13/01/2022

REGISTOS CIVIS - 12 a 16

© Olle S. Nevenius


Trepidantes, esquivas, furtivas aventuras - 12


Segunda-feira, 10 de Janeiro de 2022

                      

 

Tudo verídico, valha tal o que valer:

 

Quatro pessoas, pelo pré-entardenoitecer de segunda-feira, 10 de Janeiro, transmitindo-se informações de teor jurídico-político-administrativo. Intimamente, secretamente, uma das pessoas diz-se: “Estou a ser útil, prático, não estou a fazer versos.” São três mulheres e um homem. Às 17h12m, desligam-se, prometendo regressar amanhã ao mesmo trabalho.

Um grande barco vermelho em trânsito entre ilhas. Bela enormidade mastodôntica de tal embarcação. Comanda-a um homem alto de barba fulva, não dizem o nome dele, mostram-no apenas: de pé, em silêncio, olhando em frente, sempre em frente, avaliando, avaliando sempre, sem pausa nem interlúdio.

Qual leão podremente decrépito e odremente saciado mirando de longe as gazelas (vibra o revérbero da savana crestada), o velho caixeiro de farmácia vendo passar o mulherio pela Praça 8 de Maio.

Macambúzia sordidez das infidelidades conjugais. Pequeninas infâmias de gente pequenina. Casos escuros, uns. Outros, inventados. Invariavelmente tristes, todos.


 

Código - 13


                      


A existência individual como código de procedimento auto-administrativo. A terça-feira-11-de-Janeiro acontecendo em total alheamento quanto a cada indivíduo (humano ou não). Aceitar-se ou não isto – é indiferente à natura da indiferença. Intimamente, cada um vise a proporcionalidade possível. Ou a sua legitimidade mesma. Em vigília incessante –pois que a distracção pode ser mortífera. Nada que a solidão essencial afinal não abarque.

Cronometricamente, um minuto da infância era de sessenta segundos; uma hora da adolescência, de sessenta minutos; da maturidade, um dia contava vinte e quatro horas; na velhice, a semana conta outros dias, nem sempre sete.

O parágrafo anterior é & não é um disparate. Toca uma verdade objectiva (incorpórea também), ao mesmo tempo que sujeita o sujeito a uma espécie de absorto desencontro de si para consigo. Também é código, também é procedimento.

Quanto, ou que, não é solilóquio?

Que plenário não é de solidões?

É vero o encontro? Talvez: só que o

de sozinhos disfarçando multidões.

Não escapa a isto Liberto, em sua garagem dormitória; nem Borges, que há muito partilha tecto – mas não cama nem mesa – com a mulher; nem o Homem-da-Barbuda-da-Confeitaria; nem Moleiro, polímato equívoco; nem o bisavô galego; nem o deponente; nem o engraçado Péricles; nem Arrozina – ninguém escapa.

Terça-feira, 11 de Janeiro. A lapsos, o Sol rompe a campânula nublante, espevita as aves, lambe a oiro as bandas do Campo, choupos, salgueiros, pinheirais da orla noroeste. É muito bonito & é para todos. Acontecimentos destes (a)parecem como lenitivos, paliativos, construtivos até. Tudo vai da auto-administração? Ou nem tudo mas alguma coisa, um mínimo-sobrevivente. De tal se siga fazendo civil – e cívico – registo.


 

Dias assim - 14


 

Atracção como repulsa.   Exterior como íntima agitação. O povo dos sonhos agindo mudo-a-preto-e-branco no sono de cada um(a). Cacos quebrados de dias antigos – ou, alguns, futuros. Infinitude das coisas finitas. Uso & fruição de uma transitoriedade. Entontece-se considerando a cósmica vastidão. O mesmo quanto ao infinito-para-dentro, género átomo-constelação. E enquanto tudo isto, a propriedade-horizontal das fracções de prédios, dentro das que a pobre gente & a pobre vida.

Dias assim – mesmo assim, erguendo um livro, mesmo erguendo um livro assim mesmo. Das pessoas (ou figuras; ou espectros) já referidas neste canhenho, muito bem, nem tudo se perde – pelo menos, por enquanto.

Entre títulos & capítulos, nunca desistir. Nunca d-existir. Acabamento & terminação são camiões desenfreados que do ápice da ladeira vêm zurrando sem retrocesso possível – aproveite-se por enquanto a boleia.

Sim, dias-assim-noites.


 

Jongbloed - 15

                      

Terça-feira, 11 de Janeiro de 2022

 

Outra manhã virá diáfana refrescar este quarto. Dúvida nenhuma. Por enquanto, os (poucos) móveis rangem como ossos velhos. Deixá-los. Por frinchas recônditas como ratos, a humidade alastra, mana, colhe & tolhe. Deixá-la.

Descendo a ladeira da Estação Velha, um anão vem levitando sem pressa. Deve ter ido ao Rodrigo beber vinho-do-lavrador. Passa pelo túnel sob a via-férrea, mora ali para o Porto Santiago, por aí. Trabalha numa das estufas do Bolão. Já passou os cinquenta. O pai era holandês, refugiou-se em Portugal em década pior do que esta.

Este João José Jano Jongbloed é figura de mui refinada solidão. O corpo não ajuda. Ele cultiva morangos, hortênsias, grelos, lírios. Recebe o vencimento, gasta um terço, poupa o resto no banco dos Correios. À noite, encerrado, sente o grande vento dando nas grandes árvores. Quase tudo lhe é grande – ou lhe parece. Mas cada vez menos, à medida que envelhece. O medo desapareceu, a raiva também. Com um banco de madeira, destruiu o joelho a um calmeirão que quis humilhá-lo. Foi durante o Mundial/86, o ano do Maradona. Tantos anos volvidos, o episódio fá-lo ainda portador de uma certa aura máscula.

E porque ganha cada dia, dia a dia, dia por dia, merece a noite com a manhã que dela nasce. E tal como os altos, também para ele o caminho é longo mas curtas as pernas.


 

Interregno - 16

                      

Quarta-feira, 12 de Janeiro de 2022

 

Alguém em movimento dá andamento ao mundo

O circunscrito mundo de seu procedimento

Tenho sabido de circunstâncias interessantes

Recreio-me conhecendo, sabendo porém que esquecerei.

 

Herdar activos não é como herdar passivos

O mundo dos bens também acarreta males

Milhares de moedas podem esmagar a ex-infância

Morre-se muito de dívidas & de complicações renais.

 

É por fora apenas que sei algo deste mundo

Destes afinal virtuais alguéns em movimento

O meu castelo é de cartas erguidas às nuvens

Primo pela irrelevância sem imposto-de-selo.

 

Erijo a literatura figuras que se me particulam

Atrai-me a caneta cada particularidade

Desde que capaz de uma universalidade ao menos local

Não sei como distingo, sei que se me distingue(m).

 

Ontem ainda, pelo entardenoitecer, amparei a fadiga

Estendendo um pouco o porco, perdão, o corpo

Televisor desligado, cortinados justapostos

O chá arrefecendo à beira da mão adormecida.

 

Amanhã, não sei. Amanhã é só quinta-feira. E depois?

Laborarão decerto as autoridades tributário-aduaneiras

Os herdeiros confrontar-se-ão o mais vil/ferozmente

E as pombas farão pela vida lendo o chão com o bico.

 

Há mais de trint’anos, eu gostava de ir-me de comboio

Eram viagens breves mas que se me alongaram

A ponto de ’inda hoje seguir, por assim dizer, indo

Mirando os rápidos postes exclamativos da corrida.

 

Revivo esse meu trânsito em estado quás’indolor

Uma pessoa acaba habituando-se a ser apeadeira

Apeei-me de facto desse circuito hoje imprestável

A não ser para versos, como em este registo.

 

A alheia mediocridade não oblitera a própria

A hetero-irrisão é irmã da que me assiste

Julgo haver nisto alguma sabença não-despicienda

Nem tudo é merda, perdão, perda.

 

O fruto de cada dia é em si o dia mesmo

Algum ouro remanesce alhures, simbólico mormente

O ouro-ouro também, mas este gera doenças

É uma pandemia de especial acutilância deletéria.

 

Ontem à noite, acabei-me estatelado cedo no sono

Vi-me teletransportado para um tempo estranho

O tempo em que os irmãos falavam

Refiro-me aos mortos mas aos vivos também.

 

Registos a averbar como a anular, quero saber

Quero muito saber quase sempre, mas só quase

Também a ignorância pode ser gratificante

Ah sim, também o néscio rejubila infantemente.

 

Sob a abóbada intracraniana, as circunvoluções da noz

São toda uma central hidroeléctrica esfuziante

Não há uma mente igual a outra, só a miséria

Só a miséria se clona recíproca sempre.

 

Isenção, diminuição ou agravamento de emolumento

Recebimento efectivo de gordos honorários

Qualidade predial da posse, afortunado possidente

Afortunado ou infeliz, dá muitas vezes (n)o mesmo.

 

À janela alta assomo para mirar os longes

Máquinas amarelas laboram mudamente à beira-vala

Ainda há quem fora de versos aja em conformidade

Não é tempo perdido saber que há quem o ponha a andar.

 

Procedo, por mim, à organização de uma conservatória

Perfeitamente vã, bem o sei, é a minha repartição possível

Pertencem-me as decisões instrutórias, a tinta, os carimbos

Todas as certezas, perdão, certidões impermanentes.

 

Informação matricial? Alguma bem recorrente

Outra mui menos disponível ou sequer alcançável

Por estes dias nem sempre o artigo natural se releva

Há muito de poço na tal noz hidroeléctrica.

 

Espero notícias que receber não quero ou tolero

A partir de (in)certa idade é-se sentinela-perpétua

Tem sido assim como escrevo, sem volta a dar-lhe

Todavia julgo ser da comum condição a todo o vivo.

 

Na sobreloja da Sapataria Santana um rapaz

Na rua passam senhoras com seus petizes

O cego Eduardo ladainhando-se à esmola

O chinês das gravatas budamente sentado à porta.

 

Em 1979, à face do Mercado D. Pedro V, na manhã cinzenta

Sobem a Celas/Olivais os eléctricos cor-de-canário-velho

Um casal ainda moço carregado de víveres

Ainda o posto médico inicia a Avenida Sá da Bandeira.

 

Dentro – é dentro que traçamos o trevo-viário

Ante encruzilhadas pode contar (ou não) o passado

Desconheço por que me assola tal povo dos sonhos

Pessoas esbracejando alarmes quando já nada arde.

 

Queríeis quê? Serdes por aí picaramente épicos à Fernão Mendes Pinto?

Podeis sê-lo deveras – mas não conta para a reforma.

Queiramo-lo ou não, o hino é a música-do-pingo-doce

O século corrente é quanto milénio pode(mos) ser.


 

12/01/2022

REGISTOS CIVIS - 10 & 11


 

Arrozina - 10

                      

Sábado, 8 de Janeiro de 2022

 

Sou Arrozina. E Maria de Vermelho Mariano. Fui casada com um senhor ultimamente em voga neste canhenho, digo, Rui Fabrício de Cal Moleiro. Já não sou, sim, porque não. Há mais homens, pelo que há mais vida para lá de um só. E mais mulheres também, sejamos sinceras – embora eu, por mim, uma vez só.

Penso aqui em voz alta. Sou uma voz escrita, pelo que nada devo à veracidade gesto-facial. Sou uma mulher como todos os homens: mortal.

Não sou, por outro lado, e de outro lado, natural de Coimbra. Nasci, como Manuel António Mota Pina nasceu, no Sabugal de Portugal. Não se nasce ali para se ser do União. Nasce-se ali como em todo o lado se nasce: para morrer. Vive-se alguma coisa entretanto – mas é para morrer, amigos meus: Unionistas como Academistas, não brinquemos.

Deixei-o. Deixei-me dele. Frequento hoje a minha casa a sós: muito gente dentro da minha cabeça a ocupa sem alguém fora. Pensei, como rapariga-noviça, casar-me com o primeir’último homem – mentira, é mentira, maldito Vaticano. Há mais vida. Ou bares. E agora, internet. Não dá para amar, mas para foder, ai isso sim, para isso dá.

Não resido em Coimbra. Moro perto da Torre dos Clérigos. Deixo isto esquecer-se assim. É só uma maneira de dizer, ou antes, de ser esquecida em completa decência.


 

Interlúdio - 11

                      

Sábado, 8 de Janeiro de 2022

 

O pobre-diabo de não-jantar veio ao bolo-de-arroz.

As pequeninas pastelarias são quase sopa-dos-pobres.

O fantasma-de-Sidónio surge na Figueira da Foz:

depois de morto, vai ao casino jogar uns cobres.

 

Fictícia ou factícia seja embora

a minha invenção-nomenclatura,

é tudo escrito de cavalgadura

que confunde vid’ano com segundo-hora. 

11/01/2022

REGISTOS CIVIS - 8 & 9


 

União - 8

                      

Sábado, 8 de Janeiro de 2022

 

O Clube de Futebol União de Coimbra foi oficialmente registado ao segundo dia de Junho de 1919. É o emblema da maior afeição desportiva de Rui Fabrício de Cal Moleiro. (Sim, o mesmo Moleiro que lamenta indeferir – mas terminantemente indefere – o pedido de albergue/sofá que lhe fez chegar um desventurado, por mais amigo. O indeferimento fica registado no Sábado, 8 de Janeiro, mas foi proferido a 4, 3.ª-Feira.)

O União é a insígnia dos não-doutores de Coimbra: clube, portanto, de uma minoria local, dada a esmagadora - ou pretensa – massa de doutorados da/na urbe. Operários, futricas, mais ou menos copofonistas, recepcionistas, electricistas, bate-chapas, coveiros, canalizadores, baristas, estacionadores, ciclistas, escrivães, fazedores de pães – e até algumas senhoras: Vai Tudo!

O campo é na Arregaça, arrabalde afinal central da anónima massa urbana que faz, da Portela, a Figueira possível. As cores são o azul e o encarnado-robusto. O adepto-mediano? São-no todos, incluindo alguns deveras doutores que se não deixaram seduzir pela sereia-académica. A glória vivida ao longo de um século inclui derrotas. Nem de outro modo poderia ser: os Unionistas sabem que da farinha de viver se não faz panis angelicus.

Tal como a devoção à formosa & segura Rainha Santa, a devoção ao União não é profana. É mais uma fé grande num deus que todos sabem pequeno. Em Coimbra, ser do União não é como ser de Os Belenenses em Lisboa: porque ser Unionista é ser segundo para ninguém, quanto mais terceiro.

O unionismo de Rui Fabrício é o mesmo de Alfredo Bonacho, José Carvalho, Augusto Gonçalves e João Maio. Depois do jogo ao domingo, vai tudo merendar ou ao Katekero em Ceira ou ao Leitito na Pedrulha ou ao Olímpio em Antuzede ou ao Progresso na Adémia: malgas de rancho ou feijoada, posta de bacalhau assado, enguias (no neves da Adémia ou no Piçalhudo da Cidreira), punheta alhad’avinagrada – e tudo regado a carrascão do mais tinto.

Era na Avenida Emídio Navarro, face ao Parque-Jardim Dr. Manuel Braga, face ao Mondego cantado por Camões, por José Afonso & por Alberto Ribeiro – et alii. A sede era na Emídio Navarro. Já tínheis passado, no sentido Portagem-Brasil, o Hotel Avenida, a Agência Franco e a Foto Rasteiro. Era ali. E ali foram escritos, por um outro Unionista, versos merecedores talvez de registo civil, cívico e civilizado:

 

 Péricles, versejando - 9

                      

Sábado, 8 de Janeiro de 2022

 

A morte não diz talvez.

A vida sim, mui tal vez diz.

É conforme a sensatez.

Sou Vermonte & d’Assis.

 

Chamado à colação,

sei (por força de ofício)

do Sr. Rui a afeição,

União de sô Fabrício.

10/01/2022

REGISTOS CIVIS - 6 & 7


 

Deponente - 6

                      

6.ª-Feira, 7 de Janeiro de 2022

Sábado, 8 de Janeiro de 2022

 

Deponho pobremente. Bem o sei. Trafico mal as normas narrativas, que tão bem traficadas vejo por tanta ilustre gente (o mor dela, morta). Sou raramente ortoépi(c)o. Sei-o bem. Será talvez, ao menos em parte, da minha insuficiência sensorial – mas não da falta de aventuras anónimas, ou trepidantes, ou esquivas, ou furtivas. Todavia, também eu mereço ser civilmente registado neste canhenho. Também o umbigo quer ser & ter assento de nascimento - que a morte é certa, tal como o esquecimento.

Costumo, em detrimento do enredo, seguir pela via-verso. Com ou sem rigidez métrica, a lírica permite-me calafetar mais ou menos eficazmente as rachas & as gretas da forma-narração se & quando por mim praticada.

Outro aspecto de somais importância: está já tudo contado. A piada estará em recontar de modo o mais possível fresco, de maneira o menos requentada possível. Ulisses regressa a casa. Castorp vai para a guerra. Romeu mata-se por amor. Quijote (con)funde literatura e/com real. Bárbara cativa a quem a escraviza.

Na minha terra, há noventa anos, mataram à paulada um rapaz de fora. Atrevera-se ele a vir tentar o descante de uma rapariga nativa. Em consequência de tal barbaridade, o nome da minha terra passou a ser antecedido ou sucedido da/pela conjugação pronominal reflexa em forma exclamativa, vulgo foda-se! Por que não alegorizo romanescamente esse morto tão moço (ou esse moço tão morto)? Diz-se que o crime foi cometido a meros metros da casita térrea em que a minha Mãe houve nascimento. (Mais uma razão para romanescar, portanto. Mas.)

Mas é que não. A prosa serve-me lindamente para mostrar boa gramática – e para pouco mais. Quando o correio não era ainda electrónico, escrevi ainda algumas cartas: a esta que aquela namorada, a este que aquele amigo – e pouco mais. Portanto, não.

É preferível o arbusto versejado. E quem comigo concorda sem esforço – é Péricles Tomás Vermonte d’Assis.


 

Péricles, respondendo - 7

                      

Sábado, 8 de Janeiro de 2022

 

Nem sempre, nem sempre.

Às vezes, a prosa

é capaz de rosa

que do chão rebente.

De milagres gentis

é também capaz,

sagaz & perspicaz.


Péricles Tomás

Vermonte d’Assis.




REGISTOS CIVIS - 5 (edição com cortes)

© DA.


Interlúdio - 5

3.ª-Feira, 4 de Janeiro de 2022

 



Veramente interludiando-me,

aposto a vaca-magra em vil cavalo.

Rupias holandesas são meus versos,

piastras de Ceilão me não pertencem.

 

Cruzei o Rio Douro em demanda

da Leonor licenciada em festa.

Levei comigo um corpo de banda,

senhores Dias & Paio indo à testa.

 

Sou da fonte dos inventos uivantes,

faço d’irmão-de-mim não-geminado.

Só preciso de leitura sem sinecura

que meus versos aprece valiosos.

 

Ambrosia-dos-deuses-nectarina,

afago a cabecita de gato

& humores seminais à Coralina:

tríplice receita de queijo & rato.

 

Troco de chapéus sem usar cabeça?

Versejo menorismos engraçados?

Eu hei-de ser feliz quão m’apeteça,

já não deixo nem recebo recados.

 

(...)

 

Meu tempo de abrir finalidade,

ser-de-Coimbra-até-terminação.

E já agora, ser um anjo pela Cidade

cuja Rainha (Santa) é de Rosas-por-Pão.

 

Da Galiza, desceu a sul de seu nascimento

certo remo(r)to bisavô meu (talvez judeu).

Nada apuro dele em genealogias que, de momento,

não traço nem tracei, ó jesus-diabo-macabeu!

 

Deverá ter sido fundador de minha materlinhagem,

não sei, nada possuo dos jornais da época.

Da extensão de minha idade? Uns dizem que é pouca,

mas tais são mais velhos, distorcem a imagem.

 

Sei demasiado pouco, mas pertenço a leituras

que me infantilizam mui genealogias futuras.

Sim, cuido de bibliografias

que me aclaram as noites & me nevam os dias.

 

Sofro não-comedidamente a morte de amigos.

Aparecem-me no jornal, quais artistas-de-variedades.

Uns, mais velhitos; mais novos, outros – não é das idades,

é antes de nascimentos volvidos a castigos.

 

(...)

 

Da Galiza, entretanto etc. 


 

07/01/2022

REGISTOS CIVIS - 4



Moleiro - 4

2.ª-Feira, 3 de Janeiro de 2022



    Rui Fabrício de Cal Moleiro; irmão mais novo de Adrião Alcides de Cal Moleiro; ex-marido de Arrozina Maria de Vermelho Mariano; Amigo de seu amigo; e residente em Atrás-das-Eiras, nesta Cidade, 33, 3.º Esq.º.
    Outros artigos-verbetes a seu registo:
    Cauteleiro de sorte-nenhuma muitíssimos anos;
    Furtivo pescador de lampreias no açude (onde morreu Aviz);
    Sem despedimento nem pensão, antigo porteiro do Cinema Tivoli;
    Sem memória nem remorso, uma vez com um homem;
    e bandarilheiro de garraiadas para estudantes que não liam.
    Falo amanhã com ele, bem calhando. Amanhã, digo, algures no cronograma do mesmo Janeiro de Bento Ramiro de Bruma Liberto. Ou por aí. Falo amanhã com ele – mas atenção! – se chegar a amanhã & a ele. Só amanhã posso dizer, lá chegando, o que será de mim em o próximo ano, lá retornando.
    Rui Fabrício, velho Rui: espero de ti resposta afirmativa, consentânea concordata, uma centena de euros por mês pelo sofá (só noite, sem chuveiro).
    O Rui ainda trabalha, está perto da reforma mas. O Fabrício ainda se queixa, está longe da reforma todavia. O de Cal Moleiro é fotografia-oval de Pai & Mãe: na saleta-escritório.
        Na Praça dos Heróis do Ultramar adejam as bandeiretas triangulares de uma espécie-de-Ceuta que a Académica já não conquista: mas Rui Fabrício é de 1919, digo, é do Clube de Futebol União de Coimbra, fundado a 2 de Junho de 1919.
    Ora, estes Registos Civis acontecem 102 anos & uns trocos depois. Provavelmente, tarde de mais – como aliás tudo acaba por.


REGISTOS CIVIS - 3


 


Interlúdio - 3

2.ª-Feira, 3 de Janeiro de 2022



O homem da barbuda da confeitaria?
Ó pá, cuidado, esse gajo é psicomaníaco:
dava em jejum à filha, Coralina Maria,
vinho-do-porto, estricnina & amoníaco.

A visita do Nixon ao de dentição má, Mao?
Ó pai, cuidado, sociopata meets genocida:
ou versa-vice, q’o q’é ripa é tudo pau:
quão mamou Coralina de pesticida?

Intento ter piada ante/entre tristonhos
que como eu vivem d’inertes fantasias.
Às vezes, faço rir – mas só em sonhos
descoloridos como a paleta dos dias.

Declino ainda o meu latim como o Brel fez:
rosa-rosa-rosae-etc.-etc.-etc.
Do Nixon ao Mao, é tudo soez:
etc.-etc.-etc.- etc.-etc.-etc.

Certa vez, à chuva, eu, em Peniche,
cosido à muralha, empós ao forte,
lambi o sal aos dias, qual caniche,
nem à chuva era de ter mais sorte.

Hoje, 3 de Janeiro, espero o telefonema decisivo
do Anjo-PBX-da-Misericórdia -Euromilhões.
Em ele não telefonando, como então sobrevivo
eu que, como Borges, me não gabo de aposentações?

Abriu-se, qual meretriz, uma padaria-pastelaria
à esquina do Turíbio-Vetusto-Camiseiro.
Não posso hoje ir-me a ela, não calha o dia,
que o prometi a Rui Fabrício de Cal Moleiro.

REGISTOS CIVIS - 2

© DA.



Borges - 2

2.ª-Feira, 3 de Janeiro de 2022


    O homem que minava metal escarafunchando o contentor de lixo sito ali ao alto da Estação Velha: António Maria da Ventura Borges. Valha a verdade: não precisa de andar à escória para sobreviver acima de bem. Foi durante 36 anos escriturário da PSP, goza de uma reforma jeitosa, não precisava. Mas anda. Outra verdade: com o que recebe do sucateiro Rogério Eliseu de Pinho David, compõe mais do que bem o ramo de suas contas mensais. E sempre se entretém, em vez de estar em casa a coçá-los e a ouvir o bestunto à mulher. Começou ao lixo como quem não quer a coisa – e agora não quer outra coisa. Descarna os cabos eléctricos, o cobre é do que dá mais ao quilo.
    Não se peça a este homem, nem dele se espere, qualquer alusão ao versilibrismo modernista, à endoscopia invasiva, à técnica esfumante de Leonardo ou à safra espumante de Anadia: o homem não lê, o homem não vai ao médico, o homem não é de meias-tintas, o homem não bebe. A mulher dele é que é uma porra: desde que engraçou com os jeovás, ninguém pode sofrê-la. O casal dorme em catres separados desde, para aí, 1981. Quem a conhece, sabe que não são muitos anos.
    Na segunda-feira, 3 de Janeiro, António Maria entrega ferragens velhas a Rogério Eliseu. Embolsa 27 euros al contado. À vinda, compra dose e meia de frango assado com batatas fritas na churrasqueira Ildemiro, ali à Rua do Sargento-Mor. Janta dentro da furgoneta, que estacionou a estibordo do açude. Desde 1987 que ele e a mulher não comem juntos. Quem o conhece, sabe bem que para ele é um alívio. Felizmente, não procriaram. Quando finalmente se der o apocalíptico fim-do-mundo, ela estará a salvo sem bagagem de filhos; e ele arderá na Terra até às cinzas do Inferno: pois que também a sucata é combustível.



06/01/2022

REGISTOS CIVIS - 1

 

© DA.



Liberto - 1

2.ª-Feira, 3 de Janeiro de 2022



    À passagem de Bento Ramiro de Bruma Liberto por o ápice da ladeira da Estação Velha, um homem estava escarafunchando o contentor de lixo em demanda de sucata metálica. Isto foi na finimanhã de domingo, 2 de Janeiro. Raros autocarros, pasmaceira monótono-dominical. Monturos de lixo por recolher: ubiquidade do desperdício. No televisor da pastelaria Lusinova, sordidez chunga do vedetismo televisivo à portuguesa. Uma hora depois, na Baixinha, rusga policial à cata de pequenos-traficantes de erva & pó. Alguns agarrados. Outros, agarrados. Na parede do Silva, gravura-calendário: lago com taludes relvados, uma menina, cisnes de opereta. Os bebedores contam-se episódios de carteiras encontradas, sem dinheiro quase todas.
    Bento Ramiro de Bruma Liberto está aposentado. Recebe a pensão mínima, dita de sobrevivência. Dorme em uma garagem sem janela nem chuveiro, cede-lha graciosamente um antigo camarada na/da guerra colonial (Guiné, 1966). Entre outros ofícios, foi lavador de carros na Renault; cesteiro em Lordemão; ajudante de motorista num depósito de vidros; e amigado com a falecida Etelvina da Conceição da Cruz Morato, Deus a tenha. Quando o Nixon foi de visita ao Mao, cuspiu no jornal que noticiava tal idílio de mostrengos.
    Os domingos são mais precários do que os restantes dias. Bento sofre-os com um estoicismo resignado. Dá uma volta à face do Choupal mas sem ir lá: ao domingo mormente, aquela mata padece de corredores aerófilos & de pederastas sufocantes. No televisor do Armando, Daniel Craig fulmina o vilão Javier Bardem. Há muita maldade no mundo, mas o herói dá a volta por cima, põe-lhe cobro até ao próximo capítulo da saga-007.

05/01/2022

PARNADA IDEMUNO - 865 (texto final)

© DA.


865 (& último)

Sexta-feira,
31 de Dezembro de 2021

    Último dia, últimas linhas deste (ainda corrente) Parnada Idemuno. Os meus poucos & escandalosamente discretos Leitores chegam comigo ao cabo de uma viagem diarístico/anuária sem consequências de mor monta. Desconhecemos felizmente o porvir quase todo. Constantes & recorrentes balancetes da vida nos contabilizamos. Nem sempre dão resto-zero – no mais como no menos positivo. A quotidianidade entorpece-nos – talvez felizmente também. Rasgos da consciência do absurdo de tudo isto (dentro como derredor) podem febricitar-nos a disposição.
    Nem bem nem muito mal me correu o ano que hoje cronogramamente finda – tão-só correu. Não alcancei a equívoca glória literária, por cujo merecimento aliás não pugnei q.b. Visitei muito um Irmão doente, almocei duas vezes com a minha Leonor, versejei muito a minha coitadinh’orfandade. Revisitei em constante (mas ilusória, auto-ilusória?) novidade a minha Cidade. E li menos livros do que precisava.
    O erotismo industrializado não me arranhou: paulatina mas seguramente, venho assexuando-me sem remorsos nem poluções-nocturnas nem gritarias-mudas nem remédio. A Beleza deixou de ter mamas, para mim. As raparigas a quem observatório ainda presto – têm todas mais décadas do que as que, a mim como a elas, restam de vida.
    Não há-de ser hoje que releia, partes sequer, deste Parnada Idemuno. Quando puder (mas é despesa…), imprimirei a versão dáctilo-composta a que fui procedendo para publicação em blog (www.canildodaniel.blogspot.com). Talvez então releia/recupere alguns instantes de tantos dias, afinal tão poucos.
    Meros minutos (onze) passados do meio-dia, está calor. É anormalidade devinda normal – que abomino: tal como abomino quaisquer ditaduras. Não hei (não hemos) qualquer hipótese de retorno às 4-estações-4 com que antanhamente cada ano se mostrava & demonstrava. Não julgo porém muitos os anos que tenha de subditar-me a este escândalo climático.
    Um cãozito branco de clarões pêlo-dourados vai patitando o patamar-varanda que dá ao Mondego & a Santa Clara vist’aberta. Delicioso quadrúpede ínfimo! A cauda enrolada em perfeito ponto-de-interrogação, a que o exposto ânus dá o ponto perfeito! Vai ele farejando mijos rivais na vegetação disponível. Bonito & pequenino como um gesto de boa-fé, desses gestos que de vez em quando urdimos por hipócrita histriónica caricatura de nós-mesmos.
    Como ontem, em diálogo-que-não-monólogo com o meu máximo Amigo JoaKing Jorge Carvalho (filho de Delfina & José), reitero-me hoje certa quase-inveja por quantas pessoas são capazes de desprendimento – não só funebremente a Amados-Mortos, como a Imperiosamente Amáveis-Vivos.
    Tirante isto tudo (o tudo ’té-’ora-escrito), retenhamos:
    Manuel António Pina (1943-2012), cujos papéis vivem;
    António Osório (1933-2021), cuja Mãe é escrita;
    Ruy Belo (1933-1978), demasiado cedo para tão tarde de mais;
    Rui ex-Benedito-pós-Daniel (1951-2020), além-Atlântico & sem-aquém.
    Este rol não obsta a outros obituários.
    Pleno de tais ando eu em vida, enquanto ando.
    Os de minha criação são já pujantes & vários:
    & adversários do que quero a quem amo.
    Há dias, um pai & seu rapazito brincavam:
    hoje também, que é o mesmo o local.
    É de serigrafia, a mesmidão total
    da mimosa cena que tal assim travam.
    Retomo lembrança de uns quantos lidos
    (Nicolas Freeling, William Golding, Raul Brandão)
    + de uns quantos não esquecidos
    (Sófocles, Eurípides & o Zé Vilhena maganão).
    Não cheguei a partilhar com um meu leitor certa fotografia representando para sempre em casa de meus Pais (vivos então), a minha mocidade de 1975 (ou 1976?) irmanada por um cavalheiro de maior importância. Qualquer coisa atrapalhou essa partilha ou transmissão: talvez o facto de eu, nem em política, me submeter a qualquer ideo-religião. Na fotografia em ca(u)sa, somos ambos moços: eu, muito (onze ou doze anos de nascido); ele, alguma coisa (62 ou 63). Em tal imagem (supremo orgulho non-vanitas-sed-vanitas) de meu senhor meu Pai, Álvaro Barreirinhas Cunhal posa em hombridade. Recordo ter sido servido, não menos que por ele, de bacalhau-à-Brás, que afanosamente a minha Mãe cozinhou sem auxílio de sovietização nem cirílica culinária. Lá vai. A foto representa dois mortos: um por ex-nascimento, outro em linha-disso.
    A agitação de 1383-85 mereceu a Álvaro Cunhal um livro admirável (e por mim admirado – pois que o li, foda-se!). Também Joel Serrão & António Sérgio aljubarrotaram propósitos. O meu corpo é hoje tão dessa leitura quão de outras que houveram (cuidado com o houveram quando não sinónimo de tiveram) de obrigar-me a mais & mais & mais-outra-alguma-coisa.


FIM



03/01/2022

PARNADA IDEMUNO - 864

© DA.

864

Quinta-feira,
30 de Dezembro de 2021

    Li por estas noites um livro importante dedicado a uma vida & a uma obra muitíssimo importantes: Para Quê Tudo Isto? / Biografia de Manuel António Pina, de Álvaro Magalhães (ed. Contraponto, Lx., Setembro de 2021). Recomendo o mais vivamente este trabalho. Foi-me emprestado por alguém felizmente recorrente na/da minha vida: Joaquim Jorge, filho de Delfina Mateus & de José Carvalho. Devolvi-lho hoje, por ocasião de uma surtida pró-cafeína nossa de finimanhã. Como sempre, como desde sempre, como para sempre, dia também de irmos a Lares-terminais: ele, a ver a Mãe; eu, ao meu Irmão Zé Daniel.
    Quanto a este Parnada Idemuno, acaba(-se) amanhã. Mais um para o esquecimento. Nada de grave, nada de agudo. Estes cadernos consumam doze meses irrefragavelmente individuais, solitários q.b. Sigo questionando-me sobre/sob que ângulo atacarei a escritura do 2022 proximo. A tendência-propensão é a de cronicar mais, versejando menos. Não me sinto certo. O JoaKing Jorge adiantou-me alguns aspectos do manuscrito que há muitos anos vem (re)fazendo – sei o título mas não posso nem devo indicá-lo aqui. (Nem aqui, nem alhures.) Talvez no próximo ano me seja dado ler tal produção. Espero bem que sim.
    Um dos assuntos tocados em o diálogo com o meu Amigo: certa pessoa de nossos anos primaveris, ser que, agora outonal como nós dois, deveio algo salvífico, seráfico, bem-intencionado – e talvez mais triste do que (não) mereceria. O Joaquim a falar, e a mim ocorrendo-me a pujança adolescente dessa pessoa dos nossos idos de 70/XX. Fortuna de cabeleira longa, ossos faciais perfeitos, olhos (& olhar) de gazela aturdida, perfeita anatomia olímpica. A pele? De se riscar à unha. Belo exemplar do bestiário humano. Civilmente, cometeu matrimónio que não resultou bem, vendo-se trocada, em sendo já madura, por alguém que não era ela. Assim zaratustramente nos falámos, King & moi. Não se trata de falar da vida-dos-outros: mas sim da vida-apesar-dos-outros.
    Resta-me por ora (são as 14 & 34)
    Dobrar sozinho a rebate ante este papel.
    Monologovaqueiramente, profiro meu teatro:
    mas sem ser a retalho & sem ser a granel.
    Uma fêmea de cordões dourados pechisbeca-se toda em certo patamar de minha circunstância. É uma madura de tez acobreada, cabelo negro à força de restaurador-olex, jaqueta azul-violácea coruscante de pratas espúrias, sandalinhas de tricana que já não há. Tomou café, fingindo pressa. Usou uma voz tipo maçã-de-Adão-sem-genitália-macha, à guisa da vigarista Elizabeth Holmes, aquela da Theranos. Julgo eu que vende tapetes, cortinados, panos-úteis, pílulas-do-dia-seguinte. Ao que não perguntei (mas já sei), mora no exacto prédio em que morou o meu Irmão Zé Daniel aquando de nascer-lhe o filho também Zé & também Daniel. Falo dela em “assomo narrativo”, como diria talvez certo filho de Delfina M. & de José C. Acontece-me algumas vezes, isto de empreender prosa-narração que, invariavelmente, resulta – como J.J.C. diz – “esparsa”. A apreciação dele é-me sempre de mor importância – pelo que também por isso venho pensando no a-escrever-em-2022. Estão fora de panorama os cem-anos-da-familiar-solidão que me couberam. Sei irremediável o mútuo-ostracismo a que se votaram a minha consanguinidade & a minha literatura. Certa co-respondente amargura tem remédio certo: e o mais (sem menos) é a caducidade fisiobiológica. Depois & então, é só dar como remediado o que não quis ter remédio.
    Recordo agora certa crónica escrita (que publiquei)
    a propósito de senhora (não-leitora de Jules Verne)
    a quem conheci numa casa-de-alterne,
    ele há quantos anos?, talvez 21, não sei.
    Usava o nome-próprio-mesmo de uma ex-namorada
    que eu gastei em anos tudo-&-por-nada:
    Filomela, rouxinólica & amarela,
    nem havia bela tão bela quanto ela.
    Era em sede-de-concelho-autárquico-municipal,
    ou, mais bem dizendo, era ali em Pombal.
    A noite crescia como uma humidade em pano-cru mas eu não era pobre.
    Estava bem-empregado, duzentos contos ao mês.
    Eu ia ao alterne buscar com que sobre
    escrevesse no jornal ao gosto do freguês.

Canzoada Assaltante