem. Além, a Rodoviária. Mais além, o rio. Nas minhas costas, a fábrica de artefactos de borracha. No meu coração, a fábrica de artefactos palavrosos. Aquela senhora acendeu e fumou três cigarros em menos de quinze, vinte minutos, anos.

8
Quinze, vinte anos: tempo nenhum. Táxis olham-me com vã esperança. Homo-homens conduzem lentamente na caça sem altanaria da madrugada urbana. No saco, tenho um livro cheio de deuses egípcios. Já não tenho cigarros. Nuvens chumbam a Lua. Um cão fareja os pés a um contentor.

9
Quinze, vinte anos de outonos e invernos. Nenhum estio, primavera alguma. Uma só noite com algumas manhãs aos pés como quando deixo cair as folhas que escrevo. Deixo-as cair muitas vezes. Nunca me baixo para recolhê-las. Deixo-as ir nos anos, no vento de anos que passam, que passa.

10
Esta noite, estarei sentado na paragem de autocarros. O cão fareja a Lua, as senhoras acendem cigarros que lhes microfilmam o rosto de madeira: gémeas vegetais do carnal comércio. É tempo. Por hoje, nem mais autocarros, nem táxis mais. E então isto: com todas as folhas aos pés, levanto-me e ando.

Caramulo, tarde de 9 de Outubro de 2007

15/11/2007

XX Poemas para um Sossegado Terrorismo mais Um



Nota: se pudesse, teria juízo e deixar-me-ia de versalhadas. Não posso. São dos últimos dias, os XX + 1 poemas que se seguem. Está lá o que penso ser tudo: o que é pouco, decerto, para uma vida. É o que é. Alguns textos são rimados. Outros são apenas maus. Siga.

XX Poemas para um Sossegado Terrorismo mais Um

I

Envelheço devagar no vidro do café.
Estou bem, Mãe.
O museu do meu coração não encerra às segundas-feiras.
Talvez a vida me tenha envenenado de amor, Pai.
A antiga dona do café levou as flores com ela.
Tenho a mão esquerda onde havia um vaso:
sinto a pulsação do ex-coração vegetal ainda.
Os carros na noite sangram farolins.
Estamos a beber cerveja fria na noite do café.
Os meus amigos gostam de futebol:
as almas deles usam calções.
Hoje vi uma mulher bonita em sonhos.
Ela dizia branduras a um homem a meu lado:
nunca me olhou. Eu não a odiei.
As palavras são as cadeiras das palavras mesas.
Jornais abertos como borboletas nas mesas:
a Primavera a preto-e-branco.
Tenho um rio drenando a cabeça.
Não demorarei muito, como toda a gente.

Anoiteço devagar nas galerias da manhã.
Estou bem, minha Irmã.
Volitam as folhas: das árvores, do calendário.
Sim, somos ilhas, minhas filhas.
Bruxuleia a petróleo a luz dos meus olhos.
São já animais adultos, as minhas mãos.
Quadricula-se-me a visão do mundo.
Sabe-me a boca a lápis.
E um rio é uma língua: e fala.
Drena-me a cabeça, molha-me na cama.
E a manhã e a noite resfriam ouro e prata.
E os homens sós do entardecer corvoam, negros,
desde manhã tão cedo nas ruas do comércio
a que não desaguam fregueses nem carteiros.
E o vento irrompe aplausos nas árvores,
marejando-as de invisíveis plateias.

Chego devagar a cada tarde como a uma praia.
Litoral é o coração que porto – e estrangeiro.
Saio a ver homens e animais por caminhos
que o vento talhou nas fragas vegetais.
É poderosa a minha condição – poderoso desperdício
de hélio de estrelas e de estrume temerário.
Sobrelojas de casas-de-pasto efluviam bifanas
e sovacos de mulheres oleaginosas em cozinhas.
Pasodobla a rádio intermitências sentimentais,
não longe as galerias do teatro emitem galhardetes
dramáticos, a sete e quinhentos um assento de coxia.

Uma forja de cactos enrubesce ao sol da manhã.
Assombram-se pinheiros de si mesmos, na cal.
Casais casados pastelariam sevícias mínimas:
torradas e café-com-leite, folha a folha de calendário,
atentas as veias ao colesterol da melancolia.
Em campos aguados de arroz, longe, vigora o livor
das barcarolas de cana atiçadas por meninos sós.
E eu vejo isto como se tanto cinema fosse viver.
E desejo as boas-tardes aos que de noite passam,
na noite de cada manhã.

Eu digo águas frias correndo laranjais – e decerto
nada mais do que isso seja ourives na minha vida,
a não ser ter sido tão amado em menino
por tão poderosas sombras da infante casa, onde
vigoravam a arborescência glandular da Mãe
e o museu particular do Pai, sonhos-iguanas
enfrascados em éter e décadas e décadas
de pó – e de águas frias lavando ouro
e prata e laranjas e pedras e horas.

Demorarei pouco, as mãos na cinza, nestas mãos.
Gastrópodes estrelas me surgem elas, areias de leito
patinhando convulsas, na deságua do tempo.
Isto não apresenta mal algum, terça-feira.
Berlindes entrechocam infantis cristais em adros
platinados de plátanos ondulantes ao velho vento.
Passa um homem de chapéu, talvez o poeta
Afonso Duarte, talvez um gandarês triste mais
– e sem nome, como todas as sombras de chapéu.
Não passa homem de chapéu nenhum:
escrevo um poema na praia – perante mar algum.

Recolherei, cada noite, o pão de prata do mar do sono.
Se não durmo, ausculto: pedrarias e faróis: iluminuras
de um triste monge copista de estrofes desumanas.
O que pesco – uma cara azulada num vidro de café.
Portas envidraçadas de sanatório abrem incultos declives,
onde arde a raposa sua flama ruiva, corredora.
O circunspecto coelho será mastigado – outra vez.
E uma malga de sopa sossegará o versejador, ao frio.
Que é feito das manhãs atlânticas quando
minha Mãe, fértil ainda como uma margem do Nilo,
ainda brava, adquiria legumes e peixe como um
fernão-de-magalhães claro?
Que é feito dos pincéis de meu Pai sem as mãos dele?
Agora é tarde, não de tarde.

Os cus das raparigas na pastelaria são
de cortado tangerino ébano. Distraídas,
folheiam conversas e revistas.
Pedem folhados de salmão em massa-tenra,
tasquinham mentóis edulcorantes sem travessia
de Graham Greene, quando muito (tão nada) Paulo Coelho.
Braveja na tela o idiotismo nacional de
jornalistas e depoentes, ao sabor do faz-bem
e do fascismo que toda a ignorância é.
Mas eu estou bem, Mãe.
Envelheço de lado um pouco menos que de frente,
no vidro do café sangrado de farolins,
entre cacos de cerveja e cascas de amendoins.

II

As flores cheiram como animais quietos.
Dá-lhes-nos o vento insensatas partilhas.
Termos e sentimentos decorrem obsoletos.
Acordo de noite a pensar nas filhas.

Rosas graduam a cor do perfume.
Gatos penteiam, a língua, o pêlo.
Eu sinto na cava a ânsia do cume
e mesmo sem espelho ordeno o cabelo.

De resto, cordato, vou cheirando flores.
Lojas de bifanas ondulam aromas
de fritos, cervejas e outros amores
que cheiram a flores secas em redomas.

Do tudo que a vida mais me der à míngua,
recado trarei à pátria em língua.

III

Venha de onde vier uma luz de barcos
suas caras brancas traçadas a azul
sua humana fadiga suspensa no abismo
que a horas lunares cede pratas e mensagens

cá estarei.

Chegue de onde chegar um recado-retrato
à sombra da sala em obras completas
de Júlio Dinis ou de outra família assim
já com os seus mortos e o seu prestígio

cá estarei.

Tremule onde tremular o pavilhão bandeirante
não importa o castelo sem o torreão
medieva memória terei recebendo
a dor fundíssima dos que chegam mortos
de cansaço – ou apenas cansados de tão vivos

que cá estarei.

Cá estarei
enquanto for viva a centelha rubra
o crisol aceso a sopro e cuspo de ferreiro
sem estudos de alquimista
nem de poeta hidráulico.

Cá estarei
entre convenções europeias e africanos genocídios
apto a recitar de cor historiadores suecos
e suicídios suecos
e americanas edições da Verdade segundo
Cristo nascido no Massachusets.

Cá estarei.
Cá estaremos.

Depois não
ninguém estará

para isto.

IV

Que uma onda de manteiga morna te banhe o coração
quando frio tanto fizer que nem memória de mulher
te possa acudir ou sacudir o dito receptor de micromemórias
o mais das vezes vespertinas – ou seja de meninas.

Que a alma memorial de um trecho de barragem
imagem te seja no adormecer tristonho sob a Lua
sempre que a tua vida se pareça menos com ela
do que contigo meu querido anoitecido amigo.

Estas quadras te dedico e por elas não fico
senão por leal teimosia a mais humana.
Cada dia cada manhã cada semana
mais longe estou do que me te indico.

Crisolam ramalhagens outonais seu puro ouro
sua véspera mente na breve ideia.
Nem é preciso fazer à vida cara feia
que a vida é ouro é ouro é ouro.

V

Já vigiei de uma criança o sono.
Como um homem velho dormia a menina:
a mesma perdição salva por pântanos
e mesencéfalos.

Que normais animais somos
e tecnólogos.

Em torno cercaduravam janelas
e urbanizações.
Os dias eram mais rápidos do que horas.
E não havia sequer assombrações
o mais que havia eram desoras.

Vigiei dessa menina cárpatos ominosos
estremecimentos digitais das mãozinhas.
Ainda os tenho por minutos maravilhosos
mas hoje vivo entre outras janelinhas.

VI

Estou à espera.
Sei que em Paris as pontes amanhecem por dentro.
Nunca vi isso.
Amanheço todo sozinho.
Nunca fui a Paris.
Nunca irei a Paris.
O trabalho da espera é o maior ofício da distância.

Procedo a breves passeios pela zona da luz.
O mais é coisa da sombra: casas aposentadas
tinindo dentro alumínios moribundos.
Gente que não sai às vésperas de futuro
algum.
Gente como eu – que
não escreve
nem deixa
de esperar.

VII

Senhor Jeremias
têm por nós cruzado os dias
suas armas sem fio
tudo é
senhor Jeremias
um rio
ambos bem o sabemos
que dele vivemos
e nele estamos nele nos afogamos
com altíssimos índices de sobrevivência
quão mais baixa a audiência.

Senhor Jeremias
o senhor
que é do meu tempo
sabem tão bem que dar sustento
é dar alento à mortal coisa de morrer
fora do mesmo tempo
de nascer
o senhor Jeremias
sabe.

O senhor Jeremias não sabe.
O nosso tempo não é de senhores.
O nosso tempo já não é de saber.
Têm-se por nós cruzado os dias
em vez de nós.

VIII

Hoje já não
mas já foi
de bravos rapazes
o passadiço das ruas
entre comércios
que da palavra sobreviviam
como as igrejas
de azeite viviam.

Não hoje já não
anoitece como entardecia
e cada eternidade valia um dia
e era uma árvore num pátio
a patermaternidade
da luz do dia
e comer à noite
entre mantas
como entroutro
útero.
Nunca já como hoje
não.

IX

Homens crepusculares ocupam anoiteceres de homens
e de mulheres e de memórias animais.
Falo por mim, que muito sonho com o meu cão,
um senhor amarelo que comeu em um pátio
e ardeu entre montes seu particular incêndio amarelo.

A nós, um cão é suficiente para união
de nascimento e mortes afins
ao nascimento.

Digo eu, que tive um cão
e a um cão pertenci
como a ninguém.

X

É-me a vulgar vida a mais maravilhosa coisa
até pelo empréstimo pago a crédito
da eterna dívida:

dívid’ a estrelas
à ideia de Deus
a nada enfim

sinceramente

aqui na morgue
na berçária morgue

de nossos desdentados sorrisos.

XI

Não voltarei ao convívio dos homens que falam.
Preferirei dos outros o calamento transeunte.
Gajos parecem o que aparecem mas não calam
o que ignoram dizendo nada perante

quem cala dentro o sabido afora:
obras outras de homens outros válidos
que trouxeram do silêncio minuto e hora
de suas mulheres e vidas e sólidos e líquidos.

Não, não sobrarei da fala coisa alguma
que a gente pareça coisa nenhuma.

XII

Deito à noite na cama o corpo no bosque.
A sudoeste, fulgura a jóia da água do rio.
O suave cianeto da melancolia torporiza o deitado.
Comi na cozinha sentado entre árvores.
O televisor da Lua filmava de prata móveis e fragas.
Deitei-me à cama de caruma em flanelas.
Os outros combatentes, entre vivos e mortos, ocupam
posições individuais: retratos, holopresenças arbustivas.

É muito bonita, a solidão narcótica.
A memória é uma aguardente velha: ardente água
na boca do deitado em lonas de camurça.
Víveres enlatados bibliotecam estantes brancas.
Peças de fruta pepitam fosforescências anoitecentes.
Pássaros negros pousam na barra da cama.
E o rio toca a rádio de peixes-cantores.
E o sol da manhã é possível no passado.

Elogio a jóia da água do rio: ela marulha
espumas de cristal que dão de beber às árvores,
a água sobe por dentro as árvores até dar flores,
frutos e pássaros aquíferos tremidos pelo bravio
vento alto, o vento astronáutico flamejando
diamantes de estrelas no céu do meu quarto.
Estou deitado no escuro e não escrevo e sei que
escreverei todas estas limpas máculas manchas mágoas
amanhã, como ontem, na mata que a sudoeste
fluvia o silvestre desamparo do animal urbano
em que me tornei, desertado pela infância e pelo futuro.

Deito à noite o meu corpo
fora.

XIII

Quando somos o único homem e a única mulher do mundo,
outra vez primeiros, outra vez derradeiros,
e nos torcemos como toalhas na contorcionista ginástica
do amor corporal, a cor do corpo oral fala e diz
amarelas cinzas do primeiro último amor,
águas e leites e sais e clarões de incêndio
lavrando a cama como a um pasto ígneo,
a sul os pés de unhas de cutelaria, a norte
a morte breve da expulsão de códigos e ânsias
tão por vezes solitárias no auge de céus e infernos
trazidos por cada um quando somos para que
sejamos, se ainda não do, ao menos para o outro
e a outra.

XIV

Era tudo talvez amanhã de novo
a bordo de um comboio adentro arrozais
a cabeça calma mais do que o coração
rumo a uma tarde solar numa praça branca

não contariam para nós mais
os anos descontados um a um de uma só vez
como bagos de chuva num zinco de décadas
nem as palavras não ditas em adequados crepúsculos
do amor magenta da memória paleta

o meu corpo bem lavado e bem vestido
dinheiro no bolso do lado do coração
e jornais estrangeiros na pasta de cabedal
adejando a cosmopolita liberalidade do viajante
a ti rumo.

Era já foi será nunca mais
que as vidas repetem das vidas o não-sido
não o pode-ser e assim é

de comboio ou a pé.

XV

Sangre a língua sua mínima rosa
entre dentes ricocheteça latinismos
mais livre é quem a ela preso goza
ressonâncias de bárbar’ arabismos.

Edulcor’ estremeça entidade
a glotopátria mater de filhinhos
que à mama dela mam’ a identidade
vogal em consonância de versinhos.

XVI

Matéria de rio emitimos para o mundo – e são
os nossos filhos no tempo.
Depois à noite sucede a noite – e toda a noite
lhes procuramos as vozes no escuro – como se deles
filhos fôramos,
afinal,
filhos da matéria fluvial.

XVII

Cadências dobram éreas na solidão sineira.
Almas piam, pias, corredoras de veredas.
Sossega insone a povoação inteira,
excepção minha, qu’inda corro alamedas.

Um gato espertino perto vigia
destino que não sondo comitrágico:
vê ele melhor de noite que eu de dia,
’ma coisa é ser humano, outra ser mágico.

Em torno, a pobre aldeia calcifica
seus ossos cor de casas em destroços.
Da vida toda só memória fica,
depois não fica, fica só a cor dos ossos.

Eu gosto de em tapetes outonais
marejar pés chorosos pelo chão.
Não sou perante os gatos como o cão,
nem me acorrem uivos animais.

Não. Mais uso, eu sozinho, o costume
de ter perante os sós a só doçura
de carburar por dentro o azedume
e fora me dourar de lit’ratura.

Cadências dobram éreas
etc.

XVIII

Vi-o barbeado e deitado para dormir
de fato completo – de facto, completo.
Sorria, sem ele, um mínimo de boca dele,
sob o bigode ainda não morto, afirmativo ainda.

Lembro-me disso como se amanhã fosse.
Um homem colecciona coisas de rapaz.
E um irmão morto é coisa de amanhã,
por mais insultos que nos sobrem de ontem.

Eu digo a minha vida toda aqui – menos
a minha vida toda, que toda só parece
e nunca é – excepto nos recibos das
grandes superfícies, não o mar, mas comerciais.

Digo mais: digo esta atenção atirada à sintaxe,
que a tudo ordena desde que livros houve,
assim de nós tirando a genética memória
em de uma de papel troca.

Vi a circunspecção em roda circumnavegadora,
vigorava o esquife envernizada geometria.
E nunca mais foi dia, tirando eu talvez
as mulheres nuas e as filhas nuas que delas

me brotaram em substituição nenhuma do que,
vivendo-nos, nos mata. Pode ser isto um caminho,
até em delicada ode de senhor pecto, circunspecto,
onde o coração treme primeiros colesteróis.

Vi-o barbeado e pronto, na tarde pincelada
a borracha azul com graduada cinza de
estragados licores para natais mais alguns.
Vi-o – e vejo-o ainda, como se o beijara

fora de órbita. Acontecimentos vagamente posteriores
certificaram-me sobrevivência – que só pós-vida
era, sempre e afinal, entre móveis e dentes,
retratos e palimpsestos, cacos e cacos.

Tenho saudades do gajo – e o gajo aqui.

XIX

Agora é tempo ainda intermédio.
Não consta, à cercania, algum bombismo.
Muitos são os anos de nenhum tédio.
Ser triste é um sossegado terrorismo.

Um verso, agora, há-de ser a minha vida
quando a leitura for do verso feito.
Quem caminha, caminha a direito:
e torto é escrever a coisa lida

na plen’ antecipada sorte certa.
A morte não fechou a vida aberta,
a vida não fechou a morte certa,
ser triste é um sossegado terrorismo.

XX

A minha boca é de uma língua.
Antigamente já (foi há tão poucos anos)
o meu amigo Tó tinha uma língua na boca.
Morreu de ambas, um nome técnico qualquer,
talvez cancro em ambas.

Eu digo: durmo num bosque na cama,
uma mulher é um rio,
uma mãe é o mar,
as meninas são água de água,

cá estarei.

******

Tarde a Baixo

Pouco somos à instância da luz.
Vale-nos a falsificação da memória.
Ardemos frios em a mesma glória
da consumpção mesma que conduz

cada um a seu triste pasto ominoso.
Tornam cercaduras, clarões de rosas,
os olhos bem fechados de puro gozo
das não vividas coisas maravilhosas.

É a tarde. Rua a baixo descem os peões
buscando ossos, latas, cereais.
Escusado é dar-lhes revoluções:
no mais vêem o menos, nunca o mais.

Atento à lei, o doce rapazinho
vê do comboio marejados arrozais.
Tem dentro um barco, marinheirinho,
nos olhos água, cloretos, sais.

Não conta, das gentes, a pura ânsia
que a uma varanda anseia a Lua.
Ele há no mundo muita distância
entre gente e gente e rua e rua.

******

Foto: © Sandra Bernardo – Grande Sanatório do Caramulo, 11 de Novembro de 2007

Textos: todos no Caramulo; noite de 12, manhã e tarde de 13 de Novembro de 2007 (I); tarde de 13 de Novembro de 2007 (II a XI); tarde de 14 de Novembro de 2007 (XII a XV): noite de 14 de Novembro de 2007 (XVI a XX); Tarde a Baixo (tarde de 15 de Novembro de 2007).

11/11/2007

Eu Saio para o Lado da Púrpura sem Mal Algum, Sábado




1 (Nenhum Mal e Nenhum Número)

Hoje já quase não é o que foi: sábado, 10. Não tem mal.
Dediquei uma grande parte do dia a um trabalho que me deprimiu.
Era apenas uma revisão de livro para uma editora amiga – mas deprimiu-me.
O tema da obra é simples como a vida: as alcunhas de há meio século numa vila do País.
A autora do texto é uma senhora que conheço.
É de idade já avançada – como avançam os barcos no mar até à descoberta de não haver cais – ou sequer praia – de retorno.
Entrei na intenção narradora e na intenção narrativa (não, não são a mesma coisa).
Quando escureceu, larguei o trabalho e vim entristecer para aqui sem livro.
Trouxe o caderno comigo.
Antes, por causa do frio, fui ao quarto, tirei a roupa de fora, entalei-me no pijama, revesti-me e pus-me na breve alheta destoutra vila.
Não tenho a idade da senhora do livro, mas, como ela, estou já a salvo da juventude.
Agora, ando a ver árvores, candeeiros, ruas devassadas pelo favónio da alheia memória.
Alheia, sim: eu não me lembro de nada.
Sábado? 10? Não sei, talvez.
Estou pronto para a viagem seguinte: algumas palavras para uma não-posse, para uma resignação madura, para uma disposição dos já-não-factos – ou dos ainda-não-actos.
Estou pronto.
A televisão da pastelaria ladra americanices – sou-lhes imune.
No pátio, os castanheiros regelados atiram pedradas verticais – não colherei os frutos.
Vai ser tudo em português – a língua das pessoas da minha rua, incluindo as que já deixaram a rua, o idioma e a pessoalidade.
Vai ser o que for – e se por acaso já tiver sido, sê-lo-á na leitura, que a tudo volve vento e praia, mesmo que à praia – ou sequer a cais – não volvamos já, um destes sábados inumeráveis e inumerados.
Mal nenhum.

2

Já não tenho um coração de espadarte.
Já andei com um, deixei-o sair, um a outro
não volveremos.
É boa coisa, isto.
Um homem deve usar um coração de homem só até
lhe ser possível um coração só de pessoa
– de peixe, não.
Nem por espada.
Nem por arte.

3

Toca-nos a idade com preciosas mãozinhas
descostureiras.
Gosta tanto, a desmarinheira, de nos avançar
no mar.
Acho graça a essa descomunal rapariga
abreviadora.
Como de nós, rapazes, faz morcelas.
Como de vós, raparigas, faz naperões.
Só os gatos reciclam a eternidade dos velhos
pátios, onde pessegueiros e bicicletas
enferrujam com o céu nas costas
como um muro.
Tépida orquestra, apesar dela, ou
por ela,
marina passadiços de música
em feira não de praia longe – e somos
lá, dançando bebidas frescas à viração
de carrosséis ternários
para a pobre áustria da nossa
idade.
Uns estamos vivos.
Outros somos mortos.

4

Mãos que não precisam de flores para sê-las:
estrelas amanhecendo na noite de sábado,
em algum salão de baile para divorciados,
de quebradiço papel tais flores,
mas flores.

5

Ouço na noite os galos roucos como lobos,
à Lua expostos, eles também, como horas
de pedra.
Vivem mal em casebres de madeira e arame, os galos,
entre mulheres estúpidas e cães narcotizados.
Em torno, no mundo estrangeiro, caem
helicópteros e cometas, camionetas vermelhas
cheirando a fritos vociferam tosses eléctricas,
rapazes atiram pedras à água vertical das janelas,.
Sinto dos galos a sanguínea indignação,
aves reais apenas reais,
aves nunca mais.

6

Se assim o entenderes, senta-te aí com a tua bebida.
Não tragas para a mesa o que passaste
– para que eu não tenha de passar por ele,
vós dois bastais bem a tal passagem
e à minha bebida.

7

Era sábado ainda agora
ontem, amanhã,
mal também já não faz,
fará.

8

Há pontes.
Há o frio da noite.
Sempre tão gémeas, tais entidades.
Sempre tão únicas, tais identidades.

Já olhei muitas vezes a Outra Banda.
Estava frio, quase sempre.
A noite também, a noite também
Estava.

Sei onde são as pontes.
Desconheço quem as passa.
Eu não,
todas as vezes.

9

No céu dos olhos anoitecem reconhecimentos
como pássaros não bruscos, antes lentos.


Há crianças encerradas em delas a infância
e em casas magras como galos pobres.
Crepita no espaço a tempestade de cabelos eléctricos.
Temem-na e adoram-na, à tempestade, as crianças.

As crianças alimentam-se pelos olhos, de olhos ouvem
e hão as revoluções e as memórias antecipadas.
Ouvem os pais no quarto havendo-se escuramente.
Pessegueiros e bicicletas ardem no frio humaníssimo.

No céu dos olhos anoitecem reconhecimentos
como pássaros não bruscos, antes lentos.


Recordo a fala estalactícia dos móveis no ar preto.
Era tudo noite, mormente nos retratos.
Toda a casa sarcofagava o futuro, a não-presença:
digo: o céu dos olhos que olham a criança.

No pátio do pessegueiro, a bicicleta, os cacos
de louça e de gatos, a pulsação venosa das horas,
a queimadura do luar no muro, a falta
injustificada do sol marinho na terra seca.

No céu dos olhos anoitecem reconhecimentos
como pássaros não bruscos, antes lentos.


O futuro como uma mentira bem contada e mal dita,
os homens do tempo em que olhávamos para cima
para vê-los. Suas bocas arroxeadas pelo vinho e pelo
operariado, em setembros emoldurados por janeiros acabados.

De angolas e moçambiques chegavam fornadas
de ex-porvires cristãos, tudo tão parecido com galileias
e pragas de profetas escumando civilizações
de um evangelismo fundamentado no subsídio

e, naturalmente, em Deus.
Nós já anoitecíamos há oito séculos, que os egiptos
tinham sido drenados pela providência e pelos
microfilmes americanos que nos encerravam,
infantis, em nossas não desenterráveis tróias.

No céu dos olhos, no céu dos olhos.

10

Talvez me chegue ainda a carta que o carteiro
traz escondida no sovaco como uma coronha.

Não sei. Penso que não. Julgo que não. Julgo que penso.

11

Talvez eu recorde (mas não o garanto, posto que o escrevo)
rapazes numa fímbria de bosque, ao sol de um junho,
rápidos os diamantes altos no folhedo alto.
Uma recordação assim talvez me tornasse feliz,
no sábado que acaba como uma maré sem barcos.

Rápidos rapazes rapaces, torvelinhadores de rios, não:
um só rio – talvez um só rapaz.

Uma fragrância de maçãs azedas e gatos mortos,
no torno do açude. Distante, a postal-cidade
agremiadora de bardamerdices doutorais e papaias outras que tais
– como as do porvir e das famílias e dos empregos públicos.

E não éramos filhos de ninguém então, então. Éramos
éreos e não venéreos e sérios e sóbrios – e a diferença
era o não-lembrar para a frente, era o perfume
do guisado que crepusculava os regressos

do rio.

Rápidos, rápidos rapazes.

12

Ainda te hei-de rever à chuva na rua,
os retratos da sala todos na rua, na tua
chuva, na tua
rua.

13

Sim, claro e decerto: as antologias do futuro
são modernismos passados. Algumas coisas,
ainda assim, ficam: certos lapsos da língua viva,
bifurcadora do coração; incertos licores exsudados
por inglórias matrizes de poucos anos e muitos
bilhetes.
Eu, se pudesse, mandaria traduzir os nossos poetas
em verso.
Mas não no posso, que,
bem mais que eu,
podem mais
os medalhismos pátriomunicipais.

14

Não me treblinkes nem m’auschwitzes,
que eu não ando à buchenwalda.
Nem me losálames nem me colditzes,
qu’eu só hiroshimo com calma.

Littlebighornas por defeito
quanto buçaco eu por mim.
Se normandias a preceito,
também ardeno eu, enfim.

Aljubarrotas só pescada,
bêbêcês degaullas: palha-vã.
Comigo tu não, amanhã,
kennedyporcas enseada.

Por isso os dois, entre rapazes,
façamos aqui de vez as pazes.

15

Dizes-te pobre e quando vais ver
todas as pedras e todo o ar
te pertencem como lhes pertences
como aliás pertences tu a tudo
o que disseste e o que não

por pura pobreza.

16

Eu saio para o lado da púrpura.
Arminhos frios rendam geadas
num tapete de laranjas públicas.
Tenho toda a confiança em a nossa
cobardia. Dela me alimento aliás
no lado lilás que arraia
armazéns industriais a agências de viagens
ou de emprego.
Churrasqueiras estalidam crestações.
Lojas de móveis concorrem tábuas vãs
contra garagens de pesados internacionais.
Quantas são as crestações do ano?
Quantas as estações do dia?
Podes falar assim como te falo?
Podes calar-te assim como te calo?

Há por vezes surpresas nos jantares aniversários.
As esposas revoltam-se muito entre detergentes.
E os aturdidos senhores maridos de todas por nada
tossem aos filhos impropérios economicistas.

Eu já não digo essas coisas.
Venho para aqui e faço versos.
A mulher dorme-me na paz adida – ou
adiada.
Pulsa-me pelos corredores a gata egípcia,
farolim de ouro-lazúli,
exploradora e colonialista.

Gráceis porcelanas em pastelarias quinquilham
barros rachados
a já muito preço vidrados
de pubercúleos tineijas
de videoconsola.
Assiste-se entretanto à bola.
É sábado,
calma.

A púrpura sai-me do lado direito
o do coração
passa-me o tempo
passa-me o sábado
e eu não sei

não.

17 (Nenhum Número e Nenhum Mal)

Jogam na televisão Vitória, o de Guimarães, e Paços de Ferreira. Branco contra amarelo – como o ovo. Um menino chamado Fábio range dentes lácteos numa teimosia de chocolate. O irmão mais velho (herdará as fontes despovoadas do pai, o olhar despovoado da mãe) faz de adulto. A mãe é uma rapariga igual a uma palmeiranã – se tais legumes vestissem blusas azuis que tais. Uis. Ais. É o sábado em sua glória dele. Já não estou a pensar no livro que amanhã terei de rever até o fim – até que a nenhum cais – ou sequer praia – chegar.
Digo entretanto que

18

Uma loja diz-te como a vida te diz:

Desculpe, mas disso não temos.

19

Há um celibato essencial no olhar existencial,

não há?

20

Vamos outra vez falar das chuvas que esclareciam,
no início da adolescência, a impotência mundial
da criança.

Era quando chovia na própria idade.
Das corredoras alegrias não sobrava arruada.
Já não se podia viver à vontade.
Nem já se podia fazer nada.

Vamos outra vez falar
etc.

21

A nossa Mãe é hoje o mais imóvel
móvel da cozinha,
onde outrora urdia os guisados do regresso
do rio.
Seca devagarinho como uma especiaria
não já especial.
Cresta-a o salitre sapador de fontes.
Dela os pulmões motorizam uma asma
inequívoca.
Dela os pés tortulham elefantíases lentas
como recados não atendidos.
Embaciam-se-nos os olhos da nossa Mãe:
janelas à chuva de uma terça-feira
absoluta e maternalmente
particular.

E ainda assim
lhe chamamos lar.

Até que nos telefonam
lamentando o telefonar.

22

Se os armazéns vizinhos aumentarem a frota,
suspeitarás de inteligências que não tuas.
Se tiver sido há trinta anos, na mesma
suspeitarás do mesmo.
Envelheçam entretanto as buganvílias e as
mercearias, mas disso não darás conta
antes que te ameacem o armazém
– e a frota das tardes em que vinhas
de trabalhar
e tudo só não podia ser mais
porque já tudo era.

23

Eu já olhei e já não vi.

24

Tinha de ser na sequência do pessegueiro e da bicicleta.
Tinha de ser dito que a Roberta Flack não matou
o vizinho do NSU que se espetou contra a infância.

Nessa altura, a permilagem matava muita criança ainda.
Mas um vizinho morrer de NSU contrariava os pátios.
A vida não tinha de acabar em 1973.
1972?

Sábado.

Textos: Caramulo, noite de 10 de Novembro de 2007.
Foto: também.

10/11/2007

Vidros no Chão para Mãos Azuis, Ternas e Obscenas




Acordo em suavíssima amargura.
A janela do quarto demonstra que a terra não pousou ainda no céu.
Abro os olhos para que os sonhos caiam como vidros ao chão.
O sol não virá hoje.
Sei-o por causa das árvores.
Vou à varanda consultá-las.
São como gente na cinza.
Algumas são incêndios frios.
Por toda a casa, os móveis emitem seus morses.
Os objectos não pesam.
Flutuam na cegueira translúcida.
A lareira apagada como um coração sem portador.
Os quadros sem cor nas paredes apagadas.
Os retratos de gente a que pertenci como um cão.
É uma manhã nocturna, mas estou preparado.
O meu corpo fala-me.
Ele diz-me ternas obscenidades, que tornarei versos.
Sou este homem nesta hora.

Na cozinha, a taça diz os frutos.
Café chilreia na cafeteira italiana.
Impressas a contraluz nas cortinas, as árvores fumam gaze.
Sento-me perante a chávena azul.
Olho-a como a um livro.
Olho-a como a um livor.
Entrego-lhe os meus pontos.
Descubro as minhas mãos em torno dela.
São mãos azuis.

Sou este homem nesta rua.
O parque respira como um animal transparente.
A minha gente fantasmática ambula pelas ruas vegetais.
Sei que sou, não que hora é.
Espera: esta visão é cristal líquido.
Geadarei passos frios na revoada de ouro.
Outonam-se-me as folhas, que encaparei no caderno.
Devo receber tudo isto.
O cão madrugador.
A pincelada hipnótica do corvo
que nunca adormece
nem acorda nunca.

Texto: Caramulo, noite de 9 de Novembro de 2007
Foto: Sandra Bernardo, Caramulo, manhã de 3 de Novembro de 2007

Poema para Mães Solteiras e/ou Cavalos (Grátis)

Bom dia todos os dias para toda a gente.
Regresso com as listagens de busca da www.
Já nem comento a riqueza disto: não posso ficar com ela(s) só para mim.
Aqui vai coisa rica, portanto.

******

Qual a causa de o porco não engraçar com os mecânicos de atomóveis
estante de marmore terrinha
animais que moram na taiga
fotonovela "simplesmente maria"
jaquetas de couro laivo
minha cunhada foi operada a dois meses do útero
venda de rulotes para cavalos
www com dr bem familia band daniell urinar
licor medular na raça canina
paulo coelho poesias sobre negros
jogo de home aranham
procuro pastelaria para aluguar na zona das paivas ou amora
relógios condor grande de aço com puseira em borracha
quem foi o salteador joao brandão
canil nijinsky
anjo da decisão
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poemas de cavalos grátis
posso dar agua fervida para peixe de aquario que nao presiza de oxigénio
prosa dos anos trinta
loja que faz protese mamaria e soutien sob medida
feridas q dao em pessoas q estão acamadas
a paroxetina deixa os dentes amarelos?
poemas com carago
tudo sobre os castanheiros
telefonaram-lhe um homem e uma mulher
loja de anilhas em ouro para pombos correios
mealheiros com pintainhos
julio cortazar ditadura blusa
jornal a tarde policial matou mulher e depois se matou 2005 salvador
Por que motivo o interior das latas de alguns sumos cervejas concervas são revestidos com estanho
vento na saia
PARTITURAS GRATIS DE CHOPIN POSTUMOS
sombras chinesas com bonecos articulados
bolinha vermelha transparente gengiva
zundape
registos e pagelas
desenhos de castanheiros para colorir
poemas maes solteiras

09/11/2007

Foto

© : foto de Sandra Bernardo para o Jornal do Centro de 9 de Novembro de 2007
(relativa a incêndios que grassaram em Vouzela no dia 7-11-07)

Herbário de António, o Santareno


Hoje, n'O Ribatejo (www.oribatejo.pt), esta homenagem a um dos maiores escritores de sempre da Língua Portuguesa.
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No Verão de 1996, tive nas mãos o herbário juvenil de António Martinho do Rosário, depois (e espero, apesar de tudo, que para o maior sempre possível) conhecido por Bernardo Santareno, o grande dramaturgo de ‘O Judeu’, ‘O Crime de Aldeia Velha’, “António Marinheiro” e de “Português, Escritor, 45 Anos de Idade”, entre tantas outras obras de lugar cativo na nossa tão rica como amnésica portugalidade.
Estagiava eu então na RDP/Antena 2, onde, a troco de estar calado, fui remunerado com a riqueza de ouvir e ver coisas e pessoas de outra dimensão que não apenas esta nossa merceeira condição de sobreviventes a prazo e a malefício de inventário. O herbário de António (não ainda Bernardo) é o que um herbário antigo tem de ser: uma antologia de folhas e flores coladas de costas ao papel do Tempo, esse impiedoso combustível. Enterneceu-me poder manusear um objecto criado pelas mãos do grande escritor quando moço. Por assim dizer, revisitei, pela mão dele, o tempo dele: as flores dele, as folhas dele, a botânica juvenilidade dele. Depois foram, para ele, os anos de Lisboa: médico psiquiatra, escritor de teatro, homossexual discreto, sombra solitária, portador de óculos de espessos aros, gravata decente, perpétuo cigarro ao canto da boca, sentido atento às vozes de dentro que, soltas dele, se tornavam, fora dele, corpos de actores. Os tablados dramáticos encheram-se dessas vozes, dessas vozes por assim dizer herbárias: borboletas vegetais alfinetadas pela revisitação das nossas História, Língua, Pátria, Moralidade, Sensualidade, Criação, Alma, Hipocrisia, Solidariedade, Tragédia; e dos nossos Drama, Desamparo, Confronto, Cérebro, Vazio, Frio, Fado, Exílio, Silêncio e Desconhecimento. É justo que pouco ou nada disto vos interesse grande ou mínima coisa. É justo que sejamos diferentes, a começar pelos interesses. Esse é, aliás, um dos ganhos a obter da leitura da obra de Bernardo Santareno, esse senhor de quem alguns manuscritos andam perdidos por obra e desgraça da má hora em que deles tornou herdeiro um rapazelho de duvidosa honra e proxenética condição: a justiça da diferença contra a injustiça que toda a indiferença é. Eu sei: o Povo (essa entidade concretamente humana que vive numa abstracção animal) não vai ao teatro, não gosta de pensar nem de se repensar, prefere mostrar as cáries no desbragamento da gargalhada, gosta mais de broa. Três décadas apenas depois do 25 de Abril, não estamos melhores por aí além. Não sabemos mais, não conhecemos mais nem minimamente nos reconhecemos: como Povo. Queremos ser da Europa sem saber ao certo onde é que isso fica. Deve ser ao pé da Turquia. Temos liberdade de expressão, é certo, mas não sabemos exprimir-nos. Votamos massivamente na Abstenção, desconfiados de que, seja quem for que lá ponhamos, é para nos roubar. E nem sabemos quem foi e o que fez Bernardo Santareno. Posso dar uma ajuda.
Era António. Juntou flores em pequeno.

08/11/2007

Alcunhinha

Amanhã, sexta, 9 de Novembro de 2007, n'O Ribatejo (www.oribatejo.pt), mais uma croniqueta da série Rosário Breve.

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Alcunhinha

Sou amigo de um fulano muito muito muito pequenito. Cada vez que ele vai de férias, a Branca de Neve fica só com seis anões. Não faz mal nenhum a Branca de Neve não existir: eu digo-lhe isso na mesma, a malta ri-se e ele também. Em jovem, ainda almejou tornar-se enfermeiro, mas como lhe escondiam sempre os medicamentos, mesmo depois de ter feito 30 anos, acabou por desistir. Hoje, trabalha nos Correios a acartar selos, um de cada vez. Com uma auto-ironia não isenta de amargura, equipara a vida profissional à sua existência interior e à sua volumetria orgânica: “É uma posta restante”.
Todas as sextas-feiras, pela tardinha, vamos cervejar em roda numa marisqueira amiga. Ele também vai, é claro, mas só o deixamos beber cerveja pelos cálices de anis. Mesmo assim, embebeda-se mais depressa do que qualquer um de nós, homens. No regresso dessas sessões com que suturamos a brevidade da vida e supuramos a eternidade do envelhecimento, redobramos o cuidado: já aconteceu duas ou três vezes que um cão o levasse na boca. Quando chegamos a casa dele, tiramo-lo das cavalitas e entregamo-lo ao colo da mãe, a que ele se aninha num coma feliz de bebé anacrónico.
Ele não é social-democrata, mas acudiu com fervor pelo Marques Mendes, naturalmente. Quando Menezes ganhou, ele sentiu a desfeita como um agravo pessoal. Fomos consolá-lo na marisqueira amiga.
Entre nós, o melhor prato é a memória de quando ele regressou do dentista com uma cremalheira de ferro nos dentes de cima. Começámos todos a trazer um íman no bolso de trás das calças, de modo a atrair-lhe a cara ao nosso traseiro cada vez que ele, como todos os pequenitos, se punha a dizer bem do FC Porto.
Mas nada do acima exposto significa que lhe não tenhamos amor. Tanto assim é, que, embora ele se chame Lopes, só o tratamos por “Portugal”.

07/11/2007

Cartas da Nascente

Esta é história nº 77 da rubrica 1002 Noites, 3ª hora do programa radiofónico Anoitecer ao Tom Dela (todas as noites de segunda a sexta, entre as 20 e as 24 horas - em 91.2 FM ou www.emissoradasbeiras.radios.pt). Sobre o programa, ver www.anoiteceraotomdela.blogspot.com.


...............................
Cartas da Nascente

1
O passo dado para trás já não interessa. Conta, mas não interessa. Só o desconhecido é interessante. Veja-se este homem descendo a nascente pelo centro exacto do leito. O vento dá-lhe cotoveladas de vidro, que ele recebe sem ofensa nem registo. A água vai bebendo a luz para ter o que dar de beber às sombras crescentes em torno.

2
É um homem com um saco descendo a nascente. Ele não tem frio. Um pouco de pressa, talvez, mas não frio. O saco tem três cartas por abrir. Nenhum dos envelopes tem o destinatário escrito. O que interessa é o que está dentro, não o que fica fora.

3
Entre a folhagem que ladeia a carreira, pequenos animais conspiram a existência. Deus conhece cada um deles. Nenhum deles reconhece Deus. Isso não ocupa nem preocupa o homem do saco, que segue a sua vida como se a vida dele fosse à frente. À frente e para baixo.

4
Surgem já as casas da última povoação deste mundo. Foram construídas sem ajuda de máquinas. Mãos e braços empilharam ossos e pedras, barro e cal, vidro e telha. As casas tornaram-se definitivas. Purificaram o frio e resistiram ao calor. São três casas, tantas quantas as cartas no saco.

5
Ninguém está dentro da primeira casa. O homem escolhe a primeira carta, baixa-se para a porta, aponta a carta ao espaço entre a porta e o chão do degrau. Sozinha, a carta entra, aspirada pela respiração solitária do vazio.

6
Ninguém dentro da segunda casa – e tudo acontece de novo. O homem, a carta, a recepção mágica. A primeira carta já não interessa, a segunda também não. O homem reergue-se, passa à terceira carta, à terceira casa.

7
Há duas crianças à porta da terceira casa. A porta está fechada nas costas das duas crianças. São duas meninas. Estão vestidas de branco. À cintura, usam uma faixa grená de que pendem dois coelhos mortos, um por cada menina. O cabelo delas é negro. Mas sobre as fontes é branco. E as mãos delas são enrugadas e agudas e vermelhas como pés de pombas.

8
Agora, o homem está parado de frente para as duas velhas meninas. Não lhe é possível baixar-se perante a porta, tal que a casa vazia possa aspirar a carta. Entre o homem com a carta e a casa sem gente estão as duas crianças antigas. Ninguém fala. Os três ouvem.

9
Não há mais casas. Não há mais cartas. Não há mais homens. Não há mais meninas. Três casas. Três cartas. Um homem. Duas velhas. A nascente não passa daqui. Não se pode voltar para trás.

10
As cartas são escritas para ninguém. Trazem palavras dentro, mas não há leitura. Noutro mundo que não este, talvez a correspondência seja possível. Mas outro mundo implica outra nascente e outro nascimento. E isso interessa, mas já não conta.


Caramulo, tarde de 7 de Agosto de 2007

05/11/2007

Fala o Rei Crisóstomo mais Dois Poemas

I. Fala o Rei Crisóstomo perante seu Filho Único, Príncipe, Jacente e Moribundo

Não serás, meu filho, o marinheiro
que histórias de ama te ensinaram a ansiar.
Incunábulo algum de cavalaria nenhuma
te susterá a dourado o nome adorado, pois que
até o nome perderás, adormecendo.
Mais do que a mim, às crianças vivas abandonas,
tuas contemporâneas rápidas – e súbditas tuas,
um dia já nunca.
Tão jovem, nem torrada melancolia apagarás
de algum incêndio teu em de uma mulher
o corpo e a alma e o leito – disso, porém,
não suspires, que mais queima tê-lo ardido
que por tal arder.
Ferros não cruzarás com sangue: nem de besta
infiel, nem de humano bárbaro – pelo que
outra guerra não levarás à morte
que a de tão pouco teres vivido.
Assim ainda, amado foste mais do que breve.
Tua Mãe gane pelos paços tua dela ferida
mortal, mas que nem ao de leve te assome dela
o cuidado, pois que dela, breve, longa
ânsia láctea voltarei a fecundar,
em teu lugar.



II. Agenda

Insondável cronologia, a dos milhafres
no céu do domingo: nunca domingo
para eles, sempre segunda-feira.



III. Na Sala de Espera

Estou há muitos anos sentado na sala de espera
do posto de saúde. Tenho há muitos anos
a mesma idade. A minha Mãe conversa para o lado
com outra Mãe. O quarentão filho da outra Mãe
tem a minha idade. Não conversamos um
com o outro. Não. Esperamos.
Esperamos que nos chamem.
Até hoje.
Até amanhã.



Caramulo, tarde de 4 de Novembro de 2007

Tudo Sobre os Castanheiros ou Então Quase Tudo

Bons dias! Ora aqui vai mais uma famigerada enxúndia de "versos" dos motores de busca. É coisa rica. É entrar, é entrar!


**********
Qual a causa de o porco não engraçar com os mecânicos de atomóveis
estante de marmore terrinha
animais que moram na taiga
fotonovela "simplesmente maria"
jaquetas de couro laivo
minha cunhada foi operada a dois meses do útero
venda de rulotes para cavalos
www com dr bem familia band daniell urinar
licor medular na raça canina
paulo coelho poesias sobre negros
jogo de home aranham
procuro pastelaria para aluguar na zona das paivas ou amora
relógios condor grande de aço com puseira em borracha
quem foi o salteador joao brandão
canil nijinsky
anjo da decisão
profeta elias para colorir
poemas de cavalos grátis
posso dar agua fervida para peixe de aquario que nao presiza de oxigénio
prosa dos anos trinta
loja que faz protese mamaria e soutien sob medida
feridas q dao em pessoas q estão acamadas
a paroxetina deixa os dentes amarelos?
poemas com carago
tudo sobre os castanheiros

04/11/2007

Dia 3 de Novembro de 2007- II - Tarde, Viagem e Noite




Do mundo ambas, formosura e tristeza equivalem-se em intensidade e suave espanto. Por causa de ambas, também, vim para este ofício desassalariado de escritor de província.

Olhai-me estas águas: a luz, a colectiva individualidade do arvoredo, as flanelas de sombra guardando cantos, a mulher de saca-serapilheira na mão e foice engastada no ombro descendo a estrada rumo às marés da erva, o nanismo dos eucaliptos jovens fervilhando de vida na terra nutriente, a presença invisível dos lençóis freáticos, as vivendas congeladas na claridade, a parrésia ubíqua do sábado do Universo, os nomes das terras como poemas breves e suficientes.

Eu sei, eu sei: viajais comigo. Dar-vos isto é tudo o que quero – e posso. Dar-vos a rápida fortuna dos limoeiros, um por pátio, em clarão óptico. A caminho da cidade, resguardado pela veterania que concede apaziguamento, resigno-me na desconformidade descomunal do mundo. Não é esta uma estrada com putas de berma, pelo que posso fauná-la de ridentes meninas gratificadas de tule azul – como as do sul da minha vida. Não ignoro que resulta improvável dar-vo-las a ver, mas sou, como toda a gente, feito de aproximações – ou de tentativas.

À frente, uma camioneta letreira Transporte de Gado Vivo, a começar pelo condutor, suponho. Entre tábuas, os olhos dos animais violados à nascença por Deus, o Magarefe-Mor destas bandas siderais. (Má conversa para levar a Viseu, aldeia metafísica infectada de seminaristas e de bacocos sintonizados ad aeternum na TV-Fátima – mas não deixo nunca de chispar o látego aos lombos das vãs criaturas e das vis obras do Senhor: que os pariu a todos, enfim.)

Desvio do trajecto por Fail: novidade, há obras no itinerário principal. Desagradável, no entanto, é a constância pós-prandial dos bocejos. Escancaro a bocarra como um contentor de tampo empenado e solto uns urros proboscídeos que me caem mal ao atavio de prosador das berças. Bocejo tanto e tão fundo, que me sinto descalço, tal o arrepanho das íntimas febras venosas. Chegada a Viseu, entretanto.

Subo do Teatro Viriato à Rua Direita, tiro um par de fotografias à esquina da Rua Escura, ingresso numa confeitaria com discrição. Vou à privada e ejecto bens fisiológicos que me atormentavam os odres desde a chegada à cidade. (Como é maior, nos tempos que correm, a produção do que a recepção literárias, isto é, como se desproporcionou a relação entre cifra e decifração, isto significa que fui cagar.) Discreto sempre, tomo um café para não fazer do estabelecimento uma sentina sem consumo mínimo. Não me demoro muito, o tempo só de tomar o café e escrever este parágrafo: é que a aparelhagem sonora da casa emite a vozinha glande-cristã, ou prepúcio-emigresa, do Tony Carreira, o trovador que todos nós, por castigo, acabámos merecendo.

Tenho sorte: a luz, que é eterna, na cidade antiga. Não está frio, existir parece, ao menos esta tarde, uma coisa temperada. Subo à Praça de D. Duarte, alguém subiu uma braçada de flores ao Rei. Um turismo manso de crianças e máquinas digitais a tiracolo pervaga pelas calçadas vetustas servidas de comércio por igual manso. Atiro-me devagar ao Largo do Pintor Gata, miniaturista íncola que foi de dois séculos: XVIII e XIX. Entro no bar irlandês para um copo de cerveja e um exercício mirone mais. Aqui, ao menos, não passam o Tony nas colunas. Não preciso de esforço algum para confessar que esta cidade me agrada. A primeira referência que tive dela foi na meninice – e veio de uma das pessoas cuja memória me é das mais queridas: o meu Professor dos quatro anos de escola primária, esse cavalheiro humaníssimo chamado Elias Rodrigues Faro. Para que se me não humedeçam os olhos à sua evocação, fecho já o parágrafo, a consciência e o caderno.

Retomam as sombras já
delas o lugar primevo:
digo – o mundo.

Anoitece-nos a hora. Olhai:

podemos colher do ar
a macerada violeta crepuscular.

Nem sempre, mas vezes há em que o Tempo nos dá a face para que o toquemos a ele nela. Mulheres e homens haverá que assim procedam – mas conheço tão pouca gente, que aventar é o mais que posso: e devo. Recolhi ao Esquina. Sou o único cliente do café. Pierce Brosnan desempenha na TV um 007 mais. A luz fez-se pó – e o pó voltará a carvão. Dilui-se a boca do céu em sua mesma saliva: uma baba anil que dilui até a amargura. Eu agora aceito isto com uma resignação de veterano. Adiro, paulatino, à física dos diluentes. Eu sei: a serenidade é trágica, como a revolta é uma comédia. Somos os vivos e os mortos, luz e sombra nos jogam. Em lugares tribúnicos da imprensa regional, arengo ainda inofensivas moralidades de crítica sociopolítica. Aqui, calado, não: assisto à fotogenia da realidade, a suas formosura triste e tristeza formosa.

A vida não é trágica sozinha. Precisa de uma consciência para sê-lo.

Recorto da visão de um homem velho a mão esquerda. Uma mancha roxa carimba-a de um estigma cartográfico. É uma mão que já tudo pôde: nada pede, agora, a não ser viver um pouco mais a existência aracnídea de toda a mão. Que terá matado esta mão? Que terá ajudado a nascer? Estrela e tarântula: como toda a mão.

Num café crepuscular, receber a violeta: digo – o mundo.

Gostei da limpeza das ruas, da pátina morena das pedras dadas ao sol. De pautas altas de segundo andar ouvi as notas de cor da roupa posta a secar. A caminho da noite, fui tomado de uma alegria invencível, esta: a temperatura favorecendo que algumas árvores da António José de Almeida chilreassem como realejos de passarada viva. De muita música é feito o silêncio interior de um homem caminhando a seu tempo. Traspassa-lhe a emocional porosidade certa devoção do comércio à efemeridade gentia dos peões. Reina dos céus o dardo epifânio: uma frecha de ouro amnistiando uma casa ensombrecida. Eu se calhar gosto da vida, embora lhe prefira a ortoépia.

Caramulo-Viseu-Caramulo, tarde e noite de 3 de Novembro de 2007
Foto: Viseu, tarde de 3 de Novembro de 2007

03/11/2007

Dia 3 de Novembro de 2007- I - Manhã e Ante-Alba




Não deve ter sido muito antes da alba. Acordei revisitado por fotogramas dos anos 1982-84: gente de Trouxemil-Adões, a norte de Coimbra e a sul da minha vida. Fechei os olhos para receber com maiores nitidez e clarividência esses rostos tisnados pela ruralidade proletária e pelo meu afecto. O Guedes, o Saraiva, o Silvério, a Maria, a Irene – e o Raul, de quem a Irene ficou viúva tão cedo. O Farrê, o Idílio, o Aurélio, o Carlos, os Cações, o Vasco, o Acácio, o Coelho, o Crisóstomo, os dois Álvaros, o Quim. A Rosalina, o Álvaro, a Cristina, os dois Américo Branquinho, pai e filho, o senhor Manuel Claro e o pai dele, António Claro, gémeo que foi do pedrulhense Manuel Preto da minha infância, casado com a ti Maria Sol, uma alcoólica gentil e silenciosa que revi passar a caminho da taberna-mercearia-carvoaria do senhor Carlos e da senhora Eduarda a comprar, várias vezes ao dia, meios litros de tinto traçado com gasosa. Chamavam-lhe Maria Sol por ter sido tão linda na mocidade. Num ápice, a minha rua da Pedrulha (então Lameira do Saramago, hoje 1º de Maio) clareava ao fulgor triste e feliz de 1970-73 – quando tudo começou a ser eterno até pouco antes da alba de hoje, 3 de Novembro de 2007.

No périplo todo mental por aldeamentos e públicos, fui revistando os meus vários corpos e a minha insuficiência única. A janela do quarto filmava a árvore a que chamo japonesa por ignorância botânica e literária veleidade: uma silvigrafia enxuta ao vento frio na ante-alba de papel vegetal. Resisti bem às sereias da tristeza: ouvi-as sem me deixar naufragar na praia espúria da montanha.

Isto pode parecer agora literatura, mas não o era antes da alba. Era apenas um homem repassando as brasas frias de rapaz, primeiro, e de menino, depois – ao contrário da sensatez da cronologia, como é tão do gosto da memória fotogramática. Também sabia, na instante profundidade do momento, que a escrita acabaria irrompendo de tais criptas de futebóis e primeiros alcoolismos – o que agora acontece por voluntária fatalidade.

Adormeci de novo, não acordei tão cedo quanto de costume. Nada me doía. Fui à cozinha beber água, liguei o portátil, consultei o correio massivo (poesia argentina e propostas nortamericanas de enlargement do meu loló), adentrei a banheira e perfumei-me de sabão sob a chuva domesticada. Enfiei-me nas calças, atirei pão com queijo para dentro das catacumbas gástricas, tomei um café negro e coruscante como um olho bovino. Todo o sábado solar à minha frente, traspassando-me já a porosidade emocional. Como plano para o dia, o projecto simples de Viseu pela tarde, ir talvez com a cachopa ao cinema à noite a ver aquele filme da Elizabeth I contra o Resto do Mundo (ou seja, Espanha).

Há minutos: no Largo dos Castanheiros, o senhor Joaquim do táxi colhendo as castanhas públicas. O chão, cravejado de ouriços vegetais, amacia o andar. Chega ao rosto um perfume morno de pão e bolos. Crianças idiotizadas protagonizam na televisão uma infantilidade falsa. Deixo-me estar na modorra matinal, saturnina, por assim dizer feliz da vida. Penso em alguns papéis que há semanas me esperam – ou anos – na mesa uns, outros em caixas de cartão que fazem do chão do escritório um arquipélago museológico. Do televisor, escoaram a criançada obtusa e lisboneta para dar um programa de tubarões. Boas máquinas de matar, os tubarões. Mas eu preferia ver o mar vivo ao vivo. Não pode ser. Só se for em versos – e agora não estou para isso. Comprar pão, voltar para casa, pôr a panela ao lume, ir à varanda colher um ramo de salsa, olhar a Estrela no outro cabo do mundo, deixar entrar a tarde pela mais larga porta.

Caramulo, manhã de 3 de Novembro de 2007

02/11/2007

Outro Dia D na Segunda Manhã N

Fotografia: © Gordon Parks, The Bridge (1995)
*****


Não me abandonou, ainda não, a claridade fria da manhã – nem a esperança que projecta cada noite como a um gesso negro.
Ontem, Dia de Todos os Santos, ardia o gás do ar a uma constância álgida, também. Manhã muito cedo, olhara-me lavando-me. Estrangeiro do meu corpo, vestido de água e espuma, de um ponto de vista que não sei localizar – pois se todo sou este corpo, como dele me penso a salvo, olhando-o – como se me não visse? Depois, na pastelaria, a tarde cedeu-me a trégua de um filme português do ano 1945, A Vizinha do Lado. Era como nos sonhos: mau som e tudo a preto-e-branco. Entre cenas da película, limitei a minha vida a uma cerveja e a quatro versos, estes:

De alhures janela alta assistimos
ao corpo que somos.
Nem janela nem corpo entendemos
– o que somos, o que vemos e ao que estamos
.

O filme terminou nas letras de filme sem l nem e. A noite insuflou sua tenda de circo universal, fui trabalhar, regressei a casa, aqueci a sopa, abri um livro, saí para dentro da história de La Sombra del Viento, uma coisa bem composta por Carlos Ruiz Zafón. Como não havia alternativa, deitei-me e adormeci até hoje. Sonhei erotismos tristes, como quase todos – todos os erotismos e todos os que sonhamos. Recordo nádegas brancas, olhos semicerrados e duas pessoas minhas conhecidas fazendo aquilo sem ter sido apresentadas uma ao outro. Resgatei-me para a pastelaria logo que pude, onde exerço agora o assassínio da memória mercê da palavra escrita.
Aqui redescubro não ter sido abandonado, ainda não, pelo frio claro do novo Novembro da minha vida. Dou uma volta pelo caderno, retomo versos da tarde de 15 de Outubro último, estes:

Não estive na Normandia a 6 de Junho de 1944.
Nunca estive na Normandia.
Tenho desembarcado e sido morto e sobrevivido
por conta própria.
Mas não a 6 nem em Junho nem em 1944.

Dá o mesmo: dias D todos os dias
.

Posso fazer, assim, o que precisamente faço: descobrir o meu corpo a ser descoberto por versos que, nada valendo, a tudo dão valor – sobretudo, talvez, a tudo dar corpo. É um exercício de sobrevivente: isto é: de vivente sobre a comezinha realidade do banho matinal, do resgate eroticonírico, da pastelaria cujos fornos invisíveis me amornam a mão calígrafa contra o claro frio da manhã.
Entre o entardenoitecer de 16 e a noite de 18 de Outubro últimos, passando pela manhã e pela tarde de 17, dei-me à composição de Tarde Ainda, Já – 26 Coisas. É outra crestomatia tristonha de incursões na língua, que não na vida. “Que não na vida?” – ouso ainda separar coisa de coisa? É como olhar o corpo – como se de fora, impossível mas demonstrada coisa.
Que importa? Esta manhã, tirei da caixa do correio o exemplar d’O Ribatejo datado de hoje mesmo, 2 de Novembro de 2007. Leio-o quase de ponta a ponta. Divirto-me com a celeuma cor-de-laranja que incendeia algumas páginas com o fogo frio da política local. Um dia destes, vou, a convite, a Santarém. Já lá estive, em duas tardes solares: uma, por causa de um livro; outra, por causa da nostalgia de um livro – pois que sou como todos os homens que viajam na nossa terra à roda de seu/deles/meu mesmo quarto.
No meu quarto, ontem à noite, liguei, pela primeira vez na temporada pós-estival, o aquecedor eléctrico. Está agrafado à parede. Desabituada, ociosa, pôs-se a engrenagem a emitir umas asmas rabugentas e uns estalidos de ominosa osteoporose. Aqueceu, que remédio. No interlúdio que raia os territórios da vigília e dos sonhos, senti vindo a baforada térmica, benvindourando-a eu como um feto anacrónico em útero de flanelas. Li algumas páginas de Ruiz Zafón, rapaz espanhol que comigo partilha graça de nascimento: 1964. Depois, acolhi, deliciado, o alpinismo abusador da gata, deliciada. Devemos ter adormecido ao mesmo tempo, já que não sonhámos outra com um.
Entra agora pela mais larga porta a tarde, essa larga senhora de tantos filhos. E ainda cristalina a pátina de frio – e muito clara. A montanha abre o peito ao ar cravejado de espinhas eólicas. As fragas vertebram o pré-humano espinhaço da imemória. É muito bonito. Da minha guarida de tirador furtivo, alvejo o roubo do tempo, o saque da luz, a arquitectura do arvoredo, a tonsura da cal, o azinhagamento da atenção, a caligrafia da amornada mão direita, beneficiária de fornos invisíveis.
Para a semana, em dia a determinar, voltarei a Coimbra para um dia, uma noite e uma manhã. Vou a trabalho de assentamento romanesco. Revisitarei lugares, cantos e lances através de que, desde 24 de Novembro de 2006, comecei redigindo o périplo de um anjo involuntário. É livro de que nunca aqui dei conta. É maluqueira minha – alguma hei-de ter que não do maluco mundo seja.
Da tal tarde de 15 de Outubro deste único 2007, a insuficiência de outros versos, estes:

Quebrado lacre de escarlates lábios
do amor ditadores do resto não sábios
vi já cerejando em frente a um copo.

Tudo topo.
Nada quebro.
Espero q’abra.

Ou então estes:

Refulja a mansa fria estrela
em meu espelho-de-água
que estrelas reflecte
sem mais atributo
que o de esperto e bruto
de gostar de vê-la.


Estas coisas assim. A acção do Diabo, conjurada da distracção de Deus, investiu-me, nove dias mais tarde, noite de 24 de Outubro recente e irretornável, na função de quinze versos mais, estes:

Mal vi o dia, todo o dia.
Fui talvez feliz, dentro da lâmpada.
Fria lâmpada fosca: pouco o sol
venturou árvores e ruas.

O anoitecer foi uma confirmação dura,
não o suave escândalo do costume.
Agora, caminho sobre pedra envernizada
de humidade e recordações.

Torna-se à direita, sobe-se um pouco.
O ângulo do vale canta árvores,
mostra-se todo diadema no veludo.
A respiração ouve-se no coração.

Arfando, chego à rádio, pouso o saco.
Sento-me num banco de pau, espero.
Bem vou ver a noite, mas ter não toda.

Estas coisas assim, enfim: fados enfardo em fardos de enfado. Mas não. Nunca me aborreço: um cacto esquecido distrai-me e recreia-me, como, do chão, uma folha escrita em caligrafia vegetal por uma árvore dada a outonos e a estilhaçados sonetos. Olho as pessoas xadrezísticas em suas casinhas pretas e brancas, cinzentas e amarelas, em seu episcopado de cavalos, suas torres monárquicas desertadas por peões republicanos. Muito mais me divirto do que me converto. Mas não, nunca me aborreço. Se me mareja a retina genital algum cisco erógeno, curto sozinho e calado ruidosas visões como a arquitectura de umas nádegas amordaçadas de ganga, o istmo-de-ninguém que a fêmea alheia anatomia a alguém concede em direito de perfuração, o níveo tangerinismo de decotes cortados a língua por cutileiros que não eu. Entre gajas e senhoras, tudo é homem. Estas coisas me ocorrem – ou não a mim, mas a meu corpo, entre versos, vestidos de água e verticais cintos de sabão.
Abandona-me já, agora mesmo, a claridade fria da manhã – posto que vos deixo, por hoje ou apenas agora, com

Tarde Ainda, Já – 26 Coisas

1

As tardes acabam como pessoas que conheci.
A de hoje fez-se bonita, morrendo: uma
neblina marinha envolve, lenta, a
montanha.
Eu sei: também a beleza é precária, como a hora:
como tudo.
Não faz mal nenhum.
A solenidade desta indiferença ao acabamento
é contagiosa: solenizo até os bocejos, que,
como a rolha a uma garrafa,
escancaram do corpo a alma.

2

Entre barcos, pelos passadiços da marina.
Outro fim de outra tarde, noutra vida.
Sentei-me, os pés na água.
Comi um pão e uma maçã, dividi o pão
com as tainhas imponentes que fluíam
no chão feito de água.
À vista, a ponte unia margens, não os dias.
Talvez reunisse umas a outros todas as noites,
mas não creio nisso, como na altura
não cri.

3

Mais e mais me acontece: caminhar parado.
E voar no chão. Tenho a certeza: é a passagem
dos anos: de todos os anos, cada dia.
Agora é Outono, as folhas recamam a terra.
Um cão deitado ergue devagar a cabeça.
Desconheço o que olha. Nem eu sei que olhe.
A luz crepuscular rebenta clarões roxos:
como se atirassem baldes de tinta à redoma.
Carros regressam a casa como mulas tóxicas.

4

Estrofe a estrofe, árvore a árvore, o poema do bosque.
É o maior caso de solidão colectiva que conheço.
Quando ao chão deste poema formos devolvidos,
parte seremos do majestoso nada.
Acoitaremos rápidos animalejos invisíveis.
Talvez nos seja dado, não falar, mas ouvir as estrofes.

5

Quanta água senão toda na palavra lago?

6

Agora só aqui entre a gente:
tenho mesmo alguma coisa
a dizer?
É a voz com que nasci suficiente
para dizê-lo?
Tenho de renascer com
outra?
Ou devo renascer para
outra voz,
outra dicção,
outra ilusória posse?

7

Seja: lágua.

8

Renascer ainda para
outra voz ainda.

9

Na chã vida, não abdicar de algum
jogo aéreo.
É uma vida chã – assim é.
À sua terraplenante condição, opor
alturas.

10

Contar com o próprio, cá dentro, sempre,
recusando sempre, porém, a imbecilidade do
umbilicalismo.
Nenhum altruísmo pode chegar sem
que parta o solipsismo.
Escrever um poema é uma coisa.
Deixá-lo acontecer, outra.

11

Tenho recebido a poesia de outras pessoas.
Cada uma delas (a pessoa, a poesia), um mundo
no mundo.
Intersecção de mundos: espaços como margens,
épocas como rios, palavras como pontes.

Ainda ontem li uma coisa de Ezra Pound sobre
Camões. Acho que não percebeu quase
nada, o Ezra, do Luiz. Isso, porém,
não tem importância – como eu não tenho,
nem a minha poesia tem,
nem as minhas margens, rio e
palavras.

12

E a brandura quase triste da hora
vogando de brancas velas pela luz?
Adoçada tristura que resiste, embor’
amargura se tudo a nada se reduz.

13

Um passeio breve dei pelas áureas áleas.
Ouvi perfeitamente os chamamentos.
Distingui a frase dita por um ramo alto.

Que tenha sido há meia hora ou duas décadas,
que tem quando tenha sido, se foi já?

Para que volte a ser, escrevo.

14

Windsor, Moulinsart, Duíno:

quem mais e quem menos real,
quem mais e quem menos subido da criação,
quem mais e mais fantasioso:

Isabel II, o Capitão Haddock, Rainer Maria?

15

Não, não vivo – de ou para isto.
Sim, vivo – por isto.

16

Sendo invariável
a final remuneração,
que todas as horas
sejam extras,
então.

17

Do amolador de tesouras
a flauta pânica
tril’ ainda
a cromática infância

e sua terna miséria.

18

Raso explode o sol no chão,
linha em sombra guarda ao lado.
Ali dorme um cão deitado,
meio ao sol, metade não.

Vem a criança aos rebuçados,
dormita o velho senhor.
A criança traz trocados:
meu senhor, se faz favor,

quero o sol em rebuçados,
acorde, vá ao balcão,
a sombra tem muitos lados,
tire-me o sol do chão.

19

Não tarda, anoitece.
Tarde ainda, já anoitece.

20

De frescas raparigas canta do rio a água à luz.
Há um rumor de canoas: ossos de madeira
que à carne suportam o desejo como a
refrigério que queima os escuros homens.

É uma cena fluvial sem história nem relato.
Azulejos ao fundo reverberam a cidade postal.
De madeira de canoa feita a ponte é também.
E faunos ciganos bruxuleiam canaviais adentro.

Ígneo sol estraleja joalharias correntes
que ao curso mortal brilhos vivificam.
É tudo um teatro sem falas nem gentes,
bonecos tão-só: estão mas não são – nem ficam.

21

Também – cumprir a vida como a uma pena
não forçosa,
forçada apenas,
que o pouco da vida não tira
ao muito da pena.

22

Como foi feito um hoje de há muitos ontens?
Conta esse dia como pilar ou como alude?
Penso em silêncio em coisas assim.
Se coisas assim constam, constantes são:
iludi-las é iludirmo-nos.
Consta que sim.

23

Ao sol numa cidade poderosa de esquecimento.
O conforto do anonimato: não ter ali nascido – nem sido
mais do que um passageiro
transeunte das pedestres barcas: as ruas-rios,
ao sol impiedoso, muito branco nas casas negras.

Adeja o jornal estrangeiro entre nacionais:
escaparates e disparates.
Fritos e motorizadas perfumam vidas.
Brota água de um cano roto, vou ver, é só
luz, afinal.
Crianças comentam a luz.
Velhos lamentam a exaustão da água.

Falo de cor: não estou senão de memória
na cidade.

24

Esta tarde, vi um homem na pastelaria: um homem só.
Tinha um copo de vinho e uma aura de solidão
que podia ser – decerto
era-o – a da santidade. Barba envelhecida,
corpo curto e sofrido. Tinha a cabeça
entornada para a mão aberta, em cujo centro
ardia de frio uma moeda escura. O homem esteve
muito tempo a olhar para a moeda.
Olhava com aquela inconfundível intensidade
de quem olha para dentro de si qualquer
coisa que só por fora parece uma moeda, ou um
copo de vinho – ou a própria mão.
Momentos depois, levantou-se e partiu.
Desconheço se o reverei.

25

Um homem só.
Um só homem.
De quanta diferença é
feita a igualdade.

26

Do coração sobem à cabeça,
da cabeça descem à boca,
da boca sobem ao chão
dos outros: as aranhas
silábicas que amam tanto
fugir para os outros.



Datação: a prosa de ligação dos poemas é da
manhã de 2 de Novembro de 2007.
As datas dos poemas constam da prosa de ligação.

01/11/2007

Mínimas Apeadas

prodigiosa senda, a maré vazante da noite



O mar voltou esta manhã à montanha.
Veio sem água – e é o vento nas árvores
tão frio
tão vivo de sede.

Recorro à inocência das crianças
para chamar
cordões de ouro velho
aos
cobrões de folhas apeadas
ao longo
do meu caminho marítimo
para
as breves índias
destes versos.

Quando a maré vazante da noite
recolher a seus altos calabouços de cristal
colherá o fim de Outubro consigo.

Eu ficarei na prodigiosa senda
que abre ourivesarias de laranjais
a troco de um pouco de atenção.

As mínimas mortes de cada dia velarei
de olhos estilhaçados como vidros de lume.

Acabam-se-nos os meses
outros nos implodem como extensões vãs
ou como pólvora no coração.

Comboios sulcam arrozais de estanho
nós dentro através da nossa vida.
E os mapas das nossas mãos
pontuados de apeadeiros imparáveis
as nossas mãos cheias de folhas do chão.

E o mar e a manhã e a montanha
e as mínimas mortes.

Mínimas: Caramulo, manhã de 31 de Outubro de 2007
Imagem: Caramulo, noite de 25 de Outubro de 2007

Canzoada Assaltante