17/11/2008

Estes também

Estes sítios também são muito bons:

http://o-zero-absoluto.blogspot.com/

http://oregabofe.blogspot.com/

e já estão nos Links da Malcata, claro.

Ente Lectual

A partir de hoje, nos Links da Malcata deste sítio, http://entelectual.blogspot.com/.
Vale a pena seguir.

16/11/2008

Os Estados Unidos e a Crise Internacional sobre fundo de Castanholas de Gelo

Uma senhora minha amiga gosta muito de chocalhar as pedras de gelo do gin enquanto canta


Agora que o bandalho se foi embora
vamozaver o que o preto faz

e depois o marido vem buscá-la e não se fala mais nisso.

Cristalino Vicente - III

© Caspar David Friedrich - Abadia no carvalhal (1810)



III

Souto, manhã de 16 de Novembro de 2008



Talvez seja preciso falar da casa. É uma casa enquanto nela há um homem. Há um cão também, feito de todos os cães que foram do homem e da casa – porque é sempre Mondego, o cão. Há a boca do lume, que é negra como o céu-da-boca do cão. O catre é onde o homem dorme. A mesa, a que ele come e não escreve e não lê. Um banco duro, de assento forrado a alcatifa achada algures. O retrato da Mãe entre duas velas de sentinela, como ela, apagadas. Um dia, Cristalino Manuel haverá de chegar-lhes o fogo. Há as paredes e o telhado sem placa. Tudo de madeira, entre árvores.
No pátio, a selha da água. Um pessegueiro enferruja sem remissão. O pessegueiro tem os pés metidos dentro do planeta, como fazem as pessoas que chegam a uma praia. A água vem do céu e vem do ribeiro, que em baixo solfeja cristais muito lentos. As facas do matador estão dentro de uma caixa que foi de ananases dos Açores. Da outra riba, casais emitem dedadas de cal.
No estio, os animais cantam de dentro da terra e da cabeça. No inverno, Cristalino Vicente salga a parte do abate que lhe cabe em sorte. No inverno, é quando mais sonha com

As coisas do verão.

15/11/2008

Ofício de Poeta em O Melhor Amigo

Ide ver ao blog O Melhor Amigo (http://omelhoramigo.blogspot.com/) esta entrada: Ofício de Poeta.
Aproveitai para navegar, depois, pelo sítio. Tem coisas que ficam agarradas a uma pessoa. (Certo que depende das coisas e da pessoa.)

Cristalino Vicente – I e II

© Sandra Bernardo – Redinha, 12 de Novembro de 2008



I

Em casa, Souto, noite de 15 de Novembro de 2008


Não sabe como o sabe – porque o não leu em lado algum nem lho disse ninguém – mas parece-lhe sempre ter sabido que

As árvores sofrem muito dos braços, partem-se-lhes com uma frequência que denuncia a facilidade da fragilidade, o vento, as crianças, os camponeses impacientes que varejam à porrada, partem-se-lhes os braços muito. Mas depois elas tratam delas mesmas, curam-se, fazem nascer-se outra vez em ramos e ramos e flores e outra vez frutos, como se não houvera sido nada. Depois ficam podres por dentro, uma pessoa sabe que aquela e aquela morreram. Mas depois uma pessoa olha em torno da que morreu – e há tantas vivas à volta, tantas a nascer, mal se vêem, são do tamanho de flores, mas não são flores, são árvores que vão dar flor. E uma pessoa não sabe como sabe – porque não está escrito nem ninguém fala disso.

Os sonhos dele são assim: claros, irrefragáveis, até bonitos. Ele é matador. Chama-se Cristalino Manuel Damas Vicente e é matador. Não é um assassino. É um camponês que chamam para que mate o porco e os filhos do porco e, por assim dizer, a mulher do porco. Também acede a matar cordeiros, embora lhe custe. O carneiro, nem tanto, como aliás a ovelha. Os cabritos, igual aos cordeiros. A vaca, não é capaz de todo. Não a sonhou ainda, nem a leu algures, nem ninguém lha disse, mas a razão é que a vaca (o porte da vaca, o olhar da vaca) lhe impõe(m) a Mãe que teve e que apodreceu por dentro e que, afinal, não rebrotou nem deixou iguais a ela em torno, nem ramos, nem flores a que o matador chame irmãs, nem frutos a que ele possa chamar irmãos.

II

Ibidem


Uma ainda nem madrugada, Cristalino Vicente acorda sem ter sonhado. Sente-se um tanto vazio por causa disso, mas não se pergunta. Faltam dois minutos para as cinco, levanta-se um minuto depois do sino.
Não sonhei com nada.

Desperta lume no lar, chega-lhe a cafeteira, junta uma mão de gravetos e uma pinha. Sai ao pátio e lava cara, mãos e antebraços na selha. Frúi a friúra da água, que lhe ferra os ossos. Reentra, serve-se de café numa malga azul e verde. Serra um pão, vai ao mosquiteiro e tira o naco de toucinho cru. Come. Bebe o café em dois sorvos. A cara despede-se da água da selha, assimila a força do lume. Está pronto. O cão também. Chama-lhe Mondego. Despedem ambos pela congosta. Sobem e descem linhas de terra entre pedras. Arde a gelo a primeira pincelada de alba. O casal é a duas horas de caminho. Chegam.
Está tudo preparado. No pátio do casal, depois do carro de bois, que, sem bois, inclina as varas para descansar no chão, está o cepo largo. Trazem a porca grande. Já não pode ter nem dar mais filhos. As mães dos homens, um dia, também chegam a isto. Ele espera que os homens da ajuda firmem a fêmea, que já percebeu tudo e o olha sem rendição. Ele evita-lhe o olhar. Opera. O sangue cachoeira-se, a patroa da casa acode com o alguidar, a colher de pau, o vinagre. Para aquela ex-mãe, tudo acabou. Ele espera que a queimem à flor, que a raspem com cacos de telha. Depois, içam-na. Crucificam-na ao contrário. Ele abre-a de alto a baixo. Revela-a. Revela a humanidade dela por dentro.
Nisto, o filho da casa grita no pátio. Não tem ainda cinco anos, estava a brincar no carro inclinado, caiu mal, partiu um braço. A mãe grita, o rapaz também. Levam-no. Vai ficar deficiente daquele braço. Cristalino Vicente e Mondego regressam a casa: pedras, terra, (tantas árvores vivas, algumas mortas). Lava-se na friúra. Entra. Faz mais café. Come pão com toucinho. Trouxe laranjas, come uma. Deita-se, pergunta-se antes de adormecer
Hei-de agora sonhar com quê?

Um Mundo Catita - 23/11/08 na RTP 2

Diz o Rui e tem razão: isto é imperdível.
Lete-se luc éteda treila: http://www.mundocatita.com/main.html

Crónica nº 3 da série Notícias de Dentro - no quinzenário Notícias do Centro (http://www.noticiasdocentro.net/) a partir de hoje, 15

Pobrezas

A gente é pobre, mas pobre não é gente. Pobre só é gente no Natal, quando faz de pobrezinho. Pobre vota, mas não conta. Pobre desconta.
Pode ser-se pobre estando rico. Mas ser pobre não enriquece. Rico pobre é o que se remedeia. Remediar-se empobrece muito mais no tal Natal.
Uma coisa é a gente ser pobre. Ser remediado é a mesma coisa. Mas estar rico não é o mesmo que ser rico. Ser rico pode ser estar pobre. Remediado é que não.
Remedeio não é remédio. Remédio é cara da coroa da doença. Doença é quando se pensa. Pensar empobrece, não remedeia nem enriquece.
Pobre vale mais quando não tem remédio. Menos quando tem remedeio. Quando tem remedeio, pobre é rico pobre.
Pobre rico é outra coisa. Vive remediado e morre pobre. Enriquecer a vida é empobrecer a morte. Mas remediá-la é matá-la porque é empobrecê-la. Como pensá-la é tudo menos remediá-la.
Pobre vota, mas não bota. Pobre perdigota. Pobre perde e gosta. Não gasta. Gosta. Remediado também gosta, mas bota. Bota rico porque vota pobre.
Que remédio.

14/11/2008

Se te Der para a Decência


© Bill Brandt - Portrait of a Young Girl - Eaton Place, London, 1955






Em casa, Souto, noite de 14 de Novembro de 2008




Se te der para falar com os mortos, tudo bem.
Agora, se te der para falar com os vivos, pré-recorda
que serão mortos, e nem todos antes de ti.

Pega em meia dúzia de lápis, sai à rua com eles
esquecidos já na maleta de médico sem pacientes,
esquece-os como te não esqueceriam eles, se
te escrevessem uma carta, um número, uma cruz.

(Todas estas recomendações são estritamente decentes.)

Vai pela sombra.
Aceita
a magnitude como o magnetismo, luculentas munificências
dos deuses da geografia (ali o rio, porém a barragem acolá)
que ajudam a morsegar o coração.

(Estas, nem tanto.)

Falando de outra coisa,
que se faz sábado e depois não há tempo para isto
(a vida),
a chuva seguirá cordoando-te as décadas, quase todas
as frases
(as para os vivos como as para os mortos)
e as praias dotadas de um inverno portátil
naquilo que tanto tens morsegado.

Meia dúzia de mortos, outra meia de lápis,
vivos é que nem tantos,
por decência.

Cuidados e Direcções


© Sandra Bernardo, Cabanas de Viriato, 5 de Novembro de 2008





Em casa, Souto, manhãs de 13 e 14 de Novembro de 2008




Outra maneira de pôr as coisas:
o coração tem portas de brandenburgo
em todas as direcções.

A noite dispara tosses, na cabeça rumorejam
os retardatários senhores dos sonhos.
Os móveis florescem de vidro, louça, retratos.
No pátio, uma poça de água resume a lua.

O íntimo inverno, mais que o de fora rigoroso.
No pátio, o limoeiro de mamilos gelados.
O cão petrificado no bidão.
O céu todo árctico, todo norte
em todas as direcções.

Ciência de não saber, de cuidar apenas.

Cuidar,
como um pastor,
dos cafés abertos das ruas fechadas,
das portas do coração,
do transido erotismo dos limoeiros,
do cão
e da noite,
por causa das tosses.

Cuidar,
como um mirone,
da dançarina estatuária dos fumadores,
das pombas gordas e de chumbo como os polícias,
das rosas artríticas aos pés do bairro social,
dos submarinos cachalotando Odessa,
da solidão em casa tiritando o domingo desportivo,
das rachaduras das chávenas-almoçadeiras,
do dormir outra vez menino.

Outra maneira de pôr as coisas:
pagar com um corpo do sul o teor setentrional do pensar
em todas as direcções.

12/11/2008

O CORPO É A COISA QUE MAIS ACONTECE À PESSOA

Foto: © Sandra Bernardo, Redinha, 12 de Novembro de 2008




Em casa, Souto, noites de 11 e 12 de Novembro de 2008




Este corpo que traz frio o tempo e o tempo
dos anos.
Este cabide de si mesmo.

Aqui moramos os muitos anos de nossas poucas vidas.

Aqui as rosas, ali o alguidar de degolar a galinha,
ali onde a menina se cortou num pé, àquela janela
a mãe do pai dizendo adeus com a mão parada,
estrela mais de vidro que a mesma janela.

Este corpo que o artesão tocou no tempo, onde ele
ardia a branca louça do corpo.

As rendas guardadas em casa, a humidade
dos ratos adormecendo-as e às festas que foram
rendadas de elas.

A venusta parcimónia de seu sólio.

O profundo país que cada um de nós se torna.
E esta pátria de ninguém: este corpo só
de si mesmo.

11/11/2008

Música da Família Bellamy? Também temos.


Hoje, mesmo sendo terça-feira, a Ronda Columbina é de duas horas, como só costuma acontecer às quartas, quintas e sextas. Começa às 19h00 e vai até às 21h00, em 87.6 FM e/ou http://www.radiocardal.com/.
Começa com temas de séries televisivas para bater na nostalgia: Hercule Poirot, Hill Street Blues, Pink Panther, The Muppet Show, X Files, Woody Woodpecker, Upstairs/Downstairs (A Família Bellamy, na foto), The Sopranos e, até, MacGyver.
Seguem-se coisas de John Pizzarelli, Gem Boy, Jorge Sepúlveda, Patxi Andión, Amália, Ennio Morricone e Madeleine Peyroux & William Galison.

10/11/2008

Logo na Ronda Columbina


Morreu Miriam Makeba.
Aos 76 anos, em Itália, na madrugada de domingo para segunda-feira.
Depois de participar num concerto de solidariedade para com o escritor italiano Roberto Saviano, que está ameaçado de morte pela máfia napolitana na sequência da publicação de Gomorra.
Miriam Makeba foi uma grande senhora, senhora de uma grande voz.
Era sul-africana. Negra. Corajosa. Resistente.
A Ronda Columbina (em 87.6 FM e/ou http://www.radiocardal.com/) de hoje, 10 de Novembro de 2008, abre com ela.
Ao vivo.
Cantar-nos-á Soweto Blues, tema de Hugh Masekela.

Outras músicas alinhadas de Paul Simon, Djavan, Luz Casal, Robin McKelle, Laila Kinnunen, Jeannette, Jean-Patrick Capdevielle, Rosa Passos, Yael Naim e Tuck & Patti.

Conjuntivo


© Sandra Bernardo (Redinha, 7 de Novembro de 2008)
Em casa, Souto, fim da manhã de 10 de Novembro de 2008





Que uma flor adormeça na minha mão.
Seja uma verde, azul a outra.
Que eu não te perca.
Que a minha mão te acorde, Pai.

06/11/2008

Ronda Columbina

Tenho desde segunda-feira um programa radiofónico novo.
Chama-se Ronda Columbina.
Vai para o ar das 20 às 21hoo (2ªs e 3ªs) e das 19 às 21h00 (4ªas, 5ªas e 6ªas).

Na Rádio Cardal : em 87.6 Fm e/ou www.radiocardal.com

Sois todos/as benvindos/as.

04/11/2008

Mais Duas, mesmo nesta Idade

Pombal, noite de 3 de Novembro de 2008


I

Cão pequeno matiza leveza na alçada
da eternidade de doze anos a que
tem direito, rumo ao mesmo frio
de outra rua, que daqui se não vê.

Tenda da noite armada sobre a
cidade-vila, o sal das árvores
batendo a podridão das bocas, onde
a língua usa relicários por astúcia.

Gentios de rubicunda tez travessando
praças daguerreotípicas, embaçados
e amarelados da cercania do rio,
onde a esta hora nenhuma nau, olha quem.

Expedição também nenhuma ao Norte,
televisão sim ardendo fria em casas-de-pasto,
alsácias & lorenas, crimeias & jutlândias,
o heroísmo da Bélgica e o aneurisma do senhor Polidoro.

Uma segunda-feira regelada nos canais,
ribeiras sufragadas a gravilha e a betão,
o cão pequeno matizando leve e
a neve alguma em nossos polares corações.

O meu amor trapejando o arame funâmbulo,
Madame Leroux debicando D’Annunzio,
Miss Scarlett Morgan-Carson é que já não,
jamais mais que menos, amareladas, fluviais.

Novembro todo num minuto de novembro,
2008-1918, dá o mesmo, aqui em Pombal
como aí na Flandres, essa folha de zinco
para todas as pedradas de tantas guerras.

Aquela certa coisa pensativa dos pintores
quando bebem entre mortais, nós,
herdeiros mancúspicos e oxolótlicos,
de suas visões movediças na cor, no cão

pequeno matizando a leveza, ou
Viseu, ou o Caramulo, ou Paris,
certa segunda-feira em que me achei
com doze anos completos, olha quem.

Olha, cão.



II

Rombas me nasceram e as deponho,
às armas que bem não sustive antes.
O mais, enquanto sim, foi frequentar restaurantes
quando assalariado, como num sonho.

Tudo se nos passa e sobrepassa:
as arcaicas crestomatias, o antónio-josé-saraiva.
Dies irae me não foram, sequer, dias de raiva,
que tudo se nos sobrepassa e passa.

Pombas, se nasceram, pão lhes ponho.
Ermas, Mãe, terras que não retive diante.
O menos pão, enquanto não, no restaurante,
é muito compensado, Mãe, com medronho.

03/11/2008

Entretenimento o Bastante

Dr Pozzi at Home (1881)

© John Singer Sargent (January 12, 1856 – April 14, 1925)



Em casa (também), Souto, fim da manhã de 3 de Novembro de 2008


Às vezes levo-lhe um homem para que se entretenha.
Não tem muito que saber: o levar, o entreter.
Às vezes as manhãs gelam na ponta dos dedos, dá-se um formigueiro que corusca e fervilha nessas antenas humílimas, algumas vezes garras porém, porém nem sempre, não tem muito que saber.

As cinzas do domingo por toda a casa.
Roupa fresca, ainda assim – e a paciência avoenga de cada móvel assentando os cantos.
Escrevo um homem e levo-lho, ela gosta, pelo menos agradece-me sempre, faz-me chá e uma festa na cabeça, eu volto por outras ruas avessas como versos percebidos da frente para trás.

O organista da capela, o ginecologista afamado, o homem da lenha, o operador de máquinas amarelas – tiro um da cabeça, qualquer um deles ou nenhum deles, posso criar tantos homens quantos quiser.

Bastante é saber para que mulher.

02/11/2008

Adoração da Menina (quadras) seguida de Posse(s) (crónica da semana n'O Ribatejo) e ainda Esta Luz É a minha Derradeira

ADORAÇÃO DA MENINA

QUADRAS PARA AZULEJOS DE TABERNA PORÉM ASSAZ LEGÍVEIS (E ATÉ PRÓPRIOS) EM ESTE QUE AQUELE ANIVERSÁRIO DE VELHINHO/A SARCOFAGADO/A EM LAR DE TERCEIRA (E ÚLTIMA) IDADE



Pombal, manhã de 31 de Outubro
e Casa, Souto, manhã de domingo, 2 de Novembro de 2008




Tonsura-me o coração selénico, anda,
como estes ausentes anos outra coisa não
tens feito. Domingo, ao passar da banda,
hasteia ao frio ar a adoração.

Não me queiras mal, que sou
um alvedrio apenas, um deserdado.
Trago-te tremoços tantos do mercado!
Congosta é toda a via sobre que vou.

Pincha de riso o lábio ortodoxo
da senhora Dália, que é farfalhuda.
O pai dela, Dália, era coxo.
A mãe esbracejava, que era muda.

Reuma, fleuma, flato, mirtilo
e um par de rosas pagãs.
Tudo devidamente pesado a quilo
no fulgor breve das manhãs.

Flecha, folecha, ressalva, estearina
e um par de cravos vermelhos.
Tudo posto de joelhos
em adoração da Menina.

^^^^^^^^^^^^^^

Posse(s)

Tenho um amigo que não vê diferença nenhuma entre os “magalhães” de Sócrates e os electrodomésticos de Valentim Loureiro. Eu também não, não sei porquê.
Tenho um inimigo que não vê diferença alguma entre a minha pessoa e um saco deixado fora do contentor em fim-de-semana prolongado. E eu quase que também não, mas sei porquê.
Tenho uma prima que aos 43-quase-4 anos ainda não se casou. Todos na família a invejamos. Toda a gente sabe porquê.
Tenho uma varanda de onde avisto o mar interior de todos os marinheiros que nunca o foram nem serão. Da minha varanda, vê-se uma pastelaria, meia dúzia de limoeiros raquíticos, o tal contentor do lixo e uma pedreira poeirenta como a Lua.
Tenho um rato na biblioteca que começou pela secção norte-americana da narrativa: home, sweet home, pensará o gajo.
Tenho uma tosse esquisita às seis da manhã, hora a que me levanto para escrever crónicas e versos e números de telefone que nunca me respondem à chamada.
Tenho uma vontade danada de entrar de rompante (e de cavalo branco) nas assembleias municipais (todas elas) e espadeirar aquelas perucas todas com ademanes zorros.
Tenho um exemplar da “Varanda de Pilatos” autografado, em Novembro de 1927, pelo Autor, Vitorino Nemésio. Tenho, tenho.
Tenho vezes em que só me apetece suicidar-me ao contrário: emborcava um bocado do trigo roxo que o tal rato nortamericanizado despreza, esticava o pernil e nascia outra vez, mas para melhor.
Tenho um frigorífico tão pequenino e tão portátil, qu’inté parece um “magalhães” socrático.
Tenho umas pantufas tão puídas, que os pés me parecem fora delas.
Tenho uns sopros no coração que me levam a suspeitar da presença do mar onde, de facto, só a pastelaria, o raquitismo citrino e a desolação selénica.
Tenho práticas sideromantes que se devem todas à minha involuntária vocação para o sopitamento.
Tenho na cabeça milheiros e milheiros de palavras cujo vero significado me é impermeável.
Tenho um pardal na memória e uma memória feita de cinzas voadoras: como um hálito de pedreira.
No fundo, tenho quase nada – porque a tudo pertenço, por enquanto.
^^^^^^^^^^^^

Esta Luz É a minha Derradeira


Pombal, tarde de 31 de Outubro de 2008




Há muita amargura no mundo, metade da qual era, no mínimo, escusada.
Gente que olha o jornal sem ler o que, de facto e aliás, não foi escrito.
Rapazes escurecidos pelo divórcio dos progenitores irrompem a tacos de basebol vidraças de fiats e de corsas.
Gardénias de plástico branquejam moscas.
Noticiários noticiam amarguras felizmente longe, felizmente anestesia.
O dia passa.

Rompe o dia.
Cordas e arames crucificam camisas, abandonadas de corpo secando ao frio do mais recente novembro da História.
Da churrasqueira virada para a praça evola-se o perfume da carnificina: teclados entrecostais do falecido porco, aves esquartejadas como livros, costeletas da mansíssima vaca, o bedum activíssimo do anho mansíssimo.
Há muito perfume no mundo.

Estou sentado entre árvores. Não trouxe pão, não há pombas. Há mulheres carrinhando infantes roliços como bolas de miolo de pão, que olham o céu de dentro da nata, a brisa da respiração aderindo ao gás das nuvens e ao meu lápis.
Eles e as mães povoam os ilhéus onde a amargura espera, entre árvores.

Esta luz é a minha derradeira fortuna, que dissiparei no sábado convexo. As frases olham seu, mais que meu, pântano particular. Vou passar a tarde a ler crimes.
Serei entre móveis (ex-árvores).

01/11/2008

Partida

Em obra na Figueira da Foz, 27 de Outubro de 2008

Casa, Souto, noite de sábado, 1 de Novembro de 2008

É o império das sombras, a casa onde mora o homem que pensa na terra do Norte, lá onde os animais emitem vapor e os lagos pensam devagar na eternidade.

Rondam fantasmas de mulheres na horta-jardim, ao frio, perto da janela sinalizada pelas velas, dentro, onde o homem se norteia em vão.

Há um quadro na parede, uma fotografia de anos menos melancoólicos, mais eternos: dá para as costas do homem sentado no Norte do pensamento.

A chuva não chegou a vir. A tarde apagou-se sozinha como um cigarro esquecido, na cozinha a lenha crepita peixes e pimentos, um pinheiro acena de longe.

Os livros esperam em caixas de papelão. Há um frio subindo pelas pernas, dirigido ao coração, onde outras árvores guincham nortadas. Pássaros diferentes sublinham a negro o Grande Espelho.

Carros de madeira gemem no terreno além-fronteira: chega às vidraças a tosse dos animais de tiro, a silhueta arqueológica do condutor sentida pelos fantasmas de mulheres.

O chá arrefeceu na louça branca, uma das velas chega ao antefim, um livro quer ensiná-lo a partir, o homem fica. Quando a Primavera chegar, a casa terá partido sem ele para o Norte.

Blog a seguir

http://cettemauaisereputation.blogspot.com/

é um blog do

Cão de Deus.

Canzoada Assaltante