24/05/2018

LEIAM SÓ O PONTO 4 - Rosário Breve n.º 556 in O RIBATEJO de 24 de Maio de 2018 - www.oribatejo.pt






Leiam só o ponto 4



1 Só os presidentes camarários de Alpiarça e do Cartaxo, na companhia de um vereador do PS da edilidade de Santarém, estiveram, a par de mais de uma centena de cidadãos eleitores-mas-não-eleitos, em recente apresentação pública do Projecto Tejo. TODOS OS OUTROS (perdoe-se-me a maiúscula exclamação) autarcas democraticamente eleitos do & pelo Ribatejo houveram por bem os pecados de falta, omissão, indiferença & deixa-te-andar. Ajunto possibilidades de explicação para tão gritante realidade: a) Não havia comezaina; b) Não havia procissão com foguetório; c) Não vinha “o” Marcelo. Ou então mais estas três, mas pela afirmativa: d) Estava bom-tempo, bom de mais para coisas demasiado importantes para todos; e) O novo Alqueva é uma seca; f) Os cívicos e os politécnicos percebem pouquíssimo disto. Não lavo no/nem do Tejo as minhas mãos – mas sei quem politicamente eu crucificaria sem sequer olhar para os ladrões do lado.

2 Menino & moço, gostei muito de futebol. Cheguei a praticá-lo, só não tendo chegado a Cristiano Ronaldo por ser Hermínia a minha Mãe e não Dolores. Já não gosto. Deixou de ser desporto, passou a indústria. Poluente, ainda por cima. O futebol de que eu gostei? Mesmo e até com este Clube enorme & meu adversário agora pelas ruas da amargura? Posso dar umas dicas. Sou do tempo de o seguro Carvalho ter tido (que remédio…) de dar lugar a essa gloriosa promessa tão gloriosamente cumprida chamada Vítor Damas (paz à sua alma). Manaca. Nelson (ex-Varzim). Manoel. Keita. Fraguito. Festas. Laranjeira. Bastos. Baltazar. Manuel Fernandes (ex-CUF). Jordão (ex-SLB). Caló. Tomé. Hilário. Lourenço. Marinho. Chico. Ernesto. Dinis, o angolano cujo pé esquerdo tornava invisível a bola. Etcetríssimo. Tantos, verdade? Mentira que tão bons? E logo comigo, comigo que até sou do Benfica por do Benfica ter sido o meu Pai. Não, já não gosto de futebol. A passada semana disse-me que tenho todas as razões para desgostar de uma coisa que foi bonita mas entretanto desastrosamente prostituída por uma espécie de proxenetismo se calhar genético-nacional. E quando tenho razão, ninguém ma dá – mas também ninguém ma tira.

3 O Rio Tejo & e o Sporting Clube de Portugal estão ambos por resolver. Não hão-de ser águas-passadas a solucionar as crises gravíssimas de um nem de outro. Quanto àquele (o grande Rio), autarcas ineptos & inaptos, não. Quanto a este (a grande Instituição de um Francisco Stromp, de um José Roquette/Alvalade), cachopos de esquisita patologia mimalhóide também não. Digo isto sem precisar de ensanguentar o coração nas mãos. Digo isto por ter carradas de razão.

(4 E o Tejo é o Rio do Baptista Pereira. E o Sporting é o Clube do Yazalde.)


17/05/2018

DEZASSEIS MICROFILMES NESTE ROSÁRIO BREVE N.º 555 - Rosário Breve n.º 555 in O RIBATEJO de 17 de Maio de 2018 - www.oribatejo.pt






Dezasseis microfilmes neste Rosário Breve n.º 555



Por uma esplêndida manhã de Maio, assentei praça, por assim dizer, em um particularmente diáfano recanto da urbe a fim de escreviver o que (Vos) desse & (me) viesse. Fui feliz na escolha: dezasseis microfilmes verbais (já revelados à nascença da obturação) impuseram-se de imediato & sem esforço ao meu lápis. Assim pois:
1. Mulher pobre de criança ao colo – por ter mãe, é de copiosa fortuna a criança;
2. Camisas a enxugar em estendal – crucificados cristos têxteis;
3. Fila de deserdados à porta da sopa-dos-pobres – untado, seráfico, pançudo, freirático angelismo das sopeiras serventes;
4. Gato à janela de quarto-andar – Napoleão desterrado na Ilha de Santa Helena.
Continuei (escrevi)vendo, permeado de uma espécie de êxtase sereno. Eu dormira muito bem a noite, despertando sem amargura nem esperança tolas. Considerando que se, de Lobsang Rampa, que diziam ter três olhos, nada de especial, e que de Camões, com um só, tanto & tão bom – propus-me usar os meus piscos dois a ver o que dava. E é que deu:
5. Semáforos abertos no vermelho franqueando passagem livre a duas ambulâncias & a um carro-funerário – a primeira, rumo à maternidade; a segunda, direita ao hospital; o terceiro, soma das duas;
6. Mulher com braçada de cravos ao colo – nenhuma revolução é órfã;
7. Crente consultando o horóscopo (“Viagem inesperada na sua vida!”) – o azar é que, sufocado por um pedaço mal mastigado de courato, acabaria por esticar o pernil quando desse, como veio a dar-se, o meio-dia a esta crónica, pronto a sepultar na quinta-feira da saída d’O RIBATEJO;
8. Canteiro municipal polvilhado de amores-perfeitos & tomado de assalto por miríades esterlinas de borboletas, essas pétalas erráticas, ébrio-aladas, trémulo-volantes, cuja efémer’eternidade dura quatro dias há milénios.
Dei por mim eram quase dez horas. Extra-caderno, a realidade fulgurava como o diadema de uma palavra oportuna, ou de uma sentença justa, ou de uma ideia clara, ou de um Amigo-para-sempre, ou de uma menina am(atern)ando a sua boneca, ou de um rio não poluído pela ganância dos criminosos.
Longe, a cúpula do Seminário arredondava o céu de-cá-baixo.
A meia-distância, a álea de plátanos conspirava muito muita sombra da mais fresca.
Perto,
9. Carrinha de nove lugares pejada de pessoas idosas, mas tão idosas, que a infantilidade retomada as fazia pasmar de miúdo espanto ante a fabulosa novidade do mundo;
10. Homem de fato-completo-três-peças perambulando a merecidíssima aposentação de professor-primário – o que me comoveu muito, por me recordar Elias Rodrigues Faro, esse senhor meu segundo Pai;
11. Quiosque-tabacaria cujo escaparate estourava frondosamente de publicações multicolores que me pareceram as borboletas do microfilme 8. e a cujo minibalcão velava uma rapariga avelhentada & endurecida pelo calo do celibato involuntário – o que também me comoveu muito, por me lembrar aquela canção da dupla Rui Veloso / Carlos Tê, Saiu para a Rua;
12. Jovem agente da PSP indicando, num inglês fluente, a um casal de holandeses o itinerário mais acessível para o velhinho Mosteiro que foi dos Crúzios.
Nos por-enquantos, porém, volvera-se provecta a minha manhã. Davam já as 11h35m, faltando apenas, por conseguinte, um quarteirão de minutos para que morresse engasgado o fulano astrozodiacómano do microfilme 7.  Sem como nem por nem para quê, recordei essoutro meio-dia de 10 de Dezembro de 2004 (uma sexta-feira) em que adquiri a tradução portuguesa de The Figure on the Carpet de Henry James (trad. de Luzia Maria Martins, ed. Relógio D’Água, Lx., 1988). Foi em Lisboa, metrópole também de si mui capaz de microfilmes. Eis quatro dessa matina dezembrina de vai-para catorze anos:
13. Em um degrau da Igreja de Santa Isabel, aquela pomba morta – morta & esventrada – morta & esventrada & cravejada de varejeiras semelhantes a rubis verdes azulzumbindo;
14. Na farmácia do Largo do Rato, um mocito envergonhosamente ciciando à farmacêutica: “Uma caixa de preservativos dos mais baratos, fàxavôr”;
15. No Largo do Carmo, reencontrei, em corpo-sempre-presente, o capitão Salgueiro Maia: vestido à paisana, parecia-se muito com o homem que eu de menino sempre quis ser quando chegasse a homem;
16. E numa rua a que chamei Rua da Princesa, amei, sem remédio & com cegueira voluntária, um porvir imediatamente desmentido pela força irreparável da (a)parição alheia.
Agora, calma. Tanto microfilme seguido já vai dando longa-metragem. Acabo a projecção da seguinte maneira: como consta do título, esta é a crónica número cinco-cinco-cinco da série Rosário Breve. Dedico-a, com gratidão muito minha, à memória viva de três pessoas que douraram, nele brilhantemente cronicando muitos anos, este Voss’O RIBATEJO: Eurico Heitor Consciência, Luís Eugénio Ferreira & José Niza. Sem misticismos tolos, sinto-os connosco. E tal sentimento dá, a meu ver, um bom filme.

10/05/2018

SÓ ME FALTA O LIVRETE - Rosário Breve n.º 554 in O RIBATEJO de 10 de Maio de 2018 - www.oribatejo.pt






Só me falta o livrete



Há já muitos anos que não tenho automóvel. Não o digo por choramingona auto-lamentação. Digo-o como reiteração da ironia da vida. E a ironia está no que se segue: cimentei amizade com uma viúva rica. Melhor da festa – não tem filhos nem irmãos, nem sobrinhos sequer: apenas & tão-só uns vagos afilhados não de sangue. Idade de senhora, não se pergunta nem se escarrapacha em crónica. [E não, não poderia ser minha mãe – não exageres na descúnfia, ó Leitor(a).]
Disse mal: a ironia não está propriamente na amizade com a viúva. Está nisto: meteu-se-lhe na cabeça oferecer-me uma roulotte. Em vão lhe redargui que não possuo carro que a puxe. Com a tenaz obstinação dos portadores de ideias-fixas, contestou-me ela: “Uma coisa de cada vez, menino. Roma e Pavia…” Ou seja: passei por ganancioso, quando a verdade purinha é eu ser o mais humilde desinteresseiro dos homens – pelo menos dentre aqueles que raspam a barba ao espelho da minha casa-de-banho.
Eis-me, pois & assim, futuro possuidor (que não utente) de uma roulotte com matrícula de 1972. Comprou-a então, novinha em folha, o dinheiroso falecido dela. E com ela, o casal fez peripatéticos gerêses, ibizas, côtesd’azures, pompeias, odessas, florestasnegras, vienas – e figueirasdasfozes. O carro que a tractorava, esse espatifou-o mortalmente o marido ao cabo de infortunada noite no Casino do Estoril. Desencarcerou-se da vida encarcerado nesse glamoroso Opel Manta de fatal memória.
Nota importantíssima: não é de cariz pornográfico – mas gráfico sim – a relação que tenho & mantenho com a dita dama de copiosa abastança. É gráfica porque ela adora sonetos à Bocage, que eu imito, até nem mal de todo, com caralheira brejeirice. Recebo dela uma nota de cinquenta por cada posta tonitruante de catorze versos, o que não é mesmo nada mal pago. Modos que ando poupando em sonetos no fito de comprar uma carroça em segunda ou terceira-mão que me ponha a roulottar por aí afora à guisa do caracol de choupana às costas. E já matuto numa coisa maravilhosa.
Maravilhosa, sim. Esta aqui: plantar o carro, a roulotte & o meu “cadáver adiado” algures no troço da EN 114, a desditosa via há tantos anos estrangulada. Como o mais certo é não ser reaberta ao livre trânsito antes de 2100, o sossego da minha nova residência parece-me sobejamente garantido. Até me proponho plantar gerânios em vasos em cerca ao acampamento. E ter cá fora um cão-de-louça. E andorinhas-de-barro agarradas às janelas. E um estandarte altíssimo do Sport Lisboa e Benfica. E bustos em plástico do Cristiano Ronaldo, do Che Guevara, do Ricardo Gonçalves, da Madre Teresa de Calcutá & do Leitor e/ou da Leitora que lá me for esmolar conservas & garrafões.
De resto, muito agradecido, ando feliz da vida. Faço os sonetos soezes, alimento-me em tascos de bifanas, atiço inglesas velhas à mercê da machíssima desenvoltura dos meus aparatos musculares, durmo sem remorsos & acordo sem lembranças.
A viúva telefona-me às terças, adora-me com comichosas palavrinhas pejadas de uma emurchecida lubricidade, ameaça-me de novo com o carago da roulotte & encomenda-me mais uns quantos sonetos geni(t)ais, a Deus graças.
Não tenho ido ao médico nem à farmácia. Prefiro ir pela mata para assistir ao voejar alucinatório das andorinhas de Maio. Também me costuma dar para ficar descalço até ao pescoço estirado na varanda que dá para o cemitério hebraico. São gozos inócuos mas cá muito meus. Bem pior seria drogar-me com lixívia.
De quando em vez, perco os óculos. Passo então dias de visão aquária, as pessoas tornam-se peixinhos glaucos, o sol fere-me termonuclearmente, é uma porra das antigas. Logo que arranjo uns novos, a realidade readquire o teor absurdo de que é primaz absoluta.
Escrevo isto a uma terça-feira. E não, a viúva ainda me não telefonou hoje. Vou lapijando sonetos entre cigarros rimados & cálices de tinto da Quinta do Falcão. Nos entrementes, coco as mulheris formosuras que o bom-tempo despe pelas ruas. Tento não me arrepender das más escolhas que a minha inconsciência fez por mim. Mas olhai: a vida é só enquanto cá estamos. Só me turva o sossego uma coisa. E tal coisa é – toparei eu sítio, algures na EN 114, onde ligar cabo a tomada eléctrica? Vou precisar de frigorífico, computador, máquina-cafeteira, ventoinha refrigéria etc. Nesse aspecto tão técnico, a minha viúva não pode ajudar-me. Nem ela, nem o Ricardo Gonçalves. Ou seja: nem Roma, nem Pavia.

03/05/2018

Três curtas-metragens - Rosário Breve n.º 553 in O RIBATEJO de 3 de Maio de 2018 - www.oribatejo.pt





Três curtas-metragens




1

Baile de sábado-à-noite em associação recreativa de lugarejo. Os casados no bufete. As casadas, em casa. Os solteiros, à caça. As solteiras, ao alcance de tiro. Lâmpada de luz-roxa, bola-de-espelhos. Fora do recinto, mais motorizadas do que carros. Dentro, a latência biológica, predatória, rapace: fervor da pré-procriação.
Uma das solteiras: olhos iridescentes, carnação (gene)rosa, frequência universitária, um só ex-namorado no currículo.
Um dos solteiros: belo rapagão alto, espáduas simétricas, electricista-canalizador, cobiçadíssimo pela fauna fêmea.
O salão-de-baile tem escadas que sobem ao balcão-beberete. Ele vai a subi-las, agora. De baixo, ela mira-o fixamente pelas costas. Ele sente a pressão hipnótica daqueles olhos de céu estilhaçado. Já não acaba de subir. Desce, vai dextro a ela. A música está quase no fim – mas ele toma-a na mesma, dançam sem prévia apresentação mútua. Depois, ele leva-a pela mão ao bufete. Cerveja para ele, gasosa com groselha para ela. Só então se tornam Armando & Otília. E só então se tornam um(a) do outro.
Passado pouquíssimo tempo, têm uma filha. Oito meses antes disso, casaram-se pela igreja. Passado pouquíssimo tempo, ele adoece da cabeça. Desorienta-se por nada, muda-se-lhe o carácter, torna-se irascível, desfecha palavrões descabidos, arranja problemas no trabalho, despedem-no. Ela consegue finalmente forçá-lo aos médicos.
O primeiro médico é um negligente arrogante, não cuida da evidente gravidade do mal, mas o segundo doutor acerta de imediato contas com a fatalidade: tumor cerebral maligno. É uma vez operado – resiste heroicamente, segura-se de muletas, ainda reconhece mulher & filha. É operado segunda vez – fica vegetativo. Dura uns meses. A respiração dele enche a casa como o vento as florestas. O vento cessa, aquieta-se o arvoredo: ele morre.
No lugarejo, entretanto, não houve mais quem pegasse na direcção da associação recreativa. Nunca mais houve baile – só a luz permanece roxa, estilhaçados os espelhos da bola como dela o olhar outrora.

2

Era de comboio que vinha pelas primícias do entardenoitecer. O trabalho não era muito, não mais de quatro horas, ao fim das quais comia alguma coisa numa casa-de-pasto perto da gare ferroviária. Desfazia tempo lapijando as palavras-cruzadas do jornal do dia. Tomava o comboio de volta à hora invariável. Se o não fizesse, só cinco horas depois teria outro.
Uma noite, conheceu outra pessoa. A nova pessoa era mais velha uns vinte anos. Foi ao balcão da casa-de-pasto que se conheceram. Comiam lado-a-lado nos bancos giratórios de pé-alto. Foram revelando-se lances pretéritos de cada vida. Eram vidas vulgares. Eram tão-só duas pessoas. Não possuíam fortuna financeira ou predial relevante. Trabalhavam, colhiam o salário, gastavam-no em comida, luz, água, gás, licor, sabão & sapatos.
A pessoa com mais anos passou a interessar-se por palavras-cruzadas também, começando até a adquirir & a partilhar publicações da especialidade com a pessoa menos jovem. (E talvez algumas vezes a de menos anos tenha ido no comboio de só cinco horas depois.) Foram envelhecendo a par até as duas décadas de diferença se esbaterem invisivelmente.  
A casa-de-pasto mudou de gerência, o novo dono era antipático, passaram a encontrar-se na de duas portas ao lado. A pessoa que vinha & partia de comboio arranjou trabalho na cidade de origem, deixando de entardenoitecer por ali. Cruzam ainda palavras pelo correio – mas nunca mais se cruzaram.

3

Era uma vez um homem que se abstraía de dores anacrónicas do foro afectivo pelo escapismo da leitura. Ele era o primeiro – e o último – e o único – a reconhecer que o coração sentimental é uma relojoaria atafulhada que não bate bem (d)a hora: daí que lesse tanto contra ele.
Certa tarde de largos oiros aéreos, abeirou-se dele um indivíduo possuidor de olhos anónimos: era uma senhora. A mulher saudou-o pelo nome próprio. Ele sentiu-se embaraçado por se não recordar do próprio dela. Fez-se porém de não-surpreso & ofereceu-lhe assento. Ela aceitou, continuando a falar-lhe com a maior naturalidade tu-cá-tu-lá deste mundo.
Os temas eram os de sempre: separações, filhos, progressão-na-carreira, escassez de perspectivas, a aranha da idade babando a seda da última teia.
Ele apreciou o fulgor não-pintado da cabeleira dela, a alvura coruscante da dentição, a firmeza agressiva dos morangos peitorais pontiagudando a blusa roxa, as mãos pequeninas de boneca crescida. Isso – mais as safiras perigosas com que ela o olhava (e via). Ela insistiu em pagar a despesa, despedindo-se assim:
– Felicidades, Armando.
Ai Otília, como se “felicidade” pudesse ter plural.

26/04/2018

QUASE TAL MÃE, QUASE TAL FILHO - Rosário Breve n.º 552 in O RIBATEJO de 19 de Abril de 2018 - www.oribatejo.pt






Quase tal mãe, quase tal filho



Reconheci-os sempre – e ao longo de quase cinquenta anos. Mãe & filho. Nunca soube de homem dela nem de pai dele. A pobreza deles era tão próxima da miséria quão esta minha unha deste dedo meu. Cheiravam: pelo próprio nariz como aos outros. Não-utentes de balneário próprio nem público, atingiram a tez encardida e hirsuta dos mais simiescos primatas. A mãe tinha mais barba do que eu. Ele tinha, todavia, menos que dizer mal da vida do que eu tantas vezes digo. Só que, sem mais nem menos – eram tão Portugueses quanto quem me fez.
Uma coisa muito-só-dela: ela adorava casamentos. Na sé mais velha, não perdia um domingo esponsório. Movia-a o que a comovia: a brancura pura da noiva, flor-de-laranjeira sobre que virginalmente nevara. Não faltava a um. Arrancava malmequeres baldios do chão municipal, rompia adentro os convidados, ofertava-os à recém-casada. Como os vestidos de noiva não usam bolsos, nunca recebeu moedas pela doação. Nem ela as procurava – bastou-lhe sempre o nojo disfarçado de gratidão com que cada nubente lhe suportava o fedor de andrajosa dada a florilégios núbeis.
Uma coisa muito-só-dele: ele preferia funerais. Favorecia precisamente aqueles em que era deixado penetrar & assistir: os dos menos-ricos. Entesoava-o o crepe gázeo na carnação alvinegra das mulheres enlutadas. Os círios mortiços do velório eram para ele bola-de-espelhos. Chorava madalenamente (crocodilamente é que nunca) pelos manequins de cêra que todos os defuntos são. E para mais, o adágio portuguesíssimo que obriga a que “dia de funeral, dia de bebedeira”, ah sim, não lhe foi nunca recompensa de somenos: embebedava-se de álacre tristeza com o recolhimento & a devoção de um monge alquimista de licores.
Digo agora: quase cinquenta anos de reconhecimento podem não chegar para mote a voltas de crónica. Porém, o filho ter aparecido morto em estreme solidão domiciliária – isso sim, deus-me-livre-de-que-não, isso serve. Aconteceu que mãe & filho eram de um lugarejo siamês do meu. Isso era em próximo derredor da minha (mo)Cidade. Quando a Cidade me & a eles deixou de ser moça, filho & mãe passaram a residir num casinhoto opaco de uma só porta & uma só janela. Era em ba(i)rro estrangeiro, por assim dizer. Dava a espelunca para um campo de canas, grilos grandes, víboras pequenas & lixos automobilistas muito maiores. No exterior, sobre um pano de lama endurecida, mantinham um assador carbónico onde imolavam chicharros argênteos & sardinhas tesas de sal ao lado de descomunais esmeraldas a que chamamos pimentos.
Uma pouco bela manhã, vieram os de impermeável branco da Câmara. Eram da Higiene/Desinfestação. Despejaram-nos, envenenaram os derradeiros ratos do casebre & selaram o tugúrio a tijolo & cimento. A mãe foi assistida socialmente. Ele, também. Ela foi posta num lar municipal. Ele, noutro. Ao que sei, ela ainda lá está. Quanto a ele, aguentou-se algumas seis semanas no albergue antes de fugir. Fugiu – e arranjou quarto sem-luz-nem-água-nem-esgotos-nem-amanhã no lugarejo-natal. Comia na sopa-dos-pobres com o retrato de Sidónio Pais ao lado do Crucifixo Redentor. Continuou a frequentar funerais. A mãe percebeu que o abrigo não era a pior coisa do mundo: a CMTV dava-lhe casamentos infindáveis mesmo sem ser ao domingo.
Agora, o cadáver do filho foi descoberto por uma prima pobre da senhoria. O defunto não tinha cinquenta anos (sou coerente nas minhas crónicas). Estava morto porque sim. Nenhum indício de crime. Nenhuma violência para além da de ter nascido. Estendido qual chicharro. Sobre a brasa fria de um carvão apagado.
A mãe não sabe. Não lhe contam nada dele. Nem ela pergunta. Toma os comprimidos que lhe dão. Vê noivas. Nunca olha para os noivos: são homens, não lhe interessam. Move-a & comove-a a laranjeira que neva pureza. Sonha-se uma delas. E quer ter um filho. E eu, senhor de tantas palavras, não tenho uma que sobre isso lhe diga.



20/04/2018

TAMBÉM SOU CAPAZ DE AMAR UM GAJO - Rosário Breve n.º 551 in O RIBATEJO de 19 de Abril de 2018 - www.oribatejo.pt






Também sou capaz de amar um gajo



É sem minimamente mentir que posso dizer que o conheço de toda a (minha) vida. Sei muito dele. O que não sei, tento angariá-lo mercê de honesto estudo & de inquebrantável observação – e quando estes dois instrumentos resultam lacunares, supro o improvável pela imaginação, essa memória criativa que o porvir nos concede para que algo passado nos seja presente.
Do seu nascimento até hoje (e não escrevo até à sua morte porque, mui felizmente, ainda se não deu ao pecado imperdoável de morrer), todo o tempo dele me interessa. Mais isto: nunca fui isento a seu respeito – tanto no que concerne às suas admiráveis virtudes, como no que respeita aos seus obstinados defeitos.
Os meus Pais conheceram-no antes de mim. Naturalmente assim foi. Passaram-mo por uma espécie de herança transmigratória, ou consuetudinária, ou por usucapião, que nunca enjeitei. Conto dá-lo à atenção crítica de minhas ambas Filhas, dádiva que a minha mão direita pode & deve partilhar com a gémea esquerda sua.
Por que claro mistério me interessa ele tanto? Por mistério algum. Fala uma Língua maravilhosa, para começar. Come bem, bebe muito (de mais até) – imito dele a segunda coisa, não a primeira. Lê todavia pouquíssimo. É sentimentalão no que escreve. Tão depressa se diz “religioso” quão “não-praticante” & “laico nas horas vagas” – paradoxo que sempre me soube a tremoços sem cerveja.
Fisicamente, é alto & magro, de costas admiráveis. Mais: do semblante dele, alguém afortunadamente disse ser o modelo europeu de rosto por excelência – se não por definição.
Mentalmente, é uma criança atrapalhada por lapsos de senilidade.
Comportamentalmente, é doméstico & arruaceiro; lhano & manhoso; hoje acha & entrega à polícia uma carteira recheada de documentos e muito dinheiro; ontem andou à porrada com um cego pela caixa-de-esmolas; amanhã é capaz de dormir com um homem que lhe ronda a mulher. Já, com estes meus olhos que a terra há-de enxugar, vi marejarem-se-lhe de lágrimas os dele à imediata audição de Carlos Paredes – assim como o sei também muito useiro & vèzeiro dessas festarolas contaminadas de desquitadas estarolas que desfalecem baba & ranho ante o Tony Carreira. Já o vi, materno & ortopedista, reparar a patita quebrada de um pardal – assim como o soube escarlatemente exultando no redondel em tarde de barbárie tauromáquica.
Sim, gosto muito dele. Gosto irreparavelmente dele. Não o adoro, atenção! Adorar implica genuflexão – posição equívoca que poderia tornar-me mal-visto aos olhos das pessoas decentes. Chicoteio-o verbalmente pelos defeitos tantas vezes evitáveis de que é, aliás, exímio & contumaz amante & praticante. Admoesto-o (sem resultado prático positivo jamais, valha a verdade) quando ele é insensato, quando ele é maria-vai-com-as-outras, quando ele vota mal e se gaba disso, quando ele – na sua Língua maravilhosa – fala sempre antes do que jamais pensa depois, quando ele se arrola às procissões de santos depois de ter feito em casa um escarcéu dos demónios a mulher & filhos.
Mas também o louvo, louvo-o total & incondicionalmente: quando ele pinta uma casa de luz como em nenhum outro lado pode transparecer assim; quando ele amanha a horta com preciosas perícias de renda-de-bilros; quando ele me recebe com o pão mais fresco, o queijo mais puro, o peixe mais vivo & o vinho mais capitoso no seu pátio refrescado pela latada de cachos gordos como pérolas adiposas sob que cão & gato dormem em consolada & perfeita harmonia vigiados pelo canário & pela sogra velhíssima mas imortal.
Louvo-o, sim – e arremessemos sem medo o outro verbo: e amo-o. Amo-o de olhos abertos até nas mais fechadas noites. Amo-o sobretudo por ele ser quem é. Amo-o sobretudo por certo dia ter feito o que fez. Quem é ele? É Portugal. E o certo dia é Vinte-Cinco-de-Abril-de-Mil-Novecentos-e-Setenta-e-Quatro.  





12/04/2018

ELA POR ELA - Rosário Breve n.º 550 in O RIBATEJO de 12 de Abril de 2018 - www.oribatejo.pt






Ela por ela



1 Sofia Sócrates, aluna da Escola Secundária Sá da Bandeira, em Santarém: “Existem muitas formas de ditadura, e hoje é contra ditaduras sem rosto, silenciosas e invisíveis, que temos de continuar a lutar.”
Estas palavras vêm na página 9 da edição imediatamente anterior a esta deste Jornal. Foi na peça intitulada “Tributo a Salgueiro Maia marcou início das comemorações de Abril”. Comento-as assim: jovens, antigas, definitivas, sábias palavras. A maravilha é provirem de alguém nascido em 2000 (d.C.). Não é coincidência que o nome grego Sofia signifique, precisamente, Sabedoria.

2 A minha filha Teresa, como Sofia, nasceu também no ano 2000. Foi outra revolução. Outro cravo, rosa sendo. Outro movimento de tropas. Outra madrugada perpétua. Foi, foi. Recordo sem esforço o perfume dela manando dos primeiros linhos. Digo: a neve imaculada da sua brancura sem senão. Minha filha, disse. E filha de Abril também, nascida embora em Janeiro. Filha de Abril como Sofia Sócrates.

3 Os CTT (que Deus tem) não são já aquela coisa fiável que já foram. Por isso, a minha assinatura em papel de O RIBATEJO só me chega a casa quando eles não estão demasiado ocupados a tratar do que mais deveras lhes interessa – o Banco CTT. Assim, só uns dias depois li as palavras da menina Sofia Sócrates a propósito do 25 de Abril e do gigante Salgueiro Maia. Ainda assim, aprendi-as a tempo de ser feliz por causa delas. A Sofia & a minha Teresa têm dezoito anos – meros menos trinta, portanto, do que durou a infecta podridão salazar-fascistóide. A liberdade, todavia, torna-as da idade de Portugal.

4 Tudo isto tem de ter a ver mais com o nascer do que com o morrer. E tem tudo a ver com o saber. Neste sentido: o saber só pode tornar-se moderno quando nasce clássico. Quando servir para sempre. Quando for completamente humano. Isto é: quando é totalmente humanista. Quando sabedoria e filantropia rimam na perfeição. Sim, Sofia, ele anda por aí muita ditadura invisível. Como a da ignorância. Como a da corrupção. Como a do desemprego. Como a do tempo de espera por uma consulta hospitalar. Como a do esvaziamento curricular das escolas. Como a do fanatismo futeboleiro. Como a da estupidez televisiva. Como a do desamparo dos idosos. Como a da poluição impune da Mãe-Natura. Como a do escarro no rosto em que consiste o salário mínimo. Como as dos tolos eleitos por tolos. Sim, Sofia, sim: temos, mesmo, de continuar a lutar.

5 Escrevo na manhã de terça-feira, 10 de Abril de 2018. A Batalha de La Lys, em cujo nevoeiro sebastiânico tantos mil Portugueses se perderam, foi ontem + 100 anos. O nascimento do senhor meu Pai faz hoje 101 anos. Fica ela por ela. Ela por ela? Sim. Na mesma página 9 do nossO RIBATEJO, mais estas palavras da juvenil estudante do santareno Sá da Bandeira. Invocando o capitão Salgueiro Maia, diz: “Obrigado por nos teres aberto o caminho, e nos fazeres ver que é possível sermos livres, se o quisermos realmente ser.” O meu Pai tê-las-ia compreendido de imediato. Suponho que os Portugueses de La Lys também. Ser livre é querer. E é crer, também. Ora, gente como a minha Teresa & como tu, Sofia, tornam crível o País. E gloriosa a manhã de amanhã. Ela por ela.


05/04/2018

FAUNA - Rosário Breve n.º 549 in O RIBATEJO de 5 de Abril de 2018 - www.oribatejo.pt






Fauna



Dois antigos na paragem do autocarro comentam a abertura da época da caça: IRS, IMI, recapitalização da banca privada à custa do contribuinte público. Envergam ambos roupa bem lavada, calçam com distinção. Um é de face rubicunda, que trai dele a vocação de merendas bem avinhadas. O outro é mais enxuto de carnes, perfil mais inteiriço, deve ter sido tropa de carreira.
A luz apaga-se, reacendendo-se instantes depois. No lugar dos dois maduros, duas idosas agora em cena. Uma, de saco com gerânios plásticos de campa fúnebre, quatro velas em bases roxas com furinhos crucifixos: ar de santa-viúva, lavadora extremosa do mármore de seu falecido, resignada adoradora de cinzas. A outra, de pernas arqueadas que a fazem gingar como barca ancorada em joanetes. Falam sem se ouvir uma à outra – de doenças, consultas, operações & demais deliciosas aflições.
Uma nuvem mais densa obscurece-as, dissolve-as, dissipa-as, rouba-no-las. Em lugar delas – e para nosso mor benefício -, uma moça se incorpora. Maravilhosa incorporação. Bonita de mais para ser alvo de cobiça sexual. “Ideal para namorar aos domingos”, como dizia um conhecido meu. Deveria ser emoldurada – mas só para exibir em sonhos. O senão desta bela é um defeito horrível no dedo: anel-de-noivado.
O projector estremece, esmaece, entenebrece: já na vez da formosa se insurge um arrumador de estacionamento. Avelhentado de muito pacote de vinho-de-cozinha & de muita sandes de pão-com-pão. Amarelidão de outono hipodérmico com garrote – mas rijo qual erva-daninha em interstício de calçada. Orgulhoso, é sem agradecer que me aceita o cigarro. Águia apeada que o vento não leva.
Mas que novo apagão de cena leva, sim. Quatro adolescentes, agora. Macambúzios. Autistas de smartphone, que matraquilham velocissimamente. Nenhum conversa com ninguém. Calças rotas de propósito, dentes agrafados por cremalheiras ortodônticas: arrumadores do futuro.
Um cavalheiro de lábio-leporino fende o ar da fala como a serpente assobia. Escuta-o mui solicitamente um que é solicitador, tirou o curso depois de reformado da Marinha Mercante, tem valor, aprender até morrer.
Dois bêbedos maravilhosos ziguezagueiam da esquerda-alta à direita-baixa da cena tablada. Um assegura Deus, o outro bebeu como o Diabo. Pertencem ambos a essa feliz eternidade d’inda-não-ser-amanhã. Um traz chapéu na cabeça mas é do amigo a cabeça, que aliás nem chapéu usa. O pior-da-vida é a gasosa no vinho e que as nossas mulheres fiquem viúvas. E que as nossas mulheres, ficando viúvas, nos lavem o mármore com água. E se auto-santifiquem e nos plastifiquem de gerânios.
Nisto, ressuscita em palco o arrumador-de-carros. Traz uma orelha murcha & uma narina esgalhada: algum tóxic’olega lhe bateu por vinte cêntimos que estavam no chão como Portugal também esteve entre 1926 e 1974. Não se queixa. Traz moedas q.b. para uma sandes de iscas & um martelo de branco. Quase exulta. Águia devoradora de vísceras.
E ainda: quatro vezes magra como quatro canas, uma senhora leva dois dedos à gaiola do peito, inquieta pelas intermitências arrítmicas do coração. A dois metros dela, sozinho no mundo como a Lua, um chulo de viela mijona escarra um esparadrapo amarelo da textura, da consistência & do volume de um ovo-estrelado.
Um casal de cegos (não-esmoleres) tirita o morse do chão com bengalas de alumínio extensível.
Uma mãe de gémeos em carrinho-duplo anuncia ao mundo a duplicação do mundo.
Foi produtiva, a manhã. Para que a solidão do espectador não seja tão vincada, água & sabão nas lentes oftálmicas: é tudo quanto o teatro do quotidiano requer. A fauna humana é inesgotável, haja lápis que a circo-inscreva. A grande maravilha não é o que as pessoas dizem – é o que pensam calar. Não é o que mostram – é o que julgam esconder. Qualquer lápis decente sabe isso.

29/03/2018

DAVID & DA VIDA - Rosário Breve n.º 548 in O RIBATEJO de 29 de Março de 2018 - www.oribatejo.pt






David & da Vida





Sucedeu numa casa-de-pasto de cujo balcão sou freguês recorrente há bons (e menos bons) anos. Foi pela finimanhã de quarta-feira, 21 de Março de 2018, já o meio-dia não vinha longe. Aos que estávamos, juntou-se-nos um homem perdido. Em segundos velocíssimos, aquela aparição disse ao patrão da casa que não vinha pedir esmola em dinheiro mas sim a caridade de alguma coisa para comer – porque não comia há muitos dias, porque tinha sido escravizado em Espanha, porque não sabia o que fazer à ou da vida. E era de facto, na vida, David. David era deveras: fiquei a sabê-lo pelo diário local cá da paróquia na manhã seguinte, quinta-feira, 22 do corrente.
Por tal periódico, aprendi que este pedinte se chama David S., tem 50 anos, há sido trolha de profissão e foi dado como desaparecido pela família. A notícia (com retrato do extraviado senhor) acrescentava que é gente portuguesa de Joane (Vila Nova de Famalicão). A irmã, Rosa S., fornecera às autoridades e ao jornal um número de telemóvel, rogando que lhe ligassem em caso de avistamento do extraviado mano dela. Assim fiz. Liguei à senhora.
Disse-lhe o que Vos conto. Falei-lhe da cena na casa-de-pasto. Falei-lhe de Espanha. Ela disse-me: “É ele. Isso de Espanha é uma história que ele costuma alegar.” (Sim, ela disse “alegar”.) Perguntou-me depois se ele andava de barba (na fotografia do jornal, não a tinha.) Disse-lhe que sim, barba de muitos dias. Barba & casaco de couro acastanhado. E ela: “É ele. Tem de ser ele. Muito obrigada pela sua atenção.” Tinha a voz anestesiada pelo desespero.
Nessa mesma quinta-feira/22, fiz duas coisas: uma, fui à esquadra central da PSP cá do burgo, onde dei conta do facto aos uniformes competentes; antes, porém, comentei o caso com a freguesia & com a gerência da dita casa-de-pasto. Os demais clientes interessaram-se pelo episódio – mas a gerência nem tanto. A gerência nem tanto por pura má-consciência: é que, na véspera, tinha recusado comer ao homem – talvez por receio de tanga ou de ociosa pedinchice parasitária como tanta por aí anda, talvez. Percebendo o embaraço do remorso, não insisti. Paguei o meu copo e fui à polícia.
Tenho agora o recorte de jornal colado no caderno em que escrevivo estas crónicas para Vós. Não sei mais. Desconheço se o senhor de Joane, Vila Nova de Famalicão, foi já ou não ainda encontrado. Redijo estas linhas na sexta-feira, 23 de Março de 2018. Entrementes, a chuva voltou, maciça & massiva. Quarta & quinta foram dias muito formosos, de um azul oceânico feito céu a que o Sol presidiu com autoritário garbo & majestoso esplendor. Mas a chuva voltou, o que me faz temer pelo desaparecido.
Rosa diz que o irmão sofre de “depressão” por causa do descalabro do casamento e que anda “confuso e perdido” desde 11 de Fevereiro último, dia em que se desmaterializou de Joane. São muitos dias, bem mais de um mês ao lento relento.
E agora, Leitor meu, confesso: também eu padeço de má-consciência. Sim, má-consciência. Não reagi a tempo. Na manhã acabando-se de quarta/21, eu tinha duas sandes & uma banana no saco. Não me ocorreu sair à rua, perseguir David, dar-lhe de comer. Eram boas sandes: de mortadela & queijo-creme, uma; outra, de capitoso presunto translúcido & corado a fumo de lenha viva. Não me ocorreu, o que agora amargosamente lamento. Quando me lembrei, era tarde de mais: o perdido reiterara de si a perdição, invisibilizando-se na indiferente luz da manhã terminal.
A comparação seguinte pode parecer-Vos reles ou mentirosa ou lingrinhas ou auto-coitadinha – mas é mais friamente verídica do que meramente verosímil: também eu já me achei perdido. De família, de anos estragados, de projectos calçados a barro, de manuscritos sem tipografia, de animais amados como pessoas singulares & de pessoas não plurais como bichos de estimação. E de sozinhíssimas, insensatas copofonias. Verdade, tudo isto. Não hei-de hoje mentir.
Em lenitivo & paliativo contraponto, porém, a minha salvação tem sido esta mesma janela ribatejana de última-página, que há quase onze anos, em uma hora feliz, se me abriu para Vós. Porquê? Ora, porque não se pode perder tudo: a começar pelo que fazer, David, da Vida.


22/03/2018

SIM, ELE FUMA DEPOIS DE FAZER AMOR - Rosário Breve n.º 547 in O RIBATEJO de 22 de Março de 2018 - www.oribatejo.pt





Sim, ele fuma depois de fazer amor



Onde era o barbeiro velho, é ora a venda de fruta. O barbeiro morreu, a nora é a fruteira. O filho do barbeiro anda nos camiões internacionais desde muito novo, não quis o ofício do pai. Também muito nova, a mãe do camionista foi sem querer que deixou viúvo o barbeiro: qualquer coisa no coração, um repente roxo que lhe deu. A começar pelo filho, já quase ninguém se lembra dela, agora que também o barbeiro se matriculou na galeria do esquecimento. A sobreloja da frutaria está há muitos anos arrendada a um gravador-ourives que já não trabalha. Continua todavia a pagar a renda, não tem onde guardar os apetrechos do ofício. A sobreloja é portanto plena de relógios parados, ao contrário das ruas da vida, digo, da vila. O gravador descia muito ao barbeiro. Conversavam ócios lentos. Sabiam-se co-tripulantes da barca-de-outrora, essa no cais-só-de-ida. Foram sempre de outro tempo, nenhum calendário lhes acertava o passo. É uma sobrinha do gravador que vem pagar a renda, o velho ourives já não aparece. A nora do defunto barbeiro oferece-lhe uma sacada de pêras ou de nêsperas ou de morangos ou de damascos ou de figos ou uma melancia grande e rotunda como as mães, é conforme a idade do ano. Também se pode dizer que o preto-e-branco da barbearia é hoje uma profusa paleta de cores. A renda é paga em contado vivo, não há recibo, palavra é honra, honra nem de palavra precisa. O camionista conhece noruegas, dinamarcas, suécias, finlândias, estónias, letónias, estalinegrados. São a rota dele. Como o caracol, vive de galera-casca às costas. O ofício envelheceu-lhe os ossos. É um homem positivo. Não sofre de mariquices artísticas. Quando morrer como o pai, morreu como a mãe. Não é coisa que o sofra. Não trai a mulher, que o não trai. Só não têm filhos porque um dos dois é estéril. Nunca quiseram determinar pela certa qual. Cada quinze dias, três semanas, ele volta do nada, fica dois dias, às vezes quatro. A máquina lava-lhe a roupa enquanto eles reacertam o amor físico, às vezes tal acontece pelo raiar da aurora, é conforme calha a hora a que o camião dele aparece no pátio a resfolegar como um elefante hidráulico. Ela naturalmente cheira-lhe a ele a pomar. Ele naturalmente cheira-lhe a ela a auroras-boreais. Quando cessa o espasmo e ele sai dela para tactear na mesinha-de-cabeceira os cigarros, ela conta-lhe estar grávida – mas é da sobrinha do gravador-ourives que fala. A parição (ou a aparição) só é própria quando a nossa própria mãe etc. Certa vez, ele teve férias. A Sul, houve então para ambos uma primícia de Verão no pontão de madeira que adentra o mar. À ponta do pontão, fulgurava o coreto onde a graciosa filarmónica lhes concertou ominosas valsas & pasodobles felizes. Tiveram gelados de cone, farturas vivas como enguias fritas: e ante a eternidade do mar usufruíram do inapelável sabor a baunilha dos dias sem horas. E jantares de peixe na brasa com vinho branco apalhetado. E demoraram a lentidão da harmonia. Retornaram antes de a roda-gigante se encerrar ao estimado-público. Ele partia de madrugada para Norte, estranhamente pela Bélgica, esse reino duas vezes violado no mesmo século pelos teutónicos do costume. Foi então que ela lhe sugeriu que adoptassem algum órfãozinho, desses brinquedos portáteis que a caridade estatal e a escaninha Igreja disponibilizam depois de devidamente pedofiliazados. Ele não quis. O barbeiro tinha predilecção pela rádio nacionalista. O gravador-ourives era de outras escutas. O Plano Marshall não invalidou as ditaduras ibéricas. As amendoeiras foram & vieram florindo sua alienígena neve japonesa. Nisto, um perfume de fruta exposta: a chuva dando nas laranjas da banca sobre o passeio. A nora do extinto barbeiro descerrou o toldo. A chuva cessou logo a seguir, o sol abriu o escândalo absoluto da mais régia totalidade, a rua refulgiu de verniz lavado, eu próprio tive de semicerrar as pálpebras ante a radiação de tal tesouro instantâneo – pois que a luz reiterava nos limões o ouro mais ácido da terra mais aérea. Bojuda como um zé-pereira, a muito prenhe sobrinha do velhote da sobreloja vem hoje pagar ao barbeiro que já não há a renda parada de relógios que afinal não param – mas sim param se já nem um camionista faz à mulher um filho como deve ser –, queres assim ou mais curtinho?

15/03/2018

RUI & ANA - Rosário Breve n.º 546 in O RIBATEJO de 15 de Março de 2018 - www.oribatejo.pt






Rui & Ana



Era mais já que meã a manhã de terça-feira, 13 de Março de 2018, quando me telefonou um Amigo a dar-me conta da morte de outro Amigo. Pior ainda: era uma morte por suicídio. Ainda mais grave: foi um suicídio ferroviário exactamente no mesmo local da linha onde, a 29 de Maio de 2016, voluntariamente se dera à morte uma menina de 18 anos. A tragédia em toda a sua negrura: essa menina era filha deste meu Amigo agora terminado ele também. Ana, ela; Rui, ele. Nestes quase dois anos, o Rui lutou quanto pôde contra a dor – até deixar de poder. Ou de querer – não sei. Duvido de que alguém possa saber.
Sei isto: antes do telefonema, a minha manhã individual acontecia inofensivamente. Muito cedo no dia novo, eu descera em segurança não titubeante uma ínclita ladeira de bairro decente. Dispunha de moedas confortáveis para a chávena de café inauguradora do dia, o caderno de capas pretas albergava já a crónica-para-ser desta edição (em que referia Rilke & o Dr. Pedro Canavarro, entre outros tópicos ribatejanos), o autocarro veio à hora certa, nada de transcendente que não imanente. Apeei-me não longe do hospital, recolhi-me àquele Café muito limpo onde, há sete anos, gastei o interlúdio do velório da minha Mãe, retomei o meu Rilke, revi a crónica que esta semana já não vai ser, devo ter sido mais ou menos feliz até às 11h13m: foi então que o J. me telefonou com a má-nova da passagem-de-nível, a má-hora da terminação voluntária do Rui – com aquilo, enfim, que tanto me magoou e magoa. Mas que, confesso, me não surpreendeu.
Não me surpreendeu porque o esperei desde a primeira hora do acontecimento de 29 de Maio de 2016. Não conheci a menina do Rui. O pai sim, conheci-o. Era cinco anos mais novo do que eu. E eu, como toda a gente de que agora me lembre, adorava-o. Era de uma inteligência desarmante. Aquele olhar fulgurava de entendimento imediato das coisas do mundo. Na mocidade, fôra um exímio jogador de andebol. Em 2014, pude reencontrá-lo numa reunião de “velhas-glórias” daquela modalidade em que ele foi, de longe, o melhor de todos nós. Éramos então vivos todos. Ele brilhou: como (desde) sempre. Jogámos um bocadito, comemos um bocadito, gostámos todos uns dos outros um bocadão. Nada permitia prever aquilo da filha dele dois anos depois.
Eu tenho duas Filhas: tenho, não – a quem pertenço. Não me passa pela ideia (e pelo coração muito menos) seja o que for de semelhante. Não suporto, sequer minimamente, qualquer analogia. Dou-me ao luxo do egoísmo: tenho pena da crónica que já não vai ser. Preferia publicá-la milhões de vezes em vez desta. Havia cheias ribatejanas, havia pessoas sem-abrigo, havia aquele crime de Twickenham à portuguesa, havia a comédia triste & non-stop da EN-114-Santarém-Almeirim, havia citações de Rainer Maria Rilke, havia o jovem octogenário Pedro Canavarro, havia o lixo em Minde, havia o nabantino Mouchão ardendo a frio de poluição fluvial, havia os juniores felizes do futsal do Vitória Clube de Santarém, havia a tragifarsa costumeira deste pífio executivo municipal santareno – havia isso tudo: mas só me restou o “tresloucado acto”, como antigamente se dizia, do meu querido & perdido Amigo Rui. A realidade (s)urgiu outros lumes.
Cotejo: às mesmas sete horas a que me levantei, era encontrado o corpo dele. Na mesma aziaga circunscrição onde outrora a filha. É pertíssimo do casario um pouco mais a norte onde nasceram a minha Irmã & o meu Irmão mais velhos. E sim, eu disse “nasceram”, não disse “morreram” – esse pretérito só de nome perfeito com que o pai Rui julgou ser possível voltar a ver & a viver a filha Ana.
Não volta – mas finjamos todos que sim, que de novo está tudo bem, que a dor arranjou maneira de cessar quando o novo dia nascia.


08/03/2018

Diário da primeira semana marciana de 2018 - Rosário Breve n.º 545 in O RIBATEJO de 8 de Março de 2018 - www.oribatejo.pt






Diário da primeira semana marciana de 2018



Quinta-Feira, 1Felizmente há chover, embora alguma pontual violência dos elementos humanize de mais a possibilidade de tudo se perder num repente. Na estação-de-serviço defronte, os estandartes da promoção-desconto-litro-combustível fremem como virgenzinhas que tanto sabem ao que vão como ao que(m) lhes há-de vir. Primeiro dia de Março: zune o poder eólico, o céu é chumbo negro, corre de estanho o estranho rio, vale mais ficar em casa a quem tem uma. (Nem toda a gente tem uma.) O Inverno vigora com justiça plena. De sudoeste, uma força aérea invencível carrega gelo consigo. Os penhascos rangem como viúvas ainda disponíveis. O mar traga os afoitos inconscientes. Trump quer os professores com pistolas. A Síria está bem, obrigado. Calor no Árctico, neve em Bragança-Vila Real-Chaves-Viseu. Certo. O meu Amigo Manuel M.M. telefona-me para almoçarmos juntos um dia destes. Sinto-me gratificado pela demanda: somos amigos há quase 39 anos. Recolho-me: o briol já aperta mandíbulas em torno dos ossos cinquentenários (upa, upa).

Sexta-Feira, 2É dia de Porto-Sporting. De nada mais falam as televisões da parvónia. Não sei por que chamam “mau” ao tempo: chove ouro, para mim; para mim, é pão que chove. O grande chumbo de ontem ferra ainda o céu de hoje. A cameleira da praceta, que o sol februário fez florir precocemente, tenta não se deixar despir de todo pelo assédio ventoso: mas há já pelo chão as inumeráveis páginas-violetas de suas folhas-lilases. É verdade: a luz parece toda feita de sombra, isso é verdade – mas não é com(o) tristura que assimilo a invernácea condição do dia. Não, isso não. A terra babuja de água boa, as raízes bebem fartamente, o verdor ainda não ardido deflagra no ar qual postal de seiva instantânea. Nisto, trovoada: um fósforo imenso & mudo, primeiro; segundos depois, o fragor de móveis arrastados na casa de Deus. Fracamente a cameleira diz não ao ar movediço, de súbito reforçado por esses populosos descampados. O tempo fala. O Tempo, também. Dizem-nos coisas – nem todas más, aliás. Espero tão-só que, logo, Porto & Sporting empatem.

Sábado, 3Estreia absoluta na minha vida: cortei o cabelo a alguém. Esse alguém, nascido a 11 de Janeiro de 1959, é o meu Amigo Jorge C. Vive sozinho num apartamento quase exíguo e é dono de um pente-lâmina eléctrico. Ele mesmo escolheu no dispositivo a velocidade “pente-3” (acertos & retoques finais a “pente-zero”), sentando-se depois, de toalha-babete sob o queixo como um bambino veterano, de costas para a janela do terraço. Vacilei um pouco, a princípio: responsabilidade assustadora. Devagar, porém, lá lhe fui desbastando & devastando o crânio. No fim, a coisa não ficou mal: pareceu-nos a ambos que era atavio ex-capilar digno q.b. para voltar com dignidade à recruta militar. Como disse, eu nunca tal houvera feito. Foi poupança de seis, sete, talvez dez euros até, no barbeiro profissional. Enquanto o tonsurava, pensei em fixar o episódio por escrito – pode ser aqui mesmo.

Domingo, 4Nunca simpatizei com domingos: o vazio existencial é menos disfarçável, talvez/decerto por isso mesmo. (“Tinha dias e noites idênticos, mas o que mais lhe pesava eram os domingos.” – J.L. Borges, in O Livro de Areia). Recorro à “omnipotência” da escrita para o dar por terminado à nascença.

Segunda-Feira, 5Por instância do meio-dia, um breve dilúvio benigno sitia a Cidade. O ar, varejado a vapor frio, volve-se glauco. A grelha pluvial, harpa sem mesura, aponta-nos a insignificância física nossa. Eu, sob escarlate toldo de lona, miro & aguardo. Lixo urbano é arrastado pela torrente das sarjetas. Agarradas sempre aos inúteis chapéus-de-chuva, já pessoas levitam a alguns metros de altura. Depois, Deus (ou o Diabo por Ele) põe-se na brincadeira: a primeira nesga de sol dá primeiro no campanário da Igreja de São José, fazendo-a bronzear a prima meia-hora da tarde. Envernizados pela plúvia rija, os cedros & as laranjeiras daquel’além tão antiga mansão senhorial reverberam como olhos sadios. Entretanto, das catorze pessoas içadas aos ares pela intempérie de há pouco, só doze voltam à terra: duas aproveitaram a boleia – ou para morrer ou para migrar, o que dá no mesmo. Digo eu daqui, nas lonas, escarlate & toldado.

Terça-Feira, 6Hoje é dia natalício (1927) do gigante Gabriel García Márquez (m. 17 de Abril de 2014). A esse descomunal Colombiano devo muitas horas muito felizes, mesmo (ou sobretudo) nos anos mais tristonhos. Por contraponto, anos bons foram aqueles que me viram contemporâneo & companheiro deste moço aqui mesmo, o Paulo C., que de repente, e ao cabo de mais de 30 anos, encontro no autocarro matinal. O Paulo está fisicamente óptimo. Noto-lhe todavia certo ar fatigado. Ocupa-o & preocupa-o a vida, decerto – como a (quase) todos nós. Foi porém uma breve alegria revê-lo. Apeei-me duas paragens (ou dois parágrafos) depois. Oxalá nos revejamos algures, nem que apenas daqui a mais três décadas.

Quarta-Feira, 7Não sei: nem como vai ser para mim esse amanhã, nem como foi para o meu Leitor esse ontem – o Jornal sai às quintas, eu envio a crónica às terças. Só sei que São José badala, precisamente agora, nova meia-hora: para mim, passada; para o meu Leitor, futura. Outra brincadeira do Diabo, enfim. Ou do Compadre de São José por Ele.  

01/03/2018

MARIA & MAIS NINGUÉM - Rosário Breve n.º 544 in O RIBATEJO de 1 de Março de 2018 - www.oribatejo.pt








Maria & mais ninguém



Entre princípios & fins do século passado, nasceu, viveu & morreu a senhora minha Tia-Avó Maria da Conceição dos Santos.
Morreu de fome – esclareço. Atenção: de fome, sim – todavia não por miséria, pois que um cancro gástrico a extinguiu, condenando-a à impossibilidade de absorção nutritiva & queimando-a, por dentro, de carvões frios cuja brasa gelada a filtrou até à última transparência da cera. Eu vi isso acontecer, foi mesmo assim, acreditai-me Vós por uma vez na vida.
Herdei dela a cama-de-ferro em que dormi a adolescência, essa terra-de-mais-ninguém daquela idade em que todos somos a única pessoa viva & importante do mundo.
A minha Tia-Avó Maria era uma proscrita: nascida virgem & solteira, solteira morreu mas sem já o outro atributo hímen-original. Consta que namorou fisicamente algum inconsequente aproveitador de seus/dela mucosos vinténs. A família (minha: mas anterior ao meu nascimento) soube dessa cópula infeliz & estéril – e nunca lhe perdoou o devaneio, ostracizando-a inexoravelmente sem sombra de perdão: o fascismo vestia chita.
Morreu sozinha como um cão feminino numa casita miniatural de sem-marido, ou tugúrio de boneca sem príncipe, que eu visitava aos sábados dos meus 17 anos sem atender a cadastro sexual, sem inquisição católica & sem resquício sequer de censura moralóide. Talvez me atraísse nela o meu próprio retrato futuro: este de cão masculino auto-exilado em casota mental.
O irmão dela, pai da senhora minha Mãe, nunca a visitou sequer uma vez, como eu tantas vezes fiz: que a terra lhe seja, a ele tal bruto, pesada como chumbo.
E no entanto a minha pobre Tia Maria permanece como a mais alta glória cinematográfica do meu clã: é dela a voz agudinha que se ouve, em pregão cantado, no filme portuguesíssimo chamado Capas Negras [de 1947, com realização de Armando de Miranda e protagonizado pelas maravilhosas pessoas & vozes de Alberto Ribeiro & Amália Rodrigues, naquela cena da Estação Velha (ferroviariamente falando, Coimbra-B actual)]: era ela, na vida dita real, a vendedeira de arrufadas de quem, na dita película, se escuta o chilreio de ave fininha.
Recordo ante Vós a casa-de-boneca que era a dela: ao fundo do Lagar Velho, na propriedade dos Rodrigues, e à esquerda de quem desce a caminho do Cardal cemiterial onde há muito dormem (o sono de que se não acorda) os meus Pais & o meu Irmão, dava para uma eira gretada de ervas sem jardineiro – mas além da qual vicejava uma horta farta miraculada pelas humílimas verduras da terra nutriente & portuguesa: couves, nabos, o episcopal & rubicundo tomate, a terna & tenra alface, a leira de batata gorda que os porcos adoram e os humanos não desestimam.
Entrava-se naquele casinhoto celibatário pela cozinha imediata, acabando-se de imediato a visita no quarto-de-dormir mais sozinho do mundo, esse onde branquejava, qual cisne negro da solidão mais irremediável, a tal cama-de-ferro lacrada a branco-cor-de-asa-de-anjo que depois herdei mas hoje pertence ao meu Irmão Fernando, gémeo do extinto Jorge nosso.
Na cozinha de livro infanto-juvenil para duendes, gnomos invisíveis haviam pregado ripas de pinho, das quais se penduricavam utensílios cozinheiros de menina-velha: o pucarito esmaltado (como esmaltado no quarto o bacio), o tachito breve para aqueles arrozes-brancos que provisionam o jaquim frito, a panela mínima em que ela, da horta, fervia a couve em ração de anã, a faiança cromada de rosas cerâmicas abrilhantada pelo filete-de-ouro do pintor-porcelanista anónimo que o senhor meu Pai toda a vida foi – e a colher-de-pau do tempo da Senhora Dona Maria II. A todo este enxoval presidia a litografia glauca que perpetuava a efígie do senhor Papa Paulo VI.
Paulo VI veio à Cova da Iria em 1967. Foi pelo meio-século da falcatrua fatimista. Na cozinha da minha Tia, porém, e sem que sumopontificemente o pudesse ele augurar, o Papa presidia também ao vero pretexto que a casa de Maria da Conceição dos Santos me levava cada sábado: namorar T., sobrinha do senhorio. Essa adorável T. era uma rosa vertical erguida a partir de dois caules-pernas, factor anatómico que a volvia flora ambulatória. De olhos enormes como lagoas expostas a um luar de prata para que ainda não fora inventado adequado firmamento noctívago, manteve-se pura & ilusória à maneira daqueles natalícios globos de cristal que basta agitar para que a neve & o Natal suspendam perpetuamente os sais e os flocos da mais pueril felicidade eterna. (É certo porém que, no viço nubente, T. acabou casando-se numa cidade estranha com um rapaz fininho, católico como ela, cujas presteza & decência até hoje eu seria incapaz de emular – de modo que.)
Tinha-lhe passado a fome terminal: de modo que inumámos entretanto a senhora minha Tia-Avó em tão campa tão rasa (ou tão rosa) quão os já nonagenários três nomes dela para ninguém. Levei-lhe papoilas ao mármore.
Tenho pensado entretanto na casita que ela deixou devoluta. Talvez se T. voltar desquitada, não sei, sobrinha que continua do senhorio, ali ao Lagar Velho, não sei, sei lá, lá onde a eira, a horta, os fantasmas das bonecas e o pucarito de esmalte, tudo a que eu aporia logo a cama-de-ferro que um dia destes o meu Irmão Fernando vai ter de me devolver, talvez, não sei bem, Maria.


22/02/2018

Especulação do faminto - Rosário Breve n.º 543 in O RIBATEJO de 22 de Fevereiro de 2018 - www.oribatejo.pt





Especulação do faminto



A informação em excesso torna-se, por contraponto de saturação, desinformação. Tal verborreia sem stop é uma massa tóxica que envenena o espírito crítico do maralhal. O mais certo é que seja mesmo para isso: para acarneirar com força o pessoal. O recente fim-de-semana de 17 & 18 do corrente confirmou-no-lo sem apelo & com agravo. Na noite que mediou sábado & domingo, fingi sonhar que os papéis protagonistas tinham sido enganosamente atribuídos. Isto é: que, na verdade, Bruno de Carvalho vencia por quase unanimidade o congresso do Partido Social Democrata e que Rui Rio entregava de mão-bandejada a Marques Mendes a secção de basquetebol do Sporting Clube de Portugal. No entanto, a segunda-feira ulterior contrariou-me a ficção, como é aliás timbre de todas as segundas-feiras da vida.
Sobrevivi a essa afinal ténue decepção: na terça-feira imediata, já a autoridade do esquecimento exercia sobre mim e sobre o nosso País a veleidade da indiferença. Na véspera, eu fôra a uma repartição pública. Enquanto esperava vez, lapijei no bloco-notas: “Antigamente, a ignorância era envergonhada. Hoje, é atrevida, é insolente – e, portanto, mais insuportavelmente imperdoável. Não me refiro ao analfabetismo livresco. Refiro-me, sim, à arrogância voluntária do tipo não-sei-nem-quero-saber-e-tenho-raiva-a-quem-sabe. Sou invariavelmente intolerante ante tal bruteza feroz – sobretudo quando tal espécie de gente se alcandora a postos de mando & comando públicos (os privados não me interessam, neste caso) para os quais não revela pertinente mérito, nem reconhecida aptidão, nem particular competência.”
Uma hora depois, satisfeita a necessidade burocrática que me levara a tal repartição do Estado, mudei de sede. Anotei então: “É em pacata mudez que me dou a estas considerações no curso da bela manhã de Inverno. Ante a minha posição sedentária, nesta praceta livre como o ar mesmo que a vivifica, o choupo sobe principescamente a frescura da hora, encavalitados nele quatro pardais o mais vivazes, o mais furiosamente felizes – conjunto (ou conjunção) flora-animal que me é de refrigerante consolação estética.”
Até aqui, enfim, tudo bem – o problema residia na minha hesitação. Sim, eu hesitava: por que linha seguir cronicamente? Pardais? Repartição? Choupo? Jornalixo? Bruno? Rio? Eu-próprio-outra-vez? Valeu-me dispor de mais notas a lápis. Uma delas trocadilhava sobre o “papel papal” de Francisco, pontífice-sumo que muito me admira não ter sido ainda envenenado pela padralhada pedófilo-banqueira-ultramontana-PioXII(naz)ista. Outra nota soluçava, em verso adiado sine die, a “identidade permanente do coração – que se chama volubilidade.” Outra, ainda, marcava passo à passagem de uma gaja mesmo muito boa – assim: “Ao sol tíbio, vejo passando uma mulher segura de si, a cabeleira dela, tornada fulva pela refracção da luz, chispando dardos de oiro, o peito dela duplicando o milagre do leite adiado.”
Todavia, restava por fazer a crónica. Eu sabia que me era tão-só necessário evitar essa víscera chamada coração, ir pelo racional, seguir pelo lógico, fugir pelo concreto – mas o problema era a fusão toda nuclear PSD/SCP, que continuava, afinal, a zunir-me nos pavilhões auditivos. Outro problema: a formosa manhã invernal dera-se entretanto a pluvial, pois que, quase de repente, e fundida com o ar, a morrinha viera tornar respirável a água de São Pedro. Nisto, era já hora-de-almoço – e eu esquecera-me de trabalhar para merecer a sandes. Comparei a escandalosa evidência famélica do meu presente à fartura gordurosa do passado – e vi logo as diferenças, como na página de entretenimento dos jornais. Felizmente, não me deu para a melancolia. Deu-me, isso sim, para especular sobre a obscura razão pela qual o Rui Rio não pôs ao Santana os patins da secção de hóquei do glorioso Sporting. E também sobre que raio irá agora fazer Bruno de Carvalho da senhora Elina Fraga.

Canzoada Assaltante