15/04/2012

LIGAÇÃO À MEDUSA - 29 (conclusão)



Odete e Ângela se chamam as chefes excursionistas que ao café da Rosa vêm adentrando a comitiva. Vêm do sul da Nação. Comem brisas-do-Lis (noventa cada uma, cinco e vinte-cinco a meia-dúzia), bebem quartilhos-minerais de água-pedra. Garruços de renda, as mulheres; em cabelo os homens. Gente madura cuja navegação na idade é já pós-bojadora. Casais avindos no comércio mútuo de tantas décadas comuns. Gente que não é, como eu não sou, de Leiria no meu sábado leiriense, no sábado leiriense do meu futuro. Eles, de uma nobreza que as rugas sublinham e reiteram; elas, mais moças sempre (milagre simples do passeio), algaraviando latins mui feminis, adoçadas pela licença precária do lar terminal. (Quem me dera fosse a minha Mãe uma delas – e que me visse escrevendo-a, como sempre.)

*

Recatado mundo me chega, sombrinho,
da babilónia breve do em-volta:
Tu também vais morrer, gato-cãozinho.
E vou – aquiesço –, mas vou sem escolta.

*

Um toque de quase-nada-ar na face brunida,
um áureo rubro de sangue tocado a verbo.
O fulgor da frase vinda tornando verso
a própria vida, acredita, a própria vida.

*

Gastava como quem os tinha os dias móveis
e dele era pertença o ser das coisas.
Usurário de suas praças da cidade a que pertencia
desde o exacto seu primeiro mesmo dia, ele
gastava como móvel os dias dia a dia.
Refreava-o a noite âmbula. Ele sustinha
(como aliás convém) a respiração, tocando urtigas.
Tinha a quem telefonar, pessoas amigas, tinha
quartilhos-minerais de água-pedra,
o futuro muito lhe vinha do ido que medra,
que merda.
Oferecia sem cessar delicadezas, que o timbre
do Outono reiterava.
Era de instantes-gelo quando queimava
retratos-naperons caganitados pelos ratos
da Cas’antiga.
A gentileza pessoal era, também, a primeira
de suas sombras: como activos sonhos que se (me)
confirmam
– e infr’assinam.

*
(Canção para a Leonor, de que ela partiu para compor peça para piano e voz:)

VIRTUOSA BORBOLETA

Virtuosa borboleta
adeja pó, pura cor.
E derredor a praceta
of’rece ao céu seu fulgor.

Tu nunca mais digas tudo
se nada queres dizer.
Eu ’inda e, contudo,
dizer não digo, vais ver.

Virtuosa borboleta
que vive da cor no ar.
Em derredor a praceta,
volta ao futuro a voar.

Volta ao futuro a voar,
como eu volto a ti.
Nada a dizer, a falar,
sete por oito, dó-ré-mi.

Um sonho manso desperta
memórias e sensações.
Sou uma cidade aberta,
sem janelas nem portões.

De estrelas os altos campos
em meus olhos brilham p’ra ti.
Borboletas, pirilampos,
seis por oito, dó-ré-mi.

Volta ao futuro a voar,
como eu volto a ti.
Nada a dizer, a falar,
sete por oito, dó-ré-mi.

*

Vivo de pequenas maravilhas como um
serralheiro de peças infinitesimais,
graçasadeus.
Reconheço na singularidade, a cósmica,
a massa densíssima sem espaço
ou tempo.
Graçasadeus e à minha pobreza cerebral.
(Da sumária Suméria,
a Anatólia
não vinga o cardo-cravo,
longeva idade.
Mas diz quem sabe – e por agravo –
que se calhar foi mesmo assim,
olhódiabe.)

*

Duas ou três divisões da casa são já imprestáveis,
ela ainda pensou arrendar o quarto a uma estudante,
isto, mesmo em Coimbra, nem era pelo dinheiro,
era só para haver rumor em casa ainda,
nem velho-irmão-marido,
como quando ao tempo do filho, lembras-te?,
amor-de-mãe-angola-sessent&sete.

*

Devolvo a atenção aos meus objectos.
Já amei eu bem gatos – e, mais, sou cão.
Logo eu, que conheço homens obsoletos
e mulheres que não vingam sem senão.

Muito estremunho eu a minha zona:
derredor bem eu busco a redenção.
No Bairr’Alto, Lisboa, ’tapé-na-cona
é bebida de grande afamação.

*

Disponho há muitos anos de outra vida
tão primária afinal como a primeira.
Isto de a gente ser, tem por saída
a vida, a vida ávida e viveira.

*

Declarou-se terminal a um Amigo meu uma doença.
Eu espero essa notícia desde que todos nascemos.
Apareceu-me como uma iluminura, como quem pensa
antes da idade de pensar na idade que nos vivemos.

O meu Amigo vai naturalmente morrer mas a gente
vai à vida naturalmente porque o natural da vida
é a gente ir à vida como se fôramos gente para sempre.
Só que não posso interferir na vida estacionadamente,
o hospital do meu Amigo é uma avenida.

A gente chega uma idade de trás-p’rà-frente
em que à própria neta, sobreviva,
lhe/nos basta ser nascida para a gente
dizer à vida: Viva! Viva!

(Mas no porão do barco, sombrios fundos
nos lembram que passam os futuros: e as vidas: e os mundos.)

*

Nunca duvidei do relatório do médico-legista.
Afinal, não o conheço, não sei se estudou bem,
como haveria ele de saber da vida dos outros

corpos?

*

– Não quero saber nada daquilo dos aros de alumínio –
disse-me ela, aqui há anos, em frente ao gordo das bifanas.
Agora já não é gordo, cirurgiou-se uma rolha gástrica, mas o casamento dela, enfim, foi como os meus.

– Eu digo que o meu Pai não era de barulhos à hora de jantar
disse-me ela, quando S. Pedro de Moel prometia berbigões frescos como as rosas.
E eu calo-me nos interstícios da minha família, que é gentil e velha.

Eu calo-me nos interstícios da minha família gentil & velha.
Eu sou de simpatias tantas, que nem sou eu.
Eu digo ao-lado-em-frente: não sou só eu.
NÃO SOU SÓ EU. NEM TODOS FORAM TU.

(A pessoa maltratada, feminina, reconhece,
a mínima ternura do corpo viril.
Quem é? Quem foi? Quem traz ou reconhece
Sargento-Mor, Adões, Fornos, Trouxemil?)

14/04/2012

LIGAÇÃO À MEDUSA - 29 (mais tralha deste dia 1 de Outubro de 2011)

© DA, Leiria, 14 de Março de 2012



Este sábado em breve passado, é portanto o futuro
que trouxe de criança e não sabia.
Menos hoje às praias da areia o ouro
entre dígitos correr deixar vou.

Da grossa gorda América a crise humana
chega infanto-senil: é no que dá
a História, quando a euroscumalha
migra para oeste sem lei nem grei.

Derivo mais e mais para a pura verbalidade:
nada dizer, gastando muita tinta: meu
papel.
Sem sobranceria e sem remorso.

Crio – não creio. Nunca cri. Criei?
Sexta, não sabia. Domingo, saberei.

*

Uma coisa de gardénias no coração:
perfume da moça que passa por graça.

*

Na cara, óculos, ósculos no rosto
– não sei se estás a ver, ó beija-flor.

LIGAÇÃO À MEDUSA - 29 (um fragmento mais)

Afinal era gata. A Dio(nísia) no dia 1 de Dezembro de 2011.



Este 1.º de Outubro é de uma violência térmica sumptuosa. O meu irmão Fernando, ao telefone, ontem, perguntou-nos se ficaríamos ou não com um gato que ele sabe preso há meses por uma corda. Respondemos que claro que sim. Segunda ou terça próximas, ele rouba-o ao desalmado e estúpido casal que prendeu o que não pode ser preso. Vamos lá de noite, trazemo-lo de carro para casa, devolvemos-lhe a vida. Gostaria que o fim-de-semana já fosse passado. Imagino o animal ao calor, na prisão intolerável. Queremo-lo em casa, amimado e livre, quase livre.

*

A brisa ribeirinha remove a amargura que o calor ferve no coração andante. A luz começa por totalizar os sítios, só depois repõe as existências nos respectivos lugares – como quando um desperta e se põe pela casa a estremunhar o futuro recente dos objectos: a chávena com um resto de chá na mesinha da sala ante-TV, os retratos de crianças hoje pais & mães já de novas crianças amanhã mães & pais, os cortinados langorosos como tules de ociosas dançarinas, a botija do gás, o telemóvel ligado à parede pela bateria umbilical, o manuscrito do poema deixado a meio para sempre.
Pelas ruas, a sarça ardente judaíza o êxodo lentíssimo das pessoas mais desérticas. O pequeno-comércio estiola. As hipersuperfícies regurgitam de parolos sem cheta a ver as montras-marcas que publicitam celebridades farsantes na radiotelealienação. Vale-me ter vivido uma manhã boa: cumpri um poema em itálico que se me declinou da leitura dos jornais no café da D. Lena. Espero agora o refresco da jornada no da D. Rosa. A verde itálico também, passo a coleccionar mais sons:

- para ser sincero, nem sei que lhe diga
- a resolver lançamento para Luís
- um erro na cara dele
- atenção, esta é a segunda vez para ele
- para tal, era preciso te evitado tal coisa
- tal coisa assim-assim, disse-l’ eu
- (Rosa, vem aqui abrir o bilhar, ’tá?)
- brisas-do-Lis, noventa cada uma, cinco e vinte-cinco a meia-dúzia
- estamos aqui a incomodar quem trabalha
- o problema era a válvula de distribuição
- como é que vai ser em Norwich, não sei
- agora puseram tudo junto
- sai sempre qualquer coisa obrigatória
- dois euros e setenta centavos, não, cêntimos
- repara nesta que ainda não leste, em baixo
- (aquele gajo ali está a escrever o quê, carago?)

(Em surdina-tinta, respondo que escrevo porque não posso deixar de fazê-lo, o quê, carago, não sei.)

A brisa ribeirinha etc.

LIGAÇÃO À MEDUSA - 29 (primeiros fragmentos)




29. DOS JORNAIS DA MANHÃ DE OUTUBRO

Leiria, sábado, 1 de Outubro de 2011

Outubro começa.

*

Nas cercanias do Mar, a luz poalha-se farinha glauca quase.

*

Nas páginas antepenúltimas do jornal, torsos de carne entrapados de cor-de-rosa: cabedais de raparigas que querem ser celebridades sem esforço mas com mamas-botox.
*

A solidão matinal é uma coisa boa,
em Viana do Castelo como em Lisboa.

*

Dos jornais da manhã:

Um fogo, cujo corpo foi encontrado,
anunciou ontem ter chegado.
As autoridades descartam a companhia de uma mulher
à frente de dois filhos menores em Alenquer.

Tendo a mulher sido atingida,
num prazo não superior ao risco de vida,
o valor em causa avança a medida
autora e brasileira de avenida.

Dois homens constituídos tinham (ao que isto chegou)
32 e 37 anos de haxixe e colisão frontal.
“Não tenho qualquer interesse”, provocou
a fragata D. Francisco de Almeida local.

Respeito e dignidade e José Maria:
Castelo Branco esteve na origem de gente
da investigação da indignação e da orgia
que visam a vontade louca, precisamente.

Peças de prata, Alice, lançaram casal
anteontem à noite, na Guarda, à resistência.
Só tinha, até aqui, o terror de Setúbal
e um Opel Corsa encapuzado comercial.

Sem nada no interior por tentar,
tentou atear criança à companheira.
O furto de 19 ovelhas foi brincadeira,
que Regina não consegue identificar.

Dois objectos de ouro abriram um buraco
em Santa Leiria da Catarina, Alijó.
Acabaram  por fugir sem mais tabaco
ao fisco e à própria mãe, que vive só.

Criança nonagenária abriu inscrições
estando a Europa já toda a arder.
Sem meias medidas e até sem calções,
ela tinha o resto, pois tinha de ter.

O furto é fruto da arma de caça.
Queimado num pé, atirou-se ao chão.
Extinto o mato (zona de Alcobaça),
desfez-se em cobre na ocasião.

Rogatória, incerta, antiga, imputável,
Olímpia não vive só por esticão.
O filho é gravíssimo mas localizável.
Já o resto do gang, só por coacção.

O crime ocorreu a prova de 100 metros
em Jerusalém à porta de casa.
Acordo ortográfica gera dialectos
às línguas de Braga e da Faixa de Gaza.

A agência de Arcos foi morta a tiro
por certo fiscal de inocência provada.
Indícios propícios vão invadir o
Duarte Lima de uma assentada.

Pescado ilegal, por ser imaturo,
e Passos Coelho (mas por acidente)
garantem às vítimas passaporte futuro
tresloucado, emocionado, jantado e diferente.

“Andava um pouco estranho”, citando a NASA,
que é a NATO do espaço inato ao almoço.
A epilepsia da bruxa não casa
nem com Odemira nem com aquele moço.

Firmino não foi ferimento grave.
Transportes urbanos não são solução.
Momentos pânicos embatem na trave
por culpa solteira do Hospital de S. João.

Santarém nas Caldas, culpas no cartório
e sais minerais “do pé para a mão”
revelam quem foi, nítido e notório,
o autor galês da violação.

O caso arrasta-se no ramo vidreiro
desde que a empresa roubou Azevedo.
Em linha-agonia, de dia, o pedreiro
culmina em alarme e cheio de medo.

Cortada durante várias madrugadas,
a Banda da Força Aérea ficou sujeita.
Hoje, realiza duas caminhadas:
uma a Belém e outra à Benfeita.

Referenciou a PSP de Almada
material explosivo (bairro social).
Foi rezada missa por alma da
Via de Cintura Interna da Instrução Criminal.

Bastão de açúcar e arma extensível
estão obrigados ao inchar do IVA.
António refere “situação explosiva”,
mas a neta, enfim, “era compreensível”.

Cais não Cascais, quer não Alenquer,
dádiva de sangue de Simone de Oliveira:
cabe a Paulo Bento escolher,
de meados de Junho até quarta-feira.

“Isto é uma farsa”, diz o Presidente
da Musical da Atalaia, por cavalaria.
Cavaco, nas Canárias, lançou a semente
que nasceu às 13 em grande euforia.

Candeias avessas de fim de Verão
são úteis ou fúteis, dona TVI?
Nos Estados Unidos e no Afeganistão
nem vão para lá nem saem dali.

Justiça penal, um debate crucial
entre os faróis da Guia, Espichel e Sardão.
Riscos de insolvência para a Associação
tão linda e tão bela das Farmácias de Portugal.

“Hoje está em crise, mas era rentável”
uma funcionária violenta em Loulé.
Detida e levada, dada por inimputável,
comparece às cinco no Cais do Sodré.

Terrorista de Benfica, fã do clube islâmico
da águia encarnada ao peito suspensa,
foi presente do Irão ao solo vulcânico
que rege da Luz a fé mais imensa.

Mínimas e máximas (valores continentais):
Bragança, 11-28 (isto, se não for mais).
Beja, 17-32, Vila Real, 15-29.
Buraco na Madeira e nos Açores chove. 

LIGAÇÃO À MEDUSA - 28 (integral)


© DA, Leiria, 5 de Abril de 2012





28. MAIS OBSCURO (CÓDIGO), MAIS CLARO (CÓDIGO)

Leiria, segunda-feira, 26 de Setembro de 2011


Ambiciono a nitidez mas codifico.
A vida, a vida é o que é, fico-não-fico.    
Assim:

Uma vereda de álamos prepara a subida.
A pessoa por ali se adentra, depois sobe.
Ratos da mourama e roedores cristãos por
aqui se empataram sangues à espadeirada
a mais religiosa.
À dextra periférica, o chão da feira popular.
À sinistra, o lote de asfalto das rodoviárias.

Ambiciono a subida mas arborifico.
A lida, a lida pé-ante-pé, vivifico.
A mim:

Em os palheiros de beira-mar, barcos de papel.
Ermidas oraculares oratoriam solidões de cal.
Muitos nasceram já que a vida não guardou.
Muitos morreram, já que a morte não poupou.                      
Claramente, os setembros como fósforos ardendo.

Ambiciono o mar mas arenizo.
A vida, a vida imprecisa o que é preciso.
Jasmim:

Raparigas com garrafas-termos de chá fresco,
crianças-bibes como borboletas litográficas,
o meu amor por estas coisas almanáquicas,
a rima, a prima, os óculos níveos de pó,
a mercearia, o dia, o fausto, um jardim
também fresco.

Mais obscuro, mais claro.
(E homens de despovoadas gengivas
pensando ’inda em touradas e raparigas.)

*

(Elementos para esta noite:)
Uma rapariga como um talo branco, esta noite.
A rede nervosa das circunvalações viárias, palpitantes.
As roupas das pessoas sendo-as em economia.
Casas mortas onde ora-mortos foram vivos e viveram.
Sono das esquadrilhas: dormem em recato os patos fluviais.
Duas mulheres maduras em pedestragem aeróbica, esta noite.
Evângelo, o Acrobata, em onanismo de vão de porta.
A borboleta do jornal secando no alfinete do olho leitor
(o juiz reformado ante o Diário de Notícias).
O fim do fim valorando o reinício, esta noite.
Acção animal em (a) beleza: açúcar e corrida.
E ser um corpo atenção adentro.
(Estes elementos ante-amanhã.)

*

Quero uma pedra a que possa chamar casa querida.
O desejo da palavra move-me: telefono; se puder, ouço.
Querida é desejada; alvor & limiar, essência & pertença.
Não se quer, porém, antes dela, a vida.
Porém, uma vez tida, quer-se à vida:
à Pedra.

*

Tantos milhões de anónimas ex-vidas recobertos
de mármores onomásticos sobre o peito, tantos.
Enquanto posso, nisso penso.
E enquanto penso, posso – e nada mais peço.

*

Um banho de prata lunar melhora as silhuetas.
Torna-as mais graves na solidão das cidades.         
Pessoas secretas são felizes: lêem mas não escrevem.
Como animais filigranáticos, gramáticos, argênteos:
essas pessoas do luar, mesmo ao pleno sol.

*

As grávidas, como pêssegos, engendrando mais &
mais caroços vivos, duros, futuros:
para isto.

*

A insuficiência moral dos animais humanos
nas freguesias requentadas a ígneo pinho:
mas também a beleza dos animais humanos
na romaria lanígera ao senhor-da-sé-à-
-senhora-dos-aflitos-pràs-mulheres-gasosas-
-pirolitos-pròs-humanos-copitos: mas também o fogo
muito vivo da pertença aos elementos e às
metástases e às sínteses e ao torrão-de-Alicante.

13/04/2012

LIGAÇÃO À MEDUSA - 27 (integral)



27. É QUE EM COPENHAGA NÃO MORRO

Leiria, quinta-feira, 22 de Setembro de 2011

Crio palavras como outros criam plantas, ou galinhas, ou filhos.
Instigo-me frases: como outros, planos de poupança-reforma, ou pescarias, ou urbanizações-gaiolas.
Hoje, por exemplo, não estou em Copenhaga mas em Leiria – e no entanto, querida, é por outra Copenhaga que ambulo desde criança, quando à ideia de quinta campestre se acrescia a potência do Estio (açucenas, cegarregas, libações de açúcar, abluções de água no milho, ínsuas de tangerineiras adoçando, quase ao trâmite da insuportabilidade, a infância mesma e dinamarquesa).
É que em Copenhaga não morro.
Oleiro trabalhando o barro do coração numa choupana de três por três metros e meio: em plena floresta, vivendo da água que corre e do fruto descendo da árvore que o subiu.
Nunca me foi possível nada que não fosse esta Dinamarca chamada Portugal.
Eu não podia ir pelo esterco estético da telenovela brasileira, eu não podia anuir à violência da mediocridade humana, eu não podia senão aquiescer à rotina supervivente (e subveniente) do instinto animal: de modo que cheguei à poesia como a final reduto do ter vivido no futuro.
Crio, portanto, e daí, palavras:
ergopessoa
nefelibatente
cromonização
lápispele
papele
sed’urdume
reensejorna
júpiternidade
eternitarde
entardenoitecer (amanhã)
filipêndio
restituísmo
comungraça
Leirinhaga
Portudinagalmarca.

*

Um rapaz de olhos azuis que fulguram no ar do salão. A cabeça bóia no charco grená da camisola com as efígies dos Beatles. Calça sapatilhas pobres. Refere como “ordinária” uma malta ausente qualquer, que naturalmente desconheço. 

12/04/2012

Rosário Breve nº 254 - in O Ribatejo - www.oribatejo.pt - 12 de Abril de 2012



Três historietas sem moral especial

1. AS PASTELARIAS ESPACIAIS

As pastelarias da modernidade são máquinas espaciais.
Não se deve mexer nos comandos nem na tripulação – a caixa registadora, as empregadas.
Cada viajante deve embarcar sozinho e assim se manter todo o inverno da viagem.
O televisor assegura a anestesia da memória.
As manhãs do televisor são para as velhinhas.
O casal de apresentadoras, composto de uma mulher amarela e de um mulheromem, parece um par de catarinetas fermentadas.
As refeições servidas a bordo separam os blocos de sono.
As tardes têm cantores de pleibéque inodoro.
As noites dão crimes solúveis como café sintético.
Há bolos.

2. As Grandes Condições

A gente queixa-se do calor, mas bastam dois dias outoniços para que os subestados de alma aflorem à tona triste. Mal mimados pelo tempo, acondicionados pela meteorologia, vivemos pelo Boletim das dez horas. Os pessegueiros inflamados de sumo vivem de outra maneira, já que não dependem de um substrato lírico. As grandes condições (o rolo dos céus, o chumbo, a água pesada, a convalescença do sol, os eclipses invisíveis, os solstícios de ocasião, entre outras) gerem o pequeno homem e a mínima mulher.
O cão e o gato prosseguem, aparentemente incólumes.

3. Alguma Felicidade

O rapaz estava sentado ao balcão, luzes azuis radiografavam a natureza de couro dos sapatos, a ganga das pernas com suas tíbias. Alimentava-se do próprio entardecer, à hora a que os merceeiros despacham a frescura derradeira das últimas tangerinas. Era o entardecer, mas não, Deus, de domingo. O rapaz ouvia o grilo da caixa registadora, os pipis dos pequenos consumos das gentes que vêm entardecer ao bar.
Era a alguma felicidade do rapaz, a músic’ambiente inglesa, o azul nos joelhos portugueses sobre que, outrora, outras horas e outras mãos poisado haviam. O rapaz na luta pela vida, a que se garante de pronto ao primeiro berro obstetrício. Era o rapaz na função maravilhosa da felicidade.
Muito existia tudo em torno, dentro. Colecções de romances policiais, cadáveres ricos agora pobres de tão mortos em chãos de bibliotecas fornidas de clássicos ingleses e bandejas argênteas de whisky, soda e água cevada.
Muita televisão.
Pouca vida.
Tanta felicidade.

11/04/2012

LIGAÇÃO À MEDUSA - 26


© DA, entre Leiria e o Louriçal, 6 de Abril de 2012




26. PEREGRINAÇÃO VOLÁTIL

Leiria, quarta-feira, 21 de Setembro de 2011



Manhã cedo, lavei-me bem e devagar, tomei um caldo e vim para a rua conquistar o mundo.
Não está o calorão de ontem, felizmente. As asas das pombas, revoando, refrescam a luz. Longe, em Chaves, explodiram a gás uma caixa de multibanco. A minha ourivesaria (o Dia) está porém a salvo. Entre mim e as coisas há uma espécie de peregrinação volátil. Digo-o assim porque não posso (ou antes: não quero, prefiro não) dizê-lo de outra maneira.
Aquele homem de carão vermelho tem sono. Rotundo, digestivo: parece um padre-cura dos antigos – ou um réptil saciado.
Tempestades e copos de água: o País vive a crise financeira da selvajaria hipercapitalista. Aldeias e casais mínimos estão sonolentos como aquele homem de há pouco. A paramiloidose vai estrangulando cidadãos em silêncio. Além, um polícia multa naves estacionadas para além da hora marcada no talão.
Deixo que a mente me desfi(l)e imagens de um fascínio tranquilo: uma quinta às portas ígneas do Outono, por ela o ciciar (cegarregas, açucenas)  da acalmação, o panasco fulvo, o funcho e o espargo, a quietação refrigéria da almácega, o ar pensativo e pernalta do catavento, a cal da capela nas faces da casa do caseiro.
O eu-corpo: vivo-me nele, concedo-lhe-me domínios na especulação, na geografia, na política, na criminologia (de que a poesia é exemplo, por exemplo), na praia mineral do olhar peregrinando volatilmente pelas coisas. Consulto as pombas e os pardais em confirmação da naturalidade da minha natureza. Vicissitude de vicissitudes (como toda a gente), sou o extracto dos humores de um homem combinados com os de uma mulher. Que ambos estejam mortos – não extenua a minha vitalidade, antes a tonifica, sublinha, dirige, manda voar.
Pastamos feijão, batata, peixe, grão, farinha, vinho, gorduras fumadas ao relento do lar. Redigimos poemas que raspam o céu da noite, lá onde as gambiarras estelares infinitesimam a duração da mensagem que cada um(a) de nós é: mesmo que para ninguém.
O noticiário fala de um cidadão que morreu, não sei onde. Uma gorda do séquito presidencial de uma qualquer república bananeira ladra boas-intenções num cenáculo parecido com a uva-mijona. Os direitos zumanos à ó-nu etc. Merda p’ra ela.
No bornal, palavras e imagens que, antecedendo-me embora, me resultam contemporâneas: Moscovici, Caeiro, Vergílio, Beleval, Vincent Thomas, Camus et alii. Confortam-me ao tempo mesmo que me inquietam: amarguram-me, pois, como me adoçam.
Exactamente (reflicto): o Nada não é a ausência do(s) objecto(s) mas a do sujeito.
(Re)tornar-me-ei nada, bem sei. Mas – enquanto não, refrescar-me-ei de luz melhorada pelas asas que, das aves, confirmam o firmamento e o infinito para lá do apenas-orgânico.
Meia-tarde: 15h27m.

*

(Este é o meu a que pertenço Tempo.)
Um tempo de caixeiros subassalariados e de rios putrefactos.
Um tempo de anémonas e de ar-de-raparigas.
Um tempo de obesos herdeiros e de casais desavindos.
Um tempo de pessegueiros florido açúcar e de arenques.
Um tempo de gestão danosa e de prostituição da rosa.
Um tempo de professorinhas e de andorinhas.
Um tempo de lingotes e de quilates.
Um tempo de mesmo-que-não-me-vivas-e-me-mates.
Um tempo de putas telefónicas e de escutas idem.
Um tempo de homens e de mulheres.
Um tempo de crianças violadas e de destilarias da gramática.
Um tempo de matrimónios rápidos como cometas e de cometas.
Um tempo de ovelhas e de carneiros que não sabem ler ovelhas.
Um tempo de flausinas e de badamecos.
Um tempo de crúzios e de búzios.
(Mas meu e de quem sou, a tempo.)

Canzoada Assaltante