Emanações.
Luzes sombrias, se me permitis a tolice.
Vós, ambas. Vozes, ambas.
Quem me encontre o caderno, vo-lo entregue,
por favor.
Meninas maravilhosas: rosas.
Atingi uma densidade. Uma espessura atingi.
Sou feliz no meu estrume: sempre fui.
Mal vos tive, tanto bem vos quero.
Quando digo
"Emanações"
(primeiro verso),
digo-vos.
Digo: linda gente que se me emanou,
vós.
Voz.
Por isso falo,
Falo.
Papá: meu nome melhor.
Pombal, 7 de Novembro de 2004
25/06/2005
Falácia
Falácia significa engano. Pior: engano matreiro, ardiloso, sacana.
Mas também significa Portugal. As sete dezenas de afogados da ponte sobre o Douro, em Castelo de Paiva, provam-no sem apelo e com agravo.
Não estamos nada, afinal, no primeiro pelotão da corrida europeia. De nada nos valem telemóveis, expos, capitais da cultura e circos afins. Somos, verdadeiramente, o país das pontes descalças, dos mortos inocentes, dos pobres de espírito que esperaram 48 anos por uma democracia em que vão deixando de votar.
O que caiu ao rio Douro não foi tão-só um cacho de vidas que cometeram o dislate de ir ver amendoeiras em flor. O que se perdeu no negro das águas foi o engano. Agora, podemos saber quem somos: um povo de afogados. Que ao menos disso ninguém se demita.
(Uma semana depois, quase tudo na mesma. A morte, que é a morte, já colheu os seus frutos vivos. A vida, que é sempre vida, chora nas margens, mergulha na corrente, explica-se na televisão, nomeia comissões de perguntadores para uma resposta que já estava dada há muito tempo.)
Aveiro, Março de 2001
Mas também significa Portugal. As sete dezenas de afogados da ponte sobre o Douro, em Castelo de Paiva, provam-no sem apelo e com agravo.
Não estamos nada, afinal, no primeiro pelotão da corrida europeia. De nada nos valem telemóveis, expos, capitais da cultura e circos afins. Somos, verdadeiramente, o país das pontes descalças, dos mortos inocentes, dos pobres de espírito que esperaram 48 anos por uma democracia em que vão deixando de votar.
O que caiu ao rio Douro não foi tão-só um cacho de vidas que cometeram o dislate de ir ver amendoeiras em flor. O que se perdeu no negro das águas foi o engano. Agora, podemos saber quem somos: um povo de afogados. Que ao menos disso ninguém se demita.
(Uma semana depois, quase tudo na mesma. A morte, que é a morte, já colheu os seus frutos vivos. A vida, que é sempre vida, chora nas margens, mergulha na corrente, explica-se na televisão, nomeia comissões de perguntadores para uma resposta que já estava dada há muito tempo.)
Aveiro, Março de 2001
Duche
Esta crónica não é para ser lida por pessoas que não tomam banho. É para as outras.
O momento do duche é estranho. É como as mulheres: bom, mas estranho. No duche, acontece-me sempre pensar (a todo o vapor) na magia que é ter um corpo e ser, ao mesmo tempo, esse corpo. Ou seja: cada um de nós é, tem e é tido por uma realidade física que é "eu" e "outro" simultaneamente.
No duche, olho para baixo e verifico a continuidade de tudo aquilo que me constitui: os pés proletários, os joelhos levadiços, a barriga pneumática, o peitoral tabágico. Passo e repasso uma pátina de sabão por todas estas peças, mas em mim demora-se a má consciência de não dar às costas, por me ser impossível, o tratamento devido.
Enquanto me envolvo na toalha, compreendo que as religiões dêem mais valor à alma do que ao corpo. Porque, convenhamos, é assustadora a hipótese de que, morrendo o corpo, tudo se acabe. Infelizmente, é o que penso: acabando o corpo, acaba-se a história. O único além, para mim, é o que aparece no espelho. Sepultado ou incinerado, o corpo devolve a matéria ao mundo, para que o mundo reorganize pedras, plantas, ribeiros, passaritos, caracóis.
Isto não é forçosamente triste: é apenas assim.
Mas se o leitor tiver medo de tudo isto, resta-lhe sempre a possibilidade de não tomar banho. Pode ser que resulte.
O momento do duche é estranho. É como as mulheres: bom, mas estranho. No duche, acontece-me sempre pensar (a todo o vapor) na magia que é ter um corpo e ser, ao mesmo tempo, esse corpo. Ou seja: cada um de nós é, tem e é tido por uma realidade física que é "eu" e "outro" simultaneamente.
No duche, olho para baixo e verifico a continuidade de tudo aquilo que me constitui: os pés proletários, os joelhos levadiços, a barriga pneumática, o peitoral tabágico. Passo e repasso uma pátina de sabão por todas estas peças, mas em mim demora-se a má consciência de não dar às costas, por me ser impossível, o tratamento devido.
Enquanto me envolvo na toalha, compreendo que as religiões dêem mais valor à alma do que ao corpo. Porque, convenhamos, é assustadora a hipótese de que, morrendo o corpo, tudo se acabe. Infelizmente, é o que penso: acabando o corpo, acaba-se a história. O único além, para mim, é o que aparece no espelho. Sepultado ou incinerado, o corpo devolve a matéria ao mundo, para que o mundo reorganize pedras, plantas, ribeiros, passaritos, caracóis.
Isto não é forçosamente triste: é apenas assim.
Mas se o leitor tiver medo de tudo isto, resta-lhe sempre a possibilidade de não tomar banho. Pode ser que resulte.
Porco em Bruxelas
Um dia come-se carne de porco no pão.
Outro dia procura-se que se não saiba o quanto
nos faltou ter ido a Paris.
Eu fui a Bruxelas.
Comi lá bifanas.
Pombal, madrugada de 8 de Janeiro de 2005 (27 anos do Carlitos)
Outro dia procura-se que se não saiba o quanto
nos faltou ter ido a Paris.
Eu fui a Bruxelas.
Comi lá bifanas.
Pombal, madrugada de 8 de Janeiro de 2005 (27 anos do Carlitos)
A Cara
A cara tem uma altura de árvore, a cara deste homem.
Vê-se sempre uma árvore pela cara.
Nem todos os homens, não como este.
Este vê-se pela árvore.
Vê-se o homem logo todo.
Suas mãos à altura da copa,
seu tronco ondulado,
o nó do coração ramificando as seivas:
o sangue,
o leite,
o suor,
a saliva,
a palavra visitada pela raiz.
Ele um dia volta à terra.
Pombal, 7 de Janeiro de 2005
Vê-se sempre uma árvore pela cara.
Nem todos os homens, não como este.
Este vê-se pela árvore.
Vê-se o homem logo todo.
Suas mãos à altura da copa,
seu tronco ondulado,
o nó do coração ramificando as seivas:
o sangue,
o leite,
o suor,
a saliva,
a palavra visitada pela raiz.
Ele um dia volta à terra.
Pombal, 7 de Janeiro de 2005
24/06/2005
Um poema de Reinaldo Ferreira (Filho)
Reinaldo Ferreira, o poeta falecido em Moçambique a 30 de Junho de 1959, com apenas 37 anos de idade, era filho do célebre Repórter X, de igual nome.
É ele o autor dos célebres versos depois cantados Por Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira e Zeca Medeiros:
Menina dos olhos tristes,
O que tanto a faz chorar?
- O soldadinho não volta
do outro lado do mar
Premonitórios versos, escritos a tão poucos anos da eclosão da(s) guerra(s) colonial (is).
Também escreveu, em parceria com Vasco Matos Sequeira e o compositor Artur Fonseca, canções e quadros para a revista ("É uma casa portuguesa/Com certeza...").
Mas o que fica aqui é um poema relembrado hoje (24 de Junho de 2005) por C.P. Coelho no diário 'A Capital'. Este poema:
Mínimo sou.
Mas quando ao Nada empresto
A minha elementar realidade,
O Nada é só o resto.
É ele o autor dos célebres versos depois cantados Por Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira e Zeca Medeiros:
Menina dos olhos tristes,
O que tanto a faz chorar?
- O soldadinho não volta
do outro lado do mar
Premonitórios versos, escritos a tão poucos anos da eclosão da(s) guerra(s) colonial (is).
Também escreveu, em parceria com Vasco Matos Sequeira e o compositor Artur Fonseca, canções e quadros para a revista ("É uma casa portuguesa/Com certeza...").
Mas o que fica aqui é um poema relembrado hoje (24 de Junho de 2005) por C.P. Coelho no diário 'A Capital'. Este poema:
Mínimo sou.
Mas quando ao Nada empresto
A minha elementar realidade,
O Nada é só o resto.
23/06/2005
Imitação da Rosa
Imitação da Rosa
O vento frio parece querer entrar corpo adentro para congelar os órgãos em seus postos de trabalho.
É o que sinto rua afora, couraçado de lã dos pés ao pescoço.
As mãos, enterradas em malha, ronronam de calor, entretanto.
É uma manhã clara como uma fotografia nova.
A luz dirige-se para o mar como uma matinal senhora a caminho da confeitaria.
Os prédios resistem às vergastadas do vento. Este vento nasceu de noite, ontem. Andou pelas ruas desertas. Uivou nos cabos de alta tensão, frapejou a roupa estendida nas cordas dos apartamentos onde divorciados, estudantes e empregados de mesa adormecem pensando nas mulheres improváveis que nenhuma segunda-feira lhes há-de trazer. Não de mão-beijada, pelo menos. Como o vento, cada um há-de persistir, uivar, empurrar para o oceano a luz rica e fria.
Mas isto é hoje.
Ontem, domingo, fui com Estela Seminário visitar a rosa. Deverei dizer A Rosa? Sim: A Rosa. Uma parte do cemitério é roseiral. Não há mármores, datas ou nomes. Só há rosas. É ali que as viúvas dos cremados fazem das cinzas últimas o adubo orgânico com que os maridos se volvem rosas. E eles volvem-se, gratos pelo vento que lhes traz o aroma da foz, lá onde o rio entrega ao mar a cansada água doce que a montanha deu à luz, lá muito longe. Nascer e morrer com uma rosa a fazer de intervalo: eu percebi a mensagem.
Estela verteu uma lágrima suave enquanto redescobria A Rosa que era dela, a que ele era agora, semeada por ela a partir dele: não já o defunto, mas ele vivo de outra maneira, todo despenteado de pétalas carnudas, todo eriçado de mansos espinhos, concentrado todo na tarefa de renascer das cinzas para ela.
Afastei-me um pouco, falsamente atento ao Atlântico fluvial da vista. Olhei as outras rosas: uma multidão rubra de outra gente. Tinham alcançado a graça de não precisar de nome. Eram e seriam rosas. Domingo, segunda-feira: rosas sempre – a eternidade encarnada, vertical de pé verde, macerada de azul e branco e castanho.
Esperei Estela Seminário à porta do campo santo. Fumei no exterior, calcei a luva esquerda, esperei sem pressa nem sentimentos. Amanhã seria segunda-feira, dia-roleta de regressos negro-vermelhos, a bolinha económica a trepidar nas calhas da sorte entretendo a razão.
Estela veio, saciada de domingo. Nunca se engana de rosa, pelo que pude concluir que a memória não é um ofício de historiador mas de florista.
Jantámos devagar num restaurante equipado da tristeza crepuscular dos domingos. Quase não falámos. Ela aceitou um copo de vinho quente, eu bebi água. Era uma boa casa: não tinha tv. De uma aparelhagem oculta surdia um samba lento dotado da mesma qualidade memorial de Estela: a alta fidelidade.
Ao café, estendi-lhe a minha palma esquerda, agora descalça de luva e ferroviada das linhas do destino. Ela tomou-a com a esquerda dela, diagonando meio X sobre a toalha de pano aos quadrados vermelhos e brancos: um empate técnico. Sorriu, alheia: uma missa de corpo presente, pela Rosa ainda.
Respeitei-os. Eu respeito muito bem desde a manhã remota em que se me tornou presente a evidência de que chegar atrasado é uma espécie de vocação.
Conduziu-me a casa. Por pura auto-misericórdia, chamo casa ao meu quarto-com-cozinha-e-chuveiro. Falámos de futebol e de móveis. Alguma coisa tem de ser dita nos regressos. Ainda lhe ofereci que subisse para uma chávena de café solúvel. Nem esperei a delicada declinação. Beijei-lhe a face. Ficou-me no lábio inferior uma poalha de pólen inconfundível: A Rosa vigiava.
Depois, atravessei a noite a voar e tudo se tornou segunda-feira, dia de órgãos congelados, à excepção talvez do coração, essa coisa com que o corpo imita a rosa.
Porto e Leça da Palmeira, 28 de Fevereiro de 2005
O vento frio parece querer entrar corpo adentro para congelar os órgãos em seus postos de trabalho.
É o que sinto rua afora, couraçado de lã dos pés ao pescoço.
As mãos, enterradas em malha, ronronam de calor, entretanto.
É uma manhã clara como uma fotografia nova.
A luz dirige-se para o mar como uma matinal senhora a caminho da confeitaria.
Os prédios resistem às vergastadas do vento. Este vento nasceu de noite, ontem. Andou pelas ruas desertas. Uivou nos cabos de alta tensão, frapejou a roupa estendida nas cordas dos apartamentos onde divorciados, estudantes e empregados de mesa adormecem pensando nas mulheres improváveis que nenhuma segunda-feira lhes há-de trazer. Não de mão-beijada, pelo menos. Como o vento, cada um há-de persistir, uivar, empurrar para o oceano a luz rica e fria.
Mas isto é hoje.
Ontem, domingo, fui com Estela Seminário visitar a rosa. Deverei dizer A Rosa? Sim: A Rosa. Uma parte do cemitério é roseiral. Não há mármores, datas ou nomes. Só há rosas. É ali que as viúvas dos cremados fazem das cinzas últimas o adubo orgânico com que os maridos se volvem rosas. E eles volvem-se, gratos pelo vento que lhes traz o aroma da foz, lá onde o rio entrega ao mar a cansada água doce que a montanha deu à luz, lá muito longe. Nascer e morrer com uma rosa a fazer de intervalo: eu percebi a mensagem.
Estela verteu uma lágrima suave enquanto redescobria A Rosa que era dela, a que ele era agora, semeada por ela a partir dele: não já o defunto, mas ele vivo de outra maneira, todo despenteado de pétalas carnudas, todo eriçado de mansos espinhos, concentrado todo na tarefa de renascer das cinzas para ela.
Afastei-me um pouco, falsamente atento ao Atlântico fluvial da vista. Olhei as outras rosas: uma multidão rubra de outra gente. Tinham alcançado a graça de não precisar de nome. Eram e seriam rosas. Domingo, segunda-feira: rosas sempre – a eternidade encarnada, vertical de pé verde, macerada de azul e branco e castanho.
Esperei Estela Seminário à porta do campo santo. Fumei no exterior, calcei a luva esquerda, esperei sem pressa nem sentimentos. Amanhã seria segunda-feira, dia-roleta de regressos negro-vermelhos, a bolinha económica a trepidar nas calhas da sorte entretendo a razão.
Estela veio, saciada de domingo. Nunca se engana de rosa, pelo que pude concluir que a memória não é um ofício de historiador mas de florista.
Jantámos devagar num restaurante equipado da tristeza crepuscular dos domingos. Quase não falámos. Ela aceitou um copo de vinho quente, eu bebi água. Era uma boa casa: não tinha tv. De uma aparelhagem oculta surdia um samba lento dotado da mesma qualidade memorial de Estela: a alta fidelidade.
Ao café, estendi-lhe a minha palma esquerda, agora descalça de luva e ferroviada das linhas do destino. Ela tomou-a com a esquerda dela, diagonando meio X sobre a toalha de pano aos quadrados vermelhos e brancos: um empate técnico. Sorriu, alheia: uma missa de corpo presente, pela Rosa ainda.
Respeitei-os. Eu respeito muito bem desde a manhã remota em que se me tornou presente a evidência de que chegar atrasado é uma espécie de vocação.
Conduziu-me a casa. Por pura auto-misericórdia, chamo casa ao meu quarto-com-cozinha-e-chuveiro. Falámos de futebol e de móveis. Alguma coisa tem de ser dita nos regressos. Ainda lhe ofereci que subisse para uma chávena de café solúvel. Nem esperei a delicada declinação. Beijei-lhe a face. Ficou-me no lábio inferior uma poalha de pólen inconfundível: A Rosa vigiava.
Depois, atravessei a noite a voar e tudo se tornou segunda-feira, dia de órgãos congelados, à excepção talvez do coração, essa coisa com que o corpo imita a rosa.
Porto e Leça da Palmeira, 28 de Fevereiro de 2005
Meeting J.B. Priestley
The ones who have the good fortune of understanding written English ought to meet this wonderful writer: J. B. Priestley (1894-1984). That's all, folks.
Tondela, June 23 2005
Tondela, June 23 2005
Mais Notas Marginais para Pintar
Uma força levanta a imaginação da força.
A palavra força e a palavra corça e a palavra forca.
Um pónei morto num baldio de ciganos.
Um pónei vivo perto do pónei morto: irmãos?
Vinho do porto e sangue: descobrir as diferenças.
As coisas, é sozinho.
Uma estrada nocturna, a lua nos pinheiros, a música de cassete, o ronronar do carro, a sucessão de estações de serviço, a promessa do mar na eternidade.
Nem o rancor é importante: escolher a cor para rancor.
O peito do homem e a quilha do navio: não cobrir as diferenças.
Pombal, 28 de Junho de 2004
A palavra força e a palavra corça e a palavra forca.
Um pónei morto num baldio de ciganos.
Um pónei vivo perto do pónei morto: irmãos?
Vinho do porto e sangue: descobrir as diferenças.
As coisas, é sozinho.
Uma estrada nocturna, a lua nos pinheiros, a música de cassete, o ronronar do carro, a sucessão de estações de serviço, a promessa do mar na eternidade.
Nem o rancor é importante: escolher a cor para rancor.
O peito do homem e a quilha do navio: não cobrir as diferenças.
Pombal, 28 de Junho de 2004
Notas Marginais para Pintar
Qualquer solução económica é válida, desde que não implique o penhor do coração.
Talvez devesse ter sido pintor. E foi-o, mas de paredes. De quadros, não. Sem mensagem, sem técnica, não empenhou o coração em borrões.
O corpo tem possibilidades. Tem de ser corpo, por isso pode ser corpo. Pode ser um rio, embora viva na margem. Pode fazer isso com a imaginação, criando imagens. O corpo pode criar-se.
Magia brilhante na noite: no quarto escuro, deitado, só, o corpo fotografa o que mora para lá, criação de cá.
A sociedade não tem sócios voluntários, só municipais.
Nascer não é de vontade.
Cão de ouro e nácar. Presença do cão. Raciocínios gestuais do animal. Linguagem orgânica (organizada) dele. Sons dele. Cheiro dele.
Citar, recitar, excitar, concitar: estar.
Nomes dos objectos: quaisquer nomes, quaisquer objectos – não enlouquecer.
Saber cedo de mais é perder para sempre?
A cabeça do homem envelhecido é bela: a beleza é jovem, apesar do portador.
O amor torna-se Japão: atraente e longe, ou uma coisa porque outra.
Cada um sabe.
Trabalho na obra. Trabalho nas obras. Singular, plural. Trabalho só. Trabalho, só.
Nunca entreguei. Não é possível entregar?
Nos meses portugueses sem R se apanha e come o caracol.
Alma, não. Lama, sim. Mesmas letras, outra ordem e outra desordem. Isto importa.
Ainda. Ainda assim.
O escritor é parido pelo leitor. É filho dele. O filho ensina o pai a revisitar o sabido.
Não esquecer os números. Contá-los como se conta uma história.
Ainda há tempo.
Um quarto para dormir e morrer. Uma cozinha. Uma latrina. Uma sala para pintarscrever. Tudo o que é preciso.
O lume e o gato: calor por calor, nada contra nada.
Balões: cor, ar, calor: partilha de letras pinceláveis.
A minha força, a minha dissipação: sangue, leite, água: a minha vida: tinta.
Só os animais são sexuais. Os humanos são eróticos, quando podem.
Pombal, 24 de Junho de 2004
Talvez devesse ter sido pintor. E foi-o, mas de paredes. De quadros, não. Sem mensagem, sem técnica, não empenhou o coração em borrões.
O corpo tem possibilidades. Tem de ser corpo, por isso pode ser corpo. Pode ser um rio, embora viva na margem. Pode fazer isso com a imaginação, criando imagens. O corpo pode criar-se.
Magia brilhante na noite: no quarto escuro, deitado, só, o corpo fotografa o que mora para lá, criação de cá.
A sociedade não tem sócios voluntários, só municipais.
Nascer não é de vontade.
Cão de ouro e nácar. Presença do cão. Raciocínios gestuais do animal. Linguagem orgânica (organizada) dele. Sons dele. Cheiro dele.
Citar, recitar, excitar, concitar: estar.
Nomes dos objectos: quaisquer nomes, quaisquer objectos – não enlouquecer.
Saber cedo de mais é perder para sempre?
A cabeça do homem envelhecido é bela: a beleza é jovem, apesar do portador.
O amor torna-se Japão: atraente e longe, ou uma coisa porque outra.
Cada um sabe.
Trabalho na obra. Trabalho nas obras. Singular, plural. Trabalho só. Trabalho, só.
Nunca entreguei. Não é possível entregar?
Nos meses portugueses sem R se apanha e come o caracol.
Alma, não. Lama, sim. Mesmas letras, outra ordem e outra desordem. Isto importa.
Ainda. Ainda assim.
O escritor é parido pelo leitor. É filho dele. O filho ensina o pai a revisitar o sabido.
Não esquecer os números. Contá-los como se conta uma história.
Ainda há tempo.
Um quarto para dormir e morrer. Uma cozinha. Uma latrina. Uma sala para pintarscrever. Tudo o que é preciso.
O lume e o gato: calor por calor, nada contra nada.
Balões: cor, ar, calor: partilha de letras pinceláveis.
A minha força, a minha dissipação: sangue, leite, água: a minha vida: tinta.
Só os animais são sexuais. Os humanos são eróticos, quando podem.
Pombal, 24 de Junho de 2004
Três ais bem contados
Ai a tarde vasta pela noite dentro
Rio de sol mar lunar adentro
As casas mortas de sono
Fartas de ouro as pobres
Os caracóis escondidos no húmus dos jardins secos
Os pássaros fritos em pleno voo
Ai Junho rico de espigados dias
Mês de suados ventres
Iças um mar de vapor aos olhos
Pintas a boca de sólido mel
E deslumbras as mãos de cansaço antecipado
Eu gosto de ti e mais és só um mês
Que faria se fosses uma pessoa
Uma que eu visse uma vez por ano
Uma de que me perdesse outros onze
Ai não és
Rio de sol mar lunar adentro
As casas mortas de sono
Fartas de ouro as pobres
Os caracóis escondidos no húmus dos jardins secos
Os pássaros fritos em pleno voo
Ai Junho rico de espigados dias
Mês de suados ventres
Iças um mar de vapor aos olhos
Pintas a boca de sólido mel
E deslumbras as mãos de cansaço antecipado
Eu gosto de ti e mais és só um mês
Que faria se fosses uma pessoa
Uma que eu visse uma vez por ano
Uma de que me perdesse outros onze
Ai não és
22/06/2005
Luxuriosa - soneto hermínio
Luxuri'rosa de luxo
Cabeça de rubro olhar
Rubra carnuda te acho
De pé elegante no ar
Ó flor forte e parideira
Luxuosa esbraseada
Uma da plural roseira
Mais colhida que olhada
Ligação da terra ao céu
Ó mãe nua rosa ao léu
Tão violento carmim
Roxa rosa sanguínea
Minha mãe chama-se Hermínia
Foi dessa rosa que vim
Cabeça de rubro olhar
Rubra carnuda te acho
De pé elegante no ar
Ó flor forte e parideira
Luxuosa esbraseada
Uma da plural roseira
Mais colhida que olhada
Ligação da terra ao céu
Ó mãe nua rosa ao léu
Tão violento carmim
Roxa rosa sanguínea
Minha mãe chama-se Hermínia
Foi dessa rosa que vim
De cabeça
O despertador, pontual, desatarraxou a cabeça do deitado às sete e 45 da manhã.
A cabeça, sem abrir os olhos, subiu ao candeeiro.
Aí, abriu os olhos para assistir do tecto ao espectáculo do corpo decapitado
que
imitava sem querer uma mola da roupa:
as pernas separadas,
as costelas unidas pelo arame do coração,
o forte azul da respiração.
Depois a cabeça desceu
e
atarraxou-se sozinha ao casquilho do pescoço.
Levantei-me,
verifiquei a ordem dos objectos do quarto,
compus a pilha de discos por ameaçar ruína (a pilha),
dei um pontapé descalço na peúga de ontem,
rugi um bocejo igual ao do leão do cinema
e
viajei até ao lavatório,
onde
grunhi água de sabão,
contei os dentes,
raspei a barba
e
descobri o mesmo outro de sempre com mais uma noite.
Banhei-me na cascata domesticada.
Emigrei para a cozinha,
onde
me pasteurizei de leite e bolachas.
Saí para dentro do animal quente da tanta luz de Junho.
Tondela, 22 de Junho de 2005
A cabeça, sem abrir os olhos, subiu ao candeeiro.
Aí, abriu os olhos para assistir do tecto ao espectáculo do corpo decapitado
que
imitava sem querer uma mola da roupa:
as pernas separadas,
as costelas unidas pelo arame do coração,
o forte azul da respiração.
Depois a cabeça desceu
e
atarraxou-se sozinha ao casquilho do pescoço.
Levantei-me,
verifiquei a ordem dos objectos do quarto,
compus a pilha de discos por ameaçar ruína (a pilha),
dei um pontapé descalço na peúga de ontem,
rugi um bocejo igual ao do leão do cinema
e
viajei até ao lavatório,
onde
grunhi água de sabão,
contei os dentes,
raspei a barba
e
descobri o mesmo outro de sempre com mais uma noite.
Banhei-me na cascata domesticada.
Emigrei para a cozinha,
onde
me pasteurizei de leite e bolachas.
Saí para dentro do animal quente da tanta luz de Junho.
Tondela, 22 de Junho de 2005
Dalton
Este país é
o do mar azul-marinho
o do rio violeta
o do sol branco
o da areia clara
o das mães transparentes
o dos homens sombrios
o dos cães castanhos
o dos gatos dourados
o dos olhos cor-de-lixo
o dos amores de cor
o das almas de talha dourada
o dos corpos cor-de-chaga-de-cristo
o das procissões cor-de-foguete
o das filarmónicas cor-de-polícia
o dos táxis cor-de-fascismo
o dos filhos azuis
o das filhas rosas
o dos sonhos cor-de-paroxetina
o das casas cor-de-giz
o da cal cor-de-casas
o das chuvas cor-de-cães
o da tristeza cor-do-ouro-do-brasil
o das motorizadas cor-de-burros-fugindo
o do presente cor-de-século
o da História-cor-de-bolor
o das feiras cor-de-farturas
o das caravelas cor-de-noz-moscada
o dos poetas cor-de-pé-quebrado
o da esmola cor-de-europa
Mas este país é daltónico
Logo
Este país não é
Tondela, 21 de Junho de 2005
o do mar azul-marinho
o do rio violeta
o do sol branco
o da areia clara
o das mães transparentes
o dos homens sombrios
o dos cães castanhos
o dos gatos dourados
o dos olhos cor-de-lixo
o dos amores de cor
o das almas de talha dourada
o dos corpos cor-de-chaga-de-cristo
o das procissões cor-de-foguete
o das filarmónicas cor-de-polícia
o dos táxis cor-de-fascismo
o dos filhos azuis
o das filhas rosas
o dos sonhos cor-de-paroxetina
o das casas cor-de-giz
o da cal cor-de-casas
o das chuvas cor-de-cães
o da tristeza cor-do-ouro-do-brasil
o das motorizadas cor-de-burros-fugindo
o do presente cor-de-século
o da História-cor-de-bolor
o das feiras cor-de-farturas
o das caravelas cor-de-noz-moscada
o dos poetas cor-de-pé-quebrado
o da esmola cor-de-europa
Mas este país é daltónico
Logo
Este país não é
Tondela, 21 de Junho de 2005
20/06/2005
Dois versos de Ruy Belo para mariademorais
"Não costumo por norma dizer o que sinto
Mas aproveitar o que sinto para dizer alguma coisa"
Mas aproveitar o que sinto para dizer alguma coisa"
19/06/2005
Carta de Janeiro Áspero a Rui & Lina antecedida de declaração
Declaração
Entre as 23 horas do dia 5 de Fevereiro de 2005 e a hora de almoço do dia 18 seguinte, estive internado no Pavilhão 3 (Alcoologia) do Hospital Psiquiátrico de Sobral Cid, em Coimbra. Antes disso, tinha recebido uma carta de Rui & Lina, uma firma matrimonial oficializada notarialmente a 11 de Setembro de 1999, perto de Alcobaça.
Segue-se a minha carta de resposta a essa firma, documento que, a par do teor de uma conversa telefónica (rede fixa) por mim mantida com um senhor chamado António Fernando (que mora em Leça da Palmeira), me determinaram o sobredito internamento.
Uma Carta no Inverno
(1 de Fevereiro de 2005)
Recebi uma carta no Inverno. Na manhã primeira de Fevereiro, o sol pendurado no ar como um macaco hilariante, recebi uma carta. Também era luminosa, além de carta. Provinha de um amigo, que me a deve ter escrito com a esposa por cima do ombro como antigamente os papagaios e antigamente os piratas.
Trata-se de um casal amigo, este meu casal epistolar. Fui ao casamento deles. Dia 11 de Setembro de 1999, o tal ano 1999 de que tenho deixado nódoas neste caderno. Lembro-me da festa, da música, da comida colorida. Lembro-me de ter ido a esse casamento na companhia da mãe da minha filha Teresa, menina que se portou então de um modo fetalmente impecável.
Agora, recebi uma carta do noivo. Uma carta escrita para mim, cara bonita. Uma carta apenas não escrita à mão, como antigamente, mas carta ainda assim: de papel, de correio, com endereço não electrónico, cara a cara.
Pus os óculos e li-a na cama. Li metade, fui lavar a cara à casa-de-banho, onde aproveitei para saponificar as primeiras lágrimas do dia. Voltei à cama, recomecei de início, sentado na borda do precipício de flanela onde tenho dormido estes meses ínvios mas, afinal, transitados.
Decidi responder por escrito e à mão. Depois fotocopio a parte que lhes interessa e envio pelo correio. E depois as nossas vidas vão continuar.
É verdade que as filhas do homem não podem ser achadas (nem, muito menos, perdidas) no fundo do copo. “Nunca as encontrei lá”, diz o homem. Digo eu. Não se pode encontrar o que nunca se perdeu. Vê: eu sou o jardineiro. Os jardins aí estão, ao ar e à luz, emanações cada vez menos próximas da geometria primeva: flores que adolescem. Cabe-me falar-lhes, sim. Amá-las devagar, já o faço tanto. Neste momento, porém, leio e escrevo cartas ao bordo de precipícios de flanela.
Dizem que quando o pai morre, o filho se torna pai de si mesmo. É verdade. O que significa que tenho sido tão mau pai como mau filho. Mau sem ser por mal, naturalmente.
Há os domingos, por outro lado. Tenho escrito muito (ou, pelo menos, pensado muito) a propósito de domingos. São o dia do terror. Parece que A Bomba caiu na cidade. Sem pessoas, sem carros, só as casas de pé e as carochas anti-nucleares de carapaça luzente como sapatos de baile. Dias sós: dias só: dias, só.
Domingos ou não, escrevo poucos poemas, poucas canções. Fumo ao pé do rio, perfumando de água e lixo a mão na boca. Passeio bem, como um militar, de passo firme pelas vielas despovoadas. Solipsista, vejo nas paredes, ao pé dos cartazes de tauromaquia e bailes, o anúncio policial da noite que me procura, vivo ou morto, sem recompensa. Geralmente chego vivo, o que propicia alguma canção, um café morno, um penúltimo cigarro na alquimia de já ser segunda-feira.
Outras vezes, o circo vem à cidade tonitruar como um cigano bêbado. Não vou ao circo. Fui uma vez e não queriam deixar-me sair. Também já não vou ao cinema. Abro um livro com coisas do Hopper ou abro a janela: é a mesma coisa. E não, não estou a desviar-me do assunto. Vou contar uma história.
Era uma vez um domingo. Domingos são os dias que começam logo de noite. As pombas amanhecem recolhidas. Tudo emana a condição de ser véspera de ontem. Um homem cruzava a praça de táxis (ao domingo, não há táxis, não se sabe porquê). Dirigia-se ao rio. Queria fumar um cigarro à beira do rio. Chegou lá e pôs-se a fumar. Entre o lixo, pequenos peixes escreviam as letras árabes da natação. Eram peixes muito portugueses: castanhos e pequenos, olhos míopes, dominicais. Outro homem abordou o fumador. Pediu-lhe um cigarro e lume. O fumador deu. O homem agradeceu. Preparava-se para seguir a vida dele noutra direcção quando o primeiro homem desta história lhe disse assim: “Escusa de ir. Vai encontrar a mesma coisa.” O segundo homem respondeu: “Tem toda a razão, mas vou na mesma.” De modo que o homem ficou outra vez com os peixes. O cigarro que tinha dado ao outro (o mesmo) era o último. Arrefecia. Um ar fresco subia da linha de água. Nas costas do homem, comboios tonitruavam como carrinhas ciganas de circo bêbado. Aquilo era então tudo o que havia na história: um homem perde um homem.
Isto tem-me acontecido com alguma frequência. Falar de décadas quando é da dor que se fala, é falar de agora-mesmo. Perdi um irmão na morte. Depois, o pai. Tornei-me triplo ou mais: próprio irmão, próprio pai, filho de ninguém, pai de filhas que nem se conhecem mutuamente. Isto acontece. Não estou para sonegar responsabilidades, procurar culpas ou suas siamesas desculpas. Nem o perdão nem o pecado me moram ao lado. Não é por aí que vou.
Para o norte, talvez. Talvez vá para o norte. Em demanda de trabalho, sobretudo. Sei como são os domingos por lá, claro que sei: rios, fumadores, A Bomba, os circos. Interessa-me saber que segundas e quintas posso conseguir. Talvez a lua se me mostre mais feminil, menos ansiosa, mais pura. Talvez chova, finalmente, a norte da minha vida.
Claro: há a questão da claridade da vida. Tem a ver com o amor. Um homem só é só um homem, o que pode ser muito. Por isso gostei de estudar leis: a pessoa vaporiza-se, resta o indivíduo, o caso, o processo normalmente sumário: o esquecimento.
É evidente que li poesia de mais. É droga dura. Saber de João Miguel Fernandes Jorge no Café Vianna, em Braga. Lembrar-me de Ruy Belo perante a Nau dos Corvos. E quantas Lisboas há em Armando Silva Carvalho. E António Osório vertical junto à campa da mãe. E João Damasceno de pijama, fechado e hirsuto num quarto de Coimbra. E todos esses nomes fumados junto ao rio: vozes de verso, habitações macrobióticas da mania de morrer em vida, sendo domingo.
Uma vez, vinha de Santarém. Tinha lá ido ver uma mulher. No regresso, passei por S. João da Ribeira, onde nasceu em 1933 um poeta cujos livros me acompanham como cães inelutáveis. Outra vez, não fui eu a estar em Paris a recitar Mário de Sá-Carneiro junto ao hotel onde o poeta viveu ou se matou ou ambas as coisas, às vezes é o mesmo.
Sei, tão-só, que me sobram algumas coisas: canções sobretudo, o que pode ser pouco nos tempos que correm. Não é grave.
Tenho saúde, aliás. Constipações, muito poucas. Preciso de tratar alguns dentes. Fumar menos e beber (muito) menos são excelentes projectos. Ando a escrever um livro neste caderno e noutros papéis. É um livro de homem disposto a pintar. Tem o problema, aliás mínimo, de não ser pintor. Resolve o assunto com a enumeração de dias contados: certos lances, certos casamentos com comida colorida, incertas noites de motel, tudo devidamente negro e azul, meteorológico, entre o eu e o ele que nenhum tu se dispensa de ser, muito menos tu, Rui, muito menos tu, Lina.
Entre as 23 horas do dia 5 de Fevereiro de 2005 e a hora de almoço do dia 18 seguinte, estive internado no Pavilhão 3 (Alcoologia) do Hospital Psiquiátrico de Sobral Cid, em Coimbra. Antes disso, tinha recebido uma carta de Rui & Lina, uma firma matrimonial oficializada notarialmente a 11 de Setembro de 1999, perto de Alcobaça.
Segue-se a minha carta de resposta a essa firma, documento que, a par do teor de uma conversa telefónica (rede fixa) por mim mantida com um senhor chamado António Fernando (que mora em Leça da Palmeira), me determinaram o sobredito internamento.
Uma Carta no Inverno
(1 de Fevereiro de 2005)
Recebi uma carta no Inverno. Na manhã primeira de Fevereiro, o sol pendurado no ar como um macaco hilariante, recebi uma carta. Também era luminosa, além de carta. Provinha de um amigo, que me a deve ter escrito com a esposa por cima do ombro como antigamente os papagaios e antigamente os piratas.
Trata-se de um casal amigo, este meu casal epistolar. Fui ao casamento deles. Dia 11 de Setembro de 1999, o tal ano 1999 de que tenho deixado nódoas neste caderno. Lembro-me da festa, da música, da comida colorida. Lembro-me de ter ido a esse casamento na companhia da mãe da minha filha Teresa, menina que se portou então de um modo fetalmente impecável.
Agora, recebi uma carta do noivo. Uma carta escrita para mim, cara bonita. Uma carta apenas não escrita à mão, como antigamente, mas carta ainda assim: de papel, de correio, com endereço não electrónico, cara a cara.
Pus os óculos e li-a na cama. Li metade, fui lavar a cara à casa-de-banho, onde aproveitei para saponificar as primeiras lágrimas do dia. Voltei à cama, recomecei de início, sentado na borda do precipício de flanela onde tenho dormido estes meses ínvios mas, afinal, transitados.
Decidi responder por escrito e à mão. Depois fotocopio a parte que lhes interessa e envio pelo correio. E depois as nossas vidas vão continuar.
É verdade que as filhas do homem não podem ser achadas (nem, muito menos, perdidas) no fundo do copo. “Nunca as encontrei lá”, diz o homem. Digo eu. Não se pode encontrar o que nunca se perdeu. Vê: eu sou o jardineiro. Os jardins aí estão, ao ar e à luz, emanações cada vez menos próximas da geometria primeva: flores que adolescem. Cabe-me falar-lhes, sim. Amá-las devagar, já o faço tanto. Neste momento, porém, leio e escrevo cartas ao bordo de precipícios de flanela.
Dizem que quando o pai morre, o filho se torna pai de si mesmo. É verdade. O que significa que tenho sido tão mau pai como mau filho. Mau sem ser por mal, naturalmente.
Há os domingos, por outro lado. Tenho escrito muito (ou, pelo menos, pensado muito) a propósito de domingos. São o dia do terror. Parece que A Bomba caiu na cidade. Sem pessoas, sem carros, só as casas de pé e as carochas anti-nucleares de carapaça luzente como sapatos de baile. Dias sós: dias só: dias, só.
Domingos ou não, escrevo poucos poemas, poucas canções. Fumo ao pé do rio, perfumando de água e lixo a mão na boca. Passeio bem, como um militar, de passo firme pelas vielas despovoadas. Solipsista, vejo nas paredes, ao pé dos cartazes de tauromaquia e bailes, o anúncio policial da noite que me procura, vivo ou morto, sem recompensa. Geralmente chego vivo, o que propicia alguma canção, um café morno, um penúltimo cigarro na alquimia de já ser segunda-feira.
Outras vezes, o circo vem à cidade tonitruar como um cigano bêbado. Não vou ao circo. Fui uma vez e não queriam deixar-me sair. Também já não vou ao cinema. Abro um livro com coisas do Hopper ou abro a janela: é a mesma coisa. E não, não estou a desviar-me do assunto. Vou contar uma história.
Era uma vez um domingo. Domingos são os dias que começam logo de noite. As pombas amanhecem recolhidas. Tudo emana a condição de ser véspera de ontem. Um homem cruzava a praça de táxis (ao domingo, não há táxis, não se sabe porquê). Dirigia-se ao rio. Queria fumar um cigarro à beira do rio. Chegou lá e pôs-se a fumar. Entre o lixo, pequenos peixes escreviam as letras árabes da natação. Eram peixes muito portugueses: castanhos e pequenos, olhos míopes, dominicais. Outro homem abordou o fumador. Pediu-lhe um cigarro e lume. O fumador deu. O homem agradeceu. Preparava-se para seguir a vida dele noutra direcção quando o primeiro homem desta história lhe disse assim: “Escusa de ir. Vai encontrar a mesma coisa.” O segundo homem respondeu: “Tem toda a razão, mas vou na mesma.” De modo que o homem ficou outra vez com os peixes. O cigarro que tinha dado ao outro (o mesmo) era o último. Arrefecia. Um ar fresco subia da linha de água. Nas costas do homem, comboios tonitruavam como carrinhas ciganas de circo bêbado. Aquilo era então tudo o que havia na história: um homem perde um homem.
Isto tem-me acontecido com alguma frequência. Falar de décadas quando é da dor que se fala, é falar de agora-mesmo. Perdi um irmão na morte. Depois, o pai. Tornei-me triplo ou mais: próprio irmão, próprio pai, filho de ninguém, pai de filhas que nem se conhecem mutuamente. Isto acontece. Não estou para sonegar responsabilidades, procurar culpas ou suas siamesas desculpas. Nem o perdão nem o pecado me moram ao lado. Não é por aí que vou.
Para o norte, talvez. Talvez vá para o norte. Em demanda de trabalho, sobretudo. Sei como são os domingos por lá, claro que sei: rios, fumadores, A Bomba, os circos. Interessa-me saber que segundas e quintas posso conseguir. Talvez a lua se me mostre mais feminil, menos ansiosa, mais pura. Talvez chova, finalmente, a norte da minha vida.
Claro: há a questão da claridade da vida. Tem a ver com o amor. Um homem só é só um homem, o que pode ser muito. Por isso gostei de estudar leis: a pessoa vaporiza-se, resta o indivíduo, o caso, o processo normalmente sumário: o esquecimento.
É evidente que li poesia de mais. É droga dura. Saber de João Miguel Fernandes Jorge no Café Vianna, em Braga. Lembrar-me de Ruy Belo perante a Nau dos Corvos. E quantas Lisboas há em Armando Silva Carvalho. E António Osório vertical junto à campa da mãe. E João Damasceno de pijama, fechado e hirsuto num quarto de Coimbra. E todos esses nomes fumados junto ao rio: vozes de verso, habitações macrobióticas da mania de morrer em vida, sendo domingo.
Uma vez, vinha de Santarém. Tinha lá ido ver uma mulher. No regresso, passei por S. João da Ribeira, onde nasceu em 1933 um poeta cujos livros me acompanham como cães inelutáveis. Outra vez, não fui eu a estar em Paris a recitar Mário de Sá-Carneiro junto ao hotel onde o poeta viveu ou se matou ou ambas as coisas, às vezes é o mesmo.
Sei, tão-só, que me sobram algumas coisas: canções sobretudo, o que pode ser pouco nos tempos que correm. Não é grave.
Tenho saúde, aliás. Constipações, muito poucas. Preciso de tratar alguns dentes. Fumar menos e beber (muito) menos são excelentes projectos. Ando a escrever um livro neste caderno e noutros papéis. É um livro de homem disposto a pintar. Tem o problema, aliás mínimo, de não ser pintor. Resolve o assunto com a enumeração de dias contados: certos lances, certos casamentos com comida colorida, incertas noites de motel, tudo devidamente negro e azul, meteorológico, entre o eu e o ele que nenhum tu se dispensa de ser, muito menos tu, Rui, muito menos tu, Lina.
17/06/2005
Tropa
Todos os verões volto ao mesmo. Começam os incêndios, começo eu a lamentar em voz alta que os bombeiros portugueses continuem a não dispor dos apetrechos materiais necessários à sua causa heróica.
Em contraste, a tropa reclama por (ainda) mais gordos salários. A tropa quer submarinos.
Pergunto eu: submarinos para quê? Para detectar droga nas guelras dos carapaus?
Milhões e milhões são consumidos pela tropa.
Do outro lado da paz, os bombeiros vêem-se e desejam-se para enfrentar os múltiplos infernos florestais com deficientes e escassos tanques. Quase não têm helicópteros. Os helicópteros estão na tropa. Para quê?
Proponho que o que é gasto com a tropa passe a ser gasto com os bombeiros. E vice-versa. Tenho a certeza de que tal operação em muito beneficiaria o nosso País.
Como é evidente, ninguém vai fazer o que proponho. Como é evidente, a sargentada vai ficar fula com isto que aqui digo. Os bombeiros, esses vão sorrir um sorriso triste. E hão-de dizer para com os seus botões dourados: “Isto é tudo política...”.
Digo eu: é má política. Portugal precisa muito de bombeiros. Portugal está farto de tropa. Um simples bombeiro vale por dez generais. E custa cem vezes menos ao País. Todos os verões volto a isto. Para o ano que vem, cá estarei.
A incendiar a questão. Pode ser que um dia resulte. O leitor tem lume?
Palavras de Vidro, in Correio da Marinha Grande, 6 de Julho de 2001
Em contraste, a tropa reclama por (ainda) mais gordos salários. A tropa quer submarinos.
Pergunto eu: submarinos para quê? Para detectar droga nas guelras dos carapaus?
Milhões e milhões são consumidos pela tropa.
Do outro lado da paz, os bombeiros vêem-se e desejam-se para enfrentar os múltiplos infernos florestais com deficientes e escassos tanques. Quase não têm helicópteros. Os helicópteros estão na tropa. Para quê?
Proponho que o que é gasto com a tropa passe a ser gasto com os bombeiros. E vice-versa. Tenho a certeza de que tal operação em muito beneficiaria o nosso País.
Como é evidente, ninguém vai fazer o que proponho. Como é evidente, a sargentada vai ficar fula com isto que aqui digo. Os bombeiros, esses vão sorrir um sorriso triste. E hão-de dizer para com os seus botões dourados: “Isto é tudo política...”.
Digo eu: é má política. Portugal precisa muito de bombeiros. Portugal está farto de tropa. Um simples bombeiro vale por dez generais. E custa cem vezes menos ao País. Todos os verões volto a isto. Para o ano que vem, cá estarei.
A incendiar a questão. Pode ser que um dia resulte. O leitor tem lume?
Palavras de Vidro, in Correio da Marinha Grande, 6 de Julho de 2001
Uma Tristeza Pegada
Trago-vos hoje à consideração o drama de uma muito específica forma de violência: a doméstica. A (muito) mais comum é a exercida pelo homem sobre a mulher. Menos comum é a que chega da mulher e se quebra no marido. Naturalmente, ambas são a mesma coisa: uma coisa má.
A região onde moro tem sido abalada por um alarmante número de casos de uxoricídio. Isto é, de morte violenta e deliberada de mulheres às mãos armadas dos respectivos maridos. Tenho ido aos locais onde o sangue acontece. Ao contrário do que poderia esperar, os cenários dos últimos crimes não são barracas de papelão e zinco, mas vivendas de boa pedra. O que quer dizer que a miséria, quando psicológica, não olha a pretextos de pobreza material.
Sempre à mistura andam o álcool e/ou a droga. E a incultura. E a desinformação. E a amargura. A Igreja é contra o divórcio. Dois dos uxoricidas sobre os quais escrevi, não puderam aceitar a separação de que as esposas necessitavam para viver. Por isso, mataram-nas, transformando-se instantaneamente em viúvos penitenciários.
Uma tristeza pegada. Em plena era da internet, parece que a desinformação está mais forte do que nunca. Somos uma sociedade que ouve falar de quase tudo, mas também somos uma sociedade que não sabe dizer quase nada. Por isso matamos.
Porque não sabemos viver.
Palavras de Vidro, in Correio da Marinha Grande, 29 de Junho de 2001
A região onde moro tem sido abalada por um alarmante número de casos de uxoricídio. Isto é, de morte violenta e deliberada de mulheres às mãos armadas dos respectivos maridos. Tenho ido aos locais onde o sangue acontece. Ao contrário do que poderia esperar, os cenários dos últimos crimes não são barracas de papelão e zinco, mas vivendas de boa pedra. O que quer dizer que a miséria, quando psicológica, não olha a pretextos de pobreza material.
Sempre à mistura andam o álcool e/ou a droga. E a incultura. E a desinformação. E a amargura. A Igreja é contra o divórcio. Dois dos uxoricidas sobre os quais escrevi, não puderam aceitar a separação de que as esposas necessitavam para viver. Por isso, mataram-nas, transformando-se instantaneamente em viúvos penitenciários.
Uma tristeza pegada. Em plena era da internet, parece que a desinformação está mais forte do que nunca. Somos uma sociedade que ouve falar de quase tudo, mas também somos uma sociedade que não sabe dizer quase nada. Por isso matamos.
Porque não sabemos viver.
Palavras de Vidro, in Correio da Marinha Grande, 29 de Junho de 2001
Nozes
Com o passar do tempo, a memória torna-se refinada como o açúcar. Mas, ao contrário do açúcar, a amargura faz parte dela. Ainda assim, o corpo, que é tudo quanto temos para ser o pouco que somos, pode ir dando-se ao luxo de escolher. Se nem sempre a vida, ao menos quase sempre a memória.
Lembro aqui uma imagem fascinante. Não tem nada de especial. É apenas fascinante. Para mim. Era um homem que andava de porta em porta tentando vender um livro chamado “A Saúde pelos Alimentos”. O meu pai comprou o livro. O vendedor era educado, afável. E cheirava a tristeza como um cão batido pela chuva transversal dos adultos. Saí de casa e fui brincar para o monte. Vi outra vez o homem. Sentado aos pés de um cedro, o homem comia nozes. O livro que o meu pai comprou ensina que sete nozes equivalem, em valor alimentar, a um bife. Não falei com o homem. É sempre difícil falar com alguém que come sozinho.
Passados estes anos, vivo com esta imagem: homem, porta, livro, pai, monte, nozes. Que hei-de fazer com estas peças terríveis? Que lição me sobra desta luz chuvosa?
Não sei que vos diga. Sei (e confesso-o sem mal) que já me tem acontecido ir sentar-me junto ao mesmo cedro. E aí me lembro do homem e do meu pai, ambos desaparecidos pela sempre. Nunca me esqueço de levar nozes comigo.
Palavras de Vidro, in o Correio da Marinha Grande, 13 de Julho de 2001
Lembro aqui uma imagem fascinante. Não tem nada de especial. É apenas fascinante. Para mim. Era um homem que andava de porta em porta tentando vender um livro chamado “A Saúde pelos Alimentos”. O meu pai comprou o livro. O vendedor era educado, afável. E cheirava a tristeza como um cão batido pela chuva transversal dos adultos. Saí de casa e fui brincar para o monte. Vi outra vez o homem. Sentado aos pés de um cedro, o homem comia nozes. O livro que o meu pai comprou ensina que sete nozes equivalem, em valor alimentar, a um bife. Não falei com o homem. É sempre difícil falar com alguém que come sozinho.
Passados estes anos, vivo com esta imagem: homem, porta, livro, pai, monte, nozes. Que hei-de fazer com estas peças terríveis? Que lição me sobra desta luz chuvosa?
Não sei que vos diga. Sei (e confesso-o sem mal) que já me tem acontecido ir sentar-me junto ao mesmo cedro. E aí me lembro do homem e do meu pai, ambos desaparecidos pela sempre. Nunca me esqueço de levar nozes comigo.
Palavras de Vidro, in o Correio da Marinha Grande, 13 de Julho de 2001
Honra
O meu único pai despediu-se da vida, ou foi por ela despedido, aos 77 anos de idade. O corpo dele considerou que chegar vivo ao mês de Abril de 1994 era suficiente. E foi. De modo que fiquei sem pai.
O Estado português gostou da notícia. Passou a pagar menos 29 contos mensais de reforma a um “bicho” que tinha contribuído, durante meio século de fábricas e manhãs de nevoeiro, para a Excelsa Pessoa Colectiva Mas Não de Bem Que Honramos Na Bandeira.
Naturalmente, o meu País não sente, como eu sinto, a falta do meu Pai. Nem é por aí que vou. Por onde vou, é por aqui: é talvez tempo de pôr um ponto final na conduta desavergonhada de um Estado (eu até disse Estado, nem disse Governo...) que não sabe, ou não quer saber, respeitar a velhice dos operários que foram sempre a gamela a que os porcos metem focinho para engordar as educadas entranhas.
A revolta é mais secular que o século, eu sei. Mas como nos preparamos todos, eu e vós, para chegar ao fim da vida sem que a vida tenha começado, aqui fica o registo de que, ao menos, alguém tem a certeza de o Estado não ser, mesmo, uma pessoa de bem. Porque não é pessoa, primeiro. Segundo e último, porque nem sequer sabe o que perdeu quando perdeu o meu Pai.
No desgosto e na alegria, pagar impostos é o mínimo. A honra é outra coisa. Não há dinheiro que a pague, senhor ministro. Seja V. quem for.
O Estado português gostou da notícia. Passou a pagar menos 29 contos mensais de reforma a um “bicho” que tinha contribuído, durante meio século de fábricas e manhãs de nevoeiro, para a Excelsa Pessoa Colectiva Mas Não de Bem Que Honramos Na Bandeira.
Naturalmente, o meu País não sente, como eu sinto, a falta do meu Pai. Nem é por aí que vou. Por onde vou, é por aqui: é talvez tempo de pôr um ponto final na conduta desavergonhada de um Estado (eu até disse Estado, nem disse Governo...) que não sabe, ou não quer saber, respeitar a velhice dos operários que foram sempre a gamela a que os porcos metem focinho para engordar as educadas entranhas.
A revolta é mais secular que o século, eu sei. Mas como nos preparamos todos, eu e vós, para chegar ao fim da vida sem que a vida tenha começado, aqui fica o registo de que, ao menos, alguém tem a certeza de o Estado não ser, mesmo, uma pessoa de bem. Porque não é pessoa, primeiro. Segundo e último, porque nem sequer sabe o que perdeu quando perdeu o meu Pai.
No desgosto e na alegria, pagar impostos é o mínimo. A honra é outra coisa. Não há dinheiro que a pague, senhor ministro. Seja V. quem for.
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