16/09/2007

Menores Preces sem Resposta – em triplas de quadras quebradas


Foto: © W. Eugene Smith
The Walk to Paradise Garden
1946



I

Aos olhos aflora-me o vinagre arterial de alguma lágrima
ante a evidência coralífera do crepúsculo, à hora
a que as aves se soltam do bosque em uma última

passagem circular pelo sangrento circo do ocaso.

Espraia-se-me uma ânsia respiratória, depois serena,
ante a evidência de muitos de nós voltearem já, como as
aves, em passagem derradeira pela explodida violeta,

p’la roxa campânula de cada apocalipse civil.

A eternidade de cada hoje, vivarquivada na memória
fulminante e fulminada, a tudo considera nada
– e nada é tão importante quão indiferente

ante o amável desamor da Lei que rege casos e ocasos.

II

Enjaula o corpo como a não inocentes animais
as horas más de alguma terça-feira, algum
verão durante que a laranjeira da tristeza

haja dado à luz os frutos de sua sombra doçamarga.

Desce por dentro o olhar a beber da enegrecida água
pelos animais maus servida à contemplação
ante tal obscuro represo licor. Não pode o olhar

senão beber fartamente, longamente beber, represo.

Nenhum corpo é isento de cripta, descido o olhar
à fartura nigeriana da cisterna memorial.
Corredores verticais palpitam a néon a farmácia

imprestável aos dolorosos – todos os corpos.

III

Brisa azul escumando folhas e flores e tabuletas do comércio:
rápida é a formação das crianças eternas em transitórios adultos.
Pelos cantos da casa – e no jardim, em agrestes arbustos – soltam

a escama de serpentes solares até só que osso bruna delas.

Só consigo mesmas voltam a parecer-se quando velhas,
as meninas que, tais bandeiras, o vento da sexuação adejou.
E os meninos, fumando frases moles em bares oblíquos,

comentam a chuva que pelas ruas dança nua ao frio.

Conformam as três paredes da casa o tecto salarial,
divisórias de contraplacado alheiam as velhas crianças
de seus eternos filhos, escumadas serpentes escamadas que, nos

quartos exíguos, insensatamente sonham com arbustos ao sol.

IV

Às paredes da cara afixamos os quadros da expressão,
coruscando os olhos em função de cristaleiro candelabro.
Aos hemisférios violetas da boca uma linha preta

aparta, tal que a dentição garanta a memória lacustre.

Entornadas asas são os braços, alquebradas lanças
atiradas ao malogro do arremesso, cada balanço
anuário do registo comercial. A sul, os pés

incham como lábios tóxicos, bolbos enterrados em napa.

Ao pé dos animais enjaulados, outro deles – o coração – é
o que urra em silêncio, à esmola de mais vinho venoso
e menos memória. Distraídas unhas raspam da pele células tão

mortas quão certas segundas-feiras, antes de certos verões.

V

De carro, a caminho de algures, pode a bruta Natureza
deixar cair um anel que uma lagoa seja – ou um diadema
subido a cristaleira gambiarra de estrelas acesas: ou olhos.

Pode. É sempre então que a analgia adormenta o vivente.

Muita é a beleza não ensinada deste mundo nu. Escusado
é lograr uma indiferença ante essoutra Lei: a que
rege a humanidade estatuária dos penedos brutos

na montanha que mar foi, antes de nós todos.

Iniludível é, ainda, o teor marinho das manhãs ao ente
do mar saudoso. Tanto a tristeza rima com beleza,
tanta uma, outra tanta. E das cercanias da estrada, violetas,

violentas, as bocas da Natureza um só recado dizem.

VI

Podem reunir-nos em categorias bacteriológicas, igrejas,
hábitos de consumo e livros de Verão. Podem casar-nos
e separar-nos, entre vivas, vaias, putos e apupos.

Podem chamar-nos nomes com que não nos escrevemos.

Podem olhar-nos como olham as estátuas de gelo que nos
revelam forma e massa. É até possível que nos filmem
nas ruas natalícias, muito contentes a gastar os cêntimos

do amor em lojas especializadas no amor a cêntimos.

Podem fazer-nos tudo: hospitais, tribunais, escolas,
finanças, creches, cafés, associações, aeroportos,
clubes, tertúlias, feiras, freguesias, pulhices. E nós

demandamos, aindassim, a felicidade numerada das portas.

VII

Cortarás a água com um espada feita de braço.
Farás, da mão, lâmina: e cortarás
enviesadamente, dadas as físicas leis que

regem a Esgrima e a Dinâmica.

O dia chegará quando te tuteie ninguém, ou ninguém
te fale na noite, excepto tu, em sonhos geológicos
mineralizados pelo frio da rua a que caíste.

(Pode ser em tua casa.)

Da poesia, a magia é nada disto recordares
ou recortares, quando, então: pois é tão belo
o esquecimento quão um anel-lagoa,

uma distracção voluntária das estrelas, altamente.

VIII

Eu agora entro para pedir: me não falte o azeite
gasto pelos pobres em seringadoras noites de borda d’água,
quando eram meninos solares meu Pai e os Vossos.

É pedir o não exposto: nenhuma jóia de ourivesaria alguma.

Eu sei. Ainda assim, esse azeite peço porque, passo
a explicar, são escuras as minhas noites não cronológicas,
as verdadeiras – aquelas de desejar azeite no escuro.

E no escuro muito se deseja – tudo, propriamente.

Só a Deus nada peço porque para tal Ginásio não
conheço sapatilhas. Peço mais à lagoa que siga
sendo deitado azeite de estrelas combustíveis, nela e nelas

ardendo a Lua, essa maior prece sem resposta.

IX

Partilha no corpo a escatologia dobre sentido
de porcaria e futuro: merdas áugures.
Cocós e boas intenções jactam dejecções

afinal símiles, como autógrafas cópias mútuas.

Em pastelarias devastadas pelo futuro, cólicas
coléricas e bucoólicas interjeições gaseiam a costura
das gangas sentadas a bever a bola e a veber o licor.

Dos costumes nacionais daremos o ponto.

Agrafa-se-nos a agravada ciência da tristeza.
Sábado já, já noite, estoira a granada fria
da certeza: a gorda vanidade das feiras, poéticas

embora. Isto é: falar da Hora, não falar do Tempo.

X

Frangos e papagaios domésticos franjam a testa marítima
da cidadezinha que de sal faz luz e de luz, sal.
Caminham nórdicos e escoceses em demanda de bares.

Na marina, tainhas abocam quilhas oleosteoporosadas.

É o sal do tempo no relógio da Câmara: ao lado,
o Partido Comunista Português vermelheja sindicalismos;
em baixo, tosse haxixe o arrumador cinquentão.

Estivadores bicepam cervejas degoladas à nascença.

É o sal da minha vida, é a luz da minha vida:
surdas músicas, sórdidas pinturas: megafonam
todas nas praças expostas ao perfil dos barcos:

ao invencível perfil de gazela dos barcos.

XI

A mais branca cal estampa-se a negro de viúvas
à igreja acorrendo a carpir seus operários
defuntos. Depois, breve, tudo passa: esse egipto

e essa hora. O sino tange, vibram os azulejos ao bronze.

Peça a peça, compõe a igreja seus brinquedos:
as pessoas de joelhos, ante as adorações do vinho
e da farinha. Quintais paroquiais à parte,

é uma fé boa, pois que só dói quando é precisa.

Da estratosfera, satélites infotográficos dirão
de massas de cor, povoados, savanas, árcticas
coisas de como nos juntamos para matarmos

e nos matarmos. E a branco ardermos mortos, à cal.

Caramulo, entardenoitecer de 15 de Setembro de 2007

15/09/2007

So(m)bras de Setembro

Foto:
Estação de Bagdad, 30 de Maio de 2007
© Associated Press



Com metódica desarrumação, vão-me surgindo no caderno sobras de sombras. Talvez sejam poemas. Duvido de que o sejam deveras, mas, na dúvida, deixo-os aqui e não volto por eles.

Tábua

I.
SOU DADO A T.V.
– Caramulo, noite de 9.9.2007

II. RÁPIDAS PUPILAS NEGRAS e OUTRAS CENAS
– Caramulo, tarde de 12.9.2007

III.
MUITO NOVO EM PENICHE AO VENTO
e OUTROS POEMAS BRANCOERENTES
– Caramulo, entardenoitecer de 4.9.2007

IV.
TODO O NILO ARDEMOS
e OUTROS COISOS
– Caramulo, tarde de 8.9.2007

V.
MOBILIÁRIA
– Caramulo, entardenoitecer de 5.9.2007

***********************************************************

I. SOU DADO A T.V.

Vi o homem descendo do expresso, duas ou três
pessoas entre nós, penultimava eu a coxia,
reparei nele pela mesma sem-razão de nascermos,
esqueci-me dele enquanto o via descendo,
a maleta de couro na mão dobradiçada
a cobre.

Usava chapéu como usava os olhos: coisas
que estão na cabeça para o resto do corpo não confundir
a hora de impedir a luz
com
a de limparabrisar as lágrimas.

Ele era um corpo velho de mais para que
se não notasse a frescura do fato novo.

Cambaleava com as mãos, o que dele
me sugeriu uma condição de gaivota ou
de homem dado à tristeza vitalícia do álcool.

Voltei a lembrar-me dele vendo-o comprar
cigarrilhas de creme no quiosque da gare.
Por instinto entrei no bar antes dele, eram
dez da noite, o serviço rarefeito haveria de
permitir reavê-lo na luz crua
de todas as chegadas.

Ele chegou com as cigarrilhas, pediu água,
vinho e um pão com peixe frito.
Bebeu a água de uma vez, comeu o pão
devagar, guardou o vinho para o fim.

O fim era a álea de táxis. Ele pareceu
hesitar um pouco, eu resguardei-me na
sombra. Ele entrou num carro e dissipou-se
como gelo numa toalha deixada ao sol.

Eu fiquei.
Não uso chapéu, não trago maleta, não
tenho aonde ir e sou dado a
tristezas vitalícias,
também.



II. RÁPIDAS PUPILAS NEGRAS e OUTRAS CENAS

1. Rápidas Pupilas Negras

Rápidas pupilas negras riscando o céu:
os pássaros do entardecer.
Riscam riscam riscam riscam:
caligrafam a pauta da noite
a somatória noite dos riscados ofícios.

Todo o dia toda a vida os espero
estes pássaros estes riscos
este escrever anoitecedor.

Deveria talvez ter escolhido uma profissão técnica
não este ofício estéril de sacristão nocturno
é tarde não vou escolher outro
a Mãe
desculpe.

2. Semana Armada

Deponho à noite as minhas armas
desvisto o dólman fico nu
faço chàzinhos oro a karmas
invoco a Deus e a Belzebu.

Sábado vem vou eu dançar
ao Clube das Três Mariposas
aquacolonizo a andar
atrás das putas mais vistosas.

Vem o domingo morro em casa
sofá suscito piedade
na Associação jogo uma vasa
bebo uma ginja sem vontade.

Chuva devém segunda-feira
quando foi sol na minha vida?
a vida pesa por ligeira
passa tão breve tão comprida.

Às terças sofro eu de outonos
folhas volitam-me o pensar
caduco cai o caducar
abro bocejos de mil sonos.

Às quartas pronto vem a esperança
de só três dias p’ra mais dança
dá-se uma volta pela vila
ninguém me vendo coço a pila.

Quintas e sextas siamesas
já falta pouco Mariposas
águas de malvas e de rosas
duvidar nunca de certezas.

Pior a noite cada dia
não ser a noite uma mulher
chegando a noite eu chegaria
noite do dia um qualquer.

Todas as armas deporia
pois se as um homem depuser
merece à noite por alegria
despir o dólman ter mulher.

’ssim sendo não não foi ainda
talvez não sej’ ou venha a ser
a morte é feia a vida é linda
é uma maneira de dizer.

Passa tão breve tão comprida
tão fora que nunca penetra
deponho à vida a minha vida
deponho as armas etc.

3. Movilização

Devo estar a envelhecer porque sinceramente
tenho já menos certezas do que móveis
molham-se-me já os olhos ante coisas risíveis
como o mar dando leite o céu dando marés.

Já nas encruzilhadas me benzo rápido
dos retratos as alminhas minhas me acossando
ouço tipóias cavalpedratrotando
por noites de areia e bosques de litografia.

Sinto avós roçando saias pobres de chita
que m’aveludam a nostalgia nas sinapses
ser neto de mortos capuchinha a vermelho
o coração exposto aos lobos da velhice florestal.

Devo estar a envelhecer porque logo topo dos moços
e das moças a afiambrada ansiedade
das glândulas das sublinhas dos leites do mar
e da vibração fria da órbita lunar.

Também me acontece estar hoje por exemplo em 1984
e o boletim meteorológico corresponder a 1975
num clarão humano de água cor-de-ouro
a engraçada chuva magra través os laranjais de 2007.

Lojas de móveis na noite parecem-me casas de que fugiu
gente. Olho-as ainda com a tristeza jovem
dos que querem casar-se e ter psychés cómodas
cabeceiras camas prosperidades imóveis.

Tenho os móveis.

4. Do Recibo Verde e de um sem Utente

Correndo a noite, teu rosto espelha ainda montras
de lojas de ferragens, ourivesarias e sétimos-dias
de um outro Cristo vendido a dízimo.

Quando ao teu rosto acorrer tão-só o espelho
do armàriozinho de medicamentos,
pensa na juventude mamilar dos limões,
no bom que foi ter ido às laranjas.

Ainda marchas pela mesma ambulação.
A cidade é pródiga de filhos voltados
ao contrário.

Não terem as laranjas mamilos.
Não deixou de onanizar, jamais em
tempo algum, a efervescência
até citrina, cristina e cristiana
de alguém que, como tu,
foi à noite eterno – e hoje
corre a noite ao dia
e à semana.

5. Sacramental

Que nos diga
um poema
alguma coisa da vida
enfim
não está mal
até uma notícia
serve p’ra isso.

Que um poema
nos diga
alguma coisa
para
a vida
bem
enfim
temos de ir aos clássicos
que
escreveram
da vida deles
para
a vida dos outros.

Assim
de repente
não sei.

Não.

Sei.

Bocage.

Machado.

Rimbaud.

Eliot.

Rilke.

E o senhor Sacramento da minha rua,
não era poeta, era
pai dos filhos e dos do outro,
que antes de morrer de cancro tabágico
foi um homem bom e nunca
escreveu outro verso senão
este:

– Bom dia, menino.

6. Declaração Sinceríssima quanto a Merdas Pagas pela União Europeia que Tenham só Sumo de Laranja e Águas

Não muito fui e nada irei
a recepções que não recebem.
São percepções dos que percebem:
já fui, não vou, não voltarei.

7. Ente

Nada disto tem a ver com a vida.
Uma coisa é um gajo estar vivo.
Outra coisa é um gajo ser.

8. Utente

Nada disto usa a vida.
Uma coisa é um gajo estar vivo.
Outra coisa é um gajo usá-la.

9. Fim do Verso Primeiro de Movilização

Trago muitas vezes para casa
coisas que já levava à saída.
Coisas que a ninguém adiantava
nem ao regresso nem à partida.

Mas essas coisas importam
e exportam.

São a munição de um barco.
O dev&aver de um estivador.
A flecha de um arco.
O lixo de um contentor.

Porque sinceramente.



III. MUITO NOVO EM PENICHE AO VENTO
e OUTROS POEMAS BRANCOERENTES

1. A Leste como a Oeste


A salvação do desespero está na bifurcação.
O caminho há-de ter cornos, a montante.
Timshol é a palavra fundamental: está em
East of Eden, que Steinbeck escreveu, mas adiante.

A salvação está na recusa dos termos do desespero.
A realidade ofereceu-nos uma língua: não com ela
lamberemos, antes viveremos dizendo.
Eu digo bifurcação, mas pode que outra seja a
palavra.

2. M.O. é G. quando T.

O mínimo olímpico é a glória quando a tristeza.

3. Soneto Sujeito a Retenção

Passo a vida nas repartições de finanças
a desejar um Haiti não descontável.
Sou (todos o dizem) pessoa amável
– e não é meu uso maltratar crianças.

Na fila p’ra pagar seja o que for
escuto sem ouvir os Portugueses.
Assim saudades (e assim amor)
m’ilustram íncolas tão corteses.

O mais é menos, é estar vivo.
É ser da lã outro cardado.
E hip-hopar tango e fado
e atender o idiota televisivo.

Quem nasce em Portugal, em nada é morto.
Em nada, é morto, o nado-morto.

4. Ambulatório. E Orográfico

É-me muito evidente o humanismo costureiro
dos arvoredos.
Bosques terminais devasso ainda e sempre,
os não ardidos.
Orografia e sapatos de lona entrecruzam-se-me
em as ambulações
ando muito, não vejo muita água,
vejo casais empobrecidos
pela teimosia
da associação.

Cães transparentes medusam
pelas ruas aquárias.
Árvores japonesas nostalgiam orientes.
E dias há que são diferentes.

Não as noites, iguais como mães:
roxos engendram para virginal mamadura
de procissão à base de leite e de vinho.
E de transparentes cães

às pedras do que vejo
ladrando.
Vou andando.

Além, uma cordilheira de lixos
frapeja bandeiras de esterco voador.
Mais acolá, uma língua de restaurantes
açambarca camiões.
Estações de serviço: insucesso escolar e
magazines ao gosto europeu.

Na orla da barragem hidroagrícola,
espremem pontos brancos
os utilitários enamorados:
são as quecas dos vendedores.

Bucolizo, porém, eu, que, filho
de pai e de mãe
(e, ao demais, virgulador encartado),
sei o meu quanto de fado
e, até, sem rosca de sarilho,
faço minha rima também.

Circulo, quadrado.
Lonas calçadas em orografia.
Um pouco cansado:
de noite e de dia.

5. Em Verso para a Entidade Reguladora da Coisa Social

Ao contrário do garantido nas crónicas missionárias,
abecedário resumido das tónicas assassissocietárias,
não deves ejacular deuses de pagãs comichões.

Nem tens depois de ser FM Pinto
nem antes LV Camões.

Deves ser um homem se estiveres para ser homem.
Ou mulher se isso para mulheres.

Não deixes que te capem ou ceguem, nunca:
muito menos com escumalhas e assessorias
da democrata espelunca.

6. Muito Novo em Peniche, ao Vento

Eu era muito novo e o vento também
vinha de lado como eu.

Ajudei a mudar móveis de casa para casa,
em Peniche, surpreendido pela
omnisciência ubíqua do mar
peninsular.

Eu era tão novo, que nem descobrira
que comer merda pode ser uma vocação.

Conheci no istmo ’ma mulher triste.
Chamava-se Hª Lx., não sei s’inda existe,
não sei, não.


As minhas mãos no comboio que vai para o norte.


Isto é um verso escrito por ela.
Ela sobrevivia num quarto com livros
sem estantes.
Ela só tinha instantes – e livros –
e este verso maravilhoso.

Nunca mais a esqueci.
Não mais o vento a esqueceu.

Eu tinha um colega de Geografia
que depois se tornou mercador de gangas
de marca.

Eu tinha um colega de Matemática
que depois deixou de beber
e voltou para casa
no norte.

Eu tinha um colega de Pataias
que comprava heroa ao grama
e pronto.

Eu tinha um colega de Barcelos
que unhava o cavaquinho.

Eu tinha um colega palestiniano da Covilhã
que, pronto, era ele.

Eu tinha 22 anos.

Nunca percebi nada que não fosse a
Nau dos Corvos.

Nunca vi nada em Peniche que não fosse a
maravilhosa oferta a dez escudos
de tantos livros do
Vilhena.
(Comprei lá também um
Carlos Fuentes, O Velho Gringo,
no dia 28 de Abril de 1987.)

Eu era um anjo suspenso: meses de nada,
um pouco antes, tinha-se-me ido
o Jorge.

Eu era aprendiz de professor,
(mas nunca aprendi),
tinha 22 anos, não tinha
nada a dizer ao futuro.

Vale que havia o vento.
O vento de Peniche é o vento mais humano do mundo.

Também havia o senhor Alfredo
e havia o senhor Manuel
e havia o Cesaltino
do Nau,
um café que era ao pé da muralha,
já não é.
Havia, à janela do Nau, o ex-embarcado
da Marinha Mercante que lia
livros espíritas, vestido de branco
contra a pele solária acima
do escaracolar dérmico dos pés
nas sandálias mariconças.
Tinha uma pancada muito jeitosa, esse senhor.
Acho que já morreu.

Fui à Praia da Consolação, mas
não encontrei Ruy Belo,
devo ter-me atrasado,
oito sete, sete oito.

Perto da muralha, uma cabine telefónica avariada
deixava telefonar de borla. Telefonei muito.

Um dia, de repente, choveu tanto,
que entre os Correios e a Caixa Geral de Depósitos
não se podia passar sem
carta de Cristo ambulatório
à tona d’água.
Telefonei todo contente do Banco para a Escola:

– Olhem, vou chegar atrasado por causa distassimassim.

E cheguei.

Ainda hoje chego.

Vale que hoje,
mesmo longe,
está vento.

Estou é menos novo.
Isso e sem nada que dizer
ao futuro.

7. Mãe

Amo-te antes de morreres
porque nem sempre tomo
decisões desacertadas.

Amo-te antes de morrer
porque nem sempre tomo
decisões desacertadas.

8. José Mário Lírio Branco

Um lírio é branco na água controlada
de um tanque municipal: coerência, senhores,
coerência.

9. Se Deus por Acaso Fosse

Já agora, que olhasse também por isto aqui em baixo, carago.

10. Telegrama para Fernando Álvaro Alberto Ricardo

O que sinto, é mal pensado.

11. Enquanto Elas Não Varrem, Tu

Vem, uma vez mesmo depois.
Anuncia-te pela trémula comoção das empregaditas do restaurante.

Nem de anjo te peço.
Flanelei já minha infância.
E d’adolescência não mereço
nem memória nem distância.

Ainda assim, olha, vê – e vem.
Está aqui um homem cujos impérios
são o cigarro a 3.15 o maço, menos ou mais,
e outras tantas imperiais.

Trabalho ainda, sim, ao fosco lusco-fusco.
Adianto braçadas de lenha ao rio.
Mato aves carnívoras, pesco safio
– e tenho certa ciência do molusco.

Conheço o Prévert, sim, ’té lhe dei lume.
Sou um tanto tóxico de ciúme.
’ind’ assim vem: vem, que o meu costume

é rimar sozinho, sem comoção
das empregaditas da restauração.



IV. TODO O NILO ARDEMOS e OUTROS COISOS

1. Todo o Nilo Ardemos

Os nossos pés são animais da terra.
Nascem rápidos, correm todos os caminhos e todos os
perigos, morrem verticais.
As nossas cabeças são máquinas voadoras.
Voam sempre, mas com os anos voam mais e mais
baixo – porque voam para dentro.

Entre uns e outras, está o resto de tudo
o que nos é dado.
A alma, que é uma consequência da regularidade
da digestão, participa da tragicomédia geral,
de que a nossa é particular manifesto, com uma
sisudez de glândula – como as outras,
Maria.
O sexo é infantil toda a vida, sobretudo
perto do fim.

Não temos um corpo: somos dele: somo-lo.
A vida e a morte tornam-no ponte.
Somos o vento na ponte.

O piso da ponte é de terra: temos animais para ela.
Ao vento levamos palavras voadoras, maquinais.

Cumprimos o apelo da água chorando,
cuspindo, ejaculando, sangrando, suando, bebendo,
falando.

Todo o rio ardemos de ponte e alma.

Os Antigos não nos deixaram continentes a descobrir:
por isso habitamos ilhas – para dentro,
baixas e baixas, mais e mais,
com os anos.

Tiracolamos oblíquos pássaros negros entre
ombro e quadril: atravessam o coração,
enegrecem-no de não estéril lodo.

Às vezes, comparamos o coração ao Nilo – mas não.
Nilo é a morte e é a vida: isto de nós
é a ponte.

2. Ser o que Não Volta

Outubro, outono e rosas
voltarão à minha vida
para ser tudo
o que há
ao quase alcance
da quase mão
que quase sempre uso
para quase tocar
a minha vida
que não volta.

3. Grega, Fenícia e de Cá, a Pessoa

Mágoas viris são flores junto ao pântano público do mar.
Vejo daqui uma delas, a do homem grego
voltando a casa, pela tardinha da Antiguidade.
Pedras cuneiformes riscam o passeio deste homem.
Fenícias barcas juncam o porto da norueguesa capitania.
Avionetas riscam longitudinais reclamos no céu, a giz.
Crianças crestam a praia à lareira do sol.

Pesa na oleada água de tainhas a mornidão das barcas.
Riscam cruzes rápidas crucificados albatrozes.
Tudo é todo o, como este, homem a casa voltando,
ao cabo do dia de trabalho em alguma repartição
de Alexandria, antes da Guerra, a Grande, a II.
E o fato escuro deste homem é uma máquina magoada, viril.

Sombra ele derrama como um cobertor à insónia da luz
olímpica. Vendedores de pevides tremoçam escarlates
salsaparrilhas com capilés-de-alicante. Não é noite,
excepto no poeta grego, dentro dele, cercado já e ainda
e para sempre pela inverosimilhança da possibilidade
de regresso – a casa, aonde for.

Mais direi:

um homem magoado profundamente só por acordado
ter, outro dia. Grego, não gregário, de fato escuro
na correcção ortopédica do Martinho da Arcada,
enxuto o Cais das Colunas, num Portugal que não,
nunca, vive para o mar.

Tiras de entremeada e tosses de gasóleo acodem
à visão odorífera, na tremura de vidro do ar em dias
– ele há dias – de calor.

As máquinas trepidam – mas não muito.
As máquinas estremecem – mas não de mais.

Homens voltam a nenhuma casa a que chamam sua.
Não chamam, mas nós dizemos que sim.

É toda a vida isto: poetas gregos, um porto antigo
e o futuro,

que isto há-de ser, no passado,
de fato.

De magoado facto,
fenícias barcas etc.



V. MOBILIÁRIA

(Estabelece comigo algumas regras outonais.
São para a que desobedecer, queres?
Temos vivido entre mil gentes
entre crianças, velhas, velhomens e mulheres.)

A breve estrela separa coisas no céu da casa.
Há colheres lavadas e histórias não limpas.
As pessoas estão dentro da casa, imóveis,
como pardos parados móveis de pau.

As pessoas habitam muito a condição transeunte.
As pessoas colam estrelas de prata tatuada
ao peito das fotografias – e depois não são elas.

Depois, elas são estrelas tatuadas de nenhuma prata.
Depois, elas estão no mesmo antes agarradas
ao mobiliário.

Eu digo mobiliário – como podia dizer
versos.

Eu digo versos.

Conversa Patriótica de Café


Rosário Breve nº 17, a partir de ontem, 14 de Setembro de 2007, no semanário O Ribatejo (www.oribatejo.pt)

(foto: Figueira da Foz,
14 de Julho de 2007)





Derivadó facto do Scolari andar a fazer da Selecçãogue maspéce de matraquilhos de praia com sotaque baiano, ameaçando inclusivé trocar à gente a Senhora de Fátima p’la de Caravajo ou lá como se chama a Fátima dos brasileiros, prontos, é assim, a gente estávamos um bocado pó indignos com isso e mais coisas, o caso Medi e assim, qué-se d’zer, cenas ca malta de cá não curte, indagora no Mundial de Ragby e no Euro de Básquéte a gente éramos só nós, prontos, aquilo do Obiquevelo também foi uma falsa partida que fizeram à gente mas o Évora lixou os gajos e a filha do Venceslau Fernandes tamãe.
Modos que, é assim, tá certo co Luxemburgue já não dá pa todos, mas os brasileiros tamãe querem mazé, prontos, calor da noite e assim, depois vai-se a ver os estádios do Euro-2004 e a gente não ganhámos à Grécia e eles não tinham brasileiro nenhum e chamaram à gente mas foi um Figo, o euro é que veio lixar isto tudo, sagente for a ver uma spébóque agora nunca é menos de centicórenta paus em lado nenhum e é um mimo, café bebemos em casa de cevada.
Telemóveis e a porra tamãe é tudo munto bonito e munto giro, fotografias e o caraças dá pa tirar tudo, mas ele é sempre a carregar no muntibanco, um gajo no trabalho é que tem de ligar pó encarregado da obra e zunga, carrega no muntibanco e é se queres.
As mulheres da gente agora tamãe nem sessenta contos tiram ó mês a fazer de caixa no com-tenente e é se queres a recibo sem segurança social pubaixo da mesa, ora pubaixo tá o cão na cena de cair um osso, só falta agora tá-se mêmo a ver é o Liedson e o Sócrates, não é este do fax, é o Sócrates quera capitão do Brasil no Mundial de 82 qué médico, esse é que podia vir em vez do Scolari, é assim, sempéra maizum, que salixe, pena é o Luxemburgue já não.

A Noite em Breve - 10 e 11

A Noite em Breve
ou
Coruscações no Imo de Sombras
(uma portugalidade delével)
10
Caramulo, entardenoitecer de 22 de Agosto de 2007


Vejo uma rapariga de cantos da boca soldados a preto pela amargura. Vejo-a agora, ao fim do meu dia, início da noite dela: tisnada corporação feminina, alquebrada tonsura oftálmica, a pele estragada pela usura de piças sem amor. Vejo-a agora – e é outra vez como quando dá o vento nos castanheiros: não sei (d)escrever.
Ainda bem que não sei – pode (tudo pode) ser tão injusto –, pode a rapariga provir de pai alcoólico e seguir para a lista de espera da única ciência partilhada por ricos & pobres: a Quimioterapia – e aquilo dos cantos da boca ser amargura, sim, mas com princípio activo também, como nas posologias e nos efeitos secundários.
Oh e ai, que eu não sei. Escrevo para desconhecer – a partir da relativa tranquilidade que emerge de ter-desconhecido-mas-ter-escrito-qualquer-coisita-para-disfarçar.
O vento da minha terra nos castanheiros da minha terra. Uma sombra de vento numa terra alheia: my life. Trabalhamos tantos para ser ninguém – esse ovo de gás alimentando as velas dos aniversários, esse gás para a explosão da adolescência, a senil puberdade de tudo o que não cumprimos por excesso de promessa. Também isso não sei. Sei a noite em breve – é a minha ametista privada, nada a ver com a vossa, que tudo sabeis, vós – sabeis a noite em breve – a vossa.
Acho ter repetido:


Um dia a minha vida será uma sombra numa frase alheia.


É uma automitigada candura, usura de falsíssimas repetições: de versos (ou frases) e da memória. Quereis ver? Ide não por mim, mas pelo que vos puder dar a encantatória (e surda) serpente do flautista:


Rapariga de soldada boca ao canto da amargura.
Usura de casados, a concerto de bar
by night.
Coração sujeito a
very-light, na pouca loucura
da procura de um lar que iça piça e cai-te,

sinceramente, mal. Sabem-se os tratos cedo
ou tarde todos na avenida – e os cafés, em
torno mentem-comentam (vento-folhedo)
alegorias (não alegrias) de pai & mãe.

Preciso é ter fé num arranjinho. Um dia pode
aparecer um carragasóleo, noite com lua,
algum sozinho que trouxer a si-mesma-diferença.

Pode e não pode: primeiro é saber se fode.
Se não no fizer, mais sorte a sua:
que o mal semelha bem à luz da rua.


Digo: sonetos destes são absolutamente perdoáveis num país como o nosso. Estupefacção e estupefacientes nunca andaram longe de sós e de netos. É perdoar e andar, que a gasolina é azul e tem marcamericana. Sabe-me a meninos incréus, cada dígito octanado em estação de serviço servido por estacionários adolescentes sem décimo-ano nem futuro.
Carlos e Ângela saem, oferecem jantar a Adrien Roig, o senhor que traduz para francês Uma Abelha na Chuva. Depois voltam, como foram René E Georgette Magritte com o cão deles no pós-guerra. Isto acontece – já aconteceu –, isto acontecerá.
Também pode ser. Eu acho que tudo pode, também, ser. Ele há caracóis. Os casados cansados procuram tardinhas servidas a pires. Os dias são difíceis, as tardinhas compensam. Um folheto de salsa sobre recortado pavilhão auricular de porcino. Um vinho para os maduros, uma imperial para os efervescentes. As estações do ano, as vidas tributárias, a regionalização, os/as que fazem filhos/as contra a morte hereditária que tão depressa se herda como devagar é uma merda. Pronto.
Ou (digo sempre ou quando me falta alternativa) o vento nas tílias, alguns cem metros acima dos castanheiros: que de nós diferiremos, esta noite, entre cetins sem seda e sedes sem água? Que mais oclusões sinápticas ocorrerão a nosso peregrino agnosticismo? Prevejo homens velhos (todos o Pai) sentados em pedra, silhuetas-Y de raio-X contra parede de cal, num repetido alentejo antárctico – a cabra da memória numa avenida perto de si, não longe uma gare rodoviária, coruscando pirilampos erécteis os carritos dos pobresomens.

11
Caramulo, entardenoitecer de 23 de Agosto de 2007


E agora versos de 11 de Agosto de 2007, pela tarde:


Na mui pura natureza de tua graça
na mui grácil natura de tua pureza:
e na mui graciosa puridade de tua natureza.

Na hora nem sempre boa de tua bondade
na nem sempre boa idade de tua hora.


E agora siga. Ainda olho tudo como se tudo fosse um cinema: azuis muito pessoais, rostos ampliados, ditos amplificados (com legendas e tudo) – tudo sentado numa poltrona numerada, entre gente também anónima e contribuinte também. Este assentamento dentro, ainda – eu vivo de aindas, sobrevivo de enquantos, morrerei de por-conseguintes. Está bem, é certo, está correcto. Interessa-me Philippe Ariés, o homem do armazém de bananas que aprendeu História sozinho. Louis Althusser, que maluqueceu a ponto de estrangular a mulher, também me interessa. Georges Duby é um escritor invencível, lírio branco, explicativo, carteiro de mundos medievos, toupeira de humanas equivalências multisseculares. E Alexandre Herculano comendo peras e queijo numa choupana de pastores, em 1852, numa volta pela monumental documentação que ilibou Cristo da Batalha de Ourique – ou o carago, não sei, escrevo como vivo – de cor.
Em tardinhas assim, anoiteço eu enquanto se me amanhece a memória. O tradutor português de Joyce, Palma-Ferreira, décadassetentava portuguesas tristezas madrileñas. Lá com ele (RTP por fora). Mais aquele caraças sem nome que se socorreu do Luiz Pacheco para traduzir Voltaire – e levou (e bem) com um rodapé a baixar sandes de merda – iluministicamente, caldasdarainhamente, pachecamente. E o Gaspar Simões a viver de si mesmo, que o lípido sempre foi de sustança. Isto tudo mais tudo isto – a figura portuguesíssima do empresário que fez fortuna em Angola contra Angola. Tudo bem. Em caso de massagem localizada, ler O Labirinto da Saudade de Eduardo Lourenço. Em caso de cosmopolitismo, aceder a El Laberinto de la Soledad de Octavio Paz. O resto explica-se bem com os encerramentos pecuniário-compulsivos de zonas industriais, a cuja sombra floresceram décadas e décadas de salazarentos ordenados minimínimos que davam para comer mas já não dão.
Pouca poesia, em tudo isto. Coisas que me puseram no berço para carregar até à cova: os holocaustos laborais praticados em massa por gravatremoços obtusos (licenciados em Economia a soldo de um ocidente inalcançável) contra hordas de casais que produziam a bolacha, a ração, a cerveja, a louça sanitária e a de cozinha, a caldeira industrial, o cimento, a carne, a malha têxtil – e só se esqueceram de produzir a puta-que-pariu-os-economistas-a-soldo.


Na mui impura natureza de nossa desgraça
etc.

13/09/2007

Questão única: valeu a pena o 25 de Abril de 1974?

http://www.youtube.com/watch?v=6tOrTuJa5EM&eurl=http%3A%2F%2Fwww%2Enaoestafacil%2Ecom%2F%3Fblog%3D1%26page%3D1%26disp%3Dposts%26paged%3D2

A Noite em Breve - 9

Foto: © Cathy. H
Madrugada na Ponta de São Lourenço, Madeira
A Noite em Breve
ou
Coruscações no Imo de Sombras
(uma portugalidade delével)
9
Caramulo, entardenoitecer de 20 de Agosto de 2007

Quem me dera saber escrever, tal que vos resultasse filme o que me é dado ver, agora mesmo: o vento dando por baixo dos castanheiros, ao fim do dia. Tanta força, tão delicada força, a força de ambos os lances do mundo: o vento, os castanheiros.
Ao cabo de um dia bom (muito trabalho, quase sempre de pé, mas trabalho limpo e honesto), descanso pés e olhos no café dos anjos terminais. Há um Naval-Belenenses na televisão (zero-zero ao intervalo). Sub-reptício, tiro os pés dos sapatos, desincham ao fresco. Tiro os olhos de dentro, deixo o olhar ir com o vento a refrescar-se sob os castanheiros. O dia foi solar, o entardenoitecer acontece num céu de glaucoma.
Todo o dia me permiti a paz das palavras sem literatura: as que designam as coisas sem transcendê-las. Foi como se recordasse o mar perante o mar. Sábado passado, aliás, aconteceu-me isso. Perante o mar, recordei o mar.


Um dia, a minha vida será uma sombra numa frase alheia.


Perante o mar, sábado passado, foi isto que se me escreveu na cabeça. Não precisei de um papel para retrabalhar a frase (o verso?). Ficou-me. Domingo, fui a casa da minha irmã buscar mais sacos cheios de livralhada. De hoje a oito dias, vêm a minha casa o Rui e a Cecília para montar as estantes. Anuncia-se um dia feliz, portanto. Não é mau, viver um dia feliz, ou dois ou dezoito, na vida. É bom trabalhar em várias coisas. Deixar o caderno fechado para aí uns dois dias: que veraneio! É bom merecer, pela noitinha, a chávena de café bem quente, a cerveja fria, o cigarro de lótus na boca budista. Tenho ali o le Carré, gosto de o ter à mão mesmo que o não leia de momento. Às vezes, os objectos não mapeiam a inquietude. Há vezes em que cedemos à sua condição estática e extática.
Um dia, recordarei este dia. Não porque fique escrito (não fica, um dia não é legível), mas porque passa da escrita para a dimensão da oratória: “Recordo-me de 20 de Agosto de 2007…” – ou algo parecido: uma sombra numa frase própria.
Continuo no vento sob os castanheiros. É no sítio do largo reservado aos táxis. O glaucoma deu lugar a uma bonita pátina azul-escura. Em menino, gostava desta cor. Ainda gosto, mesmo longe do menino. Muito longe: uso fato cinza-quase-negro, camisa branca, correctíssima gravata de um grená amortecido a sombra, meias pretas, sapatos pretos. Estou bem penteado, raspei a barba. Roo menos as unhas, pareço um dos alguéns masculinos que vi passar na minha infância como promessas cumpridas.
Se pudesse ser, dormiria esta noite na montanha, a Via Láctea por telhado, entre fragas protectoras. Um saco-edredão, uma garrafa de água, uma almofada grande e a esperança de sentir a vizinhança rápida de uma raposa – gostaria dessa noite, esta noite. É possível que, um dia, uma noite mereça assim. Poderei ser o soldado que sobreviveu à emboscada, dormindo abraçado ao rifle que o há-de proteger dos batedores inimigos. Poderei ser o marinheiro no beliche do porão, entre sacos de biscoitos secos e carne salgada, dormindo entre medusas feitas de água dos olhos e mansos tubarões. Poderei ser o norueguês que conseguiu no último glaciar a primeira fogueira, dormindo entre mapas novos de gelos os mais antigos.

Um Poema de Luis Pimentel

Tropecei neste poema maravilhoso de Luis Pimentel (no sítio argentino http://ar.groups.yahoo.com/group/factorserpiente). Agora, é vosso também.



ORACIÓN PARA QUE NO SE MUERA UN PÁJARO

Señor, ¿por qué un pájaro de cerca puede ser un monstruo?
Lo tengo en mis manos, y tiemblo de miedo.
Es como si fuese mi propio corazón.

Tiemblo, porque puedo matar
esta flor caliente y viva,
hacer que por su boca salgan
todas las mañanitas límpidas.

¿Por qué un pájaro es cosa siempre nueva para nosotros?
Señor, ¿por qué en nuestras manos palpita el crimen?

Luis Pimentel

http://ar.groups.yahoo.com/group/factorserpiente

Uma Capa Belíssima


Esta foto de Adriana Afonso faz a capa de 13 de Setembro de 2007 do semanário O ECO (Pombal; http://www.oeco.pt/)

Num País de tanto e de, por regra, tão mau jornalismo (regional e nacional), trabalhos assim documentam a beleza da excepção.

Parabéns, Adriana.

Parabéns, O Eco.

12/09/2007

Vinte e Nove Cartas para F.D.



0


Quase toda a tarde vagueei em casa por entre caixas e sacos plenos de papéis velhos. Retirei de um envelope as cartas de F.D., duas vezes morta: ficou em coma vegetativo em Maio de 1986, morreu exausta e exaurida em Outubro de 1997. Tivemos correspondência. Éramos crianças amigas. Tínhamos dezanove anos, vinte, vinte e um. Foi até onde ela fez contas.
A última carta dela é do Natal de 1985. Em casa, sentei-me num banco, a caligrafia dela nos joelhos, ela outra vez viva e contando. Na minha casa, num Verão que termina, outro mais, sem ela.
Escrevo-lhe agora. Respondo-lhe esta tarde, este anoitecer, quando entrou o segundo terço de Setembro. Faço-o para que seja verdade o que me escreveu ela uma vez:


Daniel:

Someday
Somehow
I’ll be there.


1

Vê
é esta a pastelaria
a que venho com
os mortos
da
minha vida.

É
uma pastelaria igual
a todas as pastelarias
inauguradas nos anos
sem ti.

Sou
um homem igual
a todos os homens
nas pastelarias contando
corvos.

Tu
já
viste.

2

Os ouvintes de música estão sentados em bancos
com cartas nos joelhos.
A música ilude-os com doçura:
fá-los pensar
que têm a idade da chegada das cartas
que são os mesmos que foram
quando
de pé
recebiam cartas.

Estão de joelhos na noite
ninguém lhes escreve
mas continuam
a ouvir a música.

3

É terrível
a ira do Senhor
que não existe.

Só a ira
existe.

4

O primeiro ano em que li Camus foi 1980.
Ia ao dentista, sentava-me à espera, lia A Peste.
Eu era muito novo, os meus dentes eram já velhos.
A felicidade era um cartão com doze quadrados no verso.
O meu Pai dava-me moedas para eu pagar cada mês.
A minha Mãe acompanhava-me ao dentista.
Via-me a ler Camus e considerava-me garantido no futuro.
Tinha razão.

Cá estou no futuro.

5

Vê.

6

Setembro é um bom mês para o amadurecimento da tristeza.
O amor cai ao chão nos pomares amarelos.
Picotados de osteoporose, os velhos vibram como candeeiros a azeite.
As crianças fazem de andorinhas outonais.
O pensamento sai das pessoas e anda pelas ruas procurando os mortos.
As pessoas ficam em casa e nas pastelarias sem pensamento.

Setembro é uma das doutrinas legíveis no ouro.
A madurez da tristeza dá fruto no olhar.
As pessoas encostam as barrigas às ourivesarias.
Esquecem depressa a fervura do mar, não a da infância.
O trigo da tristeza doutrina de ouro a visão.
Dentro das casas, as pessoas esperam a volta do pensamento, esse
pomar amarelo que junca de folhas de cartas
o chão das pastelarias.

7

Fazemos do coração uma casa-museu
e fechamos à segunda-feira
todos os dias.

8

Ouço música sentado num banco
com palavras nos joelhos.
A Lua da tarde
arquitecta a janela do quarto.

Crianças riem-se além-janelas.
Não estão vivas.

9

Encontrou-as
o pensamento.

10

Em uma das duas últimas noites de Outubro de 1986,
tomei duas chávenas de café no Café Vianna, em Braga,
depois de conseguir chegar a uma mesa sem pisar padres.

Já então eu tinha começado a entristecer a gasóleo:
bastava-me acordar, esperar meio minuto – e a coisa
pegava logo ao apagar das luzes.

Tudo era então, apesar de tudo, possível.
Assim olharei sempre o passado:
como um dos entãos do futuro:
como a morte,
como tomar outro café.

11

Outras vezes
saem as pessoas de casa
fica o pensamento
sozinho em casa
olhando dos olhos dos retratos
a casa vazia.

12

Fingimos não esperar a ceifeira
sabendo-nos trigo.

13

Em água metemos os pés
para nos tornarmos diagonais
como flores
comedoras de terra
bebedoras de luz.

Outubro não tarda aqui
vai tornar-se pedra a água
sabemo-lo bem
nós os vivos
em casa
sentados num banco
os pés pisando
folhas de cartas outonais
como mortas andorinhas.

14

Como relojoeiros
envelhecemos a horas certas.
O atraso vem da mocidade vitalícia
das cartas arquivadas.

15

Vê
é esta a ourivesaria
onde trabalho.
Muitos bolos.
Um relógio.

16

Belos são os rostratos
que a tristeza tomou
como a uma bebida triste.

Posters tridimensionais
do plano mundo
tais rostos olham
dias que não vivemos.

Olhamo-los na noite.
Eles olham dias.

O sol arquitecta a manhã de lápis branco
na mão transparente.
Das faces orocaligráficas tossem cal
as casas pobres.
Cabras e gatos sulcam a vegetação
irremediável.

A Lua instaura a tarde.
Sentamo-nos num banco
tremem-nos os joelhos
como luz de azeite.

Eles olham noites
e noites.

17

O tempo anda para trás no pensamento
quando o corpo não está em casa
excepto em retratos na sala.

18

Vê
agora
aquele azul adormecendo como uma ferida antiga
é o papel-de-prata-lunar para que à Lua
apontem as árvores enegrecidas.

Vê
é quando
o homem da pastelaria recolhe o caderno
por ter merecido a noite que Setembro
catequiza de borla.

Tu não vês
mas a máquina de viver purifica o sangue
derramado.

É muito importante
estar vivo
ter uma janela
não ouvir as crianças brancas
na luz branca
sitiadora das janelas
dos ouvintes de música.

Não vejas.

Ouve.

19

Não ouças.

20

Mulheres de cabelo de ouro doutrinam Setembro.
Também só morrem em Outubro
nunca nos retratos.

21

Pensam-nos.

Estas crianças que morreram
pensam-nos.

Estamos a viver de cor
sem pensamento
num quarto lunar
cartas nos joelhos
o cu num banco
e as crianças

pensam em nós.

A sala cheia de frascos
de bebidas bebidas.

Música.

22

O ouro na cabeça.

Ela descalçou-se uma vez
na feira popular.

Emergia da noite
como um peixe vertical
ou
uma ambulância.

As pessoas queriam encostar as barrigas
à cabeça dela.

Não podia ser.

Ela já tinha morrido
ela ia morrer.

Maio a Outubro.

1986-1997.

23

Agora vê

como sigo admirando a patriótica resistência
das pastelarias que há
às situações crepusculares
de tinta-da-china
corvos japoneses
e
árvores nacionais.

Admira
por favor

a minha coragem
de corvo sentado.

Aqui se vê.

Vê.

24

Santa Clara-a-Nova
olha do alto
a triste Clara
Santa e Velha
de afogados pés
no Mondego.

Em água
também
metem as claras santas
os pés
para
como nós
diagonais serem.

25

(F.D. morava – vivia – em Santa Clara.)

26

Há instâncias intermediadoras
de pessoas e objectos.
São os retratos.
Eles estão como objectos.
Eles olham como pessoas.
Eles aparecem a horas certas
é sempre segunda-feira
é sempre Setembro
são sempre antes.
Estão no futuro
como sempre.
Vão ao dentista.
Contam corvos.
Outubram como ratos argelinos.

27

As mulheres doutrinam o ouro
dissipam-se nas segundas-feiras
abandonam homens em Braga
morenam verões impossíveis de televisão
aparecem na revista em clarões fotográficos
embebedam-se de chá com japoneses cobridores
e riem-se como crianças
além-janelas.

Estão vivas.

28

Escrevo deitado há tantos anos
que só as árvores me parecem interessantes.
Apontam o outro deitado: esse céu
sindicalizado por estrelas e jactos de
Agência Portuguesa de Revistas
Lisboa-Luanda-Lourenço Marques.

Às vezes
sento-me num quarto
protegido pela parede
dos retratos da sala.

Então
olhas-me
através da janela.

E vês.

29

Amanhã
segunda-feira
o meu coração
uma carta
por abrir.


Caramulo, entardenoitecer de 11 de Setembro de 2007

10/09/2007

Corvos na Árvore Japonesa

Dois corvos no cimo da árvore japonesa.
O sol já nasceu: uma dedada de sangue a ouro.
Todo o vale é leito de oceano: as nuvens caíram.
Todo o vale juncado de casas naufragadas.

Ao longe, a outra montanha deitada: como
uma mulher saciada.
A manhã revela películas de frio manchadas
de corvos.

Estou à varanda como uma menina envelhecida,
fumo como um carroceiro, tenho o olhar
nos corvos que subiram a árvore japonesa.

Apesar da vida, nasço outra vez: contabilista
de corvos.

A beleza bate-me uma tábua no peito.

Convalesço para morrer em perfeito estado
de saúde.

Uma hora, o mar levanta-se do vale.
Os corvos atiram-se a devorar os peixes,
as pessoas. Depois, pousam nas chaminés.

Muito branco, o sol arde ao gás dos milénios.

No parque, labaredas frias devoram as árvores:
as sombras.

Estou na rotunda da vila como um sinaleiro de bronze.
O vento levanta-me a um muro negro.
A outra montanha ergue-se: é um tornado de pedra.

A tarde: clarão angariador de cegos,
de corvos.

Bebedoras de luz sufocam na doçura insuportável
da não terna idade:
as plantas.

Pedras caminham dominós na montanha
de aqui.

A doçura atira-me uma pedra ao peito.

Desço ao mar alto do pico da montanha japonesa.
Crocito cerâmicas quebradas: fragmentos
de versos.
Gasto o coração engastado: onde batem
a tábua, a pedra.

Outra hora: estende a noite seu pano negro
como o muro.
A noite imita os corvos:
a noite imita a árvore japonesa:
a noite é negra contra tudo o que quis,
a sangue e a ouro,
nascer.

Outro mar sobe do vale, barcarolando as casas
natatórias um pouco, náufragas logo.

Estou na pastelaria desertada.
Estou sozinho dentro da cabeça.
Digo:

– Jasmim

trazem-me licor.

A vida toda excede nascimento e morte.
Dois corvos no pico da árvore japonesa
conversam versos quebrados, fragmentárias
cerâmicas cozidas pelo sol, arrefecidas pela noite,
trazidas pelo vale aos pés do carroceiro,
aos pés da envelhecida menina.



Caramulo,
manhã e entardenoitecer
de 9 de Setembro de 2007

08/09/2007

O Senhor não me Faltará

para o senhor

1

Relicário da apaziguada emoção
esta luz na frescura matinal
olha-me nos olhos tal o retrato
seu encostado aos livros de pintura.

É muito bonito olhar um morto
que nos olha nos olhos à luz
da manhã viva.

Deve ser porque o amor continua
em casa num retrato
e à luz da manhã
na rua.

2

Sigo vendo a lápis as rosas.
Quem em menino vê o Pai desenhar
não mais outra natureza há-de
esboçar.

3

Esta história de amor é das que não acabam bem
porque
esta história de amor é das que não acabam.

4

Pai
repare que continuo.

5

Pai
repare que continuo
a tratá-lo por
senhor.

6

Eu sei
sou tão sensível à luz
por ser
negativo.

7

Depois de nós
as árvores fazem
como antes.

8

Uma vez na minha vida
entre Elvas e Coimbra
parei numa praça solar de Évora.

Vi o senhor em todos os homens.
Vi o senhor de novo coxeando
como as pombas

uma vez na minha vida.

9

Homens na noite tenho visto
aumentando a noite derredor
como súbitos fósforos acesos.

Vejo o senhor na manhã.

10

Beijo o senhor na manhã.

11

Já se me musgam as fontes da cabeça.
Cabelo nasce-me do imo dos ouvidos.
Suspiro já solfejos assobiados.
Só não sei desenhar rosas como o senhor.

De resto
estou pronto.

12

Acendo o carvão e esqueço-me das sardinhas
como o senhor
fico a olhar o lume.

13

Tive de
de novo
nascer longe
quando o senhor
se foi embora
para longe.

14

Vivo o andamento do meu amor
como vive o remador
em barco e água.

15

Lego aos meus leitores
o outono vitalício do legado
do senhor.

Faço assim:

na orla de um lago entre árvores
toco a pele da água com a água
dos meus olhos.

Dos meus olhos
então
de novo
o olhar do senhor.

Ele
o senhor
é quem olha
os leitores.

Não já eu.

16

O meu Pai é o senhor.

17

O senhor é o meu Pai.
Nada me faltará.

18

O senhor pintou
em azulejo a tinta de baixo-fogo

o D. Fuas Roupinho e o veado suspenso
o S. Jorge e o dragão assassinado
a Sãozinha da Abrigada e as rosas virginais
o Padre Américo e as crianças sacristas
o S. José e o Filho do Outro
o Simón Bolívar e o labirinto emigrante
a Santa Teresa de cabeça enegrecida
o S. Pedro e as chaves que não abrem
a sua irmã Maria e a tuberculose das varinas
a Alexandrina de Balasar e os lírios paraplégicos
o Lenine olhando o senhor nos olhos
a Lígia pequenina na fonte de Antuzede
e a sua mulher olhando-nos nos olhos
como se a minha Mãe fosse o Lenine
ou
a Sãozinha da Abrigada com rosas virginais.

19

À tal orla do tal lago entre árvores tais
usa a água chegar em apaziguadas ondas.

É o trabalho do sal nos olhos.

Agora os meus.

20

Por não saber lapijar rosas
junto outonos numa caixa feita de
língua portuguesa.

21

A manhã não é como o senhor
porque termina.
Tenho de ir para casa
fazer o almoço
tenho sardinhas e lume
para acender.



Caramulo, manhã de 7 de Setembro de 2007

07/09/2007

Do Coração Portátil do Mirone de Afogados em Barragens




1. De Todo

Um coração portátil é o que temos
que por alguma razão nossa
não muda nunca de sítio
por mais sítios a que o levemos.

Mudamos de casa e de estação do ano
nada adianta que ele não atrase
que ele lá está onde o deixámos
fixo movediço como o oceano.

Relógio da mesma hora futura
nascimento e fim marcando
bomba de sangue de bolhas de ar
subindo e descendo a hora pura.

Um coração é o que usamos por defesa
do indefensável descoroçoante mundo
vivendo gastamo-lo amamos morrendo
possível que pulse que não pulse concerteza.

Na treva do bosque em noites de lua
surge pendurado qual corda de roupa
partida de um lado do outro pendendo
quem não tem mais gasta a nada o poupa.

Um dia que do portátil alguma corda se parta
tal que ela se partindo nós partamos
não sei se esse há-de o dia ser que conheçamos
se muito viajámos ou só ficámos.

Penso eu que não ficámos.
Nem ficamos.
Mas enquanto temos estamos.

Claro que digo isto de todo o coração.



2. Termina o Dia do Mediador de Seguros

Termina o dia, depõe suas armas.
Aljavas deitadas, setas não voando,
recolhem guerreiros a suas mastabas
de barro e palha em paragens ermas.

Sangrado o ocaso, veludada a noite,
a ímpia ave não pia deitada.
Vem ’ma morna brisa de leite ou azeite,
ressuma da brasa carnação assada.

É um tempo parado: o ter merecido
em casa o cachimbo, em casa a paz.
Tornando a fogueira, com caldo fervido,
sopram as papilas a mãe e o rapaz.

O homem tranquilo alonga as tíbias,
não pensa sequer clicar internet.
São onze, são doze ou zero?: isto são perfídias
do sono-sofá que ao corpo derrete.

Na alba fresquinha, o renascimento
vem todo de lado como uma janela.
O mediador (um olho, um momento)
preguiça um momento de cor amarela.

Um polibanhito e sempre um cuidado
em não acordar o filho alheio.
Manter uma casa é dar por criado
o próprio e o não e o belo e o feio.

Séc’lo XXI, globalização:
casas inseguras contra tempestades.
Vem da humana condição
o ser insegura das próprias vontades.

Carlos Alberto Teixeira Amorim,
assino em baixo, que falei por
mim.



3. Cartas para o Mudador de Móveis

Alheando em casa uns móveis de cantos
tropeço pés de páginas embolorecidas
’mas são das finanças como sempre fartas
de alembraduras as mais esquecidas.

Outras são de gente que tal é diferente
recados chegados de algarves baratos
ao tempo postal que tal se só sente
quando os cães sem gatos e os gatos sem ratos.

São palavras breves de gráfic’ azul
riscadas num credo de eternidade
mandadas p’ra norte origem do sul
vê se podes vir que temos saudade.

Nunca fui não sei responder à missiva.
Eu só mudo móveis não sei como viva.



4. Fala um dos Mirones do Afogado da Barragem

Derivas ainda, alguém afogado
na minha água.
Entendo que recorras ao entardecer
para de novo me afogares.
Suporto menos a memória de ti
do que a tua memória,
pois que te lembras de coisas
que nunca digo,
só escrevo.

Uma folha de mármore,
a página só de cima escrita.

O vento em volta dos pontiagudos ciprestes,
madeira de berço e de terço.

O breve rosário de cada afogamento.

O gajo que fica,
de aumentada sozinhidão
pelo número de páginas brancas,
pela caneta verde.

A arquitectura de todos
estes loteamentos transparentes:
ar correndo nomes,
datas,
uma data de nomes,
uma data de datas.

Vives enquanto eu viver,
o que é pouco.

Apoucado pela escrita,
moras um pouco mais,
mais monástico e sibarita.

Esse pungimento das flores cardíacas,
na podrágua dos jarros de plástico,
entre sanzalas mecanográficas do Ultramar
e permilagens infantis com cujas mães solteiras
dançaste no Clube.

Esse cheiro a roxo de todos os cristos votivos,
essa lágrima de cera que perdoa por não saber.

Não tão depressa te afogarias,
se soubesses o que custa tanta água,
pá.

Nenhuma razão para alarme, porém:
a aldeia funciona sem ti, há um desenrascanço
notório nos subempregos laborais.

A guita não corre, corre
o vento
nas tabuletas
das oficinas e demais
comercindústria.

Alfarrabistas vendem ainda zolas e steinbecks
ao preço da chuva.
Tudo bem, desde que se não
leia.

Pelas margens da barragem,
curiosos de província deliquiam-se de puro êxtase:
um afogado televisivo para de alguém
a cinemateca da memória
– e os pneumáticos de borracha
dos bombeiros especializados.

Afogar-se é uma coisa, pá.
Derivares-me, outra,
sem luzes nem natação.



5. Soneto para Senhoras Fabulosas e para Acabar

Senhoras fabulosas que não são fabulosas
tartamudeiam cinzaluzes à púberadolescência:
ser burro é quase uma ciência,
que lhes chamar rosas não é vê-las rosas.

A quem se faz filhos? Ou contra quem?
É certo dormir quando o Acordai!
desfralda avisos a pai e a mãe
que não sabe ser mãe nem sabe ser pai?

Na ingente puberdade, borbulhas nas costas
do rosto mamilo e planta de pé,
’ma coisa é chamar perfume a bostas,
que outras são crostas, ciúmes, pois é.

Só virás à vida atrasado
se à morte não arrivares adiantado.



Caramulo, entardenoitecer de 6 de Setembro de 2007

06/09/2007

Genial, Fabuloso, Inesquecível - no Incontinental

Minha gente: ide ao http://www.incontinental.blogspot.com/ (está nos links do Canil)

e não percam o vídeo do gajo entrevistado no supermercado a falar de uma máquina de cerveja etc.

Fico Cá

Foto: Refugiados en la estación de metro de Sevilla, año 1938
© Juan Pando

Hoje, 6 de Setembro de 2007, n'O Eco (www.oeco.pt), mais uma crónica Pedra e Hulha

Fico Cá

Vivemos tempos sem a mínima glória. Não me lembro de tanta e tão triunfante mediocridade. Nem se me opõe já a clássica dicotomia Governo-Povo. Não, já não. Um e outro são medíocres, menos do que medíocres, rascas. Aquele porque não sabe mas manda, este porque obedece e não quer saber. O 25 de Abril está morto. Resta-me a esperança de que, ao menos, esteja mal enterrado.
Ao altar da televisão, sacerdotizam os idiotas a missa da ignorância. Nós, ajoelhados, engolimos a hóstia colorida de olhinhos fechados para o preto-e-branco da existência real.
A corrupção indigna-se muito de ser acusada. A Comunicação Social é obrigada a não ser comunicante, sendo restrita ao social. Não se pode dizer piadas. Eles são muito sérios. Os que estão no poleiro, garnizés pensando-se faisões, cacarejam leis desumanizadoras, clarinetam moralidades de campanário europeu e aparecem em debates de capoeira esbracejando penas e fluorescendo cristas.
Os que não estão no poleiro, são pelo Povo, claro. Só que, para mal de nossos pecados, também eles não distinguem Povo de Polvo. Fazem caras muito sérias, tentam produzir ironias que a malta não entende porque a malta é como eles: obtusa, vã, gasta e redutível.
O direito ao trabalho é uma provocação aos frequentadores dos campos de golfe transgénico. O direito à saúde é um incómodo para os doutores. O direito à justiça é uma chatice pouco simplex. O direito à educação não faz sentido: ninguém vai querer, à saída da escola de telemóvel na mão, saber ler. O direito ao futuro é uma coisa do passado.
Claro que não vou emigrar. Fico cá. Isto diverte-me: ver os velhos reformados a receber (por enquanto) uma esmola humilhante, enquanto seis meses num cadeirão dourado do “serviço” público assegura ao feliz traseiro uma aposentação escandalosa. Não, não vou chapiscar massa para o Luxemburgo. Fico cá, a chapiscar mossa enquanto puder. Não adianta nada, mas sempre apareço no jornal sem ser na necrologia nem na fila de trás de alguma inauguração de chafariz.

04/09/2007

Três Românicas



I

Antes de tua manhã, todos os outros na noite
de outros, de que foste depois, não antes.
Teu lírio submerso, como uma palavra molhada,
diagonal cristal afogado na manhã de laranjeiras.

Dentada corrente nas costas sem amor:
corpos prensados em motéis numerados,
onde me atrasámos os três.
Digo: botânicas circunvalações rodeiam o ser.

Andorinha de barro no céu pulverizando-se.
Tigre de louça pastando tinta.
Que haja quem diga, que haja quem sinta.
Quem venha haja, embora afastando-se.

De ti, na emaranhada manhã, na branca tela.
A litorais cronológicos cornearás sem cabresto.
Áleas fidalgas para pobres cavalariças usadas
acordarão em ti franças nem vividas nem contadas.

Antes de tua noite, depois de tua noite.

II

Entrada a tarde em o salão de nossa vida,
tal farfalhuda mulher veludos envergando,
vou por mim compondo versos à medida
da vida mesma que me vai usando.

É um salão de horas, cristais, espelhos.
Serviços argentinos prateiam refrigérios.
De joelhos, homens surgem como cães sérios,
cães que jamais ou nunca aparecem de joelhos.

Soneto da tarde setembrina, estes versos
manam e correm de certas profundezas.
Deve o bicho só conhecer as naturezas

e os universos. Adversos serão os dias
não manadores nem corredores:
serão então as vidas que não vivias.

III

Românica maninha a papilante
juntura silabante de sibila
a pila se não coça adiante
perante bicha feita ou feita fila.

Portuguesa espraia pestaninhas
bronze do mar roda galocremes
se tremes incomodas as maninhas
paroquiais juntinhas a quem fremes.

O milho frito a óleo nos cinemas
tasquinham cuspos à mastigação
o resto são só coisas só poemas
lat(r)ina roma é a nossa condição.



Caramulo, tarde de 3 de Setembro de 2007

03/09/2007

Quatro Poemas de Visita

This profession – yours by adoption – does not live in the real world. It visits it.

John le Carré, Absolute Friends, pág. 167





1. DEZANOVE QUADRAS DE COIMBRA-A
COM UMA MORALIDADE-B


De novo vejo o homem na tarde de comboios.
Além, o rio estanha a luz coagulada.
Árvores acodem em moldura de quieta procissão.
Pela gare varre o vento o tempo.

Bocas eléctricas altifalam horas: e destinos.
Mulheres velhas pedem esmola na escadaria.
Profusão de revistas e cigarrilhas no quiosque.
O rio parece triste como uma pessoa deitada.

Pássaros angelizam o cartão do céu.
Um hotel jaz ao alto à saída da gare.
Raparigas de aluguer florescem à sombra da sombra.
Uma churrasqueira auschwitza frangos magros.

Amo lentamente a podridão institucionalizada.
As alunas da Escola de Dactilografia suspiram à janela.
O sol desce a meia-haste além-nuvens.
É possível morrer amando tanto.

Voltaremos de comboio a nosso passado porvir.
Estações sucederão a estações – a frio.
Apeadeiros quietos nos darão ginja, não água.
Comeremos o pão plastificado de algum desejo.

O homem na tarde de comboios não tem aonde ir.
É o destino dele – chegar a horas a nenhures.
Rubricam reclamos urgências verdes de farmácias.
Tossem peidos abusados carritos a gasóleo.

Subsolo, vigiam os nomes mortos em mármore.
Postais rápidos acodem à visão transeunte.
Pasteurizados matrimónios reciclam alheias crianças.
E a noite cabisbaixa-nos suas armas neónicas.

Coleccionamos homens em tardes de comboios:
até que um dia o dia se nos faça noite.
Não adianta coleccionar unhas, sujidades:
morremos limpos como uma folha branca – é o nosso papel.

Deriva longe de vós e de mim a maré primacial.
Somos mais naufrágios do que mares.
Domesticámos o lobo do coração: mas
lebres, não livres, corremos na neve.

Homem nas ruas da cidade sujeita à gare.
Bicho acossado pela noite comercial das ruas.
Vielas fritam fígado e sardinhas com cebola.
Polícias bocejam contra o regulamento.

Folha perene é ter vivido, caduco é escrevê-la.
Avenida até cima, alongam os plátanos a noite vegetal.
Rostos cerâmicos tragediam a comédia instante.
Uma cerveja fria arde na boca.

Discretos assassinos passeiam rondando a carne.
Museus fechados fazem de fluoxetina.
Sombras azuis como bandeiras fecham empenas.
Letras sem leitura juncam o lixo dos sonhos.

Este homem na noite sem transporte.
Eu conheço este homem em dele a noite.
Eu queria fazer um poema sobre a tarde.
Quando anoitece, mantém o formato poético, por favor.

Oh, a não lavada folhícula de alface do meio-bitoque!
Oh, o não respirado tinto da taça avulsa!
Oh, as saudades qu’eu tenho da tosse convulsa!
Oh, o jazz e o samba e a valsa e o rock!

Não. Oh nenhum. Nenhum oh. Vejo de novo
o homem na noite sem comboios, só com destino.
Altifala seu coração ulterior, bronquítico, eléctrico,
senilizando a infância como de costume.

Aparece a infância quando vos dizia do homem
dos comboios. A infância aparece muito,
nunca para redimir, antes para fazer de
Claude Nougaro quando canta a Toulouse dele.

A minha Toulouse é Coimbra: Coimbra-B.
Ela e eu temos sido B toda a vida.
Ela despede fábricas desempregadas.
Eu procuro emprego em fábricas.

Sou o homem na tarde de comboios à saída
de Coimbra-A, do destino sem comboios da noite.
Não conto para o totobola: conto versos.
Eu faço quadras.

Sou o pássaro. Sou a puta. Trago e levo
sombra. Já assei frangos, quando era
outro poeta, outro de cinzenta gabardine.
Entre Coimbra-A e Coimbra-B, tudo é de borla.

Só a vida não é grátis.



2. NESCIÊNCIA PELICULAR

Uma película da cor-de-como-olhas pudesse eu
roubar sem dor nem lembrança do roubo.
De películas preciso muito, eu, que não
guardo, ainda não, uma vida completa.

Lâminas platinam minha percepção, laterais
tais lances de rio em desassossego.
Digo ainda: conheço gente que não passa,
mais passagens que não são p’ra gente.

Digo bem. O mais consiste em telefonemas
de aviso, chegada & partida, no mor a partida.
Tem sido assim toda a vida. E eu
posso estudar mais, mas nunca sei.



3. FAMÍLIAS

Foi preciso envelhecer para saber e dizer
que a minha família não é melhor
do que as outras. Nem melhor nem pior:
tão igual, aliás, como dar menina e rapaz.

No resto é o futuro: as pontes novas sobre o rio velho.
E um fio de música enquanto nos não telefonam
para baptizado ou funeral.
Portanto, igual.



4. PÁTRIA, SÉCULO XX e MENOS

A minha vida confere facturas
de meninos mortos e mortas meninas.
Foi quando eu era menino e não ainda
tinha morrido.

Já mais ou menos morri, entretanto.
Eles não vivem: estão
na permilagem
do catolicismo de Estado.

Eu ando à percentagem.



Caramulo, tarde de 2 de Setembro de 2007

01/09/2007

A Noite em Breve - 8


Antero retratado por Columbano
A Noite em Breve
ou
Coruscações no Imo de Sombras
(uma portugalidade delével)




8
Caramulo, tarde de 17 de Agosto de 2007


Sometimes in a dream, everyone hears you except yourself
(
J. le Carré, Absolute Friends, pág. 138)

In a dream, one asks the questions too late, with no expectation of a reply
(ibidem, pág. 141)

Prosa fina, como sempre. Mais me toca, na sequência de uma noite de sono que se me acabou sem aviso às três e meia da madrugada. Um sonho figurou-me uma mansão abandonada à pressa pelos donos. Lembro-me de uma sala circular de pé altíssimo cheia de gavetas. Rebusquei as gavetas. Numa delas, um bolo redondo parecia fresco. Havia uma mulher sentada num tamborete ao centro da sala. Depois, eram três da manhã, três e meia. Desisti de procurar o que nos encontra quando quer, o dormir sem dívidas nem dúvidas nem dádivas. Pus-me a ler sobre Carlos de Oliveira, depois dois contos da língua inglesa: The New Sun, por J. S. Fletcher, e Hot Water, de Val Gielgud. Às seis e meia da manhã, ao cabo de um cigarro para celebrar a alba lindíssima, pude enfim adormecer até às nove. Devo ter feito algumas pazes com alguns dos eus do sono, pois que acordei pronto para a mais recente sexta-feira da História. Levantei-me, fiz chá e cozi um ovo. Verifiquei o correio (algumas mensagens), joguei o tetris, reorganizei apetites, possibilidades e decisões. Nenhuma expectativa, coisa de que vou felizmente desistindo. Direi melhor, dizendo: d-existindo.
Agora, no torpor da tarde (agosto convencional de cimo de serra), progrido nas horas como se, descalço, afrontasse um areal atlântico. Este trabalho, à minha revelia quase, acabou encontrando o seu rumo no usufruto simplicíssimo da mesma hora que vive. É o caso de lembrar-me, agora mesmo, da tarde do dia 1 de Outubro de 1981.
No dia 1 de Outubro de 1981, em Trancoso, entre numa papelaria-bazar-livraria em frente à Barbearia S. Paulo. O meu cunhado Zé Lima, com quem viajava para alguns dias de pausa na aldeia da Prova (Meda) – exactamente a mesma onde nasceu o doutor Jerónimo de Lacerda (1889-1945), fundador do Caramulo – tinha ido fazer não sei o quê pela vila do sapateiro Bandarra (que o iconógrafo Fernando Pessoa preferia à alegada Virgem de Fátima como espécie de santinho místico da Nação). Entrei na loja, levava comigo um conto de réis que furtivamente me dera o meu Pai para consumo daqueles dias. Na altura, eu não fumava nada que me fizesse bem nem bebia nada que me fizesse mal, pelo que os mil paus chegavam perfeitamente, como chegaram. Dei com uma estante repleta de exemplares da Livros do Brasil. Estavam velhos, os volumes, já então. Comprei de enfiada uma data de obras de Somerset Maugham a cinquenta escudos cada. Fui lendo-as ao longo do tempo. Ainda esta mesma tarde estive com uma na mão, precisamente uma das que me falta ler – Biombo Chinês. No saco, para ler na Prova, levava comigo Carlos de Oliveira, magnificamente impresso na viseense Tipografia Guerra, onde tantos anos depois tive a felicidade de ver impresso o sêxtuplo Licor, Sabão e Sapatos. Já na Prova, em casa da mãe do meu cunhado, escrevi a lápis uma série irrelevante de textos a que chamei Fotografias. Por falta de caderno, escrevi-os nas páginas de guarda do Carlos de Oliveira (salvo erro, em um dos dois volumes do Trabalho Poético). Já passaram vinte e cinco anos, quase e seis. Lembro-me hoje dessa irrelevância de finiadolescência: não sei por nem para quê, mas lembro-a e escrevo-a. Recupero esses livros, por estes dias, em biblioteca finalmente reunida, ao cabo de anos perdidos por casas desencontradas de mulheres e filhas esparsas. Embora Maugham (lê-se Móme) não seja, de modo algum, um gigante como Greene, le Carré, Faulkner ou Calvino, também ele retomará o seu lugar na prateleira.
Se relevo a irrelevância de tudo isto, relevo bem. Perante a realidade não solipsista, no imediato, impõe-se a brutalidade: no Peru, um sismo matou quinhentas pessoas, feriu mil e seiscentas e desalojou não contados milhares. Na minha vidinha de pantufas e literatices, os sismos são recicláveis em versos dengosos e em prosas córneas que não aquentam nem arrefentam – nem matam, nem ferem, nem desalojam.
E, apesar de tudo, levo já uma vida. Como um dos papagaios de cana e papel-de-seda colado a farinhágua que fazíamos antigamente (tão antigamente, na infância justa), tenho cauda, já. Identifico mais e mais depressa o bom e o merdoso. Também perdoo menos e sou menos perdoado. De modo que está tudo bem. Frequento mais velórios do que baptizados – e tudo está correcto, assim, pois que a idade faz proliferar cerimónias antitéticas, sendo ela mesma, a idade, a antítese movediça mais sensata.
Às seis e meia da manhã, o livor da alba era comovente como uma música composta e executada a partir de tintas, não de sons. O primeiro azul refrigerava sobre uma fogueira oriental: marfim e oiro ardiam sem que o terror da consumpção vicejasse nas árvores que cercam a minha casa. Antes pelo contrário: erguiam-se do chão as adormecidas, reverticalizavam-se com um frio garbo de estrelas de cinema as árvores todas. A calçada, oca de carros, oferecia os primeiros cães da manhã. No jardim penteado pela brisa, as flores fotocopiavam estrelas descidas para a láctea via dos pássaros astronáuticos. É falso que tal não possa repetir-se: estive vivo no curso e no corso desta alba irrepetível. Se amanhã, a uma hora irmã, for parecido, terei de reviver o desassombro da experiência.
Dizem os que sabem (eu não sei) que o amor, quando se torna amores, assim é – como a minha alba. Não sei, não perorarei. Nem da textura grossa do meu caderno faço hierática: escritura é, sagrada não é – tudo isto, incluindo essa tarde esvaecida de 1981 em que comprei tantos Maugham. Carlos de Oliveira morrera precisamente três meses antes. No dia de Natal desse mesmo ano, fui ao Clube da minha terra. Era o meu tempo de euripos. Tinham tornado aquilo numa discoteca pobre. Comecei a namorar o meu primeiro namoro nesse crepúsculo irrisório. Foi com uma rapariga mais bonita ainda do que católica – e ela era muito católica. Deitei fósforo aos vulcões todos que, aos dezassete anos, ainda se não amornaram como esquentadores. Foi um namoro bonito e triste – sem cama e sem futuro. Pelo menos, definitivamente sem cama e sem outro futuro que esta nota de rodapé num caderno de quarentão sem pressa nem praça. Os dentes já então me zuniam cáries, mas não nesse dia. Dançámos umas lentidões chamadas slows, conversámos uns acnes, acho que nos beijámos sem técnica perante a indignação póstuma dos Oliveiras e dos Silvas fundadores do Clube, que a nova gerência jovem respeitosamente mantivera pregados às paredes em retratos de fumaça oval e pretibranca. Isso passou, a moça é hoje casada, mãe e contribuinte do Tesouro. Acho que vive na Guarda. Eu ainda hoje não sou moça, nem casada, nem mãe, nem católica. Só contribuinte involuntário do Tesouro – talvez por isso nos tenhamos apartado algures na névoa de sebastiões dos anos (15)80. Não sei, nem já quero saber.
Trabalho para um envelhecer sem glória nem azedume: a primeira metade do projecto está garantida. Mas ainda ontem, pensando vagamente nisto, me surdiu e surtiu efeito uma linha que era mais ou menos esta:


O calmo mar recebo entre árvores da serra.


Levava pão fresco no saco de pano, retornava a casa. A linha, como um das da mão, tocou-me a testa sem violência nem utilidade. Era que o vento dava nas árvores do caminho – e ondas subiam e desciam, verdes também, espumigrisas também, como no mar. Sou muitas vezes tocado por tais marés, frases tais – e ponho-me a viver em gavetas que depois me aparecem em sonhos, transmudadas em recados simbólicos que não posso decifrar por não ser nem áugure nem mãe.
Nem augúrios nem maternidades me esperavam, às quatro e meia da tarde de cada sexta-feira lectiva, na paragem do autocarro em frente ao Liceu. Esperava-me ela. Era em 1982. Uma prima direita dela vigiava-nos o consórcio, que nunca se atreveu, perante testemunhas, a entrelaçar mãos ou a, muito menos, a tocar a rosa frívola de uma mamilo ou a tensa dentadura da braguilhéclair. Apanhávamos os três esse autocarro, depois outro até à nossa dormitória e adormecida aldeia-bairro. Eu falava-lhe de Carlos de Oliveira, a prima, muitíssimo menos bonita e muito mais católica do que ela, pedia-me para tocar órgão à missa, coisa que fiz por causa dela, da minha, cujos olhos eram de um veludo de que a indústria tirou cópia de brilho, exemplo de textura e justaposta patente de mansidão e maciez. Eu pairava como um anjo sem mortos a tratar. Tinha acabado de descobrir Correia Garção e o Padre António Vieira – e a vida parecia-me compaginável com o viver, coisa que se me arredou vivendo, como a toda a gente sucede. A biblioteca do Liceu era uma casa clássica. Entrava-se noutro tempo entrando nela, dentro de outras cabeças e de outros corações. Eu ia fazer dezoito anos, a biblioteca já tinha feito isso muitas vezes. Fidelino de Figueiredo (capas verdes), Hernâni Cidade (encarnadas), Guerra Junqueiro (amarelas), Raul Brandão (azuis), Tolentino (brancas com filete encarnado), Bocage (azuis), Sá de Miranda (ocres), António Ferreira (verdescuras), Afonso X o Sábio (castanho-ferrosas), Eça (douradas), Óscar Lopes (grenás), Catulo (cor-de-rosa), Simenon (verdazuis e negras), a Vida (arco-irisada) – a outra – tudo ali demorava a vida que eu queria ter e não pude senão perder, a caminho das vidas que (se) sucedem no fogo-de-artifício da fixação adulta, hasta la muerte, em sorites. Fiquei com o exemplar de Fidelino de Figueiredo. É verde. Vai para uma das prateleiras. Não consegui sonegar o Teófilo Braga que, tantos anos depois, encontrei retratado no Julião Quintinha de Imagens de Actualidade (o velho, muito pobre, muito perto da morte, recebeu em casa o publicista – comia ladrilhos de marmelada e arroz magro, fazia um café chilro que lhe perfumava a solidão inequívoca, terminal).
Tenho sido a aranha destes fios – destas babas. Continuarei sendo-a: nada me sobra. É bom. Um homem deve olhar para a obra que fez e, perante os cacos do entulho, dizer – a obra é isto. Tenho as manhãs da montanha, as tardes da montanha, a montanha das noites.


*******

O calmo mar recebo entre árvores da serra.
Anos e árvores acompanham o vento marinho.
Umas e outros voltam a ser da terra
como o vinho e a água e a água e o vinho.

Recebo calmo, arbóreo, a serra do mar.
Petrificada onda de pétrea maré.
Anda um gajo calmo na onda, pois é
próprio da alma ter calma e ’sperar.

Desesperar, não. O mais é topar
casais de pastelaria. Tudo é litoral.
O cume da serra disfarça de mar.
O mar acalmado, de pedra e cal.




*******


Algo vos disse de café e de anjos terminais. São os internados pós-tuberculose. Isto, o Caramulo, era uma estância magnífica, dezoito sanatórios full time, contra o Bacilo de Koch. A partir de meados da década de 70 do século passado, fecharam as casas grandes. Duas ou três ou quatro foram recicladas em terceiridades e/ou hospícios psicotrópicos. Os muito velhos não saem de entremuros. Os outros vêm ao café a horas certas. Todos fumam, pelo que são divisíveis em dois grandes únicos grupos: os que têm sempre tabaco e os que nunca têm tabaco. Eu assisto. Formigo a minha carreira em pose de assistente. Anos e anos, linhas e linhas, cigarros e cigarros, páginas e páginas. Isto não é uma brincadeira. Há Segurança Social nisto, nisto há fortunas de família. É a sorte pequena e a terminação. Velhice, droga, álcool e outras ornitologias. Esses anjos já não estão: são: daqui. Integraram-se na paisagem como árvores móveis. Pouco móveis, aliás. Vou dizer.
Depois do pequeno-almoço, vêm tomar café em mesas separadas. Fumam. Um segundo depois da chávena, voltam à estatuária da serotonina-gota-a-gota-de-fluoxetina. Existem marmoreamente. Estão uma hora, duas: do nosso mesmo alheio tempo. Quando debandam, debandam apelados por um relógio já interior, clínico para sempre, para sempre isto. D-existem. Depois de almoço, retornam. Tomam café, fumam. Emmesasseparadamente. Enchem os cinzeiros de bocados de papel: frases, décadas, todas outras, décadas e frases. Há um que escreve. Já sobrevoei o caderno dele, roçando a montante esse rio de tinta. É noutra língua – o que escreve. Não pude ler. Eu também escrevo – a jusante.
Tenho águas. Uma viagem de carro, anywhere you go, é-me suficiente para libreto de espirais de casca de caracol. Águas, portanto. Muito bem. Certas crónicas familiares (portanto íntimas, portanto da pobreza que achava na ideia de livros a Ideia, o Livro) começaram empurrando cedo este carro: este barco. As crianças ouvem falar. Quando envelhecem, pensam ter dito. Mais: pensam escrever. Não. Não é verdade. É falsidade.
Brancas fêveras agalinham os primeiros apetites masturbatórios. A ideia-montra alastra a partir da ourivesaria-raparigas. Digo isto: talvez 1978, vivia ainda Julio Cortázar, morria Ruy Belo. Sim, nesse Verão de tira-e-mete-pele, essa espermática morte da infância. Essa coisa imperdoável: um corpo deixar morrer a infância que o (i)lustra: essa coisa que não mais o corpo (nem o copo) há-de (hão-de) perdoar.
Eu não perdoo porque recordo. Falsamente recordo todas as irrisórias verdades do meu corpo. Perdoavelmente recordo? Haja cristianismo. Haja literatura, que é o que os homens fazem quando as mulheres conseguem trabalho para sustentar a casa.
Tudo isto é tão sério, que só pode fazer rir. Assim o espero. Tenho umas chilras luzes da Teoria da Recepção. Mas o Althusser parece ter estrangulado a esposa. Buchenwald, ex-RDA, ex-Hitler, ex-Jorge Semprún. Tenho umas luzes. Não dão para um iluminismo. Não é suficiente partilhar um motel. Não chega ter escurecido com a noite para adverso exercício da genitália contra uma mulher quase qualquer. Carlos de Oliveira cortou versos da década de 40 em 1969, depois 1976, dedicou-se a morrer em 1981, ano da loja em frente à Barbearia S. Paulo, Trancoso, ninguém mexe. Tudo isto é tão sério. Recordo sem precisão o triénio 1982-84, época em que visitei com o Jorge uma clandestina casa-de-pasto da nossa cidade. A nossa cidade era Coimbra. Subia-se da Sá da Bandeira para a Antero de Quental (o poeta que se matou quando a banda tocava,


quando êle se suicidou, tocava bem perto, no átrio do Convento de S. Francisco, uma banda militar, que nesse momento executava a partitura da ópera Sapho (*).
(*) Este pormenor foi-me contado pelo sr. Joaquim Cruz, que era músico militar em Ponta Delgada ao tempo do suicídio, e ainda se recorda da funda impressão que ele causou.
Julião Quintinha, Imagens de Actualidade, pág.203 ),

mas não se chegava lá. Uma família abria a casa, comia-se barato e bem em casa deles. O meu irmão descobria estas coisas. Não as queria para sempre, como eu queria, mas eu era mais novo do que ele, tão ao contrário de hoje.
Também isto passa, rio alheio a festividades: as sinceras e as falsas: as rainhisabéis e as outras que não perduraram no operariado católico. (Na biblioteca do Liceu, a Crestomatia Arcaica e outras delícias de açúcar velho.)
Há aquele funeral em Antuzede, mas não tenho crononúmeros para ele. Sou muito pequeno, muito infante (embora infante signifique o que não fala – eu já falava, só não dizia). É o enterro de um homem velho. O meu Pai teria cinquenta anos, talvez nem tantos. É muito cedo na minha vida, o que conto: como quando acordo. Há um corpo vestido de caixão. Há um sol branco na praceta sem obras: as aldeias eram, então, ínvias e silvestres e desérticas e portuguesas. Estou a ver corpo e caixão do alto de uma barreira de terra crua, cuja retaguarda hoje associo, mal decerto, à casa de meus tios António & Laurinda (cujos funerais vivi, depois, em S. Facundo, não longe da original Antuzede). O corpo morto, os homens escurecidos, a luz branca, a infância toda: essas praias trágicas. Passado um pouco, a mão do meu Pai penetra num arbusto e volta, mágica, com uma maçã. Não é o mesmo dia? É. A maçã é ácida e alcoólica. Penetro-me todo desse sabor memorial. É o meu Pai. É a Oferta. É ele Tratar de Mim. É tudo maiúsculo, em pequenino, como na má prosa.
Do tal morto, nada sei. Este mesmo ano de 2007, voltei a Antuzede para um funeral, o do pai do meu amigo Joaquim Jorge. Era o mesmo sítio. Vi chorar o mesmo sal. O País era. Voltei para casa sem trocar o filme.
Sei algumas coisas. Furo-as para sabê-las. E, do coruscante imo de sombras, painéis de azulejos pintados pelo meu operário Pai tocam a celebração angélica, como se ele morresse, como se ele morresse, como se ele pudesse morrer, como morreu o irmão dele nascido em 1914, Alberto, no Caramulo, dia 14 de Agosto de 1980, como morreu o meu irmão nascido em 1954, Jorge, em Coimbra, dia 23 de Maio de 1986. Não. Espera. Dá tempo ao Grande: ao Tempo. Dou:
é uma noite de violas e guitarras, vozes de mulher e senhas de vinho tinto para caldo verde – 1984, Pedrulha. O apresentador da noite vai assassinar à facada, dois anos depois, um rapaz da terra ex-emigrante na Suíça. O apresentador também é da terra. Não é assassino, vai sê-lo. O primeiro crime dele é interromper um namoro vitalício de sete ou oito anos. Ela é bonita, seio perfeito, respondona, olhazeviche. Ele foi hippy em França, tem lá um filho sem retorno, é matriculado-para-não-acabar-nunca-em-Psicologia. O rapaz morto é, quando vivo, vivaço. Tudo acaba (tudo começa) no Junho de 1986. facadas: duas dezenas e meia. Morte pública: sangrando junto ao poste amarelo-branco do autocarro. Dois anos antes, o Grupo Cultural afiambra uma noite de fados. Sou um dos violas. Tenho de transitar entre veteranos e mocidades. Tenho de tocar à antiga. Tenho de parecer novo. Tenho vinte anos. Não tenho nada. Estou vivo – é tudo. Ainda não vou ser assassinado. Nem assassinar vou. Encontramo-nos depois, anos largos, eu e o perpetrador. É num café da rua, em frente ao prédio da mãe dele, local do crime. É muitos anos depois.
De modo que se morre de tanto viver, enquanto a banda toca.

Canzoada Assaltante