02/09/2008

01/09/2008

1/9/08

Amei muitos animais, cada um deles uma pessoa.
Amei algumas pessoas, cada uma um animal.
Digo isto agora no Caramulo, entardenoitecer de 1 de Setembro de tantos do tal.

Se no meu Rosto o teu Retrato




Fotografia: © Sandra Bernardo,
“Recorte da Sé de Viseu”, entardenoitecer de 31 de Agosto de 2008

Texto: Viseu, entardenoitecer de 31 de Agosto de 2008





I

Rondam as aves o entardecer dos sinos,
é já o outono a primeva condição derradeira.
No terraço arenam-se de tempo os meninos
sozinhos jogando a tarde inteira.

Jogando-a fora, longe a atirando.
A sul, há canaviais, ínsuas, tangerineiras.
Aves rondam, meninos rodam: tudo é, brincando,
sineiras coisas, tardias, entardecedeiras.

II

Reconfere no meu rosto o teu retrato, anterior senhor.
Em minhas últimas mãos, tua tremura primeira.
Isto passa-se num teatro dentro de nós, que o amor
é uma dimensão, não mera coisa aventureira.

Verifica, senhor, o teu coxo caminho roxo a meus pés.
Uso sapatos mui modernos, muito aprazíveis.
Continuo a passar ante ideias e mulheres comestíveis,
como, senhor, passaste: e foste e és.

III

Hoje não recebo senão aos domingos.
Tem toque de neve o dia útil.
Pode até resultar-me inconsútil
pano receber se não ao domingo.

Se não o domingo, então outro dia.
Mas a outro dia, ante o mesmo mar.
A gente não vive, a gente adia.
Não é isto viver, é só adiar.

IV

Não me receies a volta não duradoura.
Eu dou-me a limos e a cimos outonais.
Conheço fonsecas e outros que tais,
que cheiram a pílula não duraçadoura.

Tu, e eu, e os outros, nós a morrer vamos.
Do nascer viemos e vivemos, iguaizinhos que tais.
Oceanografia é ’screver oceanos:
e todos se chamam, como é?, portugais.

V

Os calhamaços de História (em)pilhados ao canto.
As flores sempiternas roxeando no pátio.
Eu sou lusitano: prò ano é que canto.
E sou português: prò ano sou pátrio.

Passa um gatito esmoler p’la calçada.
Tem pintas genéticas, as mais coloridas:
deve ser heptatrágico, o ter sete vidas,
que uma bem basta a não passar nada.

31/08/2008

Spray




Texto: Viseu, domingo, 17 de Agosto de 2008
Foto: Viseu, tarde de 28 de Agosto de 2008

Não preciso de abrir a boca para te falar
do meu comovido país que entristece
em cada pessoa como um cheque ao portador.

Os olhos levo fechados para te dar a ver
as pastelarias fechadas nos fechados domingos
sonhando cruas segundas-feiras no passado.

O ríspido matraquilhar dos ranchos folclóricos
desmantela-me os ossos dos ombros, assim
como as quadrilhas de falsa etnografia

cheias de professoras divorciadas e
de tesoureiros das juntas. Não preciso
de nada disto, mas aqui vivo para

ter que te dizer sem que boca e olhos
abra, nem domingos. Vive-se insecticidamente
do lado errado do spray, digo-to.

30/08/2008

Anjo em Aveiro

Hoje,
sábado, 30 de Agosto de 2008, pelas 19h00,
na Bertrand do Fórum, em Aveiro,
há sessão autógrafa de
Terminação do Anjo.

******

Noticiaram-me entretanto o falecimento da minha Amiga Lucínia Baptista Azambuja (esta noite, durante o sono).
Vou levá-la comigo a ver o mar, hoje.

Lugares-comuns para Maria


Crónica nº 66 da série Rosário Breve, in O Ribatejo (www.oribatejo.pt) de 29 de Agosto de 2008

Fotografia: © Sandra Bernardo, Feira de S. Mateus, Viseu, 27 de Agosto de 2008

Até que a vaca tussa, estaremos feitos ao bife: o bacalhau está pela hora da morte e a pobreza já nem postas de pescada arrota. Ser português parece-se cada vez mais com a sopa de cavalo cansado. E dizer mal das coisas redunda mais e mais na marmota de rabo na boca.
Já ninguém se atreve a dizer alto lá com o charuto. Somos (ou não somos) todos umas marias que vão com as outras? E todos pensamos (ou não pensamos) em dar às de vila diogo antes que se faça tarde? Sim. Porque ficar é pintar o sete no diabo a quatro: e o abril de sete quatro é o trinta e um do costume.
Também não lembrava ao diabo ser português toda a vida. A morte faz a colheita, que até o lavar dos cestos é vindima. Já nem quem meus filhos beija minha boca adoça, que a casa não é pia, vai tu com a outra, Maria.
Aqui não há gato: há cão que não ladra e caravana que não passa (da cepa torta). Morta depois de rainha melhor seria que rainha depois de morta: faz Pedro de cepa, faz Inês de torta.
Sigamos porém para bingo, que nada vingo em outro incomum lugar que não o da extrema atenção ao lugar sensível da nossa vida-agora: mesmo sem dinheiro, por que (falta de) razão nos putificamos tanto? Por que somos só isto, estes, esta gente, este País? Oitocentos e cinquenta quilómetros de praia, quadrados na província, oitocentos e sessenta e cinco anos de foral de nacionalidade, fado-futebol-fátima-e-saudade: e somos só isto?
A vaca já não tosse Jorge de Sena. Nem Martim Codax. Nem a provável dignidade de D. Dinis. Mas já tivemos Nuno Bragança, não o da dinastia marialva mas o d’ A Noite e o Riso. E Raul Brandão, que nos legou gebos e sombras e pescadores. E nós já fomos. Não sei bem o quê, mas já fomos.
Se ainda formos alguma coisa, ao menos que vamos a tempo de ver passar a caravana rodeada de cães sem mudez e de vacas sem tosse, Maria lavada em água de malvas.

27/08/2008

24/08/2008

www.raspadinha.lete

(Crónica nº 65 da série Rosário Breve, in O Ribatejo - www.oribatejo.pt, edição de 22 de Agosto de 2008)
******

Não sei quem terá sido o caluniador que me bufou aos remotos “masters” da internet, mas é que todo o santo dia recebo na minha caixa de correio electrónico uma carrada de propostas farmacêuticas para aumento volumétrico do meu, digamos, “coiso”. E não só. A farmacologia da www. teima, ainda, em convencer-me a enveredar pelo azul: ou seja, pelo viagra, como se “isto”, afinal, já não fosse uma irrecuperável miniatura.
Está certo que devo ao Fisco, de momento, coisa de cento e picos euros. Mas também não era caso para isto. É verdade que na Lete do Central tenho um “cão” de quatro ginjas, dois bolos de bacalhau, meia grade de minis e um bilhete de raspadinha. Mas não era coisa que me fizessem.
Antes das novas tecnologias, a vida era muito mais fácil e muito mais gira e muito mais bonita. Era. Antigamente, a história só tinha duas hipóteses: ou era antes de Cristo ou depois dEle. Agora é tudo durante: durante www., que não sei o que quer dizer porque é letra que não aprendi em nenhuma cópia-caligrafia da minha primavera marcelista particular.
Sou um semi-órfão já madurote de 44 anos. Ainda não, portanto, me assaltaram nem o des-hastear da bandeira nem o falso azul do céu químico. Nã-senhor. Tenho feito o meu papel, geralmente nesta página até. Informo-me, oriento-me, frequento bares de gente desquitada, vou a apresentações de livros e a inaugurações de pintura, não me rio alto, quase nunca, sempre que algum presidente de câmara fala ou escreve: tudo na linha, cá comigo. Portanto, não merecia tanto entulho. Como diria talvez Hergé, faço o meu tintim. Não merecia era isto do correio electrónico, nem mereço nova oportunidade alguma para coisa, ou “coiso”, nenhum(a).
Que comigo, raspar por raspar, ou raspadinha por raspadinha, só se for na Lete da Central.

23/08/2008

Isto

Viseu, noite de 23 de Agosto de 2008




Isto de não ter dinheiro para ir à vida.
Isto de ter vida e não ter escolhido o dinheiro.
Isto tem não tem tem não tem tem não tem
que se lhe diga.

22/08/2008

Anjo em Viseu


Hoje,
sábado, 23 de Agosto, pelas 17h00,

na livraria Bertrand do Palácio do Gelo,

em Viseu, há lançamento de

Terminação do Anjo.

Entrada livre e saída também.

Vemo-nos (por) lá?

21/08/2008

Trinta e Seis Peças para uma Reconciliação com a Realidade

Viseu, fim da manhã 21 de Agosto de 2008


1

Duas gotas de leite feitas fruta e carne:
ao peito das mulheres.

2

A boca fechada:
um livro aberto.

3

O bater do coração:
as palavras antes da garganta.

4

As asas da ave:
as duas razões para ela.

5

O pedinte de rua:
o país à mão.

6

As asas da ave:
ela duas vezes mesma.

7

A sombra de um menino:
augúrio.

8

Mesa e cadeira:
caderno e lápis.

9

Musgo e pedra:
mês e milénio.

10

Marido velho, esposa moça:
arte e manha.

11

Pedra:
prece.

12

Água:
súplica.

13

Terra:
istmo.

14

Fogo:
idioma.

15

Fruto na árvore:
palavra cumprida.

16

Fruto na árvore:
palavra da árvore.

17

Frutos na árvore:
asas da árvore.

18

Mãe:
pergaminho.

19

Pai:
pergaminho.

20

Mãe e Pai:
claustros.

21

O menino à sombra:
premonição.

22

O sono:
profecia.

23

O nascimento:
o pranto.

24

O nascimento:
o grito.

25

A existência:
o eco.

26

Alegria:
corpo todo.

27

Tristeza:
além do corpo.

28

Uma cabana cheia de mulheres:
um pombal.

29

Uma cabana cheia de homens:
uma cabana cheia de homens.

30

Prédio de quarenta apartamentos:
mas nem uma casa.

31

Farmácia aberta na noite:
luzes acesas em casa.

32

O telefonema:
filho do telegrama.

33

Os olhos:
frutos na árvore.

34

O corpo:
a árvore.

35

O olhar:
fruto dos olhos.

36

O bater do olhar:
as palavras depois da garganta.


20/08/2008

Casa


Foto: © Alfred Stieglitz - Equivalent (1930)
Texto: Viseu, 20 de Agosto de 2008




Que esta casa madure e à queda não receie
como tudo cai quanto amadura.
Um homem seja dentro dela e dentro dele uma mulher.
Que nela caiba a dignidade dupla de animais e plantas.
Tenha muitas janelas, mas uma só luz.

E dentro da luz o homem e dele a mulher.

19/08/2008

SAUDADES DE PORTUGAL, ESTANDO TODAVIA TODA A VIDA CÁ - I

SAUDADES DE PORTUGAL, ESTANDO TODAVIA TODA A VIDA CÁ - I
(uma geografia estapafúrdia como todas as pessoais)

Foto (maravilhosa) colhida desta fonte:
I
Tondela, tarde de 18 de Agosto de 2008



Outrora em Lisboa eu descia muito ao metro a aprender como será isso de estarmos pessoas dentro da terra. Também o fazia para encontrar o meu Pai e o meu Irmão Jorge e o meu Cão Amarelo, que reencontrei muitas vezes e com quem partilhei amistosas viagens no silêncio, entre africanos vestidos de azul-curandeiro e chefes-de-família rezando o breviário do jornal desportivo e raparigas com o ar e o olhar de quem sonha com a fama-TV e professores de ginástica aeróbica com o aspecto todo de viverem à custa de mau sexo com cinquentonas administrativas estúpidas como jibóias e grossas como jibóias e jibóias como mulheres enroscadas em professores subterrâneos e anaeróbicos de metro. Hoje mesmo, esta mesma tarde, a minha mulher perguntou-me se, oportunidade havendo, eu entristeceria de mais em Lisboa. Eu não lhe disse logo que sim porque, de nós dois, é ela a única com futuro, a única de nós duas pessoas que tem saudades mas é do futuro, não é ela felizmente como eu sou, isto que por todo o lado continua atrelado ao Cão Amarelo e ao Irmão e ao Pai.

Peniche era outra coisa. Tinha pescadores, que eram formosos e escuros e tristes e violentos e alcoólicos como eu tudo isso, excepto formoso. Quantos passos errei por aquele istmo queimado pelo sal e pela saudade contemporânea de si mesma como a música de um fado é coeva de sua mesma letra? Peniche foi antes de Lisboa e depois da minha vida. Eu tinha 22 anos, depois 23, agora já fiz 44 e a vida é uma porra que só tem que se lhe diga quando a poesia deixa. Peniche é a cidade onde li Ruy Belo, que foi quem andou em Peniche a ler Alexandre Herculano, que não sei se alguma vez foi a Peniche documentar-se sobre esse monumento árabe que é o mar português.

Em Coimbra, saltei na Avenida Bissaya Barreto para arrancar dois malmequeres que havia altos numa vivenda de médico, em Coimbra todas as pessoas ou são médicas ou doentes, é por assim dizer a indústria local. Os dois malmequeres eram para uma namorada que tinha 18 anos como eu e era formosa e morena e trágica e piscatória como eu isso tudo, à excepção de formoso. Chamava-se ela, ai como é que se chamava.

Não sei em que ponto do nosso Portugal foi que estive mais de uma hora a chorar num banco de madeira, desses verdes de jardim onde os velhos se arrependem da vida e injuriam a Segurança Social. Foi algures, só pode. Não recordo as razões de tanta baba & ranho, talvez alguma mulher perdida como uma concha na praia, ele há tanta praia, tanta concha, tanta mulher. Eu não sei tudo, mas ainda sei chorar.

No Porto, certa ocasião, um amigo deu-me duas coisas, que foram um livro do Herberto Helder e um almoço de bifes de cebolada, desse tipo de livros e de almoços que fundem a chumbo o cu de uma pessoa à cadeira, no caso éramos dois cus. Depois, esse amigo foi à vida dele – e eu, por já então não ter vida aonde ir, vim-me embora do Porto e nunca mais lá voltei. À vida, quero eu dizer. Ao Porto sim, mas poucas vezes.

No Algarve é que era porreiro. Eu tinha 12 anos, nenhuma dívida e um princípio de educação que ainda hoje se reflecte na minha ortografia e no meu atravessar as ruas pelas passadeiras. A água marinha era caldosa e as raparigas francesas eram mesmo francesas, diziam jemápélélène êtuá comã tu tápéle?, que era quase tudo quanto eu podia perceber da língua helénica porque aprendi pelo Je Commence, que era o livro do Robert e da Nicole, que tinham um cão também francês chamado Patapouf, mas também só fui para francês porque a professora de inglês tinha engravidado e naquele tempo as professoras não eram tantas como são hoje, até já comi algumas e também vos digo que elas NÃO SÃO TÃO insossas assim. Mas isso foi depois do Algarve e de ter 12 anos.

Em Tondela, esta mesma tarde (agora mesmo), gostei muito de ouvir rir uma mulher. Era um riso bom, feito de simpatia pela vida e de boa situação financeira. Tinha o cabelo de raízes negras quase todo pintado de amarelo, o que lhe fazia da cabeça uma espécie de camisola do Beira-Mar, que é o clube de Aveiro e já ganhou uma Taça de Portugal, que é o nosso País, mas agora está na Segunda Divisão, como o nosso País. Gostei muito de a ouvir rir porque gosto muito de ouvir o riso das mulheres, que são seres com futuro, ao contrário de nós, os homens pescadores de Peniche, mesmo que não sejamos de Peniche e tenhamos perdido o mar logo ao nascer direitinhos à Segurança Social.

Em Setúbal, adormeci numa conferência de imprensa. Tinha dormido muito mal, depois fiz-me à estrada na noite parecida com uma caverna, um vórtice glaciar, no hotel onde era a coisa havia folhados de carne e café de marca italiana, na altura podia-se fumar, não era como agora que os higienistas e os gays e os judeus e os sportinguistas estão todos no poder a proibir tudo. Fiz bem em adormecer porque aquilo era tudo à base de economistas chamados BDO e de judeus e de gays e de sportinguistas muito higiénicos. Mesmo assim, consegui escrever um texto, que é uma coisa que ainda hoje consigo, saiu numa revista de economia qualquer de capas muito verdes e muito gays e muito BDO, shalom.

Em Viseu, fiz amor contra a minha mulher com um poema cheio de chuva como uma chávena de água do mar. Ela é de olhos azuis, que sorriem antes da boca. Porta consigo por todo o lado uma pele de louça flexível que entontece, naturalmente, os filhos-da-puta dos outros gajos que eu não sou. Quando ela se ri, é à beira-mar que recolho, mas não como aquela da cabeça do clube aveirense.

Em Ílhavo, nada a ver com isto. Em Ílhavo, conversei com um homem antigo de muito bom idioma. Como todos os viúvos, vivia num rés-do-chão. Ele gostou de conversar comigo, disse-me que eu ia morrer de velho porque sabia bem o meu português e as minhas maneiras e atravessar as ruas pelas passadeiras, só se enganou nisto, apesar da ortografia e de ter tido 12 anos no Algarve e noutros sítios do nosso País, que é Portugal. Tenho saudades desse homem, que se chamava Carlos e tinha saudades da mulher, que se chamava Maria do Amparo e o desamparara morrendo apesar do amor dele por ela, que ainda eram vivos, ele e o amor por ela.

Em Pombal, embebedei-me furiosamente contra o facto inexplicável de nunca o Nobel da Literatura ter sido atribuído nem a Camões nem a Cesário Verde. Pombal é uma terra muito cómica onde as pessoas choram, sobretudo em bancos de jardim. Os cães tossem peixes, as pombas parecem gaivotas bastardas, o sol é branco como um melão caído ao chão, os olhos das pessoas parecem pintados à mão – mas é lá que tenho amigos que não morrem, mesmo os que já morreram.

Em Santiago do Cacém, fiz a mijada mais maravilhosa da minha vida. Mas isso fica para outra ocasião. Agora, au revoir, como diriam o Robert e a Nicole e até o Patapouf.

17/08/2008

MAIS ANO MENOS ANO, MAIS FEIRA MENOS FEIRA, MAIS SANTO MENOS SANTO, O TEMPO É UM ÓLEO DE FRITAR MENINOS


(estrofes-farturas para uma Feira de S. Mateus alternativa)

Viseu, nas imediações da dita, tarde de 16 de Agosto de 2008



O ourives e o homem do lixo são irmãos, juntaram esta tarde as respectivas descendências para um almoço amerendado, é sábado, troa lá em baixo a feira anual do santo.

Rondam os meninos como aves de entardecer no bico, as árvores frestam alto papéis amarelos feitos de luz rápida como pensos de ciganos, é sábado e é a vida, a vida ao lado da gente na rua como uma pessoa que passa pela gente.

Nos cabos pousam os corvos como notas de música, não, como pausas de música: ouço-os com os olhos enquanto planeio comprar um chocolate, ou um frango, ou um vaso. Eles adejam luminuras de feira, os corvos.

Rulotes parecem-me cristais, não sei porquê. Os meninos do ourives e os do lixeiro incandescem de corridas na gravilha sem ira e sem obrigação. Cheiros materializam-se como defuntos incapazes de readormecer.

Agora já não se fala nisso, mas tempo houve de as pessoas não poderem vir à grande anual do santo, tolhidas nos casebres das aldeias pelo sono em fome dos animais da criação. À luz do azeite, a fruta colhida ourejava contra o desespero.

Ouro e lixo. Meninos e corvos. Sábado e vida. Corvos e rulotes. Chocolates e frangos. Árvores e papéis. Corvos e olhos. Merendas e descendências. Pessoas e gentes. Cheiros e corridas. Corvos e corvos.

Aqui não soa o bramir dos cargueiros, aqui não raspa o mar as madeiras de ancoradouros nenhuns, há uma língua ribeirinha traduzida em fragmentos de lixo, plástico mormente, que as pessoas dizem à vida lateral do santo anual.

E os casais movidos a óleo alimentar bambam pelo recinto suas coronárias de média tensão: delas, o rego mamário farfalhando celulilaranjas; deles, os calções de alcooatletas acima das sandálias atiradoras de unhas grossas, amarelas. E as filhas já namoram nos bancos de trás de viaturas de matrícula francesa.

O ourives e o homem do lixo e eu somos todos irmãos – e todos quase amamos quase muito o país anual, o santo de feira, o galo escarlate e a couve roxa – e os meninos, já agora.

(Que ao menos a língua me não negue o que a vida não tem obrigação de me dar. Se, por exemplo, por aqui não houver vinhedos e trigais cabelando a terra, que triguedos e vinhais à terra cabelem, frestando-a de rápidos papéis amarelos, verdes.)

Pelas pedras que calçam a cidade, não riscam já chispas de eléctrico ouro as mãos dos cavalos, a bordo de que defuntos capitães reviveriam o corso dos saques, o terror dos conventos, a devoção capelista das malcasadas e os versos de cordel a prègar na feira do santo.

Alteram as massas meteorológicas os estados espirituosos. Flui bem a aguadilha dos suores, nem todos frios. Ressuma o sarro interdigital dos pés amorteirados de vianda e ossos porosos da perfuração porcívora. Ladram os altifalantes a espúria euforia emigratória. E cães de ninguém tossem esganas e espinhas.

Relvaram, ainda assim, uma margem pedonal. Um súbito pinheiro resina resignação contra ninguém: morto ou vivo. Rapazes de cinquenta e picos peidam-se de pêras de vinho, de arroz de frango e de aleijões de farturas. E uma espécie de ternura digestiva desce ao lugar em lugar do santo e em vez da gente.

Os meninos vão ser homens (de ouro, de lixo) mas não o sabem, não ainda. Agora sossegaram um pouco, aturdidos de química framboesa gelada e de cuspo de manga laboratorial. É tudo, como sempre, no poço-da-morte, mas em vídeo agora, dá no mesmo.

E se uma pessoa a si mesma lesma uma baba de versos, que prosaica se salvar venha, aqui ao monturo de cascas de fruta, de roídos entrecostos, de corvos churrascados, altos, numa baixeza de papéis e frestas.

Os meninos agora têm vidro, ou frio, em suas carcaças ambulatórias. A eles pertenceria o súbito pinheiro, se dele pudessem aperceber-se em retina, rotina, uso, hábito e idioma: mas o mais é altifalante, é óleo alimentar.

Lixo e ouro. Junção de vielas e transversos. O trigo subido de uma cabeça loura, a cujas faces presidem duas esmeraldas azuis: e a que subjaz uma ganga apertadora de febras, fímbrias, fiambres: alguma das filhas, irmãs mais velhas dos meninos expostos em ronda e derredor.

Toca-me de bolos uma venda de pano branco em tabuleiro de vime. A madrugada pode urdir assassínios domésticos e de alternes, mas por ora dá-se tão-só o doce urdume do sol em malvasia, isso tão português do entardenoitecer, atentos os meninos do lixo e os do ouro a seus pais e a seus versos corridos a prosa de cordel.

A fonte rotunda-se ainda, rapazelhos-clones basculam cãs prematuras e tardios telemóveis, ciganos rendem-se ao cristianismo esmoler dos pensos-rápidos, há até portugueses na ronda dos expostos. Entretanto, o santo.

Já decano, o ano emoldura-se de maravilhosos esquecimentos. Os preços, os estendais de roupa, os balões inquietos de hélio, os vinhais, os vinhedos, os trigais, os triguedos, as mulheres capelistas ante defuntos bandoleiros capitães acavalados, as cidades dos séculos XIX e XXI apenas isto, secular apenas – e apenas anual, santa embora, embora de ouro, de um lixo de meninos, irmãos todos, nós, meu santo.

16/08/2008

PODE, PODE

Viseu, 16 e 2 de Agosto de 2008



Hoje, 16, está a chover, é quase meio-dia.
Vejo daqui duas, três, quatro árvores no sábado.
Tenho de vos mostrar uma colecção nova de palavras ouvidas na tarde de há dois sábados, nesta mesma cidade, este mesmo século XXI.
Eu estava a demorar a minha brevidade ali muito perto do Café Isabelinha.
Há por ali morcegos diurnos que me interessam muito.
Quando as vozes cá dentro se misturam, é muito interessante – e eu passo um bom bocado a dar-lhes tinta.
Não sei se os gajos e as tipas do pequeno comércio marroquino e colombiano gostam dessa estapafúrdia figura do Redactor em Progresso.
Não sei nem me interessa.
A vós, espero que vos interesse saber este, mais do que uma charla, poema deles.



NÃO PODE SER UMA NOVA VIDA ANTIGA

– Botava fogo a isto tudo.
– S’ele fosse um corno bravo, ninguém se metia co’ ele.
– Quais dois lados?
– Se queres fazer uma vida com uma pessoa nova, não pode ser uma vida antiga.
– Mas qual é que tem razão, caralho?
– Tu tens uma mulher há cinco anos, é um supor.
– Ela está em casa, não estou lá pa’ ver, não dá dinheiro, não dá amor, isso é muita gente.
– Isso é ofender todo o mundo.
– Quando ’ tá bem, é tudo dele.
– Costumava ir ali àquilo, o casino.
– ’tás a ver, olha aquilo.
– Pá, deixa o homem.
– Nova Iorque é amor.
– Fica mais barato.
– ’ t’abituar mal ou o carago.
– D’ ez em dez anos.
– É um supor.
– Na cara dele.
– Olh’ aqui aquele pa’ te chamar.
– No cabo da escolta.
– Bom fim-de-semana, ’tá bem?
– Ninguém faz mal, mas vêem fazer mal a uma pomba, é o carago logo.
– Têm de deixar as novas, limpam as velhas e têm de deixar as novas.
– Oui.
– Pas de coeur, je m’emmerde.
– Vivi em Coimbra, sei o qu’ é isso.
– Se ’tivess’ aí o meu irmão, levav’ igual.
– Ya.
– E há.
– I, A.
– Dez euros e meio, carago, não foi isso qu’ eu disse, já todo fodido, posso levar fort&feio, não sou daqueles de pegar no telemóvel e começar a cortar-l’ um bocadinho.
– Um bocado do olho, tira isso.
– Não havia hipótese, tirava sempre alguma coisa.
– Oxida ao ar, uns momentos e morre.
– Acabaram com o cavalo, mas depois começaram a ressacar e veio, depois veio, não estava era ninguém pa’ pagar um copo.
– Vêm de bicicleta, não foste cobrir hoje.
– ’bração, fica bem.



Ainda está a chover, mas parece que menos. É meio-dia e 13. As árvores etc.

Alguma Sombra para Alguma Luz – conclusão (II a V)



Viseu, tarde de 13 de Agosto de 2008

II

A poesia é um artefacto que me interessa dada a lentidão
com que me oferece a equivalência do mercedes ao tubarão,
a mim que não fui nunca senão pela mão da mãe do mar.

Isto é particularmente interessante nos tempos que correm
e, ademais, nos tempos que morrem.

Eu sei falar de sombras como um perito preto.
Tive um amigo de bom coração que vivia de pastelaria congelada,
isso já me aconteceu e eu não vou tirar desforço.

Eu agora sei falar e nada tenho de particular
a dizer, excepto versos.
(A sombra é azul nos urinóis de mármore,
mas, também, por outro lado.)

Uma avenida por estes lados corre a mesma
irrepetível manhã
na noite de putas,
isto do colonialismo brasileiro tem
que se lhe diga.
Uma senhora tem uma amiga,

com que chaleira conversas de gatos e naperons
que tossem virgens-de-fátima e padres-cruzes
(canhoto),
fecha-se a água e desligam-se as luzes.

A poesia é uma arte que me interessa de facto.



III

Todos nós temos alguma responsabilidade
na memória de ouro dos laranjais, algures antes

na vida. Eu tenho as minhas ínsuas tangerineiras,
corria para morrer perto um rio, além-verde

nos anos que me responsabilizam
antes vós, por voz.

Nunca fui muito de mais não ser do que isto.
Havia as vizinhas, o cheiro a comida das casas,

as nespereiras enferrujando pepitas ácidas,
os cães aguentando a eternidade devagar.

Leite e carnificina eram produtos de pai & mãe,
onde o entardecer tornava fulvos os prédios pobres.

Grécias e mármores juntavam-se fundições
celeradas no primeiro alvor de papel: "– Não leias! –"

nunca me disseram: e eu sou triste
porque dou ’inda esses poemas lentos,

eu que nunca tive um mercedes,
eu que ’inda tenho mãe mas mar não,

senão certas vezes ao entardenoitecer,
quando, sombrio, me lembro de tanta luz.



IV

A beleza das mulheres é ainda algo
que me causa repetição:

tem o seu quê de cabra, seu quê de mãe,
seu algo de chefe de repartição.

À luz da tarde, luz sua ínclita luz
a brutalidade carnal das mulheres de Portugal,

mas também seu chinelante noivado perpétuo
(essa branca viuvez) a mulher de Gervásio, a de Adérito.

Luz e sombra concorrem vida e esse outro nome
dela, isso a que um eu chama tu.



V

Mas mais que tu a vida extensa é a dor
a outros deixada em legado por tua não vida.


15/08/2008

Um Bonsai Português a 15 de Agosto

Viseu, início da tarde de 15 de Agosto de 2008



Os meus pulmões andam mais doentes, mas o meu
coração ainda é um bonsai.

Como águas nocturnas de rio, assim me brilham
escuramente os olhos, ainda.

A vida é o sítio onde nada acontece, excepto
agora, que a escrevivo.

É-me possível explodir miríades de abelhas,
apicultivar o mel triste dos candeeiros de ouro

ao traço das avenidas enegrecidas de árvores,
putas, prédios e farmácias que vigiam a dor.

Uma ida às dor-douradas lixeiras da modernidade
pode ser uma incursão olímpica de valor.

Registo o lento cão, a pomba crucial, o manso louco
que há quarenta anos trabalha na sapataria

enquanto pela milésima vez adia
a emigração de seu bonsai.

Noruegar é possível ao melancólico utente
da luz deste país comido por dentro

do cancro da idiotia ungida de fé
e de fadobol. Nada senão a deflagração de abelhas

é importante, mesmo que como no caso
seja 15 de Agosto, dia em que a minha maravilhosa

gente estúpida atulha de chinelos e cáries
os restaurantes e os palheiros do poder local.

Não viver mas escrever
é o que mais me interessa de Portugal.

Alguma Sombra para Alguma Luz - I

Viseu, tarde de 13 de Agosto de 2008




Para a minha muito querida Amiga
Lucínia Baptista Azambuja,
que está doente.




I

A tua sombra habita já a terra,
deitada amante que a teu corpo aguarda.

Entre o teu corpo e a sombra a que ele pertence,
há um amor que se alimenta de invencível luz.

O alto sol branco a vós três desenha escuramente,
corpo, sombra e isso a que chamas eu.

Nenhum corpo deixa, à luz, de batalhar nas sombras,
suas luas tarjadas de preto e de cometas.

Quantas vezes isto a que chamo eu foi, fui,
treva travada em equinocial drama

de luz a mais outonal a pleno junho
– e sol e sacrifício e solstício?

Tantas vezes, vozes tontas. Drama colectivo e humaníssimo,
drama do pintor ante suas cinzas de color idas.

E sempre vindas, a sombra pelo chão derramada,
tanta pretidão oculta em branco, o sol alto.

A tua sombra como se uma mulher te falasse
ao ouvido tecnicamente: trabalho de músicas

urdindo os anticristos do silêncio, lá onde a
gonorreia e a fome e as agências de viagens.

E as de virgens, ao sol, num botequim
esconso como o coração, o sol todo de repente na rua.

O sol de repente todo na lua, subindo a montanha
a escalão de chuva, o gosto maior da morte na boca.

E a língua toda louca, entre sombra e corpo,
o homem pequenino comprando flores e rebuçados,

a enorme quarta-feira da eternidade, a cosmogonia genital
das mulheres, o transístor pasodoblando janelas cristaleiras.

E os bancos de pedra sob a tabuleta de telefone e selos,
na aldeia íntima do coração, num país sombrio

e solar como um susto de criança ante o poder
do pai, a vilegiatura da mãe e os limoeiros

que tossem ouro citrino contra o azul invencível
de que se alimentam corpo, sombra e eus e deus.

Cosmos e agonia – e rebuçados e flores – tudo
baba sua aranha negra, sua branca sombra de pomba e escombro.

Uma tarja verde oficializa o morto vegetal,
esse que transportamos em cafés e cigarros.

Convocas de pés no chão como mãos caídas
a humidade solar e terratenente do futuro, agora.

Os aviões choviam no escuro patrioticamente
a fundamental incompreensão da batalha. Era o idioma

nascendo seus cogumelos maus em vastas praias
como os sonhos e as mortes das mães.

E as coisas de que se outonam os versos
– e as pequeninas alegrias do sexo e dos rios,

quando as andorinhas fecham os olhos
e voam à maluca, riscos pretibrancos no céu azulealuz.

Esse tempo de árvores fruteiras que perdemos
na infância, lá onde a última cal e a primeira sombra.

A natureza alimentícia das casas pelo chão,
onde os cães botaram mãos de pintura e mijos.

A natureza mortal da beleza, isso a que a cada eu
ensina o tu demasiado vasto do que se perde

mais nascendo do que morrendo. E a ternura de prata
feita talher que alguma mãe guarda contra a perda

e contra os retratos, na linha de sombra que
deita olheiras ao sol. Assim de repente, assim

claramente, na noite que os outros tornam nossa
naquilo a que chamamos invencivelmente eu.

(E tudo depois
como nunca antes,

a sombra dos comedores
aos pés dos restaurantes.)

13/08/2008

Pai (obrigado, Rui)



Devo ao meu Amigo Rui Correia o conhecimento desta canção absolutamente matadora.
Chet Atkins canta para o Pai dele.
E para o nosso também, claro.

Um Poema de Antonio Gamoneda

A minha amiga Lídia já me tinha falado neste senhor, Antonio Gamoneda.
Olhai que maravilha:


******


Ha de llover
Hay sequía en la luz y la ceniza llora,
como mi madre, sin lágrimas.
Ha de llover.
Ha de llover hasta que se levanten los maíces sagrados y sea posible la
celebración de la muerte.
Ha de llover.
¿Por qué no? ¿ Por qué no ha de llover
en la tiniebla intestinal y en las hirvientes médulas?
Ha de llover
en los niños frenéticos y en los adoradores nocturnos
y en los ancianos extraviados en la música.
Ha de llover
en el aire poblado de ausentes y en la felicidad ensangrentada.
Ha de llover sobre esta piedra enferma
donde, en la noche, cunde un resplandor
procedente de astros inservibles.
Ha de llover. Tiene que llover con dulzura
sobre los suicidas del amanecer.
Ha de llover
en la superficie cristianizada por la industria. Ha de llover
hasta que aúllen las alondras y,
bajo las catenarias, en Vega Magaz,
los ferroviarios se desnuden
y detengan la máquina que llora.
Ha de llover en la extremaunción
sacramentalmente perversa. Ha de llover
en el interior del hierro y en el pensamiento
de los cianóticos y
de los niños prematuros.
Ha de llover
sobre las secretarias parturientas,
sobre los tísicos y los asesinos,
sobre los comandantes y las monjas.
Ha de llover en los prostíbulos
y en los ministerios incomprensibles
y en las fístulas eternas. Sí,
ha de llover. Y las serpientes
aprenderán a silbar con dulzura
unas seiscientas melodías olvidadas. Son
reconocibles por su olor a sombra
y a sustancia inguinal. Dichas serpientes
han de silbar en las cajas de ahorro
y en los urinarios y en las tumbas.
Ha de llover. Hoy es martes
de salvación. Hoy resucitan
los fusilados de Villamañán.
Ha de llover en las grandes letrinas
notariales hasta que aparezcan los títulos
de propiedad de la luz y de la tristeza hipotecaria
y las cartas de amor de Francisco Franco.
Ha de llover, ha de llover dulcemente, sobre las niñas que abortan
en octubre y
sobre los padres invisibles.
Ha de llover en la agonía de Jorge Pedrero
y sobre los visitantes clandestinos.
Ha de llover. Causa analógica:
se sabe que los agonizantes son felices
rodeados de llanto.
Ha de llover,
ha de llover sobre los huesos de Felipe Segundo
y de los Caídos por Dios y por España.
Agua para los prostáticos
y su dolor universal, agua también
para los sifilíticos y los curas.
Agua para los Borbones,
y para los mendigos y las mujeres desnudas
que gritaron los gritos amarillos
de mil novecientos treinta y seis.
Ha de llover.
Ha de llover en los pantanos
rebosantes (se dice) de fascismo y de
melancolía azul. Han de existir
poderosas razones ecuménicas
para que llueva en los pantanos. Ha
de ser físicamente necesario a causa
de la prosperidad del incesto y de los cuchillos
olvidados en las iglesias. Ha
de llover.
Ha de llover, sí, pero no han de olvidarse
los manantiales del odio ni las acequias
secretas de los monasterios ni
la humedad de las sociedades anónimas.
Ha de llover jamás y siempre. Con
desesperación agraria. Ha de llover
hasta que enloquezcan los metales
y el sílice y las inmensas madres
del Barrio de la Sal.
Ha de llover.
Ha de llover ya.
¿Está lloviendo?
Sí, está lloviendo. Las madres,
bajo la lluvia, van
al penal incesante. Son blancas y locas,
llevan fuego y amor.
Ah de la lluvia,
ah del amor, ah del fuego.
Llueve
en mi pasado y en mis venas. Va a llover
también en mi desaparición.
Ah de la lluvia
sobre las madres locas. Ya arde, bajo el agua,
San Marcos con amor, ya están ardiendo
dulcemente los juicios sumarísimos.
Ah de la lluvia.


Antonio Gamoneda

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Fonte: http://lafogonera.blogspot.com/

Canzoada Assaltante