14/10/2014
Livro novo, antiga viagem
Ontem, 11-X-14, uma festa muito bonita: a do 50.º aniversário matrimonial de Gina & Armindo (Lopes Carolino).
A surpresa oferecida pelos veteranos Noivos aos (muitos) convidados foi a a biografia do antigo presidente da Câmara Municipal de Pombal.
Tive a honra de escrevê-la para eles e para a minha Editora, a Imagens&Letras.
Viva a Gina. Viva o Armindo.
09/10/2014
Rosário Breve n.º 377 - in O RIBATEJO de 9 de Outubro de 2014 - www.oribatejo.pt
Quer
tacho
Tenho um primo de sangue directo que é
médico no Cartaxo há coisa de trinta & picos anos. É rapaz bonito e afável
como uma manhã dos Junhos de antigamente. Foram-lhe ásperas as primícias da
vida. Até fome passou. Tudo venceu, todavia. Até a morte de um filho pequenino.
Já o não vejo há tempo de mais. Não é meu costume andar pelo Cartaxo. Não é meu
costume andar pelo Cartaxo por causa de Vila Chã de Ourique.
Tenho medo de Vila Chã de Ourique por causa
do “terrorismo” institucional-autárquico que por aquela sede de freguesia
praticam. Espero bem que o doutor meu primo também por lá não ande muito. Não
quero que eventualmente o acusem de andar violando o n.º 2 da Lei 75/2013, de
12 de Setembro.
A Ção & a oposiÇão são mulheres para o
encalacrar com isso se ele lá for, mesmo que só para praticar a sua, dele,
bondade clínica. Quando o Relvas andou mundo fora a esterilizar freguesias e a
enxugar poços, esqueceu-se de apagar de vez a Vila Chã de Ourique, que tanta
falta faz ao mundo como a fome em África & Arredores. Malvado Miguel,
doutor de pechisbeques & quinquilharias.
Já o meu primo médico poderia passar e
passear sem medo pelo concelho todo. E eu. E eu com ele. Dos meus projectos de
vida mais benignos, um é ir com o meu rico primo assistir a um treino dos
rapazes Caixeiros de Santarém ao recinto desportivo de Vila Chã de Ourique.
Iríamos até talvez com o marido da Ção presidente, esse que foi tesoureiro de
um executivo que já não há nem me/nos parece que venha a haver. Nessa minha
insensata quimera, os apaniguados do senhor Paulo Varandas não dinamitam nada.
As mulheres deles não usam burcas.
Nem os rapazes do PSD local rezam cinco vezes por dia em posição genuflectida
de catar pulgas ao chão.
Acontece que tenho uma solução milagrosa
para a embrulhada de Vila Chã de Ourique. Faríamos assim: dava-se à Ção
presidente e ao marido a Junta Boa;
aos outros da oposiÇão, a Junta
Assim-Assim, para lhe não chamarmos Má.
(Esta minha proposta não é meramente boazinha: é cinco-estrelas.)
Com a Junta
Boa, a Ção & o marido poderiam ir almoçar fora aos domingos, amando-se
com ternura entre garfadas de cozido e terrinas de canja rica. Com a Junta Assim-Assim, o PSD local, o
comunista residente e os paulovarandasistas fariam uma suecada valente, rodando
os três pares que seis cabeças perfazem. E eu e o meu primo sorriríamos a
todos, untados ambos de gozo o mais feliz e o mais sacro. Agora, assim como
está é que não dá.
Em minha casa, a senhora a que pertenço
também preside – mas (atenção!) acumula a tesouraria. Não é como em V. C. de O.
Eu só respiro. Sou vogal consoante, por assim dizer em alfabético paradoxo. O
meu primo doutor, não sei como faz. Como é médico encartado há tanto ano, ele
lá saberá. Aqui a sós comigo mesmo, penso um dia destes visitá-lo. Não conheço
ainda a senhora com quem ele contraiu segundas-núpcias. Espero, tão-só, que ela
se não chame Conceição. Porquê?
Porque, nesse caso malfadado, eu teria de
reformular a presente crónica toda, começando-a, para meu & Vosso mal,
assim:
Tenho
um primo de sangue directo que é tesoureiro no Cartaxo há coisa de trinta &
picos anos etc..
02/10/2014
Rosário Breve n.º 376 - in O RIBATEJO de 2 de Outubro de 2014 - www.oribatejo.pt
Bye-bye,
Tó-Zé, bye-bye e não voltes
Nem todos os cristãos são católicos, nem
todos os católicos são cristãos.
O mesmo se aplica aos socialistas de
Portugal: nem todos os que o são, estão no PS; nem todos os que no PS estão,
socialistas são.
Por outras palavras e no sentido idêntico:
nem das galinhas cresce lã, nem as ovelhas dão ovos.
O que reluz e o que é ouro – raro
coincidem.
Dou por mim a dar nestas lapalisseadas pelo alvor da manhã
derradeira de Setembro. Uma cantoneira da Câmara vai penteando a corta-relvas o
separador central da Avenida. Pela galeria da Rita, choutando a mansinho passo,
uma senhorita-caniche dá trela a si mesma em gracioso par. O copofonista
madrugador das sete e onze acaba de emborcar o terceiro porto mercê de uma
tecnicamente perfeita cabeçada-marcha-atrás.
Dão as sete e doze quando me ocorre que o
senhor papa Francisco sempre há-de, cá p’ra mim, ser tão mais cristão quão
menos católico pareça. Já quanto ao novel campeão de pesos-mosca, António
Costa, aliás simpático e bonacheirão portugoês
do Príncipe Real, o mínimo é agradecer-lhe, para já & se calhar muito, a
deserção do inSeguro da televisiva pantalha. Receio, tão-só, que os coelhos ainda venham a dar ovos, fora da
pagã Páscoa do calendário comercial.
Través tudo isto, faço como os índios da
Nort’aAmérica: tenho as minhas reservas. Tudo faço para não confundir a canábis
com os canibais. De crónicas ferreiro, que espeto de pau me não seja o
argumento. Não pretendo ser indelicado, não é melindrar que pretendo. Os
“simpatizantes” do PS podem perfeitamente integrar procissões santuárias, tal
como ele houve decerto muito padre que a seu tempo votou Sócrates. Não é com
isso que me vou armar em cabeçudo – desses cabeçudos tão cabeçudos, mas tão,
que nem se penteiam, antes estabelecem perímetro. O PS e a Igreja não me fazem
mal. Também me não enchem de sopa o prato. Cá p’ra mim, a filial portuguesa de
Roma e o partido rosicler são como
aqueles primos remotos que todos temos algures: usam-nos o apelido mas não são
nós.
Enquanto tudo isto, uma matrona conserta ao
decote um fio de ouro de que se dependura a medalhinha da Senhora da Conceição.
Mas, por pecaminosamente ter madeixado de trigo químico a cor natural da
cabeleira, é como se a Imaculada habite o sopé de uma silveira outonal. É como
a vocação dos sapateiros para serem coxos. O da minha Rua era: cambava o
próprio andar.
Por este andar, dizia eu pois, o PS ainda
se arrisca a deixar de vez cair a máscara. Que é como quem diz: a maquilhagem.
Aquele “S” sempre significou tudo menos “Socialista”. Foi “S” de Soares, de
Santos (Almeida), de Sampaio, de Sócrates, de Seguro. Só lhe faltou ser de
Santana, pelo histórico descambar.
Ainda me hei-de rir um dia destes. Digo: de
o PS tornar-se PC.
“C” de Costa, não de “Comunista”. Ou de
“Católico”.
Agora de “Cristão” é que não, isso de
certezinha absoluta.
26/09/2014
25/09/2014
Rosário Breve n.º 375 - in O RIBATEJO de 25 de Setembro de 2014 - www.oribatejo.pt
MDI
Esta é a edição n.º 1501 do nosso Jornal.
Muito bem. As minhas fuças estão pespegadas nesta página há apenas 375. Muito
bem na mesma.
Há casamentos que não duram nem a
décima-parte dos já quase trinta anos hebdomadários deste título. São
matrimónios, por assim dizer, sem direcção, sem escrita, sem aparato gráfico,
sem quem os assine – muito menos leia. Os casamentos efémeros, de tão vulgares,
nem grande publicidade chegam a ter.
Por seu lado, ele há também e também por aí
andam jornais que nem para forrar a gaveta-do-bacalhau servem. São pasquins
devotados ao serviço pulha e infecto dos gigantes da indústria e dos anões do
comércio. São coisinhas que lambem. Praticam o “jornalismo” papa-croquetes dos
portos-de-honra, das tasquinhas com seu secretário de Estado portátil, das
feirolas “medievais” pré-congeladas e pré-embaladas para pasmo dos asnos que confundem
a História com as barracas de farturas.
Tais casamentos e tais publicações não
duram – porque são existências moles, invertebradas, servis, viscosas,
instantâneas, aguadilhas, vocacionadas para bufas de si mesmas.
Nos matrimónios céleres, enfim, não toco.
Já nos jornais sim, toco – mas faço-o de
dedos em pinça repugnada: ena tanto especialista!, ena tantas sabedorias!, ena
tanta cagança!, ena tanto sobrinho de banqueiro!, ena tanto autarca!, ena tanta
namorada do CR7!
A excepção está à minha frente.
Escritorzeco de pastelaria de província, habituei-me a este lugar de alumínio
no extremo norte da galeria da Rita. A excepção é um casal já encanecido,
desses que os anos em comum volvem idênticos como irmãos naturais.
Arreiam boa roupa lavada. Calçam óptimo
couro.
Ela veio de fina blusa branca sobre saia de
xadrez-da-Escócia. É de olhos azuis como duas janelas viradas para o mar na
manhã clara.
Ele é cavalheiro de porte não pequeno,
camisa cinzenta matizada de uma chuva de rápidos riscos verdes, calças de
fazenda ponderosa, morna, daquela que faz bem à pele.
Evidentemente, invejo-os.
Às vezes, vem aqui o filho ter com eles.
Tornam-se então uma espécie de namorados veteranos que se dão ao luxo de ter um
amigo mais novo. É bonito de ver-se.
Venho a saber que se casaram em 1985 – há
1501 semanas, mais precisamente.
Desiludidos fiquem uns, satisfeitos por
eles se quedem, como me quedo eu, os demais – pois que nem aqueles nem estes
esperaram jamais que Ribatejanamente
durassem tanto.
18/09/2014
Rosário Breve n.º 374 - in O RIBATEJO de 18 de Setembro de 2014 - www.oribatejo.pt
SMS: Siglas
Maravilhosamente Simples
Permite-me,
ó bom Leitor, a seguinte confissão: tenho uma pancada muito jeitosa naquilo das
siglas. Sou doidinho por elas. Mas nota tu bem: não pelo seu real significado,
mas pelas possibilidades maravilhosas de significação alternativa. Tenho
milhões de exemplos.
FNAC
é um exemplo bom. Não quero saber se, no plano real, é a megacadeia de livros,
discos, filmes e afins coisas multimédias. Nem se era aquilo d’antigamente do
ar-condicionado. Para mim, FNAC é: Fazer Nojo Aos Cães. Pronto.
NASA.
Esta é outro mimo para mim: Nós Americanos Sabemos a Ânus.
Na
volta para casa de algum arraial com amigalhaços de copázio & coparete, o
meu ideal vir CTT: Com uma Tremenda Torcida.
A
política, essa grande porquita, não cessa jamais de me ajardinar-de-delícias o
coração doidivanas. Olha aqui, Leitor, como lês tu esta sequência:
PS-PCP-PEV-PSD-CDS-BE? Hum? O quê? Partido tal, Partido tal, Partido tal? Mas
qual quê?! Tu não vês nesta justaposiçãozinha a mão do Diabo cifrador de
códigos? Eu vejo.
Concedo-te:
lês nisto o nome de partidos por seres mentalmente são. O teu cérebro é um
alperce fresco. Eu, são, não sou. Porque na enumeração PS-PCP-PEV-PSD-CDS-BE eu
leio: Pobre Seguro – Por Culpa Própria – Por Engrolar Verborreias – Pode
Suceder-lhe Doravante – Costa Depois de Sócrates – Bonito Encalacranço!
Vês,
vês? Viste, viste? Estava ali tudo escarrapachadinho, mas tudo – e tu,
preguiçoso, a ler banalidades onomásticas.
Lírico
irremediável que sou, cultor de inúteis belezas que fui sempre e para sempre
serei, sou também um irremediável leigo quanto a geringonças práticas. Mudar
uma lâmpada atrapalha-me a vida por mais de quinze dias. Abrir uma torneira que
não seja das dos pipos deixa-me boi ante o palácio da simplicidade. E por aí
afora. A minha Senhora Esposa é que me ataca os sapatos. Nunca comi sozinho uma
sardinha: tem de ser ela a desespinhar-me o peixito. Uma vez, tentei fazer a
cama – ela dormiu no sofá, claro.
Tudo
isto te confesso & explico por causa da sigla LNEC. O mero som dela (lnec,
lnec…) não te parece aquele ruído salivar dos malcriados que mastigam de boca
aberta? Ou ainda: o lnec-lnec é ou não exactamente aquele estalo do elástico da
cueca na anca? Hum? É pois. Eu sei que tu sabes que LNEC significa, no mundo
dos não-avariados-da-mona, Laboratório Nacional de Engenharia Civil. Seja. Mas
para mim, népias disso. Para mim, é das interjeições contra-ofensivas mais
lindas que pode haver. Se alguém te chatear, só tens de lhe zurzir cuspo assim:
vai LNEC! Ou seja: vai Levar Nos Entrefolhos do Cagueiro!
E
os ex-ministros? Ah, a meu ver e a meu ler, o que (não digo que todos, mas que
quase todos) fazem – é GNR. Isto é: Guardam o Naco Roubado. E a verdade
seguinte é que PSP: Poucos se Salvam da Pilhagem.
Por
voltas, revoltas & reviravoltas do imparável processo histórico, a sigla URSS
já não se usa. Ai não? Usa, USA! No caso da minha maluqueira, a URSS é eterna:
por, sendo não raro do teor diarreico, portanto humaníssima, valer – Urgência
Repentina de Soltar o Saco.
E
USA? Fácil: Ungidos de Santidade Astral. No mínimo.
E
ONU? Olha, Nelito, Unta-me.
E
NATO? Nunca Andaste Tão Osga.
De
todo o desarrazoado que supra te expus, ó meu fiel e bondoso leitor, concluirás
que um bocadito de fluoxetina me não faria mal de todo, bem antes pelo
contrário. Talvez. Tenho um médico amigo, o Adelino Correia. Dr. Adelino
Correia. Ui: DR AC. Sigla. Já sei: Demónio dum Raio, Arranja-me Comprimidos. E ele
então, com pena de mim e de eu de tão pobrezinho quase de algibeira numerária
como de cabeça, paga-me bagaços até a língua e a Língua me ficarem encortiçadas
de todo, e a boca e o Idioma me saberem a pomada de largo espectro de acção
fungicida.
Estranharás
talvez, Leitor meu caríssimo, que te não ceda a minha particularíssima e
dementíssima descodificação de GRP (Governo da República Portuguesa) ou de CMS
(Câmara Municipal de Santarém). Pois não. Nessas duas siglas não me meto. Não é
por medo. Nicles de medo. É por uma bem mais simples razão. Esta aqui: porque
tudo o que nos fazem, fizeram e vão continuar a fazer, é de FNAC, só quero que
tanto uma como outro vão mas é LNEC.
12/09/2014
Rosário Breve n.º 373 - in O RIBATEJO de 11 de Setembro de 2014 - www.ribatejo.pt
Ou estudo ou nada
Felizmente, o meu curriculum académico não compreende (no sentido duplo de conter e de entender) qualquer cadeira da “universidade” de Verão da JSD.
Digo felizmente
com exactidão: por ser feliz que me sinto com a memória dos meus professores
sérios e com a certeza de ter usufruído de uma pedagogia humanista só p’ra
pessoas. A autognose que hoje posso mostrar ao espelho enquanto raspo o pelame
dos queixais deriva de um lar sólido (ou”estruturado”, como agora é moda dizer),
de uma escola perto e de uma vontade de aprender a que os anos não são capazes
de vergar o espinhaço.
Se a infelicidade me tivesse feito cursar a
tal “universidade” gaiato-citrina, eu seria hoje um palerma vácuo, um enforcado
de gravata, um imbecil irresgatável, uma lesma sintáctica, um caracol
morfológico, uma besta vesga, um assessor solícito, um acólito castrado, um
invertebrado viscoso, um orador afónico, um esterco perfumado, um balão sem nó,
um tumor com pernas, uma unha do polegar roída por prótese dentária, um nojo
literário, um asco de cavalheiro, um cônjuge corno, uma anorexia idiomática, um
assinante do (Amigo do) Povo Livre, um
paulo-bento-contra-a-Alemanha, um dos responsáveis pelas barreiras de Santarém,
um mata-peixes da Vala de Almeirim, um palerma televisivo, um infante sem
infância, um programador do CITIUS,
um ortógrafo indigente, um arrumador a 20 cêntimos no estacionamento
subterrâneo do Jardim da Liberdade, um turista da Águas de Santarém, um colunista de O Mirante, um bilheteiro do teatro Sá da Bandeira, um
actor-fantasma no Rosa Damasceno, um vizinho tê-zero daquele rapaz-escrivão da
Golegã, um artolas patusco da luta contra a corrupção no Cartaxo, um padre sem
fé mas deixai-vir-a-mim-as-criancinhas, um incendiário da Barquinha, um
toureiro zoófilo – e, enfim, um jove’ social-democrata.
Vale-me que tal infelicidade seja, no meu
caso, do mais alto grau de improbabilidade. A escola ensinou-me a pensar com os
olhos. As pessoas não me são estranhas. O social não me aparece como
alienígena. A pobreza material não é por mim encarada como sinónimo directo de
miséria moral. Eu não vou ali ao Gambrinus
canonizar um sucateiro. As escutas que me fizerem ao telefone não me ocultarão
a verdadeira face. Nisto de faces, se me baterem numa eu não dou a outra, mas
troco sim – e a dobrar.
Sempre que a JSD faz uma “universidade” de
Verão, o Verão acaba. E a universidade também. Cada vez que a JSD diz a palavra
“universidade”, as pessoas sérias pensam no Relvas. A “universidade” de Verão da
JSD está para a universidade verdadeira como a Festa do Avante ser não na
Quinta da Atalaia mas na Cova da Iria.
Ou numa das barreiras de Santarém.
04/09/2014
Rosário Breve n.º 372 - in O RIBATEJO de 4 de Setembro de 2014 - www.oribatejo.pt
Isto das cores
Na mesa em frente à minha, um homem doente.
É quase ’inda rapaz: uns bons (ou maus) quinze anos deve ele perfazer a menos
dos meus. O rosto dele é um clarão sanguíneo. A moção gestual dele é muito
lenta – como se até o ar lhe doesse. De que sofrerá? De estar vivo naquele
corpo, talvez. Tomou (mas tão lentamente!) um copo alto de café-com-leite.
Ei-lo a respirar do esforço. O copo de água atira-lhe quatro comprimidos (um
azul, um verde, um rosa e um prateado) para o labirinto gástrico (vermelho-negro).
O olhar dele é feito de duas ilhotas pretas sobre nácar coagulado. A roupa é de
lavada decência – alguém (a mãe?) trata dele ainda. Usa ao pescoço um fio
religioso que lhe pesa na cerviz: Deus custa quilogramas na aflição. Tomou-o
cedo de mais a terminação: o meu Leitor e eu, é a um moribundo que assistimos.
Repórter coscuvilheiro, junto da patroa do
botequim indago dele. Diz-me ela que o rapaz é de família de bem & de bens.
Mais me conta que, de quatro filhos, é ele o último. Último duas vezes: porque
dos quatro o mais novo e porque único desde que, aos três outros, os finou
aquela maleita irreciclável da turbina cardíaca.
Chega entretanto à esplanada a minha pomba
das sete e dez. Veio com a alba no bico. É lustrosa fêmea: maciça,
virente-plúmbea, duas graciosas dedadas de tinta-permanente na junção posterior
das asas. Cabeça muito viva, mui latina, mui ladina. Mesmeriza-me sem pudor: quer
do comer que sabe ela lhe trago eu no saco. Faço-a esperar um pouco: estou a
escrever para o meu Leitor. Ela circunvagueia como um polícia aborrecido da
vida. Pica do chão, por desfastio, uma migalha invisível. Sinto a indignação a
crescer nela. Mas, por me faltarem dois parágrafos crónicos, haverá de esperar
um pouco mais.
Quando dela aparto o olhar, descubro, para
serena mágoa minha, que se foi já embora o moço do atávico coração. Ei-lo longe
já além, além passando milimetricamente a passadeira. Causa ele uma fila
nervosa de carros impacientes: ser automobilista é não cuidar do coração. Perdi-o.
O meu Leitor perde-se dele. Não voltaremos, talvez, a escreve-lê-lo. Resta-nos
a pomba. São sete e dezassete da manhã, sete minutos a demorámos já.
Vou ao saco. Tenho arroz para ela. Quatro
singelos bagos tenho eu para ela: um azul, um verde, um rosa e um todo de prata
– como só ela.
28/08/2014
Rosário Breve n.º 371 - in O RIBATEJO de 28 de Agosto de 2014 - www.oribatejo.pt
Queixa
no País da Insónia
Não sei se é a má-sina a perseguir-me, se
sou eu a persegui-la a ela. Talvez ambas as coisas. No caso presente, falo-vos
do putedo que me não deixa dormir. Explico-me.
Na antepenúltima cidade em que vivi, a
minha casa (mas só o descobri depois de arrendá-la) era precariamente vizinha
de uma casa-de-alterne. As madrugadas eram o calendário mais hostil do dia. As
gajas, mais os lenocidas que as parasitavam e mais os deserdados de pulseira de
lata que as frequentavam – encenavam e protagonizavam altífonos histerismos de
navalhada, protestos de amor a vintes e a cinquentas, forrobodós de
cassete-pirata sem ballet nem rose. Um ultraje pegado. Pouco adiantava chamar as “ótoridades”.
Quando vinham (se vinham), pareciam
pedir ensonadas desculpas às senhoras meretrizes, invariavelmente espécimenes
de brasileiredo do mais chunga, tisnadas do esterco daquela maquilhagem contrafeita
de feira e armadas de garras envernizadas de amarelo-pus e escarlate-cirrose.
Nunca havia detenções, nunca havia autuações. Nada. Só quando aquele circo ia
dormir para algum remoto apartamento-galinheiro é que a civilização voltava à
má-hora dos meus aposentos. E eu ficava com o bebé da insónia nos braços, roto
para o resto do dia até ao vira-o-disco-toca-o-mesmo da madrugada seguinte.
Na cidade ulterior, vivi em paz: como no
bairro também moravam senhores médicos e senhores juízes, o gado-de-aluguer não
accionava por ali o taxímetro das virilhas. Dormi muitas santas noites nesse
quartito sem mulher nem renda excessiva.
Há três anos e picos que vivo nestoutro
burgo. Foi bom. Foi bom até este malfadado mês de Agosto. É que o putedo
voltou. A prostituição-de-giro sitiou a minha rua e as circunvizinhas. Toda a
noite é por aqui um carrossel ignóbil de carros tripulados por energúmenos das
obras para quem o Brasil é uma espécie de quimera com direito a caipirinha
falsa e a rodízio de varizes roxas como o manto do Senhor dos Passos. Isto
agora onde não durmo é um bairro-da-tijuca. As alvoradas amanhecem juncadas de
lixo. Há batidelas nas viaturas dos trabalhadores sem garagem que, como eu,
tiveram a má-sina de ali se aquartelarem. O sotaque carioca gargalha
obscenidades goianas até às cinco, seis horas da matina baiana. E já sabeis
como é: pouco adianta rogar às “ótoridades” a esmolinha de por ali rondarem
profilacticamente. Elas vêm mas é o carago. Devem ter medo daquelas unhas.
Posso parecer-vos xenófobo e misógino.
Oxalá que sim. Conheço poucas coisas tão degradantes como a privação do sono.
Talvez a fome. Talvez o desGoverno (este como o anterior, o anterior como o
próximo). Podem parecer-vos ofensivas as minhas palavras. Oxalá que sim. Quero
ofender. Quero vilipendiar. Quero dar troco. Quero dormir.
É claro que não tenho pensado noutra coisa
senão na utopia de outra casa noutro bairro. Talvez de outra cidade, até. De
outro país, não. Não posso. Este é meu. Só tenho este. Não vale nada mas só
tenho este. E só quero este. Hei-de resistir nele a tais malfadados e sórdidos
despojos de império colonial de pacotilha.
A não ser que ele, o meu/nosso País, vá de
vez, como tem ido, com as putas. Se for o caso, o melhor mesmo é emborcar umas
caipirinhas e, para as rapidinhas, desembolsar uns cinquentas, com sorte uns
vintes.
06/08/2014
da série Leite dos Santos - entrada 54 do caderno 16 - BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ
54
Leiria, manhã de 12 de Maio de 2013, sábado
Sei de uma mulher e de sua
filha, o homem da casa
fugira delas para a
venezuela-do-costume,
acabaram as duas, uma sem
saber da outra,
por se relacionar com um
rapaz de maneiras
& unhas polidas,
quando finalmente se descobriram
ambas utentes do abraço
dele, chamaram-no a casa
e esquartejaram-no o mais
civilizadamente,
ele ocupou o estúdio das
águas-furtadas,
deixaram-lhe o domingo de
folga,
segundas-quartas-sextas
para a mãe,
terças-quintas-sábados para
a filha,
ele engordou um pouco,
tornou-se algo paxá,
mas no geral a vida ia e
corria bem, entretanto
o contrato dele nos
Correios acabou,
de modo que elas ficaram
felizes até,
tinham e mantinham uma
loja de sementes,
despediram a empregada de
quase toda a vida
e meteram-no lá a ele a
ensacar amostras de girassol
para as feiras e para as
entregas ao domicilio,
o problema foi numa destas
ele se ter deparado
com Clotilde, uma viúva
larga como a vida
de algumas pessoas como
ela, ela-Clotilde chamou-o
à pedra da razão, pôs-lhe
casa na mansarda do prédio
que todo lhe pertencia a
ela, como ele passou a pertencer.
24/07/2014
Rosário Breve n.º 368 - in O RIBATEJO de 24 de Julho de 2014 - www.oribatejo.pt
Olha,
Mimi
O Verão tem acontecido temperadamente.
Trouxe de volta as cores, espargiu pelos relvados as poucas crianças que ainda
por este País de tesos sem tusa são feitas. A chávena de leite fresco sabe bem
na estreia de cada dia nato em nata. A meio da manhã, a malga de branco
amorangado também. No estaleiro da obra, duas aparas de madeira esbraseiam a
sardinha operária.
Dona Graciana veio bem-disposta da
consulta: ainda não é desta que nos fecham o posto de saúde. Juvenal chega do
rio com uma rede generosa de peixes quási vivos. Expele delicada fragrância
erótica a turista de sandálias verdes e promessa de blusa vinculativa, de que
mana (ou mama) a fofura do par de alperces lácteos. Parece rola dada aos ardis
turvos da lingerie. É ela quem lhe dá
na malga frígida de branco, indiferente aos miasmas oftálmicos que lhe açulam
ao decote. De bicicleta furiosamente encarnada, vem pedalando vapores de toiro
o Ruizito da Aurora – dizem que é muito esperto na matemática, mas oxalá que
não estude para professor por causa do emprego, quanto mais da carreira. O
Telmo da Florbela está precisamente agora a teimar com o Horácio Padeiro a
propósito da exactidão onomástica da pintora francesa exposta em colecção na
Casa-Museu Passos Canavarro: o Telmo assevera que é Mimi Fogt; o Horácio, que
não, que pode lá ser, que Fogt é lá nome francês. O Raul da Farmácia tem uma
amante casada em Alpiarça e quer que se saiba, mas baixinho. Às quatro da
tarde, a cal da igreja está em brasa ao torresmo solar. O pachorrento Mariano
da Estrelícia brande o jornal ao Benedito Borbulhas, chamando mentirosos aos
jornalistas por causa daquilo das 100 maiores empresas do distrito de Santarém.
Quando o Benedito quer saber porquê, redargue-lhe o Mariano que ao todo nem 40
empresas há-de por aí haver em laboração, quanto mais cem. Eu sorrio mui
doutamente, rodando na pata esquerda o terceiro vermute abridor da ceia. O Joca
Franciú, que esteve uns anitos poucos no Luxemburgo para vir de lá sifilítico
de ainda mais pobre do que o aquando de para lá ir, tira à carrada industrial
cera do orelhame com a unhaca do mínimo, fazendo estralejar a pulseira de lata
gross’amarela. Carregada de flores como a Mrs Dalloway, passa a caminho do
cemitério a patética Ricardina. – Estás-lh’a chamar pateta porquê?, quer saber
o Joca. E eu digo-lhe que patética não quer dizer pateta, quer dizer comovente.
E mais lhe digo que até parece que tu foste ao São Carlos desgostar a sinfonia
do Cruges com aquelas mamarrachas da plateia. E ele remata que aqui não mora
nenhuma Senhora Dá-lo-ei, que eu tenho mas é a mania. E tenho.
Nisto, a noite emaranha já gambiarras de
silveira estelar. Da boca do rio, uma aragem branda traz o frescote. O rio
mesmo parece prantear os filhos que lhe sequestrou o Juvenal. O Assunção vai de
zundapp buscar a mulher à saída do hipermercado. O Mariano ainda está a zurzir
naquilo das não-sei-quantas maiores empresas do distrito, pelo que, fartinho
dele, o Borbulhas lhe diz tipo isto: – Ó pá, se tu subisses a um altar no 15 de
Agosto ainda t’apar’cia o prezdente-da-cambra na procissão. E o Mariano: –
Olha, Fogt.
23/07/2014
A Secreta Vitória
A Secreta Vitória
Fazem
as pequenas pedras os grandes edifícios. E pequenos, por igual ideia, parecem
os homens que organizam as ditas pedras de modo a que a História encontre
marcos no tempo que passa. Que passa para as pessoas, não para os monumentos.
A Batalha, toda ela, vila e mosteiro de Santa Maria da Vitória, evoca essa comparação. Não é possível, perante a beleza descomunal daquela pedra, evitar a íntima inquietude de sermos, nós pessoas, ínfima areia. E que só ela, junta e trabalhada pedra, é eterna.
Ainda assim, retenhamos de uma visita à Batalha (que é, como em tantos outros casos de amor, uma revisita) a noção de que a alma colectiva existe. E que olhando nós o que invisíveis e dissipadas mãos ergueram, também mãos damos ao que eles quiseram olhar por dentro e de frente: a alma da História, a nave do Tempo, as abcissas da Memória.
Visitada, revisitada, nunca esquecida, a Batalha exalta deste modo uma vitória mais secreta que a de Portugueses sobre Castelhanos: o triunfo da arquitectura sobre o esquecimento. Ou a morte da Morte, por assim dizer.
A Batalha, toda ela, vila e mosteiro de Santa Maria da Vitória, evoca essa comparação. Não é possível, perante a beleza descomunal daquela pedra, evitar a íntima inquietude de sermos, nós pessoas, ínfima areia. E que só ela, junta e trabalhada pedra, é eterna.
Ainda assim, retenhamos de uma visita à Batalha (que é, como em tantos outros casos de amor, uma revisita) a noção de que a alma colectiva existe. E que olhando nós o que invisíveis e dissipadas mãos ergueram, também mãos damos ao que eles quiseram olhar por dentro e de frente: a alma da História, a nave do Tempo, as abcissas da Memória.
Visitada, revisitada, nunca esquecida, a Batalha exalta deste modo uma vitória mais secreta que a de Portugueses sobre Castelhanos: o triunfo da arquitectura sobre o esquecimento. Ou a morte da Morte, por assim dizer.
19/07/2014
Rosário Breve n.º 367 - in O RIBATEJO de 17 de Julho de 2014 - www.oribatejo.pt
Menos
um morto ali para a mesa do Moita
Não é só o professor Marcelo que faz
homilias dominicais. Moita Flores também as faz. É na página 2 do Correio da Manhã. Não há véspera de
segunda-feira que lhe escape. Na mais recente, perorando um chorrilho de banalidades
vácuas sobre os incêndios que cada Verão nos causticam a Pátria, sai-se ele com
esta assim: “Oxalá morram menos pessoas,
mas que ninguém duvide que o fogo nos vai abrasar outra vez.”
Pode ser que eu seja picuinhas. Pode, até,
que eu solenemente me dê ao desperdício de embirrar com o homem. Pode. Mas, a
esta, não lha deixo passar em claro, que nem na lerpa sou de ir ao escuro.
Basta olhar para a (des)conta-corrente da Câmara de Santarém para ver sem
precisão de óculos e/ou de binóculos que este senhor Moita é de más contas. De
modo que o interpelo aqui assim: Menos pessoas mortas? Quantas menos? Um
bombeiro? Dois? Três civis? Meia dúzia? Frase infeliz, irreflectida, vã, de copy-paste moralóide: “Oxalá morram menos pessoas (…)” A frase
correcta, até humanamente, até curialmente, até como toda a gente, teria (e
tem) de ser: “Oxalá ninguém morra.”
Ao contrário do senhor Flores, a minha
mulher é pertinente. Para além do ofício de ganha-pão, é bombeira voluntária há
uma carrada de anos. Terei eu de pedir ao senhor Flores que a integre na sua
oração-de-oxalá? Que seja ela, este Verão, uma das “menos” que não ardam? Uma das que, sacrificando-se na ara e em
aura de solidariedade social-colectiva, não deixem de si apenas cinzas, pó que
somos todos?
Atenção, por favor: nada me move contra o
ex-edil de Santarém, esse fugitivo do e ao escrutínio público. Também nada dele
me comove. É criatura bidimensional apenas. É apenas outro professor Marcelo. É
apenas outro Seara. Outro Sousa Tavares filho apenas. E outro Romeiro do Frei Luís de Sousa: “Ninguém!”.
Mas, figura pública que tanto e tão
incansavelmente se autopublica e que tanto e tão incansavelmente se
autopromove, tem responsabilidades. A citação motriz desta crónica sobrepassa o
banal. É lixo à nascença. É uma treta até crápula. É uma coiseca vadia. Alguém ainda me há-de explicar como
é que o (esse sim, grande) Luís Filipe Costa se deu ao luxo triste e ao
desperdício de co-assinar com ele aquela frívola coisa dos “Polícias” para essa ampla manjedoura de inúteis e de cravas
chamada RTP. Ou como é que há editora que de Moita carrascamente publique os
dramalhões pseudo-históricos relativos ao elenco episódico da nossa vil
capoeira pátria: das Ferreirinhas aos
Ballet-Rose, dos Alves-dos-Reis a toda a trapalhada com a própria mulher em protagonista do telelixo do marido.
Digo eu e tenho razão: uma pessoa séria não
deseja, nem muito menos escreve, menos morte. Deseja nenhuma. Escreve nenhuma. Num desastre de avião, uma
pessoa decente não diz que “ainda bem que
só morreram 273, sempre se safou a hospedeira”. Um escriba a sério nunca
rosna que “no próximo bombardeamento de
Gaza, oxalá que os israelitas matem menos quatro crianças”.
Há coisa de duas décadas, Gilles Lipovetsky
escreveu uma obra chamada “A Era do
Vazio”. É a nossa. É a porra da síndrome do balão: muita cor por fora mas
só ar quente por dentro. Hélio de ninguém. Nada-resto-zero.
Já quanto à dívida da Câmara de Santarém,
oxalá que este ano seja de menos milhões. Um milhão por cada morto a menos na
fogueira do senhor Moita, a quem só não mando ir pôr-se num porco por não
saber, eu, se ele domina a arte do contorcionismo.
14/07/2014
49 do 31 (Leiria, entardenoitecer de segunda-feira, 14 de Julho de 2014)
49
Com os
anos, é possível aprender a ser-se amado.
Passou há
muito, felizmente, o tempo das experiências.
A receita
eficaz está agora na adoração pachorrenta:
as pantufas
irmanadas, o gato plácido,
as
andorinhas-de-barro na empena do alpendre.
Os grossos
cordames dos navios não logram isto:
são só
cordames de navio – e está muito bem.
Em vários
istmos portuários eu vi tais cordames.
Daí que,
sim-talvez-ou-não me ames,
o que
retiro é ter sido o que olhava navios.
Não posso,
bem no tente eu embora, deixar-me todo em papel.
Há coisas
que são só p’ra dizer aos domingos
– e hoje é
segunda-feira na minha vida e
amanhã
também.
Penso
ter-te posto isto em pratos os mais limpos.
Gosto, como
tanta gente gosta, de crianças ao vento.
Sinto-nos
cadernos-de-colorir – e elas, as cores.
Mas depois
derivo, dou voltas na chuva mesmo fazendo sol.
Nos
espelhos das barbearias, ao longo dos meus já tantos dias,
tenho visto
mais do que a mera multidão restrita
do barbeiro
& eu.
Uma vez,
num inverno poderoso como um guante de ferro,
tremi
sezões que não provinham de moléstia no sangue.
Fiz por
esquecer isso em trovas fingidoras & bem escritas.
Também fiz
filhas, nem tudo foram falhas.
Hoje, que é
julho por minutos, já recebi sinais,
telepáticos
talvez, da nunciatura feliz e descamisada
sempre tão
afim dos poetas-de-esplanada.
Isto, à flor
como no fundo, vale-me tudo,
por valer nada, ó só minh'(a)prendid'amada.
por valer nada, ó só minh'(a)prendid'amada.
13/07/2014
Mais quatro entradas do caderno 31 da série Leite dos Santos - Leiria, tarde de domingo, 13 de Julho de 2014
36
A senhora
Gioconda nos olhos nos olha
– e sorri
de nós, não a nós.
Sorrirá da
pobreza de cada um,
de cada um
da escassez a que assiste.
Figura de
colo manso, de suave tintura as mãos,
é senhora
para isso, disso e de/para muito mais.
Habituámo-nos
todos à sua voraz ubiquidade,
estatisticamente
símil à do Cristo e à do Che.
Nimbada de
ordinário mistério,
parece
sacerdotisa de penhoristas,
pois que
para sempre de prego pendurada,
a pobre.
Ninguém a
requer em casamento,
ninguém
aparece que um vermute lhe pague
em algum
aprazível balcão do entardenoitecer.
Onanismos,
não merece. Erecções, muito menos.
Pode que
por ser tão Mona.
37
O corpo
sente-se branco na luz completa.
Estas
árvores, porém – que sentirão?
À luz toda,
subindo água, cada delas, aberta,
abre-se em
altura por & à condição.
Panos
limpos domesticam a cozinha
que em
manhã livre ela lavou.
A sala
cheira a qualquer coisa azevinha
que,
avezinha, ela (po)voou.
Eu vim à
rua. Em casa, ela, de si descuidosa,
cuida das
plantas, que dela são prolongamento.
Nunca se
queixa, nem se lhe escuta lamento
do
que-foi-que-não-foi. Habilidosa,
bricàbraca
coisas, abre, fecha, veda, estanca.
Nisto,
dá-lhe a luz: ei-la, tão branca.
38
Que espécie
de pureza em leite poderia eu
não
prometer-te em vida por mais um dia?
Ouvi falar
crianças, foi num outro Inverno. Sucedeu
que aquilo
me deu, não sei, uma ’spécie d’alegria.
Em torno de
nenhum centro me fiz periferia.
Ah sim,
tenho habitado abrigos só mentais.
Contas bem
feitas, usei já não sei quantos portugais.
Deles,
nenhum a algum outro preferiria.
É mesmo
assim como te digo, podes crer.
Vou usando
com proveito a ciência da não-espera.
Telefonam-me
muito, mas é p’ra me dizer
que este
& aquele Amigo não chegam à Primavera.
Porra,
chiça, merda, catano!
Já
(des)contei cinco, só este ano.
39
Com
deliciosa, insuportável quase, lentidão
a do
segundo-andar acende dela o cigarro.
De vez em
quando pela rua passa um carro
e mais nada
se passa, há felizmente quietação.
A mulher
disse-me que trouxesse versos & algum pão.
Esqueci-me
em casa do isqueiro, peço fósforos à Sónia,
robusta
empregada, que seria amazona se fosse da Amazónia.
A luz azula
a esplanada. É pouca a frequentação.
No bornal,
trago o Ángel Crespo & o Antoine de Saint-Exupéry.
Já me icei duas vezes daqui: uma p’ra fósforos, outra p’ra chichi.
Vai bonita
a tarde: luz & brisa são dupla consolação.
Bocejo o
meu bocadito, apesar dos três cafés que bebi.
Se calhar
fecho ora o caderno, vale pouco o qu’escrevi.
Valha, enfim, o que valer – desde que me não esqueça o pão.
Valha, enfim, o que valer – desde que me não esqueça o pão.
Três entradas do caderno 31 da série Leite dos Santos
Leiria, manhã de
domingo, 13 de Julho de 2014
33
Humana
frota tripula a manhã dominical
ao
remanso fresco que a hor’ainda dá.
É
uma matina portuguesa, ilesa, meridional:
melhor
do que ela é que não há.
Às
nove, na Igreja de Santa Cruz de Coimbra-a-Minha,
rezaram
missa por alma e em intenção
do
meu ido Amigo José António da Conceição.
Neste
sítio mundial, que Leiria é, a luz pergaminha
o
fluvial arvoredo, que é de rama umbrosa.
A
vida, assim quieta & (c)alma assim, é decorosa,
é
rosa de que se não augura o fim.
Mas
tem-no. Detém-no. Para tal, não há remédio.
Suficiente
& pertinente é, por ora, capar o tédio,
sabendo
de ti alguma coisa – e tu, alguma de mim.
34
Desse
azul mais escuro
que
é veludo noctâmbulo
&
da manhã preâmbulo,
reverso
dela o mais puro
–
desse oferta te fiz & faço.
Lento,
cada verso, tipo melaço,
para
ti escorre, quer ser, entregar-se.
O
melhor do receber ’ind’ é o dar-se.
35
A
mulher hoje de azul na esplanada clara
é
dessas belezas verticais que ao céu mesmo sublimam.
Duas
belas orelhas de viva louça a encimam.
E
o rosto é desses rostos a que se não chama cara.
A
bacia dá ao torso a sugestão da ânfora.
O
pé, a ouro de tiras sandaliado,
tem
qualquer coisa de âmbar, digo, de cânfora.
Todo
o resto é muito bem ataviado.
Tem
marido, claro, que à trela usa ela.
É
rapaz de têmporas grisalhadas & de perfil discreto.
Usa
camisa castanha com gola amarela
e
umas sapatilhas lavadas, sérias, de tom correcto.
Ambos
contribuintes, eleitores ambos democratas.
Ele
é Rui. Ela é Maria do Amparo Gomes Pratas.
10/07/2014
Rosário Breve n.º 366 - in O RIBATEJO de 10 de Julho de 2014 - www.oribatejo.pt
Zeferino
Crusoe
Chamo-me Zeferino, tenho 47 anos e ganho a
vida a fazer carocas, ou pelo menos antigamente ganhava, sempre tive um
bocadito de jeito mais ou menos pa’ quase tudo na construção e na agricultura,
o problema é que agora tou preso vai já para uns meses largos, mas atenção,
preso sem ser na prisão, nunca cometi crime algum senão ser pobre, digo preso
porque é como tou, eu conto.
Acontece que aqui há uns tempos me chamaram
se eu queria vir ajudar a arrancar equipamentos e coisas assim aqui ao Café
Central e eu disse que sim, três euros à hora hoje em dia não são pa’
desprezar, quanto mais aqui há meses que era quando o euro ainda valia, sei lá,
tipo uns setenta paus dos antigos quando é pa’ receber e quatrocentos e tal
dele quando toca a pagar, mas adiante, apresentei-me e fiz tudo o que ma mandaram,
arranquei tudo o que ma mandaram arrancar, arcas frigoríficas, vitrinas dos
bolos, máquina do café, os seis baixos-relevos do senhor Maximiliano acho que
Alves, era isso, Alves, por acaso até muito bonitos, tive pena, claro, mas três
euros são três aéreos e é vê-los àvoar, como eu dizia portanto arrancar
arranquei, só que no fim, quando era p’arreceber, quem arrancou foi quem aqui
me chamou, o pior inda nem foi isso, o pior foi que por causa da marosca me
trancaram aqui dentro e por isso é que eu disse que tava preso e tou e é aqui
no Café Central.
Tou aqui há tanto tempo que nem sei s’inda
é o senhor Noras q’amanda cá na parvónia ou sindé aquele da televisão que diz
mal do que se dizia que queria o lugar dele, se não é devia ser, dizem que ele
é que não quis qu’isto fechasse, qu’era uma pena, talvez por causa dos coisos
maximilianos, isso não sei nem sou chamado a saber, o que eu sei é arrancar,
construir também sei se for preciso, mas pa’ isso chamam cada vez menos ou
nada.
Ó princípio inda julguei que fosse descuido
sem maldade, mas não era, sacanitas dum raio viesse qu’os partisse, dos
primeiros quinze dias nem me posso queixar, havia uma data de latas de atum e
coca-colas daquelas de litrimeio, um português safa-se sempre mesmo que seja
sozinho, é como, com licença da palavra, o mijar, se mija um português mijam
logo dois ou três, ao menos no mijar sempre somos unidos, isso ninguém nos
tira, inda havia luz também e como descobri a televisão antiga mesmo a
pretibranco sempre fui vendo o Goucha e a Maya de manhã e o Jorge Gabriel de
manhã à noite, nem sei como é que ele aguenta tanto sem ir a casa, quer dizer,
agora sei, que também já não vou à minha Póvoa da Isenta desde antes do Natal,
às tantas a minha mulher ainda desconfia que eu fui ali ao Retiro da
Francesinha e prontos, e eu nada disso, que sempre lhe fui sério, excepto
daquela vez quando foi pela largada dos toiros em Almeirim mas isso nem conta
se vocês não lhe contarem.
Mas agora cortaram a água e tou que nem
posso, ainda experimentei mijar menos de cada vez para ver se mapareciam os
tais dois ou três e viste-zios.
Modos que era para pedir ao senhor Noras ou
ao coiso depois dele que até fez mesmo aqui a festa de candidato antes de sir
embora quase logo a seguir, agora já malembro, se podia mandar abrir isto mais
uma vez, que eu juro que desta vez é de borla, té digo mais, que desta vez sou
eu que pago a reabertura, só tem é de me dar tempo para juntar os três euros.
03/07/2014
Rosário Breve n.º 365 - in O RIBATEJO de 3 de Julho de 2014 - www.oribatejo.pt
Ver também:
http://www.oribatejo.pt/2014/06/30/santarem-limpeza-na-junqueira-e-festa-na-fonte-das-figueiras/
http://www.oribatejo.pt/2014/06/30/santarem-limpeza-na-junqueira-e-festa-na-fonte-das-figueiras/
Levando
o cântaro à fonte
Eu gosto de quem gosta da Fonte das
Figueiras. Gosto, gosto. É gente exemplar, no sentido em que, pela prática do
exemplo, demonstra sem peias nem rebuços a evidência seguinte: o melhor que há
a fazer à sujidade é limpá-la, não é carpi-la. O zelo castra o desmazelo. E ao
desconcerto do mundo – o mais é concertá-lo, consertando-o.
Aquela gente é veramente comunitária – sabe
que o Outro existe, querendo para ele o que deseja para si mesma: um mundo mais
limpo, mais respirável, mais humanista. A ecologia dela é com sabão. E o sabão
nunca cheirou mal.
Também me agrada sobremaneira que tal
movimento seja apartidário. Mas atenção: tal não significa que o resultado do
seu activismo seja apolítico. Nem menos. Porque política a sério não é
profissão: é missão. E é a resolução prática de problemas concretos. Não é
torcer o que está mal, é torná-lo dextro. Porque o mundo é no nosso quintal que
começa.
Percebo que isto desassossegue os políticos
profissionais. Enxadas e enxós sempre inquietaram os colarinhos-brancos. Baldes
e esfregonas, idem. Espátulas e trinchas, aspas. Percebo que eles se alvorocem,
que mandem batedores subassalariados por antecipação. Percebo, percebo – o que
me faz gostar ainda mais da Fonte das Figueiras. E da Fonte da Junqueira. E das
fontes todas que, manando da terra que é de todos, a todos se oferecem
limpamente e de limpa mente como aquela gente.
O chato é a possibilidade de aquele
Movimento, um destes dias, pegar de estaca, a ponto de o resto do País se
julgar ribatejano & pró-activo. E se os zeladores da Fonte das Figueiras se
lembram de ir limpar a dívida colossal da Câmara de Santarém, expurgando-a de
pus e crosta? E se àquela malta lhe dá para vir de lixívia esfregar o contrato
do Café Central, ou vir de escova de aço cardar a lã ao estacionamento
tarifado, ou ensaboar os processos inquisitorial-disciplinares aos impugnadores
de concursos manhosos, ou fazer uma barrela das antigas aos contratos orais com
empreiteiros, ou impor uma faxinadela das valentes ao encerramento de
maternidades e afins estruturas da saúde?
Imaginai ainda mais: que aquela gente
afinal perigosa (porque gosta de música, de poesia e de partilhar a merenda,
entre outras subversões) desata por aí a lavar os cestos da Selecção Nacional
da Bola, a vindimar a direito na Assembleia da República e a arejar os
bafientos salões dourados que, de Bruxelas a Estrasburgo com moratória central
em Berlim, nos ensombram a soberania e nos atulham o presente e o futuro de
lixos irrecicláveis como o desemprego vitalício, o desamparo na velhice, a
choldra na justiça, a impertinência na educação, a selvajaria antropófoba do
hipercapitalismo, a manipulação no jornalismo e a infelicidade obrigatória da
pessoa singular?
Calma. Por enquanto ainda só estamos a
levar o cântaro à fonte. Até o dia em que ele teime em lá deixar a asa. E isso
pode acontecer.
A partir das Figueiras e da Junqueira,
pode. Pode, pode. É limpinho.
26/06/2014
Rosário Breve n.º 364 - in O RIBATEJO de 26 de Junho de 2014 - www.oribatejo.pt
Do Zé, agora Beatriz só
Nunca
vivi abaixo das minhas impossibilidades.
Um
homem é um homem, não se quer outro.
Relanceando
sem dor nem euforia o baralho de pretéritos com que destrunfo a bisca do
presente, o mais é serenidade.
Alinho
com Ángel Crespo quando ele diz que “entre
a mentira e a verdade se encontra o certo”.
Não
minto, por exemplo, quando, às seis e meia da manhã, no Café da minha rua que
abre mais cedo, dou e digo os bons-dias
a quem madruga como eu. Escrevendo, cuido não errar, sempre que prefiro a
claridade à clareza: todos nos pautamos por cifrado pentagrama próprio,
codificada a experiência, apurado o gasto, expurgada a bílis da desesperança.
Canhoto
de mim mesmo, ao espelho só. Ainda ontem, egresso do muito que chovia em
virtude do ambular por galeria coberta, colhi mil-e-uma coisas que ao olhar
volvem dextro e contente: o cavalheiro de chapéu alto & lentes fumadas a
azul-de-teatro que rescendia a século XIX; a mulher (também alta e também azul)
cujo balcão peitoral me semelhou um tabuleiro de nata pontificada por dois
sumos morangos pontudos; duas grávidas trocando risadas à beira de uma carrinha
funerária vazia; uma velhota portando uma rede de laranjas, estas e aquela
consumando dois ciclos da terra; e uma revoada de pombas em esquadrilha bem
mais ordenada do que estas linhas.
E
tudo isto, entre verdade e mentira, para vos esconder que fui ao funeral do Zé
Martins na segunda-feira mais recente das nossas vidas. Não queria, todavia
posso contar-vo-lo.
Era
por uma jornada de Verão pelo calendário – mas de Inverno nós adentro. Chovia
que se não fartava. De manhã, os céus haviam desabado num fragor de fúria
eléctrica, insana, poderosa, inútil. A tristura de canário do cenário
reiterava a impensável morte do nosso Zé Martins, o de olhos claros herdados da
filha Beatriz, o Zé a quem queríamos como a um irmão se quer. Entre
nós-amigos-dele, ante o descalabro da má-nova, dera-se a fritura de telefonemas
alquebrados, partidos pela medula, em uma partilha de vãs indignações contra o
despropósito do Destino que no-lo roubara – ou do Diabo, ou da falta de Deus,
por ele.
À
saída do campo-santo de Chelo, e porque aquele último dormir dele é em serra
não baixa, o Luís, o Zé Alberto, a Ana Cristina e eu fomos confrontados pela
massa de vapor que obnubilava a aguda geometria de ângulos do panorama: uma
nuvem rasa que tão depressa apagou a gravura como, de si mesma extinta, tudo de
novo deixou clarear. Vimos aquilo, viemos nisto. Deixámo-lo lá, ao bom Zé, a
sós consigo e por desconta própria.
Agora
que isto escrevivo, é, para mais, de tarde – e agora é tarde de mais.
É
verdade que sempre temos a Beatriz.
E
não é mentira que por coisas assim prefiro a claridade à clareza, dentre as
minhas impossibilidades.
19/06/2014
Rosário Breve n.º 363 - in O RIBATEJO de 19 de Junho de 2014 - www.oribatejo.pt
Allein zu Haus
Duplo
azar de Fábio Coentrão: lesionado nos brasis da bola, aconteceu-lhe, no mesmo
dia em que regressou a Portugal, acabar descobrindo que não estávamos cá –
tínhamos “regressado aos mercados”. O brioso ala-esquerda do Real Madrid (que
está para a carta de condução como o Relvas está para a licenciatura académica)
deu por si sozinho na aerogare da Portela. Nem taxistas havia cá fora. Nem
sombra de bilhetes do Tesouro para desbaratar nos chineses. Apreensivo, rumou a
Espanha. A pé, não fosse por aí restar alguma GNR-BT.
Entretanto,
no íntimo público daquele Partido a que por piada chamam “Socialista”, o
respectivo Directório analisa cada milímetro táctico-estratégico de Paulo
Bento. É isto que eles querem apurar: se (também) o seleccionador nacional
percebe de descalabros com os Alemães, não irá ele precaver-se com o inócuo
Hélder Seguro Postiga em vez de
arriscar com o já-se-viu-que-se-aleija-logo Hugo Costa Almeida?
E
agora aquilo do Pepe. O Pepe: esse grande lusitanista. O Pepe: esse nosso continente-e-ilhas-do-minho-até-timor.
O Pepe: esse perfeito marinho-e-pinto de calções e chuteiras fluorescentes tão
perito em usar a cabeça menos para pensar. O Pepe, enfim, somos todos nós –
menos dez milhões.
Agora
a sério para gente séria, só me ocorre dizer que tanta euforia falsa só podia
resultar em tristonhice macambúzia de cachecol rubro-virente ao cachaço. Nem no
tempo do Morcego Eunuco de Santa Comba Dão o futebóleo oleava tanta alienação de massas. Tanto desempregado
comovido de patriotismo até à raiz cardíaca das lágrimas. Tanto
reforma(fornica)do a interromper o Alzheimer para se lembrar do Varela ao lado
do Éder, em vez da teimosia no Postiga ao lado do ninguém de si mesmo. Tanto
barão do PS a dizer que então ao menos o Neto no lugar do Pepe, o Ricardo não
porque também é Costa.
Como
as areias mais finas pelos interstícios menos calafetáveis, o circo popularucho
do “jornalismo” tudo invade. A RTP não dispensa o desdentado da rulote de
bifanas, que pensa ele do coiso, o Meireles. A SIC rapta a velhinha que ia ali
ao centro de saúde que já não há para apurar se, sim ou não, não terem levado o
Quaresma fez mal à Páscoa. A TVI grunhe aleivosias caralheiras contra o árbitro
que tão ruipatriciamente nos calhou. A CMTV, idem. A BolaTV, aspas.
Será
ingenuidade minha, mas acho mesmo que, a seguir a cada jogo da Selecção (dita)
Nacional, as televisões, as rádios e os jornais deveriam correr as esplanadas e
fazer perguntas tipo:
– Acha que foi
justa a derrota dos direitos laborais?
– Contava com esta goleada no IVA?
– Concorda que com o Eduardo ou o Beto o IRS ainda estaria pior?
– Acha que, por já ter 29 anos, o CR7 deveria ficar sem metade do rendimento?
– Acha que, por já ter 29 anos, o CR7 deveria ficar sem metade do rendimento?
– Vossemecê não
acha triste que andemos todos por conta do “empresário” Jorge Mendes?
– Está à espera que
o “regresso aos mercados” nos faça voltar em grande contra os Estados Unidos?
– Não era para si
evidente que no Alemanha-Portugal a Merkel só lá foi para ver como se portavam
os ’taditos dos coelhos?
Eu
sabia que ia ser assim. Toda a gente sabia. Mas tanta “reportagem”, tanto “popular”,
tanta merda sobre a bola – enjoa. Um jogo tem 90 minutos, 120 às vezes. O antes
e o depois disso – são palha para burros. Espero que a Selecção volte depressa
para casa. Quero a crise de volta. Quero a indignação de volta. Que é como quem
diz: quero que Portugal volte a Portugal.
Os Alemães que joguem com os “mercados”. Sozinhos, como o Coentrão lá na Portela.
Os Alemães que joguem com os “mercados”. Sozinhos, como o Coentrão lá na Portela.
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