14/05/2013

BAILE SOZINHO ou O INVERNO DE QUELUZ - 1 a 5


BAILE SOZINHO
ou
O INVERNO DE QUELUZ





Talvez entre o amor e o mundo haja uma chaga pior – a memória mortal.

HERBERTO HELDER, in Doenças de Pele (apud OS PASSOS EM VOLTA)


De 30 de Abril de 2013, terça-feira,
a 14 de Maio de 2013, terça-feira


1

Leiria, noite de 30 de Abril de 2013, terça-feira

Em invernia antiga, uma vez em aldeia
de que não guardo o nome, chovia
debilmente través a pouca luz
pública, a noite vinha armadurada
de veludos frígidos, cheirava das casas
a caldo e a cães e a mato.

Dormiam já os animais maiores,
já os humanos seniores dormitavam
sentados à face do brasido, eu não
tinha aonde entrar, esperava que me
viessem buscar, tinha tocado no
conjunto que deu baile, tudo acabara.

Muitos eram os quilómetros a cumprir
no regresso a Coimbra, músicos éramos
quatro mais a noiva do baterista,
que era bonita e estudava então
para enfermeira ou professora, não
guardo bem o que me não pertence.

Fomos desenrolando a fita preta
da estrada, não havia então icês
nem tanta auto’strada, eram beirãs
as curvas apinhadas de pinheiros,
não nos largou a plúvia até ao Café
do Silva, onde libávamos o fim do contrato.

2

Ibidem

Levantava-me cedo ao outro dia,
que não sei já qual, refeita a manhã.
Se no sincelo atentava, gostava daquele
vidro ge(r)ado sobre a flora simples
da Cidade: planava sobre essa arte do
cristal chamada Frio.

Tinha algum dinheiro no bolso quando
o cantor pagava, era ele quem tratava
do metal não assim tão vil, naquele
tempo em que comer uma sandes e
beber café-com-leite sabia à música
que se tinha tocado num salão recreativo.

Retomo uma dessas manhãs de invernias
nessa Coimbra desses acabados dias:
saía muito cedo da cama, muito cedo
do quarto arrendado ali perto de S. José,
nada longe do Liceu onde me preparei –
para ser só isto.

Outro trabalho não tinha nem procurava.
Dava pontualmente explicações de francês
a meninos capciosos que queriam era
ser músicos como na televisão viam eles
que havia, e tantos. Mas trabalho-
-trabalho, não tinha nem demandava.

3

Leiria, manhã de 1 de Maio de 2013, quarta-feira

Com discrição era que devagar olhava
os silfos aéreos terrenamente ditos
Mulheres, vaporosos génios de que Coimbra
é tão profusa, tão fornida.
Ubiquista quase fui e decerto me senti,
sem magia e sem anátema.

Foi de certo modo um tempo perfeito.
Havendo por certa a morte, a vida
parece uma prenda fora do aniversário.
Outras vezes, todavia, cruzando pela
ponte diagonal do Calhabé para o Norton,
o absurdo ganhava transporte por meus pés.

Quando fui músico para comer, comia
também das muitas laranjeiras que havia
por aqueles pátios ferrugentos onde
casotas desertas chamavam em vão
por cães antigos e donos que já não
eram, viúva marquesinha, viúvo conde.

Cheguei, claro, a falar sozinho, praças
e ruas por meu auditório o mais
surdo. Chegado o Natal, tremiam
as gambiarras em os pinheirinhos
de plástico para os matrimónios sintéticos
& suas crias de celofane.

4

Ib.

Transido transito ’inda, em pleno Estio mesmo, pelo trânsito
de imagens desse tempo músico. Ensaiávamos num anexo
de ferramentas que pertencia aos pais do pianista,
era perto daquela via de S. João que leva
à Portela, à Lousã, a Espanha, ao Mediterrâneo.
A mim nunca me levou, valha a verdade.

Penso que o António Nobre por ali refrescou
ante uma criança a gentileza de papoila
(vermelho tossido de héctico, fatal cor).
Sá de Miranda, Camilo Pessanha, Eugénio de Castro,
Camões até, podem (devem) ter sabido
onde ensaiávamos, perto o Mondego claro.

O cantor e eu íamos depois aos bilhares,
o guitarrista era já casado então,
o baterista morava mais longe e não podia,
o último comboio levava-o para os campos de arroz
que as cegonhas regiam como fadas vorazes,
dessa voracidade lenta de que o amor é feito.

E se hoje isto recordo e assento em letra de canção,
é por hábito imorredouro, eu fazia a segunda-voz,
tom e meio acima da linha do vocalista,
ficava bem, as pessoas gostavam, pelo menos dançavam.
Íamos aos bilhares, conhecíamos raparigas,
algumas por vezes ficavam, por festa.

5

Leiria, tarde de 8 de Maio de 2013, quarta-feira

Muitos anos são volvidos já desse (m)eu-corpo,
ainda canto mas em surdina só, e cambaleada,
por ruas & praças de cidades acumuladas,
outras de si mesmas, como mesmas e outras são
as jornadas em salmoura de literatura,
nem outra coisa me surge que isto de escre’viver.

Procuro talvez tão-só a serenidade, não importa
que mais do que ela cinzas coleccione, pouco
é deveras o que ainda importa, uma saúde
razoável, moedas para cigarros e refrigerantes,
algum trabalho de vez em quando que eu possa,
saiba e queira fazer, sim, pouco importa.

Gostaria ainda, claro que sim, de ser olhado pelo mar
no Inverno, quando os penhascos se apalaçam
à monarquia de gaivotas & albatrozes, caiado
de sal e juncado de naufrágios equivalentes
aos despojos das vidas, quais vidas?, todas elas.
(Ou quase todas elas, há casos que felizmente não.)

Em poucas meias-dúzias de anos, os leitores
chegarão à foz do espelho terminal no Inverno
de Portugal, país que a infância soube perder
por todos os lados menos pela Língua, os leitores
terão frio, não será já amanhã nenhum,
entretanto penso no Baile que toco sozinho.

09/05/2013

Rosário Breve n.º 308 - in O RIBATEJO de 9 de Maio de 2013 - www.oribatejo.pt




Alegoria apícola

Nada perdura que humano seja.
Brilhantes terão sido as empenas das hoje áridas Pirâmides do Egipto. Da imortalidade a que se propuseram, areia ficou só, que permanecer não há-de.
Tirante esta melancolia, permiti-me Vós que Vos narre certa teimosa perduração de que o muito outonecer da vida me faz presença, gala e abespinhada teimosia. Foi quando o Carlos “Minhoca” da Fonseca gozou sem ofensa o bom Augusto Abreu.
Passou-se isto num Inverno benévolo de há coisa de vinte e picos anos. O Augusto tinha ajudado o filho a apossa-trespassar-se de um café-restaurante dedicado a refeições operário-diárias. A malta frequentava aquilo à noite, extintas do expediente as obrigações horárias. Tinha outra coisa, o Augusto Abreu: era homem de virtudes d’antigamente, daquelas virtudes que sabem o valor da horta, a beneficência da árvore de fruto, o tesourinho do porco d’engorda, o quanto para comprar uma lareira conta o salmourar da sardinha em caixa de sal com fundo de feto roubado ao pinhal. Era um homem que se interessava, pronto.
E, pronto, o Carlos “Minhoca” da Fonseca não quis outra vítima que Augusto, agravado de Abreu, se não chamasse, nesse Inverno que nem eu nem Vós reviveremos.
Disse assim o “Minhoca”, como quem não quer a coisa:
– Palavra de honra que achei estranho a mulher só me ter pedido 500 paus por um pote de dois litros de mel do purinho.
Eu nada disse: porque sei bem mais de minhocas do que de apiculturas. Mas o Augusto Abreu (bom homem, pai de seu casalinho, maridinho de sua esposa varizenta & cultor indefectível de seu quintalinho sem ferrugem nem caracol fumigado) caiu que nem um estorninho em visco armadilhado com anzol de silveira:
– Ó senhor Carlos, o senhor desculpe mas isso interessa-me muito. Eu fico com dez potes, se o senhor me der o número de telefone da senhora.
E o sacana do “Minhoca” assim:
– Dou-lho com todo o gosto, senhor Augusto, mas vai ter de esperar dois anos pela encomenda.
E o pobre Augusto assim para ele:
– Dois anos?! Então porquê?
E o mau: – Pois, dois anos porque a senhora de momento está a trabalhar só com uma abelha.
Ora, isto do trabalhar da solitária zunidora e da ilusão da eternidade tem tudo a ver com o mesmo, digo (ou bebo) eu.
E de potes, notas de 500 à Alves dos Reis, minhocas, abelhas e coelhos percebo eu.
E também muito de pirâmides, que mortas estão mas continuam a apontar para o céu como os imbecis que ainda se admiram de ver passar aviões que de Bruxelas, ou de Berlim, nada mais trazem que perdure senão a inelutabilidade da morte e a porquita miséria a meio conto de réis o pote.

02/05/2013

Rosário Breve n.º 307 - in O RIBATEJO de 2 de Maio de 2013




Dou-te uma filia se me deres uma fobia

Não somos um país pobre. Somos um país de pobres. São coisas muito diferentes. Pobre é quem não pode. De pobre é de quem não quer. E de quem, portanto, não crê.
Nenhum país de gente a sério seria capaz de empobrecer vitaliciamente com todo este mar à janela, todo este solo tão generoso à porta e todo este clima como idêntico outro não há em quintal geográfico algum. Também somos um morredouro de pobretes parvo-alegretes. Exercemos sem pudor e sem consciência a paradoxal idiotia de, não nos lembrando de quase nada (olha a História, estúpido!), pedestalizar a honras de palavra-pátria o substantivo “saudade”. De anfractuosidades dentárias pejadas de broa rilhada e de jaquinzinho moído a cuspo, ouvimos o fado como quem se injecta de vinagre com açúcar amarelo. Mais (e pior): somos quase todos hibristófilos, paranóia derivada da mariquice a que os ratolas dos psiquiatras chamam coulrofobia. Abrindo o livro:
1) “Hibristofilia” é a veneração doentia por alegadas celebridades, da Maya charlatã ao Marcelo leitor de capas de livros, do histriónico Baião ao bacoquismo separatista dos mútuos clones Alberto João/ Jorge Nuno, do papa novo que antiargentinamente corpuscristou a hóstia nas fauces do genocida Videla ao casalinho-é-não-é-agora-sim-daqui-a-bocado-anavalho-te-o-plasma Djaló/Floribela, que deveriam ser presos ambos por terem baptizado as filhas com nomes de posologia farmacêutica em tailandês. Sim, somos hibristófilos, não há que abjurar.
2) “Coulrofobia” é ter miúfa/cagufa de palhaços. Ora, ter medo de “clowns” será próprio de crianças hipersensíveis criadas por padrastos dados à bissexualidade, à cocaína e ao sonho de ter um monte alentejano como os que aparecem sempre nos inquéritos de Verão do Expresso, mas é impróprio de um povo adulto com quase 900 anos de História como o Manoel de Oliveira. E votar neles é ainda pior, porque indesculpável não é o erro, é o repeti-lo tanta vez, porra.
Eu não quero saber para nada dos imbecis dos Islandeses, essas bactérias criogénicas que parece terem vo(l)tado a empoleirar no poder os mesmos facínoras de direita que lhes comeram as casas, as filhas e a arquibancada central de assistir àquele cabrão de vulcão lá deles que mata frotas aéreas como nós por cá varejamos moscas. Eu quero saber é dos Portugueses, essa heróico-pícara grei de tremoç’ó’pevid’amendoim pinoquialmente capaz de um Sócrates e soporiferamente incapacitada de um Excel-lento Gaspar, que eu nem a um nem a outro empregaria como irmanador de peúgas num asilo de pernetas.
Extinto o cambalacho das nóvóportunidades, que nos resta senão os velhos fiascos? Os sem-abrigo agora têm todos (pinoquialmente etc.) o 12.º ano, diploma que ainda ninguém me provou estar na posse do Miguel R. (R de “raposa”). Ai têm o 12.º? E agora? Vão licenciar-se em quê? Em Instalação & Detonação GPL num Multibanco Perto de Si? E doutorar-se em que semântica executivo-operatória? Em Carjacking Romeno-Angolano a Crédito-BPN?
Tende cá paciência, ó parvo-alegretes. Paciência e prestidigitação: encarando Portugal como cartola, seríamos todos mágicos, mágicos a ponto de a primeira coisa a fazer sem mais delongas consistir em tirarmos o Coelho da Cartola, não sei se estão a ver, nada na manga, ó manguela. A seguir, perceber de vez que o euro não é moeda unitária nenhuma, é mas é o lobo do marco alemão com pele de cordeiro a imolar na mesma ara sacrificial de onde começaram duas guerras mundiais para os inumeráveis (mas enumeráveis) milhões de mortos e estropiados do costume.
Finalizo concordando a priori com tudo quanto, a este e outros propósitos, Cavaco não pensar – e acusando tudo quanto ele não disser, que eu pobre ainda posso ser, agora coulrófobo é coisa que nem a minha tia, quanto mais o pai das minhas ricas filhas.

29/04/2013

RIO-FLÚX - 15




15

Leiria, entardenoitecer de
29/IV/2013, segunda-feira

MUNIFICÊNCIA, A INOMINÁVEL

I

Saiba o senhor que chegando Abril, depois Maio, isto do mundo me parece tudo, digamos, uma munificência, quase um motivo cada coisa para euforia.

disse-me o cavalheiro com que eu sempre apenas troquei os bons-dias no Café da Rita. Sorri-lhe à munificência em jeito de, digamos, aquiescência.

II

Amanhece quando as coisas começam a deixar de ser vidro, quando voltam a ser porosas, destrutíveis.
Anoitece quando a hialurgia retorna a reino –e por todo o lado a magia é finalmente humana, isto é, finalmente entregue aos bichos.

III

Aos bichos
da sede.

IV

Sábado passado, pelo entardenoitecer, eu fumava à varanda um cigarro cujo fumo, como eu, esperava qualquer coisa inominável. Talvez fosse música o que cigarro e eu esperávamos. A música veio. Veio merendar comigo. Era a primeira das minhas filhas.

V

Agora toco os objectos com mais simplicidade – como se eles fossem um piano que os anos tivessem tornado humilde, acessível, cordato quase até. A mesa do Café, por exemplo, que é de alumínio reforçado da cor de certas invernias pintadas nos manuais da Primária para ilustração das estações do ano. Outro exemplo, o caderno, que me faz a companhia glauca dos espelhos de papel – e em que o meu rosto pode exercer a idade que quiser, pois que querer é fingir que se quer. E se crê, como eu não creio, nunca cri.

VI

Foi-se embora o Senhor Munificência.
Já a Rita procede à limpeza do estabelecimento.
Sou o último cliente.
As vezes na vida que o tenho sido, c'um caraças.

28/04/2013

RIO-FLÚX - 14








14

Leiria, entardenoitecer de
28/IV/2013, domingo

ESPÓLIO

I

Uma mulher diz:

– Eles falavam sempre um com o outro, eu não os percebia, acabava por adormecer, acordava sozinha, já o meu tinha saído de casa e nem sempre a noite mo devolvia.

A outra mulher faz que sim com a cabeça, entende-a bem, o suficiente para nem aventar um arremedo de consolação da amiga. Está grávida, tem mais de quarenta anos, não sabe se há-de chorar ou se há-de chorar.

II

A penumbra instala-se em câmara-lenta-e-muda, carvão em pó o mais fino, farinha de carvão, pública cegueira de uso privado. As árvores alastram, a mancha delas toma conta das águas múrmuras. E o saibro é crespo, canta estaladiçamente no calfe dos pés peregrinos. Ou fugitivos.

III

Um dia, não já mas não remoto também,
restolho de papéis será o espólio:
sombra de idas sombras,
bálsamo não demandado,
nem resto nem rosto já. 

IV


Um Cecil Trevor Broom de há cem anos à porta de uma estalagem de mala-posta depois do desjejum. Choveu muito durante a noite, a estrada é um arroio de lama que se vai enregelando devagar. De pé, a um passo do pórtico, Broom fuma a cigarrilha dominicana. Pensa no que conversou com o sócio Ralph Neville McPherson, o mais leal dos seus amigos, talvez mesmo o único Amigo. Nem por sombras (sombra de idas sombras) pensa na mulher. Na de McPherson sim, pensa. Está grávida. E isso fá-lo sorrir na penumbra da manhã, espólio do século.

RIO-FLÚX - 13 (agora completo)




13

Leiria, 28/IV/2013, domingo

IMPORTÂNCIA

I

Sou um homem. Ou não. Ou ainda não, talvez não ainda. Sou um dos homens. Ah, assim sim. Um dos. Nem a gilete me distingue de todos quantos outros. É verdade que me exilo quando escrevo. O onanismo literário não é pecado – é só o processo de consumir o Tempo das pastelarias, quando o domingo enverga o peplo merencório. Entre homens do milénio estreado há pouco, parecendo todavia já que há tanto. Se era afinal para isto o nascimento? Por que não, aliás?
Sou o terceiro na fila da registadora para pagar o café e o pão. É de malares limpos, a caixeira que recebe as moedas e, qual fada de salário mínimo, faz soar o sininho da gaveta devoradora de cobres. Já a vi na praça, acabado o turno. É quando solta o cabelo, trocadas as chinelas brancas (como as das enfermeiras aposentadas) por botas de amazona sujeita a transportes municipalizados. Se calhar, toca clarinete na filarmónica da vila onde a segunda-feira da folga é uma eternidade reiterada pela cal do muro cemiterial e pelos velhos sentados no rebordo do fontanário extinto esperando-a, à eternidade. Colecciono cães imaginários que roem os ossos da infância.
Nada é de grande importância.

II

Escrevem os calhamaços por receita, metem-lhes umas cena de sexo para voyeurismo das divorciadas que os compram nos hipers e nos cêtêtês, comentam merdas nas televisões – e assim vamos todos andando abóboras cinderelas à espera da carruagem da meia-noite, três ratos numa panela/outros três num alguidar.

III

Ao calafrio/arrepio de ontologias antológicas, no antípoda de baixo como de para cima: bela maneira de passar a tarde, quanto menos não seja e mais não for. Como este cavalheiro, muito cívico em sua solidão tipo fato-de-treino-dos-domingos, muito bucal de um mau hálito a papel-selado e maneiras vinte-e-cinco linhas vincadas na longitudinal. Chega a ser comovente a evidência do poço tão vão que é no concernente às necessidades afinal mais básicas (o m. q. excruciantes) da vida, i. e.: um pouco de Vivaldi (embora, é claro, Lester Young), as recordações desenfreadas a meio da fala que alguém nos tosse ao rosto, o sabor a outra coisa da água bebida numa cidade onde se não nasceu mas em que é possível morrer – e a possibilidade de morrer agravada pelo desejo de renascer lesto e jovem, ou Lester Young.

IV

O sem-abrigo. Deram-lhe um pão que era para as pombas, não tem mal que um pouco ratados os três – o pão, quem o recebeu e quem o deu.

V

Nem sei que haverias tu de querer mais, se alguma coisa e que coisa, afinal há chá e bolinhos, de canela uns, de noz outros, de manteiga açucarada todos. A verdade é a verdade não ser precisa: nem de necessidade (ou obrigação) nem de acuidade (ou precisão).

VI

Além, entre este caderno e o Rio (flúx, ambos), um rapaz careca com uma mulher vermelha. Ele fotografa postais trivibanais da Cidade, ela vai andando. À noite, ela não anda – alterna. Já deu para ter com lhe comprar a Nikon.

VII

Vai e volta com o vento o olhar as coisas.
Só não é o mesmo, quando ao sítio volta,
o sítio de que com o vento se deixou ir.

Há uma mensagem nisto, mas desconheço
que cifra a emaranha e me a torna
irresgatável. Tenho de volver-me coisa

e ser olhado de eólica mente.


RIO-FLÚX - 13 (I) - domingo, 28 de Abril de 2013




13

Leiria, 28/IV/2013, domingo

IMPORTÂNCIA

I

Sou um  homem. Ou não. Ou ainda não, talvez não ainda. Sou um dos homens. Ah, assim sim. Um dos. Nem a gilete me distingue de todos quantos outros. É verdade que me exilo quando escrevo. O onanismo literário não é pecado – é só o processo de consumir o Tempo das pastelarias, quando o domingo enverga o peplo merencório. Entre homens do milénio estreado há pouco, parecendo todavia já que há tanto. Se era afinal para isto o nascimento? Por que não, aliás?
Sou o terceiro na fila da registadora para pagar o café e o pão. É de malares limpos, a caixeira que recebe as moedas e, qual fada de salário mínimo, faz soar o sininho da gaveta devoradora de cobres. Já a vi na praça, acabado o turno. É quando solta o cabelo, trocadas as chinelas brancas (como as das enfermeiras aposentadas) por botas de amazona sujeita a transportes municipalizados. Se calhar, toca clarinete na filarmónica da vila onde a segunda-feira da folga é uma eternidade reiterada pela cal do muro cemiterial e pelos velhos sentados no rebordo do fontanário extinto esperando-a, à eternidade. Colecciono cães imaginários que roem os ossos da infância.
Nada é de grande importância

27/04/2013

OS ÚLTIMOS ANOS DE TODA A GENTE - 24 a 29




24

Leiria, 5/III/2013, terça-feira



De volta ao mundo breve, caneta na mão direita, cigarro na mão esquerda. Perto, fala-só, aquele de blusão nácar-ostra que a droga maluqueceu. Tem uns phones enterrados nas orelheiras. Hoje tem tabaco, não anda a cravar. Vive com a mãe num andar próximo da galeria da Rita, onde escrevo para ninguém (quase).
Que me trará o dia?
Que levarei à noite?

25

Ibidem



As mãos daquele homem: flores-aranhas petrificadas.
Os olhos daquela mulher: berlindes sérios no azul.
Um menino brincando no passeio: cabrito-montês sem monte.

26

Ibidem


Era então que as mãos eu depunha ante teu altar
As mãos que à boca me escavam palavreados
Uma vez na Maceira, eu sozinho como um cão, eu

27

Ibidem


Estava frio ontem, consolava-me porém saber que
frio não sentiam nem passava na terra os
meus amados mortos, dormindo sempre eles,
agasalhados de raízes e podridões supuradas.

28

Ibidem


Olha-me olhando-te: perpétuo flash
enquanto há tempo.

29

Ibidem


Sufrago-te, Ermelinda, saudáveis votos.
Afago-te, Graciana, mil composturas.
Não sei, Rosa-Josette, por que tal marido aturas.
Vem daí, Maçã-do-Monte, limpar-me esgotos.

Maluqueço, Joselito, devagarinho.
Vem comigo a um copito de branco vinho.
Escrevo muito, digo tão pouco, velho Raimundo.
Abel, velho comparsa, sempre iracundo.

Sozinho como um cão, consciência adentro.
Conheço todas as margens mas nenhum centro.
Sou um corpo de vidro meio, meio de pedra.
Muito mundo emurcheci, muito porém ’inda medra.

Olha, Adão Mastor, olha-me bem esta cidade.
Toda a avenida é de vida em liberdade.
Toma-se um café antes de morrer e pouco mais.
Dez milhões de pobrezinhos, outros tantos portugais.

RIO-FLÚX - 12 (I) e 11 (I e II)


12

Leiria, 27/IV/2013, sábado

DIADELO

I

Posso ter quase tudo. Basta não querer. Na manhã que sucede a uma véspera apagada, por exemplo. É agora, a luz é total como o céu. Céu é não haver detalhes: é  tudo de uma só vez a uma só voz. E em azul, o que sempre é bónus. Há horas que espero as pombas. O arroz que trago na algibeira dextra ainda as não mereceu. Eu sofreria mor placidez se elas viessem agora, permitindo-me escreviver sem pen(s)ar tanto nelas. Passando à fase seguinte do sonho. Do sonho – ou da espiral. Não tenho grande coisa porque me encontro em estado de querer. Quero uma ou duas pombas no passeio em frente ao Café da Rita, dar-lhe(s) pão e arroz, integrar a cadeia alimentar, o ecossistema, o formigueiro retributivo. Para adiar (ou aliviar) essa querença, trabalhei um pouco já no Caderno Verde, objecto celulósico em que inscrevo palavras que ou me hão-de ser úteis ou acabarão por morrer-me. ECÚLEO. CONSCRITO. DIADELO. FLAGÍCIO. HIPERDULIA. INÓPIA. ORNATO. A haver problema, o problema está em as palavras precisarem de um corpo para ser. Um corpo que as seja. Sem corpo, as pessoas são só palavras. E sem palavras as pessoas são só a falta do não-querer, são só a impotência.

11

Leiria, 26/IV/2013, sexta-feira

FORMIGUEIRO

I

O mistério da vida da formiga. Não parece individual, tal existência. Parece que o único sentido é o formigueiro. Não é assim, em Poesia. 

II

O Mandador dos Céus procedeu hoje ao encerramento dos ditos. Manhã e tarde fechadas como punhos não solidários. A sexta-feira rodou às cegas como um boi perdido numa lezíria só de cinza.

26/04/2013

RIO-FLÚX - 10

Leiria, sobre o Lis, 21 de Abril de 2013




10

Leiria, 24/IV/2013, quarta-feira

COLÍRIO

I

Voltaram as jornadas quentes. Dizer jornadas é dizer fornadas. Por quanto é vista, dá-se da flora a pujança, a furiosa alegria da cor ao ar. Tudo propicia o quase entendimento do para-quê de se ter nascido. A terra bebe quanta água pode, retribuindo em alimento e oxigénio. Os animais aderem à contracena da contraluz povoando o fresco das sombras, saciados de açúcar solar. Isto da vida: esta orquestra que ela é em fervor. Bailo devagar a seu compasso. Isto é: respiro com os gestos. A harmonia é legível. E o de Leiria é o mais bonito dos castelos de Portugal, peço perdão mas é. Quando a casa voltarmos, o meu Irmão Fernando e eu hemos de avançar beira-Lis. Pais jovens com suas crias juvenis veremos que auferem o licor etéreo do pré-Verão. Como feridas boas e brancas, nuvens suspendem o azul muito puro. Há toda e mais alguma razões para crer, seja no que for, sem recorrer à esperança. A esperança é a usança da espera – a evitar, portanto. Mais tarde, quando o crepúsculo tomar todos e cada um (um por um, sem falha nem remissão), a hora será de esvaimento – como é de lei & Natura.

II

Recordo certo instante vespertino, voltava eu de Aveiro ou de Oliveira de Azeméis, não estou certo de onde já.
Viajava sozinho no meu carro.
(Sim, já tive um carro.)
Dei por mim ante um vale maravilhoso.
O Sol parecia subi-lo.
A vegetação era viva de animais minuciosos.
Detive a marcha, suspenso de tanta maravilha.
Recordo isso agora, não sei por nem para quê, enquanto com o Fernando espero que o chamem para a consulta de Oftalmologia.

III

Cavaleiros frúem a fresca álea a manso trote.
Os alazões são de uma nobreza maviosa.
Em V, duas encostas da serra dão-se em decote.
Uma fonte canta cristal sem que se note
tristeza ou euforia nas voltas dadas ao mote.
Respirar é uma arte deliciosa.

Vamos rumo a oeste tecendo loas
à bolina da brisa que, zéfira, é favónia.
Ver com a mente faz bem à cachimónia.
Aquela é Albertina, a outra é Lurdes; vão c’Antónia
beber chá frio e comer as doces broas.

Compressa de bons campos, a velha Cidade
parece remoçar-se, ladina qual pardal.
Deriva-se por ela em andor de Portugal.
O passo é leve e lento em liberdade.

Sou por vezes agraciado de sonhos cuja simplicidade
chega a ser movente, comovente – e tocante.
Ontem sonhei, veja-se cá, com bacalhau.

Despertei sorrisonho, o que não é nada mau.
Refrescado, de atavio aprumado, dei-me levante

e fui à Rita, que serve a melhor bica da Cidade.

IV

Às imagens do mundo acresce o vidente.
O nada não é a ausência das coisas mas
a do sujeito.
Não é, ainda não, o nosso caso, valha-nos isso.

À orla litoral uma quase-alegria do corpo.
O iodo penetra as frinchas do estar-em-ser.
Se feminil figura lacra a luz o passeio marítimo,
então o caso é mirar com educada discrição
a gino-estesia patente andante adiante.

Regueifada de boas chichas, Maria Eduarda
adentra-me, lípida & boazonamente, o campo visual.
Foi ninfeta outrora. É ora matrona.
E, como disse, boazona.

Puxa-me entretanto a obrigação para casa.
Espécie de doce fadiga me torna seda a pestana.
Hoje, francamente, nem vou com o grão-na-asa,
tenho-me portado bem toda a semana.

V

Lacrimeja colírio a arrependida,
beija em delírio seu saudoso.
Foi escolha dela, o ter esta vida.
Regressa ao futuro o passado danoso.

É de mamas moles e palavras duras.
Não é má pessoa, a vida é-lhe avessa.
Enfuna o decote, assim tipo condessa.
Mas chora no escuro ’mas mil amarguras.

Chama-se Yvette, o que não ajuda.
Tem quatro afilhadas, mas co’ elas não fala.
Vive mais na cozinha, sem visitas na sala.

Namorou-se em tempos de um sargento casado
que nunca a estimou e a cobriu apressado.
Amanhã vai para um lar. E já fez a mala.

25/04/2013

Rosário Breve n.º 306 - in O RIBATEJO de 25 de Abril de 2013 - www.oribatejo.pt




Brava maravilha

Sepultei o meu Pai no exacto dia em que a Revolução dos Cravos fez vinte anos. Ambos mortos a essa data, revolução e ele. Tinha então a primeira das minhas filhas quatro meses e oito dias: a transmissão estava em marcha.
Um Pai não morre – os filhos é que se perdem dele. Deve-se isto ao facto de a morte ser apenas deixar de estar, não deixar de ser. Creio nisto. (Sim: não apenas descrenças me animam, da vida, o mote e as voltas.)
Dezanove anos são ora cumpridos sobre esse dia em que não choveu. Há um ano, portanto, que é maior de idade a minha orfandade patriarcal: já pode votar. Tenho sido bom eleitor: perdi-me da minha Mãe fez este Março dois anos. Nascera-me todavia entre os dois óbitos uma outra menina: a transmissão seguia (e segue) marchando. A vida pode ater-se; a vida pode conter-se – mas nunca se detém. Brava maravilha é que assim seja.
Escrevo estas linhas a um domingo. A longa ferida do Inverno parece sarada. É pelo cair da tarde. Pouca gente por ruas e praças. Há mais pombos do que pessoas. Um que outro cão vadiando pela temporalidade desertada como filósofos existencialistas de cunho católico à la Gabriel Marcel. Tenho moedas, vou ao Café da Rosa poetar as minhas crónicas patetices decassílabas. Em casa, a mulher penelopa a miríade têxtil do bordado aceso: sou dela o pretendente único, Ulisses de viagem nenhuma. (Alguém vomitou no fontanário de que já não mana a água que era de todos. Por onde congestion’andará a cirrose desse anónimo roxeador de fontes em pedra?)
Já a noite urde (arde) aos poucos a sua autoridade invencível, já dela o manto pipila estrelas de robe de mágico. Como aparado crescente de unha, já a velha Lua se faz numismática no argênteo firmamento. É tudo (ele)mental – sem ansiedade, sem esperança, sem dívida e sem remissão. É tudo muito bonito, também. Arrefeceu.
Sim, também o deserto é formoso. Sabes, aquela areia em ondas como o mar em dunas estriadas à espuma do vento, à escuma dos dias/anos/décadas, não tarda séculos, um que outro milénio como esses cães por essas praças e ruas vadiando, existenciais, o domingo.
Nenhuma quimera e nenhuma utopia. Onde foi a retrosaria, é hoje a agência bancária. Onde a livraria, hoje uma seita-maná qualquer. Onde a infância, hoje esta ferrugem úrica nas dobradiças de rachada cartilagem. As filhas crescem-me, porém.
Leva-me (ou traz-me) esta derradeira verificação, em nave (ou neve) do Tempo, à antevéspera do passamento do meu Velho. Levara-o eu ao hospital. Já a terminação lhe esbofeteava o semblante: era como um cego sem lotaria que apregoar, quanto mais vender. Deitado no lençol impessoal tatuado a carimbo (H.U.C.), regougava ele, como um cisne de asas quebradas, a respiração muito afadigada. Olhei-o muito, que me não via. Tinha os lábios causticados da febre de tantos anos terçãos e malsãos. Tinha a boca enlameada a branco do pó de tantos comprimidos sem remédio. Tirei-lhe a placa, fui lavá-la, remeti-lha na boca que já não dizia o meu caminho. Olhei p’la janela da enfermaria (enfer, Marie!) como ora olho as linhas que lhe/vos escrevo. Precisei de ir-me embora. Baixei-me ao ouvido dele, disse-lhe: Pai, amanhã volto. Disse-me ele: Eu também.
Até hoje.   

24/04/2013

RIO-FLÚX - 8 - (caderno-livro em construção andante)


8

Leiria, 23/IV/2013, terça-feira

ORÁCULO SOLAR

I

Muito sol anda no ar, hoje.
Terrível chega a ser, tanta beleza.
As mulheres beneficiam muito do dia.
A tarde espaneja-se toda bandeira.
Fixo nas coisas um olhar serenado.
Espero a pomba das três horas.
Trouxe-lhe pão novo, é claro.
Envernizadas, coruscam as árvores.
Até a amargura vale um esmalte.
Por onde seguiria, se não por dentro?

O trabalho daquele cão é ladrar aos carros.
Que irada irritação o excita?
Ulcerado de sombra, o muro humedecido
é escrito a hera povoada de pardais.
E um gato tomado de sono bebe sol.
E eu quase não existo, quase não hesito.
Amarela como um recado alegre, esta mulher.
Esta mulher aloirada de seiva passando.
Passando e levando com ela a gardénia macerada.
Tudo vale tanto, melhor do que nada.

Desertada de gente, a casa antiga apodrece devagar.
É à face do Rio, que sereno brilha & vai & fica.
Falo com a senhora mãe do Eduardo.
Conta-me ela de quando a mãe dela era caseira.
Que nada lhes faltava na quinta:
criação, horta, fruta, sardinhas, azeite.
Conto-lhe a infância da minha Mãe.
Conto-lhe dos pais da Mãe, caseiros de quinta também.,
Azeite, sardinhas, fruta, horta, criação.

Do milho, a broa-pão sustentando gerações.
Tinta permanente: ingénuo, perecível adjectivo.
Olho em qualquer direcção cardial: a tudo pertenço.
Quando a noite visita os olhos, apossa-se deles.
Não agora.
Agora, a claridade instaura o País.
A claridade faz bem até aos desgraçadinhos.
Os desgraçadinhos que andam no gamanço e os outros.
E nos solares os fantasmas são familiares.
E o Senhor Engenheiro tem uma amante em Lisboa.

Ai aqueles olhos verdes, perdição da carne, fúria do leite.
Amazona preclara, intangível, mosqueada.
Matizada a cordões nervosos à flor de álacre lacre do mamilo.
Rebentação de escumas, penhasco dulcíssimo.
É se calhar casada com algum advogado.
Ou pior.
Que bem se embalsama ela de cremes franceses.
Ai que água de azeitonas chilreia ela.
Escrevo as minhas décimas à indiferença dela.
Boa para levar para uma ilha mais uns livros.

Tem sido na prática assim a minha vida adulta.
Digo: a minha adúltera vida adulterada.
Escarneço a vida, mas ainda sou laborioso tipo rã.
Pedem-me do Louriçal um entreacto jocoso.
Escrevê-lo-ei amanhã, entre bebidas e fumos.
Ponho isto aqui, sentido lhe não demando.
Chega-me hoje p’lo fim da tarde o Fernando.,
É meu Irmão – mais não há que dizer.
O Sol é todo uma Gréci’Antiga.
Afio o lápis, vou fazer outra cantiga.

II

– Mais uma que não vai à missa – diz a mãe
do Eduardo, referindo-se a uma brasileira-de-esquema
que surde pela Avenida 22 de Maio de telemóvel
(“célúlá”) na orelha pingona de cera.
Sorrio à expressão, contentinho dos rins.
Uma alforreca tisnada carrinho-bebéa a cria,
Um cão boceja no separador relvado da via.
Segrego o pus benigno e inócuo dos versos.
Deveria talvez fazer sopa para a ceia.
Sei-a de cor já (à vida ávida).

Volúvel, o Rio arde além dele a febra fresca.
Aquilo é tudo um marulhar de cristais.
Sempre que qual um ferrete a estupidez das
pessoas genuflectidas ante o não-mistério,
passo-me da mona, a estupidez desmona-me todo.
Sobra porém Bach, sobra todavia Ruy Belo.
Português qual pardal, tenho muita pena de não ser católico.
O Senhor perdoar-me(doer-me)-á, estou certo.
Ínsua de tangerinas face à Vala do Norte:
infân’Mãe’distân’cia: verdade, que bem na sei.

Quanto tempo hei ardido para aprender a escrever?
Todo ele.
Sentido para isto?
Nenhum em peculi’particul’ar.
Mal que isto faça?
Idem.
(Cospe as pevides, não as tasquinhes.)
Às vezes, em Casa, abro o caderno.
Abro o caderno, dou à Mulher conta do dia.
Ela escuta, raposa vegetariana na floresta carnívora.

Não há-de ser assim para sempre,
a não ser que por escrito fique.
É outra das albardas da Poesia:
querer ficar, crer ter-sido.
A gente masculina ante um par de mamas:
boquiabre-se o eterno efebo ante a
Mãe-Ressuscitada.
Ou, como há pouco diss’escrevi:
Tudo vale tanto, melhor do que nada.
Nada.


A pomba da tarde com(a)pareceu às 15h36m.
Miguei-lhe o pão, fiz-me revoador alcoo’eólico.
Atirei-o-esmifrei-o ao ar.
Ela comeu-o de boa-bom boca-bico.
Acabaram-se-me os cigarros.
(A infância também, por mais que eu.)
Lavanda nórdica eucalipta-me a fala.
Falo com a mãe do Eduardo no Café da Rita.
Há muito tempo não pinto casas a lápis.
Excepto ontem.

Excepto ontem porque a Graça quis saber.
Arejámos a sala, sentámo-nos, havia água fresca.
Toma-cá-dá-lá, li-lhe o lápis.
Ela ia reiterando com a cabeça o próprio Pai.
O dela, que fez casas onde ’inda hoje outras pessoas.
Tardou nada, era noite.
Eu assim para ela: – Vês?
Ela assim para mim: – As orquídeas, há que mudar-lhes a terra.
E eu assim: – As orquídeas. E ela: – A Grécia (a Graça), às vezes tenho saudades desse tempo.

18/04/2013

OS ÚLTIMOS ANOS DE TODA A GENTE - 7


7

Leiria, 4/III/2013, segunda-feira


Chove na segunda-feira do Império.
As pessoas acontecem como borrões de tinta.
Uma vaga tristeza, não há quem a não sinta,
nem quem a vida leve muito a sério.

Um cão molhado, absorto ante o Rio,
pensa em que cadela por que cio?
Uma mulher-da-limpeza, de bata azul,
ora santas-engrácias vaporosas de tule.

Um português de boné, desses de antigamente,
escorropicha uma ginja repenicadamente.
E eu componho versículos para o mor olvido.
(Que ao menos conta dêem de eu ter vivido.)

OS ÚLTIMOS ANOS DE TODA A GENTE - 2 a 5


2

Leiria, 1/III/2013, sexta-feira

Lá em baixo, visto em mente de aqui, a força
da água fazendo o rio espumar pela boca, o
rio que vejo sem olhá-lo, como veia viva, viva
via que ensina como morrer à(s) mão(s) do mar.

Por enquanto encerrado em sala eléctrica, à
febre da consumpção da manhã em casa
pública: um hospital, onde o irmão busca
saúde, alívio, cuidado: cuidado, ó vida!

3

Ibidem

Pessoas traçando linhas de sombra com o corpo na luz da manhã mais recente que a humanidade dá a conhecer. No barzinho do hospital, mulheres ingerindo café-com-leite, fatias de pão aquecido com manteiga. Vermelhos como fósforos, três bombeiros em repouso (dois fumando, um sentado, bebendo água, no estribo traseiro da ambulância).

4

Ibidem

Da celerada brevidade da vida darei justo reportório, fragmentário ele embora. Se à frígida e viva torrente mineral da montanha, serei bem. Se à esquentada manação do gás ardente dos sonhos, serei só. Vale-me o por-enquanto da eternidade. Isto pretendo só deixar estabelecido. A isso portanto deixo.

5

Ibidem
Fui lá fora fumar o cigarro – e fi-lo sob o cerúleo firmamento, cuja altura é fundura sem medida.

OS ÚLTIMOS ANOS DE TODA A GENTE - 1


Leiria, 4 de Abril de 2013



1

Leiria, 28/II/2013, quinta-feira

Todos os anos são os últimos anos: basta ter-se nascido. Assim é para mim, assim para toda a gente.
A única volta a dar-lhe – é ir dando a volta possível, resistindo à doença, à tristeza, a um que outro vício, ao mundo mesmo.
O dia mais importante é o de hoje: o de ontem já não conta, à mesma vez que com o de amanhã não há que contar. Este imediatismo não é tolice. Não creio que o seja, pelo menos. Então: todos os dias são derradeiros. Esse treino para a morte em que o sono consiste, que outra coisa ou poderia ser, na verdade? Estou em paz com isto. E com isto tenho levado a água da tinta ao moinho dos livros de que sou, ou vou sendo, capaz.
Fevereiro acaba-se hoje. Não é bissexto. Por ruas, praças, aldeias, vilórias, cidades – andam inquietas as pessoas, temerosas das tropelias da política financeira do império, cuja sede toda a gente sabe quem, o que e onde é.
Vale-nos arder a luz de mui prazenteiro modo. Por estas bandas, é um Inverno esclarecido o que nos é dado viver. Temo, por outro lado, que mais e mais gente se esqueça de sobreviver. Anda por aí muito desespero – não há que enganar. Jovens, maduros e velhos vêem-se proscritos de toda a expectativa – menos a da miséria. Os lacaios do império que nos desgovernam assim o impõem. E eu não sinto que alguma Revolução esteja na calha. Acho-nos de uma excessiva mansidão bovina para tanto. De povo que éramos, passámos a ser público – uma abissal diferença entre uma e outra condição.  



Canzoada Assaltante