21/01/2022

REGISTOS CIVIS - 30 & 31



Escandentes – 30


Uma história-de-amor encontrou residência em papel
Eduardo & Sílvia, ainda 25 anos ele lhe a ela sobreviveu
Coisas de saúde, de falta dela, dela-saúde, dela-Sílvia
Vulnerabilidade do cólon, idem do coração, o diabo
Nem todas as love-stories chegam a documento
E as que chegam, nem todas se fixam em verso solto ou medido.

Um conto-de-solidão, de tão comum, nem de papel precisa
Pense-se, se se quiser, em Beatriz, costureira de mão-cheia
Em Marilena, caixeirinha de confeitaria, coitada
Em Apolino, que há (todos os) anos mira o rio quieto
Em Joel, que viaja sempre sem chegar, afinal retornando sempre
Não é inventar a roda nem a pólvora, assentar isto.

Um relato-de-memória, desejado ou temido, muitas vezes
Manuel Eborano, 79 anos, pousa o jornal & relata
Veio para esta cidade ainda ganim/gaiato/galifato
Foi aprendiz-servente de ofícios os mais diversos
Acabou capaz capataz de obras em firma sólida
Hoje relata estes pretéritos oficiais suspirando um pouco.

Como escandentes gavinhas, entrelaçam-se heras & eras
Idades & cidades, caminhos & caminhas, centros & dentros
Até a mais vulgar atenção dá conta do emaranhamento
Do modo como tudo com tudo se engrenha
Enreda, intrinca, enguedelha, arrepela, embaraça
Sim, já no liceu a Celeste assim falou & disse – e muito bem.

Companhia – 31


    Decorre a tarde de Quinta-Feira, 20 de Janeiro. Da máquina audiovisual, mana conversa de gente profissionalizada mui sabedora de suas matérias. Se descontextuadas, muitas elocuções parecem rutilar de peculiar fulgor. Fidelissecretariamente, inventario algumas capturas:

Mesmo quinze minutos que estivéssemos assim
Sempre em actividade física, sempre a sorrir
Para estimular as hormonas, daquelas de doer a barriga
Estes últimos anos, quanto mais fechados, mais deprimidos
Quando estou, não é por mal, pelo contrário
Não sei explicar, estou tão nervosa, constrangida
Sempre fomos uma família mas muito mal, olha
Ríamos muitas vezes, tirando um peso das costas
Se fosse outra pessoa, outra solução, há filmes
Até os mais novos, mesmo não sendo a cara do pai
Se quiser concordar com alguém, vire a cabeça
Quando referiu a novela, fez uma expressão típica
Lembrava-se também da Amazónia, tão estranho
Vamos estranhando, não-familiarizados, no geral
Às vezes, são questões próprias da cultura
Se há alguém que não diz, esse é com ninguém
Uma chamada Dulce, via-se que estava contrariada
Lá está, se calhar também era uma terapia-de-choque
Temos o Chaplin de Modern Times, sim, demiurgo
A chuva é tão necessária quão o sol, senhores
A psicomorfologia facial importa, senhoras
Aborrecimento, desinteresse, zanga, revolta
Ansiedade, insegurança, desconforto, aflição
Comoção, choque, titilação, prurido

    Decorre a tarde, a noite é certa mas só para quem a ela chega. A máquina imago-sonora é uma companhia. A pessoa consegue fazer de conta que não dá de/por si tão desamparada, tão às moscas, tão a ver navios de um cais que não há. Então:

No seu caso, todos passamos por coisa parecida
Ao sermos bombardeados, oxalá tenhamos dito o que queríamos
Estar ali alguém atrás de mim, fazia-me espécie
Um trabalho mas não propriamente de vendas
Manter esta ideia de que não vemos o outro lado
Etapas mais fidedignas, com planeamento meticuloso
Caramba, esta não era suposto estar ligada
Tomarmos sempre nota do que está a ser-nos dito
Se bem entendi, o senhor pretende
Às vezes, lá está, não sabem se é para ali
Respondermos à despedida, igualmente importante
Minorar algum estrago, nós ali na saída
Quando o público tem oportunidade de falar
Pelo menos para mim, muitas vezes com os nervos
Queremos o que vais dizer depois de amanhã
As notas que deixou, deixou-as manuscritas
O convidado pode expor quão livremente entender
Temos essa liberdade, perante maior e/ou menor
Algo de outra matéria, ainda há pouco
Tal como a pessoa, também o interesse desperta
Fez o seguimento dos alinhados, em 1988
Numa situação mais informal, máximo dez minutos
Um dos sítios por onde passei antes de ti
Tinha chegado de novo ao espaço

    Dão-se já as 16h45m. Da janela maior, visão de pátio com gente lavando garrafões. Pai & filho em acção. O velho, dando mangueiradas. O júnior, acarretando o vasilhame lavado & trazendo o por-lavar. Freme à brisa leve a velha nespereira. Em transe de mor pachorra, o cão (castanho, grande, sénior) dormita, apenas a cabeça de fora da casota. Os três fazem-se companhia em triangular reciprocidade. Nesta casa, rumora a maquineta vidente-falante:

Disse que estaria sempre junto de/a nós, mas
O trabalho dele tem sido desconfiar de matrículas
Já vazou algo nas eiras? Sim, já vazei algumas
É possível extrair uma moral da física-das-partículas
It’s gotta be illegal
Só há que sobreviver a esta parte
Por merenda, algo que seja comestível
De qualquer jeito, só que com arte
Ao menos, que nos livrassem deste mal
Não há reembolso, passado o prazo
É ver o que por aí vai no hospital
Triste é depender tanto do acaso
Isto é propriedade privada, acesso interdito
Será que ela sabe o quanto ainda o ama?
Obrigado, por me terem afastado daquele tipo
Ela confundiu afeição com ginástica-de-cama
Pessoas que procuram a vida inteira
Ninguém nos pediu nem ouviu conselhos
Cada um tem a sua própria maneira
Nenhuma religião me há-de pôr de joelhos
Resiste-se como se pode em tempos maus
A obra legada é baluarte democrático
Os passos é que dão sentido aos degraus
O erro processual é que tem sido sistemático

Já em sua glória simples ocorre a manhã de Sexta-Feira, 21 de Janeiro. E:

Aquela e não outra
Veio requerer a junção aos autos
Só tipo fotografia à/da porta de casa daquela pessoa
Daquela e não doutra
Há ainda tribunais que mandam afixar
Mandam afixar o edital na junta de freguesia
Ercília de Fátima Joanes da Nóbrega
Se foi possível apurar que a pessoa vive lá
Imaginemos que não consegue entrar no prédio
Em princípio, só não havendo alternativa possível
Negócios que correram mal, há pessoas, acontece
Nem toda a gente é sacana, há empatia
O genro separa-se da filha e não paga
Mandou vir material em nome do sogro
Muito bem, mas foi uma terceira pessoa a assinar
Dar conhecimento de aquela, não de outra
Quando receber esta carta simples
Esteve lá alguém que lhe diz respeito a ele
Um bocado constipado, fui ao local, voltei para trás
A carta também, também voltou para trás
Na Rua D. João III
Pedro Daniel Natalino d’Aboim
Art.º 233 do Código de Processo Civil, é ir vê-lo
Primeira, cita-se; depois, notifica-se

    O fluxo é organismo (mui) vivo, não cessa. Pode mudar (e muda) de agentes-(e)fluentes, mas não de si, de si mesmo jamais muda. Os elocutores são perecíveis – a elocução, não. Assim pois:

Por isso é que ela esteve presente
Maria do Céu Videira de Lecestre
Outra comarca, outra pessoa singular
Alguém se obriga perante outra pessoa
Serviço por remuneração, a completar no destino
Basta que alguém seja o que for
Chegou, assinou, alguém recebe e é identificado
Uma terra & uma acta: lavradas ambas
Fomos chamados por partes
Susana Maria Cabral Castilho
Não foi possível, invertera-se
Os créditos restaram insatisfeitos
Atentas as cominações, ó Ilustres!
Demora mais do que o esperado
Hoje não é possível, tantos xis euros
Justificou-se assim, a coisa até correu bem
Bernardino Salvador d’Andrade Memento
OK, não esquecer o princípio Extra Vel Ultra Petitum
Nem sempre a pessoa é insondável
Fundamentos de facto e de direito da pretensão
Capacidade das partes e legalidade do resultado da conciliação
Cumulação de pedidos, conciliação frustrada
Fruste & frusto, o fruto-em-tempo
Deixai-me só ver se foi em Setembro ou não

    Não é difícil ou precário perceber a condição arenosa das enumerações supra. Foram esvurmadas à oralidade corrente, é por isso. Também: são modo de ordenar passageiramente um caos que não passa. E ainda: servem de autos mais ou menos representáveis em teatro de vozes. Quanto à sua forma, é evidente virem a 24 linhas. Nisto, acaba-se amanhã de Sexta-21-do-I.


 

20/01/2022

REGISTOS CIVIS - 27 a 29

© DA.



Outras enumerações - 27


Salvaguarda de lucidez autoprotectora face ao caos íntimo.
Sem-abrigo pelas cidades de uma nação ex-pátria.
O verso-finalmente-justo de um escaninho ínfimo.
Mas, mesmo botado à rua, não ser um ’tadinho nem um pária.

Brigadas voluntariosas ofertam sopa pela noite.
As estações ferroviárias, varridas a vento glacial.
Nostalgia de lareira, uma pouca de pão, um fio de azeite.
E a glória munificente da Língua de Portugal.

Ainda pela rua perpassam frades & freiras.
Existem silenciosamente, dormem sobre pedra.
Eles & elas lá sabem se sofrem de frieiras.
Mas dali não arredam, nenhum deles arreda.

Uma volta pela praça apreciando os bens:
peixe de metálica rutilância (luar que nadava),
fruta das terras mais perfumadas de al aléns,
mulheres gerindo o mundo & que o mundo não trava.

Olhos fatigados, não têm conto por as ruas ásperas.
Envelhecimentos instantâneos por as repartições.
A ferrugem ataca muito as nêsperas.
E as bocas são ósseas, dão-se a tropeções.

Em glória a matina vai-se aguarelando.
Por enquanto vivemos, aproveitemos o enquanto.
Só tu já não dizes que me estimas tanto
quanto eu te estimo, ó Marília Rolando.

Rolando - 28


    Marília Pedro de Canais Rolando funciona das nove às dezassete na guarita dos serviços municipalizados (transportes públicos). Tem os filhos (menino & menina) criados. O rapaz fez engenharia-mecânica, a donzela foi para enfermeira de geriatria. O ex-marido de Marília é bancário a ano & ½ da aposentação. Está tudo bem. O segredo bem guardado dela é um namorado que tem em Santa Clara. Tão bem guardado, que aqui vai o nome completo dele: Armando Janeiro Porto Acabado.
    Eu, houve tempos em que gostei de Marília Rolando – mas ela era casada (e bem, na altura), séria, digna, louvável, louvada & lavada. O meu pé-de-alferes deu por isso em nada. Corrijo: em quase-nada, pois que ainda nos relacionámos horizontalmente umas quatro vezes. Este facto d’entre-lençóis volveu-se despiciendo: era um amor sem porvir aproveitável nem pretérito histórico (ou vice-versa).
    Armando Janeiro é duas coisas: 1) boa escolha de Marília; 2) meu Amigo de há mui longos anos. Foi por conseguinte algo timidamente que ele, um destes dias, me abordou. Sabendo que eu a namorara em casada, Armando quis ter de mim a garantia de sigilo, primeiro, e, depois, anuência. Eu anuí. Só não posso ser sigiloso porque ando disfarçado de contador-literatóide.
    (Faço ora parágrafo entreparentético por causa do seguinte: talvez eu esteja fundindo & confundindo Marília com outras mulheres que a minha vida, até biblicamente, conheceu. É uma espécie de bruma. Se alguma vez deveras amei – o que se chama amar: francamente, não me lembro. Lembrei-me hoje de registar Marília Pedro de Canais Rolando por causa de ter renovado o passe-bus para Fevereiro na guarita dela.)
    Marília, pois.
    Ainda bonita.
    Já não somos dois.
    Ainda catita.
    Olhos tão clarinhos.
    Boca apetitosa.
    É clone de rosa
    com muitos espinhos.
    Tem-na agora Armando.
    Eu é que não tenho.
    Choro baba & ranho?
    Vou-me assoando.
    Não mais o futuro.
    Não menos passado.
    Sinto-me impuro
    & ultrapassado.
    Passo (in)certidões.
    Quero emolumentos.
    Faço averbamentos
    & declarações.
    Sem mal eu querendo,
    a bem da lembrança,
    desfiz-lhe a trança
    na cama tremendo.
    ’nha bela Marília
    de olhos turvados,
    ora alheia ex-minha
    de anos acabados.
    Armando Acabado
    acabou vencendo.
    E eu, bem lhe(s) querendo,
    boto-me de lado.
    (Que lado nem é,
    antes retaguarda.
    Capitão não sou,
    sequer uso farda.)
    Paixão é cegueira,
    é deficiência.
    É impaciência,
    não é brincadeira.
    Já para o mês que vem,
    busco outra guarita
    a que tal bonita
    me não perca bem.
    Deixo estas endechas,
    penhor de lembrança:
    desfiz-lhe a trança
    em suaves mechas.

Acabado - 29


    Ao cabo de um dia mais ou menos trabalhoso, Armando Janeiro Porto Acabado repousa um pouco em inclinação oblíqua sobre almofadões propícios. Passa na pantalha um documentário dedicado à figura de um homem que foi, em pessoa, irritante, mas, em obra, digno de alguma atenção. (E não, Armando não diz dele o nome.) Outras imagens:
    um vale em que encontram pasto rebanhos mansos;
    casas de pedra muito antiga(s) vicejando sombras atiradas ao chão;
    desenhos feitos por artistas esquecidos sem retorno;
    flores & ramos pisados em chão de procissão;
    revoadas de alados a favor de um vento azulíneo;
    uma actriz de cravo ao peito dizendo sílabas frescas;
    um par de professores eméritos conversando sem legendas;
    Atenas-a-Mui-Antiga-&-Toda-Inicial;
    multidões em festa (não sabe Armando por que raio);
    uma estrada alagada com choupos por sentinelas;
    anjos de gesso guardando um portão de quinta;
    fachada monumental de fábrica conserveira de pescado;
    tricanas de postal hepaticamente amarelecidas;
    quintal crivado de gatos famélicos mas solares;
    rosto de homem improvavelmente nascido;
    rapaz atirando pedras ao lago na falda de montanha nevada;
    metrópole brutal, desumanista, sobrevalorizada, atraente.
    São quase entretanto as seis da tarde. Armando, que mora na Mendes dos Remédios, não sai hoje. Fica-se em casa, serão com sopa & pão de anteontem, de momento é suficiente. Não é instante de apogeu-civilização. É tão-só o serão solitário de um solitário em recato. Talvez Marília lhe telefone, talvez ele telefone a Marília. É só Quarta-19-do-I. Alhures, alguém se dá ao trabalho de morrer; outros alguéns, à insensatez perdoável de nascer. Há muito de quem faça alguma coisa. Armando vai à cozinha, espreme duas laranjas, junta água-mineral, bebe meio copo de pé, retorna ao quarto com o restante. Mais imagens:
    Cairo, sol cru como pano branco, gente aos tiros;
    tumultos noutro cu-de-judas afim do Cairo;
    pânico (eufórico) de circunstantes do regicídio (1908);
    euforia (pânica) idem-idem (1914);
    cave-jazz-fumo-whisky-coca-curtição-sombra;
    galerias comerciais: vidraças, manequins, marcas, lixívia;
    maometanos de olhar oblíquo sentados em muro baixo;
    cristãos que não olham apinhados no metro;
    calendários-de-parede amontoados a um canto da oficina;
    uma fulana insuportável que se diz jornalista;
    flashes de guerras repetíveis, ocasião chegada;
    uma fotografia aérea do santuário da Cova da Iria;
    Sylvia Kristel, Armando não sabe se em Paris ou Praga;
    Linda Lovelace, Armando não sabe se em New York ou Guimarães;
    Adolf Hitler perorando à sua Jugend;
    crianças etíopes sem pão, sem água & sem idade;
    cão dormindo a meio da escadaria universitária.
    Nota: deste segundo rol de dezassete imagens, Armando Janeiro terá, quando muito, entrevisto três ou quatro, mais não. Abatem-se-lhe de doçura as pálpebras, dormita sem remorsos contra os almofadões, a mente resvala-lhe para um vórtice alternativo. É quando o telefone se põe a guinchar. É Marília? Não é Marília. É uma voz tentando vender-lhe um plano articulado de seguros (vida/casa/carro). Desliga com cortesia firme. Já não readormece.



19/01/2022

REGISTOS CIVIS - 26

© DA.


Inês - 26


    Música da transição XVI-XVII serve de fundo à manhã nova. Em casa, Inês Josette Eugénia Parda trabalha sem pressa. Classifica & arquiva papéis. Combina tempos estagnados em caligrafia – a dela, claro. Rejeita alguns, mas sem rasgá-los. Atribui a estes uma pasta própria: uma lixeira limpa. A fotografia dos filhos (dois rapazes) preside à mesa-de-trabalho. Tirando o retrato dos donzéis, não há rasto de homem pela casa.
    Pastas aproveitadas, catalogadas & engavetadas:

Memorandos Magnânimos
Reforços Provisionais
Lamentáveis & Lamentosos
Ataques (des)Feridos
Redneck / Blue Collar
Anémonas + Medusas + Pára-Quedistas
Figuras Obscuras & Recessos da História
Crueldade & Credulidade
Entravadas & Entrevadas (Velhas)
Adoçar & Açodar

    A manhã esvai-se, tarde & noite sequentes são sem história, eclode a terça-feira, 18 de Janeiro. Inês volta à banca-de-trabalho. Ocupa-a hoje o sistema judiciário português: instituições, profissionais de carreira, competências, abrangências. Não é ocasião propícia à releitura de uma Sylvia Plath, nem de uma Emily Dickinson. Não é. Outra virá que será.
    Almoça, como sempre, sozinha. Hoje, bacalhau com batatas. De marmelada, um ladrilho. Café forte. Retorna à catalogação (sobre fundo de música dos Ultravox):

Soluções Informáticas (Encomendas Seguras)
Deslocação Distrital (Armazéns Mormente)
Explicações (Excel, Latim, Botânica, PowerPoint)
Restauração & Tertúlias Artístico-Literárias
Vizinhos (tudo)
Porto-Nine-Braga-Caminha (em Milhas-Terrestres)
Obras Justamente Esquecidas (com Excepções)
Bailes do/no Coimbra Clube
Crimes Rurais
Almanaque Coimbrão (sem Excepções)

    O dia vai rendendo. Os papéis encontram conciliação contra o caos gravítico. Inês processa tudo com economia processual muito experimentada. E assim concede a si mesma – e ao trabalho mesmo –, por assim dizer, extra vel ultra petitum, que é como quem diz: toma & embrulha, que muito a pomba arrulha.
    Em recôndito escaninho, Inês Pardo espera o dia 27 ulterior. É dia de ser (parcialmente) remunerada por ofícios que redigiu há mais de um mês. Um torrão de ansiedade efervesce em seu caldo íntimo. O dinheiro é vil mas inelutável. Às 16h13m de 18.01, todavia, há ainda decálogos em dinâmica:

Despachos Surpreendentes ou Esgazeantes Até
Teletransporte ou Sonhadorias Projeccionistas(?)
Poemas Inferiores a Notas de 20 (Vinte)
Egipto, Anatólia, Suméria & Setúbal (Bocage, Gama, Pacheco)
Linguagem Corporal (Não-Heterossexual)
Bons Dias & Noites Menos Más
Ferragens Minuciosas
Assinaturas Legíveis
Topónimos Invernosos
Manias & Fobias Afrancesadas

    Manhã (muito cedo) de Quarta-19-do-I. I. Josette Eugénia P. urde chá forte em sua cozinha. Uma colher de mel, um farrapo de leite. A manhã sonora é de Scarlatti, Vivaldi, Carlos Seixas & Spandau Ballet. Faltam oito dias para receber alguma coisa tilintável. Faz por não contar o tempo ilusoriamente quieto, congelado, inamovível, inteiriço.

Reclamos Luminosos da/na Década de 60/XX
Autores ou Dactilógrafos: Fronteiras Muradas
Descambação, Descamação & Bondades que o Não São
Formação de Equipas em Contexto de Jogos de Cartas
A Vida Enquanto Incêndio & a Morte como Bombeira
Aperto de Mão: Técnicas & Cuidados Higiénico-Naturais
Hannibal Ad Portas & Menina Estás à Janela
Protocolo com ou sem Elizabeth II
Pequenos-Almoços de Hotel com ou sem Companhia
Séri’Assassinos de Particular Repugnância

    E 27.I calhará a uma quinta-feira.


18/01/2022

REGISTOS CIVIS - 25

© Abbas



Preparos - 25

Sábado, 15 de Janeiro de 2022


    Na impossibilidade manifesta de reter águas, o Poeta-de-Sines, já destes Registos constante, adentra o Sábado-15-do-I em estes preparos:

    O porvir é de nascitura amargura pela certa
    Todo o cuidado é pouco com o passado, que se agita
    Eu, que nem nome tenho, como seria heterónimo de quem?
    Nem perguntar é já fácil, a luz parece de sal neste deserto.

17/01/2022

REGISTOS CIVIS - 21 a 24 (este último, incompleto)


Laurentina - 21

                      

 

Laurentina de Jesus Cravo Mercedes, correspondente postal de Túlio Serafim d’Anes Galo. É ela a manicura da Alameda (Bairro dos Actores, Lx.).

Laurentina é pessoa positiva. Não a afecta nem infecta, como não a aquenta nem arrefenta, a comprovada transitoriedade da existência terrestre. Ela está noutra – e a outra mete nirvanas & reiki não ao barulho mas ao silêncio-zen. Não come bichos, só erva. Merdita, perdão, medita muito – pensar, pensa pouco.

As cartas de Laurentina divertem Túlio. Hoje, quinta-13-do-I, chegou uma. As  patranhas bem-intencionadas de sempre: vegetarianismo & seus milagres, bondade dos chás de tudo que seque na eira até levitar como os anões. E pormenores da correspondência que mantém com um guru das máfias pseudonepaltibetanas que a partir de Braga expede cursos por correspondência do tipo grande-mestre-esplendor-garantido.

E Túlio sente-se menos só, e menos meio-vã a sua casa, lendo Laurentina: se temos todos de ser infelizes, que alegremente o sejamos, carago. Namasté!


 

Graziela - 22

Quinta-feira, 13 de Janeiro de 2022

                      

 

Claro que quem prefere o inverno não dorme na rua.

Os deserdados que dormem na rua não bucolizam.

Serão livres – mas não da liberdade de que precisam.

Esta parece mansa verdade pura, nua & crua.

 

Nós (os por enquanto com paredes, soalho & tecto) pairamos.

Passamos pela existência, sim, enjauladamente.

Labuta-se, dorme-se, é-se estatística gente.

Mas, parece, pouco aprendemos. E o que sim, não ensinamos.

 

Vivemos – mas em prosa rabiscada à pressa.

Ao contrário do passado, qualquer futuro é a termo.

Digo, redigo, pito e repito: o meu Santo chama-se Eça

– naturalmente o de Queiroz, esse divino estafermo.

 

Não seria, não é, não será agora que, à cautela,

me meterei a fazer carreira – de rico, por exemplo.

Prefiro, da literatura, a alteridade em espaço & tempo.

O resto? É comer-lhe-&-beber-lhe, D.ª Graziela.


 

Sala-de-espera - 23

                      

 

Pessoas em sala-de-espera hospitalar. Começa a tarde de Sexta-14-do-I. Comigo, 25. Ninguém de livro em mãos. Smartphones com fartura: 14 estão online. Este é um tempo de artistas, perdão, autistas ligados à nuvem (nefelibatas sem a mínima ideia de que seja nefelibata).

Mais gente jovem do que seria expectável. A sala mostra-se limpa. As batas da enfermagem, alvas. Todos estamos mascarados: esta chinesice veio para ficar.

Um calmeirão careca digita afanosamente o telelé. Mochila preta nos costados, sapatos-de-vela, formato, envergadura & cor corporais que me recordam o vocalista do grupo The Christians.

Uma mulher de grenha loura-coiffeur de blusão sangue-de-boi, blusa azul cravejada a diamantes de plástico, sapatilhas cor-de-rosa, mamas murchas como chorões de beira-rio.

Entre seus pais, um rapazito como já fui. Cabelo preto, apartado à esquerda por risca nítida. Boné escarlateando Benfica. Talvez nove, se calhar dez anos.

De azul-pervinca, uma moçoila alta, botins de camurça cor-de-baba-de-camelo, um bocadinho escarpada de ancas mas perfeitamente comestível à mesma, não seja por isso.

Algumas velhotas, também. Uma, de gorro lanígero debruado daquele roxo-à-Senhor-dos-Passos; outra, de amplo casacão em pano caro, não sei o nome têxtil mas dá para ver que foi de dinheirão; outr’outra, de carteira grená a tiracolo como uma cartucheira de remédios; aind’outra, de pergaminhada pele que os anos (muitos) sulcam, aram, lavram & apalavram.

A minha senha chama-se G019. Estou em jejum desde madrugada, já o bandulho me ladra indignado. Vão sangrar-me, mandar o humor para análise, vampirismo bem-intencionado a que me sujeito porque pois-que-remédio.

Fora, a tarde é clara como o ovo. Apetece passear sem rumo pela idade, perdão, Cidade, colhendo à passagem a passagem mesma. Penso que me não demorarão muito. Trabalhei toda a manhã – e com proveito, pelo que, passeando na hora vesperal, me não acode nem ocorre razão de remorso. Já agora, aqui darei conta dessa ambulação: pois que também tal é civilmente registável. 



Um-pobre-de-deus-passeando-pela-brisa-da-tarde (*) - 24

Sexta-feira, 14 de Janeiro de 2022


    [(*) Escusado é, ou deveria ser, licenciar-se uma pessoa em, por exemplo, engenharia-hidráulica, para de ponto perceber que o título trocadilha tributo ao belo livro de Mário de Carvalho – mas pronto: o título desta entrada brinca com Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde, do A. cit.]

    Saído a passeio pela tarde iluminada & fresca (máx. 14, mín. 5), isto é de cuspir para o lado e seguir em frente – na hora presente como nas que vierem, se vierem. A luz favorece boas gravuras de paleta: bem melhor do que em .pdf. Sob certo viaduto de que em outros registos hei feito & dado já talvez farto assento, pernoita uma mulher cujos marido & filhos estão presos lá em cima na Penitenciária. Dizem-me que ali acampou há três dias – mas tem de sair até segunda-feira-17-do-corrente o mais tardar, por razão de nesse dia começarem no local obras de “construção das infraestruturas do troço urbano entre o Alto de São João e a Portagem”, afectando, para remodelação parcial, a Rua Tomé Rodrigues Sobral e a Praça 25 de Abril. Prevê-se uma primeira fase que dure três meses. Tudo em ão:
        “Renovação do sistema de drenagem de águas pluviais e residuais; renovação da rede de iluminação pública; remodelação de passeios; remodelação da zona da rede viária.”
    Passea’mbula’ando, faço por botar mente fora o povo dos meus sonhos, essa esparsa multidão que me atroa as sonhadorias. A noite passada mesmo, sonhei com alguém a propósito de discos de Paul Simon. Esquecer isso.
    Relvado que os melros debicam, manhã muito cedo. Há uma dúzia de anos que por ali migo & esmifro pão a seu benefício. Hoje não foi o caso. Hoje, o caso foi de estraçalhar duas fatias de pão-de-forma em proveito de duas pombas no flanco da Associação Académica. Encheram os papitos. Eram bonitas, ambas mais a dar-lhe para um cinza-claro de tabaco-louro depois de fumado.
    Deixo por ora as minhas micções, perdão, ficções. À hora presente, basta-me bem por companhia a sombra mesma. A minha, digo. Nem de imaginação careço: suficienta-se-me a profusão de figuras, azulejos, algum raro cão vadio ou perdido, realejos sem macaco, macacos sem realejo, pontes à distância & distâncias sem travessia possível. Marcho em frente – seja em frente do que for, desde que atrás de ninguém. Não sei de mim (nem de quem seja ou não for) pela noite que se acerca. Talvez me afrancese: umas quantas páginas de Proust, outras tantas de Camus. Não há-de ser serão complicado.
    Por enquanto, um maduro pré-podre de chapéu-à-marialva. É de paleio-cliché: irritar-me-ia se eu lhe desse troco. Não dou. Passa-se isto em um antro afinal benigno do Calhabé, perto de ali onde passava a automotora da linha da Lousã. É daqueles velhos que deixam crescer o cabelo para trás para parecerem beethovens ou léos-ferrés ou pintores ou gentes-dessas-de-prestígio-pré-internet. Não, o dito não me irrita. É, como eu, apenas outro sandeu(s). De momento, tasquinha tremoços, admirável rilhar de próteses-dentuças.
    Também Coimbra é pasto de gaivotas. As mais remediadas andam ao Mondego; as mais indigentes, ao lixo. Vi, ora mesmo, duas – e não estou perto do rio.
    Como tais aves, as pessoas. Não todas, naturalmente. As não-todas? Falcões, umas. Milhafres, data delas. Abutres, avonde. Pardais sem Deus? Mas que livro – e de quem – lêdes?
    Sigo. Dizem que o falcão-peregrino atinge os 400 km/h em pico de voo-stuka-descendente. Acredito – mas nunca vi. Outras coisas vi, em alternativa viva: e que posso passar a descrever.
    (d)Escrevendo:

    Certo serviço de louça pintada a rox’azul na Nazaré
    Geada no mondeguino Bolão sobre musgo natalício
    Quadros pintados a sós pelo meu Irmão Zé
    & demais beleza sem esforço ou sacrifício.

    Outro rol de coisas que acabam deteriorando o meu asseio, perdão, passeio:

    Isso de mudares de amante como quem nem de camisa
    Mais isso de a insuficiência mental odiar a gramática
    E ainda isto de a pré-concepção ser sistemática
    E o dar-se a quem já tem & não a quem precisa.

    Talvez mais surja o fito, se reformulando:

    Queres ir comigo à Biblioteca Joanina?
    Ou ir ver o Anselmo (que, não tarda, morre?)
    Ou queres uma dose da minha insulina,
    desta que pica-pica até que não sobre?

    Sobre púrpuro fundo, a nau retornante
    vem d’ouro-brasil & d’índia-canela.
    Não te esqueças q’hoje são o zanos da Nela:
    traz o pão-de-ló & o arroto-espumante.

    Ou então (mas com recrudescente amargura):

    Ai ó meu rico Pai d’águas & pedras
    Ai minha rica Mãe de nascimento
    A vida afinal tem bem mais merdas
    Q’aquelas à hora do nascimento.

    Vejo entretanto uma pessoa desfalecida/perturbada:

    Ninguém vai querer crer no que ela passa
    Chalaça atirada e malperdida
    A pessoa é de borla & vem de graça
    Grassa por aí merdura fementida.

    O meu passeio-prosa (ainda) não é de todo perdido: abanquei assento-nalgas em tugúrio azulejado com balcão-inox: não o Rodrigo do anão Jongbloed da estufa no Bolão, mas coiso perto d’afim. Entra um angolano autoengraçado, incapaz como tal de baixar as tónicas & de altear as mudas. Ele é autoengraçado. E usa gorro lanígero à guisa daquela velhota da sala-de-espera, sim, mas este, em vez de à-Senhor-dos-Passos, cor-de-cagalhão-em-fila-de-espera-para-vala-que-não-há.
    Preciso de ser mais preciso: mas sem excessiva concisão ou demasiado laconismo – far-me-ia tal incorrer em meiose, pecado que, fora a microbiologia, é venal-gramatical. (Tenho uma gramática-de-menino-1978 que me o garante, agora que a recuperei de caixotes pós-divórcios.)
  
 (...)

15/01/2022

REGISTOS CIVIS - 17 a 20

Rosalía de Castro

(1837-1885)


Pela tarde - 17

                      


Quanto a um de que ainda não falámos até agora, pode dizer-se, para já, que a casa lhe parece irremediavelmente mais do que meio vazia. Escusado atravancá-la de móveis, atafulhá-la de imagens, ou de quinquilharias, ou de máquinas – ou até mesmo de livros. É o que lhe parece.

Lhe a ele: um de que ainda falaremos.

Ei-lo, anónimo por enquanto, em sua tarde.

Sempre rompeu algum sol na quarta-feira, 12 do I.

Há tarefa a cumprir até às 17h00m.

Muitas arestas por adoçar, até lá.

Um pouco de esforço, alguma dedicação.

É uma tarefa de carácter prático.

Ele faz por desemaranhar-se de pensamentos colaterais.

Enquanto tudo isto lhe é constante na tarde sua contemporânea, um rapaz recebe a má-nova de certo inesperadíssimo óbito; um casal viaja de autocarro em meio a uma tempestade de areia, lá para o Norte de África; uma rapariga de camisola cor-de-caramelo penteia-se longamente à janela; no azul disponível, as aves procedem à pontuação volante do texto do ar.

O Sol titubeou, já não exerce sua magistratura, já as primícias da neonoite se instauram em as instâncias totais da realidade. O corrente Janeiro tem feito algum jus (mas, hélas!, não muito) à dimensão invernal. Sabe bem, ao deitar, ocultar o prometido cadáver em flanelas propícias, deixar tão-só de fora o nariz, imaginar que se é recolhido à cabana sita na imensidão, como um firmamento caído, da tundra.

Ele desembaraça-se já, ou finalmente, da tarefa vesperal, julgo que a razoável contento. Faz & serve-se chá, que guarnece de bolachas-de-arroz com compota de morango. Pode ser que nem assim tão meio-vã ou desamparada seja esta casa. Parte da estrutura é de madeira sólida, robusta, bem escorada. A lareira, naturalmente, foi aberta na parte de pedra da habitação. Ele empilhou lenha de ambos os lados da bocarra. É recurso funcional. Por poupança, só lhe dá ignição quando a noite já avança como derradeira promessa cumprida.

Não sairá hoje de casa, preferindo investir em horas íntimas o capital do serão. Televisor desligado, um volume francês dos anos 50/XX, um conhaque morno, talvez uma pastilha de serenal. Muito mundo se agita para lá das raias desta casa. Fora, o jardineiro vigora em o tempo secreto das existências vegetais. O residente aquieta-se na poltrona que enfrenta o lar, onde a lenha preparada espera o fósforo, o sonho do lume, o holocausto do frio que já se sente.

Disponíveis sempre, convidadas ou não, lembranças entrelaçam-se como pedúnculos de cerejas. Coisas mal remendadas, aparatosas inconsequências, fontes de direito, drenagem de pântanos, Natália Maria Antunes Pereira, olha quem. Ele sorri à revelação, como em tabuleiro de líquido fotográfico, desse rosto subindo do fundo das águas mentais. Bonito rosto, róseas feições, irremediáveis léguas/décadas, mal nenhum.

Este que sorri é Túlio Serafim d’Anes Galo, ei-lo nomeado.


 

Túlio - 18

                      


 

Ainda aparece algumas vezes no Café d’Alice, mas não tantas quantas, nos pretéritos anos 80/XX, soía. Separou-se em maus-termos daquela alemã-amor-de-praia. Passou, ao que consta, mais do que um mau bocado. O novo emprego foi providencial – além de se ter mudado para o Tovim, esse Tovim de onde Mestre Nemésio saía a cavalo até ao Dianteiro: upa-upa que é de garupa. Talvez apareça na Alice na próxima sexta-feira, 14 de Janeiro. Até lá, porém, há que serem escritas mais linhas, costuradas mais algumas páginas, mais assentos averbados, mais assentados averbamentos.

Tem mantido relações epistolares com pessoas de largo espectro de laborações solitárias:

um engenheiro de pontes vivendo em Ílhavo;

um topógrafo de Santiago do Cacém;

uma manicura da Alameda lisbonense;

um professor de geometria nado no Barreiro;

um poeta de Sines que dorme calçado;

uma duquesa de extraordinária longevidade;

um filho de guarda-rios chamado Cândido;

um editor de patranhas de auto-ajuda;

e um jogador do Esperança de Lagos na época 1975/76.

Quando sai a passear pela Cidade, desce a Elísio de Moura, acampa cerca de hora e meia no Calhabé, em jornada boa sobe a dos Combatentes, inspira fundos haustos de ar verde no Botânico, bebe uma cerveja entre a estudantada na Praça, sobe a Celas, sobe aos Olivais, sobe ao Tovim. Ainda palmilha boas milhas. Mas não sai muito, já não sai muito. Parece que todos acabam por se recolher, primeiro, e por acabar-acabar, depois – quando até os depois se acabam.

 


 

Carta do poeta de Sines a Túlio Galo - 19


 

Senhor:

Tende piedade nenhuma de mim.

Se neste artificioso bosquete de betão resido, mea culpa só, tão-só, somente & apenas: tenho por norma experimentada que em qualquer pardieiro a minha solitude seria da mesma irrelevância.

Olhe o senhor que sou nada mal remunerado. Tenho sinecura, vulgo tacho – e por mecenas da minha poesia-part-time certa matrona de pastelaria com quem fornico às terças-feiras, salvo se vésperas de feriado.

A si, sou-lhe em plenitude grato por ler-me as estrofes. Não as julgo publicáveis senão em edição-de-autor – mas nem eu as considero de tal mérito, ou necessidade, ou sacrifício, ou desperdício. Sigo compondo-as, no entanto. Matar-me, não me mato, pois que a vida se encarregará de tal cometimento.

Viveu aqui em Sines um poeta-Poeta a sério: Al Berto. Sabe o senhor Túlio que ele nasceu aí-Coimbra? Não é todavia um poeta conimbricense/coimbrinha: é poeta-Poeta, não é um Torga nem um Alegre. Desculpe-me o estar com estas coisas a queimar-lhe tempo, mas de verdade não tenho com quem falar. (E não, não conta o que gemo às terças por uma nota de cem & uma caixa de empadas, que não vou em doces.)

Se algum dia, por alguma estranha razão, por aqui passar, queira ser senhor da supina cortesia de me noticiá-lo. Almoçaríamos a meu convite, claro. Ou jantaríamos. (Nunca acontecerá, bem o pressinto.)

Conte-me mais, conte-me quase tudo.

 

Jesualdo Rita de Menezes Pargo


 

Averbamentos - 20

                      


 

Faltam dezassete dias para as eleições legislativas.

Tem havido campeonato de debates na televisão.

Fora deste circo, vivem no País as forças-vivas,

às quais corresponde significativa população.

 

A rotunda matrona, ressuscitada dos arquivos,

perora a mote de um autor de culto dito maldito.

Nem tal autor nem tal matrona são já vivos.

Morrer nunca é só, Zé Gomes Ferreira, por um bocadito.

 

Gringos travestidos, tenças corruptas, editores sem porvir,

pançudos assessores-culturais em, bien sûr, Paris.

Bobos & bobós da corte & quantas putas a parir

bastardos que vós, sérias matronas, também paris.

 

Achego-me à vidraça elevada que ali esclarece a marquise,

miro sem ciência o velho novo mundo além plasmado,

faço café, torro pão, nada me falta de que precise,

deve ser pêta Os Lusíadas salvos p’lo Zarolho a nado.

 

Em esplanada a que não voltarei, li outrora Rosalía.

Foi em cidade que mesmo à torreira me soube a fria.

Decapito um a um tais anos maus, desperdiçados.

Enfim todavia: pois que irremediáveis, estão remediados.

 

Fátima do Céu Pacheco Moniz, estrela-de-cartão de Carcavelos,

divorcia-se de Luiz Baganha de Gonelha Vasconcelos.

Casa-se, ao que por ’í dizem, na véspera das eleições

com Mário Alberto Corrêa Bordalo, o da central de camiões.

 

Filmados, ressuscitados, os mortos literários

voltam para assombrar os instantes ilegíveis

do analfabeto presente, pasto de sicários,

vários dos quais, aliás, no dia 30, elegíveis.

 

Sobre fundo par(a)do, aind’assim algumas tintas,

amarelazulilássépiarroxocre em remexida paleta.

Barcos que trilham terra, ínsuas, quintas.

Cristos caminhando sobre água – e sem muleta.

 

É por vezes precário, isto de ser-se coevo do transitório.

Como dormir em cama com rodas, por assim dizer.

Há que merecer merecimento, não se nasce meritório.

Nasce-se porque se nasce, às vezes sem se o merecer.

 

Nem todos os mortos são literários, convenhamo-lo.

Neste aspecto, prolongam afinal muitos vivos de agora.

Quanto ao tempo ainda por viver – vivamo-lo,

que cedo se faz tarde, tarde de mais, vai-se tud’embora.

 

Em outeir’alto a capelinha à luz alveja,

no vale o povo vão vilão viceja.

Dos ignaros o pedantismo causa urticária,

o inocente burro não é como eles tão alimária.

 

À pantalha televisiva assomam sumidades de pataco,

vigoram ideologias de esguelha-esquerda sublimadas.

Do Estado parasitas, ganham bem para o tabaco,

taco-a-taco com merdas de si clonadas.

 

Pelo ar restrito de minha alcova perpassa

uma tela de Renoir, La Petite Fille au Ruban Bleu.

Não são de cotejo, nem tal leveza, nem tal graça:

a pequena Irène, de perfil, em porvir que acabou.

 

Na colina a casa azul ainda dardeja

como um olho cerúleo mui atento.

É no postal que ainda guardei a tempo

da devastação de que tão pouco sobeja.

 

Em roda-viva-catadupa-gira-tempo

sucedem-se as notícias-sempre-as-mesmas:

ranho de caracóis, baba de lesmas,

e tu, grande Bocage, cagando ao vento.

 

Tudo em democracia, vá – e ainda bem.

Bufa-se guerra fora, lá para Lest’Ásia.

Por cá, o Professor tem uma amásia

– mas tal é só com ele & mais ninguém.

 

Os elementos constantes são a alienação, a pobreza,

o isolamento, a delinquência, a solidão, a tristeza,

a vacuidade, a inconsciência, a inflação, a incerteza,

a vanidade, a má-vontade, a mesmidão & a chateza.

 

TAP & Novo Banco são sorvedouros de dinheiro,

o roubo-de-colarinho-branco vai saindo impune.

Nenhuma pessoa séria fica imune

à ganância de tanto bandoleiro.

 

A “Europa” burroplutocrata, francamente, cansa.

A Rússia dos gorilas-brancos, muito mais.

O fantoche norte-coreano enche a pança.

E a América do Sul, aquilo é tudo pantanais.

 

Israel passou de vítima a algoz.

É perfeito case-study da hipócrita virtude.

Para a Palestina, ser tão perto é atroz:

mas tudo parece bem a Wall Street & a Hollywood.

 

Números pandémicos do dia? Aqui vão:

mais de 40 mil casos novos d’infecção;

mortos, mais vinte e dois para a numeração

(19203 perdeu já, até agora, a Nação).

 

A católica pederastia d’enrabar-meninos,

essa clandestinidade d’apócrifo cristianismo,

parece ter tido já melhores destinos:

mas eu não me fio no jornalismo.

 

Não, no jornaleirismo é que eu me não fio asinha.

Conheço-o de ginjeira, sendo p’ra mim matemático

que o que a tv-burra zurra, daninha,

é tão-só numeral do reles circo me(r)diático.

 

A safa a tudo isto está nos livros.

Pus-me a reler Camus à força toda.

Não me seduz o barregar dos chibos.

Estimo bem que quem discorde mais se fôda.



 

Canzoada Assaltante